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- O mundo visto a duas vozes
No Caderno das Duas há páginas que começam com uma gargalhada e outras com um ponto de interrogação. São escritas por duas irmãs — 13 e 12 anos — que partilham um mesmo caderno e a liberdade de escrever sem pedir licença. Uma gosta de pensar devagar, de medir as palavras, de procurar sentido no que vê. A outra escreve como quem corre: rápida, direta, às vezes com ironia, outras com espanto. Juntas, constroem um retrato do mundo a partir de uma idade em que tudo ainda é possível mudar. Falam de escola, de amizades, de política, de injustiças e de descobertas. E lembram-nos que há perguntas que só a juventude tem coragem de fazer. Na Comunidade AC, o Caderno das Duas é o lugar onde o futuro já está a escrever-se. Quando crescer é também aprender a perguntar. #ComunidadeAC #CadernoDasDuas #Juventude #OpiniãoJovem #Cidadania
- A lupa de Helena Vale
Helena Vale não escreve para entreter. Escreve para desmontar — com a paciência de quem sabe que, na política e na vida, os detalhes são o que mais pesa. Há quem fale de “opinião” como se fosse mera impressão. Helena trabalha a opinião como um artesão trabalha o vidro: limando arestas, expondo fragilidades, deixando passar a luz onde antes havia sombra. Não lhe interessa o aplauso fácil. Interessa-lhe que, ao fechar o texto, o leitor sinta que compreendeu melhor o que antes parecia um labirinto. Na Comunidade AC, Helena Vale é a voz que não tem medo de perguntar “porquê?” até ao fim. Mesmo que a resposta incomode. Sobretudo quando incomoda. AC Ver de perto para pensar mais longe. #ComunidadeAC #HelenaVale #AnálisePolítica #PensamentoCrítico #Opinião
- O silêncio que ainda falta ouvir
Há silêncios que não são ausência. São presença inteira. O silêncio que nos interessa não é o de quem se demite, mas o de quem prepara a palavra como se fosse pão. Um silêncio que pesa, que resiste à pressa e à espuma dos dias. Frei Lourenço de Santa Clara olha o país como quem observa um claustro depois da procissão: já não há música, já não há passos, mas ficou no ar a certeza de que algo sagrado aconteceu. E, no entanto, sabe que a política é feita de homens e mulheres que raramente se ajoelham antes de decidir. Escrever, para ele, é quase um ato litúrgico. Não para erguer templos, mas para lembrar que a justiça não é uma ideia suspensa — é pão para hoje, e pão para todos. O silêncio de Frei Lourenço não é neutro. É um silêncio que toma partido: pelo pobre, pelo que perdeu, pelo que nunca teve. E, quando a palavra chega, não é para ornamentar o vazio, mas para dizer o que, dito alto demais, se perde no ruído. Aqui, na Comunidade AC, o Frei escreve para quem sabe que o país não se mede só em contas públicas e orçamentos. Mede-se também no rosto de quem ninguém chama pelo nome. AC Quando o silêncio fala mais do que mil discursos. #ComunidadeAC #FreiLourenço #Silêncio #JustiçaSocial #DignidadeHumana #Reflexão #Espiritualidade
- Porquê uma Comunidade
Um espaço de portas abertas à palavra livre. Começa sempre com um nome. Depois com uma voz. E, quando damos por nós, há outras vozes que se encostam a essa primeira como quem procura abrigo. A Comunidade AC nasceu assim: não de um plano calculado, mas do encontro inesperado de vontades. Não somos iguais. Não escrevemos da mesma forma. E é precisamente por isso que existimos. Neste espaço, cabem as perguntas que não cabem nas agendas oficiais. Caberá o silêncio de Frei Lourenço, que pesa mais do que muitas frases. Caberá a praça de Maria do Rio, onde a política se mistura com o cheiro a café. Caberá a lupa de Helena Vale, que vê histórias nos números. E caberá o Caderno das Duas, onde a juventude escreve sem pedir autorização. O que nos une não é uma doutrina. É uma disposição — a de olhar o país e o mundo sem medo de pensar e de dizer. Aqui, cada texto é uma peça de conversa. E, como em todas as conversas que valem a pena, há momentos de acordo e de desacordo, há pausas, há risos e há coisas que doem. Se o leitor ficar connosco, vai descobrir que esta comunidade é, na verdade, uma casa com muitas portas abertas. Entre por onde quiser. E, se um dia sentir que também tem algo a dizer, bata à porta. Alguém, deste lado, vai ouvir. AC #ComunidadeAC #Editorial #NovasVozes #EscreverComSentido #AlbertoCarvalho #Literatura #Opinião
- Está a nascer a Comunidade AC.
Está a nascer a Comunidade AC. Novas vozes. Novas rubricas. Novos olhares sobre o país e o mundo. Do silêncio do Frei Lourenço às praças da Maria do Rio, das análises de Helena Vale aos olhares jovens do Caderno das Duas, este é um espaço aberto a quem quer pensar e escrever com sentido. 📬 Quer fazer parte? Envie-nos a sua proposta. 📅 Em breve, os primeiros textos. Está a nascer a Comunidade AC. #ComunidadeAC #NovasVozes #Rubricas #Política #Cultura #Sociedade
- Texto de anúncio oficial — Site
Está a nascer a Comunidade AC O Alberto Carvalho nunca escreveu sozinho — faltava era dar rosto a quem o acompanha. A partir de hoje, a casa abre-se a novas vozes, cada uma com a sua maneira de olhar, pensar e escrever. Chamámos-lhe Comunidade AC. Aqui, vai encontrar quem desenha mapas de políticas públicas e quem prefere as praças da cidade; quem escreve a partir de um claustro imaginário e quem observa o mundo a partir do recreio da escola. São vozes diferentes, mas com uma mesma intenção: pensar o país, cuidar da palavra e não deixar passar o que é importante. Nos próximos dias, conhecerá melhor cada uma: Alberto Carvalho — Caderno Aberto: crónicas literárias sobre política, cultura e sociedade. Helena Vale — Mapa de Coisas Sérias: análises claras e rigorosas sobre políticas públicas e impacto social. Frei Lourenço de Santa Clara — Pequenos Tratados do Invisível: reflexões éticas e espirituais sobre a vida pública. Maria do Rio — Caderno da Praça: crónicas da cidade e das suas pequenas histórias. Caderno das Duas — Coisas que Ainda Não Cabem nos Testes: olhares jovens e genuínos sobre a vida escolar e a amizade. A porta está aberta. Se também tem uma voz que quer partilhar, conte-nos. Este espaço é feito de palavras — e as suas também podem ter lugar aqui. Comunidade AC — Novas Vozes #ComunidadeAC #NovasVozes #AlbertoCarvalho #Rubricas #Política #Cultura #Sociedade
- A Constituição e o Limiar
Segurança é uma casa com portas e fundamentos - não se ergue derrubando a família. Há dias em que um país precisa de se ouvir a si próprio. O despacho do Tribunal Constitucional foi um desses momentos. Não trouxe fogo-de-artifício; trouxe coisa mais rara: um limite. Disse, com a calma dos textos que nos sobrevivem, que a lei dos estrangeiros, tal como saiu do Parlamento, atravessou linhas que a própria República desenhou para se proteger de si mesma. Não se trata de gostar ou não gostar de uma política: trata-se de saber se a vontade do dia cabe na moldura maior do direito. Responderam-lhe, de imediato, com estrépito: “incompreensível”, “espírito de esquerda”, “nenhum direito familiar se sobrepõe à segurança do país”. A fórmula é eficaz porque apela ao instinto — mas é precisamente quando o instinto grita que a Constituição deve falar. E o que ela diz, aqui e em qualquer democracia digna desse nome, é simples: a segurança nacional não vive contra a família, vive com ela. Um Estado que se declara forte por negar a unidade familiar anuncia, sem perceber, uma fragilidade mais funda: a de já não saber para que serve o próprio poder. A família não é um adorno humanitário das leis: é um ponto de apoio. Antes de ser consagrada em códigos, existia na experiência elementar de proteger os pequenos, amparar os velhos, reconhecer no outro um vínculo que não é opção de ocasião. Por isso, as constituições — a nossa e as que nos são comparáveis — erguem a família como bem a resguardar, mesmo quando o tema é migração, fronteira, ordem. Não por ingenuidade, mas por prudência: separar à força o que a vida juntou é receita antiga para gerar desespero, violência e, ironicamente, insegurança. O Tribunal não discutiu se o país deve controlar entradas, avaliar pedidos, exigir documentos. Discutiu outra coisa: como o faz. O “como” é a gramática que distingue a força justa da força bruta. É aqui que mora a diferença entre um Estado que governa e um Estado que domina. Se o “como” atropela garantias — prazos sem defesa, recursos esvaziados, reagrupamentos tratados como favor — a lei falha o exame da própria República. E falha por uma razão que deveria unir, não dividir: ninguém é mais seguro num país que desvaloriza a palavra família, porque amanhã será outro direito a ceder ao medo da hora. Fala-se, entretanto, em “invasão silenciosa”. O termo é hábil: dá à inquietação uma imagem total e, por isso, dispensadora de pensar. Mas o ofício de governar — e de legislar — é precisamente o contrário: é recusar atalhos fáceis quando está em causa a estrutura que nos mantém juntos. Uma fronteira pode ser vigiada com rigor sem que, por isso, se empobreça a proteção de quem já vive connosco. Um processo administrativo pode ser firme sem ser cego. A autoridade pode dizer “não” sem precisar de humilhar, e pode dizer “sim” sem trair o país. Convém também marcar outro ponto, tantas vezes deturpado: o Tribunal Constitucional não é um “partido togado”, é um travão deliberado. A democracia madura instalou travões não por desconfiança da vontade popular, mas por respeito à sua própria volatilidade. O voto decide rumos; a Constituição fixa fronteiras éticas e jurídicas para que, na pressa, não desfiguremos a casa. Mudar a Constituição porque um acórdão não agrada é confundir projeto com impulso. E um país que confunde projeto com impulso acorda sempre mais pobre do que se deitou. Talvez a pergunta decisiva seja esta: que espécie de segurança desejamos? A que se contenta com números de expulsões e portas trancadas, ou a que mede a sua solidez pelo modo como trata famílias reais, com crianças que amanhã sentarão numa carteira ao lado das nossas? A primeira é fácil de anunciar e difícil de sustentar. A segunda é exigente: pede meios, pede inteligência administrativa, pede tempo — e pede, sobretudo, a coragem de não transformar medo em doutrina. A decisão do Tribunal e o veto presidencial não aboliram a ideia de fronteira nem a necessidade de ordem; obrigaram-nos a reescrever o como. Isso é política em estado adulto. A lei volta ao Parlamento. Cabe agora aos seus autores provar que conseguem proteger o país sem diminuir a sua própria estatura. Se conseguirem, ganhamos todos: as forças de segurança com regras claras; as famílias com direitos reconhecidos; a sociedade com paz social que não é apenas ausência de crime, mas presença de justiça. A grandeza de uma Constituição vê-se nos dias difíceis. Hoje pediu-se ao país que olhasse para o limiar: o sítio onde a casa recebe quem chega, sem esquecer quem já cá está; o sítio onde a autoridade se afirma não por gritar mais alto, mas por cumprir o que prometeu ser. É aí que se mede uma nação: no modo como defende sem desumanizar, e no modo como acolhe sem desistir de se proteger. AC Balança da Justiça sobre um fundo cinzento, representando a imparcialidade e a força do Estado de Direito. #Constituição #EstadoDeDireito #TribunalConstitucional #Política #Imigração #DireitosHumanos
- O Pianista de 3 Anos que Conquistou uma Orquestra
Barron Cheng: o pianista de três anos que encantou uma orquestra Há histórias que nos lembram que o talento não conhece idade. Barron Cheng tem apenas três anos, mas já viveu o que para muitos músicos é um sonho distante: tocar com uma orquestra num grande palco. Começou a aprender piano aos dois anos e, desde então, a música tornou-se a sua segunda língua. No Hong Kong City Hall, sentado diante de um piano quase maior do que ele, Barron interpretou o “Love Theme”, da compositora Catherine Rollin, com uma serenidade e expressividade que comoveram plateia e músicos. A sua professora, Shirley Lo, fala de uma audição perfeita e de uma afinidade natural com a música — mas também de um cuidado especial para que a infância de Barron seja tão harmoniosa quanto as notas que toca. Entre as teclas e a ternura de quem ainda descobre o mundo, Barron Cheng mostrou que, às vezes, o génio chega de pés pequenos, mas com um som capaz de encher um auditório inteiro. AC A orquestra ao fundo, captando o momento da performance no Hong Kong City Hall. #BarronCheng #Piano #Prodígio #MúsicaClássica #Orquestra #CatherineRollin #Talento #HongKong
- O Invisível que Ficou
A herança sefardita vive em gestos e palavras que já esquecemos ter herdado. Há heranças que não cabem nos arquivos nem nos museus. Estão na língua que falamos sem pensar, no modo como temperamos um prato, nas histórias que contamos à lareira. A presença sefardita em Portugal não desapareceu com os éditos de expulsão — dissolveu-se no quotidiano, como sal na água. Certas palavras que julgamos puramente portuguesas têm raízes no ladino ou em hebraico. Expressões culinárias sobrevivem em receitas de peixe salgado, em doces de amêndoa e mel, em combinações de especiarias que atravessaram o Mediterrâneo para se fixarem nas nossas mesas. Até alguns rituais domésticos, como acender velas à sexta-feira sem motivo religioso explícito, ecoam práticas de famílias que, em tempos, tiveram de ocultar a fé para sobreviver. A Inquisição quis apagar sinais, mas acabou por os espalhar. E esse paradoxo moldou um país que, sem saber, continua a repetir gestos sefarditas. O invisível que ficou não é resíduo: é cimento cultural. Ele mostra que a identidade nacional não é uma fortaleza, mas um tecido — e que cada fio, mesmo o que tentaram cortar, contribui para a sua resistência. Reconhecer esta presença silenciosa não é exercício académico: é um ato de justiça para com a verdade e para connosco. Porque só ao aceitar que o nosso “nós” é feito de muitos “outros” é que podemos evitar repetir a velha tentação de expulsar o que nos constrói. AC #HistóriaDePortugal #Sefarditas #HerançaCultural #Gastronomia #LínguaPortuguesa #MemóriaColetiva #IdentidadeNacional
- O Saber que Navegava
Entre as naus e os portos, havia ciência sefardita a manter Portugal no rumo. Nos séculos em que o mar parecia não ter fim, Portugal construiu a sua epopeia sobre um alicerce que raramente nomeia: o saber sefardita. Entre mapas, cartas náuticas, técnicas de cálculo e línguas estrangeiras, havia mãos e mentes judaicas a traduzir o mundo para que o mundo coubesse nas naus. Eram astrónomos que liam o céu sem o poluir com superstição. Eram médicos que estudavam o corpo humano com um rigor que escapava ao medo medieval. Eram intérpretes que conheciam os mercados do Norte de África e do Levante, abrindo rotas e fechando tratados. E, no entanto, muitos desses nomes foram riscados dos livros ou sobrevivem disfarçados em pseudónimos de conveniência. O Portugal que se orgulha da sua expansão raramente recorda que, sem esses saberes, teria navegado menos e mais tarde. É mais cómodo celebrar os feitos do que reconhecer as dívidas. Mas a verdade histórica não é devedora do conforto nacional. Quando a perseguição caiu sobre eles, não foi só um grupo humano que partiu: foram bibliotecas vivas, redes comerciais, escolas de pensamento. O país ficou mais pobre e nem se deu conta no momento. E talvez a nossa fragilidade científica e económica, tantas vezes repetida ao longo dos séculos, tenha começado nessa amputação. O saber que navegava não se afogou — dispersou-se. E, onde quer que tenha aportado, ajudou outros portos a crescer. Talvez seja tempo de assumir que a História não é um álbum só de vitórias, mas também um inventário do que deixámos escapar pelas nossas próprias mãos. AC História de Portugal, sefarditas, descobrimentos, ciência, economia, cultura portuguesa, identidade nacional #HistóriaDePortugal #Sefarditas #Descobrimentos #Ciência #Economia #CulturaPortuguesa #IdentidadeNacional
- As Chaves que Portugal Perdeu
Nem todas as expulsões se medem em quilómetros; algumas pesam séculos inteiros. Há um rumor que atravessa séculos: o som de uma chave a rodar numa porta que já não existe. Para muitos sefarditas expulsos, essa chave — real ou imaginada — foi guardada como se guardasse a própria terra. Não era ferro apenas: era casa, memória, pertença. Portugal tem dificuldade em imaginar-se como país que expulsou os seus. Preferimos falar das caravelas e das partidas para o mundo, não das fugas apressadas pela noite, com documentos falsos, ouro escondido nas costuras e filhos a perguntar para onde iam. No entanto, a história é feita também dessas portas fechadas para sempre. Entre os séculos XV e XVII, não perdemos apenas cidadãos; perdemos médicos, tradutores, navegadores, banqueiros, astrónomos, poetas. Perdemos quem tinha mapas diferentes, redes diferentes, ideias diferentes. Perdemos camadas de inteligência que poderiam ter tecido um país menos desconfiado e mais cosmopolita. E, contudo, parte desse Portugal viajou dentro deles. O português misturou-se com o hebraico em canções e orações, resistiu em bairros de Salónica, Istambul ou Amesterdão, atravessou gerações como quem carrega um brasão invisível. É por isso que, quando reencontramos hoje descendentes de sefarditas, o espanto não está apenas no parentesco biológico — está na sobrevivência de uma língua, de uma melodia, de um tempero que a distância e o tempo não conseguiram dissolver. As chaves que Portugal perdeu não foram todas para o fundo do mar. Algumas ficaram nas gavetas da memória, à espera de um gesto que seja mais do que simbólico. Porque só quando reconhecemos que fomos também nós a trancar a porta é que podemos ter a coragem de abri-la de novo. AC Símbolo Judaico #HistóriaDePortugal #Sefarditas #Expulsão #CulturaPortuguesa #MemóriaColetiva #IdentidadeNacional #Inquisição
- O Nome das Crianças
O Nome das Crianças Há perguntas que não se respondem com um texto. Há dores que não se explicam com estatísticas. E há silêncios que não significam indiferença — apenas pudor. Tenho adiado este texto. E não por falta de indignação. Mas por excesso de respeito. Pelas crianças. Pelas palavras. E por tudo o que, sendo tão grave, não se diz com ligeireza. Escrever sobre a Palestina — sobre a morte de crianças, sobre a asfixia de um povo, sobre a brutalidade que se tornou paisagem — é como atravessar um campo de ruínas com os pés descalços. Cada frase pode ferir. Cada omissão pode ser injusta. Cada nome esquecido, uma segunda morte. Mas não escrever também é um erro. Porque há um ponto em que o silêncio já não é prudência — é cobardia. E quando morrem crianças, dia após dia, e os adultos do mundo civilizado hesitam em chamá-las pelo nome — talvez o mais urgente seja isso: dizer os nomes. Não venho explicar o conflito. Não venho escolher trincheiras. Venho apenas dizer que há meninas e meninos que não aprenderam a andar, mas já aprenderam a temer. Crianças que não sabem onde é Jerusalém, mas sabem que as paredes tremem antes de um míssil. Crianças que nasceram sob drones, cresceram sob cercos, e morrem sob escombros. Não é preciso ser especialista em geopolítica para sentir que algo está errado. Não é preciso saber os mapas, nem conhecer a história inteira, para ver que a infância não é uma ameaça — e, no entanto, é tratada como tal. Dizem-nos que é complicado. Que há terrorismo. Que há legítima defesa. Mas desde quando se mede a justiça pela quantidade de mortos civis? Desde quando se aceita que os danos colaterais sejam jardins infantis? Fico com medo de quem se apressa a justificar tudo. Fico com vergonha de quem só se indigna com as mortes certas. E fico com pena de um mundo onde a compaixão tem passaporte e a empatia precisa de visto. Não, não sei tudo. Mas sei o que é ouvir uma mãe dizer que o filho foi enterrado com o nome bordado na mochila. Sei o que é ver olhos de crianças que já não esperam por ninguém. E sei que um povo inteiro não pode pagar o preço eterno dos pecados do mundo. Se me perguntarem “o que propõe?”, não saberei responder. Mas talvez a pergunta certa seja: o que nos aconteceu para aceitarmos isto? Há um lugar no coração onde todas as ideologias perdem importância. É o lugar onde uma criança dorme. E se esse lugar for bombardeado, não há bandeira que nos possa desculpar. O que escrevo aqui não é uma acusação. É um lamento. Um esforço para que a lucidez não morra soterrada sob escombros ideológicos. E para que, mesmo sem saber tudo, possamos pelo menos não perder a decência de nos importarmos. Este texto é só isso: Uma vela acesa por um nome que já ninguém diz. Um gesto frágil, mas inteiro, para lembrar que — mesmo no meio das ruínas — há palavras que não podemos calar. AC Velas Pela Infância Perdida #Palestina #Crianças #Conflito #Justiça #Empatia #AlbertoCarvalho











