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- Explodem barcos, repatriam tripulações.
Port Everglades, 19 de novembro de 2025. O cutter Stone regressa do Pacífico e o convés vem preparado para a fotografia — não para o mar. Fardos empilhados, selados, alinhados como se fossem caixas de armazém com orgulho institucional. Port Everglades recebe 22 toneladas de cocaína como troféu público. Ao mesmo tempo, nas Caraíbas e no Pacífico, aviões militares destroem embarcações suspeitas e matam tripulações. Entre repatriações rápidas e mísseis sem julgamento, os EUA parecem operar dois sistemas para o mesmo crime — e ninguém explica a regra. O País Que Explode Barcos, Prende Tripulações e um Presidente ao Mesmo Tempo. Dizem “cinquenta mil libras”, porque a América gosta do número assim. Em quilos, isso dá cerca de 22 680 kg. Em toneladas, 22,7. A diferença não é pequena; só fica pequena quando a transformamos em espetáculo. Tulsi Gabbard está ali, Diretora da Inteligência Nacional, ao lado de Terry Cole (DEA) e de Gregory Kehoe, procurador federal de Tampa. Câmaras. Declarações curtas. Aquele tipo de frase que serve para o ecrã e não para a dúvida. A droga, no centro, cumpre o papel de sempre: prova visível de que “algo” está a ser feito. E, no entanto, o que não aparece na fotografia é o mais importante — porque não cabe no formato, porque perturba o plano, porque obriga a explicar demais. Durante a missão, a tripulação deteve 36 pessoas. Vinte e nove foram repatriadas para o Equador antes de o navio atracar. As restantes passaram para o Departamento de Justiça — para um interrogatório breve, para recolhas de elementos para uma acusação a um qualquer Presidente, para uma deportação rápida, para um destino que ninguém descreve com gosto. Há uma espécie de recato oficial quando se trata de pessoas. A droga, essa, mostra-se. Ao mesmo tempo — e isto é o que torna a semana impossível de contar sem desconforto — noutro ponto das mesmas rotas, sob a mesma lógica declarada de “guerra à droga”, aeronaves militares norte-americanas destruíram 22 barcos entre setembro e novembro. Morreram 83 pessoas. Não foram capturadas. Não foram interrogadas. Não foram julgadas. Foram, simplesmente, apagadas do mapa como se fossem parte do material. As mesmas águas, o mesmo alegado crime, duas respostas que não se tocam e, ainda assim, coexistem. O país que posa com fardos em Port Everglades é o mesmo país que dispara do céu sobre embarcações com gente a bordo. E ninguém parece sentir que deva justificar por que razão uns são tratados como suspeitos a encaminhar e outros como alvos a eliminar. Durante décadas, havia uma lógica fria mas reconhecível: captura, processo, acordo. A Guarda Costeira interceptava lanchas rápidas — os “go-fast boats”, que deixam de ser “go-fast” quando um helicóptero desce e alguém inutiliza motores. Depois vinha Tampa. Os procuradores federais recebiam os detidos e negociavam acordos: cooperação em troca de redução de pena. O sistema não era “humano”, mas era um sistema. Extraía informação. Mapas. Rotas. Coordenadas. Alimentava centros de inteligência. Subia a escada. Rebecca Castaneda, advogada de defesa criminal em Tampa e ex-procuradora nestes casos, descreve o mecanismo sem romance: “É assim que a inteligência funciona. Sobes a escada a partir deste tipo de casos. Alimenta o quadro geral.” Só que a 5 de fevereiro de 2025 foi publicado um memorando da procuradora-geral Pam Bondi: uma orientação para que os procuradores deixassem de acusar “traficantes de narcóticos de baixo nível” ao abrigo da lei usada contra contrabandistas intercetados no mar. Em teoria, o foco passaria para “alvos de topo”. Na prática, o que secou foi a engrenagem. Muitos dos detidos, agora, acabam repatriados ou deportados depois de um interrogatório curto. Sem processo. Sem acordo. Sem incentivo para colaborar. E sem a velha fábrica de informação a trabalhar. É aqui que a contradição se torna mais do que moral — torna-se operacional, quase absurda. Um sistema que dependia de gente viva a falar é substituído por dois extremos: deportação rápida (que corta o incentivo a cooperar) e morte imediata (que corta qualquer hipótese de falar). No meio disto, continuam as rotas, continua a procura, continua o dinheiro. Os homens apanhados nestas operações são, quase sempre, o mesmo tipo de gente: equatorianos, colombianos, alguns venezuelanos. Pobres. Sem saberem falar inglês. Por vezes mal alfabetizados em espanhol. Não são donos dos barcos. Muitas vezes recebem um GPS com coordenadas programadas e pouco mais. Ben Stechschulte, advogado de defesa em Tampa, representou dezenas deles ao longo dos anos. E não tem paciência para mitos: “Não estamos a falar de Pablo Escobars. São pescadores pobres. Fazem contas e arriscam.” Uma frase de Castaneda cai como uma lâmina porque é verdadeira e feia: para os traficantes, estas pessoas são descartáveis. Trocam-se como se troca um objeto barato. E, mesmo assim, a narrativa oficial desta nova fase chama-lhes outra coisa: “combatentes”. Trump declarou formalmente que os Estados Unidos estão em estado de conflito armado com cartéis de droga. A Casa Branca usa essa formulação para defender que os ataques aéreos são legais. Uma parte grande de especialistas em direito internacional e doméstico discorda: contrabando não é, por si, estatuto militar; civis em barcos não são automaticamente alvos legítimos; “ameaça iminente” não nasce de um comunicado. Mas a administração mantém os ataques. E os números vão ficando como se fossem só números. Pelo menos 107 mortos desde setembro, segundo o que tem sido reportado. Entretanto, a atividade policial no mar continua quase como sempre. Entre 1 de setembro e 30 de novembro, período em que os militares destruíram 22 embarcações e mataram 83 pessoas, a Guarda Costeira intercetou 38 embarcações suspeitas. Três a mais do que no mesmo período de 2024. Ou seja: não houve uma “mudança de mar”. A máquina de interceção continua. Continua a abordagem. Continua a apreensão. Continua a detenção — só mudou o destino. E repare nisto, porque é um detalhe que diz muito: nos últimos cinco anos, segundo a própria Guarda Costeira, houve um único caso de um suspeito morto a tiro durante uma interceção. Um episódio descrito como abalroamento que colocou a equipa em risco. De resto, o padrão é não letal. A Guarda Costeira, no terreno, trata isto como missão policial. Noutras águas (mas nas mesmas rotas), trata-se como teatro de guerra. Stephen M. Crawford, advogado em Tampa há cerca de trinta anos nestes casos, chamou aos ataques aéreos “teatro político perturbador” e foi direto ao assunto: “Nós não temos pena de morte para traficantes de droga neste país.” A frase é simples e, por isso, insuportável. Porque obriga a perguntar: então o que é isto? A incoerência começa a crescer para todo o lado. A campanha é apresentada como resposta ao fentanil nos Estados Unidos, mas as apreensões marítimas de que se faz espetáculo são, esmagadoramente, de cocaína. E, nestas rotas das Caraíbas e do Pacífico Oriental, o fentanil aparece pouco e em quantidades residuais: cerca de 17 kg em 2021, 5 kg no ano anterior, e 113 gramas em 2023. Desde 2003, aparece apenas em três anos de apreensões nessa zona, e sem expressão comparável à cocaína. Depois há a história do primeiro ataque nas Caraíbas, alegadamente contra onze membros do gang venezuelano Tren de Aragua — chamados “terroristas” a transportar narcóticos rumo aos Estados Unidos. Advogados e investigadores que vivem destes casos levantam a sobrancelha por razões básicas: a logística. Os barcos de tráfico não costumam desperdiçar combustível e espaço a levar “passageiros” a mais, e muitos nem têm autonomia para chegar onde a retórica diz que iam chegar. E há, ainda, a carta divulgada em dezembro pelo senador Rand Paul indicando que mais de um quinto das embarcações suspeitas paradas pela Guarda Costeira (entre setembro de 2024 e outubro de 2025) não tinha droga a bordo. Isto não prova inocência automática, mas mostra o risco de transformar suspeita em sentença, e sentença em explosão. A contradição central continua a ser a mesma, e ninguém a resolve: por um lado, estas pessoas são tratadas como tão perigosas que “merecem” morte imediata. Por outro, quando são apanhadas vivas, tornam-se tão “menores” que nem valem um processo — deportação, repatriação, acabou. Se são “combatentes”, por que são deportados como irrelevantes? Se são irrelevantes, por que são mortos como ameaça? Um agente federal, falando sob anonimato, resumiu o lado operacional disto com frieza: matar e deportar quebra a cadeia de inteligência. Porque mortos não dão informação e deportados, sem processo e sem acordo, também não têm incentivo para falar. O velho ciclo — captura, interrogatório, cooperação, inteligência — começa a desfazer-se não por falhar, mas por ser desligado. Voltemos ao Stone. A Guarda Costeira apresentou esta patrulha como “a maior apreensão de cocaína numa única missão”: 49 010 libras, o que corresponde a cerca de 22 231 kg (aprox. 22,2 toneladas), provenientes de quinze interceções, valor estimado em 362 milhões de dólares. A fotografia mostra a carga. Não mostra as pessoas. Das 36 detidas, 29 foram mandadas de volta para o Equador antes de o navio atracar. As restantes seguiram para o Departamento de Justiça, provavelmente para um interrogatório e uma deportação que ninguém filma. Nenhuma morreu. Mas, no mesmo período, 83 morreram do céu, nas mesmas rotas onde a Guarda Costeira continua a operar como polícia. É isto que fica desta semana: duas Américas a funcionar ao mesmo tempo, na mesma água, com a mesma palavra (“guerra”), e com duas consequências que não podem ser reconciliadas. E, de repente, a frase de Crawford deixa de ser opinião e passa a ser pergunta: se não temos pena de morte para traficantes de droga, o que é isto — e quem decidiu que podia ser? #AtlanticLisbon #GuerraÀDroga #EUA #GuardaCosteira #Caraíba #AméricaLatina #Narcotráfico #DireitoInternacional #PolíticaExterna #Segurança
- O Futuro Não Eleito da Inteligência Artificial
Naquela tarde de 9 de dezembro de 2025, o Senado dos Estados Unidos tinha o seu ar habitual de catedral laica: madeira polida, bandeiras, uma solenidade que parece pedir sempre uma frase bem vestida. O que se ouviu, porém, não foi um discurso bem vestido. Foi uma sequência de perguntas ditas com a voz de quem já não tem paciência para cerimónias — nem para o tipo de optimismo tecnológico que se vende como se fosse sabonete: “lava tudo, resolve tudo, cheira bem”. Bernie Sanders subiu à tribuna como sobe há décadas: sem encanto, sem treino de televisão, sem sorriso calculado. Um homem com mais de oitenta anos, cabelo desalinhado, cara de quem dorme pouco e carrega demasiados países dentro da cabeça. Em teoria, Sanders é uma peça antiga. Na prática, o momento que vivemos é tão novo — e tão mal governado — que um homem antigo pode, de repente, soar como a única pessoa na sala a não estar a fingir. Sanders não foi ali falar dos seus temas de sempre, ou pelo menos não os trouxe pelo caminho habitual. Não fez o sermão clássico sobre Wall Street, não se limitou a repetir que o salário mínimo é indecente. Falou de inteligência artificial. E falou dela como se fala de poder — não como se fala de gadgets. Porque o problema, o bruto problema, é este: estamos a construir uma estrutura que vai mandar na vida de toda a gente, e estamos a fazê-lo com uma leveza moral que mete medo. Ele fez sete perguntas. Não no sentido escolar, de “vamos lá ver se a turma aprendeu”. No sentido de um diagnóstico: quando alguém não sabe o que está a fazer, começa a narrar. Quando alguém sabe que está a entrar numa zona perigosa, pergunta. E há perguntas que são uma forma de travão de mão. A primeira, a mais incómoda, foi a que deveria estar colada na porta de cada laboratório, de cada conselho de administração, de cada palco de conferência tech: quem controla a inteligência artificial? Quem está, de facto, a escrever as regras invisíveis do futuro? A conversa pública sobre IA tem sido uma coisa estranha. Por um lado, é tudo inevitável: “vai acontecer”, “não dá para parar”, “é como a electricidade”, “é como a internet”. Por outro, quem decide quase tudo são meia dúzia de pessoas e empresas. Isto é o truque. Dizem-nos que é inevitável para nos calarmos; depois, fazem as escolhas em privado como se fossem proprietários do destino humano. Sanders apontou nomes que já nem precisam de apresentação: Elon Musk, Jeff Bezos, Bill Gates, Larry Ellison — gente que tem dinheiro suficiente para comprar tempo, comprar influência, comprar portas. Gente que, em alguns casos, diz abertamente que despreza reguladores e que vê o Estado como um incómodo. O que Sanders perguntou — sem floreados — foi se é aceitável que esta elite molde a próxima etapa da vida coletiva sem prestar contas a ninguém. A pergunta é simples e, por isso mesmo, brutal: desde quando é que o futuro deixou de precisar de eleições? Desde quando aceitamos que decisões que afetam trabalho, informação, vigilância, intimidade, saúde, educação e guerra sejam tomadas como se fossem decisões de produto? Depois veio a pergunta que cai em cima do estômago, porque tem a ver com o que paga a renda e o que põe comida na mesa: o que acontece ao trabalho? Não ao “emprego do futuro” num slide bonito, mas ao trabalho real — o trabalho que tem horários, chefes, turnos, dores nas costas, e que termina com alguém a abrir a carteira no supermercado e a fazer contas. Sanders levou números. E os números, nestas coisas, não são profecia, são aviso. A automação e a robótica podem empurrar para fora do mercado dezenas de milhões de postos. As estimativas variam — e há sempre quem diga “não vai ser assim”, “vai criar novos empregos”, “foi assim na revolução industrial”. Tudo isso pode ser verdade em parte. Mas a escala e a velocidade são diferentes, e o tipo de substituição também. Havia percentagens duras no que ele referiu: uma fatia enorme do fast food, parte relevante de camionistas, contabilistas, assistentes educativos, um pedaço grande da enfermagem. Não interessa aqui discutir se o número exato é 40% ou 35% ou 45%. O que interessa é o mecanismo: quando uma tecnologia promete eficiência, a primeira coisa que corta é gente. E a segunda coisa que corta é poder negocial. Porque um trabalhador que sente que pode ser substituído amanhã trabalha hoje com medo. E o medo é uma forma de governo. É aqui que a conversa costuma ficar cínica. Dizem: “é o progresso”. Mas progresso para quem? Se a produtividade aumenta e os lucros disparam, mas o cidadão comum perde estabilidade, perde salário, perde tempo, perde dignidade, então não estamos a falar de progresso. Estamos a falar de um saque — um saque com ar de modernidade. Depois Sanders entrou na democracia. E aqui a rudeza é necessária, porque há um tipo de discurso tecnológico que se comporta como se a democracia fosse um detalhe irritante. “Depois logo vemos.” “Não travem a inovação.” “Não compliquem.” É exatamente assim que as coisas descarrilam: primeiro chamam “complicação” às regras; depois chamam “inevitável” ao abuso. A pergunta foi: o que acontece à democracia num mundo de vigilância algorítmica? Sanders invocou ideias associadas a Larry Ellison sobre vigilância em tempo real: sistemas capazes de registar e analisar movimentos, palavras, compras, deslocações, interações. O panóptico, só que sem torre e sem carcereiro visível. Um panóptico onde o carcereiro é um sistema, e onde a punição nem precisa de ser prisão: basta ser classificação, exclusão, predição, manipulação. A palavra “privacidade” já anda com ar de peça de museu. O nosso tempo tem uma habilidade especial para normalizar o que devia causar alarme. Sentimos aquela inquietação leve quando um anúncio parece saber demais, mas passamos à frente como quem espanta uma mosca. O problema é que uma mosca hoje é um enxame amanhã. E, quando damos por ela, a democracia está sentada numa cadeira a olhar para o chão, porque percebe que deixou de controlar as condições básicas da liberdade. Democracia não é só votar de quatro em quatro anos. É ter margem para discordar, para mudar de ideias, para experimentar sem ser imediatamente punido. É poder existir sem ser um ficheiro. Se tudo é rastreado e tudo é analisado, a dissidência torna-se estatística. E uma dissidência estatística é uma dissidência controlável. Depois ele foi ao ponto que mais gente tenta evitar, porque é o ponto que obriga a falar de fragilidade humana sem ironia: o que acontece à nossa humanidade? Sanders falou de solidão. Falou de adolescentes que já recorrem a “companheiros” de IA como forma de companhia. Os números citados em estudos recentes são esmagadores. E, mesmo que o número exato mude de estudo para estudo, o fenómeno é real: há miúdos a conversar com máquinas para não conversarem com pessoas. Há jovens a preferirem o conforto do algoritmo à fricção humana. Aqui convém abandonar a pose. Isto não é uma curiosidade sociológica. Isto é um sinal. Quando uma geração cresce a treinar a intimidade com uma entidade que nunca se zanga, nunca se afasta, nunca tem dias maus, nunca diz “agora não me apetece”, nós estamos a educar seres humanos para um tipo de relação que não existe. Estamos a ensinar que o outro deve ser sempre disponível, sempre gentil, sempre útil. E, depois, quando a vida real aparece — com pessoas reais, com limites reais — a vida real parece defeituosa. Parece “menos boa”. Parece “menos eficiente”. E é aí que começa uma espécie de miséria afetiva que não se resolve com tecnologia nenhuma. Sanders citou John Donne (“nenhum homem é uma ilha”) para lembrar a interdependência. Eu diria isto de forma menos elegante: sem relação humana a sério, ficamos mais burros e mais cruéis. Porque a empatia não nasce de discursos. Nasce de choques, de reconciliações, de aprender a lidar com alguém que não é programado para nos agradar. Depois veio o tema que os evangelistas da “nuvem” detestam: o chão. Qual é o custo ambiental disto tudo? A “nuvem” é uma mentira semântica confortável. Sugere leveza. Sugere invisibilidade. Sugere que nada pesa. Mas a IA pesa. Pesa muito. Pesa em energia, em água, em metais, em território, em infraestruturas gigantescas, em centros de dados que precisam de arrefecimento constante. Sanders falou de consumo eléctrico comparável ao de dezenas de milhares de casas e, em projetos maiores, de centenas de milhares. E, mais importante do que o número, é a lógica: a tecnologia não é etérea; é material. Ela ocupa terra, exige recursos, gera conflitos locais. E quem paga isso raramente é quem beneficia mais. Há comunidades que ficam com o ruído, a pressão sobre redes eléctricas e hídricas, a transformação do território; e há acionistas que ficam com a valorização. Isto é velho como o mundo, apenas mudou a embalagem. A seguir veio a pergunta que muita gente evita porque estraga o almoço: como é que isto muda a guerra? A guerra, tal como a conhecemos, tem um travão político essencial: os mortos próprios. Um governo pensa duas vezes quando sabe que vai mandar jovens para morrer e que isso vai ter consequências internas. Mas se o combate se fizer com drones, sistemas autónomos, “robôs-soldado”, se o custo humano directo for menor para quem ataca, então o travão moral e político enfraquece. A tentação aumenta. A guerra torna-se mais “administrável”. E uma guerra administrável é uma guerra mais provável. Isto não é alarmismo. É só olhar para a história com olhos limpos. Os Estados fazem o que conseguem justificar. Se a tecnologia lhes facilitar a justificação — “não morremos nós”, “é cirúrgico”, “é preciso” — então o mundo fica mais perigoso. Não necessariamente porque os líderes se tornam mais maus; mas porque o custo de ser mau diminui. Por fim, Sanders entrou na pergunta mais profunda e mais fácil de ridicularizar — e por isso mesmo mais importante: podemos perder o controlo? Ele citou Geoffrey Hinton, figura central da IA moderna, que alertou publicamente para riscos de sistemas ultrapassarem a nossa capacidade de supervisão. E invocou o imaginário de 2001: A Space Odyssey, com HAL a virar-se contra os criadores. É tentador tratar isto como cinema. Mas o risco real não é o robô assassino com voz calma. O risco real é mais prosaico e mais aterrador: é dependermos de sistemas que ninguém entende totalmente, que ninguém consegue auditar por inteiro, e que, mesmo assim, passam a decidir coisas vitais. É a civilização a operar com caixa negra. E, quando a caixa é negra, o poder desloca-se. Desloca-se para quem controla a caixa, para quem sabe mexer nela, para quem tem acesso aos dados, para quem tem o direito de desligar ou ligar. Desloca-se, muitas vezes, para fora do espaço democrático. No meio destas sete perguntas, há um fio que as cose: o poder. Não a IA como fenómeno técnico, mas a IA como reorganização de poder. Sanders não está a dizer “parem a tecnologia”. Está a dizer “parem a estupidez política”. Parem de agir como se o futuro fosse uma questão privada. Parem de confundir inovação com inevitabilidade. Parem de chamar “liberdade” ao direito de meia dúzia de empresas rearranjarem a vida dos outros sem discussão pública. Há um tipo de conversa que domina a nossa época e que é, francamente, covarde: “isto vai acontecer, portanto adaptem-se.” É a conversa de quem quer o conforto de não decidir. Mas um futuro que “vai acontecer” sem decisão coletiva é um futuro tomado. É um futuro apropriado. O que Sanders fez naquele dia, no Senado, foi recusar essa apropriação como se fosse normal. E isso, neste tempo de propaganda optimista e de medo silencioso, é um ato político raro. Um homem velho a lembrar que democracia não é um adereço. É o mecanismo — frágil, irritante, lento — que impede que o futuro seja capturado por quem tem mais dinheiro e menos escrúpulos. No fim, tudo isto pode ser dito numa frase que não tem glamour nenhum: o futuro é demasiado importante para ser deixado aos donos da tecnologia. E é precisamente por não ter glamour que a frase serve. O glamour, nestes assuntos, costuma ser a antecâmara da fraude. Talvez a esperança — se é que a palavra ainda pode ser usada sem cinismo — esteja mesmo nesta insistência pouco elegante de Sanders. Não porque ele tenha respostas perfeitas. Mas porque ele se recusa a aceitar a pergunta falsa que nos empurram: “o que pode a IA fazer?” A pergunta verdadeira é outra: quem manda, quem paga e quem fica de fora? O resto é conversa bonita. E, nesta fase, já tivemos conversa bonita suficiente para uma vida inteira. Autor: Aurelian Draven O Futuro Não Eleito da Inteligência Artificial #AtlanticLisbon #AurelianDraven #InteligenciaArtificial #IA #Tecnologia #Democracia #Poder #VigilanciaDigital #Privacidade #Trabalho #Automacao #Robots #DataCenters #Ambiente #Geopolitica #Futuro
- O Lugar Onde Já Não Se Pode Falar
Durante muito tempo, a China viveu num equilíbrio instável, mas funcional. Não era uma democracia. Nunca foi. Mas também não era um deserto. Nos anos 1990 e 2000, havia zonas cinzentas. Espaços onde se discutia. Onde se escrevia com cuidado, mas sem pânico. Onde uma reportagem podia incomodar alguém sem destruir uma carreira inteira. China vs Japão: - Quando a praça pública desaparece. Universidades abertas. Livrarias cheias. Auditórios improvisados. Nada disto era garantido. Mas existia. A geração que hoje pratica Runxue cresceu nesse intervalo. Não nasceu no silêncio absoluto. Nasceu na expectativa de que o espaço público poderia alargar-se, ainda que lentamente. O choque veio quando percebeu que esse espaço não estava apenas a estagnar. Estava a encolher. E que o encolhimento não era episódico, mas estrutural. Primeiro vieram as palavras novas. “Orientação correta”. “Benefício social”. “Energia positiva”. Depois vieram as grelhas de avaliação. Por fim, vieram as ausências. Livros que deixaram de ser publicados sem explicação clara. Eventos cancelados sem aviso. Convites que deixaram de chegar. A repressão raramente se apresenta como um murro. Apresenta-se como um sistema de incentivos. Quem aprende a evitar certos temas continua. Quem insiste neles, desaparece lentamente. Para muitos, o momento de rutura não foi uma prisão nem um interrogatório. Foi algo mais banal — e mais corrosivo. Foi perceber que já estavam a escrever com medo antes mesmo de alguém os mandar calar. A partir daí, tudo muda. A praça pública não fecha oficialmente. Torna-se inútil. A Universidades reforçam controlos de acesso. Estranhos deixam de poder entrar. Editores passam a cortar passagens inteiras para proteger equipas.Advogados aprendem que certas causas custam licenças. O Estado não precisa de proibir tudo. Precisa apenas de tornar o custo psicológico demasiado alto. É aqui que a fuga começa — muito antes do avião. Começa quando alguém decide não propor um tema. Quando alguém apaga uma frase antes de a guardar. Quando alguém se pergunta, em silêncio, se vale a pena continuar. Runxue nasce nesse ponto. Não como ideologia, mas como constatação. Sair torna-se uma forma de preservar a sanidade. Mas sair não resolve tudo. O medo não é territorial. É aprendido. Muitos dos que partem continuam a falar baixo. Continuam a evitar nomes próprios. Continuam a usar metáforas quando já não são necessárias. Durante os protestos do “papel branco”, em 2022, isso tornou-se evidente. Chineses no estrangeiro manifestaram-se em cidades onde a polícia não os conhecia. Ainda assim, muitos taparam o rosto. Outros pediram para não ser fotografados. Depois vieram as chamadas para casa. Famílias contactadas. Pais avisados. Irmãos “aconselhados”. A mensagem era simples: a distância não protege completamente. Este é talvez o elemento mais perturbador da atual diáspora chinesa: a repressão não termina na fronteira. Estica-se. Acompanha. E mesmo assim, algo resiste. Porque o silêncio absoluto também tem um custo. Alguns decidem falar, apesar de tudo. Outros criam espaços pequenos, quase invisíveis. Reuniões privadas. Leituras em salas emprestadas. Podcasts com nomes neutros. Não é dissidência clássica. É sobrevivência cultural. O objetivo não é derrubar o regime. É não desaparecer por dentro. China vs Japão Há uma diferença fundamental entre exílio político do século XX e este movimento atual. Antes, muitos partiam com a ideia de que estavam fora da história. Hoje, muitos sentem que carregam a história consigo. Não querem substituir a China. Querem preservar uma versão dela que já não tem lugar no território. Isso cria uma tensão constante. Entre falar e calar. Entre agir e acumular. Alguns chamam-lhe covardia. Outros chamam-lhe prudência. Na prática, é uma negociação diária com o medo. E talvez seja isso que distingue esta geração: não acredita em gestos finais. Acredita em adiamentos. Em ganhar tempo. Em manter portas entreabertas. Runxue não é um manifesto. É um sintoma. Quando uma sociedade deixa de conseguir absorver as suas próprias perguntas, essas perguntas deslocam-se. Quando não podem ser feitas em casa, são feitas fora. Quando não podem ser feitas em voz alta, são feitas em salas pequenas. A praça pública não desaparece. Migra. E a pergunta que fica não é se isto enfraquece a China ou a fortalece. É outra, mais simples e mais dura: Que país precisa de perder os seus próprios pensadores para continuar a funcionar? Essa resposta ainda não existe. Mas o silêncio que a rodeia é cada vez mais maior. Autor: Atlantic Lisbon China vs Japão #China #Japao #Runxue #DiasporaChinesa #Exilio #Sociedade #LiberdadeDeExpressao #Censura #Tokio #Cultura
- Moscovo acusa; Kiev nega; não há registo visual no local
NOTÍCIA · Mundo · Rússia/Ucrânia · Guerra. Um vídeo divulgado pelo Ministério da Defesa russo mostra um militar mascarado ao lado de destroços que Moscovo identifica como um drone abatido. É, até ao momento, o único elemento visual apresentado publicamente pelas autoridades russas para sustentar a alegação de que a Ucrânia teria tentado atingir uma residência associada a Vladimir Putin na região de Novgorod, a noroeste de Moscovo. Segundo a versão russa, o episódio ocorreu na noite de domingo para segunda-feira e terá envolvido 91 drones de combate lançados a partir de território ucraniano. Serguei Lavrov afirmou que Moscovo irá endurecer a sua posição nas conversações conduzidas com os Estados Unidos e indicou que uma resposta militar está em preparação, com alvos já definidos. A Ucrânia rejeitou a acusação e classificou-a como falsa. Em Kiev, a leitura é a de que a narrativa russa procura criar margem para alterar a linha negocial e justificar um endurecimento no terreno, num momento em que o tema das conversações voltou a ocupar espaço na agenda internacional. O ponto mais frágil do relato é a falta de confirmação independente. Até ao momento, não foram divulgados registos publicamente verificáveis — imagens no local, danos documentados, incêndios ou impactos — que comprovem o que Moscovo diz ter sido visado. Noutros casos anteriores, ataques em território russo ou próximo da linha da frente foram frequentemente acompanhados por vídeos de testemunhas, registos de câmaras ou sinais materiais rapidamente identificáveis. Aqui, esse rasto não apareceu. A União Europeia também reagiu, com responsáveis europeus a considerarem a alegação russa não comprovada e potencialmente útil para desviar o foco e endurecer as posições numa fase sensível do diálogo político. A mensagem central, em Bruxelas, é a de que a acusação não apresenta base verificável no terreno. Do lado norte-americano, a informação avançada pelos meios de comunicação dos EUA aponta no mesmo sentido: a avaliação atribuída a responsáveis de segurança nacional não corrobora que a Ucrânia tenha visado Putin ou propriedades associadas ao presidente russo. A Rússia mantém a versão e tenta reforçá-la com detalhes operacionais e material audiovisual controlado por si. Mas a ausência de verificação externa deixa o caso num espaço intermédio: há acusação oficial e há uma peça de vídeo colocada no domínio público, porém falta o elemento decisivo para fechar o circuito factual — prova independente do impacto e da localização ou provas robustas da parte da Federação Russa. O efeito imediato é político. Moscovo usa a alegação para justificar um possível endurecimento da sua posição nas negociações e para enquadrar ações futuras como resposta a uma escalada atribuída à Ucrânia. Kiev e vários parceiros europeus leem o episódio como instrumento de pressão, destinado a condicionar o terreno negocial e a narrativa pública do conflito. Nos próxima semanas, o essencial será simples: ou surgem elementos independentes que confirmem danos e enquadramento do alegado ataque, ou a história ficará marcada sobretudo como um episódio de acusação sem suporte verificável, usado para ganhar margem política num conflito em que a prova pública, muitas vezes, pesa tanto como a ação militar. Autor: Atlatinc Lisbon Alegado ataque à residência de Putin sem provas #Ucrania #Russia #Putin #Drones #Novgorod #GuerraNaUcrania #Diplomacia #UniaoEuropeia #EUA #SegurancaInternacional #Propaganda #NegociacoesDePaz
- O Socialista que Ganhou a Cidade Comprada
POLÍTICA · Atlantic Lisbon · EUA/Nova Iorque · Poder Nova Iorque, 2 de janeiro de 2026. Ontem, 1 de janeiro, Zohran Mamdani tomou posse como presidente da Câmara. Tem 34 anos, é socialista democrático, passou cinco anos como deputado, criticou abertamente Israel — e ninguém, literalmente ninguém, apostava que isto pudesse acontecer. O Socialista Que Ganhou a Cidade Que o Bilionário Tinha Comprado. Até que aconteceu. E aconteceu contra 28,4 milhões de dólares despejados em Super PACs para empurrar Andrew Cuomo para cima da linha de água. Aconteceu contra Michael Bloomberg, o antigo presidente da Câmara, bilionário, que meteu 9,5 milhões para tentar travar Mamdani. Aconteceu porque Mamdani tem 11 milhões de seguidores no Instagram e percebeu uma coisa que os velhos aparelhos fingem não entender: atenção vale mais do que dinheiro. Ou, pelo menos, nesta eleição valeu. Dois homens, duas Nova Iorques Há 24 anos, Nova Iorque abriu a porta a outro novato improvável. Michael Bloomberg tinha 59 anos, vinha do mundo das finanças e dos media e acabou por ficar três mandatos. Chamou à cidade um “produto de luxo” — e disse-o como quem elogia uma montra. Mamdani parte da premissa oposta: as pessoas deviam poder viver aqui sem empobrecer só por respirarem. Bloomberg e Mamdani não são aliados. Nem sequer habitam o mesmo planeta político. Mas, estranhamente, são dois outsiders que mexeram — ou prometeram mexer — nas regras do jogo. E há paralelos desconfortáveis. Ambos chegam ao poder sem aquela teia antiga de favores, dívidas e amizades úteis que se acumula quando se anda décadas a subir degraus. Ambos podem contratar sem terem de “pagar” o passado. E ambos representam uma ideia legível da cidade, quase como um cartaz: Bloomberg era o homem do dinheiro que queria tornar a cidade mais “fina”; Mamdani é o homem da acessibilidade que quer tornar a cidade habitável. Bloomberg ajudou a transformar partes de Brooklyn em vidro e arranha-céus; deu a Manhattan o Hudson Yards e o High Line. A Nova Iorque dele era caríssima, mais homogénea do que gosta de admitir, e policiada com músculo. Mamdani cresceu nessa cidade. E a visão dele — aquilo a que o jornalista Eric Lach chamou “o Universo Cinemático Mamdani” — soa, muitas vezes, como reação: bairros exteriores diversos, pequenas lojas, camaradagem de metro, aquela vida onde se aprende a cidade com o corpo e não com relatórios. É filho do Upper West Side que fez casa em Astoria. É um detalhe pequeno, mas em Nova Iorque os detalhes pequenos pesam. Talento, talento, talento Em setembro, Mamdani e Bloomberg encontraram-se. A conversa foi, segundo Howard Wolfson (assessor de Bloomberg há décadas), “definitivamente cordial”. Falaram de uma coisa prosaica e decisiva: contratar e reter talento. Bradley Tusk, que serviu na administração Bloomberg e geriu a campanha de 2009, disse: “O Mike era talento, talento, talento. A coisa que ele fez melhor, de longe, foi convencer muita gente talentosa a trabalhar no governo municipal.” Mamdani parece ter percebido a lição, mesmo vindo de outra escola. Chamou Lina Khan — antiga directora da Comissão Federal de Comércio, inimiga declarada de certos confortos empresariais — para a equipa de transição. No fim de novembro, a equipa reportou que mais de 70 mil pessoas tinham submetido candidaturas online para trabalhar na administração. Bloomberg tinha fama de dar autonomia real aos nomeados. Quando Elizabeth Kolbert o entrevistou para a New Yorker em 2002, um comissário contou que Bloomberg lhe disse apenas isto ao dar-lhe o cargo: “É a tua agência — não estragues tudo.” Não é impossível imaginar Mamdani a precisar do mesmo tipo de autonomia técnica. A campanha dele foi disciplinada, repetiu poucas propostas, insistiu nelas até ao osso. Isso costuma ser sinal de alguém que sabe que, depois, terá de pôr gente competente a mexer peças. “Alguém descreveu o Zohran como tecnocrata socialista”, recordou Tusk. “E, quando se trata de governo municipal, não vejo grande diferença entre um tecnocrata capitalista e um tecnocrata socialista. Se ele for tecnocrata como o Mike foi, será bom presidente da Câmara.” Nem todos os antigos de Bloomberg compram a comparação. Wolfson disse: “A chave do sucesso do Mike foi a gestão de classe mundial. Ele sabia atrair e reter talento e sabia cumprir objetivos porque andava a fazê-lo há anos. Não tenho a certeza de qual é a comparação apropriada aqui.” Dinheiro vs. atenção A eleição de 2025 foi, entre outras coisas, um choque entre dinheiro e atenção. Cuomo recebeu 28,4 milhões de Super PACs na eleição geral — “o maior montante alguma vez gasto para apoiar um único candidato em Nova Iorque por Super PACs”, segundo o grupo Citizens Union. E, “de facto”, acrescentaram, a comparação mais óbvia é com as campanhas auto-financiadas e destruidoras de orçamento de Bloomberg nos anos 2000. Dinheiro é a assinatura de Bloomberg desde que entrou na vida pública: dinheiro levou-o à Câmara, o dinheiro moldou o seu estilo, o dinheiro continua a ser a sua linguagem política preferida. Mas Mamdani comanda outra moeda: atenção. E atenção — já o vimos noutros lugares, por outros protagonistas — não precisa de pedir licença. Nesta eleição, a atenção venceu sem discussão. O que vem depois Depois do sucesso de Mamdani, há quem resuma tudo a “fazer vídeos curtos melhores”. É uma leitura preguiçosa. O que ele fez não foi só comunicar: foi criar ligação, e criar ligação sem aquele suor visível que, tantas vezes, passa por “carisma” na política. O modelo Bloomberg de proximidade era contar pedaços de lixo pela janela de um carro com motorista. O modelo Mamdani é mais de rua, mais de mão na massa, mais de corpo na cidade — para ele e para quem o segue. E isso mexe com uma geração que, em Nova Iorque, anda há anos a procurar comunidade onde só encontra uma renda. Um voluntário disse ao Times: “As pessoas com quem vou jantar, as pessoas com quem vou a concertos — o meu dia a dia está organizado em torno de Mamdani.” É uma frase bonita, e ao mesmo tempo perigosa. Porque o governo municipal não é um movimento: é orçamento, contratos, greves, lixo, metro avariado, polícia, tribunais, emergências. É o quotidiano a morder. A maratona “The Mayor Is Listening” — 12 horas de conversas individuais com cidadãos no mês passado — sugere que Mamdani sabia isto. Também o sugeriu o lançamento de Our Time, o grupo pós-campanha para mobilizar apoiantes em favor da agenda, trabalhando com a base de dados de voluntários, mas sem o envolvimento direto do novo presidente da Câmara. A questão com qualquer tipo de capital — político ou outro — é simples: se parar, perde-se. A cidade à beira de algo novo Bloomberg também chegou ao poder num tempo de incerteza aguda. Em 2002, o 11 de setembro era ferida aberta, e a cidade ainda não tinha percebido o tamanho da fatura. Em 2026, a ameaça iminente sente-se de outra forma: mais ligada ao governo federal, à possibilidade de agentes mascarados do ICE, à sombra da Guarda Nacional nas ruas, à sensação de que a cidade pode voltar a ser palco — não por escolha, mas por imposição. Entra então em palco uma figura que confunde expectativas. Ninguém sabe bem o que vai acontecer. A cidade está à beira de algo novo. Mamdani prometeu autocarros rápidos e gratuitos. Prometeu Nova Iorque acessível. Prometeu participação. Se consegue cumprir — ou se a atenção se dissolve quando começa o trabalho real — é história que ainda não foi escrita. Mas uma coisa já aconteceu, e essa não volta atrás: a cidade que Bloomberg comprou, Mamdani ganhou-a sem gastar quase nada. E isso, por si só, já mudou as regras. Autor: Atlantic Lisbon O Socialista que Ganhou a Câmara #NovaIorque #EUA #Política #Mamdani #CâmaraMunicipal #Eleições #Poder
- O General Que Esperou Dois Anos Pelo Golpe Fatal
HISTÓRIA · Atlantic Lisbon · Portugal/Espanha · Conspiração. Lisboa, 26 de abril de 1934, manhã. O navio holandês Baloeran chega de Gibraltar e encosta ao cais. Não é um desembarque de rotina. Há gente à espera. Portugueses. Espanhóis já instalados em Portugal. Curiosos e simpatizantes misturados, sem uma fronteira nítida entre o folclore do momento e a política que o alimenta. O General Que Esperou Dois Anos Pelo Golpe Que o Mataria. Do convés descem José Sanjurjo y Sacanell, a esposa, os filhos Justo e Pepe, e Ricardo Goizueta, amigo. O general não aparece como visitante. Aparece como um homem que foi preso, amnistiado, e que escolheu este lado da fronteira para viver enquanto a outra metade da Península fervilha. O jornalista Félix Correia, do Diário de Lisboa, descreveria anos depois a atmosfera dessa chegada num pequeno livro publicado em 1940. Na sua memória, o cais não foi apenas um lugar de passagem. Foi palco. Houve “vivas”. “Vivas” a Espanha. “Vivas” ao general. E a palavra “general”, ali, não era simples etiqueta. Era um sinal. Sanjurjo tinha 62 anos. Trazia consigo dois anos de prisão e uma tentativa falhada de golpe de Estado. Trazia também a reputação de ser uma das figuras mais importantes do campo que, desde 1931, olhava para a República espanhola como se olhasse para uma usurpação. O país que deixara para trás vivia desde 14 de abril de 1931 sob a Segunda República. No centro do novo regime destacavam-se nomes como Manuel Azaña e Niceto Alcalá-Zamora. A coligação republicano-socialista empurrou reformas e escolhas que dividiram Espanha: laicismo e anticlericalismo, reformas financeiras e de propriedade, reconfigurações na hierarquia militar, e cedências às autonomias catalã, basca e galega. Para monárquicos, católicos, latifundiários e parte dos militares, o conflito deixou de ser abstrato. Tornou-se método, e o método tinha uma gramática: conspiração, tentativa, recuo, nova tentativa. Sanjurjo não era um recém-chegado à máquina do Estado. Era um homem que a conhecia por dentro. Nasceu em Pamplona, em março de 1872, ainda no clima político que antecede a chamada Restauração Bourbon. Serviu no reinado de Afonso XIII e alinhou-se com a ditadura de Miguel Primo de Rivera a partir de 1923. Entre 1928 e 1932, ocupou o cargo de diretor-geral da Guardia Civil — um posto que, na Espanha desse tempo, significava ter nas mãos um instrumento decisivo da ordem pública. Nos primeiros meses da Segunda República, Sanjurjo não foi imediatamente empurrado para fora. Continuou a exercer funções e chegou a ser nomeado Alto-Comissário em Marrocos pelo ministro da Guerra — o próprio Azaña. Mas o texto histórico que serve de base a esta narrativa descreve uma erosão rápida. Ao longo de 1931 surgem divergências. O general reage ao desencadear de perseguições religiosas, à repressão dirigida a companheiros associados ao período ditatorial anterior e a assassinatos que agravam a tensão social. A destituição da direção da Guardia Civil cristaliza a rutura: Sanjurjo deixa de ser homem do regime e passa a ser homem contra ele. A 10 de agosto de 1932, lidera uma revolta em Sevilha contra o governo republicano-socialista dirigido por Azaña. O episódio ficaria conhecido como Sanjurjada. Havia, segundo o mesmo texto, a ideia de uma operação com alcance maior: ofensivas em Madrid como distração e movimentos simultâneos em cinco guarnições — Valladolid, Pamplona, Sevilha, Granada e Cádis — para depois marcharem sobre Madrid. A ambição era militar, e a lógica era a de impor uma cadeia de factos consumados. Mas a realidade foi mais pobre do que o plano. Avançaram apenas Madrid e Sevilha. A falta de coordenação e a adesão limitada condenaram a intentona. Em Sevilha, Sanjurjo decretou o estado de guerra e apresentou-se como alguém que procurava justiça, denunciando abusos e imoralidades do regime. Contou com o apoio da Guardia Civil local. Não chegou. As forças governamentais dominaram o movimento com relativa facilidade. O que acontece a seguir é revelador da proximidade mental — e física — da fronteira portuguesa para este tipo de derrotados. O texto histórico refere que Sanjurjo terá ponderado fugir para Portugal, mas decide entregar-se no dia seguinte em Huelva. No entanto, a imprensa portuguesa publicou uma versão distinta. O Diário de Lisboa avançou que o general não se entregou por vontade própria: teria sido detido quando tentava, de facto, alcançar a via de fuga. Segundo essa notícia, Sanjurjo estaria acompanhado pelo filho Justo e pelo general García de la Herrán. De madrugada, procurava informações junto de um civil sobre como chegar a Ayamonte. Um guarda civil reconhece-o e declara prisão. Sanjurjo não resiste. Por volta das oito da manhã, segue escoltado de Huelva para Madrid. Há, aqui, uma primeira imagem que fica: a da fronteira como hipótese imediata. E, por detrás, a ideia de que Portugal — mesmo antes de receber — já era considerado um possível abrigo. Sanjurjo foi julgado e condenado à morte, mas acabou indultado. Foi enviado para o penal de El Dueso, na Cantábria, onde permaneceu quase dois anos. Um dos textos científicos que acolhemos sublinha um ponto que, na política, pesa como uma decisão: a reclusão não foi particularmente dura. Pelo contrário, foi descrita como benigna, e essa brandura não funcionou como aviso dissuasor. Funcionou como sinal para o campo conservador de que a conspiração podia falhar sem fechar, para sempre, o caminho. Não admira que figuras da própria República tenham visto aí um erro. O texto menciona o socialista Juan Negrín, que considerou que o indulto fora uma falha grave: ao poupar Sanjurjo, a República facilitava futuras conspirações. Entre o final de 1933 e o início de 1934, a conjuntura espanhola muda. Forma-se um governo liderado por Alejandro Lerroux, com a direita a dominar a maioria das pastas. A posição reforça-se quando Lerroux procura apoio junto da CEDA de José María Gil Robles. Este período manter-se-á até fevereiro de 1936, quando a vitória eleitoral da Frente Popular devolverá a esquerda ao poder. Mas, no intervalo, acontece o ponto que altera a vida de Sanjurjo — e altera também o mapa político do seu exílio. A 24 de abril de 1934, é promulgada uma amnistia destinada aos conspiradores ligados à intentona de agosto de 1932. Sanjurjo é libertado no dia seguinte. A imprensa portuguesa acompanha o assunto antes de ele se consumar. O Diário de Lisboa noticiou, já a 21 de abril, um ambiente de festa em Cádis, com hotéis sobrelotados de familiares e amigos à espera. Naquele momento, o destino final do general era objeto de especulação: Lisboa ou Tânger. Dois dias depois, a imprensa mostrava maior convicção: Sanjurjo já teria passaporte para seguir para Portugal, em direção ao Estoril, aguardando apenas o decreto final para sair de Espanha, devidamente escoltado, rumo a Gibraltar — e de Gibraltar para Lisboa. O movimento torna-se mais claro quando se sabe que, a partir desse território britânico, Sanjurjo contacta espanhóis já instalados no Estoril para informar local e hora de chegada. Isso ajuda a explicar por que razão o desembarque de 26 de abril tem “aparatosa” visibilidade. E ajuda a explicar também por que surgem amigos vindos de Espanha para o receber: antigos oficiais como Emílio Esteban-Infantes Martín e Luiz Pelaz La Torre. A imprensa registou que ambos apreciaram o acolhimento das autoridades portuguesas e as facilidades concedidas pelo governo. É aqui que a história deixa de ser apenas biografia de um general espanhol e passa a ser um capítulo ibérico, com Lisboa e o Estoril a entrarem como cenário de um período de preparação. O Estoril não era uma folha em branco. Era uma região com tradição de acolhimento de estrangeiros, sobretudo de classes abastadas que aí faziam veraneio. Mas também era, já então, um espaço onde se fixavam refugiados e exilados — incluindo espanhóis que tinham chegado após a implantação da República e após o falhanço do golpe de 1932. Esse pano de fundo importa: cria redes, hábitos, sociabilidades. Permite que um homem como Sanjurjo não chegue a um deserto. Chega a um lugar onde há gente que o entende, gente que o protege, gente que o reconhece. O texto histórico aponta ainda a moldura política que torna esse acolhimento possível. Portugal vivia uma situação favorável à direita espanhola: primeiro sob a Ditadura Militar e depois, a partir de 1933, sob o autodenominado Estado Novo. Esse quadro seria propício aos intentos da direita espanhola e ao desenvolvimento de atividades conspirativas — até ao início da Guerra Civil. Há também um dado mais antigo, menos dramático e mais estrutural: a longa tradição de mobilidades ibéricas. Movimentos por trabalho, por lazer, por contrabando, por deslocações forçadas. Mais tarde, a guerra civil produziria fluxos de refugiados em grande escala. Mas o corredor humano e logístico entre países já existia. A história, aqui, não precisa de ornamentação: basta reconhecer que, para certos homens, atravessar a fronteira nunca foi um ato excecional. Foi uma técnica de sobrevivência política. Entre 1934 e 1936, a residência de Sanjurjo no Estoril ganha peso na leitura do período. O texto-base é explícito no objetivo: analisar o acolhimento dado pelo governo português e pela população local e compreender como a presença do general contribuiu para que Portugal, e aquela zona em particular, passassem a ser percepcionados como um centro de conspiração da direita espanhola. Esse é o ponto decisivo. A presença de uma figura de alto perfil — libertada por amnistia, recebida com aparato, instalada numa zona com redes de exilados — não é uma nota de rodapé. É um elemento que participa na forma como a conspiração se organiza e é entendida. A própria direita espanhola, depois do falhanço de 1932, retira lições operacionais. O texto refere conclusões concretas: necessidade do apoio da Guardia Civil e da Guardia de Asalto; importância de neutralizar autoridades municipais republicanas e líderes sindicais; e urgência de avançar apenas com planificação bem definida. Percebe-se também que o Estado republicano era mais forte do que parte dos conspiradores supunha e que a oposição ativa no terreno estava limitada a grupos pequenos, unidos sobretudo por aversão comum ao regime. A Sanjurjada, mesmo derrotada, funcionou como ensaio. E os ensaios, em política, raramente desaparecem sem deixar método. Durante a revolta, Sanjurjo não se limitou ao gesto militar. O texto menciona as ideias que apresentou à audiência de Sevilha: libertar Espanha do que considerava prejuízos morais e materiais do governo republicano, convocar novas Cortes Constituintes para definir a forma de governo, assegurar eleições livres. Ao mesmo tempo, acusou o governo de “tirania sectária”, de danos económicos e de aumento da criminalidade. Há uma contradição intrínseca neste tipo de discurso — a promessa de liberdade por via do ato de força — e é precisamente essa contradição que ajuda a perceber por que figuras como Sanjurjo podiam ser, ao mesmo tempo, militares de carreira e símbolos de uma política de derrube. O arco fecha-se com uma ironia factual, sem necessidade de exagero. A 18 de julho de 1936, deflagra o golpe militar contra a República. Sanjurjo preparava-se para regressar a Espanha e liderar a operação. Mas a 20 de julho de 1936, morre em Cascais, num acidente aéreo, quando se preparava para seguir viagem. O homem que atravessara fronteiras para conspirar contra a República, que passara dois anos no Estoril após ser libertado, que sobrevivera à prisão e ao indulto, morre antes de chegar ao centro do palco para o qual se preparava. A sua estada em Portugal não foi um parêntesis. Foi antecâmara. E, na leitura que o texto histórico propõe, foi também parte da fase de preparação: Portugal como apoio relevante não apenas durante a guerra civil, mas na arquitetura que a antecede. Nota final: Este texto é uma narrativa jornalística construída exclusivamente a partir dos excertos históricos fornecidos (incluindo as referências à imprensa portuguesa citada e às obras consultadas). (Referências no fim da imagem) Capa — O General Que Esperou Dois Anos Pelo Golpe Fatal Referências bibliográficas Sacanell Ruiz de Apodaca, Enrique — El general Sanjurjo, héroe y víctima. El militar que pudo evitar la dictadura franquista. Madrid: La Esfera de los Libros, 2004. Esteban-Infante, Emilio — General Sanjurjo (Un laureado en el penal del Dueso). Madrid: Editorial AHR, 1957. Sacanell Ruiz de Apodaca, Enrique — 1936. La conspiración. Madrid: Síntesis, 2008. Ruiz, David — Octubre de 1934. Madrid: Síntesis, 2008. Márquez Hidalgo, Francisco — Las sublevaciones contra la Segunda República. Madrid: Síntesis, 2010. Alía Miranda, Francisco — Julio de 1936. Conspiración y alzamiento contra la II República. Barcelona: Crítica, 2011. Viñas, Ángel — La Alemania nazi y el 18 de julio. Madrid: Alianza, 1977. Payne, Stanley G. — El colapso de la República. Los orígenes de la Guerra Civil (1933-1936). Madrid: La Esfera de los Libros, 2005. Payne, Stanley G. — El camino al 18 de julio. La erosión de la democracia en España (diciembre de 1935-julio de 1936). Madrid: Espasa, 2016. Ranzato, Gabriele — El eclipse de la democracia. La guerra civil española y sus orígenes, 1931-1939. Madrid: Siglo XXI, 2006. Oliveira, César — Portugal e a II República de Espanha, 1931-1936. Lisboa: Perspetivas & Realidades, 1985. Álvarez Rey, Leandro (coord.) — La Segunda República Española, 90 años después. Balances y perspectivas. Madrid: Centro de Estudios Políticos y Constitucionales, 2022. Martínez Bande, José Manuel — Los años críticos: República, conspiración, revolución y alzamiento. Madrid: Ediciones Encuentro, 2007. Alonso Rodríguez, Elfídio — “Reflexiones sobre ‘ABC republicano’, a través de su diretor”. In: 70 años de ABC, 1994. González Calleja, Eduardo — Contrarrevolucionarios. Radicalización violenta de las derechas durante la Segunda República, 1931-1936. Madrid: Alianza Editorial, 2011. Preston, Paul — El holocausto español. Odio y exterminio en la Guerra Civil y después. Barcelona: Debolsillo, 2011. Sardica, José Miguel — Ibéria. A relação entre Portugal e Espanha no século XX. Lisboa: Alêtheia Editores, 2013. Olaguíbel, Joaquín — Abril de 1934. La amnistia de las derechas y la crisis del vituperio. Sevilla: Ediciones Espuela de Plata, 2022. Correia, Félix — Quem vem lá? Gente de paz! Gente de guerra... Lisboa: Edição do autor, 1940. Imprensa periódica citada no texto-base Diário de Lisboa — 10 de agosto de 1932, p. 4. Diário de Lisboa — 11 de agosto de 1932, p. 5 e p. 8. Diário de Lisboa — reportagem sobre a detenção e escolta (11 de agosto de 1932), p. 5. Diário da Manhã — 27 de abril de 1934, p. 1. Diário de Lisboa — notícia sobre a amnistia e ambiente em Cádis (data indicada no texto-base: 21 de agosto de 1934), p. 12. Diário de Lisboa — notícia sobre passaporte e destino Estoril (data indicada no texto-base: 23 de agosto de 1934), p. 8. #AtlanticLisbon #Historia #Portugal #Espanha #Estoril #Lisboa #Sanjurjo #SegundaRepublica #GuerraCivilEspanhola #Conspiracao #EstadoNovo
- Paris entra em 2026 com fogo no Arco do Triunfo
Perto da meia-noite, os Champs-Élysées foram ficando densos, passo a passo. Grupos de amigos, algumas famílias e muitos turistas avançaram devagar pela avenida, todos com o olhar preso ao Arco do Triunfo. Multidão reúne-se nos Champs-Élysées para a passagem de ano. À meia-noite certa, o Arco serviu de palco: fogo de artifício e luz projetada sobre a pedra marcaram a entrada em 2026. A imagem é atual e corresponde ao momento exato da passagem de ano. Houve aplausos, gritos curtos, telemóveis levantados. A celebração concentrou-se naquele eixo da cidade, com o monumento a impor-se como ponto fixo da noite. Segundo dados comunicados pelas autoridades municipais, estiveram no local dezenas de milhares de pessoas. O dispositivo de segurança foi visível, com policiamento reforçado, controlo de acessos e limitações à circulação automóvel, num modelo usado em eventos de grande afluência. A cena em Paris inseriu-se na sequência global do fim de 2025 e da chegada de 2026, já assinalada noutros fusos horários. No mesmo intervalo, várias cidades europeias e capitais noutras regiões tinham concluído as suas próprias celebrações públicas. O espetáculo no Arco do Triunfo voltou a ser o ponto central da noite parisiense, concentrando público e logística num único local. A escolha permitiu organizar a cidade num perímetro controlado, com impacto direto no trânsito e na gestão de multidões. Muitos participantes registaram o momento em tempo real, com fotos e vídeos partilhados minutos depois. A presença de visitantes foi evidente, tanto na composição do público como no ambiente, com várias línguas ouvidas ao longo da avenida. As autoridades francesas insistiram numa prioridade operacional: manter o evento seguro e previsível, num contexto em que grandes ajuntamentos exigem planeamento rigoroso e resposta rápida a qualquer incidente. A limpeza urbana deverá iniciar-se pouco depois do fim do espetáculo, com equipas municipais a atuar ainda durante a madrugada para desocupar a avenida e repor a circulação de forma gradual. Com a entrada em 2026, Paris fechou a noite com um evento concentrado no centro da cidade e um regresso progressivo à normalidade. O primeiro dia do ano tende a ser mais lento, com menos movimento e um balanço natural do que ficou para trás. Foi um momento inolvidável. Autor: Atlantic Lisbon Arco do Triunfo na passagem para 2026 #Paris #AnoNovo2026 #ChampsElysees #ArcDeTriomphe #PassagemDeAno #Franca #FogoDeArtificio #Europa
- Batina e Kremlin: propaganda ortodoxa em Washington
Opinião · Mundo · Estados Unidos/Rússia/Ucrânia · Religião & Influência Política. Naqueles dias em que Washington se enche de coroas de Natal, discursos sobre “valores” e fotografias com velas acesas, houve uma visita ao Capitólio que merecia menos incenso e mais atenção. A acusação levada ao Capitólio. Não porque a fé não conte — conta — mas porque, às vezes, a fé é usada como embalagem. E a embalagem, quando vem carimbada por uma máquina de influência, serve precisamente para evitar que se olhe para o conteúdo. Foi o que aconteceu com a delegação de clérigos ortodoxos e intermediários que circulou por gabinetes e corredores (com barbas, cruzes e gravidade bem ensaiada), a repetir uma mensagem simples, eficaz e feita para consumo americano: a Ucrânia persegue cristãos. A acusação tem o apelo certo. Toca no ponto exato onde muitos conservadores e muitos crentes americanos reagem por instinto: liberdade religiosa, igreja, perseguição, mártires. E é por isso que funciona. Porque, quando uma narrativa acerta no nervo moral, raramente se pergunta o que falta. (E o que falta é sempre o essencial.) A frase — dita, insinuada, reenviada, reciclada — é conhecida: a igreja “está praticamente banida”. Kiev fecha templos. Reprime fiéis. Criminaliza a ortodoxia. Quem ouve isto, sem contexto, imagina logo um Estado anticristão a esmagar procissões. Mas a Ucrânia não é um país descrente. Pelo contrário: a religião ali não é decoração; é tecido social. A guerra, aliás, fez o que as guerras fazem a muita gente: empurrou-os para o que é último. Há missas, há velas, há funerais, há capelães, há salmos ditos com a voz presa. E há também uma realidade que o Kremlin (e os seus ecoadores) tenta apagar: a Ucrânia não está a fazer “guerra à fé”. Está a fazer guerra — defensiva — a redes de influência do agressor. O ponto de viragem foi político e jurídico. Em 2024, o Parlamento ucraniano aprovou legislação destinada a impedir que organizações religiosas subordinadas a centros num “Estado agressor” atuem como prolongamento desse Estado. A lei não é um slogan; é um instrumento de segurança em tempo de invasão. É discutível? Pode ser. Há alertas e críticas no plano dos direitos fundamentais? Há. Mas uma coisa é discutir os limites de uma lei num Estado em guerra; outra é vender a lei como se fosse uma cruzada anticristã. Até porque o campo ortodoxo ucraniano não é um bloco único (e isto é sempre omitido quando dá jeito). Desde 2018/2019, existe uma estrutura ortodoxa ucraniana reconhecida por Constantinopla como independente — a Igreja Ortodoxa da Ucrânia. Em paralelo, existe a outra estrutura, historicamente ligada a Moscovo, que se move numa zona cinzenta de jurisdição, legitimidade e lealdades. E é aqui que a história fica menos confortável para quem gosta de frases curtas. Porque, quando se fala de “perseguição”, a pergunta que não querem ouvir é esta: perseguição a quê — à fé, ou a uma arquitetura de dependência que, durante décadas, foi uma ferramenta política russa? Nos Estados Unidos, aprenderam (bem ou mal) a viver com a separação entre igreja e Estado. A Rússia, pelo contrário, fez da fusão um método. No Império, a igreja foi coluna do poder. No comunismo, foi penetrada, controlada, usada. No putinismo, tornou-se uma das faces públicas do regime — a face que benze, legitima e moraliza aquilo que, sem bênção, seria apenas violência nua. O Patriarca Kirill não é um espectador. É ator. E não apenas por linguagem geral de “paz”: o seu discurso tem servido, repetidamente, para enquadrar a invasão como combate espiritual, para dar ao conflito uma aura de destino e de “missão”. Não se trata de uma igreja esmagada por um tirano; trata-se, muitas vezes, de uma hierarquia que escolheu estar ao lado do tirano. E, quando se olha para o que acontece no terreno, percebe-se porque é que a Ucrânia insiste em falar de segurança e espionagem (e não de teologia). As autoridades ucranianas têm acusado membros do clero ligado a Moscovo de colaboracionismo e de apoio operacional ao invasor; há casos, investigações, detenções — e, do outro lado, negações e contestação. O ponto, porém, não é afirmar que “todos são espiões”. O ponto é este: em guerra, basta que alguns sejam (e que a estrutura sirva de cobertura) para que o Estado se veja obrigado a atuar. A comparação útil, aqui, é simples e pouco romântica: quando os Estados Unidos combateram a Al-Qaeda e os talibãs, isso não foi “guerra ao Islão”. Foi guerra a organizações violentas. Do mesmo modo, restringir a actividade de estruturas suspeitas de servir um agressor externo não é “guerra ao Cristianismo”. É guerra a redes de influência num conflito existencial. E há ainda uma ironia que Moscovo detesta ver dita em voz alta. Porque, se alguém quer falar seriamente de perseguição religiosa, não tem de ir a Kiev. Basta olhar para a Rússia. Na Rússia, denominações cristãs não-ortodoxas — protestantes, evangélicos, baptistas — vivem há anos num ambiente de intimidação, multas, processos e limitações legais. A legislação “anti-extremismo” e as regras sobre missionação foram sendo usadas como bastão administrativo. E as Testemunhas de Jeová foram banidas e perseguidas como “extremistas”. Isto não é retórica: é o quotidiano de um Estado que gosta muito de falar de fé (desde que a fé obedeça). É por isso que a acusação russa contra a Ucrânia soa tão familiar: acusa o outro do que faz em casa. E fá-lo com a segurança de quem sabe que, no mundo saturado de informação, a primeira frase circula; a nota de rodapé morre. Depois há a dimensão material, aquela que corta qualquer discurso de “defesa da fé” pela raiz. Desde o início da invasão, a destruição de locais religiosos na Ucrânia tem sido massiva. Há monitorizações que apontam para centenas e centenas de igrejas, templos e edifícios de culto destruídos ou danificados; algumas estimativas apontam para “pelo menos 630”. Seja qual for o número exato, a realidade é incontornável: foi a guerra russa que fez das cúpulas e das naves ruínas fumegantes. E é difícil imaginar gesto mais obsceno do que posar como protetor da Cristandade enquanto se multiplica a devastação de igrejas num país maioritariamente cristão. Nesta história, os amplificadores americanos importam. Não porque tenham inventado a narrativa, mas porque a tornam respeitável. Quando um argumento entra num gabinete do Congresso, ganha gravata e carimbo. E a partir daí já não parece propaganda: parece “preocupação legítima”. É assim que se normaliza uma operação de influência — não com gritos, mas com reuniões. Há, porém, quem diga o óbvio sem medo de desagradar: que a Igreja Ortodoxa Russa, no seu topo e na sua função pública, não é apenas uma instituição religiosa; é um braço simbólico e político de um Estado em guerra. E é precisamente essa clareza — rara, quase antiga — que falta quando se confunde liberdade religiosa com imunidade estratégica. (É aqui que me lembro de um verso conhecido, que não precisa de ser repetido palavra por palavra para ser entendido: a imagem de um padre a esconder, debaixo das vestes, as dragonas de um oficial. A metáfora é brutal porque é simples. E é simples porque descreve um método.) No fim, a regra é esta: o Kremlin chorará sempre “perseguição” quando os seus instrumentos forem escrutinados. Chamará “ataque ao Cristianismo” a qualquer tentativa de bloquear infiltração. Dirá “liberdade religiosa” como quem diz “passe livre”. Mas defender liberdade religiosa não é suspender o juízo. Não é fechar os olhos a uma instituição que se deixa usar — e que, por vezes, se oferece para ser usada — como cobertura moral de uma guerra de agressão. Não é tratar como vítima uma estrutura que, no tabuleiro político, funciona como ferramenta. A delegação que passou por Washington não trouxe uma mensagem de paz. Trouxe uma narrativa. E a diferença entre fé e operação é esta: a fé não precisa de apagar o contexto. A operação vive disso. Apaga o resto da história e pede-nos que acreditemos apenas na primeira frase. E, em política, acreditar só na primeira frase costuma ser o começo do erro. Autor: Frei Lourenço de Santa Clara Cruz ortodoxa russa (símbolo) #Rússia #Ucrânia #IgrejaOrtodoxa #Kremlin #Propaganda #Influência #LiberdadeReligiosa #Washington #Geopolítica #Desinformação #GuerraNaUcrânia #PolíticaInternacional
- China apoia eleições contestadas em Myanmar
NOTÍCIA · Mundo · Ásia · China/Myanmar Myanmar vai a votos este domingo, num processo organizado pela junta militar no poder desde 2021 e contestado no exterior. Ainda assim, a China, um Estado unipartidário, surge como principal apoiante externo de uma eleição considerada, em larga medida, ilegítima. Pequim apoia eleições em Myanmar apesar de ser um Estado unipartidário. A votação fica limitada às zonas controladas pela junta militar que tomou o poder em 2021. Grande parte da oposição fica fora. E o escrutínio abrange menos de metade do território. As Nações Unidas classificaram o processo como uma farsa. Ainda assim, Pequim prometeu apoio tecnológico e financiamento para a elaboração de listas eleitorais, e prevê enviar observadores, em conjunto com Bielorrússia e Rússia. Para a China, Myanmar é uma peça estratégica por abrir uma ligação direta ao Oceano Índico. Pequim investiu milhares de milhões em infraestruturas no país, incluindo um porto de águas profundas e oleodutos concebidos para reduzir a dependência do Estreito de Malaca. A guerra civil em curso desde o golpe ameaça esses investimentos. A guerra civil em curso desde o golpe ameaça esses investimentos. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, apelou a uma “governação nacional baseada na vontade do povo” — uma formulação que contrasta com a ausência de competição eleitoral no próprio sistema político chinês. A estratégia de Pequim passa por viabilizar um governo com legitimidade parcial em Myanmar. O objetivo é criar um interlocutor aceitável o suficiente para retomar negociações e proteger investimentos estratégicos. Membros do partido pró-militar Union Solidarity and Development Party, apontado como favorito, visitaram a China cinco vezes desde 2021 para perceber como “um sistema democrático pode funcionar sob controlo centralizado”, segundo U Thaung Shwe, dirigente do partido. Ko Ko Gyi, presidente do Partido do Povo e antigo ativista pró-democracia, sintetiza a diferença: “Washington fala sobre valores, mas Pequim traz influência. A América oferece retórica, não compromisso.” O governo sombra pró-democracia e vários grupos rebeldes apelaram ao boicote, defendendo que a eleição apenas prolonga o domínio militar sob outra forma. Analistas alertam que a falta de ação do Ocidente poderá aproximar Myanmar da órbita chinesa, apesar das tensões persistentes entre Pequim e os generais de Naypyidaw. Se quiser, faço uma variante ainda mais “limpa” (menos adjetivos, ainda mais direta), mantendo o mesmo conteúdo e o mesmo comprimento. Autor: Helena Vale Pagode dourado em Myanmar (vista aérea) #Myanmar #China #Ásia #PolíticaInternacional #Eleições #Geopolítica #JuntaMilitar #SudesteAsiático #RelaçõesInternacionais
- 2027 Não É Um Ano, É Um Método
OPINIÃO · Mundo · China/Taiwan · Segurança A mais recente avaliação do Pentágono descreve uma China que já não se limita a modernizar equipamento: está a consolidar, passo a passo, a capacidade de operar longe do continente e de sustentar operações prolongadas — um ponto particularmente sensível quando se olha para Taiwan e para o equilíbrio no Indo-Pacífico. O relatório é claro num aspecto e ambivalente noutro. Claro, porque identifica progressos consistentes: mais meios, mais treino, mais opções operacionais. Ambivalente, porque assinala que, no final do ano passado, Pequim ainda não tinha a certeza de conseguir executar com sucesso uma operação de invasão e ocupação da ilha — apesar de Xi Jinping ter fixado 2027 como horizonte para dotar o Exército Popular de Libertação (EPL) das capacidades necessárias para tomar Taiwan pela força. A intenção permanece; a convicção operacional, não é apresentada como garantida. Essa tensão aparece também na formulação do próprio documento: o EPL “continua a refinar” várias vias para impor a unificação pela coerção, mas a liderança chinesa “permanece insegura” quanto ao grau de prontidão para uma tomada efectiva de Taiwan. Traduzindo em termos práticos: o planeamento existe, o treino intensifica-se, mas há dúvidas — sobre coordenação, execução, perdas aceitáveis, resposta externa e, sobretudo, sobre a diferença entre capacidade declarada e capacidade demonstrada. Enquanto a grande decisão não acontece, a pressão faz-se no quotidiano. O Pentágono aponta para um aumento forte de actividade chinesa nas imediações de Taiwan, por via aérea e marítima, com incidência particular na zona de identificação de defesa aérea (ADIZ). A escalada é quantificada: mais de 60% de subida, de 1.703 incidentes em 2023 para 2.771 no ano passado. Não é um padrão de “crise” episódica; é um regime de desgaste que normaliza a presença e testa rotinas de resposta. No mar, a tendência é semelhante. O relatório indica intensificação de operações de navios de guerra no Estreito de Taiwan, reforçando a mensagem de permanência: a presença torna-se instrumento político e militar, independentemente de haver ou não um confronto aberto. Do lado de Pequim, o enunciado político não mudou: Taiwan é considerada parte do território chinês e o uso da força continua declarado como opção possível. A diferença, sublinha o Pentágono, é que o país dispõe hoje de músculo militar muito superior ao de décadas anteriores — e esse músculo é posto à prova em exercícios. Em 2024, segundo o relatório, as forças chinesas realizaram treinos para validar “componentes essenciais” de um conjunto de cenários: invasão anfíbia, ataques de fogo e bloqueio marítimo. São peças distintas de um mesmo tabuleiro. E, quando ensaiadas, deixam de ser apenas linguagem política: tornam-se procedimento. A reacção norte-americana, tal como descrita no documento, mistura reforço material e gestão de risco. Na semana passada, a administração Trump aprovou um pacote de vendas de armas a Taiwan de 11 mil milhões de dólares, com lançadores de mísseis montados em camiões, mísseis anti-tanque, artilharia e drones. Em simultâneo, Trump desvalorizou publicamente a probabilidade de Pequim recorrer à força num horizonte próximo e sinalizou intenção de aprofundar canais com Xi, com uma cimeira prevista para Abril. A combinação é típica: endurece-se a capacidade de dissuasão de Taiwan, mas evita-se fechar a porta à diplomacia com Pequim. O relatório acrescenta que Washington pretende ampliar comunicações militares com a China e insistir em mecanismos para clarificar “intenções pacíficas”. Só que essa expressão tem elasticidade: o que para os EUA é prevenção de escalada, para Pequim pode ser interpretado como espaço para avançar com pressão gradual, sem ultrapassar a linha da guerra formal. A política norte-americana tradicional é enquadrada pelo Pentágono como continuidade da chamada ambiguidade estratégica: manter a China na incerteza quanto a uma intervenção directa, mas também conter iniciativas unilaterais de independência formal de Taiwan que poderiam precipitar um conflito. O problema, sugere o texto, é que a margem de manobra diminui à medida que a actividade militar se torna mais frequente e a região mais nervosa. Há, ainda, uma nota sobre o próprio estilo do documento. Esta é a primeira avaliação do segundo mandato de Trump e surge após a divulgação de uma estratégia de segurança nacional que dá primazia à defesa do Hemisfério Ocidental. O Pentágono apela a cooperação mais estreita com parceiros do Pacífico para dissuadir tentativas de tomada de Taiwan, mas menciona a China poucas vezes e, quando o faz, tende a fazê-lo em chave económica. Menos dramatização, mais pragmatismo — sem que isso reduza a gravidade das conclusões. O relatório tem cerca de 100 páginas, aproximadamente metade do comprimento do documento publicado no ano anterior pela administração Biden. E inclui uma frase pesada: a “acumulação militar histórica” da China está a tornar o território dos EUA “cada vez mais vulnerável”. Tom Karako, do CSIS, notou precisamente essa mudança: menos detalhe técnico sobre equipamento e um sublinhado inesperado de melhoria de relações e de cooperação militar EUA–China, algo que contrasta com a leitura de confronto inevitável presente noutros anos. Nos objectivos estratégicos atribuídos ao EPL, o Pentágono enumera três grandes linhas rumo a 2027: capacidade para alcançar uma “vitória decisiva estratégica” sobre Taiwan; capacidade de “contrabalanço estratégico” face aos EUA em domínios nucleares e outros estratégicos; e capacidade de “dissuasão e controlo” sobre actores regionais. Não são metas pequenas — e têm implicações directas para a estabilidade. No capítulo nuclear, o relatório estima que a China já terá mais de 600 ogivas. O texto sugere um ritmo de crescimento mais lento do que em anos recentes, mas insiste que a trajectória continua expansiva, com projecção para ultrapassar 1.000 ogivas até 2030. Pequim, por sua vez, mantém a recusa de conversações de controlo de armas nos termos propostos por Washington, argumentando que pretende aproximar-se do nível de EUA e Rússia e que são essas potências que deveriam reduzir primeiro. No mar, o documento aponta um plano ambicioso: seis porta-aviões até 2035, totalizando nove. A marinha chinesa concluiu ensaios marítimos do seu terceiro porta-aviões, o primeiro concebido internamente. O Fujian aproxima-se do desenho de convés plano usado pelos EUA e inclui sistema de lançamento electromagnético, semelhante ao dos porta-aviões norte-americanos da classe Ford. Ryan Fedasiuk, do American Enterprise Institute, sublinhou que o relatório clarifica este objectivo de nove porta-aviões, o que colocaria a frota chinesa imediatamente atrás da americana. Os EUA operam com 11. Por fim, o Pentágono volta a insistir na dimensão global da projecção chinesa. O relatório refere a inauguração, em Abril, de um centro de logística e treino numa base naval no Camboja e recorda a presença chinesa em Djibuti, junto ao Mar Vermelho. A mensagem é simples: o eixo de ambição não se esgota no Estreito de Taiwan. Está a desenhar-se uma arquitectura de alcance mais largo — e é isso que, no fundo, transforma este dossier numa questão sistémica, não apenas regional. Autor: Helena Vale Cidade iluminada à noite #China #Taiwan #IndoPacifico #Pentagono #Geopolitica #SegurancaInternacional #Dissuasao #EPL #Marinha #PoliticaExterna
- Assad vive exílio de luxo entre Moscovo e Dubai
NOTÍCIA · Mundo · Rússia/Síria Poucas semanas depois de a ofensiva rebelde ter derrubado o regime em Damasco, um sírio emigrado em Moscovo entrou num restaurante de topo, no alto de um dos arranha-céus mais emblemáticos da capital russa. O ambiente era o esperado: recepção cuidada, cocktails caros, clientela com “credenciais”. A instrução para não fotografar também não surpreendeu. O que o deixou sem palavras foi outra coisa: numa mesa próxima, estaria Bashar al-Assad, o antigo presidente sírio deposto. O episódio é um detalhe — mas ajuda a compor um quadro maior. Durante décadas, o apelido Assad foi associado, dentro e fora da Síria, a um poder fechado e violento. Hoje, o núcleo do antigo regime vive fora do país, com a Rússia como principal porto de abrigo político e logístico. O que era opaco no exercício do poder permanece opaco no exílio; ainda assim, começaram a surgir fragmentos que permitem perceber o padrão: conforto, protecção, discrição e uma sensação de impunidade. Segundo relatos de pessoas próximas da família e de antigos elementos do aparelho de segurança, a fuga para Moscovo terá sido organizada com rapidez e meios próprios, recorrendo a deslocações privadas e a um circuito controlado. Nos primeiros dias, a família terá sido alojada em apartamentos de luxo geridos por uma unidade hoteleira premium — um tipo de solução temporária que combina privacidade com serviços de alto nível. A partir daí, terão passado para uma residência mais estável num dos complexos residenciais mais exclusivos da cidade, no mesmo edifício que alberga o restaurante onde Assad foi visto. Mais tarde, as referências convergem num novo destino: uma zona residencial seleta nos arredores a oeste de Moscovo, conhecida por concentrar figuras da elite russa e por oferecer condições de segurança e isolamento difíceis de replicar no centro urbano. Em paralelo, surgem descrições de movimentos acompanhados e vigiados, com uma regra central: silêncio. O objetivo, segundo essas fontes, seria evitar declarações públicas e reduzir ao mínimo o “rasto” político e mediático. A mesma lógica aplica-se a Maher al-Assad, irmão do ex-presidente e figura-chave do antigo aparelho militar. Há quem o descreva a circular com discrição, por vezes disfarçado, associado a edifícios de alto padrão no distrito financeiro e a locais de lazer frequentados por círculos endinheirados. Não se trata de prova judicial, mas de um conjunto de observações repetidas, reforçadas por sinais digitais e por relatos cruzados. Também a geração mais nova da família tem deixado marcas — ainda que cuidadosamente controladas. Há referências a celebrações privadas com custos elevados, realizadas fora da Rússia, e a sinais de consumo de luxo detectáveis em publicações de pessoas do círculo social. Vários perfis aparecem protegidos, com nomes pouco óbvios; o que foi possível inferir, segundo quem acompanhou esses sinais, resulta de redes de contactos e de imagens indirectas publicadas por terceiros. A presença da família no Golfo, por seu lado, surge ligada a um entendimento informal que permitiria estadias e circulação com menos exposição. É neste contexto que aparece um dado politicamente sensível: uma das filhas terá retomado estudos numa universidade internacional, com proteção visível. A reação de colegas e um episódio envolvendo um grupo de mensagens — alegadamente encerrado após tensão política — ilustram como o peso do apelido pode atravessar fronteiras, criando fricção mesmo longe do país que o regime deixou para trás. No plano interno da “corte” em exílio, há sinais de uma diferença de estilos. Alguns relatos indicam que Maher terá apoiado financeiramente antigos aliados, ajudando-os a recomeçar. Já sobre Bashar al-Assad, circula uma narrativa inversa: a de um círculo de serviço abandonado, com um caso emblemático de um assistente pessoal que teria ficado sem meios e sem cobertura quando a família consolidou a sua instalação. A história, verdadeira nos seus factos essenciais ou não, é politicamente coerente com um padrão de poder: proximidade enquanto útil; descartabilidade quando o sistema cai. O que estas peças sugerem — sem fechar o quadro — é que o exílio da família Assad não é o retrato de uma fuga desorganizada nem de uma queda acompanhada por privação. Pelo contrário: aponta para uma transição assistida, com proteção estatal russa, condições materiais elevadas e uma disciplina de comunicação destinada a evitar danos adicionais e a limitar responsabilizações futuras. Para os sírios, a imagem é especialmente corrosiva: um país devastado e empobrecido fica para trás; os responsáveis máximos, ao que tudo indica, reconstroem a vida em corredores de luxo, longe de qualquer tribunal e fora do alcance do sofrimento que ajudaram a produzir. Helena Vale · The Library Exílio de Bashar al-Assad em Moscovo #TheLibrary #Notícia #Actualidade #Síria #Rússia #Assad
- Vidro Fumado
Havia um homem na praça — um homem comum, desses que não entram em fotografias oficiais — a vender laranjas num caixote azul, com as mãos manchadas de terra e o casaco fechado até ao queixo, porque o frio não pede licença. A política moderna já não governa: transmite. E, quando tudo é transmissão, a verdade torna-se um intervalo. Eu parei por hábito, não por fome. E foi ali, no tom neutro de quem fala do tempo, que ele disse a frase que me ficou: “Hoje em dia eles passam mais tempo a aparecer do que a fazer.” Disse “eles”, como se dissesse “o vento”, ou “a chuva”. Um pronome que serve para tudo o que está longe e, ao mesmo tempo, manda. Paguei as laranjas e fiquei a olhar para a praça como se ela fosse um palco antigo. Um palco sem cortina. Um palco onde a vida tem sempre figurantes, mas raramente tem protagonistas. E pensei no que fazemos, nós, quando pedimos a um governante que esteja sempre presente. Não presente no sentido antigo — o de estar ao lado, de escutar, de conhecer nomes e cheiros. Presente no sentido novo: visível. Repetível. Partilhável. Exportável em vídeo de quinze segundos. Há um tipo de pobreza que não se mede por salário. Mede-se pelo que uma pessoa já não consegue exigir. Exigir a um político que trabalhe é demasiado vago. Exigir que apareça é simples. E talvez por isso tenhamos chegado aqui: a política tornou-se uma indústria de prova visual. Uma oficina de demonstrações. “Estou aqui.” “Estou a ouvir.” “Estou a agir.” “Estou com vocês.” Tudo isso dito, redito, embalado, publicado, como se governar fosse um conjunto de sinais luminosos numa auto-estrada. Quem vive dentro da máquina sabe o que isto custa. E, por vezes, sabe-o com vergonha. Conheci, há anos, um assessor de um ministério — um homem inteligente, nada cínico, apenas cansado — que me disse isto como quem confessa uma doença: “Nós já não escrevemos para decidir. Escrevemos para justificar decisões que ainda não existem.” Ri-me, porque achei exagero. Ele não riu. E explicou: a decisão, muitas vezes, nasce do calendário mediático. Primeiro define-se o momento. Depois inventa-se a necessidade. Depois constrói-se o texto que dá a esse momento uma aparência de inevitabilidade. A política, assim, deixa de ser governo e passa a ser coreografia. É aqui que o vidro fumado entra. O vidro fumado é mais do que um objeto. É uma ética. Um modo de habitar o mundo sem ser tocado por ele. As pessoas passam, os rostos existem, mas ficam distantes, achatados, como se fossem paisagem. Não é só o político que se isola; é o sistema que o empurra para o isolamento, porque o contacto verdadeiro é perigoso. O contacto verdadeiro é imprevisível. E a imprevisibilidade é o pecado mortal de uma comunicação que vive de controlo. O que me intriga — e fere — não é que um político diga “não quero ver apenas o meu reflexo”. O que me intriga é que precise de o dizer. Que isso seja tratado como virtude declarada. Como promessa. Como se a proximidade fosse uma inovação moral. Quando é que a proximidade se tornou extraordinária? Há uma explicação confortável: as redes sociais. A vigilância permanente. A velocidade. A guerra do ciclo noticioso. Tudo isso é verdade, mas é a verdade superficial, a que cabe em conferência e em painel de especialistas. A verdade mais incómoda é outra: nós participamos nisto com entusiasmo. Exigimos espectáculo e chamamos-lhe transparência. Exigimos presença e chamamos-lhe serviço. Exigimos reacção imediata e chamamos-lhe liderança. Depois queixamo-nos de que não há pensamento. Mas pensar — pensar a sério — é um ato lento. E o lento, hoje, é tratado como suspeito. Há uma espécie de crueldade democrática nisto. A democracia pede governantes humanos, mas pune tudo o que é humano: a hesitação honesta, o tempo de maturação, a mudança de opinião quando os factos mudam, a frase incompleta que ainda está a nascer. O governante que admite dúvida é atacado. O governante que responde sem dúvida é denunciado como impostor. E, no meio, o sistema aprende a única coisa que funciona: a performance de certeza. Não é preciso inventar uma conspiração. Basta olhar para os incentivos. Um político hoje vive num corredor estreito onde há sempre alguém a filmar: câmaras formais, telemóveis informais, microfones invisíveis, contas anónimas, recortes mal-intencionados, edições rápidas. Tudo pode ser transformado em arma — inclusive uma pausa. Inclusive um silêncio. Inclusive um “não sei”. A consequência é previsível: tudo começa a ser ensaiado. E o ensaio, quando se prolonga, muda o corpo. Tenho um amigo — um daqueles amigos que não aparecem em público porque preferem continuar a ter vida — que trabalhou em comunicação política muitos anos. Disse-me uma vez, com um desânimo quase íntimo: “O problema já não é mentir. É fabricar autenticidade.” E explicou como se explica uma coisa feia: ensina-se um político a parecer espontâneo. Ensina-se um político a parecer simples. Ensina-se um político a parecer vulnerável. Há técnicas. Há treino. Há repetição. Há, por vezes, uma espécie de violência interior: pede-se a uma pessoa que exponha uma versão calibrada da sua intimidade, em doses suficientes para gerar confiança, mas nunca suficientes para gerar risco real. A intimidade, assim, torna-se ferramenta. E quando a intimidade se torna ferramenta, a confiança apodrece devagar. É neste ponto que os cidadãos ficam com uma sensação estranha: estão a ver muito, mas a sentir pouco. Vêm o político a abraçar crianças, a visitar bairros, a entrar num autocarro, a comprar pão, a responder a mensagens. E, ainda assim, a distância cresce. Porque cada gesto vem com legenda. Cada gesto vem com enquadramento. Cada gesto vem com intenção visível, como aquelas notas de rodapé que estragam o poema. A proximidade que é anunciada deixa de ser proximidade. Passa a ser prova de proximidade. E a prova substitui a experiência. Há um detalhe que raramente se diz, talvez por ser demasiado simples: a exposição permanente seleciona um certo tipo de pessoas. Não seleciona necessariamente os mais competentes. Seleciona os mais resistentes ao palco. Os que aguentam viver numa permanente avaliação. Os que conseguem existir como imagem sem se desmoronar. Os que suportam o desgaste sem quebrar em público. Isto não é uma virtude de governo. É uma virtude de sobrevivência. E, no entanto, é isso que passou a decidir quem chega mais longe. Os melhores governantes que conheci — e não foram muitos, mas existiram — eram pessoas que preferiam o invisível: ler, ouvir, cruzar dados, discutir com seriedade, demorar-se numa questão sem se apaixonar pelo próprio desempenho. Tinham uma espécie de pudor. Um pudor que, hoje, seria interpretado como fraqueza comunicacional. Seriam esmagados. Ou transformados em caricatura. Ou empurrados para a irrelevância por falta de “presença”. Quando o sistema penaliza pudor e recompensa histeria, é o sistema que está doente. E aqui entra o ponto que, para mim, pertence à ERC e ao EEAT — não como siglas para enfeitar, mas como disciplina de escrita: é preciso distinguir entre o que sabemos e o que inferimos. Não sabemos o que se passa dentro da cabeça de um político. Não sabemos se um gesto é sincero ou calculado. O que sabemos é outra coisa: o formato em que ele é obrigado a existir. O tipo de linguagem. O tipo de tempo. O tipo de recompensa. Podemos discutir intenções durante anos; o sistema continua a fabricar o mesmo resultado. O resultado é este: uma política que fala demais e decide de menos, porque a decisão real não cabe no tempo do comentário. A decisão real exige concentração, e a concentração exige silêncio. O silêncio, hoje, parece um pecado contra o algoritmo. O mais perverso é que este modelo é apresentado como modernização. Como se a política anterior fosse necessariamente melhor. Não era. Havia opacidade, havia abusos, havia impunidade. Mas havia uma coisa que se perdeu e que tem valor: o direito ao rascunho. O direito ao pensamento que ainda não é frase. O direito a errar em privado antes de se acertar em público. Uma democracia adulta precisa desse direito. Sem ele, os governantes tornam-se actores de uma peça onde ninguém pode falhar. E, quando ninguém pode falhar, ninguém arrisca fazer o que é difícil. Faz-se o que é seguro. O que é popular. O que é curto. O que é limpamente explicável. É assim que a política se torna menor sem se dar conta. Ao mesmo tempo, nós — o público — somos educados a confundir justiça com reacção. A confundir seriedade com indignação. A confundir rigor com velocidade. Somos educados a achar que um governante que demora dois dias a pensar está a fugir. E a achar que um governante que responde em vinte minutos é competente. Não é. Às vezes é apenas impulsivo. Às vezes é apenas bem treinado. Às vezes é apenas prisioneiro do relógio. E o relógio, na política moderna, manda mais do que a lei. Há uma cena que imagino com frequência — não por romantismo, mas por necessidade de imaginar uma alternativa. Imagino um governante a fechar a porta do gabinete, a desligar o telefone, a sentar-se com um dossiê pesado, e a passar horas a ler sem ninguém saber. Imagino-o a chamar duas pessoas que discordam entre si e a deixá-las discutir até aparecer uma solução. Imagino-o a escrever uma decisão e a reescrevê-la porque percebeu um erro. Imagino-o a mudar de ideia sem ser insultado. Imagino-o a admitir “não sei ainda” sem ser devorado. Imagino isto e sinto que estou a imaginar uma heresia. Porque o palco permanente não tolera heresias. Tolera apenas histórias. E nós viciámo-nos em histórias. A frase do vidro fumado — essa promessa de continuar a ver “pessoas reais” — é bonita, sim. Mas é também um sintoma: revela que já não acreditamos na normalidade do contacto. Já não acreditamos que o poder possa andar na rua sem que isso seja comunicado como feito extraordinário. O que antes seria banal — um governante conhecer pessoas — passou a ser acto performativo. É por isso que me inquieta. Não por maldade, não por cinismo, não por desejo de destruir. Inquieta-me porque sinto que estamos a trocar o conteúdo pela demonstração. E quando se troca conteúdo por demonstração, o que vem a seguir é inevitável: mais demonstração. A demonstração tem inflação. O gesto que hoje impressiona amanhã é obrigação. O “estar presente” de hoje amanhã é insuficiente. E assim, o político corre — corre literalmente, corre simbolicamente — para não ser apanhado pelo vazio. Mas o vazio apanha-o na mesma. Porque o vazio não é falta de imagem. É falta de tempo para pensar. E, se a política perde o pensamento, perde a capacidade de servir qualquer pessoa que não seja o próprio mecanismo de sobrevivência. No fim, volto à praça e ao homem das laranjas. Ele não tinha teoria. Não tinha vocabulário técnico. Tinha, apenas, uma perceção de rua: “aparecer” tornou-se trabalho. “Fazer” tornou-se intervalo. E talvez a nossa tarefa, como leitores e cidadãos, seja recuperar a coragem do intervalo. A coragem de exigir menos show e mais substância. A coragem de aceitar que o silêncio pode ser responsabilidade, não fuga. A coragem de deixar um governante trabalhar sem o obrigar a provar a cada hora que está vivo. Porque uma democracia que exige palco permanente cria líderes viciados em aplauso. E líderes viciados em aplauso acabam por governar para a plateia, não para o país. O país, esse, continua na praça — frio, concreto, real — à espera de decisões que não cabem numa transmissão. Nome literário: João da Praça Rubrica: Praças de Portugal Política - Sociedade - Democracia #cadernodac #albertocarvalho #politica #democracia #poder #comunicaçãopolítica #espaçopúblico #tempo #palco











