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  • Carlton Tavern: reconstruído após demolição ilegal. E o outro?

    Em abril de 2015, o Carlton Tavern foi demolido sem autorização em Kilburn, no noroeste de Londres. A Câmara de Westminster ordenou que voltasse a ser construído. Seis anos depois, o pub reabriu. Em Northfleet, no município de Gravesham, outro pub, o Battle of Britain, foi demolido sem autorização em 2016. Segundo a associação local da CAMRA, a câmara não exigiu a sua reconstrução. Carlton Tavern: o pub reconstruído tijolo a tijolo, e o que não se repetiu Os dois casos convidam a uma comparação, mas não permitem uma explicação simples. Os edifícios tinham histórias e condições jurídicas próprias; as regras inglesas de proteção dos pubs também mudaram em 2017. O que se pode afirmar é mais preciso: uma demolição não autorizada levou, num caso, a uma ordem de reconstrução que acabou por ser cumprida. No outro, a associação que defendia o pub pediu uma resposta semelhante e não a obteve. ora CLTX Limited tinha pedido autorização. Demolido sem autorização em 2015, o Carlton Tavern reabriu seis anos depois, após uma ordem de reconstrução da Câmara de Westminster. O Carlton Tavern tinha sido construído em 1920–21 para a cervejeira Charrington & Co. A Historic England atribui o projeto, com alguma reserva, ao arquiteto Frank J. Potter. Além da fachada, conservava a disposição das salas e elementos decorativos originais. Era esse conjunto que estava a ser avaliado para uma eventual classificação patrimonial quando o edifício foi derrubado, a 8 de abril de 2015. A promoto para substituir o pub por um edifício com apartamentos e um espaço de restauração. Westminster recusara a proposta. Depois da demolição, a autarquia emitiu uma ordem para reconstruir o Carlton Tavern em fac-símile. A promotora recorreu da recusa do projeto e da ordem de reconstrução. Em 2016, um inspetor de planeamento rejeitou ambos os recursos. O pub só reabriria a 12 de abril de 2021. A expressão «tijolo a tijolo» resume bem a exigência de Westminster, mas pode sugerir uma restituição impossível. O edifício original tinha sido destruído. O que a ordem procurava obter era uma reconstrução fiel, assente nos elementos disponíveis sobre a sua forma, os seus materiais e a organização interior. O resultado devolveu o pub à rua e à comunidade; não apagou os seis anos em que esteve ausente. Em Northfleet, o Battle of Britain fechou e foi demolido em outubro de 2016, também sem autorização de planeamento, segundo a CAMRA. A associação local defendeu que o município de Gravesham deveria usar os seus poderes para exigir uma medida de reposição. Numa atualização publicada em dezembro de 2023, acusou a câmara de ter desistido dessa possibilidade. É uma crítica da CAMRA, não uma conclusão judicial sobre as razões da decisão municipal. A informação consultada também não permite afirmar qual é o estado atual do terreno. A comparação revela, assim, uma diferença de resultados que merece escrutínio. Não prova que as duas câmaras estivessem perante obrigações legais idênticas, nem que a decisão de Westminster pudesse ser reproduzida em Gravesham sem atender às circunstâncias do segundo caso. Mostra, isso sim, como o desfecho de uma demolição depende dos instrumentos aplicáveis, das decisões tomadas após a infração e da capacidade de as levar até ao fim. Em Portugal, a questão encontra um enquadramento jurídico diferente. O Regime Jurídico da Urbanização e Edificação prevê medidas para repor a legalidade urbanística. Mas seria excessivo concluir daí que qualquer câmara pode ordenar, em qualquer demolição ilegal de um edifício protegido, uma reconstrução fiel como a do Carlton Tavern. A resposta depende, entre outros fatores, da proteção concreta do imóvel, das regras urbanísticas aplicáveis e do conteúdo da medida exigida. Uma decisão dos tribunais administrativos portugueses admitiu, num caso relativo a Lisboa, que da eventual nulidade de um licenciamento pudesse resultar a necessidade de reconstruir, total ou parcialmente, o edificado anterior. Não estabeleceu uma solução automática para todos os casos. Há também uma diferença entre ordenar uma medida e conseguir que seja executada. Um processo descrito pelo Provedor de Justiça, relativo a obras ilegais em Armamar, ilustra essa demora: a câmara ordenou a demolição em 1998, mas não a executou de imediato. O caso não terminou, porém, na inação. Depois da intervenção do Provedor e de novas diligências municipais, o proprietário demoliu voluntariamente a obra. Usá-lo como exemplo de uma ordem que nunca foi cumprida inverteria o desfecho documentado. Outra discussão, próxima na preocupação patrimonial mas distinta na natureza, é a do fachadismo em Lisboa. Um estudo publicado na revista Cidades acompanha intervenções em que se preserva a fachada e se substitui o interior do edifício. Os autores identificam casos desde meados da década de 1980 e descrevem a consolidação posterior desta prática. Trata-se de intervenções urbanísticas que não se confundem com a demolição não autorizada dos dois pubs ingleses. A ligação entre os temas está na pergunta sobre o que significa preservar um edifício quando partes decisivas da sua história material desaparecem. O Carlton Tavern voltou a abrir. O Battle of Britain não teve o mesmo destino, pelo menos até à atualização da CAMRA de dezembro de 2023. Entre uma história e outra não cabe a afirmação de que «a lei é a mesma» ou de que tudo depende da vontade de um vereador. Cabe uma pergunta mais exigente: depois de uma demolição ilegal, que medidas eram possíveis naquele lugar e naquele momento, quem decidiu aplicá-las e até onde foi capaz de fazer cumprir essa decisão? #CarltonTavern #Londres #PatrimónioArquitetónico #DemoliçãoIlegal #MemóriaUrbana #AtlanticLisbon

  • Boicote a Montenegro? Nos EUA, as televisões uniram-se

    Na quinta-feira, 17 de setembro, Luís Montenegro chamou jornalistas à residência oficial do primeiro-ministro para apresentar medidas aprovadas em Conselho de Ministros. Falou sobre alterações no IRS e um suplemento extraordinário para pensionistas. Não abriu espaço para perguntas. No dia seguinte, o Sindicato dos Jornalistas dirigiu-se às redações e direções de informação. Pediu-lhes que, em futuras declarações do primeiro-ministro sem direito a perguntas, deixassem de enviar jornalistas. O título do comunicado dispensava rodeios: «Se Montenegro não aceita perguntas, boicotem as declarações.» As palavras do primeiro-ministro poderiam continuar a ser divulgadas. O Sindicato queria retirar-lhe outra coisa: câmaras, microfones e repórteres à sua frente enquanto proferia uma declaração que nenhum deles podia questionar. Depois de Luís Montenegro voltar a falar sem aceitar perguntas, o Sindicato dos Jornalistas pediu às redações que deixassem de enviar repórteres para declarações nessas condições. A decisão cabia às direções O Sindicato acusou Luís Montenegro de ter tornado habitual a convocatória da comunicação social para declarações públicas sem perguntas posteriores. A intervenção de 17 de setembro era, segundo o comunicado, o exemplo mais recente. O texto recordava uma proposta de boicote a conferências de imprensa sem direito a questões aprovada no IV Congresso dos Jornalistas. Depois aplicava esse princípio ao caso do primeiro-ministro: «se não permitem colocar questões, não devem estar jornalistas presentes». Para o Sindicato, transmitir declarações de quem exerce o poder sem possibilidade de o interrogar arriscava transformar a presença jornalística num veículo da mensagem preparada pelo governante. Se a intenção fosse apenas comunicar uma decisão, poderia ser enviado um comunicado de imprensa. Um repórter destacado para São Bento pode fazer uma pergunta se lhe derem oportunidade. Dificilmente pode decidir, já no local, que a sua televisão, rádio, jornal ou agência deixa de cobrir o primeiro-ministro. As equipas são enviadas pelas redações. Por isso o Sindicato nomeou expressamente as «redações e direções de informação» no apelo. Faltar teria um custo possível para cada órgão. Enquanto uma redação prescindisse de imagens próprias e acesso imediato à declaração, as concorrentes poderiam continuar presentes. Se várias tomassem a mesma decisão, Montenegro encontraria uma sala diferente. O Sindicato propôs essa ação conjunta, mas não podia executá-la pelas direções. O apelo tornou-se notícia A Lusa noticiou o pedido e vários órgãos de comunicação social publicaram a notícia. O comunicado circulou, mas a cobertura do comunicado não revela que instruções foram dadas às equipas encarregadas de acompanhar o primeiro-ministro. A falta de anúncios públicos também não esclarece a resposta. Uma direção podia decidir não enviar jornalistas sem comunicar essa decisão; outra podia continuar a fazê-lo ou avaliar cada convocatória. A documentação pública reunida até agora não permite dizer que as principais redações aderiram em conjunto ao boicote. Também não permite afirmar que nenhuma aderiu. A declaração de 17 de setembro ocorreu antes do apelo. As equipas presentes nesse dia não são prova de que as redações tenham recusado uma proposta publicada a 18. Para apurar o que aconteceu depois, seria necessário examinar convocações posteriores sem perguntas e saber quais os órgãos que enviaram jornalistas. As próximas declarações O Sindicato terminou o comunicado com Salgueiro Maia. Recordou que, durante o cerco ao Quartel do Carmo, em 25 de Abril de 1974, o militar respondeu a perguntas de jornalistas. Era uma comparação destinada a contestar a falta de tempo para perguntas nas declarações de um primeiro-ministro em democracia. O pedido às redações era mais concreto do que essa comparação. Perante uma prática que condenava, o Sindicato deixou de esperar apenas que Montenegro mudasse o formato das suas intervenções. Pediu aos órgãos de comunicação social que mudassem a sua resposta. O pedido foi feito e divulgado. Falta apurar o que decidiram as direções quando voltaram a ser chamadas a cobrir declarações sem perguntas. #Jornalismo #LiberdadeDeImprensa #SindicatoDosJornalistas #LuísMontenegro #Portugal #EstadosUnidos

  • Lily padding: a Geração Z

    LILY PADDING: A GERAÇÃO Z TROCOU A ESCADA POR NENÚFARES Nos últimos treze anos, Simone Stolzoff passou pelas vendas numa empresa de publicidade digital, pela comunicação de uma startup alimentar, pelo design num estúdio e pela redação de uma revista. Trabalhou depois como jornalista freelancer, antes de chegar à função atual. Algumas mudanças trouxeram-lhe um salário inferior ao anterior. Ao Financial Times, explicou que deixou de imaginar a carreira como uma escada e passou a vê-la como uma sucessão de nenúfares, entre os quais se pode saltar sem seguir sempre na mesma direção. Um trabalhador da Geração Z muda de emprego, em média, a cada 1,1 anos A mudança frequente de emprego tornou-se uma escolha deliberada para muitos trabalhadores jovens num mercado instável. Entre responsáveis de recursos humanos, o comportamento já recebeu um nome: lily padding. A pessoa passa de uma organização ou de um setor para outro, por vezes lateralmente, e acumula competências em vez de antiguidade dentro da mesma empresa. Um inquérito global da agência de recrutamento Randstad, divulgado em 2025, calculou que um trabalhador da Geração Z permanece, em média, 1,1 anos no mesmo posto durante os primeiros cinco anos de carreira. Entre os millennials, a média é de 1,8 anos. Nas gerações anteriores, aproxima-se dos três. Izzy Clements, de 30 anos, trabalhava em vendas quando decidiu passar para as áreas de eventos e marketing da mesma empresa. Aceitou uma redução salarial e foi promovida oito meses depois. Disse ao FT que, ao chegar aos trinta anos, procurava «uma carreira com mais realização». Admite voltar a mudar de setor ou de empresa quando encontrar uma possibilidade que lhe interesse mais. Na consultora EY, o investimento em dias de formação aumentou. A empresa criou também uma ferramenta de inteligência artificial destinada a ajudar os funcionários a atualizar competências. Dan Black, responsável global de estratégia de talento, relacionou estas medidas com a necessidade de continuar a oferecer perspetivas a trabalhadores que não hesitam em sair quando deixam de ver possibilidades de progressão. A Lush adotou outra solução. A marca britânica de cosmética mantém um banco interno de projetos de curta duração, no qual os trabalhadores podem experimentar funções diferentes sem abandonar a empresa. Karen Blackburn, responsável de talento, contou ao mesmo jornal que alguns dos que saem acabam por regressar, trazendo novas competências e procurando áreas mais próximas dos seus interesses. Sander van ’t Noordende, presidente executivo da Randstad desde 2022, chamou-lhes carreiras de portefólio. O percurso deixa de depender de uma sucessão previsível de promoções dentro da mesma estrutura. Pode incluir mudanças laterais, interrupções e experiências que só mais tarde revelam utilidade. Danielle Nicholson, coach de carreira de 29 anos, em Detroit, vê o fenómeno a partir da insegurança económica. Descreveu o lily padding como uma tentativa de «recuperar um pouco de poder numa economia brutal». Muitos jovens já não esperam que uma empresa lhes assegure estabilidade durante décadas. Mudam de posto e procuram reunir as competências de que poderão precisar quando o emprego seguinte também terminar. Para alguns, esta mobilidade alarga escolhas e permite corrigir cedo um percurso que deixou de fazer sentido. Para outros, o nome suaviza uma rotatividade que lhes foi imposta pelo mercado. As empresas falam em diversificação, aprendizagem e crescimento contínuo; Nicholson chama a atenção para uma economia em que os trabalhadores sabem que podem ser dispensados. O inquérito da Randstad não permite decidir quanto há de escolha ou de necessidade em cada mudança. Mostra que, nos primeiros anos de carreira, os trabalhadores da Geração Z ficam pouco mais de um ano no mesmo posto. #lilypadding #GeraçãoZ #mercadodetrabalho #carreiras #Randstad

  • Em Mecklemburgo-Pomerânia, CDU cai a zero e AfD faz história

    A União Democrata-Cristã obteve este domingo 4,9 por cento dos votos em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a pior votação da sua história no estado. Ficou abaixo do limiar de 5 por cento exigido para entrar no parlamento regional e perdeu todos os seus deputados em Schwerin. Nunca tinha ficado fora do Landtag desde que o estado adquiriu a configuração atual. O que mudou nas eleições de Mecklemburgo-Pomerânia e Berlim A afluência às urnas chegou aos 78,1 por cento, mais de sete pontos acima da eleição anterior. Foi neste território que Angela Merkel iniciou o percurso político que a levaria a dezasseis anos como chanceler. A CDU que ela dirigiu é hoje liderada por Friedrich Merz. A Alternative für Deutschland venceu com 38,2 por cento dos votos e conquistou 32 dos 71 lugares do Landtag. Ganhou mais de 21 pontos percentuais em relação a 2021 e tornou-se o primeiro partido de extrema-direita a vencer uma eleição regional na Alemanha. O Partido Social-Democrata, que governava o estado em coligação com Die Linke sob a liderança da ministra-presidente Manuela Schwesig, ficou em segundo lugar, com 35,5 por cento. A afluência às urnas chegou aos 78,1 por cento, mais de sete pontos acima da eleição anterior. Berlim também foi a votos no domingo. Die Linke venceu na capital com 25,7 por cento, uma subida superior a treze pontos em relação a 2023, e tornou-se pela primeira vez a força mais votada na cidade. A CDU de Kai Wegner, que governava Berlim em coligação com o SPD desde 2023, desceu de 28,2 para 18,8 por cento. Perdeu 24 dos 52 lugares que detinha. A AfD ficou em terceiro, com 16,3 por cento, mais de sete pontos acima do resultado anterior. Os vencedores foram diferentes. No antigo Leste, ganhou a AfD; na capital, Die Linke. A CDU perdeu uma parte significativa do eleitorado nas duas eleições. A derrota surgiu duas semanas depois de a AfD alcançar outro resultado histórico, a 6 de setembro, nas eleições regionais da Saxónia-Anhalt. Merz falou ainda na noite eleitoral, na sede da CDU em Berlim. «Não podemos adoçar o resultado em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental», disse. «É um desastre. A CDU lutou muito, mas, no final, foi esmagada na polarização entre o SPD e a AfD.» No dia seguinte, durante uma reunião com os dirigentes do partido, afirmou que continuaria no cargo. Segundo Merz, ninguém tinha questionado a sua liderança «nem ontem à noite, nem esta manhã». Recusou também abandonar as reformas económicas em curso. Chamou-lhes «o antídoto para o veneno do autoritarismo, que está a penetrar cada vez mais fundo na nossa sociedade à medida que a fascinação pelo autoritarismo cresce». Acusou ainda «partidos radicais tanto à esquerda como à direita» de minarem ativamente a confiança nas instituições do país. Alice Weidel, copresidente da AfD, declarou que o partido «ultrapassou a CDU» e que «as pessoas querem uma mudança de política». Considerou Merz «fortemente danificado» e questionou se a CDU poderia continuar a apoiá-lo enquanto chanceler. Tino Chrupalla, o outro copresidente, pediu a demissão de Merz. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD propôs deportações em massa de migrantes indocumentados, o fim da ajuda militar alemã à Ucrânia e uma aproximação a Moscovo. O candidato do partido a ministro-presidente comparou esta orientação ao lema «América Primeiro» da administração Trump. Uma parte importante da capacidade industrial de que a Alemanha precisa para se rearmar contra a Rússia encontra-se nas regiões do antigo Leste onde a AfD obtém alguns dos seus melhores resultados. Uma peça anteriormente publicada neste espaço sobre a ARX Robotics examinou essa coincidência geográfica. Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental não tem o peso industrial de outros estados orientais. Tem agora, porém, um parlamento em que a AfD ocupa 32 dos 71 lugares. A CDU, que sempre estivera representada desde a criação do estado na sua forma atual, não elegeu nenhum deputado. #AfD #Alemanha #MecklemburgoPomerânia #CDU #FriedrichMerz #EleiçõesAlemanha

  • Dedi Mulyadi, o pai que ameaça vir buscar os filhos alheios

    Desde o ano passado, a conta oficial do governador de Java Ocidental divulga uma gravação com a voz de Dedi Mulyadi. O governador pergunta quem são os filhos que não querem tomar banho, comer ou ir à escola. Depois avisa: «O senhor governador vai a tua casa buscar-te.» A gravação tornou-se som de fundo em vídeos de crianças durante uma birra. Algumas riem quando a ouvem. Outras ficam visivelmente assustadas. Milhões seguem Dedi Mulyadi nas redes sociais e chamam-lhe Bapak Aing, "o meu pai", em sundanês. «O senhor governador vai a tua casa buscar-te.» A gravação tornou-se som de fundo em vídeos de crianças durante uma birra. Algumas riem quando a ouvem. Outras ficam visivelmente assustadas. Chamam-lhe Bapak Aing, «o meu pai», em sundanês. Segundo consta, a alcunha nasceu de uma brincadeira da filha. Hoje é usada por muitos habitantes do estado mais populoso da Indonésia. Mulyadi publica pelo menos dois vídeos por dia. Tem mais de três milhões de subscritores no YouTube e oito milhões de seguidores no TikTok. Em maio do ano passado, o seu gabinete lançou, em parceria com as Forças Armadas indonésias, um programa oficial de «Educação de Caráter, Disciplina e Defesa Nacional». Destina-se a adolescentes descritos como «malcriados», incluindo jovens envolvidos em brigas de rua, consumo de álcool ou uso excessivo de jogos em linha. Os pais assinam um termo de entrega voluntária. Os filhos seguem para instalações militares, onde podem permanecer entre duas semanas e seis meses, com instrução, desfiles e aulas de educação cívica. Nos primeiros dias, mais de 270 adolescentes tinham passado pelo programa. A Imparsial, a Amnistia Internacional e uma aliança contra a violência sobre crianças pediram ao Presidente Prabowo Subianto que o suspendesse, invocando o risco de militarização da infância. A comissão nacional para os direitos da criança encontrou adolescentes doentes devido à exaustão. Em Bekasi, um pai apresentou uma queixa formal à polícia e à comissão de direitos humanos. Entretanto, o ministro dos Direitos Humanos do governo central declarou que gostaria de alargar o modelo a todo o país. Mulyadi está na política há mais de duas décadas. Foi vice-regedor de Purwakarta entre 2003 e 2008 e regedor até 2018. Entre 2019 e 2023, representou o Golkar no parlamento nacional. Nas presidenciais de 2019, dirigiu em Java Ocidental a campanha de Joko Widodo. Mudou-se para o Gerindra, partido de Prabowo, em 2023, e tomou posse como governador em fevereiro de 2025. Casou pela primeira vez em 1998 e ficou viúvo no ano seguinte. Voltou a casar em 2003. O segundo casamento terminou em divórcio vinte anos depois. Na sua casa em Subang há um quadro que o representa como Prabu Siliwangi, o último rei hindu do povo sundanês. Conserva também uma coleção de carruagens, krisses cerimoniais e conjuntos de gamelão, objetos associados a uma residência palaciana. Alguns observadores veem nesse ambiente uma encenação política. Outros acreditam que Mulyadi descende do antigo rei ou que é a sua reencarnação. «Esta política surgiu de repente na minha cabeça, e apliquei-a de imediato», disse Mulyadi ao explicar o perdão de multas e dívidas de imposto automóvel. A decisão foi tomada sem consulta prévia aos responsáveis técnicos. No dia seguinte ao anúncio, o Estado recebeu mais receita fiscal num único dia do que esperava arrecadar num mês. Em abril do ano passado, propôs que certos apoios sociais fossem condicionados à vasectomia dos maridos, para limitar o crescimento das famílias pobres. A proposta também foi anunciada sem consulta prévia aos técnicos. O conselho de ulemás de Java Ocidental demarcou-se publicamente da medida. Nos eventos chamados Abdi Nagri Nganjang ka Warga, expressão que significa «um servidor da nação visita os seus cidadãos», Mulyadi manda instalar uma tenda de grandes dimensões numa praça. Senta-se no palco acompanhado por funcionários e permite que pessoas da assistência lhe apresentem diretamente os seus problemas. Pode ser uma estrada esburacada, uma mãe de catorze filhos a pedir um subsídio ou uma acusação de negligência contra um funcionário municipal. Mulyadi responde ali mesmo. Pode resolver o pedido, entregá-lo a um dos funcionários presentes ou prometer tratá-lo mais tarde. A plateia acompanha e aplaude. Entre intervenções, dança com crianças que sobem ao palco e troca piadas com os humoristas convidados. Essa proximidade dá-lhe acesso direto a famílias que esperam pouco da administração pública. Também coloca nas mãos do governador decisões que normalmente passariam por pais, técnicos, serviços públicos ou órgãos políticos. Mulyadi fala às crianças através dos telemóveis, recebe queixas sem intermediários e decide que adolescentes devem ser enviados para instalações militares. Nas zonas onde os serviços públicos chegam tarde ou com dificuldade, este modo de governar encontrou apoio. As respostas são rápidas e têm um responsável visível. No programa para adolescentes, porém, os pais entregaram voluntariamente os filhos e algumas famílias acabaram por contestar o que lhes aconteceu. Organizações de direitos humanos e entidades de proteção das crianças levaram as mesmas objeções ao governo central. O programa que começou com um termo assinado pelos pais passou a ser discutido pela polícia, por comissões de direitos humanos e pela Presidência da República. #DediMulyadi #PessoasComInteresse #Indonésia #JavaOcidental

  • TUKARAM MUNDHE MUDA PELA VIGÉSIMA QUINTA VEZ

    Em Bombaim há um tribunal que durante anos manteve, dentro do próprio edifício, um refeitório que servia chá sem licença sanitária válida. A situação só foi conhecida quando o Tribunal Superior de Bombaim perguntou ao governo do Maharashtra se a campanha de higiene alimentar em curso também abrangia os organismos públicos. O governo respondeu que sim. Os inspetores entraram no edifício e confirmaram que o refeitório não tinha a licença exigida aos estabelecimentos que servem alimentos. TUKARAM MUNDHE; chamam-lhe Singham, o polícia incorruptível do cinema indiano. Mundhe é hoje um dos funcionários mais comentados do estado mais rico da Índia. Chamam-lhe Singham, nome do polícia incorruptível do cinema popular indiano que enfrenta criminosos e políticos sem recuar. Tukaram Mundhe dirige a agência que decide se um restaurante, uma leitaria ou uma doçaria pode continuar de portas abertas. Desde que assumiu o cargo, em maio, encerrou ou multou estabelecimentos por toda a Bombaim. Há poucos dias, a fiscalização chegou ao Cafe Mondegar, um dos bares mais fotografados da cidade. Mundhe é hoje um dos funcionários mais comentados do estado mais rico da Índia. Chamam-lhe Singham, nome do polícia incorruptível do cinema popular indiano que enfrenta criminosos e políticos sem recuar. A alcunha acompanha-o há anos. Mundhe, ao contrário da personagem, raramente permanece tempo suficiente num lugar para ver como termina o confronto. Em vinte e um anos ao serviço do Indian Administrative Service, o corpo de funcionários de topo que a Índia recruta por concurso nacional e distribui pelos estados para gerir a administração sob governos eleitos, mudou de posto tantas vezes que nem os jornais coincidem na contagem. Eram vinte e três transferências no final do ano passado, vinte e quatro em março e vinte e cinco em agosto. Cresceu em Tadsonna, uma aldeia do distrito de Beed, filho de agricultores. Frequentou uma escola pública rural e poderia ter continuado a trabalhar nas terras da família. Um irmão mais velho convenceu-o a prestar concurso para a função pública. O percurso demorou oito anos e incluiu três tentativas falhadas. Passou primeiro no exame estadual, em 2001. Em 2005, entrou no serviço administrativo nacional com uma classificação entre os vinte melhores candidatos do país. No primeiro posto, como adjunto do administrador em Solapur, mandou fechar um bar ilegal com ligações políticas conhecidas. Tinha chegado havia poucos dias. Regressou mais tarde a Solapur como administrador distrital. Confrontou os grupos que retiravam ilegalmente areia dos leitos dos rios e promoveu sistemas de abastecimento que permitiram a centenas de aldeias deixar de depender de cisternas numa região atingida por secas recorrentes. Devendra Fadnavis, então chefe do governo estadual, entregou-lhe o prémio de melhor administrador distrital do ano. Em Navi Mumbai, já como comissário municipal, selou postos de gasolina sem licença e travou construções clandestinas. Todas as manhãs saía para as ruas numa iniciativa chamada «Caminhar com o Comissário», durante a qual qualquer cidadão podia abordá-lo diretamente. Os vereadores, de quase todos os partidos, aprovaram uma moção de censura contra ele. Fadnavis suspendeu-a. À frente da empresa municipal de transportes de Pune, Mundhe despediu 158 motoristas contratados por faltas reiteradas e aumentou o preço dos passes para idosos. A medida era impopular, reconheceu, mas as contas da empresa não permitiam manter o preço anterior. Em Nashik, impôs a separação do lixo na origem e ordenou a demolição de construções ilegais. Quando foi transferido, um grupo de cidadãos chamado Amhi Nashikkar, «Nós, os de Nashik», saiu à rua em protesto. Em 2020, o governo de coligação que acabara de retirar o poder ao BJP nomeou-o comissário municipal de Nagpur, reduto do partido e de alguns dos seus dirigentes mais influentes. Mundhe hesitou antes de aceitar. Receava que a nomeação fosse interpretada como uma manobra contra o BJP. Entrou em conflito com vereadores de vários partidos. Acusaram-no de conduzir a resposta à pandemia de forma «ditatorial». Mundhe respondeu com os indicadores de saúde da cidade, melhores do que a média nacional. Assumiu também funções na empresa responsável pelo programa de «cidade inteligente», decisão que a oposição considerou uma usurpação de competências. Nitin Gadkari, ministro do governo central e natural de Nagpur, apresentou uma queixa contra Mundhe ao gabinete do primeiro-ministro indiano e ao Ministério do Desenvolvimento Urbano. Os inquéritos não sustentaram as acusações. Ainda assim, Mundhe foi transferido. Numa dessas mudanças, perguntaram-lhe o que sentia ao ter de começar novamente do zero. «De vez em quando, uma criança tem de ser matriculada numa escola nova», respondeu. Anos mais tarde, ao partir para outro cargo, escreveu que preferia os sonhos do futuro à história do passado. Mesmo entre os políticos que pedem a sua saída, as acusações raramente põem em causa a honestidade de Mundhe. Os conflitos surgem por causa de decisões concretas: uma licença recusada, uma obra demolida, trabalhadores despedidos, um aumento de preços ou competências administrativas retiradas a outro organismo. Seguem-se protestos, moções, queixas e inquéritos. O mesmo dirigente político pode apoiá-lo num cargo e encontrar-se no campo oposto no seguinte. Mundhe continua a ser nomeado para lugares onde o governo quer resultados. Aplica as regras, altera procedimentos e atinge interesses com capacidade para reagir. Por vezes, os inquéritos dão-lhe razão. Isso não impede necessariamente a transferência. Em Bombaim, a fiscalização que dirige chegou ao refeitório do Tribunal Superior. O espaço teve de pedir a licença sanitária que não possuía. #TukaramMundhe #PessoasComInteresse #Índia #FunçãoPública #Maharashtra

  • Pedro Cavalheiro levou trinta anos a confirmar Bocage

    Em 1992, João Francisco Vilhena vestiu Pedro Cavalheiro de Bocage para a série "Ilustradores Ilustrados". O texto que acompanhava a fotografia falava de coincidência, licenciosidade erótica e escatológica, destino funesto. Pedro Cavalheiro tinha trinta e poucos anos, desenhava banda desenhada histórica com rigor de arquivista, fardas, armas, datas. Vestiram Pedro Cavalheiro de Bocage por brincadeira. Passou a vida a dar-lhe razão. Nasceu em 1961, filho de um capitão-tenente da Marinha com papel na Revolução dos Cravos. Aos catorze anos já desenhava, num caderno escolar, uma aventura sobre a invasão napoleónica de Junot. Entrou nas Belas Artes de Lisboa em 1982, ao mesmo tempo que outros Pedros: Silva Dias, Proença, Portugal, que fariam carreira na fotografia, no design, na pintura. Colou-se ao grupo Homeoestética, sem nunca participar formalmente das suas obras. Aparecia como performer ocasional nas noitadas dos Irmãos Catita. Uma das contribuições era comer um peixe inteiro em palco. A banda desenhada mais conhecida, O Facínora, a partir de um romance de Camilo Castelo Branco, saiu na primeira edição da revista dominical do Público, em Março de 1990, a dividir espaço com Calvin & Hobbes. Depois desenhou para o Independente, para o Combate, para o JL, para suplementos infantis; ilustrou memórias da própria família em álbuns como Os Brinquedos do Meu Avô. Traço rápido, a tinta-da-china, raramente a cores. Os que o conheceram falam de originalidade limitada. Esteve lá, publicação atrás de publicação, durante duas décadas. Nos últimos anos foi deixando o desenho. Passou a escrever sonetos de métrica canónica. Dois temas apenas: a História que sempre o obcecara e um erotismo cada vez mais desbragado, a roçar a pornografia. Compararam-no sempre a Stuart Carvalhais: aura boémia, pincel e frasco de tinta sempre à mão, ainda que sem o álcool que costuma acompanhar a lenda. Nasceu em 1961 e morreu a 9 de Setembro passado. Vestido de Bocage numa tarde de 1992 por brincadeira, passou as três décadas seguintes a tornar a brincadeira séria. #PedroCavalheiro #Bocage #BandaDesenhada #IlustraçãoPortuguesa #Homeoestética #AtlanticLisbon

  • Fundação de Portugal: o mito dos 900 anos

    Em 1128, um filho pegou em armas contra a própria mãe. Chamava-se Afonso Henriques, tinha menos de vinte anos e enfrentou-a num campo perto de Guimarães chamado São Mamede, à frente de nobres do Minho descontentes com o poder que D. Teresa vinha a partilhar, havia anos, com o conde galego Fernão Peres de Trava, seu companheiro. D. Teresa perdeu a batalha e, pouco depois, o controlo do condado. O filho passou a governar sozinho um território que ainda não era Portugal. Séculos de historiografia nacionalista foram limpando o episódio até fazer dele uma história de coragem fundadora, afastada da disputa familiar e senhorial que esteve na sua origem. Por resolução do Conselho de Ministros de 17 de julho, o Governo criou um comissariado para as comemorações dos 900 anos da fundação de Portugal, tomando 1128, presume-se, como ponto de partida. Paulo Portas foi escolhido para o dirigir. Foi jornalista, político e é hoje comentador. Não é historiador. A fundação de Portugal começou numa disputa pelo poder O Castelo de Guimarães permanece ligado à narrativa da fundação de Portugal, cujo marco político é situado nas disputas de 1128. Fotografia: Wendell Adriel L.S. / Unsplash. André Evangelista Marques chamou a atenção para outro dado, num artigo de opinião publicado este fim de semana no Público. O conselho geral que apoiará o comissariado tem catorze membros. Apenas cinco representam instituições científicas ou académicas e estão sobretudo ligados ao Minho. Ficaram de fora universidades e centros de investigação que, nas últimas décadas, estudaram este período e discutiram a própria possibilidade de fixar num ano o nascimento de Portugal. As comemorações terão estátuas, exposições, cerimónias e uma identidade gráfica. D. Afonso Henriques presta-se bem a esse programa: um vencedor jovem, uma batalha e uma data. D. Teresa cria mais dificuldades. Governou, negociou fronteiras, reuniu apoios e dispôs de forças próprias. Não aparece apenas como mãe do futuro rei, embora seja esse o lugar secundário que a narrativa tradicional costuma reservar-lhe. Em São Mamede foi derrotada por um filho apoiado por parte da nobreza portucalense, numa luta em que também intervinham interesses galegos e rivalidades entre famílias. Uma celebração pública pode reduzir tudo isto ao momento em que um herói afasta um obstáculo e começa a construir o país. A composição do conselho geral torna essa possibilidade menos remota, sobretudo pela presença limitada de investigadores especializados no período. A escolha de Paulo Portas acrescenta um elemento difícil de ignorar. A sua carreira passou pelo jornalismo, pela direção partidária, por vários governos e pelo comentário político. Em cada etapa, soube reorganizar a sua posição pública e adaptar o discurso às circunstâncias. Caber-lhe-á agora coordenar uma narrativa sobre um passado que também foi reorganizado muitas vezes, conforme as necessidades políticas de cada época. Faltam dois anos para o início efetivo das comemorações. O programa ainda pode incluir a investigação que ficou pouco representada na composição inicial e dar espaço às divergências sobre 1128, sobre D. Teresa e sobre o poder que Afonso Henriques conquistou antes de Portugal existir como reino. Se optar por uma origem mais simples, terá de deixar quase tudo isso fora. #FundaçãoDePortugal #Portugal #AfonsoHenriques #DonaTeresa #BatalhaDeSãoMamede #HistóriaDePortugal #900AnosDePortugal #MemóriaHistórica

  • Emma Bonino: presa em 1975, funeral de Estado em 2026

    Emma Bonino: do aborto clandestino ao funeral de Estado Em 1975, denunciou à polícia o aborto que fizera ilegalmente. Depois, levou para o Parlamento e para o governo italiano campanhas pelos direitos civis, contra a pena de morte e em defesa dos migrantes. No dia das eleições de 1975, Emma Bonino apresentou-se numa esquadra e declarou que fizera um aborto ilegal. A polícia acabou por deter a mulher que ali chegara de livre vontade para confessar um crime. Ficou presa durante três semanas e o processo prolongou-se por vários anos. Emma Bonino: a política e a ativista italiana foi uma internacionalista convicta ao longo de toda a carreira. Meio século mais tarde, Bonino morreu aos 78 anos e recebeu um funeral de Estado. A decisão coube ao governo de Giorgia Meloni. A primeira-ministra escreveu que as histórias e as sensibilidades de ambas sempre tinham sido distantes, mas reconheceu o peso de Bonino na vida pública italiana. Bonino crescera numa quinta nas montanhas do Piemonte, filha de meeiros. Descreveria mais tarde a infância como um «tédio mortal», passado entre vacas, crianças de outras famílias e a tarefa diária de levar os porcos a pastar. O pai dizia que era teimosa como uma mula. Estudou línguas modernas na Universidade Bocconi, em Milão. Dedicou a tese a Malcolm X. Pouco depois de terminar os estudos, engravidou sem ser casada. Em Itália, o aborto era crime e a Igreja Católica conservava uma influência considerável na política e na legislação do país. Um ginecologista que anteriormente lhe dissera que era infértil ofereceu-se para interromper a gravidez mediante o pagamento de uma quantia elevada. Bonino recusou. Apanhou um comboio para Florença, onde um médico ligado a círculos feministas radicais realizou o procedimento por um valor bastante inferior. Décadas depois, numa entrevista à televisão pública italiana RAI, Bonino ainda recordava a saída clandestina de casa, durante a noite, para procurar o médico. Falou da humilhação associada àquele percurso. Juntou-se depois à campanha do Partido Radical pela legalização do aborto. Acompanhava mulheres até Florença, participava em manifestações e fazia greves de fome. A autodenúncia de 1975 fazia parte dessa campanha de desobediência civil. Silvana Agatone, cirurgiã e cofundadora da rede Laiga 194, recordou Bonino como uma mulher determinada, clara, sincera e muito corajosa. O nome da organização remete para a Lei n.º 194, aprovada em 1978, que legalizou o aborto durante o primeiro trimestre de gravidez. Agatone descreveu também a mortalidade associada aos abortos clandestinos e a importância que o exemplo de Bonino teve para outras mulheres. Bonino foi eleita para o Parlamento italiano em 1976. Continuou a dedicar-se à legalização do aborto, mas assumiu outras campanhas, entre elas a abolição da pena de morte e a proibição das minas terrestres. Nas décadas seguintes, foi deputada, comissária europeia, ministra do Comércio Internacional e dos Assuntos Europeus e ministra dos Negócios Estrangeiros. A associação pública quase permanente ao aborto incomodava-a. Chegou a queixar-se de ter sido reduzida a «especialista do útero». Entretanto, deslocara-se a zonas de guerra na antiga Jugoslávia, no Ruanda, no Sudão e no Afeganistão. Participou também na campanha pela criação do Tribunal Penal Internacional, destinado a julgar responsáveis por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. Enrico Letta, o antigo primeiro-ministro que a nomeou ministra dos Negócios Estrangeiros, afirmou ao Financial Times que Bonino procurava ajudar os fracos contra os fortes e levava esses objetivos para o interior das instituições com grande disciplina. Romano Prodi trabalhou com ela quando Bonino foi ministra do Comércio Internacional e dos Assuntos Europeus, entre 2006 e 2008. Descreveu-a ao mesmo jornal como uma liberal em matéria económica cuja atividade política se concentrava em direitos concretos, num sentido mais amplo de justiça e em causas esquecidas. Durante a crise migratória europeia, Bonino apoiou a intervenção dos meios navais e aéreos italianos no resgate de pessoas que atravessavam o Mediterrâneo em embarcações sobrelotadas e sem condições de segurança. As operações italianas permitiram salvar e desembarcar em portos do país centenas de milhares de migrantes. O Papa Francisco reconheceu publicamente esse trabalho e incluiu Bonino entre as grandes figuras de Itália. A apreciação tinha um significado particular devido ao longo confronto entre a ativista e a Igreja Católica em torno do aborto. Quando Bonino morreu, o funeral de Estado reuniu representantes de um país que discutira durante décadas muitas das causas que ela defendera. Meloni não tentou apagar a distância política entre ambas. Registou-a na própria homenagem e reconheceu, apesar dela, o lugar ocupado por Emma Bonino na história pública de Itália. Fonte: obituário de Emma Bonino, Financial Times, 19/20 de setembro de 2026, por Amy Kazmin. Citações de Enrico Letta e Romano Prodi; citação a Emma Bonino à RAI, 2023. #EmmaBonino #Itália #DireitosHumanos #PolíticaEuropeia #Aborto #Feminismo

  • Liechtenstein anuncia igualdade. Família prefere república.

    Reforma da sucessão divide a família do Liechtenstein A 15 de agosto, o príncipe herdeiro Alois abriu a sucessão ao trono às mulheres e chamou-lhe progresso. Semanas depois, soube-se que parte da sua própria família estava a preparar um processo contra ele. No dia nacional do Liechtenstein, Alois subiu ao palco e anunciou que o trono passaria a caber ao primogénito, fosse homem ou mulher. Apresentou a decisão como parte da capacidade histórica da casa para conciliar continuidade e renovação. A reforma foi recebida como mais um passo de uma monarquia europeia para abandonar a preferência masculina na sucessão. Entre as monarquias hereditárias do continente, restava o Mónaco. Castelo de Vaduz, capital do Liechtenstein, envolto em neblina nas montanhas alpinas. Na mesma votação, os membros da família aprovaram alterações que reduziram os mecanismos de controlo sobre as decisões de Alois e alargaram os seus poderes em matéria de títulos, brasões e pertença à dinastia. Ser reconhecido como membro da casa determina também o acesso às rendas da fortuna familiar. Uma parte substancial dessa riqueza é administrada através do LGT, o banco privado da família, presidido pelo irmão de Alois. Em 2025, o banco distribuiu à família cerca de 878 milhões de dólares. Vários príncipes consideram que a reforma permitiu a Alois reforçar a autoridade sobre os restantes membros da casa. Segundo os dissidentes, a contestação procura assegurar igualdade de direitos no interior da família. O processo contra as alterações estaria a ser preparado havia meses e contaria com o apoio de outros familiares. Entretanto, revelações recentes dos ficheiros Epstein indicaram que o LGT empregara uma jovem próxima do financeiro norte-americano e que ela mantivera contacto com Jeffrey Epstein enquanto trabalhava no banco. A informação tornou-se pública quando Alois procurava obter da família apoio para as alterações ao Direito da Casa. Quase um terço dos cinquenta príncipes com direito de voto opôs-se à reforma, segundo uma carta interna do Castelo de Vaduz. Alguns dos opositores sustentam que o número de descontentes era superior ao registado oficialmente. Liechtenstein anunciou igualdade. Uma fação da família prefere a república. Pela primeira vez em três séculos de tradição, a votação decorreu por correspondência. Os advogados dos dissidentes entendem que a reforma poderá ser juridicamente nula se não ficar demonstrado que a maioria qualificada de dois terços foi validamente alcançada. Como não existe uma via clara de recurso através do Tribunal Constitucional, admitem levar a questão aos tribunais civis do país. Nenhum tribunal analisou até hoje o estatuto jurídico do Direito da Casa. Também não existe precedente para uma disputa judicial desta natureza no interior da família principesca. Em junho, Alois anunciara que vetaria a legalização do aborto até às doze semanas de gravidez, mesmo que a proposta fosse aprovada pelos liechtensteinianos em referendo. Alguns dos familiares que agora contestam a reforma viram nessa declaração a disposição do príncipe para impor as suas convicções católicas ao país. A Casa Principesca respondeu que a decisão sobre a matéria pertence exclusivamente a Alois enquanto chefe de Estado em exercício. O Direito da Casa encontra-se fora da Constituição do Liechtenstein, mas determina quem pode herdar a chefia de Estado. O titular do cargo dispõe de poderes para vetar leis, destituir governos e dissolver o parlamento. Há mais de duas décadas, um organismo de peritos jurídicos do Conselho da Europa qualificou como «simplesmente espantoso» o enquadramento constitucional desses poderes. A reforma de agosto abriu a sucessão às mulheres e alterou, na mesma votação, a distribuição de autoridade dentro da dinastia. Os familiares que contestam o procedimento preparam agora a intervenção dos tribunais civis. Entre eles, alguns já admitem uma consequência mais ampla caso Alois recuse rever as alterações: prefeririam que o Liechtenstein se tornasse uma república. Fontes: Financial Times, 19/20 de setembro de 2026; comunicado oficial da Casa Principesca do Liechtenstein, 15 de agosto de 2026. #Liechtenstein #mulheres #Monarquia #República #Alois

  • O que a lei chamava monogamia

    Até 1982, o Código Penal português tratou o adultério da mulher como uma ofensa à honra do marido. A história dessa diferença mostra que a monogamia foi primeiro imposta pela lei e só muito mais tarde apresentada como compromisso entre iguais. Diz-se que alguém «é» de alguém, que uma traição «rouba» aquilo que pertencia ao outro ou que a pessoa traída perdeu algo que possuía. A 11 de outubro de 2017, o Tribunal da Relação do Porto confirmou a pena suspensa aplicada a um homem que agredira uma mulher com uma moca de pregos depois de ter sido informado de que ela mantinha uma relação com outro homem. O acórdão, assinado pelo desembargador Neto de Moura e pela juíza Maria Luísa Arantes, não negava a violência. Procurava enquadrá-la. «O adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem», lia-se no texto, antes de uma referência à Bíblia, segundo a qual a mulher adúltera deveria ser «punida com a morte». Logo depois surgia o artigo 372.º do Código Penal de 1886. Durante quase um século, essa disposição aplicara «uma pena pouco mais que simbólica» ao marido que, encontrando a mulher em flagrante adultério, a matasse nesse momento. O caso, ocorrido em Felgueiras, provocou indignação e levou o Conselho Superior da Magistratura a instaurar um processo disciplinar aos dois juízes. O Código Penal de 1886 fora substituído havia 35 anos, mas continuava disponível para explicar a violência de um homem no século XXI. Neto de Moura não inventou a hierarquia moral usada no acórdão. Encontrou-a na história da própria lei portuguesa. O artigo 372.º protegia a honra masculina e uma determinada organização da família, num regime em que heranças, apelidos e património dependiam da certeza da filiação. O adultério da mulher introduzia uma dúvida que a infidelidade do marido não colocava: a de saber se os filhos nascidos dentro do casamento eram biologicamente seus. A diferença ficou escrita no Código. O marido podia manter relações extraconjugais; para que o seu comportamento adquirisse relevância criminal equiparável, teria de sustentar publicamente uma amante, tornando visível a ofensa infligida à mulher. Para ela, um único encontro bastava. A lei não exigia continuidade, sustento nem exibição. O compromisso não tinha, portanto, o mesmo conteúdo para ambos. A mulher era submetida a um dever sexual cuja violação podia conduzir à prisão e, em caso de flagrante, diminuir consideravelmente a responsabilidade penal do marido que a matasse. O adultério masculino tornava-se crime em circunstâncias mais limitadas, sobretudo quando ganhava publicidade. Stephanie Coontz mostrou, na sua história do casamento, que esta organização não era exclusivamente portuguesa ou ibérica. Durante séculos, grande parte do direito ocidental regulou o casamento menos como relação afetiva entre duas pessoas do que como instituição de transmissão patrimonial, reprodução e ordenação social. Em Portugal, porém, a curta distância entre a revogação desse direito e o acórdão de 2017 tornou a continuidade particularmente visível. Um tribunal já não podia aplicar o artigo 372.º, mas ainda conseguiu citá-lo como parte de uma explicação aceitável para a conduta do agressor. O Código Penal de 1982, aprovado já em democracia, substituiu integralmente o diploma de 1886. Com ele desapareceu a criminalização do adultério e a disposição que atenuava a pena do marido que matasse a mulher surpreendida em flagrante. A infidelidade deixou de poder ser investigada, acusada e punida pelo Estado como crime. Continuou a ter consequências no direito da família e a poder conduzir ao divórcio, mas já não autorizava a intervenção penal. As alterações posteriores ao regime do divórcio reduziram também a importância da atribuição judicial de culpa pela dissolução do casamento. Em 2017, o artigo revogado regressou ao discurso judicial como explicação histórica e moral. A agressão não foi considerada lícita, mas a infidelidade da mulher apareceu no acórdão como circunstância capaz de tornar mais compreensível a violência exercida contra ela. Era ainda a honra do homem que fornecia o enquadramento. Fora dos tribunais, parte do mesmo vocabulário permanece. Diz-se que alguém «é» de alguém, que uma traição «rouba» aquilo que pertencia ao outro ou que a pessoa traída perdeu algo que possuía. Nem todas estas expressões transportam conscientemente a antiga doutrina jurídica, mas nasceram numa cultura em que fidelidade, autoridade familiar e posse estiveram durante muito tempo próximas. A monogamia escolhida por duas pessoas não é a instituição descrita pelo Código de 1886. A lei continua a regular o casamento e a reconhecer deveres entre os cônjuges, mas já não pune criminalmente a infidelidade nem concede ao marido uma atenuação específica por ter matado em flagrante adultério. A promessa tornou-se recíproca e deixou de ser garantida pela ameaça penal. Ainda assim, uma parte da linguagem usada para descrever a sua violação continua a tratar a relação amorosa como um direito sobre a conduta e o corpo da outra pessoa. #monogamia #AtlanticLisbon #lei #Portugal

  • Rachel Rabin: uma vida na fronteira de Israel

    Rachel Rabin morreu longe do kibbutz que construiu Irmã de Yitzhak Rabin, recusou um lugar no Knesset e permaneceu durante décadas em Manara. Depois do assassínio do antigo primeiro-ministro, assumiu uma vida pública que nunca procurara. Rachel Rabin morreu em setembro, no kibbutz Kinneret, junto ao lago da Galileia. A sua casa ficava mais a norte, junto à fronteira com o Líbano. Chamava-se Manara. Paisagem de colinas na fronteira de Israel, ilustrando a vida de Rachel Rabin. Rachel Rabin não regressava lá desde 2023. Os ataques do Hezbollah levaram Israel a retirar milhares de habitantes das comunidades próximas da fronteira, e Manara foi evacuado. Ela seguiu com os restantes moradores para outro lugar. Chegara a Manara em 1943, integrada num grupo de jovens mobilizados pelo Fundo Nacional Judaico para estabelecer ali uma comunidade agrícola. Décadas depois, recordava um lugar onde, segundo dizia, quase nada estava preparado. Nos primeiros anos, transportavam água em barris provenientes de aldeias libanesas. Uma vez por semana, Rachel Rabin percorria a pé o caminho de cerca de duas horas até Kfar Giladi para tomar banho. Era três anos mais nova do que Yitzhak Rabin. Perdeu a mãe aos 12 anos. Rosa Cohen, dirigente da Haganah em Haifa, vereadora em Telavive e figura conhecida no movimento operário como «Rosa Vermelha», morreu de cancro antes da criação do Estado de Israel. Rachel contaria muito mais tarde que Yitzhak assumira a responsabilidade de cuidar dela sem que ninguém lho tivesse pedido. A proximidade entre ambos manteve-se quando seguiram percursos diferentes. Yitzhak Rabin entrou no Palmach e combateu na guerra de 1948. Rachel Rabin aderiu a um movimento juvenil sionista e trabalhista que enviava os seus membros para a implantação de comunidades agrícolas coletivas. Passou por Revivim, no Neguev, e por Kfar Giladi, na Galileia, antes de se instalar em Manara, em 1943. Durante a guerra de 1948, a maior parte da comunidade foi retirada. Rachel Rabin permaneceu com o pequeno grupo encarregado de defender o lugar. Sem preparação prévia para essas funções, trabalhou como operadora de rádio e enfermeira de campanha. Foi também durante a guerra que casou com Rafi Yaakov, um refugiado alemão que fugira do nazismo. Yitzhak Rabin não conseguiu comparecer no casamento. Três dias depois, casou também, numa cerimónia breve. Rachel e Rafi tiveram três filhos e adotaram um quarto, órfão de uma família de imigrantes judeus oriundos da Pérsia. Rafi morreu em 2012. Em Manara, Rachel trabalhou primeiro como educadora de infância e depois como professora primária, ensinando algumas das primeiras gerações nascidas no kibbutz. No início da década de 1960, propuseram-lhe um lugar de deputada no Knesset. Recusou. Entre 1981 e 1986, afastou-se temporariamente de Manara para trabalhar no Ministério da Educação. Terminadas essas funções, regressou à comunidade. Em dezembro de 1994, Yitzhak convidou-a para a cerimónia do Prémio Nobel da Paz, em Oslo. O galardão foi atribuído a Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat pelo processo que conduzira aos Acordos de Oslo. Rachel recordaria o desconforto sentido durante a cerimónia. Pensou no orgulho que os pais teriam sentido e chegou a perguntar ao irmão se devia estar ali. Yitzhak respondeu que não tinha dúvidas: ela era sua irmã. Às nove e meia da noite de 4 de novembro de 1995, Yigal Amir, um estudante de Direito da extrema-direita israelita, matou Yitzhak Rabin quando este saía de um comício pela paz em Telavive. Amir opunha-se ao processo de paz e aos Acordos de Oslo. Foi condenado a prisão perpétua e continua encarcerado. Depois do assassínio, Rachel começou a participar regularmente em discursos, cerimónias e entrevistas dedicados à memória do irmão e à defesa da tolerância política. Colaborou também com o centro que recebeu o nome de Yitzhak Rabin em Telavive. A exposição pública resultou do assassínio e das responsabilidades que entendeu assumir depois dele, não de uma carreira política própria. Rachel continuou a viver em Manara. Após os ataques de 7 de outubro de 2023 e a abertura de confrontos na fronteira entre Israel e o Líbano, os foguetes lançados pelo Hezbollah atingiram repetidamente o norte de Israel. Manara e outras comunidades da região foram evacuadas. Kfar Giladi, onde Rachel passara parte da juventude, ficou igualmente dentro de uma zona militar fechada. Rachel foi transferida para o kibbutz Kinneret. Ali celebrou os 100 e os 101 anos. Morreu a 11 de setembro, sem ter regressado a Manara, a comunidade onde se instalara em 1943 e onde vivera durante oito décadas. #RachelRabin #YitzhakRabin #KibbutzManara #Israel #História de Israel

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