Resultados de busca
Search this site
267 resultados encontrados com uma busca vazia
- O Amor é um Feriado que Não se Assinala
Alberto Carvalho — O Amor é um Feriado que Não se Assinala Amanhã é 15 de agosto, feriado nacional em honra de Nossa Senhora da Assunção. Dia santo para os católicos, com missa obrigatória e procissões em muitas terras, mas também ocasião de romaria popular, onde a fé e a festa se misturam como há séculos. Para outros, será apenas um dia a mais no calendário, com o descanso possível e a rotina ligeiramente suspensa. Pensei que podia aproveitar a véspera para falar de um assunto que não cabe no calendário nem se limita a ritos: o amor. Não o “amor” das capas de revista, feito de retoques e frases que parecem ter saído de um cartão perfumado. O outro. O que se inventa no improviso, o que chega atrasado e ainda assim é recebido à porta, o que sobrevive aos silêncios e aos dias maus. ✺ O amor que me interessa não se deixa medir em aniversários nem cabe em datas fixas. É mais parecido com uma ponte improvisada: feita de pedaços de madeira que se tinham à mão, e que se reconstrói todos os dias para que o outro possa atravessar sem cair. É esse que me apetece escrever hoje. No tempo em que os relógios ainda eram de corda, havia a ideia de que o amor durava para sempre. Os retratos ficavam na sala, e quem passava via o casal na moldura como se nada lhes pudesse acontecer. Mas a fotografia é apenas um instante congelado; o amor, esse, tem de atravessar invernos e verões, febres e noites mal dormidas. Tem de aceitar que a vida nem sempre deixa lugar para flores na jarra, e que há semanas em que a única prova de afeto é o chá quente deixado na mesa antes de sair. ✺ Hoje, trocámos a fotografia emoldurada pelo feed que se atualiza. O amor é agora feito de mensagens rápidas, corações digitais, fotografias que se apagam passadas vinte e quatro horas. Não digo isto com nostalgia — há beleza também na forma como encontramos meios novos para dizer o mesmo. Mas há uma diferença: a urgência. Queremos respostas imediatas, declarações diárias, prova constante de que o outro está ali. E esquecemo-nos de que, às vezes, amar é justamente saber esperar. O amor não se esgota na paixão. A paixão é o incêndio; o amor é a casa que se reconstrói depois, com paredes mais fortes e janelas que se abrem quando o fumo já passou. Há quem confunda as duas coisas e fuja quando as chamas baixam, procurando o próximo incêndio. Mas quem já viveu algum tempo sabe que é nas manhãs normais, nas conversas repetidas, no cuidado quase invisível que se esconde o verdadeiro milagre. E é aí que o feriado de amanhã me parece uma boa metáfora: um dia que não é para grandes acontecimentos, mas que nos oferece a pausa suficiente para olhar para o lado e reparar que a pessoa está ali, a segurar o mesmo jornal ou a mesma chávena de café. Talvez seja esse o ponto mais alto da vida a dois: perceber que, no meio de tudo, escolhemos ficar. O amor, quando é bom, não é uma prisão. É um porto. Podemos sair e regressar, sabendo que o outro não contou as horas nem fechou as portas. É por isso que o amor exige coragem: coragem para mostrar fragilidades, para admitir falhas, para pedir desculpa. E também para ouvir sem se defender, para abraçar sem fazer perguntas, para calar quando é preciso. ✺ Lembro-me de uma frase que ouvi a um velho marinheiro: “A âncora segura, mas não prende.” O amor que vale a pena é assim. Não se trata de manter alguém por falta de alternativas, mas de querer que seja precisamente essa pessoa a atravessar connosco os invernos e os verões. Talvez o problema esteja na forma como o procuramos. Falamos de “encontrar o amor” como quem encontra um objeto perdido. Mas o amor não está à espera numa esquina. Ele nasce de gestos mínimos: uma mão que se estende sem que a peçamos, um riso que nos apanha desprevenidos, um cuidado que não se anuncia. Cresce quando é alimentado, e definha se o deixarmos ao frio. ✺ E não é só nos casais que o amor acontece. Há amores que não passam pelo romance: o amor entre amigos que se salvam mutuamente sem fazer alarde; o amor dos pais que, mesmo cansados, deixam o melhor pedaço para os filhos; o amor de quem cuida de um desconhecido numa fila de hospital. É desse que se constrói uma cidade habitável. Amanhã, quando muitos acordarem sem saber exatamente o que fazer com o dia a mais, talvez seja boa ideia gastar parte dele a reparar no que nos liga. Não no que nos separa — disso já se ocupam as notícias, as redes, os partidos. Mas no que ainda nos permite olhar para alguém e sentir que estamos a salvo. Se me perguntarem se o amor salva, respondo sem hesitar: sim. Não porque cure todas as dores ou impeça todos os erros, mas porque nos dá uma razão para continuar a tentar. É uma espécie de feriado interior que não depende de calendários: pode acontecer numa terça-feira de trabalho ou numa madrugada de insónia. ✺ O amor é raro, sim. Mas não é frágil como dizem. Frágil é a nossa atenção, que se distrai com o barulho e deixa escapar os sinais. O amor, quando existe, aguenta. Aguenta más notícias, distâncias, tempestades. Aguenta porque não se alimenta de promessas vazias, mas de gestos concretos, às vezes tão pequenos que só mais tarde percebemos o peso que tiveram. Amanhã é feriado, e talvez para muitos seja só isso. Mas para quem quiser, pode ser também o dia de olhar para alguém — ou até para si mesmo — e dizer, de forma clara: “Gosto de ti. E fico.” Não há calendário que valha mais do que isso. AC Love — O Feriado que Não se Assinala #Amor #Vida #NossaSenhoraDaAssunção #Feriado #AlbertoCarvalho #Afeto #Esperança #RelaçõesHumanas
- Trégua em marcha lenta
Trégua em marcha lenta Wall Street encerrou ontem no vermelho, ainda que com perdas ligeiras, depois de Donald Trump ter assinado a prorrogação, por mais 90 dias, da trégua comercial entre os Estados Unidos e a China. O acordo, inicialmente estabelecido em maio, visava travar a escalada de tarifas entre as duas maiores economias do mundo. Os números ficaram registados: Dow Jones -0,45%, S&P 500 -0,20% e Nasdaq -0,30%. Nada dramático, mas o suficiente para lembrar que os mercados não vivem apenas de assinaturas — precisam de sinais concretos. A decisão, já antecipada pelo secretário do Comércio, Howard Lutnick, chegou enquanto delegações norte-americanas e chinesas se encontravam na Suécia, em busca de um alinhamento mais estável. O problema, como sempre, é que tréguas não são tratados de paz. Funcionam como um intervalo no jogo, mas as equipas mantêm-se em campo, olhando o adversário com desconfiança. A economia global assiste, prende a respiração… e continua a ajustar-se a cada rumor. Enquanto isso, o investidor comum — esse que não tem assento nas mesas de negociação — continua a depender de decisões tomadas a portas fechadas e de calendários que não controla. Talvez a verdadeira questão não seja quando termina a trégua, mas o que acontecerá no minuto seguinte. Helena Vale — Mapa de Coisas Sérias Gráficos de Wall Street em queda após prolongamento da trégua EUA-China #Economia #WallStreet #China #EUA #MercadosFinanceiros #PolíticaEconómica #HelenaVale #MapaDeCoisasSérias
- Quando o Sentido se Completa em Quem Lê
O Dia em que o Mar se Mudou para a Serra Diz o meu vizinho que o problema do país é que já não temos “patriotismo a sério”. Eu perguntei se isso vinha em frasco ou se se compra ao quilo na mercearia. Ele ficou sério: “Não, Zé, é que precisamos de proteger a nossa identidade!”. Ora, eu cá sei como isso acaba — começa com bandeiras na varanda e acaba com reuniões para decidir que cor de tapete é “verdadeiramente portuguesa”. Se calhar, azul não pode, porque lembra o mar, e o mar é perigoso, que traz estrangeiros. O melhor mesmo é fechar o mar. Puxar um toldo gigante, daqueles de esplanada, e pronto. A água fica só para nós, que assim ninguém nos rouba as ondas. E como é que se vive sem peixe? Fácil, meu amigo: bacalhau salgado do Minho (se lá ainda houver), sardinha de lata e carapau enlatado com rótulo patriótico. Só de pensar, já me sinto mais “nacional”. O problema é que depois começam a implicar com as palavras. “Fado” não pode, porque veio do árabe. “Bacalhau” também não, porque a receita foi apanhada no estrangeiro. “Pastel de nata” talvez passe, desde que seja com farinha nacional e ovos com certificado de origem. Mas ai de quem usar canela de fora — traidor! É este o tal nacionalismo moderno: um amor tão grande à pátria que até a querem pôr dentro de um frasco, fechar bem a tampa e guardar na despensa, não vá entrar um sopro de vento espanhol e estragar o lote. Eu cá acho graça, mas também fico preocupado: com esta lógica, daqui a pouco vão exigir passaporte até para entrar no café da esquina. E, pior, vão cobrar taxa para ouvir a vizinha falar francês com a tia emigrada. Enfim… se isto é “patriotismo a sério”, prefiro o antigo: bandeira no São João, vinho na mesa e mar aberto para quem queira chegar. Porque Portugal sempre foi assim — e quem não gosta, que vá ver se o mar já fechou. Zé das Verdades Meias Retrato do Zé no café #CadernoDoZé #HumorPortuguês #CrónicaSatírica #PolíticaComHumor #VidaEmPortugal #HumorIrónico
- Na praça com Maria do Rio
Maria do Rio não escreve no gabinete. Escreve na praça, no café, na fila de supermercado. Não há parágrafo que não traga o cheiro a torrada ou o rumor de uma conversa a dois metros de distância. A política, para ela, não é só o que se decide em parlamentos. É também o que se decide à porta de uma escola, numa reunião de condomínio ou no preço do pão. Maria do Rio não tem medo das palavras que queimam — nem das que abraçam. Sabe que, quando um país se esquece de ouvir a rua, perde o compasso. E, por isso, transforma cada texto num passeio guiado pelo que se diz, pelo que se cala e pelo que devia estar escrito nas paredes da cidade. Aqui, na Comunidade AC, Maria do Rio traz o país para dentro de casa. E obriga-nos a pensar que talvez a política não viva só em cima de mesas de reunião, mas também nas mesas de café. AC Quando a rua é o verdadeiro parlamento. #ComunidadeAC #MariaDoRio #Política #CrónicaUrbana #VozDaRua #ParticipaçãoCívica
- Quando as estatísticas não chegam à mesa da cozinha
Mapa de Coisas Sérias Quando as estatísticas não chegam à mesa da cozinha Há números que entram nas notícias como se fossem imunes à vida real. “O desemprego caiu”, “a economia cresceu”, “o rendimento médio aumentou”. No papel, o país parece em progresso. Mas basta sentar-me com uma família numa aldeia ou num bairro periférico para perceber que essa curva ascendente não chegou ao prato do jantar. As estatísticas são úteis, mas têm um vício: falam em médias e esquecem-se das pessoas que vivem abaixo delas. Quando dizemos que o rendimento médio subiu, escondemos que o custo da habitação, da alimentação e da energia subiu mais depressa. E para quem já vivia no limite, uma média em alta é apenas um número que não paga contas. O que me interessa não é apenas o gráfico — é a travessia entre ele e a mesa da cozinha. aí que se vê se a política pública cumpre ou falha. Um programa de apoio à renda pode ser elogiado num relatório, mas se obriga uma família a preencher vinte formulários, entregar fotocópias de documentos que já entregou e esperar três meses por resposta, está mais perto de ser uma barreira do que uma solução. O mesmo vale para a saúde e para a educação. Quando um hospital anuncia que reduziu tempos médios de espera, pergunto-me se isso também aconteceu para a mulher que ficou seis horas nas urgências com o filho, ou se apenas mudaram o método de registo. Quando um ministro fala de “taxas de sucesso escolar”, pergunto-me se conta os alunos que desistiram antes de chegar ao exame. O país precisa de políticas que sobrevivam fora dos relatórios e que resistam ao teste da realidade: funcionam para quem mais precisa? Chegam a tempo? Respeitam a dignidade de quem as recebe? No Mapa de Coisas Sérias, não me interessa medir o país apenas com gráficos e discursos. Quero medi-lo com a régua da vida real — aquela que passa pela porta das casas, entra na cozinha e, entre um prato e outro, decide se a política serve as pessoas ou se serve apenas para ser fotografada. Helena Vale — Mapa de Coisas Sérias Helena Vale — Mapa de Coisas Sérias #HelenaVale #MapaDeCoisasSérias #PolíticasPúblicas #ImpactoSocial #EconomiaReal #Desigualdade #Portugal
- O Caderno das Duas
No Caderno das Duas, as páginas não se escrevem sozinhas. Há nelas duas vozes, nascidas com um ano e pouco de distância, que se encontram num mesmo papel e se desafiam sem pedir licença. A mais velha mede o mundo como quem percorre um mapa antigo, sublinhando cada detalhe e perguntando-se onde começa a mudança. A mais nova atravessa o dia como quem corre atrás de uma ideia antes que ela fuja, rindo-se das regras e colecionando espantos. Entre ambas, o que nasce não é apenas um diálogo — é um retrato vivo de uma idade em que tudo ainda pode ser reinventado. E é dessa conversa, entre a paciência e a pressa, que se escreve aqui o futuro. A mais velha — 13 anos Escreve como quem atravessa uma ponte devagar, observando o rio e as margens antes de dar o passo seguinte. Gosta de sublinhar palavras no dicionário e de colecionar frases que encontra em livros velhos. A sua prosa é medida, quase matemática, mas com uma ternura escondida nas entrelinhas. Prefere textos longos, em que possa construir raciocínios, levantar hipóteses e deixar perguntas no ar. Fala de injustiças com um misto de indignação e paciência, como quem acredita que mudar o mundo exige mais do que pressa: exige clareza. No Caderno das Duas é a voz que organiza, que liga as ideias e que, mesmo em silêncio, está sempre a pensar no que virá a seguir. A mais nova — 12 anos Escreve como quem corre descalça numa rua cheia de sol. As palavras saem-lhe em rajada, ora a rir, ora a provocar, ora a espantar-se com coisas que os adultos já não veem. Não se preocupa com rascunhos: escreve à primeira e raramente apaga. Troca facilmente de tema, salta de uma ideia para outra como quem muda de passeio. É capaz de transformar um episódio da escola numa crónica afiada ou um rumor de recreio numa quase poesia. No Caderno das Duas é a faísca, a gargalhada que começa um texto e a exclamação que o fecha. E há ainda um terceiro olhar — o do irmão de seis anos — que ouve todas as histórias como quem descobre um segredo e, mesmo sem escrever, encontra palavras certas para as contar de novo. Entre os três, o que nasce não é apenas um diálogo: é um retrato vivo de uma idade em que tudo ainda pode ser reinventado. É dessa conversa, entre a paciência, a pressa e o espanto, que se escreve aqui o futuro. Usam o avatar que lhes desenhámos: duas figuras lado a lado, cúmplices, com expressões diferentes mas o mesmo brilho no olhar — como se estivessem prestes a contar um segredo que o mundo ainda não ouviu. AC As duas irmãs do Caderno — cumplicidade e contraste num só olhar. #CadernoDasDuas #ComunidadeAC #EscritaJuvenil #LiteraturaJovem #VozesDaJuventude #AlbertoCarvalho
- O peso das palavras no mercado
O peso das palavras no mercado No mercado da cidade, a banca das laranjas tem mais conversa do que fruta. A mulher, de lenço azul preso na nuca, diz que as chuvas tardias estragaram metade da colheita. “Mas isto ninguém vê. Falam de economia na televisão, mas não sabem o que é perder meia caixa antes do meio-dia.” Ao lado, um homem mais velho espreme o pão nas mãos antes de o levar, como quem testa a coragem de uma parede antes de a atravessar. Conta, sem ser perguntado, que a reforma não chega para a renda e que o filho já anda “de malas feitas para a Alemanha”. O pão, diz, vai durar três dias. A voz, essa, parece não durar até à noite. O mercado é isto: política do quotidiano. Não a dos programas partidários, mas a das decisões silenciosas — escolher entre peixe ou carne, entre pagar a conta da luz ou comprar os livros da escola. Aqui não há debates televisivos, há trocas rápidas, moedas contadas, promessas de “amanhã pago”. Quando a manhã avança, a praça enche-se do cheiro das sardinhas grelhadas num canto improvisado. É um perfume de verão e resistência, como quem diz que o país pode mudar de governo, mas o carvão aceso ao meio-dia é lei que não se revoga. Quem quiser saber o que é Portugal, não leia apenas os jornais: passe meia hora numa praça e aprenda o tom exato da nossa paciência. João da Praça - Cronista de Rua João da Praça — Cronista de rua #PraçasDePortugal #VidaLocal #Mercados #CulturaPopular #HistóriasHumanas #ComércioTradicional #Portugal
- O valor do silêncio
Senhor, antes do som veio o sopro. E antes do sopro, a Tua proximidade. No adro da manhã, quando o sino ainda repousa, há uma quietude que prepara a assembleia melhor do que qualquer palavra. O acólito estende a toalha do altar; o coração aprende, devagar, a estender também a sua mesa. No breviário, entre dois salmos, não há vazio: há pausa. Respiração. Um intervalo onde a oração toma corpo sem pedir frase. Tu sabes: tememos a calma porque nela escutamos demasiado. Por isso apressamos o rumor, multiplicamos notícias, ocupamos cada fresta com comentários — como se o barulho fosse bênção e a espera, castigo. Mas a trégua do mundo que nos concedes não apaga; envolve. Sobe como incenso. Cura devagar. Dá espaço à ferida para respirar sem vergonha. É nesse recolhimento que a decisão aprende a ser justa, que a esperança não precisa de gritar para existir, que a caridade encontra a sua hora — não a nossa, a Tua. E, quando enfim regressamos à nave, levando connosco a luz breve das velas e o rumor de quem chega, percebemos que a palavra só vale quando foi precedida por esta escuta, por este consentimento íntimo em deixar-Te falar primeiro, mesmo que apenas por sinais pequenos, quase invisíveis. Concede-nos, Senhor, a graça de não fugir da quietude santa. E que, ao voltarmos à assembleia, o que dissermos retenha o perfume do incenso e a disciplina de quem foi enviado em paz. Frei Lourenço de Santa Clara — Pequenos Tratados do Invisível #PequenosTratadosDoInvisível #FreiLourençoDeSantaClara #SilêncioSagrado #ReflexãoEspiritual #VidaMonástica #Oração #Interioridade #PazInterior #IncensoEAltar #Assembleia
- O Ofício das Horas
No claustro da tarde, quando a luz já não fere mas acaricia, aprendo a medir o tempo pela lentidão com que o pó assenta nas páginas abertas. Não há sino que chame; é o próprio ar que se recolhe, como quem se lembra de rezar. O cálice repousa sobre o altar com a paciência das coisas que sabem esperar. Entre um salmo e outro, a assembleia respira num compasso que não foi escrito — é dom. Cada rosto traz a marca de um cansaço antigo e, ao mesmo tempo, a centelha de quem sabe que ainda pode recomeçar. É aqui, Senhor, que a Tua voz se esconde nas dobras de um gesto simples: o acólito que acende a vela, a mão idosa que ajeita o xale, o olhar de quem chega atrasado mas não perde a bênção. Não há pressa. Não há notícia que interrompa esta ordem secreta. Talvez a fé seja isto: guardar no coração o rumor das pequenas fidelidades, até que elas floresçam no instante certo. Como a água que corre debaixo da pedra, sem que ninguém a veja, mas que alimenta tudo o que cresce em redor. Quando a última oração se cala, não há despedida — há envio. E cada um parte com um fragmento da assembleia dentro de si, levando para as ruas o perfume do incenso e a leveza de quem foi, por um momento, hóspede da Tua paz. Frei Lourenço de Santa Clara — Pequenos Tratados do Invisível O valor do silêncio no altar #Silêncio #Oração #Espiritualidade #Liturgia #FreiLourençoDeSantaClara
- Pequenos Tratados do Invisível
Frei Lourenço de Santa Clara Escreve como quem acende uma vela antes de falar. As suas frases caminham devagar, com a gravidade de quem aprendeu a ouvir antes de responder. Nasceu no claustro imaginário que construiu para si mesmo — um lugar feito de silêncio, de leitura e de memórias partilhadas com monges que só existem nos livros. Gosta de olhar a vida pública com a lente da ética e da espiritualidade, não para fugir ao mundo, mas para o compreender de dentro. Nas suas páginas, política e fé não são inimigas: conversam à sombra do mesmo claustro. Fala de justiça como quem fala de pão, e de misericórdia como quem descreve o nascer do dia. No Pequenos Tratados do Invisível, deixa sementes que crescem devagar, mas nunca se perdem. Frei Lourenço de Santa Clara Frei Lourenço — a voz ética e espiritual da Comunidade AC. #FreiLourenço #ComunidadeAC #PequenosTratadosDoInvisível #Ética #Espiritualidade #VidaPública #AlbertoCarvalho
- Esperar
A espera também conta na história. A mais velha: Hoje, no parque, o escorrega grande estava fechado porque precisava de arranjo. Fiquei sentada a olhar para ele e pensei que esperar é mais difícil quando vemos o que queremos e não podemos ter. Há quem diga que esperar ensina paciência, mas acho que também nos ensina a imaginar o que vamos fazer quando a espera acabar. A mais nova: Eu acho que esperar é como quando estás a ver o pacote de batatas fritas na mesa e ainda ninguém disse que podes abrir. A cabeça começa a inventar histórias sobre como vai ser a primeira dentada. Às vezes, a espera é quase melhor do que o momento… quase. As duas: Talvez seja por isso que, quando finalmente chega a nossa vez, o momento sabe mais — porque o tempo que passou também faz parte do que recebemos. As duas irmãs do Caderno — cumplicidade enquanto esperam. #CadernoDasDuas #ComunidadeAC #Esperar #Paciência #EscritaJuvenil #VozesDaJuventude #AlbertoCarvalho
- Ser justo
A justiça também se aprende nas férias. A mais velha: Hoje, no jogo de cartas, vi um miúdo a inventar regras para ganhar. Não disse nada logo, mas senti que devia. Ser justo não é só seguir as regras — é lembrar aos outros que elas existem para todos, mesmo quando ninguém está a olhar. A mais nova: Eu acho que ser justo é mais difícil quando a pessoa que está a fazer batota é tua amiga. Porque aí ficas a pensar: “Não quero estragar o jogo.” Mas às vezes é preciso estragar um bocadinho para o arrumar de novo. Não é por mal, é porque se toda a gente fizer de conta que não vê, um dia já não há jogo, só confusão. As duas: E talvez seja isso que os adultos esquecem: a justiça começa nas coisas pequenas. Até num jogo de férias. Avatar das duas irmãs do Caderno das Duas, lado a lado, com expressões distintas mas cúmplices, como se acabassem de comentar um jogo nas férias. #CadernoDasDuas #ComunidadeAC #Justiça #Férias #JogosDeVerão #EscritaJuvenil #VozesDaJuventude #AlbertoCarvalho







