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TUKARAM MUNDHE MUDA PELA VIGÉSIMA QUINTA VEZ

22 de set.
4 min de leitura

Em Bombaim há um tribunal que durante anos manteve, dentro do próprio edifício, um refeitório que servia chá sem licença sanitária válida. A situação só foi conhecida quando o Tribunal Superior de Bombaim perguntou ao governo do Maharashtra se a campanha de higiene alimentar em curso também abrangia os organismos públicos. O governo respondeu que sim. Os inspetores entraram no edifício e confirmaram que o refeitório não tinha a licença exigida aos estabelecimentos que servem alimentos.


TUKARAM MUNDHE; chamam-lhe Singham, o polícia incorruptível do cinema indiano.


Capa vertical em arte indiana original com título dourado “TUKARAM MUNDHE MUDA PELA VIGÉSIMA QUINTA VEZ” e subtítulo “Atlantic Lisbon”, sobre fundo ornamental de mandalas, arcos e elementos clássicos indianos.
Mundhe é hoje um dos funcionários mais comentados do estado mais rico da Índia. Chamam-lhe Singham, nome do polícia incorruptível do cinema popular indiano que enfrenta criminosos e políticos sem recuar.

Tukaram Mundhe dirige a agência que decide se um restaurante, uma leitaria ou uma doçaria pode continuar de portas abertas. Desde que assumiu o cargo, em maio, encerrou ou multou estabelecimentos por toda a Bombaim. Há poucos dias, a fiscalização chegou ao Cafe Mondegar, um dos bares mais fotografados da cidade.


Mundhe é hoje um dos funcionários mais comentados do estado mais rico da Índia. Chamam-lhe Singham, nome do polícia incorruptível do cinema popular indiano que enfrenta criminosos e políticos sem recuar. A alcunha acompanha-o há anos. Mundhe, ao contrário da personagem, raramente permanece tempo suficiente num lugar para ver como termina o confronto.


Em vinte e um anos ao serviço do Indian Administrative Service, o corpo de funcionários de topo que a Índia recruta por concurso nacional e distribui pelos estados para gerir a administração sob governos eleitos, mudou de posto tantas vezes que nem os jornais coincidem na contagem. Eram vinte e três transferências no final do ano passado, vinte e quatro em março e vinte e cinco em agosto.


Cresceu em Tadsonna, uma aldeia do distrito de Beed, filho de agricultores. Frequentou uma escola pública rural e poderia ter continuado a trabalhar nas terras da família. Um irmão mais velho convenceu-o a prestar concurso para a função pública. O percurso demorou oito anos e incluiu três tentativas falhadas. Passou primeiro no exame estadual, em 2001. Em 2005, entrou no serviço administrativo nacional com uma classificação entre os vinte melhores candidatos do país.


No primeiro posto, como adjunto do administrador em Solapur, mandou fechar um bar ilegal com ligações políticas conhecidas. Tinha chegado havia poucos dias.


Regressou mais tarde a Solapur como administrador distrital. Confrontou os grupos que retiravam ilegalmente areia dos leitos dos rios e promoveu sistemas de abastecimento que permitiram a centenas de aldeias deixar de depender de cisternas numa região atingida por secas recorrentes. Devendra Fadnavis, então chefe do governo estadual, entregou-lhe o prémio de melhor administrador distrital do ano.


Em Navi Mumbai, já como comissário municipal, selou postos de gasolina sem licença e travou construções clandestinas. Todas as manhãs saía para as ruas numa iniciativa chamada «Caminhar com o Comissário», durante a qual qualquer cidadão podia abordá-lo diretamente. Os vereadores, de quase todos os partidos, aprovaram uma moção de censura contra ele. Fadnavis suspendeu-a.


À frente da empresa municipal de transportes de Pune, Mundhe despediu 158 motoristas contratados por faltas reiteradas e aumentou o preço dos passes para idosos. A medida era impopular, reconheceu, mas as contas da empresa não permitiam manter o preço anterior. Em Nashik, impôs a separação do lixo na origem e ordenou a demolição de construções ilegais. Quando foi transferido, um grupo de cidadãos chamado Amhi Nashikkar, «Nós, os de Nashik», saiu à rua em protesto.


Em 2020, o governo de coligação que acabara de retirar o poder ao BJP nomeou-o comissário municipal de Nagpur, reduto do partido e de alguns dos seus dirigentes mais influentes. Mundhe hesitou antes de aceitar. Receava que a nomeação fosse interpretada como uma manobra contra o BJP.


Entrou em conflito com vereadores de vários partidos. Acusaram-no de conduzir a resposta à pandemia de forma «ditatorial». Mundhe respondeu com os indicadores de saúde da cidade, melhores do que a média nacional. Assumiu também funções na empresa responsável pelo programa de «cidade inteligente», decisão que a oposição considerou uma usurpação de competências.


Nitin Gadkari, ministro do governo central e natural de Nagpur, apresentou uma queixa contra Mundhe ao gabinete do primeiro-ministro indiano e ao Ministério do Desenvolvimento Urbano. Os inquéritos não sustentaram as acusações. Ainda assim, Mundhe foi transferido.


Numa dessas mudanças, perguntaram-lhe o que sentia ao ter de começar novamente do zero. «De vez em quando, uma criança tem de ser matriculada numa escola nova», respondeu. Anos mais tarde, ao partir para outro cargo, escreveu que preferia os sonhos do futuro à história do passado.


Mesmo entre os políticos que pedem a sua saída, as acusações raramente põem em causa a honestidade de Mundhe. Os conflitos surgem por causa de decisões concretas: uma licença recusada, uma obra demolida, trabalhadores despedidos, um aumento de preços ou competências administrativas retiradas a outro organismo. Seguem-se protestos, moções, queixas e inquéritos. O mesmo dirigente político pode apoiá-lo num cargo e encontrar-se no campo oposto no seguinte.


Mundhe continua a ser nomeado para lugares onde o governo quer resultados. Aplica as regras, altera procedimentos e atinge interesses com capacidade para reagir. Por vezes, os inquéritos dão-lhe razão. Isso não impede necessariamente a transferência.


Em Bombaim, a fiscalização que dirige chegou ao refeitório do Tribunal Superior. O espaço teve de pedir a licença sanitária que não possuía.


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