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- Rússia cedeu ao Irão mísseis C430L a troco de drones Shahed
Há décadas que a Rússia recusava ao Irão o acesso à propulsão ramjet. O programa que agora a transfere em segredo chama-se C430L e tem um objetivo preciso: ajudar Teerão a dominar o sistema que permite a um míssil de cruzeiro manter voo a várias vezes a velocidade do som. Programa secreto C430L: investigação do Financial Times revela como a Rússia transferiu para o Irão tecnologia de mísseis ramjet recusada durante décadas a troco de drones Shahed para a guerra na Ucrânia. Imagem: Atlantic Lisbon Uma investigação do Financial Times conduzida desde 2023, com base em correspondência divulgada, registos de viagens e análise de patentes iranianas, documentou a transferência. Não houve comunicado oficial. O Kremlin, a Rosoboronexport, a NPO Mashinostroyeniya e o governo iraniano não responderam aos pedidos de esclarecimento. O C430L é um programa de transferência de conhecimento para que o Irão consiga construir e operar o motor que torna possível um determinado tipo de míssil de cruzeiro. Ao contrário de um míssil balístico, que segue uma trajetória balística depois do impulso inicial, um míssil de cruzeiro com ramjet mantém o voo sustentado a velocidade supersónica. Peritos militares citados na investigação dizem que esta classe de motor serve sobretudo dois fins: mísseis antinavio e mísseis de ataque terrestre. No Golfo, são os porta-aviões e outros navios de guerra dos Estados Unidos. Jim Lamson, antigo analista da CIA para o dossiê iraniano e hoje no James Martin Center for Nonproliferation Studies, resume o resultado prático como um sistema de armas qualitativamente novo, capaz de ameaçar navios da Marinha dos Estados Unidos. O Irão já construiu e testou variantes do sistema de propulsão ramjet, mas não há informações de que um míssil de cruzeiro assistido pela tecnologia russa tenha sido efetivamente tratado. O que está documentado é a fase de transferência. Os registos de viagens mostram responsáveis russos de exportação de armamento e engenheiros da NPO Mashinostroyeniya a deslocarem-se repetidamente a Teerão antes de novembro de 2023, quando o contrato foi assinado formalmente dentro do Ministério da Defesa e Logística das Forças Armadas do Irão. Fabian Hinz, analista de mísseis iranianos no Conflict Armament Research, sublinha o ponto que distingue este caso: esta é tecnologia que a Rússia recusou transferir ao Irão durante décadas, e um programa deste tipo só avança com autorização política do topo do Kremlin. Durante anos, Moscovo manteve a tecnologia guardada porque um Irão com mísseis de cruzeiro supersónicos operacionais fica mais difícil de controlar, mais imprevisível nas suas relações com o Golfo e com Israel. A recusa prolongada era um instrumento para limitar a autonomia do parceiro e a escala do conflito na região. Foi o Irão que forneceu à Rússia os drones Shahed que se tornaram a peça central da guerra contra a Ucrânia. A cronologia do C430L insere-se dentro da janela em que Moscovo já dependia da indústria de drones iraniana para sustentar a sua guerra. Quando Teerão precisou de apoio para enfrentar Israel, foram os responsáveis ucranianos e ocidentais que assinalaram a assistência russa em imagens de satélite e apoio com drones durante o conflito. A relação deixou de ser unidirecional. O que existe é uma transação. A Rússia precisava de drones para manter viva a guerra na Ucrânia. O Irão precisava de sair da dependência exclusiva dos mísseis balísticos, cuja tecnologia já domina, e ter acesso a uma capacidade que só um punhado de potências possui. O Irão, ao receber o C430L, fica menos dependente de Moscovo, não mais leal. Para um patrocinador que quer manter algum controlo sobre a escala do conflito na região, é uma contrapartida contraintuitiva, mas foi a que a necessidade de sustentar a guerra na Ucrânia tornou possível. Na terça-feira desta semana, à margem da cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, no Quirguistão, Vladimir Putin apertou a mão a Massoud Pezeshkian e garantiu-lhe que o povo russo estava solidário com o povo iraniano na defesa dos seus interesses. É a frase que os chefes de Estado trocam para as câmaras. Nos últimos anos, a Rússia tornou-se de facto mais solidária com o Irão do que em qualquer outro momento da relação entre os dois países. Depois de anos a receber drones iranianos, pagou de volta com a única coisa que, até agora, sempre guardara para si. O programa continua em fase de transferência de conhecimento, sem desdobramento operacional comprovado. #Rússia #Irão #C430L #MísseisRamjet #DronesShahed #Ucrânia #Geopolítica #FinancialTimes #AtlanticLisbon #Investigação
- Como o FSB trocou o terrorismo por caça a traidores na Rússia
Em 2025, uma série estatística russa desapareceu. Em 2026, desapareceram mais três. Não eram dados militares nem informação operacional: eram salários de professores, despesas das famílias com a habitação, rendimentos domésticos. O responsável era o Rosstat, o serviço federal de estatística. Um Estado empenhado numa guerra longa, sob sanções e mobilizado para uma economia de guerra, precisaria de saber mais sobre o país que administra. A Rússia está a fazer o contrário. Como o FSB trocou o terrorismo por caça a traidores na Rússia | Atlantic Lisbon O apagão estatístico é apenas a face mais silenciosa de uma transformação maior. Desde 2022, a segurança interna russa passou a tratar uma categoria muito mais vasta de pessoas, instituições e relações como potenciais problemas de segurança. O suspeito deixou de ser apenas quem pratica um ato contra o Estado. Pode ser quem tem um contacto errado, trabalha com uma tecnologia estrangeira, conhece alguém no exterior ou simplesmente controla uma informação que o Estado já não quer ver circular. A consequência que começa agora a aparecer é mais difícil de medir do que a repressão: ao tentar eliminar a informação que considera perigosa, o sistema pode estar a eliminar também a informação de que precisa para governar. 1. O que deixou de ser contado O Rosstat interrompeu em 2025 a publicação de dados demográficos. Em 2026, suspendeu dados sobre as remunerações dos funcionários públicos, docentes e médicos, bem como sobre a despesa com a habitação e rendimento das famílias. Não são exceções isoladas. Desde o início da invasão em larga escala, pelo menos catorze outras entidades com funções de supervisão ou produção estatística deixaram de publicar séries que mantinham havia décadas. A criminalidade deixou de ser atualizada pela Procuradoria-Geral. O Tesouro deixou de detalhar a execução do orçamento. O banco central restringiu a divulgação de reservas internacionais. A proibição de publicar dados sobre a produção de petróleo e gás, em vigor desde abril de 2023, foi prolongada. Bancos e empresas cotadas passaram a poder omitir informação financeira. As declarações anuais de rendimentos dos titulares de cargos públicos, antes obrigatórias, deixaram de estar acessíveis. Quando esses números deixam de ser publicados, salários, produção, reservas, criminalidade e execução orçamental deixam também de cumprir uma função básica da estatística pública: mostrar ao poder o que está a acontecer fora dos seus próprios gabinetes. E a opacidade não fica do lado de fora do sistema. O Kremlin também depende dos números que os seus subordinados produzem. 2. A lógica não nasceu com a guerra. A escala, sim. A ideia de colocar agentes de segurança permanentemente dentro das instituições, unidades militares e indústrias estratégicas não nasceu em 2022. É uma lógica soviética dos anos 1920 que sobreviveu a Estaline, ao degelo de Khrushchov e ao fim da URSS, chegando ao FSB pós-soviético. Quando Vladimir Putin dirigiu o serviço, em 1998, o departamento criado para disciplinar os oligarcas já incluía equipas destinadas a supervisionar a indústria, os transportes e o sistema financeiro. A infiltração era tratada como algo que devia ser detetado antes de se materializar. Uma empresa civil que assina um contrato militar ou de duplo uso passa a estar dentro desse campo de supervisão. Um atraso de calendário, uma derrapagem orçamental ou um contacto externo que antes poderiam ser problemas de gestão podem adquirir outro significado: indício de incompetência, corrupção ou, num ambiente de suspeita crescente, deslealdade. No final de julho de 2026, três quadros de topo de uma subsidiária da Gazprom responsável por dezenas de centrais elétricas e térmicas no país foram detidos, oficialmente por suborno. O episódio não prova, por si só, uma campanha contra gestores do setor energético. Num sistema em que a fronteira entre a falha administrativa e o risco de segurança se tornou mais estreita, porém, um gestor sabe que as suas decisões podem ser examinadas por uma autoridade para a qual o erro não é necessariamente apenas um erro. Uma lei assinada em junho de 2025 passou a exigir que projetos científicos com participação estrangeira sejam reportados em detalhe a uma base de dados gerida pelo FSB, ficando a própria participação dependente de aprovação prévia do serviço. A Cloudflare, usada por muitos sites russos para acelerar o carregamento de páginas, ficou sujeita a restrições de acesso desde o verão de 2025. Em junho de 2026, o FSB acusou publicamente a empresa de colaborar com os serviços de informação dos Estados Unidos. O setor das telecomunicações, já pressionado pela escassez de computação em nuvem e por infraestrutura obsoleta, recebeu esse sinal num momento particularmente sensível. Uma empresa, um laboratório ou uma infraestrutura tecnológica podem entrar assim no mesmo campo de vigilância que antes estava associado sobretudo a ameaças de segurança mais delimitadas. 3. O inimigo mudou de nome; mudou o alcance da repressão Durante as duas primeiras décadas de Putin no poder, o vocabulário dominante da segurança interna era o terrorismo e o extremismo. As guerras na Chechénia foram enquadradas como operações antiterroristas; opositores como Boris Berezovsky, Mikhail Khodorkovsky ou Alexei Navalny foram frequentemente tratados através desse léxico ou de acusações de natureza económica. Esse enquadramento tinha uma vantagem política: permitia apresentar a perseguição de adversários como aplicação da lei comum: fraude, desvio, abuso de poder, em vez de repressão política. Depois da primavera de 2022, o vocabulário começa a mudar. Em abril desse ano, uma estrutura ligada ao Conselho da Federação anunciou um escrutínio sobre a chamada oposição não sistémica, fora da Duma, por traição. Na lei russa, a alta traição é entendida como uma forma de espionagem: agir contra o Estado em benefício de uma potência estrangeira. O terrorismo aponta para uma ameaça relativamente delimitada. A espionagem pode ser procurada em qualquer lugar: num laboratório, numa empresa, num gabinete público ou numa rede de contactos pessoais. Segundo uma compilação da ONU relativa ao artigo 275.º do Código Penal russo, que tipifica a alta traição, as condenações anuais, que se situavam entre dez e quinze antes da guerra, passaram para 167 em 2023 e 361 em 2024. Só no primeiro semestre de 2025 foram registadas 232. A organização Pervy Otdel, que acompanha estes processos a partir do exílio, contabiliza 143 casos de segurança do Estado apenas no primeiro trimestre de 2026, incluindo um recorde de 48 veredictos num único mês, março. A pena média comunicada é de quinze anos e cinco meses. O caso de Vladimir Kara-Murza é particularmente revelador. O opositor foi acusado de alta traição em outubro de 2022 por discursos contra a guerra proferidos em Lisboa e Washington e libertado em agosto de 2024 numa troca de prisioneiros. Há também casos menos conhecidos. Operações de aliciamento do FSB fazem-se passar por interlocutores ucranianos ou por combatentes de unidades russas do lado de Kiev para estabelecer um contacto com os russos conhecidos pelas suas posições contra a guerra. O contacto criado pela própria operação pode depois tornar-se parte da acusação. A acusação pode, portanto, nascer não só de uma relação que o suspeito procurou estabelecer, mas de uma relação criada pelo próprio aparelho de segurança e apresentada depois como indício. 4. Quando a suspeita sobe pela hierarquia A repressão produz um efeito imediato que é fácil de observar: reduz a dissidência visível e aumenta a obediência. Um funcionário que sabe que comunicar um problema pode ser interpretado como incompetência ou deslealdade tem um incentivo para não o comunicar. Um investigador pode evitar uma colaboração estrangeira. Uma empresa pode preferir não propor uma solução que envolva tecnologia estrangeira. Uma autoridade regional pode esperar por uma ordem superior antes de agir. A suspeita não precisa de produzir falsidades deliberadas. Basta tornar perigoso dizer aquilo que o superior talvez não queira ouvir. Retirar dados de circulação protege o Estado de observadores externos. Também retira aos decisores uma parte daquilo que lhes permitiria testar os seus pressupostos. Na Crimeia, no verão de 2026, os relatos locais apontavam para uma rutura quase total de combustível nas bombas de gasolina. Em meados de julho, Vladimir Putin afirmava publicamente que estava em curso um sistema «protegido» de abastecimento para a península. O episódio, isoladamente, não permite concluir que o Kremlin desconhecia a situação real. Mas mostra a distância que pode surgir entre aquilo que acontece numa região e aquilo que chega à liderança como a descrição da situação. Quanto mais custoso é transmitir más notícias, mais difícil se torna distinguir, no topo, uma situação resolvida de uma situação que apenas foi descrita como resolvida. Um Estado pode tornar-se muito eficaz a descobrir quem desobedece sem receber informação igualmente boa sobre as próprias falhas. Pode saber quem contacta o estrangeiro e demorar mais a saber que uma região está sem combustível. A Rússia não está simplesmente a esconder estatísticas do exterior. Está a construir um sistema em que cada vez mais a informação precisa de atravessar primeiro o filtro da segurança para poder chegar a qualquer lado. Esse filtro não separa apenas informação verdadeira de informação falsa. Decide também que informação é segura e qual pode constituir uma ameaça. Um Estado consegue governar durante algum tempo sem publicar os seus números. O problema surge quando os números que chegam ao centro já não permitem saber com segurança o que está a acontecer fora dele. Quanto mais caro for dizer ao poder que alguma coisa correu mal, maior será a possibilidade de ele descobrir o problema apenas quando já não puder corrigi-lo. #FSB #Russia #Putin #AltaTraição #Contraespionagem #Segurança #Geopolítica #Ucrânia #Kremlin #AtlanticLisbon
- Revista Atlantic Lisbon, Edição Especial n.º 2
Esta é a Edição Especial n.º 2 da Revista Atlantic Lisbon. Reúne, em texto integral e num único ficheiro PDF, ensaios do Atlantic Lisbon. Descarregue a edição abaixo e leia ao seu ritmo, no ecrã ou em papel. No Porto, a ponte transforma-se num guarda-chuva sobre o Douro. Capa ilustrada da Revista Atlantic Lisbon — Edição Especial.
- Massacre Bondi Beach Mata 15 e Destrói Consenso Australiano
NOTÍCIA · Mundo · Oceânia · Política O ataque durante celebração de Hanukkah em Sydney desencadeia a pior crise política do governo trabalhista de Anthony Albanese. A oposição acusa o primeiro-ministro de negligência face ao antissemitismo. A unidade inicial colapsou em dias. O massacre em Bondi Beach Matou 15 e Transformou o Consenso Político Australiano em Guerra Partidária. Impacto social em Sydney Um ataque armado a uma celebração de Hanukkah em Bondi Beach, Sydney, que matou 15 pessoas na semana passada, transformou-se na maior crise política que o Primeiro-Ministro australiano Anthony Albanese enfrentou desde a sua reeleição em Maio. O que começou como uma resposta bipartidária — com Albanese a apelar à unidade e a líder da oposição conservadora Sussan Ley a prometer apoio "total e incondicional" — desintegrou-se rapidamente numa guerra política que surpreendeu observadores num país onde o consenso em momentos de crise é historicamente a norma. Acusações de Negligência A oposição aproveitou-se da raiva crescente na comunidade judaica australiana, que representa menos de um por cento dos 27 milhões de habitantes do país. Muitos judeus australianos acusam o governo trabalhista de centro-esquerda de Albanese de ter ignorado os avisos sobre o aumento do antissemitismo nos últimos dois anos, particularmente desde os ataques do Hamas a 7 de Outubro de 2023 e a subsequente guerra em Gaza. Dias após o massacre, alguns adversários políticos de Albanese culparam-no diretamente pela tragédia. Sussan Ley acusou o governo de não se envolver suficientemente com as famílias em luto e atacou um ministro por não ter "derramado uma única lágrima". Outros na oposição descreveram a proposta de Albanese para apertar as leis de controlo de armas como mera distração da questão do antissemitismo. Resposta de Albanese Considerada Insuficiente Albanese defendeu-se listando medidas tomadas pelo seu governo: nomeação do primeiro enviado australiano contra o antissemitismo, aprovação de legislação que criminaliza discurso de ódio, e condenação pública das motivações antissemitas do ataque. Mas a comunidade judaica e a oposição consideram tudo isto insuficiente. Meses antes do ataque, o enviado contra o antissemitismo tinha feito recomendações — incluindo criar uma base de dados nacional de incidentes antissemitas e permitir ao governo reter financiamento a universidades que não combatessem o antissemitismo — que Albanese não implementou com a velocidade esperada. Mark Kenny, diretor do Instituto de Estudos Australianos, disse nunca ter visto "um momento de tragédia nacional transformado tão rapidamente em vantagem política partidária". Observou que Albanese, que não é um comunicador natural, teve dificuldade em estar à altura do momento. "Para os judeus australianos, soou pouco convincente", disse. Vaias em Memorial A raiva atingiu tal nível que Albanese não assistiu aos funerais das vítimas, mesmo enquanto outros líderes, incluindo Ley, o fizeram. Quando apareceu num memorial em Bondi Beach no domingo, uma semana após o ataque, parte da multidão vaiou-o. Ele não discursou. Netanyahu Liga Ataque ao Reconhecimento da Palestina Horas após o massacre, o Primeiro-Ministro israelita Benjamin Netanyahu ligou o ataque diretamente à decisão da Austrália, em Setembro, de reconhecer a Palestina como estado. "Deixaram a doença espalhar-se e o resultado são os ataques horríveis aos judeus que vimos hoje", disse. A oposição australiana, historicamente mais próxima de Israel do que o Partido Trabalhista, não foi tão longe publicamente, mas a mensagem estava implícita nas suas críticas. Ironia de John Howard Numa reviravolta irónica, John Howard — o primeiro-ministro conservador que em 1996 implementou leis rigorosas de controlo de armas após um massacre que matou 35 pessoas na Tasmânia — foi um dos primeiros a atacar a proposta de Albanese para apertar ainda mais essas leis, argumentando que o foco nas armas desviava atenções do antissemitismo. Perguntas Sobre Falhas de Segurança A oposição exige uma comissão real — a forma mais alta de inquérito na Austrália — para investigar como os dois atiradores (um indiano e o outro seu filho nascido na Austrália) conseguiram executar o ataque sem serem detectados. Um deles estava no radar das autoridades desde 2019, mas foi considerado inofensivo. Josh Frydenberg, antigo político do Partido Liberal e ele próprio judeu, exigiu num discurso emocionado que Albanese assumisse "responsabilidade pessoal pela morte de 15 pessoas inocentes". Julianne Schultz, professora na Universidade Griffith, vê ecos da política de divisão dos Estados Unidos no que está a acontecer. "Isto vai além de algo que vimos aqui no passado", disse. Vista aérea de Sydney com Porto de Sydney e Ponte Harbour Bridge #BondiBeach #Austrália #Sydney #AnthonyAlbanese #Massacre #Antissemitismo #PolíticaAustraliana #ComunidadeJudaica #Hanukkah #CrisePolítica #ArcanaNews #NotíciasInternacionais
- Dois funerais recusados: há uma nova linha contra os maçons?
Segundo relatos da imprensa local, na manhã de 8 de agosto, o féretro de Mario Tarducci permaneceu no exterior da Igreja de San Marco Evangelista, em Camporosso. As exéquias que deveriam realizar-se dentro da igreja tinham sido impedidas pelo bispo de Ventimiglia-Sanremo, Antonio Suetta. O pároco recitou algumas preces no adro e, depois das orações, o filho do falecido pronunciou algumas palavras diante das pessoas que ali se encontravam. Duas dioceses italianas recusam exéquias católicas a maçons Uma porta de igreja fechada e uma coroa fúnebre representam os dois funerais católicos impedidos em Roma e Camporosso, em agosto de 2026. Tarducci, de 73 anos, tinha sido venerável mestre da loja Mimosa n.º 985, em Bordighera. A diocese soube da sua filiação maçónica quando o funeral já estava organizado, através da imprensa local e das participações de falecimento afixadas publicamente. O comunicado publicado pela Diocese de Ventimiglia-Sanremo informa que Suetta falou com o pároco e com a família e procurou obter instruções de autoridades eclesiásticas superiores. Não as recebeu no tempo disponível. A decisão acabou por ser tomada com base num caso ocorrido poucas horas antes, em Roma. O comunicado afirma que Suetta seguiu as mesmas indicações dadas pelo cardeal Baldassare Reina, vigário-geral da Diocese de Roma, e invocou o cânone 1184 do Código de Direito Canónico para impedir as exéquias. Segundo o jornal Il Secolo XIX, a intervenção ocorreu quando a cerimónia estava a começar. A diocese não descreve esse momento no seu comunicado. O funeral romano estava marcado para 7 de agosto, na Basílica de Santa Maria in Montesanto, em Piazza del Popolo, conhecida como Chiesa degli Artisti. O falecido era Bruno Battisti D’Amario, guitarrista, compositor e professor. Trabalhou com Ennio Morricone, tocou em bandas sonoras de filmes de Sergio Leone e ensinou em vários conservatórios italianos. A sua posição no Grande Oriente d’Italia fora divulgada pela própria organização. A ANSA identificou-o como fundador de uma loja romana e autor do hino oficial do Grande Oriente. O anúncio de morte publicado no portal maçónico também referia essa filiação e os cargos que desempenhara. O bispo Antonio Staglianò, reitor da basílica e presidente da Pontifícia Academia de Teologia, disse à ANSA que a Secretaria de Estado o alertara para o caso e lhe enviara um artigo do Grande Oriente d’Italia. Não há um comunicado da Secretaria de Estado que confirme o contacto. A informação disponível provém do relato de Staglianò. Depois de receber o alerta, o reitor contactou Reina e pediu que o serviço jurídico lhe enviasse uma declaração sobre a impossibilidade de realizar as exéquias. O cardeal determinou que o funeral eclesiástico não se realizasse e indicou as condições em que poderia ser recitada uma oração breve. A família reuniu-se com um sacerdote, sem vestes litúrgicas, para confiar o falecido à misericórdia de Deus. Reina é o vigário-geral de Sua Santidade para a Diocese de Roma e exerce o governo pastoral da diocese em nome do Papa, seu bispo. Segundo esse relato, a ordem para impedir as exéquias partiu de Reina. A Secretaria de Estado enviou o artigo que desencadeou a consulta. O vicariato não publicou a fundamentação jurídica da decisão. No dia seguinte, Suetta usou o caso romano como referência depois de não ter conseguido obter instruções superiores. O comunicado de Ventimiglia-Sanremo estabelece esta relação, mas não refere qualquer contacto direto entre os dois prelados. As fontes públicas também não documentam uma coordenação pela Santa Sé. A Conferência Episcopal Italiana e o Dicastério para a Doutrina da Fé não publicaram orientações específicas sobre os dois funerais. O cânone 1184, citado pela Diocese de Ventimiglia-Sanremo, não contém qualquer referência à maçonaria. Na ausência de sinais de arrependimento antes da morte, determina a recusa de exéquias eclesiásticas aos apóstatas, hereges e cismáticos notórios; às pessoas que escolheram a cremação por razões contrárias à fé cristã; e aos restantes pecadores manifestos, quando as exéquias não possam ser concedidas sem escândalo público entre os fiéis. Se houver dúvidas, a decisão cabe ao ordinário do lugar. A diocese não indicou em que categoria enquadrou Tarducci. O n.º 3, relativo aos pecadores manifestos, é a leitura mais provável, atendendo aos factos divulgados, mas não corresponde a uma fundamentação publicada por Suetta. O comunicado também não informa se foram apurados sinais de arrependimento ou que elementos da vida religiosa do falecido foram considerados. A filiação maçónica não aparece no cânone como causa autónoma para recusar um funeral. A autoridade eclesiástica tem de enquadrar a situação numa das categorias previstas e verificar a existência de sinais de arrependimento. Se aplicar o n.º 3, terá de considerar manifesta a situação de pecado e entender que a concessão das exéquias provocaria escândalo público entre os fiéis. A posição doutrinal da Igreja sobre a maçonaria encontra-se noutros documentos. A declaração da Congregação para a Doutrina da Fé de 1983 manteve proibida a filiação em associações maçónicas. Considerou os seus princípios inconciliáveis com a doutrina católica e declarou que os fiéis que lhes pertençam se encontram em estado de pecado grave e não podem receber a comunhão. Em novembro de 2023, durante o pontificado de Francisco, o Dicastério para a Doutrina da Fé reafirmou essa proibição. O esclarecimento refere os católicos formal e conscientemente inscritos em lojas que tenham abraçado os princípios maçónicos. Nem o documento de 1983 nem o de 2023 determina a recusa automática das exéquias em todos os casos. Também não declara automaticamente excomungados todos os católicos maçons. Em Roma e Camporosso, as autoridades diocesanas entenderam que a filiação conhecida impedia os funerais marcados. Em agosto de 2022, a Arquidiocese de Fermo chegou a outra decisão depois de uma participação de falecimento ter apresentado um homem como ligado à maçonaria. O arcebispo ouviu a família e avaliou a conduta do falecido nos seus últimos meses. A explicação divulgada pela cúria de Fermo afirma que a notoriedade da pertença não ficou suficientemente estabelecida. O funeral realizou-se numa paróquia de Civitanova. A autoridade diocesana não deu como provado o elemento que, quatro anos mais tarde, Roma e Ventimiglia-Sanremo consideraram público nos casos de D’Amario e Tarducci. Outro anúncio, de janeiro de 2025, permite apenas uma comparação incompleta. O Grande Oriente d’Italia comunicou a morte de Lucio d’Oriano, seu Grande Orador Adjunto, e marcou o funeral para a Igreja de San Gennaro, em Pozzuoli. A condição maçónica constava do anúncio. Não foi encontrada qualquer notícia de uma intervenção diocesana, mas também não existe confirmação independente de que a cerimónia se tenha realizado como previsto. As decisões de Roma e Camporosso foram tomadas durante o pontificado de Leão XIV. Até 12 de agosto, não se conhecia qualquer intervenção pública do Papa sobre esses casos ou sobre um eventual aperto da disciplina funerária aplicável a maçons. A função exercida por Reina na Diocese de Roma não permite atribuir a decisão a uma ordem pessoal do pontífice sem informação que o demonstre. Em junho, a Conferência Episcopal Nórdica tinha convertido as normas da Igreja sobre a maçonaria em instruções pastorais dirigidas aos párocos. Não é conhecida qualquer ligação institucional entre essa carta e as decisões italianas. Em Camporosso, a referência expressamente identificada pela diocese foi o funeral impedido em Roma no dia anterior. O Grande Oriente d’Italia reagiu à decisão sobre Tarducci através do seu grão-mestre, Antonio Seminario. Num texto publicado em 9 de agosto, Seminario reconheceu o direito da Igreja Católica a aplicar as suas regras, mas afirmou que a norma deveria ter sido acompanhada pela piedade. Disse ainda que a organização continuaria a procurar o diálogo com o mundo católico. A Diocese de Ventimiglia-Sanremo anunciou que publicaria uma nota jurídico-pastoral sobre as exéquias eclesiásticas. Até ao fecho deste artigo, em 12 de agosto, essa nota ainda não se encontrava disponível. Sem ela, a fundamentação pública da decisão sobre Tarducci continua limitada à referência genérica ao cânone 1184, incluída no comunicado de 8 de agosto. Ilustração: Atlantic Lisbon /IA Leia também: Templo Maçónico de Santa Cruz avança para “Lugar de Memória Democrática” #IgrejaCatolica #Maconaria #DireitoCanonico #ExequiasCatolicas #Italia #LeaoXIV
- Bispos nórdicos: Roma recusou exceção para católicos maçons
Em 29 de junho de 2026, os seis bispos da Conferência Episcopal Nórdica disseram aos párocos que um católico ligado à maçonaria deve abster-se da comunhão e fica impedido de receber os outros sacramentos enquanto conservar essa filiação. A carta enviada aos sacerdotes proíbe ainda as instituições católicas de celebrarem acordos de colaboração com maçons ou lojas maçónicas e de utilizarem imóveis que pertençam a essas organizações. Bispos nórdicos aplicam sem exceções a proibição aos católicos maçons Os bispos nórdicos afirmam que o Dicastério para a Doutrina da Fé rejeitou qualquer exceção regional à proibição de os católicos pertencerem à maçonaria. Ilustração: Atlantic Lisbon / IA. As instruções abrangem as comunidades católicas da Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia. Também determinam que uma pessoa que pretenda ser batizada na Igreja Católica, ou nela entrar em plena comunhão como cristão já batizado, abandone primeiro a maçonaria. Aos católicos que pertençam a uma loja, os sacerdotes devem pedir que terminem essa ligação. Antes de anunciar as medidas, a conferência perguntou ao Dicastério para a Doutrina da Fé se as características locais da maçonaria permitiam uma exceção. Durante anos, tinha circulado entre os católicos da região a ideia de que certas lojas nórdicas seriam diferentes das organizações maçónicas consideradas nos documentos de Roma. Algumas organizações maçónicas da região apresentam-se como assentes em referências cristãs e orientadas para o aperfeiçoamento moral, a fraternidade e a beneficência. Essa identificação levou alguns católicos a admitirem que a incompatibilidade declarada pela Igreja talvez não se aplicasse da mesma forma no Norte da Europa. Os bispos levaram a questão a Roma entre 1 e 5 de setembro de 2025. Durante a assembleia plenária da Conferência Episcopal Nórdica, reuniram-se com superiores e responsáveis do Dicastério para a Doutrina da Fé. A carta publicada nove meses mais tarde descreve a resposta recebida como “crystal clear”. Não existe, afirmam os bispos, qualquer exceção, norma particular ou dispensa que permita distinguir a filiação maçónica nos países nórdicos da disciplina universal da Igreja. As orientações da Santa Sé devem ser aplicadas integralmente em todo o território da conferência. Na carta, não aparecem os nomes dos representantes do Dicastério. A resposta é resumida pelos bispos, sem que seja apresentada uma ata da reunião ou um texto escrito entregue pelo organismo. Até agora, o Dicastério também não publicou um documento autónomo sobre a consulta. O comunicado divulgado em 5 de setembro de 2025, no final da assembleia, não fazia referência à maçonaria. Informava que os bispos tinham estado reunidos em Roma e que haviam sido recebidos por Leão XIV. Tratava ainda de outros assuntos discutidos durante aqueles dias, mas não dava notícia do encontro com o Dicastério nem da pergunta sobre uma eventual exceção nórdica. A consulta só surgiu publicamente na carta de junho de 2026, assinada pelo presidente da conferência, Erik Varden, pelo cardeal Anders Arborelius e pelos restantes membros do organismo. A reunião com o Dicastério ocorreu quatro meses depois do início do pontificado de Leão XIV. Segundo a carta, o organismo manteve perante os bispos nórdicos a disciplina existente e recusou uma adaptação regional. Durante a mesma assembleia, Leão XIV recebeu os bispos em audiência. Nenhum dos relatos publicados afirma que a questão maçónica tenha sido discutida com o Papa ou que este tenha aprovado as disposições posteriormente anunciadas. A Santa Sé não publicou uma alteração doutrinal nem uma nova norma pontifícia sobre o caso. Em 1983, a então Congregação para a Doutrina da Fé publicou a Declaração sobre as Associações Maçónicas. O documento explicou que a ausência de uma referência expressa à maçonaria no novo Código de Direito Canónico não significava que a proibição tivesse desaparecido. A declaração, aprovada por João Paulo II e assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger, considerava inconciliáveis os princípios maçónicos e a doutrina católica. Os fiéis inscritos em associações maçónicas encontravam-se, segundo o documento, em estado de pecado grave e não podiam receber a comunhão. A declaração de 1983 determinava também que as autoridades eclesiásticas locais não podiam avaliar certas organizações maçónicas de uma forma que permitisse afastar a regra estabelecida por Roma. A eventual diferença entre lojas não poderia ser usada por um bispo ou por uma conferência episcopal para autorizar a filiação de católicos. Em 2023, o Dicastério para a Doutrina da Fé voltou a confirmar a proibição. O documento então publicado reiterava que um católico não pode manter uma filiação maçónica ativa e recomendava uma explicação pastoral acessível acerca das razões da incompatibilidade. A carta nórdica cita tanto essa orientação como a declaração de 1983. A restrição relativa à comunhão já constava da declaração de 1983. A carta de 2026 acrescenta indicações explícitas sobre os outros sacramentos, sobre o batismo de novos católicos e sobre a entrada em plena comunhão de cristãos anteriormente batizados. Nas relações institucionais, nenhuma paróquia, comunidade religiosa, sociedade de vida apostólica, organização ou instituição católica pode celebrar acordos de colaboração com maçons ou lojas maçónicas, nem utilizar propriedades que lhes pertençam. Esta proibição não aparece formulada dessa maneira nos documentos citados pela conferência. A carta não diz como devem ser tratados eventuais acordos anteriores à sua publicação. A referência a colaborações com “maçons” também fica sem delimitação: o texto não esclarece se abrange uma relação institucional com uma pessoa que pertença a uma loja, nos casos em que essa pessoa atue em nome próprio e a filiação não tenha ligação com o acordo. O documento pressupõe que a filiação seja conhecida no âmbito do acompanhamento pastoral. Não cria um dever de declaração nem explica como deve ser apurada essa pertença quando a informação disponível é incompleta. A carta reconhece que pode haver boa vontade e obras meritórias entre maçons. A proibição não é apresentada como um juízo geral sobre o caráter de cada membro. A incompatibilidade invocada situa-se nos princípios teológicos e filosóficos atribuídos à maçonaria, independentemente da atitude de uma determinada loja perante a Igreja. O documento não volta a expor esses princípios. Pede aos sacerdotes que estudem os textos oficiais antes de explicarem a posição católica aos fiéis abrangidos. Devem incentivar o abandono da maçonaria e acompanhar os católicos durante esse processo. #IgrejaCatólica #Maçonaria #LeãoXIV #Vaticano #BisposNórdicos #AtlanticLisbon
- A beleza como suspeita: Raphael e o critério moderno
Há uma pergunta que os museus raramente fazem em voz alta, embora a resposta esteja inscrita em quase todas as decisões que tomam — na iluminação que escolhem, nas obras que penduram à altura dos olhos, nas legendas que escrevem, nos artistas que incluem nas exposições que definem épocas. Durante dois séculos, a modernidade estabeleceu a fricção como medida de seriedade artística. Raphael é o caso-teste mais claro do que esse critério não consegue ler. A pergunta é esta: o que é que conta como profundidade? Não é uma pergunta inocente. Capa de “A beleza como suspeita: Raphael e o critério moderno”, com o emblema visual do Atlantic Lisbon em destaque. É uma pergunta com história, com interesses, com vencedores e perdedores. E a resposta que a cultura ocidental foi construindo ao longo dos últimos dois séculos — de forma gradual, por acumulação, sem que ninguém a tivesse formulado explicitamente como política — é uma resposta específica e contingente que tomámos por universal: profundidade é tensão. Seriedade é conflito. O que não perturba não pensa. Este critério não caiu do céu. Tem uma genealogia rastreável. Tem também um preço, que pagamos sem o reconhecer, porque o critério já se naturalizou a ponto de parecer simplesmente verdadeiro — a ponto de parecer uma descrição do que a arte é, em vez de uma decisão sobre o que queremos que ela seja. Raphael é o lugar onde esse preço fica mais visível. Mas o que está em jogo não é a reputação de um pintor do século XVI. É a questão de saber se conseguimos ainda ler beleza sem suspeita. O Romantismo fez várias coisas ao mesmo tempo, e nem todas são igualmente reconhecidas. A mais óbvia é a elevação do sentimento como critério estético — a ideia de que a obra deve provocar uma resposta emocional intensa, e que a intensidade é ela própria um índice de valor. Menos discutida, mas talvez mais consequente, é a construção paralela de um certo tipo de artista como figura exemplar: o génio isolado, em conflito com o mundo, cuja obra traz as marcas físicas do sofrimento e da luta. Este arquétipo não era uma descoberta — era uma invenção, ou pelo menos uma seleção retroativa. O Romantismo pegou em certos artistas do passado que se prestavam ao molde — Miguel Ângelo acima de todos — e organizou a história da arte em torno deles. Os que não se prestavam ao molde foram empurrados para a periferia. E os que tinham tido sucesso em demasia — os que tinham sido amados, celebrados, remunerados, os que tinham gerido equipas e trabalhado com colaboradores e pensado em como as suas imagens circulavam — ficaram particularmente vulneráveis. O sucesso em vida passou a parecer suspeito. A facilidade técnica passou a sugerir superficialidade. A harmonia, sem fricção visível, passou a parecer ausência de pensamento. Não é um exagero dizer que o modernismo herdou estes critérios e os radicalizou. O que o Romantismo tinha formulado como preferência, o modernismo transformou em princípio. A ruptura tornou-se o valor por excelência. A dificuldade tornou-se um sinal de seriedade. A obra que não resistia, que não obrigava o olhar a trabalhar, que não criava desconforto ou desorientação — essa obra ficou fora do cânone que as instituições construíram no século XX. Não estou a dizer que esses critérios são arbitrários. Estou a dizer que são históricos — que respondem a condições específicas, que têm razões que fazem sentido no seu contexto, e que, como todos os critérios históricos, não se aplicam de forma universal sem perdas. A perda mais significativa é esta: quando a fricção se torna o critério de profundidade, toda uma categoria de realizações artísticas fica sistematicamente subavaliada. Não as obras medíocres — essas ficam subavaliadas por razões compreensíveis e defensáveis. Fica subavaliada uma certa forma de excelência que não exibe o seu esforço, que resolve problemas de tal modo que a solução parece inevitável, que cria harmonia onde havia contradição sem deixar visíveis as costuras da operação. Esta forma de excelência é rara. É provavelmente mais difícil de atingir do que a excelência que se manifesta em tensão e conflito, precisamente porque não tem onde esconder os seus fracassos. Uma obra que funciona através da perturbação pode pertencer ao seu fracasso — a desorientação que provoca pode ser intencional ou pode ser resultado de controlo insuficiente, e o observador raramente consegue distinguir com certeza. Uma obra que funciona através da harmonia não tem essa ambiguidade protetora. Se a harmonia falha, falha completamente e é imediatamente visível. Raphael atingiu esta forma de excelência de forma repetida e, no final da sua vida curta, com uma consistência que não tem paralelo no Renascimento italiano. É por isso que foi venerado durante dois séculos. É por isso que o seu nome ficou no terceiro lugar da lista — não por hábito ou por inércia, mas porque havia um consenso genuíno sobre o que representava. Depois, devagar, o critério mudou. E Raphael não mudou com ele. Há um pormenor técnico que ajuda a perceber o que estava em jogo, e que raramente aparece nas discussões sobre a sua pintura. O retrato de Baldassare Castiglione, pintado por volta de 1515, tem o mesmo tamanho que uma pessoa real. Não aproximadamente — exatamente. A mão de Castiglione, se alguém estender a sua própria mão em direção à tela, coincide. Os olhos estão à mesma altura. A luz no quadro entra pelo lado do observador, como se não houvesse separação entre o espaço da sala e o espaço da pintura. Este princípio — que o historiador de arte Alexander Nagel documentou como o início de uma transformação que durou três séculos e meio — propagou-se a partir deste e de outros retratos de Raphael e tornou-se a norma da pintura de retrato europeia. Durante trezentos e cinquenta anos, o retrato de prestígio foi pintado à escala real. Esta convenção é tão profunda que já não a vemos como convenção — vemos retratos, e esperamos que tenham aquele tamanho, sem perguntar porque é que esperamos isso. O problema com os artistas que inventam normas desta ordem é o seguinte: a norma sobrevive ao nome. Ao fim de algumas gerações, a invenção tornou-se o fundo sobre o qual tudo o resto se destaca, e o inventor desapareceu dentro dela. Ver o retrato de Castiglione hoje exige um esforço específico de desaprendizagem — é preciso suspender trezentos e cinquenta anos de retratos que aplicaram o mesmo princípio para sentir o que havia de radical na decisão original. Este esforço é possível. Mas não é o que os museus habitualmente nos pedem. Os museus pedem-nos contemplação, não arqueologia perceptiva. Existe um segundo mecanismo, distinto do primeiro mas igualmente poderoso, que operou contra Raphael. O mito do artista solitário — construído em larga medida sobre a figura de Miguel Ângelo, que o próprio Miguel Ângelo cultivou com consciência e que os seus biógrafos contemporâneos, a começar por Vasari, transformaram em modelo universal — entrou em conflito direto com o modo de trabalho de Raphael. Raphael não trabalhava sozinho. Trabalhava com uma oficina de colaboradores que incluía especialistas em diferentes áreas, a quem atribuía partes significativas de projetos complexos. As tapeçarias que desenhou para a Capela Sistina — destinadas a ser penduradas abaixo do teto de Miguel Ângelo, numa concorrência explícita que o encomendante, o papa Leão X, não tentou disfarçar — envolveram fiandeiros, tintureiros e tecelões em números que tornavam o projeto mais parecido com uma operação industrial do que com o que imaginamos quando pensamos em criação artística. As bordas dessas tapeçarias foram concebidas para imitar molduras de janelas abertas, criando a ilusão de estar rodeado por cenas habitáveis. O efeito de imersão era o objetivo, e o objetivo exigia uma equipa. Mais: Raphael trabalhou ativamente para que as suas composições circulassem. Colaborou com gravadores que as reproduziram em tiragens distribuídas por toda a Europa. A imagem — não o objeto único, mas a imagem como entidade separável do suporte — era para ele um produto tão legítimo quanto a pintura original. Esta visão do trabalho criativo como processo colaborativo e da obra como algo que existe em múltiplas instâncias e circula por múltiplos canais é, no essencial, a visão que a maioria dos artistas contemporâneos mais relevantes opera. É o modo de funcionamento de qualquer prática criativa de grande escala. Mas foi lida, durante dois séculos, como evidência de que Raphael não era um verdadeiro artista — que era um gestor, um coordenador, um empresário, não um criador. O que esta leitura revelava não era uma verdade sobre Raphael. Revelava os limites do critério que estava a ser aplicado. A terceira camada do problema é a mais difícil de articular sem parecer que se está a exigir do observador contemporâneo uma empatia histórica que é irrazoável pedir. As Madonas de Raphael foram pintadas para pessoas com uma relação com a morte radicalmente diferente da nossa. A mortalidade infantil no Renascimento italiano não era uma tragédia excecional — era uma constante. Perder filhos no primeiro ano de vida era estatisticamente provável para qualquer família, incluindo as mais abastadas. Raphael perdeu a mãe e a irmã recém-nascida quando tinha oito anos. Esta não era uma biografia incomum. A Alba Madonna — pintada por volta de 1510, a composição circular onde a Virgem se senta no chão com o filho ao colo e João Batista ajoelhado a seu lado — mostra uma mãe saudável e um filho gordo e robusto, com a saúde específica de um bebé que sobreviveu. A paisagem atrás tem nuvens que parecem reais, cavaleiros em miniatura, edifícios identificáveis, plantas estudadas com precisão botânica. É uma cena ancorada no mundo físico, não suspensa em ouro simbólico. Para o observador original, esta ancoragem era a mensagem. A saúde daquela criança não era um dado adquirido — era uma afirmação contra a experiência comum. A graça que hoje lemos como suavidade excessiva era, para esse observador, uma forma de coragem. Não a coragem do conflito — a coragem de afirmar que o mundo poderia ser assim, que havia ordem e beleza possíveis, que a harmonia não era uma mentira sobre a condição humana mas uma promessa sobre o que ela poderia conter. Quando esse contexto desaparece — quando a obra entra num museu e o observador não traz consigo a memória visceral da mortalidade infantil como dado quotidiano — o que resta é a superfície. E a superfície, separada do que a tornava necessária, parece apenas bonita. O problema não é que a obra tenha envelhecido. É que perdemos o instrumento com que era lida. Há um argumento que aparece com frequência neste ponto e que é preciso examinar com cuidado, porque parece válido e não é completamente falso. O argumento é este: a dificuldade de ver Raphael decorre da sua influência. A sua linguagem propagou-se tanto que já não a reconhecemos como linguagem — reconhecemo-la como o fundo neutro sobre o qual tudo o resto se destaca. Para recuperar o choque da invenção, seria preciso desaprender tudo o que veio depois. E isso é um esforço que não podemos completamente fazer. Há verdade nisto. Mas o argumento tem um defeito estrutural que é preciso nomear: não tem falsificação possível. Se não sentimos nada diante do quadro, é porque estamos demasiado contaminados pela herança; se sentimos, é porque conseguimos desaprender o suficiente. A teoria explica qualquer resultado e portanto não explica nada — é uma narrativa de reabilitação que se imuniza contra a experiência real do observador. A alternativa menos confortável é esta: algumas obras de Raphael — não todas, mas algumas das mais reproduzidas e mais identificadas com o seu nome — são genuinamente menos ricas do que as menos conhecidas. A harmonia que atingem é real, mas é uma harmonia sem resistência, sem o tipo de tensão que mantém o olhar em movimento. Não é uma falha de critério encontrar estas obras menos mobilizadoras do que outras. É uma resposta legítima a algo que está lá. O que não é legítimo é usar esta resposta legítima como prova de que o critério da fricção é universal. Que algumas obras de Raphael sejam menos interessantes do que os seus momentos mais altos não demonstra que a harmonia é sempre superficial. Demonstra apenas que a harmonia, como qualquer outro recurso, pode ser bem ou mal executada. O ponto que interessa, e que vai além de Raphael, é este. Quando uma cultura estabelece um único critério de profundidade — quando a fricção se torna a medida universal de seriedade, e a harmonia se torna equivalente a superficialidade — essa cultura perde a capacidade de ler toda uma gama de realizações. Não perde a capacidade de as ver; perde a capacidade de as avaliar com precisão. Vê formas, reconhece técnica, identifica intenção — mas não consegue situar a obra na escala de valores que usa para tudo o resto, porque a obra não joga esse jogo. Isto tem consequências práticas. Os museus que organizam as suas coleções segundo critérios derivados do modernismo — que penduram em posição de destaque o conflito, a ruptura, a dificuldade, a ironia — criam observadores treinados para procurar essas qualidades e para ficar desorientados quando não as encontram. Não é que esses observadores não consigam apreciar beleza; é que não têm um vocabulário para o fazer que não passe pela suspeita. A suspeita de beleza é um hábito cultural específico, não uma resposta natural. Levou tempo a construir. E como todos os hábitos culturais, pode ser examinado — não para ser abandonado, mas para ser visto como o que é: uma escolha, com as suas razões e os seus custos. O que Raphael torna visível, neste contexto, não é a injustiça de que foi vítima. Não estou a pedir que o reabilitemos, que o coloquemos de volta no terceiro lugar da lista, que reconheçamos que foi mal tratado pela posteridade. Estas são questões de classificação que não têm grande interesse fora dos departamentos universitários onde são debatidas. O que Raphael torna visível é a estrutura do critério. É um caso-teste extraordinariamente claro porque a obra não deixa dúvidas sobre o que está a fazer — não é ambígua, não está a tentar provocar e a falhar, não está a imitar fricção sem a ter. Está a fazer outra coisa, com mestria, de forma consistente, ao longo de vinte anos de produção. E essa outra coisa é sistematicamente difícil de avaliar com os instrumentos que herdámos. Existe uma frase de Simone Weil que aparece raramente nas discussões sobre arte visual mas que tem aqui uma precisão invulgar. Weil escreveu que a beleza é a promessa de que o mundo pode ser habitado — não que o mundo é bom, não que o sofrimento é ilusório, mas que existe uma ordem possível que não contradiz a experiência da dor mas a contém sem a negar. É uma definição que não separa a beleza da realidade — que a entende como uma forma específica de atenção à realidade, capaz de encontrar nela uma estrutura que não estava visível antes de a obra existir. Não sei se Raphael teria reconhecido esta formulação. Provavelmente não usaria este vocabulário. Mas o que as suas obras mais logradas fazem — a Alba Madonna, o retrato de Castiglione, os estudos de figura onde a linha resolve em dois movimentos o que outros artistas levam uma página a aproximar — é precisamente isso: encontrar uma ordem que não nega a complexidade do que representa, mas a articula de forma que a torna, por um momento, habitável. Isto não é menos difícil do que criar tensão. É diferente. E a diferença importa. O que não temos, e que seria necessário para ler este tipo de obra sem suspeita, é um vocabulário crítico para a excelência harmónica que seja tão desenvolvido quanto o vocabulário que temos para a excelência disruptiva. Temos palavras muito precisas para descrever o que acontece quando uma obra nos perturba, nos desequilibra, nos força a reconfigurar o que sabemos. Temos muito menos palavras para descrever o que acontece quando uma obra resolve — quando a harmonia que cria não é a ausência de tensão mas o resultado de ter trabalhado a tensão até ao ponto em que ela se transforma em algo que sustenta o olhar em vez de o agitar. Esta assimetria no vocabulário não é inocente. Os críticos escrevem com as palavras que têm. As instituições constroem programas com as categorias que os críticos fornecem. Os observadores aprendem a ver com as estruturas que as instituições lhes oferecem. O ciclo é fechado, e Raphael está do lado de fora. A questão não é se vai entrar. É se queremos perceber porque ficou de fora — e o que isso diz sobre a sala, não sobre ele.
- Autocensura Democrática: o Silêncio Sem Decreto
Em Fevereiro de 2003, no exato momento em que os Estados Unidos se preparavam para a invasão do Iraque, a MSNBC cancelou Donahue, o programa de Phil Donahue. Não foi um processo judicial. Não houve sentença, nem um polícia à porta do estúdio. Houve, isso sim, uma decisão empresarial num ambiente em que a dissidência antiguerra era vista como risco: risco de reputação, risco de audiência, risco de ser “o canal errado” quando a maré patriótica subia. O episódio tem valor porque é banal no seu mecanismo. Ninguém proibiu Donahue de falar. O sistema apenas tornou mais caro deixá-lo falar ali, àquela hora, com aquela montra. A democracia, quando começa a produzir silêncio, quase nunca o faz com as ferramentas clássicas da censura. Faz com ferramentas modernas: incentivos, desconforto, cálculo, medo de perder — dinheiro, pertença, futuro. Poucas semanas depois, a mesma anatomia repetiu-se noutro palco. Em Março de 2003, as Dixie Chicks disseram, num concerto em Londres, que tinham vergonha de o presidente dos EUA ser do Texas. O que se seguiu — boicotes, cortes em rádios, ameaças e uma reeducação pública em tempo real — não precisou de lei. Precisou apenas de uma comunidade em estado de alerta e de intermediários (estações, patrocinadores, promotores) capazes de traduzir indignação em consequências. E houve ainda a caricatura perfeita, quase infantil, mas por isso mesmo instrutiva: a história das freedom fries. Num impulso simbólico contra a França, por esta se opor à guerra, “French fries” e “French toast” foram renomeadas em espaços ligados ao Congresso. Não era censura; era sinalização. Um modo de dizer, sem o dizer: há palavras e gestos que, neste clima, convém evitar. Estes três episódios não provam que a democracia seja, por natureza, inimiga da liberdade. Provam algo mais desconfortável: a democracia é perfeitamente capaz de fabricar autocensura — e, quando a fabrica bem, não deixa impressões digitais. Como se aprende a calar sem ordem explícita A autocensura não nasce, normalmente, de uma convicção repentina (“isto não pode ser dito”). Nasce de um raciocínio progressivo (“isto pode sair caro”). É um processo de aprendizagem, e o seu motor é a antecipação. Primeiro observa-se o ambiente: quem disse o quê, e o que lhe aconteceu. Depois calcula-se o risco: que custo tem uma frase, uma reportagem, um post, uma piada, uma aula? E por fim ajusta-se o comportamento: troca-se uma palavra por outra, corta-se um parágrafo, escolhe-se um ângulo “mais neutro”, adia-se, engaveta-se. O silêncio, aqui, não aparece como capitulação moral. Aparece como prudência. E a prudência, quando se torna hábito, passa a parecer virtude. Há uma diferença crucial entre censura e autocensura: a censura tem um autor claro. A autocensura tem um clima. E contra um clima não se apresenta queixa. Um clima não assina ofícios. Um clima não responde a perguntas. Um clima só se sente — e, por isso, governa melhor do que um censor. Três pressões, todas legais, todas eficazes Pressão económica. As instituições onde se fala — jornais, televisões, editoras, universidades, fundações, galerias — vivem de dinheiro: assinaturas, publicidade, patrocínios, doações, parcerias. Não é preciso que um financiador telefone a ordenar. Basta que a organização aprenda, uma vez, que certo assunto “dá problemas”. O resto faz-se sozinho. E isto é particularmente perigoso porque se apresenta como racionalidade de gestão. Não se diz: “não publiquem”. Diz-se: “não arrisquem”. Não se diz: “isto é proibido”. Diz-se: “isto não compensa”. Pressão social. O medo de perder o emprego é real. Mas o medo de perder o lugar no grupo é, muitas vezes, mais imediato. Em ambientes polarizados, a discordância deixa de ser apenas discordância: passa a ser suspeita moral. E quando a suspeita moral entra na sala, a conversa muda de tom. O que acontece então não é um debate mais rigoroso. É um debate mais defensivo. As pessoas começam a falar para não serem mal-interpretadas — e, nesse gesto, a linguagem perde precisão, coragem e até humor. Passa a ser uma linguagem de prevenção. Pressão algorítmica. Aqui está a novidade dos nossos dias. As plataformas não precisam de proibir. Basta reduzirem visibilidade, desmonetizarem, atrasarem distribuição, aplicarem rótulos, tornarem “menos recomendado”. E fazem-no com regras opacas, aplicadas de modo irregular, com recurso a automatismos e à prudência comercial. O resultado é um incentivo direto à autocensura: se não sei onde está a linha, fico longe dela. E, ficando longe, não erro — mas também não digo nada de importante. O problema não é “quem manda”; é “quanto custa” Quando uma democracia começa a produzir autocensura, é tentador procurar um vilão único: o magnata, o partido, o dono do jornal, a plataforma, o “ativismo”, o “cancelamento”. Às vezes há vilões. Muitas vezes há apenas um mercado do medo: muita gente a tentar não perder. É por isso que a autocensura é tão resistente. Não depende de um tirano. Depende de uma soma de pequenas decisões individuais, cada uma defensável, cada uma compreensível, cada uma “sensata”. E, no entanto, a soma dessas sensatezes pode empobrecer o espaço público com a mesma eficácia que uma lei malvada. O espaço público não encolhe num dia. Encolhe como encolhe uma fotografia ao sol: quase não se nota, até se notar. Um teste simples Há um teste que ajuda a medir a autocensura sem recorrer a estatísticas: pergunte-se o que mudou na forma como se escreve. Não “o que mudou na lei”. O que mudou na frase. Quando se começa a escrever para evitar reacções, o texto muda. Perde arestas. Prefere o “talvez” ao “é”. Encosta-se a fórmulas. Evita nomes próprios. Troca afirmações por “debates”. E, a certa altura, já nem se percebe quando começou. Porque o escritor passa a acreditar que sempre escreveu assim. A autocensura, quando vence, faz-se passar por estilo. O que estes exemplos realmente dizem O cancelamento de Donahue, o castigo público às Dixie Chicks, a febre ridícula das freedom fries não são curiosidades históricas do início dos anos 2000. São uma lição estrutural: em tempos de choque, medo ou guerra, as democracias podem tornar-se ansiosas — e a ansiedade procura culpados, exige uniformidade, trata a dúvida como fraqueza. Não é preciso ditadura para isto acontecer. Basta um consenso inflamável e intermediários com capacidade de transformar indignação em penalização: uma direção, uma estação, um patrocinador, uma plataforma, uma multidão online. E depois? Depois o resto é psicologia humana. Se eu vi o que aconteceu ao outro, eu aprendo. Se aprendo, eu ajusto. Se ajusto, eu sobrevivo. E, se sobrevivo, eu racionalizo: “foi melhor assim”. A tragédia da autocensura não é a perda de uma frase. É a normalização do silêncio como forma de virtude cívica. Porque uma sociedade que fala apenas do que é seguro pode continuar a chamar-se livre — mas já começou a comportar-se como se não fosse. Imagem original criada para o Atlantic Lisbon (João da Praça / Atlantic Lisbon). Sem utilização de imagem de terceiros. Autocensura: o silêncio sem ordem — Atlantic Lisbon #AtlanticLisbon #JoãoDaPraça #Autocensura #LiberdadeDeExpressão #LiberdadeDeImprensa #Jornalismo #Democracia #Opinião #CulturaPolítica #Media #Algoritmos #RedesSociais #PressãoSocial #McCarthyismo #EspaçoPúblico
- O Fármaco Que Duplicou a Sobrevivência no Cancro do Pâncreas
O novo fármaco duplicou a sobrevivência mediana de doentes com cancro do pâncreas metastático. Os resultados justificam a esperança e uma pergunta concreta em Portugal: o que farão o INFARMED, os IPO e a Fundação Champalimaud para tentar aproximá-lo dos doentes? Cancro do pâncreas: há doentes sem tempo para esperar O daraxonrasib duplicou a sobrevivência mediana num ensaio com doentes previamente tratados por cancro do pâncreas metastático. Portugal já podia começar a estudar as possíveis vias de acesso. O daraxonrasib não distingue perfeitamente uma célula cancerígena de uma célula saudável. Bloqueia a forma ativa das proteínas RAS em ambas. Pela lógica que orientou durante décadas a investigação nesta área, isso devia tornar o medicamento demasiado tóxico para ser usado. No ensaio que agora sustenta o pedido de aprovação nos Estados Unidos, aconteceu outra coisa: os doentes com cancro do pâncreas metastático viveram uma mediana de 13,2 meses, contra 6,7 meses com quimioterapia. O fármaco atinge proteínas mutantes e normais, mas os tumores e os tecidos saudáveis não respondem da mesma maneira. As células cancerígenas permanecem bloqueadas ou morrem. Os tecidos normais sofrem e recuperam melhor. Ainda não se compreende por inteiro como se forma essa diferença. Para quem tem a doença, isto não é uma discussão abstrata sobre uma prudência regulatória. Mais seis meses de sobrevivência mediana não são uma cura nem permitem prever o que acontecerá a cada doente. São meses que a quimioterapia não conseguiu dar. Quem acompanha um familiar ou um amigo com cancro do pâncreas sabe o que pode caber nesse tempo. Uma proteína que ninguém sabia atacar Durante décadas, a comunidade científica tratou a KRAS como um alvo fora de alcance. Descoberta no início dos anos 1980 como um dos genes cujas mutações impulsionam certos cancros, a proteína não apresentava as cavidades onde um medicamento convencional pudesse encaixar. A superfície parecia lisa. Entre os investigadores, tornou-se o exemplo clássico de uma proteína impossível de atingir com um fármaco. Mais de 90% dos adenocarcinomas ductais do pâncreas apresentam mutações na família RAS, sobretudo na KRAS. A proteína que ajudava a explicar a doença era precisamente aquela que a farmacologia não conseguia bloquear. Em 2013, o laboratório de Kevan Shokat identificou uma cavidade explorável numa forma mutante da KRAS. Surgiram depois os primeiros inibidores dirigidos a mutações específicas. Alcançavam apenas uma fração dos tumores e podiam perder eficácia quando o cancro encontrava outra forma de reativar a mesma via. A Revolution Medicines procurou outra entrada. Desenvolveu uma espécie de cola molecular que se liga primeiro à ciclofilina A, uma proteína presente nas células. O conjunto prende-se depois à RAS na sua forma ativa e impede-a de transmitir o sinal que mantém a célula a proliferar. O daraxonrasib pode atingir várias formas mutantes da RAS e também formas não mutadas. Chega, por isso, a uma população muito maior de doentes. A segurança preocupava os investigadores antes dos primeiros testes em seres humanos. A escolha que devia ter falhado A RAS participa no funcionamento e na renovação dos tecidos normais. Se fosse bloqueada em todo o organismo, o dano poderia crescer juntamente com o efeito contra o cancro. Os estudos pré-clínicos com o RMC-7977, um composto relacionado com o daraxonrasib, não produziram esse resultado. Em modelos de cancro do pâncreas, os tumores entravam em apoptose e permaneciam sem proliferar. Nos tecidos normais analisados, a proliferação diminuía durante algum tempo e recuperava depois. A inibição foi mais potente e persistente nos tumores do que na pele e no cólon dos animais. Os resultados foram publicados na Nature em 2024. As células tumorais parecem depender mais intensamente da sinalização produzida pela KRAS mutada. O composto também pode permanecer durante mais tempo no tumor. A quantidade de RAS ativa e de ciclofilina A varia entre os tecidos normais e os cancerígenos. Nenhum destes mecanismos explica sozinho o que se observou. Nos estudos clínicos iniciais, foram frequentes as erupções cutâneas, a diarreia, as náuseas, a inflamação da boca, os vómitos e a fadiga. Cerca de 30% dos doentes tiveram acontecimentos adversos relacionados com o tratamento de grau 3 ou superior. O estudo de fases I e II foi publicado no New England Journal of Medicine. O fármaco chega aos tecidos saudáveis. Falta perceber por que razão alguns suportam a interrupção da via RAS durante mais tempo do que o tumor, quanto varia essa resposta entre os doentes e o que acontecerá quando o tratamento for usado durante períodos mais longos ou em combinação com outros medicamentos. Um resultado que atravessou o escrutínio A 13 de abril de 2026, a Revolution Medicines anunciou os primeiros resultados do ensaio de fase III RASolute 302. A FDA recebeu o pedido para um protocolo norte-americano de acesso alargado a 28 de abril e autorizou-o dois dias depois. A comunidade científica ainda não dispunha da publicação integral do ensaio. No final de maio, os resultados foram apresentados na reunião anual da American Society of Clinical Oncology, em Chicago, e publicados no New England Journal of Medicine. O ensaio incluiu 500 doentes com adenocarcinoma ductal do pâncreas metastático que já tinham recebido uma linha de tratamento. Metade recebeu daraxonrasib; a outra metade, uma das opções de quimioterapia disponíveis. A sobrevivência mediana foi de 13,2 meses com o novo medicamento e de 6,7 meses com a quimioterapia. O risco de morte foi 60% inferior. A sobrevivência sem progressão da doença também aumentou. Os doentes relataram uma deterioração mais tardia da dor, do estado geral de saúde e da qualidade de vida. O registo do ensaio identifica a publicação e os 500 participantes. A publicação confirmou os números divulgados pela empresa. A 22 de julho, a FDA aceitou formalmente o pedido de aprovação do daraxonrasib para doentes com cancro do pâncreas metastático previamente tratados. O medicamento recebeu a designação de terapia inovadora, o estatuto de medicamento órfão e foi incluído no programa-piloto Commissioner’s National Priority Voucher. Nenhuma destas decisões equivale a uma aprovação. Permitem que a avaliação decorra mais depressa. Na Europa, a Agência Europeia de Medicamentos começou a receber e a avaliar partes do processo antes da apresentação do pedido completo. O acesso alargado foi autorizado quando a FDA conhecia os resultados, mas estes ainda não podiam ser examinados numa publicação científica. Um mês depois, já podiam. As perguntas que permanecem são outras: por quanto tempo durará o benefício, como surgirá a resistência e onde ficará a margem de segurança quando o medicamento passar do ensaio para uma população maior. A esperança e o limite O daraxonrasib não cura o cancro do pâncreas metastático. Nem todos os doentes respondem. Mesmo quando o tumor encolhe, pode voltar a crescer durante o tratamento. A experiência pré-clínica já encontrou mecanismos de resistência, e a investigação procura agora combinações capazes de os atrasar ou ultrapassar. Uma sobrevivência mediana não determina quanto tempo viverá uma pessoa. Metade dos doentes viveu mais de 13,2 meses e metade viveu menos. Com a quimioterapia, essa fronteira ficou nos 6,7 meses. As alternativas de segunda linha raramente tinham produzido uma diferença desta dimensão. Num cancro metastático com uma sobrevivência de cinco anos próxima dos 3%, esperar também produz um resultado. Parte dos doentes morrerá durante o tempo necessário para esclarecer as dúvidas que só uma utilização mais prolongada poderá resolver. Os dados têm de permanecer acessíveis ao escrutínio, a toxicidade terá de ser vigiada e os doentes precisam de saber o que ainda é incerto. A oncologia começa muitas vezes a tratar antes de possuir a resposta final, porque essa resposta chega tarde para quem já está doente. E Portugal? O programa de acesso alargado autorizado pela FDA destina-se aos Estados Unidos. O registo público não apresenta centros portugueses e o ensaio RASolute 302 já não está a recrutar. Quando um medicamento ou uma indicação ainda não está aprovado, um hospital português pode apresentar ao INFARMED um pedido de Autorização de Utilização Excecional para um doente específico. A Comissão de Farmácia e Terapêutica da instituição tem de avaliar o caso e fundamentar a inexistência de alternativa e a imprescindibilidade clínica do tratamento. O INFARMED descreve esse procedimento. Antes disso, é preciso saber se a Revolution Medicines aceita fornecer o medicamento fora dos Estados Unidos. Os IPO de Lisboa, Porto e Coimbra, a Fundação Champalimaud e os hospitais que tratam estes doentes podem fazer essa pergunta. Podem também identificar quem corresponde à população estudada e avaliar se algum caso justifica um pedido excecional. O contacto com a empresa pode não produzir acesso. Um pedido ao INFARMED pode ser recusado. Alguns doentes não terão condições clínicas ou não preencherão os critérios usados no ensaio. Ainda assim, não se sabe se uma via está fechada antes de os centros responsáveis a examinarem. Os ensaios seguintes com daraxonrasib e outros inibidores de RAS também contam. Portugal não teve um centro no RASolute 302, apesar de o estudo ter recrutado em Espanha, França, Alemanha e Itália. Os grandes centros oncológicos portugueses podem procurar participar nas fases seguintes, em vez de receberem os resultados quando o recrutamento já terminou. O INFARMED e o Governo têm aqui um trabalho que não depende da aprovação europeia. Podem pedir informação ao fabricante, acompanhar a avaliação faseada da Agência Europeia de Medicamentos e preparar uma resposta comum para os hospitais. Se a possibilidade de acesso surgir, os critérios clínicos e administrativos não deveriam começar a ser discutidos nessa altura. O daraxonrasib foi estudado em adultos com doença metastática previamente tratada e em condições clínicas suficientemente estáveis para receber o fármaco. Durante quarenta anos, a KRAS foi considerada impossível de atacar. Agora existe um ensaio aleatorizado em que a sobrevivência mediana duplicou. Persistem a toxicidade, a resistência e uma margem de segurança que não se compreende inteiramente. Os centros portugueses não podem dispensar nenhuma etapa científica ou regulatória. Podem começar a percorrê-las. Para alguns doentes, a diferença entre essas duas atitudes será medida em tempo. #Daraxonrasib #CancroDoPancreas #Oncologia #InvestigacaoClinica #AcessoAoMedicamento #INFARMED #IPO #FundacaoChampalimaud #AtlanticLisbon
- Quando a Igreja volta a fechar a porta à Maçonaria
Bruno Battisti D’Amario tinha 88 anos quando morreu, a 5 de agosto de 2026. A família preparou o funeral na Basílica de Santa Maria in Montesanto, na Piazza del Popolo, em Roma. A igreja é conhecida como a Igreja dos Artistas, uma escolha que fazia sentido para um guitarrista e professor que trabalhara durante anos com Ennio Morricone. A celebração, porém, não se realizou como estava prevista. Quando uma fronteira volta a ser visível A incompatibilidade entre a Igreja Católica e a Maçonaria mantém-se há décadas, mas decisões recentes voltaram a tornar visíveis as suas consequências práticas. Fotografia: Stephanie Klepacki. O Grande Oriente d’Italia anunciou a morte de D’Amario e tornou pública uma parte da sua biografia que a família, segundo foi posteriormente relatado, não comunicara quando pediu as exéquias. D’Amario tinha ocupado cargos relevantes na Maçonaria italiana. Fora conselheiro da Ordem, presidira por duas vezes à estrutura dos veneráveis mestres do Lácio, fundara a loja romana Giuseppe Leti e compusera o hino oficial do Grande Oriente. Numa publicação maçónica de 2010, era apresentado como um mestre da coluna de harmonia e com uma vida maçónica. Conhecida essa filiação, o caso chegou ao cardeal Baldassare Reina, vigário-geral para a Diocese de Roma. A missa de exéquias foi recusada. Pouco depois, ocorreu outro caso, desta vez na Diocese de Ventimiglia-Sanremo. Mario Tarducci, ligado à loja Mimosa de Bordighera, também não recebeu as exéquias católicas previstas. A sua presença na Maçonaria não era recente: documentos do Grande Oriente d’Italia registavam-no como venerável mestre da Mimosa em 2005 e, anos depois, entre os representantes da loja numa iniciativa de apoio a pessoas com deficiência. A doutrina usada para sustentar as decisões deste género existia muito antes dos dois funerais. O que aconteceu em Itália coincidiu, contudo, com outra decisão recente da Igreja: poucas semanas antes, uma conferência episcopal europeia tinha enviado aos seus padres instruções concretas sobre católicos maçons. A Conferência Episcopal Nórdica publicou-as em 29 de junho de 2026. O documento resultara de uma questão levada a Roma no ano anterior. Entre 1 e 5 de setembro de 2025, já durante o pontificado de Leão XIV, os bispos reuniram-se com os superiores e responsáveis do Dicastério para a Doutrina da Fé. Queriam saber se as formas de Maçonaria praticadas nos países nórdicos, designadamente as associadas ao chamado rito sueco, poderiam justificar uma exceção à posição geral da Igreja. Na carta enviada aos párocos no ano seguinte, escreveram que a resposta tinha sido negativa. A partir daí, estabeleceram o que deveria acontecer nos casos concretos. Um católico ligado à Maçonaria deve ser encorajado a abandoná-la. Enquanto conservar essa filiação, deve abster-se da comunhão e fica impedido de receber os outros sacramentos. Quem pretenda ser batizado na Igreja Católica, ou nela entrar em plena comunhão, sendo já cristão batizado, terá primeiro de deixar a Maçonaria. As instituições católicas não devem celebrar acordos de colaboração com maçons ou lojas maçónicas nem utilizar imóveis pertencentes a essas organizações. Quando o novo Código de Direito Canónico entrou em vigor, em 1983, deixou de mencionar expressamente as associações maçónicas, ao contrário do código de 1917. A alteração suscitou dúvidas. A então Congregação para a Doutrina da Fé publicou, em novembro desse ano, uma declaração segundo a qual o juízo negativo da Igreja permanecia inalterado. Em novembro de 2023, o Dicastério voltou ao assunto na sequência de uma consulta proveniente das Filipinas. Francisco era ainda Papa. A incompatibilidade foi reafirmada. Em 2025, os bispos nórdicos perguntaram outra coisa: se a situação local permitia uma exceção. A carta de 2026 regista que não permitia. Não há, até agora, elementos suficientes para atribuir a Leão XIV uma campanha pessoal contra a Maçonaria. A declaração de 1983 antecede-o em mais de quatro décadas e o esclarecimento de 2023 pertence ao pontificado de Francisco. A consulta nórdica, porém, ocorreu já sob Leão XIV e teve consequências pastorais publicadas menos de um ano depois. Um católico dos países nórdicos que mantenha a filiação maçónica dispõe agora de instruções episcopais expressas sobre as consequências sacramentais. As instituições católicas receberam igualmente regras sobre acordos e utilização de propriedades. Em Itália, duas famílias que tinham preparado funerais católicos viram as celebrações impedidas depois de conhecida a pertença maçónica dos falecidos. A exceção que os bispos quiseram esclarecer A dúvida nórdica tinha antecedentes próprios. A Maçonaria não se desenvolveu de forma idêntica em toda a Europa, e algumas tradições escandinavas possuem características religiosas que levaram católicos e maçons a questionar se os fundamentos da antiga condenação se lhes aplicariam nos mesmos termos. Os bispos levaram essa questão ao Dicastério. A carta de junho de 2026 não se ficou pela resposta recebida. Diz aos párocos o que fazer quando um fiel maçon se aproxima dos sacramentos, quando alguém pretende entrar na Igreja ou quando uma instituição católica pondera colaborar com uma organização maçónica. Entre 1974 e 1980, representantes católicos e maçons na Alemanha tinham participado num processo de diálogo que incluiu o exame de posições e rituais maçónicos. Os bispos alemães concluíram, no final, que as divergências impediam a pertença simultânea às duas instituições. A carta nórdica recupera esse trabalho ao apresentar os fundamentos da posição que manda aplicar. Em maio de 2025, poucos dias depois da eleição de Leão XIV, o Grande Oriente d’Italia publicou uma saudação ao novo Papa. Apresentou os maçons como construtores de pontes de paz e manifestou a esperança de que também houvesse espaço para eles entre as pontes de diálogo evocadas no início do pontificado. Em agosto do ano seguinte, a pertença maçónica de D’Amario e Tarducci pesou diretamente nas decisões tomadas sobre os respetivos funerais. O que significa recusar um funeral Para a Igreja Católica, um funeral religioso tem conteúdo próprio e está sujeito às suas regras. Não corresponde apenas à disponibilização de uma igreja, de um sacerdote e de uma cerimónia pedida pela família. Os familiares vivem o mesmo momento de outra maneira. Depois da morte, decisões práticas misturam-se com hábitos religiosos e memória familiar. Se uma celebração já preparada deixa de poder realizar-se por causa de uma pertença mantida pelo falecido, a consequência chega a pessoas que não tomaram essa decisão. Nos casos italianos, a documentação disponível não apontava para contactos ocasionais com a Maçonaria. D’Amario e Tarducci tinham exercido funções identificáveis em estruturas maçónicas. Uma diocese que tivesse perante si uma suspeita, uma filiação remota ou informação não confirmada enfrentaria uma situação diferente. Também não decorre destes dois episódios que qualquer católico com passado maçónico receba necessariamente o mesmo tratamento. As exéquias envolvem disciplina canónica e apreciação do caso concreto. Aqui sabemos apenas o que aconteceu nestas duas dioceses. Nos países nórdicos, a carta atua antes de surgir qualquer funeral ou outro caso público. Enquanto permanecer maçon, o fiel deve abster-se da comunhão e dos restantes sacramentos. Se quiser entrar na Igreja, terá de abandonar previamente a organização. Há igualmente instruções para as relações entre instituições. Um pároco pode encontrar estas disposições quando alguém lhe pede um sacramento ou quando uma colaboração local envolve uma loja. Duas pertenças na mesma biografia Uma pessoa pode considerar-se simultaneamente católica e maçónica durante décadas. Pode participar em ritos religiosos, manter hábitos familiares católicos e exercer funções numa loja. A Igreja considera essas pertenças incompatíveis, ainda que a própria biografia do fiel as tenha mantido lado a lado. As orientações nórdicas obrigam a resolver essa situação. Quem quiser regressar ao acesso normal aos sacramentos terá de abandonar a Maçonaria. A posição decorre da maneira como a Igreja entende a pertença religiosa e os compromissos que considera inconciliáveis com ela. A Maçonaria europeia desenvolveu outra relação com a diversidade confessional, embora as várias obediências e ritos não sejam idênticos. Essa variedade foi uma das razões para os bispos nórdicos perguntarem se a disciplina geral admitia uma solução diferente no seu território. Roma não reconheceu essa exceção. Para os fiéis abrangidos, a consequência é bastante concreta: manter a filiação maçónica impede o acesso normal aos sacramentos. Uma disputa antiga numa Europa diferente A relação entre a Igreja Católica e a Maçonaria formou-se num contexto marcado pela secularização, pelo anticlericalismo, pelas disputas políticas e pelos conflitos sobre o lugar público da Igreja. Muito desse passado já não ocupa a vida quotidiana da maioria dos europeus. A Maçonaria perdeu parte do peso político e simbólico que teve no século XIX e em partes do século XX. A Igreja, por sua vez, atua hoje em sociedades mais secularizadas, onde muitos cidadãos desconhecem as regras internas que regem a pertença católica. Uma declaração de 1983 pode permanecer válida durante décadas sem entrar na experiência de grande parte dos fiéis. Quando um bispo tem de decidir sobre um sacramento ou um funeral, a mesma regra deixa de estar apenas num arquivo doutrinal. Os casos de 2026 não demonstram uma aplicação mais frequente em toda a Igreja. Para saber isso, seria necessário conhecer as decisões tomadas ao longo do tempo em dioceses diferentes, muitas das quais nunca chegam ao espaço público. Em setembro de 2025, os bispos nórdicos procuraram uma resposta em Roma. Em junho de 2026, publicaram instruções. Em agosto, duas dioceses italianas recusaram exéquias católicas a homens com funções conhecidas na Maçonaria. Há ainda outro fator. Hoje, uma decisão tomada numa paróquia ou diocese pode circular internacionalmente em poucas horas. As próprias organizações maçónicas mantêm arquivos, comunicados e publicações acessíveis ao público. Situações que antes poderiam permanecer locais passam depressa para uma discussão europeia. Com os elementos disponíveis, não é possível medir se estamos perante mais decisões deste género ou apenas perante decisões que se tornaram mais visíveis. O novo pontificado A consulta nórdica ocorreu quatro meses depois da eleição de Leão XIV. As orientações foram publicadas durante o primeiro ano do pontificado. A doutrina aplicada pelo Dicastério não nasceu então. Tinha sido reafirmada durante Francisco e assenta numa declaração de 1983. Também não foi identificado, até agora, um documento de Leão XIV que determine uma campanha específica contra a Maçonaria. Os bispos nórdicos, contudo, fizeram a consulta já no novo pontificado e não obtiveram a exceção que procuravam. A partir dessa resposta, publicaram regras pastorais aplicáveis nos seus territórios. Poucas semanas depois, os dois funerais italianos mostraram outra consequência possível da incompatibilidade. Ainda não há base documental suficiente para saber se estes acontecimentos fazem parte de uma mudança mais ampla na prática pastoral. Francisco era Papa quando o Dicastério reafirmou a posição em 2023. Leão XIV era Papa quando a consulta nórdica recebeu resposta e quando os bispos publicaram as instruções de 2026. Se vierem a surgir outros casos, será possível perceber melhor se a prática está a mudar ou se estes acontecimentos permanecerão episódios dispersos. O espaço que desapareceu A Igreja afirma que a dignidade é inerente a cada ser humano e não depende da sua condição social, cultural, política ou religiosa. É um princípio que não contém exceções para os maçons. A incompatibilidade entre a fé católica e a Maçonaria pertence à doutrina da Igreja; a dignidade da pessoa, segundo a própria Igreja, permanece intacta. É entre estas duas afirmações que os acontecimentos de 2026 deixam a questão por resolver. Ilustração: Stephanie Klepacki / IA #IgrejaCatólica #Maçonaria #DireitoCanónico #LeãoXIV
- Trump e o teste de stress à democracia americana
Mapa de Coisas Sérias Trump e o teste de stress à democracia americana Seis meses depois do regresso de Donald Trump à Casa Branca, a democracia dos Estados Unidos está a atravessar um teste de resistência que, até há pouco tempo, muitos especialistas considerariam improvável. Não se trata de um choque pontual, mas de uma erosão sistemática e estratégica: o ataque coordenado a pilares como o poder judicial, as universidades, os meios de comunicação e até as grandes firmas de advocacia. As vitórias internas de Trump, nestes meses, não se resumem a ganhos políticos: traduzem-se em capitulações institucionais. Universidades de elite, como Columbia, cederam a exigências governamentais que implicaram alterações curriculares, expulsões de estudantes e pagamento de multas milionárias para recuperar verbas federais. Empresas de media como a Paramount e a Disney aceitaram acordos que levantam dúvidas sobre a independência editorial. Grandes sociedades de advogados aceitaram prestar serviços jurídicos gratuitos para causas alinhadas com a agenda do Executivo, poupando ao governo centenas de milhões de dólares. A mecânica é conhecida e estudada noutros contextos: usar o poder regulatório, económico e jurídico para criar um dilema nas instituições — resistir e enfrentar retaliações potencialmente fatais, ou ceder e sobreviver amputadas. O professor Ryan Enos, de Harvard, classifica o momento como “autoritarismo competitivo”, comparando-o a modelos como a Hungria e a Turquia: eleições que se mantêm formais, mas com um campo de jogo inclinado, onde a oposição luta contra o peso de regras e contextos desfavoráveis. O paralelo internacional não é gratuito. Viktor Orbán, na Hungria, usou métodos semelhantes para moldar universidades, consolidar o controlo sobre a comunicação social e fragilizar tribunais. Jair Bolsonaro, no Brasil, testou as fronteiras da legalidade e explorou ao limite o peso da máquina executiva. Em todos estes casos, o padrão é semelhante: quando as instituições se dobram isoladamente, o líder acumula poder com rapidez e torna mais difícil qualquer resistência futura. Nos EUA, parte do sistema judicial parece ter desistido de funcionar como travão. O Supremo Tribunal, com maioria conservadora, tem suspendido decisões contrárias ao Executivo por via de ordens provisórias, emitidas, sem fundamentação pública detalhada. Especialistas alertam que isto fragiliza a previsibilidade do direito constitucional e incentiva novas investidas para alterar precedentes. Há quem ainda recuse falar em crise constitucional aberta. É verdade que o Executivo não desafiou diretamente ordens do Supremo Tribunal. Mas é igualmente verdade que o Congresso e o próprio Supremo mostram pouco apetite para confrontar o Presidente, mesmo perante sinais de violação de princípios constitucionais. O que sobra, nesta equação, é a sociedade civil — sindicatos, associações, movimentos académicos, organizações não governamentais. Uma lição para Portugal. Se conseguirem atuar de forma concertada, poderão funcionar como último contrapeso a um Executivo em expansão. Se se fragmentarem ou recuarem, a consolidação do poder será mais rápida e profunda. O teste de stress à democracia americana está em curso. Não é um cenário de colapso abrupto, mas de transformação silenciosa. Quando as linhas do mapa se deslocam lentamente, é fácil não perceber a mudança até que o território seja outro. É por isso que a vigilância — das instituições, dos cidadãos e dos aliados internacionais — não é um luxo. É a única forma de garantir que, quando chegar a próxima eleição, ainda haverá um campo democrático onde ela possa acontecer de forma livre e justa. Helena Vale — Analisa políticas públicas e os seus impactos sobre a democracia, a economia e os direitos fundamentais no espaço que se chama de Mapa de Coisas Sérias. Trump e a erosão democrática nos EUA #DonaldTrump #EstadosUnidos #Democracia #PolíticaInternacional #Autoritarismo #DireitosFundamentais #SociedadeCivil
- Vacina contra o cancro do pâncreas: 18 em 20 não provam tudo
Dezoito em vinte Seis mutações do gene KRAS aparecem na maioria dos cancros do pâncreas, muitas vezes anos antes de o tumor existir. É a essas seis mutações que a mKRAS-VAX ensina o sistema imunitário a reagir — testada, pela primeira vez, em vinte pessoas que já sabiam ter risco hereditário elevado da doença e uma anomalia visível no pâncreas. Quatro dos oito sítios noticiosos portugueses que deram a notícia — Observador, Jornal do Ave, DNotícias, Índice — publicaram o mesmo primeiro parágrafo, praticamente sem alterar uma vírgula: a vacina tinha-se revelado segura e gerado respostas imunitárias duradouras em pessoas de alto risco. Era o mesmo despacho, chegado a quatro redações diferentes entre 16 e 17 de julho. A Sábado usou um título quase igual. Nos outros três houve reescrita real: a SOL foi pela percentagem — 90% dos participantes; a ZAP preferiu o número absoluto — 18 em 20; o Público escreveu por conta própria, hoje só para assinantes. Dos vinte, dezoito reagiram: células T capazes de reconhecer especificamente essas mutações, ainda detetáveis em alguns casos dois anos depois. Não houve efeitos adversos graves. Num seguimento que foi, em média, de dezasseis meses e meio, nenhum dos vinte adoeceu. É, segundo os autores, a primeira vez que uma vacina contra KRAS produz, em seres humanos, uma resposta imunitária desta duração. Os autores — do Kimmel Cancer Center da Universidade Johns Hopkins e do Skip Viragh Center for Pancreatic Cancer, num artigo saído esta semana na revista Cancer Discovery — escrevem também outra coisa, que não chegou a nenhum dos oito sítios: o ensaio não foi desenhado para provar que a vacina previne o cancro. Foi desenhado para testar se é segura e se o sistema imunitário reage. São perguntas diferentes. Elizabeth Jaffee, uma das autoras, foi mais cautelosa do que qualquer título: "isto é apenas o início", disse — acrescentando que os resultados sugerem que o sistema imunitário está, de facto, a ser ativado. Noventa por cento é o número que se lê. Mas dezoito em vinte significa que bastavam duas pessoas a reagir de outra maneira para o resultado cair para setenta — e, nesse caso, provavelmente não teria sido notícia nenhuma. A conta está certa; a escala é que é pequena demais para a frase que se tirou dela. Nenhum dos oito textos menciona um grupo de comparação. As vinte pessoas do ensaio já estavam a ser vigiadas com exames de imagem regulares — é raro o cancro do pâncreas manifestar-se, mesmo em quem tem risco hereditário, num espaço de dezasseis meses. Sem um grupo para comparar, ninguém sabe quantas destas vinte teriam adoecido de qualquer forma. O que falta para responder à pergunta que a notícia pareceu responder é, segundo os próprios autores, um ensaio maior e com um grupo de comparação. Esse ensaio já existe como pedido. Ainda não tem data. A mKRAS-VAX levou à formação de células T capazes de reconhecer mutações do gene KRAS em 18 dos 20 participantes. O ensaio avaliou a segurança e a resposta imunitária, não a prevenção do cancro.











