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  • Quem é Elain Morvane ?

    Pouco se sabe de Elian Morvane. Uns dizem que nasceu à beira do Atlântico, outros que apenas ali passou temporadas suficientes para que o vento e a maresia lhe gravassem o ritmo da escrita. Não gosta de ser chamado escritor — afirma apenas que escreve para não desaparecer. A sua vida mistura-se com os lugares por onde passou: bibliotecas esquecidas, cafés de luz baixa, viagens sem registo. Nunca se apresenta da mesma maneira. Por vezes surge em breves textos que parecem fragmentos de diário; noutras, em livros longos onde se perde e reencontra como quem atravessa uma cidade invisível. Quem lê Elian Morvane encontra uma voz que se move entre a memória e a ficção, entre a ternura e a inquietação. Não é autor de uma obra: é autor de um rasto. E talvez seja essa a razão pela qual o seu nome começa a circular como um segredo partilhado em voz baixa, como se cada página fosse uma senha para reconhecer um companheiro de viagem. Retrato literário de Elian Morvane #ElianMorvane #Literatura #Escrita #Memória #Identidade #Portugal #Europa

  • Satélites chineses no Irão antes de ataque aos EUA

    Satélites chineses que ajudaram o Irão Antes do ataque de 17 de julho de 2026 contra a base aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia, que matou três militares dos Estados Unidos, o Irão tinha adquirido, junto de entidades chinesas, imagens de satélite de alta resolução daquela instalação. É a alegação central feita por funcionários norte-americanos ao Wall Street Journal: que imagens fornecidas por satélites chineses estiveram na preparação de um ataque com mortos americanos. O alcance da acusação Os funcionários citados não identificaram as entidades chinesas que forneceram as imagens usadas antes do ataque de julho. Não alegaram envolvimento direto do governo de Pequim. Disseram que os Estados Unidos associaram essas imagens ao ataque e que o Irão adquiriu material semelhante tanto antes como depois de o realizar. A acusação, tal como foi formulada, recai sobre empresas chinesas, identificadas ou não, que forneceram ao Irão um instrumento para preparar o ataque e avaliar os seus efeitos. Não afirma que o Estado chinês o ordenou ou planeou. É nesta separação entre empresa e Estado que a China assenta a defesa; e onde Washington vê uma fronteira menos nítida. Muwaffaq Salti A 17 de julho, mísseis balísticos iranianos atingiram uma zona residencial na base de Muwaffaq Salti, matando três soldados e ferindo quatro, que tiveram de ser evacuados. O Irão visou também aeronaves tripuladas e não tripuladas estacionadas na base. Foi um de três ataques de míssil contra a mesma instalação em 24 horas e a primeira vez que militares dos EUA morreram em combate desde o cessar-fogo de abril desse ano. O episódio expôs uma dificuldade concreta: uma base fortemente defendida pode, ainda assim, ser atingida com precisão. A proteção do pessoal americano na região deixou de ser uma abstração estratégica. Ver o alvo Imagens recentes de alta resolução podem revelar alterações físicas numa base: novas estruturas, deslocação de equipamento, concentração de pessoal. Segundo Jim Lamson, antigo analista da CIA especializado nas forças e no armamento iranianos, isso permite escolher onde atacar com mais impacto e num momento mais oportuno. As imagens obtidas depois servem para perceber se os alvos foram destruídos e se vale a pena voltar ao mesmo ponto. Imagem de satélite do Irão. Fonte: NASA, Blue Marble Next Generation — domínio público. No início da guerra, ataques americanos contra radares e satélites iranianos tinham degradado a capacidade do regime para ver o campo de batalha. O Irão acertava muitas vezes em locais sem relevância militar significativa. Segundo funcionários citados, a pontaria iraniana melhorou ao longo do verão. As imagens chinesas não substituem outras fontes. O Irão continua a usar satélites próprios, fontes humanas e dados fornecidos pela Rússia. Mas ajudam a perceber uma melhoria que dificilmente se explica apenas pelos meios que o país já tinha antes da guerra. O problema já existia Em maio de 2026, a administração Trump já tinha sancionado três empresas chinesas, acusando-as de fornecer, recolher ou publicar imagens que o Irão podia usar contra forças dos EUA. Uma dessas empresas fora acusada, no ano anterior, de fornecer imagens de satélite que apoiaram diretamente ataques dos Huthis do Iémen contra bens militares americanos. Nos meses anteriores ao ataque de julho, responsáveis da administração tinham avisado repetidamente os seus homólogos chineses de que empresas chinesas forneciam este tipo de material. O fluxo era conhecido e já tinha sido alvo de sanções. A ligação que os Estados Unidos agora estabelecem entre essas imagens e mortes americanas em combate altera o peso político do caso. Terreno junto a Bardaskan, no Irão, numa composição Landsat 8. Fonte: USGS/NASA Landsat 8 — domínio público. A defesa de Pequim Questionados sobre a alegação, funcionários chineses contestaram-na e exigiram provas. Pequim continua a recusar reconhecer o envolvimento de empresas chinesas nesta atividade. A embaixada da China em Washington não respondeu diretamente às alegações do Wall Street Journal. A porta-voz Liu Chang disse que críticos anónimos estavam a explorar o conflito para “ligar maliciosamente e difamar outros países” e afirmou que a cooperação chinesa com o Irão cumpre o direito internacional. A indústria de satélites chinesa torna esta defesa difícil de separar da questão de fundo. A linha entre empresa comercial e entidade estatal é frequentemente pouco clara. Mesmo companhias nominalmente privadas operam sob supervisão governamental extensa e muitas mantêm ligações ao governo ou ao Partido Comunista Chinês. Isso não prova direção do Estado num caso concreto. Explica, porém, por que razão Washington não aceita facilmente a separação que Pequim invoca. A cimeira aproxima-se A descoberta surge poucos dias antes de uma cimeira planeada entre Donald Trump e Xi Jinping, marcada para 24 de setembro de 2026. Dias depois do ataque de julho, o secretário de Estado Marco Rubio reuniu-se com o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi. Questionado sobre se a China estava a fornecer informação de pontaria ao Irão, Rubio não respondeu diretamente. Disse apenas que nada do que a China tinha feito mudara a trajetória do conflito. Um responsável da Casa Branca afirmou que nenhuma assistência externa recebida pelo Irão melhorara a sua capacidade de atacar os Estados Unidos, sem se referir diretamente às imagens. Trump transmitiu à sua equipa que manter boas relações com a China, e com Xi Jinping em particular, é uma prioridade. Responsáveis seniores têm evitado confrontos públicos com Pequim que possam ofuscar os planos para a cimeira. A alegação mais grave sobre este fluxo de tecnologia chinesa chega quando a Casa Branca tem menos interesse em transformá-la num conflito público. O que ainda não se sabe Ainda não se conhecem as entidades chinesas que forneceram as imagens usadas antes do ataque de julho, nem se alguma constava já da lista sancionada em maio. Também não é claro se o fornecimento resultou de uma decisão comercial, de instrução direta de autoridades chinesas ou de uma zona intermédia que a própria estrutura do setor torna difícil de distinguir. Funcionários dos EUA estão preocupados com a possibilidade de tecnologia chinesa ajudar o Irão a localizar meios navais americanos. Nos últimos dias, o Irão disparou mísseis balísticos contra um porta-aviões dos EUA e outros navios de guerra. O Comando Central diz que todos esses ataques falharam, mas alguns responsáveis descrevem-nos como situações de quase-colisão e veem sinais de melhoria na capacidade iraniana para atingir alvos em movimento. A administração já informou os comités de informações do Congresso sobre o apoio que Rússia e China prestam ao Irão. Continua a faltar uma resposta pública que obrigue Pequim a explicar o papel das suas empresas, em vez de se limitar a negá-lo. #SatélitesChinesesNoIrão #Irão #China #ImagensDeSatélite #Geopolítica #SegurançaInternacional

  • Tung Chee-hwa, primeiro líder de Hong Kong leal a Pequim

    Tung Chee-hwa, o homem que herdou uma lealdade antes de a poder escolher A dívida da família Tung com Pequim é anterior a qualquer voto, juramento ou discurso sobre autonomia. É nessa ordem dos factos, não no balanço de oito anos de mandato, que se lê o desenho real de “um país, dois sistemas”. Há uma imagem de 1996 que resistiu ao tempo melhor do que a maior parte do que se escreveu sobre Tung Chee-hwa. Jiang Zemin, então presidente da China, destacou-o de entre uma delegação de Hong Kong e apertou-lhe a mão durante mais tempo do que o protocolo pedia. A televisão estatal chinesa mostrou o gesto em destaque. Meses depois, um comité de seleção de quatrocentos membros, a esmagadora maioria alinhada com Pequim, confirmou o que aquele aperto de mão já tinha anunciado: Tung seria o primeiro chefe executivo de Hong Kong depois da retrocessão. Hong Kong entre a promessa de autonomia e o poder de Pequim. O gesto interessa mais do que a escolha em si. A legitimidade de Tung não nasce de um eleitorado a decidir entre candidatos; nasce de ser visto a ser escolhido por quem já detém o poder de escolher. “Um país, dois sistemas” apresentava autonomia, mas a autoridade de que Tung dependia estava noutro lugar desde o início. Tung Chee-hwa numa fotografia oficial do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos. Imagem de domínio público. No início da década de 1980, durante uma recessão global do transporte marítimo, a Orient Overseas, armadora fundada pelo pai de Tung, Tung Chao-yung, acumulou uma dívida superior a 2,6 mil milhões de dólares. Uma parte substancial de um resgate de 120 milhões veio de empresas ligadas ao continente chinês. Quando Tung chegou, catorze anos depois, ao cargo mais alto de Hong Kong, essa dívida estava, tecnicamente, saldada. Politicamente, nunca esteve. O complexo governamental de Hong Kong, onde a autonomia prometida por “um país, dois sistemas” encontrou os limites do poder de Pequim. Fotografia: Cheung Yin / Unsplash. Chris Patten, o último governador britânico de Hong Kong, descreveu-o como maleável. Via nele uma mistura de indecisão e teimosia, um homem incapaz de perceber a tempo o preço político das próprias decisões. Mas a palavra supõe uma vontade que se dobra sob pressão presente. Tung chegou ao cargo com uma relação já formada, contraída por outra geração, e herdou-a do mesmo modo que herdara a empresa. A questão nunca foi apenas se era leal a Pequim. Era também saber se lhe tinha sido oferecida a possibilidade de não o ser. Os anos que se seguem costumam ler-se como uma sucessão de desastres que Tung não soube gerir: a crise financeira asiática rebentou no dia seguinte à sua tomada de posse, os preços da habitação afundaram-se durante mais de seis anos, a SARS matou quase 300 pessoas em Hong Kong, perto de 40 por cento das mortes mundiais da doença, e a cidade registou ainda os primeiros casos documentados de gripe aviária H5N1 em humanos. Regina Ip, que dirigiu como secretária para a Segurança a tentativa falhada de legislação em 2003, resume a defesa em substância: ele foi apenas infeliz, vítima de uma conjuntura que não escolheu. A frase não é falsa. Mas nenhuma destas crises testou apenas a capacidade de Tung para governar. Testaram se Hong Kong toleraria um arranjo em que a autoridade vem de Pequim e as consequências caem sobre o homem colocado à frente da cidade. O plano de Tung para aumentar a construção de habitação foi pensado para tornar Hong Kong menos dependente de um mercado imobiliário estreito e caro. Produziu um excesso de oferta que derrubou os preços durante mais de seis anos. Em 2003, mais de um em cada cinco apartamentos valia menos do que a hipoteca que o pagava. A política que devia render-lhe apoio junto de quem não tinha casa própria custou-lhe a confiança de quem já a tinha. Os governos seguintes restringiram tanto a construção que a habitação em Hong Kong se tornou, para a maioria, praticamente inacessível. O efeito dessa decisão continuou muito depois da saída de Tung. Em julho de 2003, meio milhão de pessoas saiu à rua contra o pacote de leis de segurança que Tung tentava aprovar, leis que teriam permitido banir qualquer organização ligada a uma organização já proibida em Pequim. O governo recuou. Durante uns meses, pareceu que a parte de “dois sistemas” da fórmula ainda tinha peso real: a oposição pública mudou, de facto, uma política. Tung nunca recuperou popularidade suficiente para sobreviver a esse recuo e demitiu-se dois anos antes do fim do segundo mandato, invocando a saúde. A mesma ideia de legislação de segurança regressou dezassete anos depois, sob outra liderança. Em 2020, não houve recuo. A retirada de 2003 deixou de parecer prova de que o sistema funcionava; foi o último momento em que a oposição pública ainda conseguiu alterar o resultado. A baía de Victoria e o centro financeiro de Hong Kong: a cidade que Tung Chee-hwa passou a governar após a retrocessão de 1997. Fotografia: Zhenyu Luo / Unsplash. Antes de tomar posse, em 1996, Tung pediu unidade a Hong Kong: “a nossa sociedade tornou-se demasiado politizada nos últimos anos”. Lida hoje, a frase não soa a queixa sobre um excesso temporário de protesto. Qualquer território a quem se promete liberdade dentro da soberania de outro acaba, mais cedo ou mais tarde, demasiado politizado para alguém, porque política é o que uma população faz enquanto ainda acredita que discordar pode mudar um resultado. Depois de sair do cargo, em 2005, Tung passou quase duas décadas — mais tempo do que o próprio mandato — como vice-presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês. A partir de 2014, fundou a Our Hong Kong Foundation, dedicada a defender e a explicar a mesma fórmula que se tinha desfeito à sua frente. No comunicado que assinalou a sua morte, o gabinete de ligação de Pequim em Hong Kong descreveu-o como um contribuidor notável para “um país, dois sistemas”. Tung parece ter acreditado até ao fim na fórmula que serviu. A sua utilidade para perceber o que lhe aconteceu está aí, não numa eventual traição à fórmula. Em 2017, a Cosco Shipping, conglomerado estatal chinês, comprou a Orient Overseas por 6,3 mil milhões de dólares; a família Tung recebeu mais de 4 mil milhões. A empresa que uma geração antes tinha sido salva com capital ligado ao continente acabou comprada, por inteiro, por esse mesmo Estado. Em 2019, já com 82 anos, Tung recebeu uma medalha das mãos de Xi Jinping, em Pequim. Entre o aperto de mão de 1996 e a medalha mudou o cerimonial. A relação já estava definida. Lisboa reconhece este vocabulário melhor do que a maior parte das capitais europeias. Escreveu uma versão dele, dois anos depois de Hong Kong, quando entregou Macau com a mesma promessa formal: os mesmos sistemas, a mesma vida, durante cinquenta anos. A palavra retrocessão, usada em português para as duas transferências, tem uma honestidade que “handover” não tem: descreve um movimento para trás, não apenas uma mudança de mãos. Quem escreveu essa palavra sabe quanto tempo uma promessa de continuidade consegue durar antes de se revelar apenas isso. Tung Chee-hwa continua a importar não como o primeiro capítulo fechado de uma história de Hong Kong cujo desfecho já se conhece, mas porque o seu percurso mostra o que acontece a alguém colocado, com sinceridade e sem distância irónica, dentro de uma contradição construída para não se resolver. A fórmula não falhou por falta de pessoas dispostas a acreditar nela. #TungCheeHwa #HongKong #China #UmPaísDoisSistemas #GeopolíticaAsiática

  • O Aperto de Mão Que Não Apaga Seis Anos de Silêncio

    Xi Jinping visita a Índia pela primeira vez desde 2019. A fronteira que os afastou seis anos continua exatamente onde estava, só o sorriso para as câmaras é novo. #brics #china #india #diplomacia #geopolitica #cartoon

  • Toyohiro Akiyama, o jornalista que recusou o guião

    Foi o primeiro jornalista no espaço e o primeiro a recusar o guião. Numa altura em que a órbita voltou a ser vendida como redenção, o seu anti-heroísmo continua a ser mais útil do que qualquer épica. A primeira frase que Toyohiro Akiyama diz do espaço não é sobre o azul da Terra. Amarrado a uma parede para não flutuar, pergunta: “Is this live?”. É repórter até ao fim. Está na Mir há poucas horas, depois de chegar num vaivém coberto de autocolantes da TBS e de outras empresas japonesas, e a única coisa que quer saber é se a emissão está no ar. Em 1990, Toyohiro Akiyama tornou-se o primeiro jornalista a viajar para o espaço e relatou a vida a bordo da Mir sem a transformar em espetáculo. Em dezembro de 1990, a Tokyo Broadcasting System paga cerca de metade de uma operação publicitária de 35 milhões de dólares para colocar um dos seus na Soyuz TM-11, com dois cosmonautas soviéticos. Akiyama tem 48 anos, úlceras no estômago, motivo pelo qual chega a ser desqualificado entre mais de cem candidatos, e responde à direção com a frase que o define: “Há alguém que tenha trabalhado numa televisão até aos 46 anos e não tenha úlceras?” É escolhido e segue com Ryoko Kikuchi, a suplente que acabará afastada por uma apendicite aguda uma semana antes do lançamento, para a Cidade das Estrelas, perto de Moscovo. Durante cerca de um ano aprende a voar Soyuz em russo. Os instrutores proíbem levar manuais para casa porque são classificados. Akiyama discute alto até reverterem a ordem. Kikuchi recorda o cansaço de estudar matérias fora da sua área numa língua que não dominam. Toyohiro Akiyama, o primeiro jornalista e o primeiro japonês no espaço, na missão comercial à estação Mir, em dezembro de 1990. O Japão está no pico económico, antes de três décadas de estagnação. A televisão tem dinheiro, quer palco global e espera um herói nacional. O homem que regressa oito dias depois é alguém que os colegas soviéticos dizem nunca ter visto vomitar tanto. A reportagem não tem revelações nem meditações sobre o sentido da vida. Akiyama fala de dores de cabeça, de comida insípida, de protocolos complicados de casa de banho, de um cérebro que lhe parece “a flutuar dentro da cabeça”. Confessa que trouxe pouca roupa interior. Leva seis rãs-arborícolas verdes para uma experiência de escolas japonesas e nota que as gordas adoram a ausência de peso. Sente falta de cigarros — tinha deixado de fumar para poder voar, mas o corpo não esquece — e de natto, os grãos fermentados. A Terra, diz, é “mesmo azul”. Os mares em torno do Japão parecem-lhe “muito lamacentos”, talvez poluídos. O país, visto de cima, está “coberto de musgo”, exceto Hocaido, que lhe parece “alga deliciosa”. A TBS tem um pico de audiência e depois perde-o. A maior parte das pessoas desliga ao fim de dez minutos. Para animar a emissão, Akiyama mostra o monte Fuji como um ponto branco. Chega a esquecer-se de captar planos previstos porque fica absorvido pelo nascer do Sol e pelas nuvens a passar. Em terra, isso irrita. Havia também ressentimento. O primeiro japonês no espaço não era Mamoru Mohri, o astronauta profissional treinado no Johnson Space Center, em Houston, cujo voo fora adiado depois da explosão do Challenger, em 1986. Era um repórter de televisão que, ao regressar, jurava não querer voltar: “I don’t particularly want to see it again, it’s not a very fun place”. Na altura, Akiyama foi arrumado como “space antihero”, o anti-herói espacial sem bravura. A designação falha o essencial. A ideia de direto que lhe permitira conseguir, em Washington, uma entrevista com Ronald Reagan em 1985, quando outros correspondentes estrangeiros falharam, foi a mesma que levou para a Mir: encontrar a realidade em bruto e transmiti-la. Toyohiro Akiyama entrevista o presidente Ronald Reagan em Washington, a 29 de abril de 1985, enquanto chefe de delegação da TBS. Em Londres, na BBC World Service, e depois em Tóquio, ganhara fama de agressivo, capaz de bater o telefone. No espaço não encontrou uma metáfora. Encontrou um local de trabalho onde se dormia mal, a ventilação era má e lhe apetecia fumar. A órbita voltou entretanto a ser narrada como experiência transformadora para bilionários, com regressos coreografados e frases feitas sobre a fragilidade do planeta. Akiyama não negava a beleza. Em 2021, disse à NHK: “The Earth looked so beautiful from space. I felt a message from nature. The starry sky and the darkness of space — it made me think about how I should live after returning to Earth.” Não fazia dessa beleza uma obrigação de mentir sobre o que a sustentava. Depois deixou o jornalismo, foi cultivar shiitake e ensinou agricultura e ética na Universidade de Artes de Quioto. Continuou até morrer, em agosto deste ano, ainda a dar entrevistas sobre o que vira lá em cima. Olhar para a Terra como “mesmo azul” levava-o também à terra lamacenta. O homem que descrevera o Japão como musgo visto do alto acabou por tratar do musgo. Numa biografia de 1992, Akiyama dizia que se via como um meio para informar sobre a vida no espaço e que não via sentido em deter-se na sua experiência pessoal. “Fundamentalmente, este projeto não foi sobre eu conseguir algo extraordinário. Foi apenas uma questão de sorte.” A viagem não se transformou no mito que a TBS tinha comprado. O que ficou não foi o primeiro japonês em órbita nem a reportagem que reteve espectadores. Foi alguém que falou de vómitos, dores de cabeça e saudades de tabaco quando se esperava uma lição sobre o infinito. Amarrado a uma parede, queria apenas saber se estava em direto. #ToyohiroAkiyama #Jornalismo #Espaco #EstacaoMir #PessoasComInteresse

  • Insegurança alimentar: o preço de desinvestir

    Há uma preocupação que explica a fome. Perder 3,5 biliões de dólares por ano por manter pessoas subnutridas, deixar pragas e doenças levarem até 40% do que se colhe e desinvestir nos centros que provaram devolver dez por cada dólar aplicado não é falta de meios. Campos agrícolas sob pressão, numa imagem que remete para a dependência de investimento continuado na produção, investigação e proteção dos sistemas alimentares. No último ano documentado, 2,1 mil milhões de pessoas viveram em insegurança alimentar, mais de um quarto da humanidade. 260 milhões estiveram em situação aguda, com vida ou sustento em perigo imediato. Quase um quarto das crianças com menos de cinco anos ficou com o crescimento permanentemente afetado. Uma criança travada aos quatro anos chega a adulta com menos escola, menos rendimento e mais doença. O diagnóstico de custo já estava feito: 3,5 biliões por ano em crescimento perdido e despesa de saúde. Picos de preços alimentares não ficam no mercado. Exacerbam queixas, precipitam tumultos, desestabilizam governos. A matéria recorda a Primavera Árabe. No campo, a mesma insegurança alimenta o recrutamento de grupos armados, disputas por terra e água, empurra gente para fora. Pragas e doenças levam 40% da produção global. É evitável. O World Vegetable Center em Taiwan e o Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo no México, ambos com participação norte-americana na fundação, desenvolveram um arroz tolerante a cheias e milho tolerante à seca. Cada dólar ali rendeu dez em produtividade, custos e preço final. A própria matéria acrescenta que sofrem hoje de deriva de missão e acumulação burocrática. A China gasta o dobro dos Estados Unidos em investigação e desenvolvimento agrícola público. Patentes e publicações disparam de um lado, estagnam do outro. Em 2019, Pequim investiu para assegurar a liderança da FAO. A disputa já não é por toneladas, é pela norma, pelo sítio onde se decide o que conta como prioridade, como se mede a fome, como se partilha a semente. Os Estados Unidos são um dos maiores exportadores agrícolas do mundo, instrumentais na fundação da FAO e do Programa Alimentar Mundial, historicamente o seu maior doador. Durante décadas tiveram a agenda de desenvolvimento mais ambiciosa, com apoio público. No início de 2026, maioria forte dizia que deveriam ser o líder moral, maioria forte não acreditava que o fossem. Em meados de 2025, o Congresso retirou quase 8 mil milhões de dólares em fundos de assistência externa. Um doador relutante, membro crispado de organizações-chave. A matéria propõe reforçar sistemas de alerta precoce e trocar contribuições voluntárias ad hoc por compromissos plurianuais pré-planeados para a emergência alimentar. O sistema atual vive de sustos e promessas. Sem financiamento previsível, o alerta torna-se ornamental. Os números que abrem o texto nem sequer incluem o que pode vir com preços de energia e fertilizantes em alta, quebras de exportação de grãos da Rússia e Ucrânia e El Niño a intensificar-se. Em Gaza, no Sudão e na Ucrânia ficou demonstrado que é preciso proteger o acesso a alimentos, garantir entrada humanitária, proteger infraestruturas agrícolas e proibir o uso da fome como arma. A comida como cerco. Proibições súbitas de exportação de cereais por exportadores repetem a mesma lógica fora da guerra. Quem fecha a fronteira para baixar o preço interno exporta a escassez para quem compra. Um agricultor no outro hemisfério deixa de saber o que semear. O Tratado sobre Recursos Fitogenéticos para a Alimentação e Agricultura foi desenhado para que sementes e tecidos circulassem livremente entre investigadores. Está a falhar. Investigadores acham a partilha de benefícios demasiado cara, países em desenvolvimento acham-na demasiado escassa. Menos pedidos, menos partilhas. O comum genético, de onde saem variedades mais produtivas, resilientes e nutritivas, fica parado por litígio de desenho. A Comissão do Codex Alimentarius, que fixa orientações de segurança alimentar com impacto no comércio, é descrita como lenta, subfinanciada e controversa. Mesmo com tecnologia, a porta de entrada no mercado fica entupida. Se perder 3,5 biliões custa mais do que alimentar, se 40% da colheita pode ser salva e se um dólar nos centros certos rende dez, a pergunta já não é como produzir mais. Quem desinveste 8 mil milhões depois de ter construído a FAO e o Programa Alimentar Mundial e fundado centros que dão dez por um, e continua entre os maiores exportadores, troca previsibilidade por falta dela. Enquanto for lida como fatalidade climática ou técnica, a fome fica contabilizada como perda inevitável. Lida como desmontagem, torna-se escolha. #InsegurancaAlimentar #Fome #Agricultura #SegurancaAlimentar #DesenvolvimentoGlobal

  • Sucessão de Putin: a Chechénia já prepara o depois

    Entre 18 e 20 de setembro de 2026, a Chechénia elege o seu líder. Ramzan Kadyrov, no poder desde 2007, concorre a um quinto mandato, depois de Vladimir Putin lhe ter dado publicamente o seu apoio em abril. Pouco mais de um milhão e meio de habitantes são chamados às urnas. Ninguém espera que delas saia uma surpresa. Há, porém, uma coisa menos previsível a acontecer em Grozny, e não depende do resultado. Kadyrov chega a estas eleições depois de anos de notícias sobre problemas graves de saúde. Desde 2019, sucedem-se relatos que referem necrose pancreática e um transplante renal falhado. No final de 2025, imagens públicas mostraram-no com dificuldades visíveis de mobilidade. Em dezembro, anunciou que voltaria a concorrer; confirmou a decisão em fevereiro. A sucessão política na Chechénia contrasta com a ausência, em Moscovo, de um sucessor visível para Vladimir Putin. Ao mesmo tempo, Adam Kadyrov foi subindo. Tem 18 anos e é, desde 2025, o Secretário do Conselho de Segurança checheno. Apti Alaudinov e Magomed Daudov, ambos ligados à estrutura de poder do pai, aparecem entre os nomes apontados para assegurar uma eventual transição até que Adam possa ocupar plenamente o lugar. Nada garante que seja esse o desfecho. Os cargos, as promoções e os homens colocados à sua volta mostram, pelo menos, que a possibilidade deixou de pertencer apenas à especulação sobre o futuro de Ramzan Kadyrov. E esta, está a ser preparada dentro do próprio aparelho. Por isso, o quinto mandato diz menos sobre os próximos anos de Kadyrov do que poderia parecer. A eleição prolonga um poder conhecido; os movimentos que rodeiam o filho procuram responder a uma situação que nenhuma eleição resolve: o que acontece quando esse poder perde o homem que o concentra. Em Moscovo, a pergunta existe há muito mais tempo e continua sem uma resposta comparável. Putin governa a Rússia há mais de um quarto de século, descontado o período em que ocupou formalmente o cargo de primeiro-ministro antes de regressar ao Kremlin. À sua volta, existem serviços de segurança, militares, governadores, grandes interesses económicos e homens que atravessaram diferentes fases do regime. Nenhum deles foi transformado publicamente por Putin no homem que vem a seguir. Também não há um descendente a percorrer, à vista de todos, os degraus do aparelho. Isto pode ser deliberado. Um sucessor reconhecido demasiado cedo começaria inevitavelmente a ser observado como tal. Pessoas cuja posição depende hoje de Putin teriam uma referência para o dia seguinte. Algumas aproximar-se-iam. Outras tentariam limitá-lo. Decisões tomadas em função do atual presidente passariam a incorporar um cálculo adicional, sobretudo num sistema em que a proximidade do centro continua a determinar carreiras, influência e segurança. Putin não precisa de resolver esse problema enquanto permanecer no Kremlin. Em certo sentido, tem interesse em que ninguém consiga resolvê-lo por antecipação. Grozny seguiu outro caminho. Adam Kadyrov não é ainda o sucessor formal do pai, e entre isso e a transmissão efetiva do poder existem obstáculos suficientes para impedir qualquer certeza. Mas a estrutura começou a mexer antes de ser obrigada a fazê-lo. É um detalhe importante numa república em que o poder de Ramzan Kadyrov já adquiriu características familiares muito mais visíveis do que aquelas que a natureza formalmente eletiva do cargo deixaria supor. Daí uma situação pouco habitual dentro da Federação Russa. A experiência mais explícita de preparação do futuro de um poder pessoal está a decorrer numa pequena república do Cáucaso que Moscovo mantém dentro da sua órbita e cujo sistema político se tornou inseparável da família Kadyrov. No Kremlin, onde a questão sucessória teria consequências incomparavelmente maiores, o futuro continua praticamente sem rosto. A guerra na Ucrânia prolongou o tempo dessa indefinição. Quatro anos e meio depois da invasão, nenhum acontecimento encerrou o ciclo aberto em 2022. A guerra prossegue. Putin permanece no poder. O regime não colapsou. Também não surgiu uma solução política capaz de transformar o conflito numa fase claramente diferente da anterior. Durante a Páscoa ortodoxa, em abril, vigorou uma trégua de 32 horas, proposta por Volodymyr Zelensky e aceite por Putin. A Ucrânia contabilizaria depois 469 violações russas nesse intervalo, sobretudo ataques de drones. Terminadas as 32 horas, os combates retomaram a intensidade anterior. A trégua entrou, assim, na história desta guerra como mais um episódio dentro dela, sem lhe alterar o curso. A passagem dos anos fez o resto. Aquilo que, em 2022, ocupava permanentemente as manchetes passou a conviver com a rotina política europeia, com eleições, crises económicas e outras guerras. Os combates continuam a matar e a destruir, mas a própria duração retirou-lhes parte da capacidade de produzir a sensação diária de mudança. Com a Rússia aconteceu algo parecido. Nos primeiros meses da invasão, multiplicaram-se previsões sobre crise do regime, derrota, fragmentação territorial, colapso económico ou perda acelerada da antiga influência russa. Setembro de 2026 chegou sem que nenhum desses cenários tenha fornecido uma resposta para o futuro do poder em Moscovo. Entretanto, à volta da Rússia, o tempo não ficou suspenso. Alexander Lukashenko continua estreitamente dependente de Moscovo. Encontrou-se novamente com Putin em junho, e as tensões próprias entre Minsk e Kiev não alteraram a relação estrutural que une a Bielorrússia à Rússia. É difícil encontrar aqui uma mudança equivalente à que ocorreu noutros pontos do antigo espaço soviético. Na Moldova, até junho de 2026, tinham sido abertos cinco capítulos de negociação para a adesão à União Europeia, com Chisinau a procurar avançar ainda mais antes do final do verão. Foram decisões acumuladas ao longo dos últimos anos, tomadas sem esperar que a guerra na Ucrânia esclarecesse primeiro qual seria a posição futura da Rússia. A Geórgia avançou na direção contrária. O seu processo europeu foi travado pelo próprio governo georgiano, ao ponto de a Comissão Europeia passar a tratar o país como candidato apenas no nome. Chisinau aproximou-se da União Europeia; Tbilisi afastou-se. Minsk permaneceu ligada a Moscovo. É difícil reunir estas três trajetórias numa única história sobre declínio russo ou libertação da periferia. Talvez seja essa a parte interessante. Países durante muito tempo descritos sobretudo pela distância que mantinham em relação à Rússia passaram a produzir movimentos que já não podem ser entendidos apenas a partir do Kremlin. A China não precisou de esperar por um colapso russo para aumentar a sua presença económica na Ásia Central. Tem continuado a fazê-lo gradualmente. Pequim lida com uma Rússia desgastada por anos de guerra, sanções e concentração de recursos no conflito europeu, mas não se comporta como se um enorme espaço geopolítico tivesse ficado subitamente vago. A Rússia continua ali. Esse é talvez o elemento mais incómodo para quem procura um momento claro de mudança. Durante quatro anos e meio, a guerra produziu destruição suficiente para alimentar previsões enormes, mas não entregou a cena final que permitiria organizar tudo o resto à sua volta. Putin continua no Kremlin. Lukashenko continua em Minsk. A Moldova abriu capítulos de negociação com a União Europeia. A Geórgia suspendeu o seu próprio avanço europeu. A China ganha espaço económico na Ásia Central. E, em Grozny, um rapaz de 18 anos acumula posições dentro da estrutura que o pai construiu. São acontecimentos com velocidades diferentes e causas diferentes. O tempo político, porém, continuou a correr enquanto o grande desfecho russo não chegava. É isso que devolve interesse às eleições chechenas. Ramzan Kadyrov pode obter o quinto mandato e continuar a governar. Ainda assim, Adam já ocupará, no dia seguinte, uma posição que não ocupava há poucos anos. Alaudinov e Daudov continuarão dentro de uma estrutura onde a possibilidade de uma transição passou a fazer parte dos cálculos. A saúde de Kadyrov permanecerá sobre tudo isto. Em Moscovo, não se vê um processo semelhante. Pode aparecer um sucessor quando for necessário. Pode formar-se um compromisso entre grupos que hoje parecem concorrentes. Uma figura secundária pode tornar-se central num intervalo curto. Nada na experiência política russa permite excluir essas possibilidades. Também não há fundamento para afirmar que a atual ausência de um herdeiro público tornará inevitavelmente caótica uma futura transição. Por agora, apenas se sabe que essa transição não está a ser mostrada. As referências a 1917 e 1991 surgem frequentemente quando se tenta imaginar o que poderá acontecer à Rússia, mas dizem pouco sobre a forma concreta de uma futura mudança. Em ambos os casos, a dimensão da rutura só se tornou inteiramente clara quando o processo já estava em movimento. Anos de desgaste não forneciam uma data. Muito menos um guião. Também não fornecem um em 2026. Talvez por isso seja mais útil observar os movimentos pequenos do que procurar continuamente o acontecimento que encerrará a época de Putin. Uma eleição regional quase sem competição, a promoção de um filho, os cargos ocupados pelos homens em redor da família, um vizinho que avança para Bruxelas e outro que recua, uma China que acrescenta influência sem anunciar que está a substituir ninguém. Nada disto diz quando termina o atual sistema russo. Diz apenas que muita coisa já está a ser decidida sem esperar por esse dia. Na Chechénia, até a sucessão começou a entrar nessa categoria. Em Moscovo, ainda não. #Rússia #Putin #Chechénia #Kadyrov #AdamKadyrov #SucessãoDePutin #Geopolítica #Ucrânia #Eurásia

  • RapidRanger na Ucrânia com mísseis Martlet contra drones

    O 1030.º Regimento de Mísseis Antiaéreos e Artilharia «Aquila», integrado no 3.º Corpo do Exército ucraniano, mostrou a 2 de setembro o RapidRanger montado num veículo blindado espanhol URO VAMTAC 4×4. As imagens mostram militares a preparar o sistema para serviço de combate. É a primeira divulgação pública clara desta configuração dentro de uma formação ucraniana identificada. RapidRanger: a defesa aérea que a Ucrânia está a testar em combate O sistema britânico Rapid Ranger, montado no veículo tático espanhol URO VAMTAC, em serviço no 3.º Corpo do Exército ucraniano. Com mísseis LMM Martlet de 13 kg e alcance até 7 km, com guiamento a laser e infravermelhos, o sistema foi concebido para preencher a lacuna entre os grupos móveis de fogo e a defesa aérea pesada, com elevada mobilidade e vigilância eletro-ótica de 360° O RapidRanger é um sistema de defesa aérea de curto alcance desenvolvido pela Thales UK. O módulo lançador pesa menos de 500 quilos, transporta quatro mísseis prontos a disparar e pode ser instalado em diferentes plataformas sobre rodas ou lagartas. A Thales indica uma capacidade de deteção superior a 15 quilómetros, alcance de empenhamento superior a 7 quilómetros e tempo de reação inferior a cinco segundos. Na configuração mostrada pela Ucrânia, os quatro lançadores estão armados com LMM Martlet. O sistema também pode utilizar mísseis Starstreak. O Martlet, ou Lightweight Multirole Missile (LMM), pesa cerca de 13 quilos, tem aproximadamente 1,3 metros de comprimento e 76 milímetros de diâmetro. A velocidade máxima é de cerca de 1800 quilómetros por hora. O míssil utiliza um guia a laser beam-riding e pode ser empregue contra diferentes tipos de alvos. Na função antiaérea, o operador mantém o feixe laser sobre o alvo enquanto o míssil se dirige para ele. A cobertura de 360 graus é assegurada pelo conjunto electro-óptico do RapidRanger, que permite aquisição e acompanhamento automático dos alvos. O sistema pode receber um sensor infravermelho panorâmico e radar. Pode funcionar autonomamente ou receber a informação através de uma rede de comando e controlo. No caso ucraniano, o lançador está instalado num VAMTAC, veículo táctico espanhol com tração 4×4 e velocidade máxima indicada de 135 quilómetros por hora. O veículo pode receber diferentes módulos de armamento. No RapidRanger, transporta o lançador e os seus sensores numa plataforma móvel. O Reino Unido anunciou em março de 2025 um contrato de £1,6 mil milhões para produzir 5000 mísseis de defesa aérea destinados à Ucrânia, numa encomenda à Thales que aumentaria a produção na fábrica de Belfast. Em fevereiro de 2026, Londres anunciou mais 1000 LMM para a Ucrânia. São, em conjunto, cerca de 6000 mísseis encomendados em dois contratos britânicos recentes. Depois de utilizados os quatro mísseis prontos a disparar, o lançador precisa de ser recarregado. Numa frente extensa, isso implica o transporte de munições, armazenamento, pessoal treinado e uma cadeia logística capaz de manter os veículos em posições avançadas. Os Shahed colocam esse problema em números. O Ministério da Defesa ucraniano referiu, em abril de 2026, quase 9500 drones de ataque do tipo Shahed destruídos desde o início do ano. Os sistemas de médio e longo alcance, como Patriot, IRIS-T ou NASAMS, protegem áreas e infraestruturas a maiores distâncias. No outro extremo estão grupos móveis que utilizam metralhadoras e outras armas para combater drones a curta distância. O RapidRanger dispõe de uma área de deteção superior a 15 quilómetros e de um alcance de empenhamento até cerca de 7 quilómetros. Pode utilizar os seus sensores electro-ópticos ou receber dados de outros elementos da rede. Depois de enviar para a Ucrânia os sistemas Stormer que tinha em serviço, Londres avançou com planos para adquirir VAMTAC equipados com RapidRanger para substituir essa capacidade e acrescentar novos veículos. Portugal escolheu igualmente o RapidRanger para a renovação da sua defesa antiaérea terrestre. O contrato, atribuído à Thales através da NATO Support and Procurement Agency em outubro de 2024, ronda os 39 milhões de euros e inclui três sistemas RapidRanger montados em VAMTAC ST5, além de radar GroundMaster 200 e sistemas de comando e controlo. O contrato português junta o lançador, o veículo, o radar e os sistemas de comando e controlo numa arquitetura diferente da configuração ucraniana. O núcleo do sistema continua a ser o RapidRanger sobre uma plataforma VAMTAC. Na Ucrânia, a combinação está a ser empregada contra grandes volumes de drones, com ataques repetidos e necessidade de distribuir os meios de defesa por áreas extensas. O 1030.º Regimento «Aquila» mostrou o sistema dentro de uma formação de combate identificada. Ainda não é pública a quantidade de RapidRanger entregue ao regimento, nem o volume de mísseis disponível para a unidade. Também não é conhecido o calendário para uma eventual produção local de LMM na Ucrânia. O Reino Unido já associou os seus contratos de defesa aérea à transferência de capacidade industrial e ao apoio à produção e manutenção de sistemas destinados às forças ucranianas. O RapidRanger está, assim, a ser observado na Ucrânia não apenas pelo alcance ou pelo tempo de reação do lançador, mas pela capacidade de manter uma unidade móvel abastecida e operacional enquanto enfrenta ataques que podem envolver grandes quantidades de drones. #RapidRanger #Martlet #LMM #DefesaAerea #Ucrania #UROVAMTAC #ExercitoUcraniano #Drones #Shahed #ReinoUnido #NATO #AtlanticLisbon

  • Psilocibina e quimioterapia podem proteger os nervos

    Psilocibina e quimioterapia entram na prevenção da neuropatia A quimioterapia pode travar um tumor e deixar outra doença para trás. Em alguns doentes, a dor começa nas mãos ou nos pés. Vem como ardor, dormência, formigueiro, intolerância ao frio. Às vezes passa. Às vezes fica. Num estudo publicado na Science, investigadores do MD Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas, testaram em ratos uma substância inesperada para esse dano: a psilocibina, o composto psicadélico presente em alguns cogumelos. Foi administrada antes da quimioterapia. Os animais ficaram protegidos contra lesões nervosas associadas ao tratamento e, nos modelos testados, a quimioterapia manteve o efeito contra os tumores. Um estudo em ratos publicado na Science sugere que a psilocibina poderá prevenir lesões nervosas associadas à quimioterapia, ainda sem prova clínica em humanos. Ainda não há tratamento para humanos, nem autorização clínica, nem prova de que o mesmo aconteça em doentes oncológicos. O que há é uma mudança na pergunta. Em vez de tratar a neuropatia depois de instalada, o estudo tentou impedir que ela começasse. A neuropatia periférica induzida pela quimioterapia surge sobretudo com fármacos à base de platina e taxanos, usados em vários cancros. Pode afetar a sensibilidade, o equilíbrio, o sono, a mobilidade e gestos simples: apertar botões, pegar num copo, caminhar sem desconforto, tolerar o frio. Quando se agrava, a equipa médica pode ter de reduzir doses, atrasar ciclos ou mudar o plano terapêutico. Um efeito secundário passa a entrar na decisão sobre o próprio tratamento do cancro. Nos ensaios em ratos, duas doses de psilocibina antes da quimioterapia bastaram para prevenir sinais de neuropatia ao longo de ciclos repetidos. A proteção manteve-se em modelos com diferentes fármacos associados a lesão nervosa. Em animais com tumores, não foi observada perda da atividade antitumoral da quimioterapia. Esse era o teste mais delicado. Proteger nervos durante a quimioterapia só faria sentido se o tumor não recebesse a mesma proteção. Os investigadores associam o efeito aos recetores de serotonina 5-HT2A, conhecidos pela ligação aos efeitos psicadélicos da psilocibina. Neste caso, porém, a experiência mental da substância não é o centro do estudo. A equipa procurou perceber se essa via também participa na proteção do sistema nervoso periférico. Nos neurónios, surgiram sinais de preservação da função mitocondrial. As mitocôndrias fornecem energia às células. Nos nervos sensoriais longos, essa energia tem de chegar às extremidades. Quando esse transporte falha, as pontas das fibras nervosas tornam-se mais vulneráveis. É muitas vezes nas mãos e nos pés que os sintomas aparecem primeiro. A psilocibina, neste modelo, pareceu ajudar os nervos a resistir ao dano provocado pela quimioterapia. Não apenas a sentir menos dor depois. A equipa testou ainda uma substância não alucinogénica que atua na mesma via. Também aí surgiram sinais de proteção. Se esse caminho se confirmar, poderá ser possível procurar compostos capazes de ativar o mecanismo sem provocar uma experiência psicadélica. A distância até à prática clínica continua grande. Ratos não são doentes. Uma resposta robusta em laboratório pode enfraquecer ou desaparecer em ensaios humanos. A psilocibina é uma substância controlada em muitos países, pode ter efeitos psicológicos intensos e não deve ser usada fora de enquadramento médico. Há ainda perguntas práticas. Dose. Segurança. Momento de administração. Interação com outros medicamentos. Diferenças entre regimes de quimioterapia. Benefício real na vida diária de quem faz tratamento. O MD Anderson prepara um ensaio clínico de fase intermédia para avaliar se a proteção observada no laboratório se traduz numa redução da neuropatia em doentes com cancro submetidos a quimioterapia. A psilocibina tem sido estudada sobretudo em depressão, ansiedade, perturbações do uso de substâncias e sofrimento psicológico associado a doença grave. Este trabalho leva-a para outro território: a proteção de nervos periféricos durante o tratamento oncológico. Para muitos doentes, o fim da quimioterapia não encerra todos os seus efeitos. A neuropatia pode continuar a limitar movimentos, sono e autonomia quando o cancro já está controlado. Por agora, há uma prova pré-clínica. Mas ela toca num problema que a oncologia ainda não resolveu bem: proteger o corpo da terapêutica sem enfraquecer a terapêutica. #Psilocibina #Quimioterapia #Cancro #Neuropatia #Oncologia #InvestigacaoCientifica #Saude #AtlanticLisbon

  • Ben Sasse entre Trump e o cancro do pâncreas

    Às 15h39 de 13 de fevereiro de 2021, o Senado dos Estados Unidos concluiu o segundo julgamento político de Donald Trump. Foram 57 votos pela condenação por incitamento à insurreição e 43 pela absolvição. Como era necessária uma maioria de dois terços, o antigo presidente foi absolvido. Ben Sasse, senador republicano pelo Nebraska, votou pela condenação. Sasse manteve-se no Partido Republicano e continuou a defender as posições conservadoras. Perante o ataque ao Capitólio de 6 de janeiro, recusou subordinar o voto à disciplina partidária. Foi um dos episódios mais conhecidos dos seus oito anos no Senado, embora a relação que manteve com Trump tenha sido menos linear. Ben Sasse, antigo senador republicano do Nebraska e crítico de Donald Trump, vive com cancro do pâncreas metastático e está a receber o tratamento experimental daraxonrasib. Eleito em 2014, Sasse tomou posse em janeiro de 2015, foi reeleito em 2020 e deixou o cargo em janeiro de 2023. Defendia o governo limitado, uma leitura exigente da autoridade constitucional, posições sociais conservadoras e firmeza na política externa. Integrava a direita republicana. Sasse apoiou grande parte da agenda legislativa do partido durante a presidência de Trump. A divergência entre os dois não correspondia à habitual separação entre moderados e conservadores. Questionava a subordinação das regras e das instituições às conveniências pessoais do presidente, mas votava favoravelmente quando concordava com as políticas da Casa Branca. Não adotou o programa dos adversários de Trump nem procurou construir uma identidade bipartidária. Apoiou as medidas fiscais e nomeações judiciais defendidas pela Administração enquanto contestava a conduta do presidente. O conflito incidia sobretudo sobre o exercício do cargo e os limites que, na sua leitura, um dirigente republicano continuava obrigado a respeitar. Em 2016, Trump ainda disputava a nomeação republicana quando Sasse anunciou que não o apoiaria. Criticava a relação do candidato com a Constituição, a forma como tratava os adversários e uma política cada vez mais concentrada na figura do líder. A posição deu-lhe projeção nacional, sem o transformar num republicano centrista. A crítica vinha de dentro do conservadorismo e pretendia separar a doutrina do movimento criado em redor de Trump. Durante a presidência, Trump consolidou o controlo sobre o partido. Sasse continuou a intervir contra o presidente em assuntos que considerava incompatíveis com a tradição republicana. Criticou a proximidade de Trump com dirigentes autoritários e o tom das suas publicações nas redes sociais. As divergências raramente produziram uma rutura nas votações sobre a agenda conservadora, razão pela qual os seus críticos consideravam a oposição sobretudo retórica. As divergências públicas com Trump expunham os eleitos republicanos a acusações de deslealdade. Sasse apoiava as medidas que considerava conservadoras e denunciava condutas que julgava impróprias do cargo. Para os adversários de Trump, era uma dissidência insuficiente; os apoiantes do presidente não lhe perdoavam as críticas. Em 2020, Sasse votou pela absolvição de Trump no primeiro processo de destituição. No mesmo ano, voltou a apresentar-se aos eleitores do Nebraska e foi reeleito. As críticas a Trump não o tinham tornado eleitoralmente inviável num estado republicano. O segundo mandato começou quando o apoio ao presidente ganhava peso na definição de quem pertencia ao espaço político do partido. A reeleição ocorreu antes do conflito face ao resultado presidencial. Sasse apresentara-se novamente como conservador e obtivera dos eleitores mais seis anos no Senado; a oposição a Trump não correspondia a uma mudança de programa. Quando reconheceu a vitória de Biden, fê-lo a partir da mesma posição republicana com que concorrera. Era isso que tornava o confronto incómodo para o partido: não podia ser explicado por uma aproximação aos democratas. Até às eleições de 2020, Sasse criticava publicamente Trump e, em muitas votações, acompanhava a maioria republicana. A tentativa de reverter a vitória de Biden alterou o objeto da divergência. Estava agora em causa a validade de votos certificados pelos estados, não uma medida da Administração que o senador pudesse aprovar ou rejeitar. Depois das eleições presidenciais de novembro de 2020, a divergência deixou de incidir apenas sobre comportamentos, linguagem ou decisões governativas. Joe Biden venceu, e Trump procurou desacreditar o resultado com alegações de fraude que não sustentou de modo credível. Sasse reconheceu a vitória de Biden e criticou os colegas republicanos que pretendiam contestar no Congresso os votos do Colégio Eleitoral. Uma das críticas foi dirigida ao senador Josh Hawley, do Missouri, que anunciara a intenção de se opor à certificação. Sasse considerava que o Congresso não podia substituir os resultados apurados pelos estados porque o candidato derrotado recusava aceitá-los. O ataque de 6 de janeiro ocorreu enquanto o Congresso certificava o resultado. A entrada forçada de apoiantes de Trump no Capitólio interrompeu os trabalhos, obrigou à retirada de legisladores e levou a confrontos com os agentes policiais. Sasse responsabilizou politicamente Trump e alargou a crítica à direção do Partido Republicano. Num ensaio publicado na revista The Atlantic, escreveu que alguns dirigentes tinham tolerado teorias da conspiração para conservar o apoio de quem acreditava nelas, na expectativa de obter vantagem eleitoral sem responder pelas consequências. No argumento de Sasse, Trump beneficiara de um ambiente partidário no qual candidatos, consultores, meios de comunicação e titulares de cargos eletivos evitavam contrariar alegações populares com receio de perder votos, financiamento ou atenção mediática. A certificação do Colégio Eleitoral obrigou os senadores a assumir uma posição formal. Já não bastava classificar as declarações do presidente como exageros ou provocações. Tinham de aceitar os votos certificados pelos estados ou tentar rejeitá-los sem provas capazes de alterar o resultado. Sasse votou pela certificação. O Congresso reunia-se para contar votos que os estados já tinham certificado. A objeção anunciada por Hawley e apoiada por outros republicanos não apresentava elementos que permitissem inverter a vitória de Biden. Sasse podia continuar a discordar dos democratas sobre impostos, tribunais ou política externa; nenhuma dessas divergências lhe dava fundamento para tratar o resultado eleitoral como inválido. Depois da invasão do Capitólio, essa mesma questão passou para o julgamento político de Trump. Depois do ataque, a Câmara dos Representantes acusou Trump de incitamento à insurreição. A contagem oficial do Senado registou sete republicanos entre os 57 votos pela condenação. Sasse estava nesse grupo. Os sete votos republicanos não chegaram para atingir a maioria de dois terços, embora tenham impedido uma divisão inteiramente partidária. Sasse votara pela absolvição no primeiro julgamento, por considerar que a remoção de Trump não se justificava. No segundo, entendeu que a atuação ligada ao 6 de janeiro merecia condenação. Quase todo o seu programa político continuava a separá-lo dos democratas. O voto de fevereiro de 2021 não apagou esse percurso nem o converteu num adversário ideológico de Trump. Significou que, perante a tentativa de impedir a certificação eleitoral e a violência no Capitólio, Sasse não aceitou proteger o líder do partido através da absolvição. Organizações republicanas no Nebraska censuraram-no ou procuraram fazê-lo, e muitos apoiantes de Trump passaram a tratá-lo como traidor. Sasse continuou a criticar a aproximação do partido às teorias da conspiração, sem formar uma corrente capaz de alterar a direção republicana. As críticas públicas raramente impediram o funcionamento da Administração ou a aprovação da respetiva agenda. Durante boa parte do mandato, condenou a conduta de Trump e votou com ele. Rompeu na votação sobre a responsabilidade de Trump pelo 6 de janeiro. Sasse deixou o Senado em 2023, quando os republicanos já se tinham aproximado novamente de Trump. O voto de 13 de fevereiro permaneceu no registo oficial entre os sete votos republicanos pela condenação. Um diagnóstico e uma resposta fora da média Em 23 de dezembro de 2025, Sasse anunciou que tinha cancro do pâncreas metastático em estádio IV. Tinha 53 anos e classificou o diagnóstico como terminal. Segundo explicaria mais tarde, os médicos deram-lhe inicialmente uma previsão de três a quatro meses de vida. No estádio IV, o tumor já se disseminou para além do pâncreas. As informações clínicas divulgadas por Sasse indicam que a doença atingiu vários órgãos, entre eles o fígado e os pulmões. A remoção cirúrgica do tumor primário deixa geralmente de constituir uma opção com intenção curativa quando existem metástases noutros locais. Sasse entrou num ensaio clínico com daraxonrasib, antes identificado como RMC-6236. O medicamento, administrado por via oral, atua sobre as proteínas RAS em estado ativo. Alterações nesta família de proteínas favorecem o crescimento de muitos tumores e aparecem com especial frequência no adenocarcinoma ductal, a forma mais comum de cancro do pâncreas. O RAS foi durante décadas um alvo difícil para o desenvolvimento de medicamentos. Participa em sinais essenciais no interior da célula, e as formas alteradas da proteína nem sempre permitem uma ligação eficaz. O daraxonrasib procura bloquear várias formas ativas de RAS e interromper o sinal que favorece a multiplicação das células tumorais. Sasse recebeu o medicamento como tratamento de primeira linha, num ensaio de fase inicial. Os dados clínicos mais robustos disponíveis dizem respeito a uma situação diferente, a de doentes com cancro metastático já submetidos a tratamento. Em abril de 2026, Sasse comunicou uma diminuição de 76% no volume dos tumores. Três meses depois, após cerca de seis meses e meio de tratamento, disse que a redução ultrapassava 80%. Referiu ainda uma descida muito acentuada de um marcador tumoral no sangue e um ligeiro crescimento de alguns nódulos pulmonares. Os números foram fornecidos pelo próprio Sasse. A redução não corresponde a uma remissão e o diagnóstico continua a ser de doença metastática. Também não se sabe durante quanto tempo o efeito poderá manter-se. Em agosto de 2026, cerca de oito meses depois do diagnóstico, Sasse está vivo e ultrapassou a previsão inicial. O tratamento produziu uma resposta clinicamente relevante, mas até agora não há fundamento para falar em cura ou para considerar ultrapassado o prognóstico associado à doença. Em abril, foram conhecidos os resultados do ensaio de fase III RASolute 302. O estudo incluiu 500 pessoas com adenocarcinoma ductal do pâncreas metastático que já tinham sido tratadas. Receberam daraxonrasib uma vez por dia ou uma das opções de quimioterapia selecionadas pelos investigadores. Segundo os resultados publicados no New England Journal of Medicine, a sobrevivência global mediana entre os doentes com mutações RAS G12 foi de 13,2 meses com daraxonrasib e de 6,6 meses com quimioterapia. Durante o período analisado, o risco de morte foi 60% inferior no grupo que recebeu o novo medicamento. Também houve benefício na sobrevivência sem progressão. A mediana não estabelece um prazo para cada doente. Metade dos participantes viveu mais do que o valor apurado no respetivo grupo e a outra metade viveu menos. Nem todos responderam ao tratamento. Foram observados efeitos adversos, sobretudo cutâneos e gastrointestinais, e alguns participantes tiveram de interromper ou reduzir a dose. O ensaio de fase III estudou o medicamento depois de tratamentos anteriores. Sasse recebeu-o em primeira linha e num protocolo distinto, pelo que não é possível comparar diretamente o seu caso com a população do RASolute 302. Em maio, a FDA permitiu a abertura de um programa de acesso alargado para doentes elegíveis com cancro metastático previamente tratado. Em julho, aceitou para avaliação o pedido de autorização apresentado pela Revolution Medicines. A Agência Europeia de Medicamentos iniciou uma avaliação faseada. Em agosto de 2026, o daraxonrasib continua experimental. Está disponível em ensaios clínicos e, nos Estados Unidos, através do programa de acesso alargado para determinados doentes. As autoridades reguladoras ainda avaliam a eficácia, a segurança, o fabrico e a relação entre benefícios e riscos. O programa SEER do Instituto Nacional do Cancro dos Estados Unidos estima 67 530 novos diagnósticos e 52 740 mortes em 2026. O cancro do pâncreas representa 3,2% dos novos casos de cancro e 8,4% das mortes por doença oncológica. É a terceira causa de morte por cancro nos Estados Unidos. Considerando todos os estádios, a sobrevivência relativa a cinco anos é de 13,7%, com base nos diagnósticos efetuados entre 2016 e 2022. Nos tumores localizados, chega a 43,6%. Desce para 17% nos casos regionais e para 3,4% quando existe disseminação à distância, a categoria estatística mais próxima da doença metastática de Sasse. Em 51% dos casos, já existem metástases à distância no momento do diagnóstico. Apenas 15% dos casos são detetados enquanto o tumor permanece localizado, quando a cirurgia ainda poderá ser considerada. Em muitos doentes, os sinais mais claros surgem depois dessa fase. A idade de Sasse também foge ao padrão mais frequente. O SEER indica uma mediana de 71 anos no diagnóstico; 6,8% dos novos casos ocorrem entre os 45 e os 54 anos. Estas estatísticas reúnem pessoas diagnosticadas em anos anteriores, com condições clínicas, características tumorais e respostas ao tratamento diferentes. O próprio SEER alerta que não servem para prever com exatidão a evolução de um doente. A limitação torna-se ainda mais evidente quando há acesso a uma terapêutica que não fazia parte da prática clínica durante o período usado no cálculo. A resposta de Sasse não altera a taxa de sobrevivência de 3,4% observada na população com doença à distância. Mostra o que aconteceu até agora a uma pessoa tratada com um medicamento experimental. A sua vida prolongou-se. Para saber se o daraxonrasib mudará de forma duradoura o prognóstico de outros doentes, serão necessários mais dados e acompanhamento prolongado e uma adesão de doentes portugueses a estes ensaios. A deteção tardia está relacionada com a biologia da doença e com a localização do órgão. O pâncreas encontra-se numa zona profunda do abdómen, próximo do estômago, do intestino, do fígado e das vias biliares. Um tumor pode crescer sem causar sintomas percetíveis; quando surgem, estes confundem-se com doenças bastante mais comuns. O Instituto Nacional do Cancro refere a icterícia, visível no tom amarelado da pele e dos olhos, as fezes claras, a urina escura, a dor na parte superior ou média do abdómen com possível irradiação para as costas, a perda de peso sem explicação, a falta de apetite e o cansaço. Como estes sintomas podem ter muitas outras causas, a presença de um deles não confirma cancro. A persistência ou a combinação dos sinais deve ser avaliada por um médico. Não há rastreio de rotina recomendado para adultos assintomáticos da população geral. A U.S. Preventive Services Task Force concluiu que os testes disponíveis não demonstraram benefício suficiente e podem originar falsos positivos, exames invasivos e tratamentos desnecessários. Também não existe um biomarcador validado com precisão adequada para a deteção precoce em toda a população. A recomendação não abrange pessoas com síndromes genéticas hereditárias ou forte incidência familiar, consideradas de risco elevado. Nestes grupos, a vigilância pode ser feita em centros especializados, por vezes com ressonância magnética ou ecoendoscopia. É um acompanhamento dirigido, diferente de um programa universal. O tabagismo, o excesso de peso, a diabetes e a pancreatite crónica estão associados a risco acrescido. O mesmo sucede com a história familiar de cancro do pâncreas e algumas alterações hereditárias. Entre elas encontram-se síndromes relacionadas com mutações BRCA1 e BRCA2, mais conhecidas pela associação aos cancros da mama e do ovário. A presença de um destes fatores não permite identificar a causa num doente concreto. Há pessoas expostas que nunca desenvolvem a doença e pessoas diagnosticadas sem risco conhecido. No caso de Sasse, a informação pública não permite associar o cancro a qualquer comportamento, antecedente clínico ou mutação. O último dado clínico divulgado continua a ser a redução tumoral superior a 80%. Sasse ultrapassou a expectativa inicial de três a quatro meses e permanece em tratamento, com doença metastática. Tradução automática pelo Google. Em caso de dúvida, prevalece o original em português. #BenSasse #CancroDoPancreas #Daraxonrasib #DonaldTrump #6DeJaneiro #PoliticaAmericana #Saude #InvestigacaoClinica #AtlanticLisbon

  • A casa mais estável que vi em Lisboa foi feita para desmontar

    Revista · Ensaio · As Tábuas que Sobram Alinhou seis lápis pela aresta da mesa. Não no centro. Pela aresta, para não rolarem. À frente, uma janela pequena dividida em quarenta vidros. Lá fora, mato fechado e um comedouro feito à mão, preso à balaustrada com dois parafusos tortos. Ele interrompe o que está a escrever quando um chapim pousa e só volta à frase quando o pássaro vai embora. Casa de 4x5 metros levantada sobre blocos de cimento nos arredores de Lisboa. As tábuas que a compõem já foram parede, mesa e abrigo. Fotografia: ensaio em pintura cubista inspirada no Poço do Bispo e numa oficina do Porto. Vi isto numa encosta nos arredores de Lisboa. Uma casa de quatro por cinco metros, levantada do chão com blocos de cimento. Por baixo passava o vento. A dona chamava-lhe palheiro, embora já não guardasse palha. Tinha sido corte, depois arrecadação, depois nada, depois sítio onde o neto ia ler para não ouvir a televisão da cozinha. Perguntei-lhe porque não deitava abaixo. Porque ainda serve. No léxico imobiliário de Lisboa e do Porto, uma boa casa é aquela onde a rua acontece sem nos tocar. Vidro duplo, isolamento acústico, estore elétrico, fechadura com código. A casa da encosta estava levantada por outro motivo. Quando a encosta escorre ou o ribeiro ao fundo sobe, levantar é dizer fico sem pedir que mudem por mim. Se não fossem os pilares, pareceria parte do mato. Um avô corta pinho e ergue um barracão. O filho deixa cair o telhado. Um sobrinho desmonta o que resta e leva as madeiras para fazer um abrigo mais abaixo, onde possa estar sozinho sem ter de dar explicações. Esse abrigo apodrece. Um rapaz rouba duas tábuas de choupo e uma de nogueira e sobe outra vez. Faz uma caixa com uma janela grande. Não lhe chama casa. Chama-lhe concha. A casa mais estável que encontrei nos últimos anos tinha sido feita para poder ser desmontada. Chamamos hoje a isto arquitectura resiliente. No Poço do Bispo há uma oficina onde ainda se fazem maços de uma só peça. De madeira de raiz. O homem tem setenta e poucos anos e mãos que parecem lixa. Corta um carvalho pequeno rente ao solo e aproveita o nó onde a raiz torce, porque aí a fibra enrola-se sobre si mesma e torna-se quase impossível de rachar. Passa uma tarde a lascar até ficar com um cabo à medida da mão. Um industrial custa vinte euros. O dele atravessa anos de uso. Quando lhe perguntei quanto tempo demora a ensinar alguém, respondeu dez anos. No Porto, num rés-do-chão da Rua de Camões, uma marceneira guarda tábuas numeradas a giz. São de demolições. Guarda os pregos antigos numa lata de atum. Propôs a um cliente usar aquelas tábuas para prateleiras de um apartamento reabilitado. O cliente recusou, queria madeira sem história. Ela fez as prateleiras com madeira nova. As velhas continuam encostadas à parede. O maço, a tábua numerada, a casa levantada. Ocupar começa nos metros quadrados. Medes, instalas fibra, calculas retorno, sais quando o gráfico desce. Numa casa como aquela é preciso ficar tempo suficiente para perceber onde a água quer passar, onde o vento encosta, que pássaro vem em Novembro. Depois tira-se o que impede essa percepção. Ensinaram-nos que progresso é estrear. Tentaram forçar essa casa da encosta. Não havia nada lá dentro — lápis, papel, um fogão velho. O dono não pôs arame farpado. Escreveu um bilhete à mão e deixou-o em cima da mesa. Se estás aflito, não destruas isto. Vem à minha casa e eu dou-te o que precisas. Vive a dez minutos a pé da aldeia. Vai aos correios todos os dias, a mulher toca no coro da igreja, o cão dorme na varanda. Quando chove pega na carrinha velha, com uma motosserra nos pés — perigosa, poluente, útil e rápida — e vai dar de comer às ovelhas. Nos anos oitenta recusou um computador. A pergunta que fazia ainda serve, em Lisboa e no Porto: esta ferramenta aumenta a minha dependência ou a minha competência? Deitar abaixo por dentro e manter a fachada. Pladur, focos embutidos, ar condicionado. A estrutura desaparece. Naquela casa ficaram a tábua, o prego, o saber de onde a água corre. As velhas, de parede com sessenta centímetros, continuam habitáveis. Foram feitas por gente que sabia que a luz ia faltar. Seis lápis bem afiados. Uma tábua que já foi parede e pode ser mesa. A lata de atum com os pregos antigos. As velhas continuam encostadas à parede. A casa pode ser desmontada peça a peça. Cada peça já foi outra coisa. Uma parede pode voltar a ser mesa. Uma tábua pode entrar noutra construção. Não é que casa lhes deixamos aos filhos. São as tábuas que ainda aceitem outra forma. No último dia na oficina do Poço do Bispo, o homem do maço mostrou-me como se faz um cabo a partir da raiz. Cortas, lavas a terra, marcas com carvão onde a fibra torce. Depois começas a lascar de fora para dentro, sempre a favor da torção, nunca contra. Se fores contra, a madeira abre. Se fores a favor, fecha-se sobre si mesma e ganha força. Pensei na casa. Nenhuma geração tentou endireitar a fibra.

  • Rússia ataca Leipzig com drones e Alemanha responde na Ucrânia

    Segundo responsáveis alemães e europeus, a Rússia visou esta semana, com drones armados, o aeroporto de Leipzig, um aeroporto alemão de grande utilização. Um dos engenhos parecia ter como alvo pelo menos um avião de carga ucraniano. Falharam. Avariaram. Não houve danos nem vítimas. Torre de linha de alta tensão num campo alemão. Na mesma semana em que Berlim falou de uma linha vermelha cruzada em Leipzig, a polícia encontrou em dois locais distintos fogo de artifício montado para disparar material condutor contra este tipo de infraestrutura. Em Berlim, a reação não se afastou do padrão repetido depois de provocações anteriores. Em Bruxelas, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, disse na quarta-feira que a Rússia se tornou cada vez mais imprudente e acusou-a de um aumento de atividades maliciosas a visar diretamente o nosso território, juntando na mesma frase ataques incendiários a fábricas de armamento que ajudam a Ucrânia e o caso falhado de Leipzig. De Moscovo, Putin acusou os alemães de terem plantado provas para atribuir a culpa à Rússia. O serviço de informações alemão não tem o mandato estatutário nem as capacidades da CIA para operações encobertas em solo estrangeiro. É, por desenho, um aparelho de recolha de informação. A reforma em curso que lhe daria mais margem executiva confina-se, por ora, ao cibernético. A Alemanha tem, aquém de uma declaração de guerra, opções legais limitadas para prejudicar adversários para além de sanções diplomáticas e económicas. Quando agentes russos usaram o agente neurotóxico Novichok contra um antigo espião em Salisbury, em 2018, a maioria dos países da UE e os EUA expulsou dezenas de diplomatas russos, incluindo um número considerável tido como ligado aos serviços de espionagem. Berlim continua a dizer que uma linha foi cruzada. Dizer isso obriga, perante a opinião pública, a agir de forma diferente da vez anterior. Como esse instrumento diferente não existe em casa, o preço acaba por ser cobrado noutro lado, por outro exército. Nico Lange, o antigo chefe de gabinete do Ministério da Defesa alemão, resumiu a doutrina que os responsáveis já aplicam sem a citar: por cada ataque híbrido, a Alemanha devia aumentar a sua assistência à Ucrânia. Putin precisa de ser pressionado onde dói, disse Lange. Defendeu o bloqueio da frota sombra russa de petroleiros ilícitos, a proibição de circulação livre de diplomatas russos entre países da UE e mais pressão sobre países que ajudam Moscovo a contornar sanções da UE. Na terça-feira, um responsável alemão disse que Berlim iria enviar novas baterias de defesa aérea e milhares de drones de ataque para a Ucrânia e intensificar a cooperação de informações com Kiev. É com esse material que o apoio financeiro e militar europeu está a ajudar a Ucrânia a lançar ataques no interior da Rússia, atingindo instalações cruciais para a indústria petrolífera geradora de receita e bases logísticas vitais para a guerra, e a prejudicar a capacidade de Moscovo reabastecer as suas forças na península da Crimeia, ocupada desde 2014. O que tinha sido um sucesso militar russo transformou-se num fardo que consome recursos. Responsáveis alemães explicaram que calibraram a resposta a Leipzig porque os drones avariaram. O chanceler Friedrich Merz quer manter uma margem para uma resposta mais dura caso a Rússia continue ou intensifique este tipo de ataques. Para já, a mensagem mais importante era uma resposta medida que sinalizasse a Moscovo que nada do que a Rússia fizer vai abalar o apoio de Berlim à Ucrânia. Esta semana, responsáveis alemães disseram estar a investigar dois ataques falhados a subestações elétricas, sem indicar responsáveis. A polícia encontrou, em dois locais distintos, fogo de artifício montado em campos, concebido para disparar material condutor contra linhas de alta tensão e provocar curto-circuitos, depois de explosões que já tinham interrompido temporariamente a transmissão de eletricidade nas duas zonas. O método foi confirmado. O autor não foi nomeado. Em toda a Europa há apoio alargado a sanções ou expulsões limitadas visando cidadãos russos, ainda que muitos responsáveis defendam que uma reação mais dura devia passar pela UE ou pela NATO. Os membros europeus da NATO não têm mostrado apetite para usar a aliança, assente numa doutrina de defesa coletiva, para lá de defender as suas fronteiras e ajudar a canalizar ajuda militar para a Ucrânia. Procuram, em vez disso, criar dilemas para Putin através do reforço do apoio a Kiev. Tentativas de ação mais forte na UE ou na NATO são frequentemente travadas pela exigência de consenso. A margem de manobra está também limitada pela lista de medidas já tomadas. Muitas das opções que restam são complexas ou dispendiosas, como impedir países terceiros de ajudar a Rússia a contornar sanções, ou politicamente dolorosas, como acabar por completo com as importações de gás natural russo. Só no mês passado, responsáveis europeus atribuíram diretamente à Rússia 20 incidentes de sabotagem e atividades semelhantes, segundo o centro de estudos Sahaidachnyi Security Center, da Ucrânia. Um dos números mensais mais elevados desde a invasão em larga escala de 2022. Na quarta-feira, em Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse junto de Rutte que a Europa e a NATO não se vão limitar a manter a pressão sobre a Rússia, vamos aumentá-la. Enquanto von der Leyen prometia aumentar a pressão, a polícia descrevia o método dos ataques às subestações e retinha a atribuição. É, outra vez, a mesma sequência de Leipzig. Descrever o procedimento, reter o autor, aguardar para ver se o próximo engenho funciona. A pressão aumenta, como prometido. Só que aumenta do lado errado da fronteira para se poder chamar dissuasão. #Rússia #Alemanha #Ucrânia #Leipzig #NATO #GuerraHíbrida #FriedrichMerz #UrsulaVonDerLeyen #MarkRutte #Europa #SegurançaEuropeia #AtlanticLisbon

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