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  • Portugal reconhece o Estado da Palestina — coragem, consequências e a medida da nossa decência

    Portugal reconhece o Estado da Palestina — coragem, consequências e a medida da nossa decência. Londres/Nova Iorque/Lisboa, 21 de setembro de 2025. Não foi apenas um gesto protocolar: Portugal reconheceu oficialmente o Estado da Palestina. O anúncio, feito por Paulo Rangel, na Missão Permanente junto das Nações Unidas, colocou-nos, finalmente, do lado da coerência — a mesma que juramos sempre que falamos de direitos humanos, direito internacional e solução de dois Estados. Um país que pronuncia “paz” sem sussurros Há momentos em que a política externa revela a espinha dorsal de um país. Hoje foi um desses momentos. Portugal deu nome a uma evidência moral e jurídica: não haverá paz duradoura se não houver dois Estados, vivos, viáveis, reconhecidos. Ao fazê-lo em coordenação com aliados que até ontem hesitavam — Reino Unido, Canadá e Austrália — o Governo português evitou a solidão diplomática e reforçou o efeito de alavanca desta decisão. Não romantizemos: reconhecer não é resolver. Mas é romper com a indecisão, com o cálculo que eterniza tragédias e com a confortável neutralidade que, tantas vezes, funciona como cumplicidade. A gramática da coerência Reconhecer é também prometer coerência. O ministro sublinhou o óbvio: condenação do Hamas, libertação de todos os reféns, rejeição da sua tutela sobre Gaza, defesa da cessação imediata das hostilidades e denúncia do horror humanitário. Reafirmou, ainda, o caráter ilegal da expansão de colonatos na Cisjordânia — a ferida que rasga qualquer mapa de paz. Esta linguagem conta. E compromete. Quando governos amigos avançam no mesmo sentido — e quando o Reino Unido altera décadas de prática —, percebe-se que não se trata de capricho. Trata-se de uma viragem de paradigma face à continuação da guerra em Gaza e à política de colonatos, inclusive na área sensível do corredor E1, que ameaça transformar o “Estado palestiniano” numa palavra sem território. Memória portuguesa: de Timor à Palestina Portugal tem memória longa. A nossa Constituição inscreveu, depois de 1974, uma ideia clara de paz e autodeterminação. Foi com essa bússola que insistimos por Timor-Leste quando poucos queriam ouvir. Não fomos perfeitos, mas fomos persistentes. Essa persistência é agora exigida para que o reconhecimento não fique em moldura: tem de se traduzir em política pública, diplomacia ativa e ajuda concreta. O ónus de quem reconhece: 10 tarefas para já Diplomacia consequente na UE e na ONU. Portugal deve trabalhar com Madrid, Dublin e Oslo, que, em 2024, já tinham normalizado este passo, para um bloco europeu coerente sobre cessar-fogo, fronteiras, colonatos e garantias de segurança. Apoio humanitário vinculante. Reforçar contribuições a agências reconhecidas e organizações com provas dadas no terreno, com mecanismos de auditoria públicos. Programa de vistos humanitários e bolsas. Crianças e estudantes palestinianos precisam de corredores seguros para tratamento clínico e continuidade académica; é possível fazê-lo sem improvisos, com metas verificáveis. Revisão de licenças de exportação de material de defesa. Congelar tudo o que possa, direta ou indiretamente, alimentar violações de direito internacional humanitário — por qualquer das partes. Sanções direcionadas a quem promove colonatos ilegais. Medidas pontuais, graduais, com avaliação técnica e coordenação europeia, centradas em atores e entidades que lucram com a ilegalidade. Apoio a reformas na Autoridade Palestiniana. Sem instituições que funcionem, a palavra “Estado” perde substância. Reformar, profissionalizar e responsabilizar é condição, não adereço. Defesa do direito internacional. Apoiar ativamente os tribunais internacionais quando investigam crimes graves, sem exceções de conveniência. Canais de diálogo com Israel. Segurança de Israel e dignidade palestiniana não são termos contraditórios; são condições mútuas. Reconhecer a Palestina não é negar Israel. Missão técnica portuguesa para reconstrução essencial. Água, energia, escolas e hospitais: onde a nossa engenharia, saúde e ensino superior podem acrescentar valor com parceiros locais. Diplomacia cultural e académica. Redes entre universidades portuguesas e palestinianas, residências artísticas e projetos de língua portuguesa podem abrir janelas onde as paredes parecem definitivas. As crianças no centro Quem são os sujeitos do reconhecimento? Não apenas líderes e chancelarias — são sobretudo as crianças que aprenderam a desenhar sob bombardeamentos e as que vivem com medo de sirenes; as de Gaza e as do sul de Israel; as que perderam a casa, a escola, os amigos. A política externa que ignora esta realidade transforma-se em geometria sem vida. O reconhecimento, por si só, não lhes devolve o tempo roubado; mas pode encurtar a distância entre o que dizemos e o que fazemos por elas. (As decisões de hoje foram justificadas, entre outros motivos, pelo agravamento humanitário e pela estagnação do processo de paz). Riscos reais, mas proporcionais Haverá reações duras — diplomáticas, comerciais, retóricas. Israel já tem contestado movimentos análogos feitos por outros países europeus; governos que hoje avançam — Reino Unido, Canadá, Austrália — assumem esse custo em nome de uma ideia simples: quando o processo de paz se esgota, é preciso reabrir o mapa com decisões políticas. Portugal não está sozinho nessa leitura. Mas os riscos não diminuem a legitimidade do passo. Pelo contrário: testam-no. A política é feita de escolhas visíveis. Este é um desses dias em que um país se vê ao espelho. O que muda, afinal? Muda a posição de partida quando Portugal falar de Gaza, de colonatos, de justiça e de segurança. Muda o peso da nossa voz quando apelarmos a cessar-fogo, à libertação de reféns, ao fim dos lançamentos de rockets, ao fim das incursões que devastam comunidades inteiras. Muda a expectativa sobre nós próprios: quem reconhece não pode pactuar com ambiguidades. Muda também a arquitetura internacional. O gesto de hoje segue uma linha crescente, iniciada por países europeus em 2024 — Espanha, Irlanda e Noruega — e reforçada agora por aliados centrais. Não é um fim; é a reabertura das possibilidades. Um país é o que faz com o que diz Reconhecer a Palestina não é um troféu moral. É um contrato. Exige transparência, escrutínio, relatórios públicos de execução das promessas que hoje se enunciaram. Exige que a oposição parlamentar critique com seriedade, que a sociedade civil exija resultados, que a comunicação social acompanhe com rigor — sem cinismo, sem propaganda. E exige, sobretudo, proximidade humana. Quem esteve em campos de refugiados sabe que a palavra “Estado” vale tanto quanto a próxima refeição, a próxima aula, a próxima consulta. A política externa começa, muitas vezes, no gesto concreto de garantir que um laboratório funciona, que uma escola reabre, que um trauma é tratado com dignidade. Final: um dia para estar à altura Hoje Portugal pronunciou “Palestina” com a boca inteira. Agora precisa de conjugar o verbo: amparar, reconstruir, negociar, insistir, proteger. Não se trata de escolher um lado da história; trata-se de escolher o lado do futuro. Um futuro onde duas bandeiras cabem no mesmo horizonte e onde uma criança pode aprender a escrever o seu nome sem medo. Se esse futuro é possível? Não sei. Sei apenas que os países que o tornam menos impossível são os que dizem e, depois, fazem. Um gesto histórico que só fará sentido se for seguido de política, ajuda e coerência #Portugal #Palestina #DoisEstados #DireitosHumanos #Diplomacia #Paz

  • O Cansaço da Autoridade

    ANÁLISE · Mundo · Estados Unidos · Poder Executivo O número surge num ecrã de telemóvel, entre notificações que já não surpreendem. Trinta e sete. Não é um valor isolado, nem um choque súbito. É um degrau a menos numa escada que desce devagar. A aprovação presidencial de Donald Trump, medida por uma sondagem nacional divulgada esta semana, voltou a recuar. A política como máscara - Donald Trump é retratado num ambiente formal, com uma máscara vermelha onde se lê “Make America Great Again”, num enquadramento que sobrepõe identidade política, comunicação mediática e poder institucional. O gesto que se segue — deslizar o dedo e fechar a aplicação — diz tanto como o número: a erosão deixou de ser notícia e passou a ser ambiente. O que está em causa não é apenas a popularidade de Donald Trump. É a forma como a autoridade executiva se comporta quando entra numa fase de desgaste contínuo, sem colapso visível, mas também sem capacidade clara de recomposição. A sondagem do Pew Research Center não inaugura uma crise; descreve um estado. Durante meses, a presidência americana tem funcionado num registo de atrito permanente. Não há um acontecimento único que explique o recuo. Há uma sucessão de decisões, confrontos institucionais, disputas simbólicas e episódios de força que, acumulados, produzem fadiga política. O sistema não falha; cansa. A aprovação como termómetro tardio As sondagens presidenciais raramente captam o momento exato em que algo muda. Funcionam como instrumentos de confirmação. Quando os números se movem, o movimento já aconteceu algures antes — nas conversas privadas, nas escolhas eleitorais intermédias, no silêncio de quem deixou de defender. O recuo agora registado não altera a base do poder presidencial: o apoio partidário mantém-se maioritário entre republicanos. Mas revela uma fragilidade noutro ponto: a dificuldade em reter confiança fora do núcleo fiel. É nesse espaço intermédio — independentes, eleitores voláteis, apoiantes condicionais — que a autoridade executiva se mede quando deixa de crescer e passa a resistir. O dado relevante não é apenas a percentagem de aprovação. É o conjunto de indicadores que a rodeiam: expectativas defraudadas, confiança em queda, reservas quanto à capacidade de liderança, dúvidas sobre critérios éticos. Nenhum destes elementos, isoladamente, é decisivo. Juntos, formam um padrão. Governação em modo defensivo Quando um executivo entra numa fase de desgaste, tende a ajustar o seu comportamento. O discurso torna-se mais rígido. A margem para compromisso encolhe. As decisões passam a ser tomadas com um olho no efeito imediato e outro na reação da base. Este padrão não é exclusivo desta presidência. Mas aqui assume contornos particulares por duas razões: a centralidade do confronto como método político e a personalização extrema da autoridade. Num sistema assim, cada recuo nos índices de confiança é lido como ataque, não como aviso. O resultado é uma governação em modo defensivo. Não necessariamente mais cautelosa, mas mais reativa. As políticas avançam menos por consenso e mais por insistência. O custo político de cada decisão sobe, mas o incentivo à correção diminui. A imigração como eixo de fricção Entre os vários temas que atravessam este momento, a imigração ocupa um lugar especial. Não apenas pelo impacto material das medidas adotadas, mas pelo seu valor simbólico. É um domínio onde a administração investiu capital político significativo e onde a resposta pública se tornou mais polarizada. A contestação recente às práticas de aplicação da lei migratória não alterou a linha geral do executivo, mas ampliou a perceção de um governo disposto a suportar conflito prolongado. Episódios envolvendo o uso da força por agentes federais funcionam aqui como catalisadores: não criam a tensão, mas tornam-na visível. A sondagem foi realizada enquanto esse ambiente se adensava. Não é possível afirmar uma relação causal direta. Mas é possível observar uma coincidência temporal entre a intensificação do debate e a quebra adicional de confiança em dimensões como ética e liderança. O Congresso como espelho O desgaste presidencial não se mede apenas nas sondagens. Mede-se também na relação com o Congresso. Quando a confiança no executivo diminui, o espaço para negociação estreita-se. As votações tornam-se testes de força. O risco de bloqueio institucional cresce. A dificuldade em assegurar consensos mínimos em matérias orçamentais e de financiamento de agências federais não resulta apenas de divergências ideológicas. Resulta de um ambiente em que ceder é visto como fraqueza e resistir como obrigação identitária. Este contexto empurra os partidos para posições mais rígidas. Do lado democrata, cresce a pressão para confronto aberto. Do lado republicano, aumenta a dependência da figura presidencial como garante de coesão. O sistema fecha-se sobre si próprio. Confiança: o recurso invisível Governar exige mais do que autoridade formal. Exige confiança difusa — a perceção de que o líder sabe o que faz, escolhe bem quem o rodeia e respeita regras básicas do jogo democrático. Quando essa confiança se desgasta, o poder não desaparece; torna-se mais caro de exercer. Os indicadores de confiança medidos pelo Pew mostram uma erosão transversal. Não se trata apenas de discordância política, mas de reservas quanto à competência, à ética e à capacidade de julgamento. Estes são sinais difíceis de inverter com uma vitória legislativa ou uma decisão executiva. A confiança, uma vez perdida, raramente regressa por imposição. Requer tempo, previsibilidade e, muitas vezes, mudança de tom. Nenhuma destas variáveis parece dominante neste momento. Um sistema que aguenta — por agora Nada no retrato atual sugere um colapso iminente. A presidência mantém instrumentos de poder intactos. A base partidária continua mobilizada. As instituições funcionam. Mas o sistema opera com menor folga. A política americana tem experiência em absorver tensões prolongadas. O risco não está numa rutura súbita, mas na normalização do conflito como estado permanente. Quando o desgaste deixa de ser exceção e passa a ser rotina, a capacidade de resposta estratégica diminui. O executivo continua a agir. Mas age num ambiente onde cada passo é contestado, cada erro amplificado e cada correção interpretada como recuo. O que ainda não se sabe Não é claro se este declínio representa uma tendência duradoura ou uma oscilação conjuntural. Não é claro se os independentes regressarão à neutralidade ou se o afastamento se consolidará. Não é claro se a base republicana permanecerá coesa perante novos choques políticos. O que é claro é que a presidência americana entrou numa fase em que os números deixaram de ser apenas retrato e passaram a ser condicionantes. A margem de manobra existe, mas é mais estreita. O custo de errar é mais elevado. A autoridade política raramente se perde de um dia para o outro. Desgasta-se. Primeiro nos índices. Depois no tom. Por fim, na capacidade de impor agenda sem recorrer ao confronto permanente. A sondagem desta semana não define o destino de uma presidência. Mas confirma algo mais discreto e mais relevante: o poder executivo nos Estados Unidos está a funcionar sob pressão contínua, com menos confiança disponível e mais resistência acumulada. E esse tipo de pressão, quando se prolonga, não derruba sistemas. Torna-os rígidos. Imagem: - Visuals Subscrever a Newsletter

  • O Silêncio da Primeira-Dama Americana

    Há filmes que procuram explicar. Este não é apresentado assim. O próprio texto que acompanha a estreia insiste: não se trata de um documentário, mas de uma “experiência criativa”. Ainda assim, a estrutura descrita — narração na primeira pessoa, bastidores reais, reuniões e decisões observáveis — aproxima-se claramente de um registo documental. O que muda não é a forma, mas a intenção. Desenho a lápis, de traço fino, inspirado numa imagem pública de uma estreia cinematográfica associada a uma produção sobre a vida da primeira-dama americana. A política do detalhe: Melania Trump entre imagem e poder. O filme acompanha vinte dias da vida de Melania Trump, entre a confirmação da vitória eleitoral e a tomada de posse presidencial. O recorte temporal é curto, fechado, quase clínico. Não há retrospectiva biográfica ampla nem projeção futura declarada. Há um intervalo. E é nesse intervalo que se constrói uma narrativa. A primeira-dama surge sobretudo em movimento: entre Mar-a-Lago e Nova Iorque, entre reuniões de segurança, provas de roupa, ensaios de discurso e encontros institucionais. Há uma sucessão de momentos que parecem organizados para mostrar método, controlo e atenção ao detalhe. A política aparece menos como decisão e mais como preparação. Um dos elementos mais insistentes do filme é a gestão da imagem. O vestuário não surge como adereço, mas como matéria central. O vestido-casaco azul-marinho, o chapéu que cobre parte do rosto, o vestido de baile desenhado por Hervé Pierre — tudo é apresentado como resultado de provas, ajustes, decisões conscientes. Melania afirma ter uma “visão criativa clara”. A frase não é decorativa: funciona como chave interpretativa do filme. A imagem da primeira-dama americana constrói-se aqui como um projeto. Não apenas estético, mas político no sentido simbólico do termo. A Presidência, recorde-se, não é exercida por Melania Trump. Mas o cargo que ocupa — o de primeira-dama — é historicamente um espaço de representação. O filme parece assumir isso sem ambiguidades: não reivindica poder formal, mas investe na autoridade do gesto. Há também momentos em que o quotidiano irrompe. Melania vê televisão, acompanha notícias na CNN, observa a entrada de autoridades antes da cerimónia. Corrige o marido num ensaio de discurso. Canta, de forma breve, Billie Jean, de Michael Jackson, no carro. Estes episódios não são descritos como confissões profundas, mas como fragmentos que humanizam a personagem sem a expor em excesso. Donald Trump surge relativamente tarde no filme e, quando surge, é sobretudo em contexto de bastidor: chamadas telefónicas, reuniões logísticas, comentários laterais. A relação entre ambos é apresentada como funcional e coordenada. Quando Trump pergunta “tens um bom vestido?”, a frase ganha peso não pelo tom, mas pelo contexto: naquele universo, o vestido é parte do dispositivo político. Outro eixo importante é o institucional. O filme inclui encontros com Brigitte Macron e com a rainha Rânia da Jordânia, bem como referências a projetos sociais associados a Melania Trump. Estes momentos reforçam a imagem de uma primeira-dama inserida numa rede internacional de representação feminina, onde a diplomacia passa também por afinidades simbólicas. Há ainda o luto. A morte da mãe de Melania, Amalija Knavs, atravessa o filme como nota de fundo. Descrevem-se cerimónias fúnebres, uma visita a uma basílica, a presença do pai. Aqui, a política cede lugar à vulnerabilidade pessoal, mas sem dramatização excessiva. O luto é integrado na narrativa como mais um elemento da transição. No plano industrial, os dados são claros: trata-se de uma produção dispendiosa, com orçamento elevado para o género, parceria com a Amazon MGM Studios e uma estratégia de lançamento que mistura exclusividade, controvérsia e resultados desiguais nas salas. Melania Trump surge como produtora executiva, sublinhando o grau de controlo sobre o projeto. O filme não parece interessado em convencer. Pelo contrário: assume que pode agradar ou não. Essa indiferença declarada ao consenso é, paradoxalmente, uma posição política. A obra apresenta-se como autoafirmação: “conquistámos o que queríamos alcançar”. O que este filme propõe, a partir do que é confirmável, não é uma redefinição formal do cargo de primeira-dama, mas uma ocupação consciente do seu espaço simbólico. Melania Trump não governa, mas organiza. Não decide políticas, mas cuida do enquadramento em que elas são apresentadas. No fim, o que fica não é uma tese explícita, mas um método: a política entendida como coreografia de detalhes, onde imagem, silêncio e controlo substituem discurso e confronto. Não se trata de explicar o poder, mas de o tornar habitável. E isso, por si só, é uma forma de poder. Subscrever a Newsletter

  • A Primeira-Dama Americana e a Encenação do Poder

    ANÁLISE · Estados Unidos · Poder Simbólico · Comunicação Política O carro avança devagar, vidros escuros, ruído de aeroporto ao fundo. Melania Trump olha para fora como quem ensaia uma distância: não do lugar, mas do momento. Não fala. Observa. A câmara insiste no perfil, na linha do maxilar, na contenção do gesto. É um plano simples, quase banal — e precisamente por isso eficaz. Figura feminina em pose contida, desenhada a lápis, evocando o papel simbólico da primeira-dama americana como presença estética e política sem poder formal. A política contemporânea aprendeu que o silêncio bem enquadrado vale mais do que um discurso mal escolhido. Durante décadas, a figura da primeira-dama oscilou entre dois papéis previsíveis: o ornamento e a consciência moral. O que agora se desenha é outra coisa. Não se trata de intervenção política direta, nem de ativismo discreto. Trata-se de gestão de símbolo. Melania Trump não ocupa o centro do poder; ocupa o enquadramento. E num sistema saturado de muitas comunicações, quem controla o enquadramento controla metade da narrativa. O filme que acompanha os dias que antecedem a tomada de posse não revela segredos de Estado nem expõe conflitos internos. Revela algo mais disfarçado: a transformação da intimidade em instrumento político. Cada prova de roupa, cada escolha de tecido, cada correção de lapela é apresentada como decisão criativa — mas também como gesto de autoridade. Não autoridade institucional, mas autoridade estética. E a estética, quando repetida e legitimada, converte-se em linguagem de poder. Há um momento particularmente revelador: a pergunta lançada quase de passagem — “tens um bom vestido?”. Não é trivial. Num sistema político cada vez mais performativo, o “bom vestido” não serve apenas para agradar; serve para estabilizar. O visual torna-se promessa de ordem, de controlo, de previsibilidade. Enquanto o discurso político fragmenta, o corpo bem composto oferece uma ilusão de coerência. O mesmo se passa com o consumo mediático. Melania vê televisão. Vê a CNN. O detalhe é pequeno, mas significativo. Não é a confirmação de pluralismo; é a prova de vigilância. O poder observa-se a si próprio através do ecrã. Não para dialogar, mas para medir impacto. A política deixa de ser apenas ação; passa a ser monitorização permanente da reação. Este modelo não é novo, mas aqui ganha intensidade. A primeira-dama surge como figura de transição entre o privado e o institucional, entre o lar e o Estado. A câmara acompanha-a de costas, como se o espectador fosse membro do staff. É um truque clássico: quem vê sente que pertence. E a sensação de pertença é um dos recursos mais eficazes do poder contemporâneo. Ao contrário do que a narrativa promocional sugere, não há reinvenção do cargo. Há reconfiguração do papel simbólico. A Presidência continua a falar alto; a primeira-dama fala baixo. Mas esse tom baixo não é ausência — é estratégia. Enquanto o confronto domina o espaço público, a contenção transforma-se em valor diferencial. O risco desta construção não está no que mostra, mas no que normaliza. Quando o poder passa a ser apresentado sobretudo como estilo, a crítica tende a deslocar-se do conteúdo para a forma. Discute-se o vestido, o chapéu, a encenação — e menos o enquadramento político que essas escolhas ajudam a legitimar. O símbolo ocupa o espaço onde antes havia debate. Nada disto implica cálculo maquiavélico permanente. Implica, sim, adaptação a um ecossistema mediático onde a política se consome como imagem contínua. A figura que melhor se move nesse terreno não precisa de falar muito. Precisa apenas de não falhar o enquadramento. O filme termina como começou: com a promessa de propósito e estilo. A frase parece inofensiva. Não é. Quando o estilo passa a ser apresentado como substituto do propósito, o sistema entra numa zona cinzenta. Não colapsa. Funciona. Mas funciona deslocado — mais atento à superfície do que à fricção real que atravessa a sociedade. O vestido não governa. O ecrã não decide. Mas ambos ajudam a definir o clima em que as decisões são aceites. E, em política, o clima raramente é neutro. Subscrever a Newsletter

  • Egas Moniz: o homem para lá do Nobel e da lobotomia

    Em 1949, António Egas Moniz recebeu o Nobel da Medicina por uma operação ao cérebro que hoje provoca horror. A angiografia cerebral, a outra grande descoberta de Egas Moniz, continuou a desenvolver-se e a servir os médicos. A leucotomia perdeu o lugar que tivera no tratamento das doenças mentais. O prémio ficou. É difícil olhar para esta história sem começar pelo fim. Já sabemos o que a lobotomia viria a significar para muitos doentes. Conhecemos a variante praticada nos Estados Unidos por Walter Freeman, através da órbita ocular, e as pessoas cuja capacidade de pensar, sentir ou decidir ficou profundamente alterada. Para perceber Egas Moniz, porém, é preciso voltar ao consultório e ao hospital antes de esse futuro estar escrito. Uma rede de linhas evoca os vasos cerebrais que Egas Moniz ajudou a tornar visíveis através da angiografia. Nos anos 1930, um médico podia receber uma pessoa em sofrimento psiquiátrico grave e ter muito pouco para lhe oferecer. Havia internamentos prolongados, sintomas que resistiam aos tratamentos disponíveis e famílias que procuravam uma saída. Egas Moniz propôs intervir nas ligações dos lobos frontais, convencido de que algumas perturbações podiam ser aliviadas dessa forma. Pedro Almeida Lima executou as primeiras operações sob a sua direção, em Lisboa. A ideia parece brutal vista de hoje. Na altura, também representava a possibilidade de tratar pessoas para quem a medicina não encontrava resposta. Não há razão para negar essa intenção, nem para a tomar como prova de que a operação fazia bem. Os primeiros resultados apresentados por Egas Moniz abrangiam vinte doentes. Segundo a avaliação que publicou, sete tinham melhorado muito, sete tinham melhorado parcialmente e seis não tinham melhorado. O acompanhamento era curto. Faltavam meios para separar o alívio da doença de outros efeitos que a cirurgia pudesse ter na personalidade e nas capacidades dos doentes. Egas Moniz acreditou ter encontrado um tratamento; aquilo que observou não permitia ainda conhecer plenamente o seu custo. A confiança de Egas Moniz tinha uma história. Anos antes, com Pedro Almeida Lima, conseguira tornar visíveis as artérias do cérebro numa radiografia. Até aí, os médicos procuravam muitas lesões dentro do crânio a partir de sinais indiretos. A angiografia cerebral deu-lhes imagens para examinar. Foi uma descoberta difícil, obtida com risco para os primeiros doentes, que abriu caminho a uma parte essencial da medicina do cérebro. António Egas Moniz, por volta de 1901, com as insígnias de doutoramento da Universidade de Coimbra. Retrato em domínio público (via Wikimedia Commons). O homem que propôs a leucotomia era o mesmo que tinha conseguido isto. Não aparece na história como um médico incapaz de distinguir investigação de fantasia. Egas Moniz formulava hipóteses, procurava maneiras de as testar e aceitava riscos para chegar onde os instrumentos existentes não chegavam. Na angiografia, esse impulso produziu uma técnica que outros médicos podiam usar e aperfeiçoar. Na leucotomia, encontrou um problema muito mais difícil: depois de alterar o cérebro de uma pessoa, como saber se a vida dessa pessoa tinha melhorado? A pergunta parece simples até se tentar responder. Se um doente deixasse de estar atormentado, havia um benefício possível. Se deixasse também de mostrar interesse, iniciativa ou afeto, que peso teriam essas perdas? E quem estava em condições de as reconhecer? O médico via o comportamento durante a consulta. A instituição via o quotidiano de uma enfermaria. O próprio doente teria de viver com a mudança. Nenhum desses olhares podia, sozinho, dar a resposta completa. A leucotomia difundiu-se para lá de Portugal. Walter Freeman acabaria por desenvolver nos Estados Unidos uma técnica transorbital, diferente da praticada por Pedro Almeida Lima. Misturar as duas operações torna Egas Moniz responsável por decisões que não tomou. Separá-las não apaga o papel que teve na origem e na aceitação da ideia de tratar a doença mental através de lesões cerebrais. É nessa medida, precisa e suficiente, que o seu nome pertence à história da lobotomia. O Nobel reconheceu o que, em 1949, o comité considerava uma descoberta terapêutica. Não foi uma recompensa absurda concedida a alguém cuja proposta ninguém levava a sério. Também não foi uma garantia de que a medicina soubesse tudo o que precisava de saber sobre a operação. Um prémio pode ser compreensível no tempo em que é atribuído e, décadas depois, tornar visível quanto esse tempo desconhecia. Egas Moniz, em fotografia anterior a 1955, divulgada como Nobel da Medicina de 1949. Fotografia em domínio público, segundo o Wikimedia Commons; origem: arquivo da Fundação Nobel. Entretanto, Egas Moniz continuava a trabalhar. A 14 de março de 1939, um antigo doente disparou sobre ele no consultório da Rua do Alecrim, em Lisboa. Egas Moniz sobreviveu aos ferimentos graves. O atentado não oferece uma explicação para a leucotomia e seria injusto usá-lo como se representasse a resposta dos doentes à cirurgia. Pertence à vida de um médico que, depois de ser baleado, prosseguiu a atividade científica e pública. Em 1954, ainda apresentava uma comunicação com um título que reconhecia a discussão em curso: «A leucotomia está em causa». Está também em causa a facilidade com que julgamos o passado a partir do que aprendemos depois dele. Se os médicos dos anos 1930 tivessem à disposição os conhecimentos, os tratamentos e as exigências de avaliação atuais, teriam feito outras escolhas. Não os tinham. Daqui a cem anos, parte do que hoje consideramos uma boa decisão clínica poderá causar a mesma perplexidade. Isso não impede de estudar os danos da leucotomia. Obriga a fazê-lo sem fingir que, no momento da decisão, todos conheciam o desfecho. Egas Moniz merece atenção precisamente porque não cabe numa absolvição nem numa condenação sumária. A angiografia mostra a capacidade de abrir um caminho que a medicina ainda percorre. A leucotomia mostra o que podia acontecer quando a vontade de tratar avançava mais depressa do que o conhecimento dos efeitos do tratamento. Em ambos os casos, Egas Moniz enfrentou limites reais da medicina do seu tempo. Num deles, encontrou uma forma de ver melhor. No outro, agiu sobre algo que ainda não conseguia ver completamente. #EgasMoniz #HistoriaDaMedicina #PremioNobel #MedicinaPortuguesa #AngiografiaCerebral #Lobotomia #PessoasComInteresse #AtlanticLisbon

  • Humberto Delgado obrigou o regime a mudar as regras

    Em 1959, o Estado Novo retirou aos portugueses a escolha direta do Presidente da República. A decisão passou para um colégio eleitoral restrito. Humberto Delgado perdera as eleições do ano anterior, segundo os resultados oficiais. Ainda assim, o regime alterou a Constituição depois de enfrentar a sua candidatura. Humberto Delgado estivera nas trincheiras do golpe militar de 1926. No ano seguinte, defendeu a ordem que dele saíra. Exerceu funções na Mocidade Portuguesa e na Legião Portuguesa, fez carreira na Aeronáutica e representou Portugal no estrangeiro. Em 1958, aceitou concorrer à Presidência contra Américo Tomás. Não podia pedir aos eleitores que esquecessem o seu passado: os jornais apresentavam a carreira militar e os cargos públicos como credenciais do candidato. A candidatura de Humberto Delgado em 1958 está representada nesta capa por um boletim de voto ilustrado. Tinha patente de general, distinções e experiência nas instituições do Estado. O seu nome estava ligado à criação dos Transportes Aéreos Portugueses. Representara Portugal no Canadá e exercera funções militares em Washington, relacionadas com a NATO. Para parte da oposição, esse percurso tornava-o um candidato capaz de chegar a portugueses que nunca tinham acompanhado os seus movimentos. Outros tinham motivos para desconfiar dele. No Café Chave d’Ouro, perguntaram a Humberto Delgado o que faria a António de Oliveira Salazar se fosse eleito. Respondeu que o demitiria. O Presidente da República tinha esse poder na Constituição. Humberto Delgado disse que tencionava exercê-lo, perante jornalistas que levariam a resposta para fora daquela sala. Gomes da Costa e as suas tropas desfilam em Lisboa, em 1926, depois do golpe militar de 28 de Maio. Humberto Delgado apoiou o golpe. Fotografia de autor desconhecido, em domínio público (via Wikimedia Commons). Não é possível apontar um momento único em que Humberto Delgado deixou de apoiar o Estado Novo. Durante a Segunda Guerra Mundial, participara em contactos relacionados com a utilização dos Açores pelos Aliados. Depois trabalhou na aviação civil e passou anos no estrangeiro. Esses contactos ajudam a conhecer o seu percurso; não demonstram, por si, quando mudou de posição. A decisão de 1958 já não deixa dúvidas sobre o que se dispunha a fazer. Arlindo Vicente, apoiado pelo Partido Comunista Português, retirou a sua candidatura. Humberto Delgado tornou-se o candidato em quem se concentraram forças oposicionistas com histórias e objetivos diferentes. A campanha exigia essa aproximação entre pessoas que nem sequer concordavam sobre a melhor forma de enfrentar o regime. No Porto, milhares saíram à rua para receber o general. O Estado Novo proibiu os jornais de publicar fotografias da manifestação. Houve confrontos com a polícia, também quando Humberto Delgado regressou a Lisboa, junto à estação de Santa Apolónia. A estação de Santa Apolónia, em Lisboa, numa fotografia de 2008. Em 1958, houve confrontos com a polícia junto à estação quando Humberto Delgado regressou a Lisboa. Fotografia: Maradentro, em domínio público (via Wikimedia Commons). Os resultados oficiais deram a vitória a Américo Tomás. A oposição denunciou intimidações, impedimentos à fiscalização e falsificação dos resultados. Não há uma contagem independente que permita dizer quantos votos teria Humberto Delgado noutras condições. Sabe-se o que o Estado Novo fez depois: mudou a forma de eleger o Presidente antes de voltar a realizar eleições para o cargo. Afastado do serviço ativo, Humberto Delgado refugiou-se na Embaixada do Brasil e seguiu para o exílio. Procurou coordenar opositores dentro e fora de Portugal. As divergências que a campanha conseguira suspender reapareceram. Havia desacordos sobre a direção dos movimentos e sobre os meios a usar contra a ditadura. Humberto Delgado continuou a procurar uma intervenção direta em Portugal. Arajaryr Campos começou a trabalhar com ele depois da eleição. Tratou da correspondência e contactos, acompanhou deslocações e participou nas dificuldades do exílio. Após o fracasso da Revolta de Beja, atravessaram Portugal em fuga. Arajaryr Campos voltou a acompanhá-lo em fevereiro de 1965, quando partiram para a região de Badajoz à espera de um encontro com opositores militares portugueses. A reunião era uma cilada da PIDE. Humberto Delgado e Arajaryr Campos foram assassinados em território espanhol. Sobre a forma como morreu o general, subsistem versões divergentes: o tribunal militar concluiu que foi atingido a tiro; Frederico Delgado Rosa, seu neto e biógrafo, contesta essa conclusão com base na autópsia espanhola e defende que morreu devido a golpes na cabeça. Humberto Delgado conhecia os homens, os cargos e as regras do Estado Novo. Tinha servido o regime antes de pedir aos portugueses autorização para afastar António de Oliveira Salazar. Perdeu a eleição oficialmente. Um ano depois, já nenhum candidato podia voltar a fazer aos eleitores a mesma proposta nas mesmas condições. #HumbertoDelgado #EstadoNovo #EleiçõesDe1958 #HistóriaDePortugal #PessoasComInteresse #AtlanticLisbon

  • Um homem vê-se fora do corpo. Uma mulher fala por um avatar

    José Morales recorda ter observado o próprio corpo inerte. Ann Johnson recupera a expressão através de um rosto digital construído para se parecer com o seu. José Morales recorda ter visto o próprio corpo num canto da divisão, entre um móvel e a parede. Levantara-se de uma sesta e perdera os sentidos. Na imagem que conservou, estava de pé, à altura habitual dos seus olhos, enquanto a figura que reconhecia como sua permanecia imóvel. Parecia não respirar. Durante cerca de quarenta anos, sobretudo como médico rural, Morales examinara pessoas que tinham acabado de morrer. Naquele momento, julgou reconhecer em si os sinais que procurara nos outros. Em O Médico que Viu o Próprio Corpo no Chão, não há um registo cardíaco, uma avaliação neurológica ou uma observação independente que permita determinar o estado do organismo durante o episódio. Desconhece-se quanto tempo durou a perda de consciência. A conclusão de que estava morto pertence à experiência narrada. Uma mulher diante de um rosto digital semelhante ao seu, com duas figuras masculinas ao fundo. Composição imaginária sobre os relatos de José Morales e a comunicação assistida de Ann Johnson. Ilustração gerada para o Atlantic Lisbon. Morales continuava a olhar à altura de um homem de pé. Reconhecia a divisão, localizava o corpo e aplicava-lhe o conhecimento da sua profissão. A figura caída era sua, mas o lugar de onde julgava observá-la ficava noutro ponto do quarto. A recordação conservava até a posição habitual dos olhos. Ann Johnson tinha trinta anos quando um acidente vascular cerebral no tronco cerebral a deixou gravemente paralisada. Conservou a consciência, a memória e a vontade de falar. Perdeu quase todos os movimentos necessários para dar expressão ao que pensava. Durante anos, comunicou através de dispositivos controlados por pequenos movimentos da cabeça. As palavras chegavam ao ecrã uma a uma, ao ritmo que esses movimentos permitiam. Dezoito anos depois, uma equipa da Universidade da Califórnia em São Francisco implantou 253 elétrodos sobre regiões cerebrais envolvidas na produção da fala. Avatar cerebral devolve a voz a mulher paralisada descreve como os sinais associados à intenção de pronunciar palavras passaram a alimentar texto, uma voz sintetizada e os movimentos de um rosto digital. Ann não recuperou o movimento da boca. O sistema chegou a produzir 78 palavras por minuto. A equipa aproximou o avatar das suas feições. Para reconstruir a voz, usou uma gravação com cerca de quinze minutos do discurso que Ann pronunciara no casamento, antes do acidente vascular cerebral. Quem a conhecera podia reencontrar elementos familiares no que ouvia. A voz vinha de uma ocasião anterior à paralisia; as frases eram produzidas a partir dos sinais recolhidos enquanto ela tentava falar. Morales descreve uma experiência em que podia olhar para si sem ocupar, aparentemente, o lugar do próprio corpo. Ann permanecia no seu, consciente, mas durante anos dispusera de poucos meios para mostrar aos outros aquilo que queria dizer. O rosto digital acrescentava expressões às palavras: um sorriso, o movimento dos lábios, o franzir do sobrolho. O sistema procurava interpretar também sinais associados aos movimentos da face. Uma frase como «estou bem» pode ser recebida de maneira diferente conforme a expressão de quem a pronuncia. O artigo sobre Ann demora-se nessa parte da comunicação que os dispositivos de texto deixam de fora. Recuperá-la exige inferências adicionais. Um sorriso mostrado quando havia desconforto alteraria o sentido da resposta, mesmo que as palavras estivessem certas. A semelhança com o rosto de Ann poderia tornar esse erro difícil de perceber para quem a escutasse. Quando Morales certificava uma morte, examinava outra pessoa. Podia procurar sinais e registar o que encontrava. Na experiência que conta, esse procedimento surge dentro da própria recordação: observa a imobilidade, julga verificar a ausência de respiração e chega a uma conclusão. Falta alguém que tenha examinado o seu organismo durante aquele intervalo. O conhecimento médico ajuda a compreender a interpretação que fez, mas não fornece os dados que ficaram por recolher. No caso de Ann, os elétrodos e os algoritmos fazem parte de um processo conhecido, construído e ajustado para ela. A equipa pode estudar o desempenho do sistema. Ainda assim, ouvir uma voz parecida com a sua não permite saber, por si só, se a palavra escolhida ou a expressão apresentada correspondem ao que pretendia comunicar. Essa confirmação depende também de Ann. O artigo descreve uma intervenção que exigiu cirurgia, meses de treino e acompanhamento especializado. Não apresenta um dispositivo que Ann possa instalar e usar autonomamente em casa. Entre a intenção e a conversa permanecem uma equipa, equipamento e decisões técnicas. A possibilidade de corrigir uma palavra errada faz parte dessa relação, tal como a possibilidade de recusar uma expressão que lhe foi atribuída. Morales pode regressar à experiência e procurar palavras mais exatas para a contar. Os registos clínicos ausentes não podem ser obtidos retroativamente. Ann precisa de continuar a intervir naquilo que o sistema apresenta enquanto fala. Se a máquina produzir uma expressão que ela não reconhece, terá de conseguir assinalá-lo através dos meios de comunicação de que dispõe, possivelmente a própria interface. Devolver-lhe uma voz inclui tornar essa correção praticável. Composto em setembro de 2026 O Caderno, #AtlanticLisbon #Percursos #AvatarCerebral #Consciência #Neurotecnologia #ComunicaçãoAssistida #AnnJohnson #JoséMorales

  • Crescimento do emprego: o que muda à mesa da cozinha?

    Uma verificação da declaração de Luís Montenegro e uma crónica de Helena Vale põem à prova duas maneiras de avaliar o país: comparar indicadores e acompanhar quem precisa das políticas públicas. Portugal ficou em primeiro lugar numa tabela de emprego. No segundo trimestre de 2026, o número de pessoas empregadas aumentou 1,0% em relação ao trimestre anterior, a maior subida entre os Estados-membros da União Europeia com dados disponíveis. No dia seguinte à divulgação dos números pela Eurostat, Luís Montenegro afirmou no Parlamento que Portugal tinha o melhor desempenho económico da Europa. O crescimento do emprego e a distância entre os indicadores económicos e o orçamento familiar. Ilustração gerada para o Atlantic Lisbon. Em Luís Montenegro e o melhor desempenho económico da Europa?, basta mudar o período de comparação para que Portugal deixe de liderar o crescimento do emprego. Em termos homólogos, comparando com o mesmo trimestre de 2025, fica atrás de Malta e de Espanha. Quando se passa ao produto interno bruto, também não ocupa o primeiro lugar. Europa, União Europeia e Zona Euro não designam o mesmo conjunto de países. Crescimento trimestral e crescimento homólogo respondem a perguntas diferentes. «Desempenho económico» pode incluir emprego, rendimento, produtividade ou investimento. Montenegro não declarou um critério para os reunir, nem indicou o período ou os países em que baseava a comparação. Helena Vale começa por desconfiar de frases semelhantes em Quando as estatísticas não chegam à mesa da cozinha. A economia cresce, o desemprego desce, o rendimento médio aumenta. Depois, a cronista senta-se com uma família e procura o efeito dessa melhoria nas despesas da casa. O que o crescimento do emprego permite concluir O aumento de 1,0% refere-se ao número de pessoas empregadas. Não informa, por si só, quanto recebem, quantas horas trabalham ou que parte do rendimento entregam pela casa onde vivem. Na verificação da declaração de Montenegro, é precisamente a definição do indicador que permite reconhecer um resultado favorável e delimitar aquilo que ele sustenta. Na crónica, uma família pode continuar sem conseguir pagar as despesas apesar de o rendimento médio ter aumentado. A média não descreve o rendimento de cada agregado. Helena Vale escreve também que, ao anunciar essa subida, se esconde que habitação, alimentação e energia encareceram mais depressa. A peça não apresenta uma série de preços e rendimentos que permita verificar a comparação. Para sustentar essa afirmação, seria necessário precisar os valores e o período, tal como acontece com a declaração do primeiro-ministro. A dificuldade da família merece ser examinada, mas não determina a evolução do conjunto. Pode haver uma melhoria global que a deixou de fora. Pode ter recebido mais dinheiro e perdido capacidade de compra. A crónica não permite escolher entre essas situações; indica onde procurar os dados que faltam. Um programa de apoio à renda pode receber uma boa avaliação e exigir ao candidato documentos repetidos, vários formulários e uma espera prolongada. Helena Vale descreve essa dificuldade sem identificar um programa que possa ser auditado. O exemplo leva, contudo, a olhar para etapas que uma avaliação terá de distinguir: apresentar a candidatura, obter uma decisão e receber o pagamento. Quem apresenta o programa pode contar candidaturas, verbas disponíveis ou apoios aprovados. Quem precisa dele terá de saber se o pagamento chega antes de a renda ficar por pagar. Uma aprovação registada no relatório pode ainda não ter produzido qualquer efeito no orçamento do candidato. O prazo faz parte do resultado, sobretudo quando o apoio se destina a uma despesa com data marcada. Helena Vale pergunta também pela mulher que passou seis horas nas urgências com o filho quando um hospital anuncia uma redução da espera média. Esse episódio, isoladamente, não prova que a média esteja errada. Seria preciso conhecer a frequência das esperas prolongadas, as circunstâncias em que ocorreram e a evolução do atendimento. Uma redução global pode coexistir com casos demorados. A crónica pede que alguém procure essas pessoas. A verificação da declaração de Montenegro fornece um cuidado necessário para o fazer: saber exatamente o que está a ser contado. Se o hospital mudou o método de registo, como Helena Vale admite na sua pergunta, é necessário demonstrá-lo. Se o método se manteve e a média melhorou, continua a haver matéria para investigar as seis horas de espera. O primeiro lugar no crescimento trimestral do emprego responde a uma comparação delimitada. Para conhecer as condições de quem passou a trabalhar, serão necessários outros dados. O mesmo acontece com o apoio à renda: o número de candidaturas aprovadas pode estar certo e deixar por esclarecer quanto tempo os beneficiários esperaram. No exemplo da crónica, a avaliação teria de acompanhar a candidatura até ao pagamento, registando as datas e os documentos pedidos. Só então seria possível saber quantos apoios chegaram a tempo de cumprir a finalidade anunciada. Uma família com a candidatura aprovada e a renda vencida continua à espera de uma parte do resultado que o relatório pode já ter dado por alcançado. Composto em setembro de 2026 O Caderno #CrescimentoDoEmprego #EconomiaPortuguesa #OrçamentoFamiliar #PolíticasPúblicas #Percursos #AtlanticLisbon

  • Autoria e inteligência artificial: de Pessoa aos tribunais

    Da tarde de 1914 em que Pessoa escreveu como Caeiro a uma mensagem de condolências e aos critérios que Seul, Tóquio e Changshu já fixaram para as obras feitas com inteligência artificial A 8 de março de 1914, segundo o relato que Fernando Pessoa faria em 1935, aproximou-se de uma cómoda alta no seu quarto, em Lisboa, e escreveu de pé trinta e tantos poemas seguidos. Levava dias a tentar inventar um poeta bucólico para pregar uma partida a Mário de Sá-Carneiro e já tinha desistido. Os poemas saíram assinados por Alberto Caeiro. Pessoa nunca soube dizer se aquilo fora um dom ou uma avaria. Pessoa, a IA e o problema de saber quem escreve compara esse dia com os romances que plataformas chinesas de ficção para telemóvel recebem hoje de autores que os geram com inteligência artificial. Representação imaginária de Fernando Pessoa entre o manuscrito, o dispositivo digital e os tribunais. Ilustração gerada com inteligência artificial para o Atlantic Lisbon. Caeiro tinha biografia e obra sustentada, e depois da sua morte, em 1915, dentro da mitologia que Pessoa manteve durante vinte anos, Ricardo Reis e Álvaro de Campos continuaram a escrever sobre o mestre desaparecido sem que ninguém precisasse de lembrar a Campos que Caeiro já não estava. Um heterónimo tinha até um passado: Pessoa inventou um Campos anterior ao encontro com Caeiro para assinar o Opiário. Em fóruns chineses, leitores partilham capturas de ecrã de instruções deixadas por engano a meio de um capítulo, e outros dizem reconhecer a máquina pelas mesmas frases de fórmula, repetidas de romance para romance. Para o ensaio, o que decide é se os leitores encontram alguém coerente por trás das frases, e quem expande um esboço seu e corrige cada frase deixa mais de si por perto para responder pela personagem do que quem publica o que sai sem tocar numa linha. Um programador independente montou um sistema com um agente que desenha o enredo, outro que escreve e um terceiro que revê, e a máquina, por vezes, esquece onde pôs as suas personagens. À meia-noite e doze, numa cozinha de Lisboa, uma mulher escreve três palavras a uma colega cujo pai morreu, apaga duas e pede ao telemóvel uma mensagem breve, humana, sem intimidade a mais. Muda uma palavra, tira outra, acrescenta o nome da colega e envia. É a cena que abre Leão XIV e a humanidade que delegámos à IA. O ensaio lê a encíclica Magnifica Humanitas como uma pergunta sobre o que vai sendo passado às máquinas, e não vê na cena traição nenhuma: o gesto humano, diz, estava na intenção, na revisão e no envio. A pergunta que deixa em aberto é em que ponto começa a perda: no primeiro pedido, no hábito, na incapacidade de escrever sem ajuda, ou só quando se deixa de notar a diferença. Autoria e inteligência artificial nos tribunais Em Direitos de autor na era da IA: porque é que Hollywood negocia e África paga, João da Praça reúne o que organismos e tribunais de vários países já decidiram sobre obras feitas com assistência de máquina. Em Seul, numa obra musical feita com assistência de inteligência artificial, só a melodia composta por uma pessoa fica protegida. Em Tóquio, um guião de manga só é elegível se o criador tiver definido antes a lógica do storyboard e o perfil das personagens. Em Changshu, protegeu-se uma obra criada com ajustes sucessivos de instruções e edição humana posterior, porque o processo revelava intenção e escolha. Para João da Praça, o problema dos criadores africanos está menos na autoria do que produzem com inteligência artificial do que no destino do que produziram sem ela. Os arquivos da Nollywood, do afrobeats e de jornais como o Nation Media Group, do Quénia, e o Premium Times, da Nigéria, estão acessíveis em linha e, segundo observadores jurídicos africanos que ele cita, estão a ser incorporados nos conjuntos de dados que treinam os grandes modelos, sem autorização nem compensação. No fim de fevereiro de 2026, representantes do Conselho Europeu de Escritores, em nome de 250 mil autores, apresentaram uma submissão à comissão de Cultura e Educação do Parlamento Europeu, e a 4 de abril o sindicato WGA anunciou com os estúdios de Hollywood um acordo de quatro anos, com disposições sobre o uso de guiões para treinar modelos. João da Praça atribui a diferença à capacidade institucional acumulada ao longo de gerações. A Tanzânia debate modelos sem um sindicato de escritores comparável ao WGA. O leitor que reconhece uma voz, a mulher da cozinha que se pergunta se nota a diferença e o tribunal que examina um processo perguntam todos por um texto que já existe. Os autores de que fala João da Praça ficaram fora dos três. O treino que usou os seus arquivos aconteceu antes de haver critério, sindicato ou tribunal a que recorrer e, diz o ensaio, não é reversível. Para eles, saber se um texto feito com a máquina tem alguém lá dentro vem depois de outra pergunta, sem resposta institucional à vista nos países que o ensaio refere: quem escreveu os textos com que a máquina aprendeu. Composto em setembro de 2026 O Caderno

  • Percurso | História do feminismo: corpo, imprensa e palavras

    PERCURSO · História do feminismo · Corpo, imprensa e linguagem Três histórias mostram como experiências tratadas como privadas entraram na lei, na imprensa e na disputa pela representação. Imagem de capa — Página da newsletter White House News on Women, preparada pela equipa de Sarah Weddington e distribuída a 14 mil destinatários durante a administração Carter. É um documento sobre a circulação institucional do debate, não uma imagem das três protagonistas. Fonte: Jimmy Carter Presidential Library / National Archives dos EUA; documento do governo federal, domínio público. Consultar o registo do arquivo. O que está em causa Uma denúncia de aborto clandestino, uma revista que levou a vida das mulheres às bancas e uma antologia que procurou dar nome a um movimento não pertencem à mesma história nacional. Emma Bonino agiu em Itália; Gloria Steinem e Robin Morgan, nos Estados Unidos. Lidas em conjunto, as três peças permitem seguir uma pergunta mais precisa: como se transforma uma experiência vivida em assunto público, e quem ganha o poder de a descrever? As respostas passam por meios diferentes — desobediência civil, jornalismo e organização editorial — e por conflitos que não desapareceram com as conquistas legais. Dar nome a uma injustiça abre uma discussão pública; decidir quem pode falar por ela abre outra. História do feminismo: como ler este percurso 1. Começar por Gloria Steinem: a imprensa criou uma audiência nacional para questões antes remetidas à vida doméstica. 2. Seguir para Robin Morgan: os textos e as palavras que reuniram o movimento também tornaram visíveis os seus desacordos. 3. Terminar com Emma Bonino: a autodenúncia de 1975 mostra a passagem do conflito sobre o corpo para a lei e para as instituições. Folha de dados da administração Carter sobre mulheres em cargos públicos em 1979. O documento mostra a distância entre a visibilidade de uma causa e a representação nas instituições. Fonte: Jimmy Carter Presidential Library / National Archives dos EUA; documento do governo federal, domínio público. Cronologia Seis marcos para orientar a leitura. A lista seguinte acrescenta o contexto necessário, sem substituir os artigos. 1968 — O protesto contra o concurso Miss America torna pública uma crítica feminista aos modelos de feminilidade; Robin Morgan participa na organização. 1970 — Sai a antologia Sisterhood Is Powerful, organizada por Morgan. 1972 — A revista Ms. ganha uma edição autónoma; o Congresso dos EUA envia a proposta da Equal Rights Amendment aos estados. 1975 — Emma Bonino apresenta-se à polícia para declarar um aborto ilegal, como gesto de desobediência civil. 1976 — Bonino é eleita para o Parlamento italiano. 1978 — Itália aprova a Lei n.º 194 sobre a interrupção voluntária da gravidez. Cronologia completa 1968 — Protesto em Atlantic City contra o concurso Miss America, uma das ações que deram projeção ao movimento nos Estados Unidos. 1970 — Publicação de Sisterhood Is Powerful: An Anthology of Writings from the Women's Liberation Movement, organizada por Robin Morgan. 1971 — Gloria Steinem e Dorothy Pitman Hughes são fotografadas lado a lado numa imagem que viria a condensar a visibilidade pública do movimento. 1972 — Primeira edição autónoma da revista Ms.; proposta da Equal Rights Amendment aprovada pelo Congresso e remetida aos estados para ratificação. 1975 — Autodenúncia e detenção de Emma Bonino na campanha italiana pela legalização do aborto. 1976 — Eleição de Bonino para a Câmara dos Deputados. 1978 — Aprovação da Lei n.º 194 em Itália. Nos EUA, o prazo de ratificação da Equal Rights Amendment é prorrogado até 1982. 1989–1994 — Robin Morgan dirige a revista Ms., etapa posterior da discussão sobre quem escreve e quem é representado. 2026 — A trajetória de Bonino volta a suscitar debate público no momento da sua morte e do funeral de Estado. Peças-chave do Atlantic Lisbon Gloria Steinem e o feminismo que ganhou um rosto — A revista Ms. abriu espaço público a relatos de desigualdade. A notoriedade de Steinem ajudou a difundi-los e deixou em segundo plano outras organizadoras, entre elas Dorothy Pitman Hughes. Robin Morgan: o feminismo e a disputa pelas palavras — Do protesto de 1968 à antologia de 1970 e às controvérsias posteriores: o vocabulário que uniu ativistas também expôs os limites da representação. Emma Bonino: presa em 1975, funeral de Estado em 2026 — Da desobediência civil à lei italiana e ao trabalho institucional, sem reduzir uma carreira política inteira à questão do aborto. Documentos e materiais Lei italiana n.º 194, de 22 de maio de 1978 — texto publicado na Gazzetta Ufficiale. Proposta e percurso da Equal Rights Amendment — documentação dos National Archives dos EUA. Arquivo da revista Ms. — apresentação do acervo digital completo, desde 1972. Jimmy Carter reúne-se com mulheres e assina uma proclamação para a primeira National Women’s History Week, em 28 de fevereiro de 1980. A imagem documenta a entrada das reivindicações na agenda presidencial norte-americana. Fonte: Jimmy Carter Presidential Library / National Archives dos EUA; fotografia oficial do governo federal, domínio público. Quem é quem Emma Bonino — ativista e política italiana; a sua autodenúncia tornou visível a criminalização do aborto. Gloria Steinem — jornalista e organizadora; ajudou a dar circulação nacional às reivindicações feministas nos EUA. Robin Morgan — escritora e editora; reuniu vozes do movimento e participou nas disputas sobre a sua linguagem. Dorothy Pitman Hughes — organizadora comunitária; a sua colaboração com Steinem lembra que um rosto mediático não equivale ao movimento inteiro. Glossário Desobediência civil — violação pública e deliberada de uma lei para contestar a sua legitimidade. Ms. — forma de tratamento em inglês que não indica o estado civil de uma mulher; tornou-se também o nome da revista. Equal Rights Amendment — proposta de emenda constitucional norte-americana sobre igualdade de direitos independentemente do sexo; o seu percurso de ratificação continua juridicamente contestado. O que se sabe As três peças descrevem instrumentos diferentes de intervenção: uma autodenúncia, uma revista e uma antologia. A Lei n.º 194 foi aprovada em Itália em 1978, após anos de mobilização pela mudança das regras sobre o aborto. A visibilidade de uma liderança pode ampliar uma causa e, ao mesmo tempo, obscurecer o trabalho de outras pessoas. O que falta saber Que experiências ficaram fora dos meios de comunicação que deram projeção ao movimento? Como variou o acesso real aos direitos reconhecidos na lei entre regiões e grupos sociais? Que fontes permitem reconstituir as divergências internas sem reduzir décadas de debate a uma única polémica? O que vigiar A aplicação e as alterações propostas à Lei n.º 194 em Itália, distinguindo texto legal e acesso efetivo aos serviços. A disponibilização de materiais primários do arquivo Ms. e de outros grupos feministas, incluindo vozes menos representadas. Novos documentos sobre a história e o estatuto jurídico da Equal Rights Amendment. Próximas atualizações Este percurso será revisto quando novas peças do Atlantic Lisbon acrescentarem documentação a esta linha. Cada atualização deverá explicitar o que mudou na cronologia, nas leituras recomendadas ou nas perguntas em aberto. #HistóriaDoFeminismo #Feminismo #DireitosDasMulheres #GloriaSteinem #RobinMorgan #EmmaBonino #AtlanticLisbon

  • Liberdade sem vínculo é só isolamento

    Nos jornais submetidos à censura do Estado Novo ficava o carimbo. A página chegava ao leitor depois de ter passado por outras mãos, encarregadas de decidir o que podia permanecer nela. Quem escrevia conhecia essa presença antes de começar. Fora das redações, também se aprendia a medir as palavras e as companhias. Uma conversa de café, se reunisse pessoas suficientes ou despertasse a atenção errada, podia adquirir um significado político que nenhum dos presentes lhe dera. Meio século depois de 1974, a história portuguesa da liberdade tem uma lição sobre vínculo que a época atual, obcecada por manter tudo em aberto, arrisca esquecer. A vigilância atingia a possibilidade de associação. Estar com outros, organizar uma reunião ou criar um grupo implicava avaliar quem observava, quem poderia denunciar e que interpretação seria feita. Esse cálculo entrou nos hábitos de uma geração. Meio século depois de 1974, a história portuguesa da liberdade tem uma lição sobre vínculo que a época atual, obcecada por manter tudo em aberto, arrisca esquecer. Depois de abril de 1974, as ruas, as sedes dos partidos, os sindicatos e as comissões de moradores encheram-se. Havia filas à porta de organizações recém-legalizadas e reuniões em lugares onde, pouco antes, a simples presença de certas pessoas bastaria para levantar suspeitas. Muitos portugueses experimentaram a liberdade através dessas ligações públicas, assumidas diante dos outros. Hoje, a palavra adquiriu também outro sentido. Ser livre pode significar conservar opções, evitar compromissos duradouros e não ficar preso a uma pessoa, a um lugar ou a uma causa. Esta conceção tem uma história. Depende de condições materiais e sociais que permitem imaginar a autonomia individual sem a proteção de uma comunidade estável. O Estado Novo também exaltava os vínculos. Deus, Pátria e Família eram apresentados como fundamentos da ordem política e moral. Não se perguntava a cada pessoa se queria pertencer, nem em que termos. A liberdade de associação recuperada com a revolução alterou precisamente isso: tornou possível decidir com quem criar uma organização, defender um interesse comum ou partilhar uma causa. O vínculo deixou de depender apenas da autoridade que o definia. Comemoração do 25 de Abril em Lisboa, 2018. Fotografia: Pedro Ribeiro Simões / Wikimedia Commons. Licença CC BY 2.0. Imagem sem alterações. Fernando Pessoa atribuiu a cada heterónimo uma biografia, uma métrica, uma filosofia e, em alguns casos, datas de nascimento e de morte. Alberto Caeiro permaneceu dentro de uma visão do mundo reconhecível. Ricardo Reis conservou uma disciplina formal própria. Álvaro de Campos mudou de tom e de intensidade sem perder a voz que o distinguia. A pluralidade pessoana exigiu limites muito precisos. Cada nova identidade precisava de consistência suficiente para escrever sem se confundir com as restantes. As possibilidades multiplicaram-se dentro de formas às quais Pessoa permaneceu ligado durante anos. Os portugueses que emigraram procuravam escapar à fome, à guerra colonial, à vigilância ou a um destino decidido por outros. Em Paris, no Luxemburgo, na Venezuela ou em Newark, muitos reconstruíram depressa redes semelhantes às que tinham deixado. Fundaram casas regionais, frequentaram paróquias, organizaram ranchos folclóricos e fizeram dos cafés lugares de encontro regular. Homens que talvez nunca tivessem criado uma associação na aldeia de origem passaram décadas a jogar à sueca, à mesma mesa, todas as sextas-feiras. Essas organizações ajudavam a encontrar trabalho, casa e companhia. Também permitiam falar português, celebrar festas conhecidas e educar os filhos entre duas pertenças. Partir abria possibilidades, mas a vida no destino precisava de relações que lhe dessem alguma continuidade. Meio século depois da revolução, o compromisso é muitas vezes apresentado como um risco. A mobilidade tornou-se uma condição da ambição para muitos jovens: sair de Lisboa, sair de Portugal, aceitar um contrato provisório, mudar de casa e manter disponível a hipótese da próxima partida. Em numerosos casos, trata-se de uma liberdade real, conquistada com esforço, ou da única resposta possível à precariedade. Fernando Pessoa, por volta de 1914. Autor desconhecido / Wikimedia Commons. Identificada como imagem de domínio público. Outras experiências ficam mais difíceis de distinguir. Uma pessoa pode adiar todos os vínculos porque assim o escolheu ou porque nunca encontrou condições para os formar. Pode conservar as portas abertas e descobrir, mais tarde, que nenhuma delas conduz a um lugar onde seja esperada. A diferença nem sempre é visível enquanto as mudanças ainda parecem provisórias. Os carimbos desapareceram das páginas dos jornais com o fim da censura prévia. Ficaram as fotografias das ruas portuguesas em 1974 e 1975, ocupadas por pessoas que se reuniam sem esconder o nome, o partido, o sindicato ou a comissão a que pertenciam. Muitas tinham recuperado, havia pouco, a possibilidade de estar ali. #liberdade #vínculo #Portugal #EstadoNovo #25deAbril #FernandoPessoa #diásporaportuguesa

  • Terramoto de Lisboa: as perguntas que Pombal fez à terra

    A 1 de novembro de 1755, dia de Todos os Santos, um tremor de terra que os estudos modernos estimam ter ultrapassado a magnitude 8 destruiu grande parte de Lisboa em poucos minutos. Ao tremor seguiu-se um maremoto que engoliu o Terreiro do Paço. Depois, um incêndio que arderia durante dias. Morreram milhares de pessoas, numa cidade que não teria muito mais de duzentos mil habitantes. A capital de um império ficou reduzida a escombros numa manhã de missa. O terramoto de Lisboa e as perguntas que ficaram de pé Sebastião José de Carvalho e Melo, então secretário de Estado e ainda sem o título de marquês de Pombal que a história lhe reserva, organizou o enterro dos mortos e montou forcas pela cidade para dissuadir os saqueadores. Depois fez uma coisa menos óbvia: mandou um questionário a todas as paróquias do reino. Perguntava quanto tempo tinha durado o tremor, se a terra tinha aberto fendas, se o mar tinha recuado antes de voltar, como se tinham comportado os animais. Não perguntava a ninguém se Lisboa tinha pecado. Perguntava factos. Lisboa em ruínas após o terramoto de 1755, entre os escombros da cidade e as perguntas que Pombal enviou às paróquias do reino. A resposta ao terramoto de Lisboa não ficou confinada à cidade. Voltaire escreveu um poema sobre o desastre que reabriu, com fúria, o debate sobre se um Deus bom podia permitir um mal daquela escala. Rousseau respondeu-lhe, atribuindo a culpa aos homens, que tinham escolhido viver amontoados em edifícios altos de pedra. Kant, com pouco mais de trinta anos e ainda longe da fama que teria, escreveu três ensaios sobre o terramoto em 1756, tentando explicá-lo por causas físicas, entre cavidades subterrâneas, gases e água, sem recorrer ao castigo divino. Na Alemanha, um rapaz de seis anos chamado Johann Wolfgang von Goethe ouviu falar do desastre e, contaria décadas mais tarde, foi então que começou a perder a fé: não conseguia aceitar um Deus que escolhesse castigar os lisboetas por meio de um terramoto. É esta memória de Goethe, recordada por Maria Filomena Molder numa entrevista ao Público, que dá o mote a este texto. A pergunta que Molder levanta a propósito de Pombal não pertence à geologia. Diz respeito ao que fazemos com o pavor. Molder recusa a ideia, hoje corrente, de que vivemos numa idade de “pós-verdade” em que os factos deixaram de contar. A verdade, argumenta, nunca foi uma coisa que se extraísse como quem extrai um número: é um sentimento, uma adesão que a realidade nos impõe sem que a tenhamos calculado nem ela nos tenha sido imposta pela força. Confiamos numa pessoa; se ela nos mente, essa confiança quebra-se, e não é a lógica que se altera. É o sentimento. Pombal, sustenta a filósofa, tratou o terramoto como um facto físico, geológico e social que pedia observação, não sermão. O inquérito que mandou às paróquias, ainda hoje estudado como um dos primeiros instrumentos de investigação sismológica da Europa, não continha uma única pergunta sobre pecado. Pensar assim exigia coragem, no sentido preciso que Molder dá à palavra: pensar por si próprio, mesmo quando o resultado não consola. É mais fácil aceitar que uma cidade ardeu por castigo divino do que admitir que ardeu porque a terra, indiferente a quem tinha por cima, se moveu sem aviso nem propósito. Esta explicação não oferece sentido, moral ou promessa de que nada voltará a acontecer se formos melhores. Oferece apenas factos. Aceitá-los sem os revestir de significado aproxima-se, na leitura que Molder faz dos filósofos capazes de enfrentar a morte, da aceitação da própria morte. Não porque consigam explicá-la, mas porque deixam de precisar dessa explicação. Na mesma entrevista, Molder chega a Elon Musk pelo mecanismo contrário. Para Musk, diz, o horror da morte é tão insuportável que se disfarça de apetite sem fim por poder: colonizar Marte, prolongar a vida, dominar tudo o que se deixa dominar. Perante a prova brutal da pequenez humana, Pombal escolheu medir o chão. Musk, confrontado com a certeza de que também morrerá, procura aumentar o controlo sobre um mundo que nunca lhe pertencerá inteiramente. Pombal aceitou a finitude e trabalhou, com o que restava, para reconstruir a cidade. Entre as propostas apresentadas, foi escolhida a solução mais radical: abandonar o traçado medieval e desenhar uma Baixa nova, rectilínea, preparada para durar e resistir a outro tremor. Era uma construção destinada aos que viriam depois. Musk procura outra coisa: adiar a finitude à escala dos seus próprios meios. A Ópera de Lisboa em ruínas depois do terramoto de 1 de novembro de 1755. Gravura de Henry Roberts, entre 1755 e 1790. Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público. Mais adiante, Molder fala da coragem física. Dá o exemplo de quem se atira para debaixo de um carro para salvar uma criança, sem tempo para pensar. Só depois do gesto se descobre que se sabia fazê-lo, que se era capaz. A maravilha de estar vivo encontra-se também nessa surpresa diante de nós próprios. Pombal não sabia, em 1755, que a Baixa sobreviveria durante séculos como referência de reconstrução antissísmica. Também não podia saber que as respostas ao seu inquérito seriam estudadas por sismólogos mais de duzentos anos depois. O que fez nasceu da necessidade imediata de conhecer o desastre e impedir que a cidade continuasse entregue a ele. A pergunta permanece: o que fazemos quando a realidade destrói as explicações que nos protegiam? Lisboa começou por contar os mortos, observar o mar e perguntar quanto tempo a terra tinha tremido. #Pombal #terramotodeLisboa #1755 #MariaFilomenaMolder #ElonMusk #filosofia

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