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- O que a ressonância já sabe sobre o pâncreas
A imagem por tensor de difusão foi desenhada para olhar para o cérebro — para seguir a água a mover-se ao longo dos feixes de substância branca que ligam um pensamento a outro. Carlos Bilreiro, radiologista no Centro Clínico Champalimaud, teve a ideia de a apontar, pela primeira vez, a um órgão que não pensa: o pâncreas. O que a ressonância já sabe O pâncreas avisa tarde. Os sintomas do seu cancro não são específicos e confundem-se com os de outras doenças; quando aparecem, a doença está muitas vezes já avançada e inoperável. A diferença entre apanhá-la cedo e apanhá-la tarde é radical: a sobrevivência a cinco anos ronda os 44% quando o tumor ainda está localizado, e cai para cerca de 3% quando já há metástases. A maior parte dos cancros do pâncreas — a esmagadora maioria é adenocarcinomas ductais pancreáticos — nasce de uma lesão anterior, a neoplasia intraepitelial pancreática, ou PanIN. É uma alteração microscópica no tecido, muitas vezes silenciosa, que precede o cancro sem ser ainda cancro. Não havia, até agora, forma não invasiva de a detetar. A Champalimaud recebeu, em 2023, um financiamento de 50 milhões de euros para investigar o cancro do pâncreas ao longo de dez anos. Este estudo faz parte desse esforço. Bilreiro e Noam Shemesh, investigador principal do laboratório de Ressonância Magnética Pré-clínica da Champalimaud Research, publicaram na revista Investigative Radiology, o primeiro método capaz de a detetar. A difusão da água, medida pela DTI, distingue o tecido com PanIN do tecido com quistos simples e benignos. "Há provavelmente PanIN escondidos nestes pixéis", resume Shemesh. É a mesma abordagem usada para mapear o cérebro, agora virada para um órgão que a medicina raramente consegue ver com este pormenor. Testaram o método em amostras de tecido pancreático humano e em ratinhos transgénicos propensos a desenvolver estas lesões. Depois, em amostras de doentes já recolhidas, confirmaram que os resultados "se generalizam aos humanos". Por agora, é possível ver a lesão sem que exista ainda alguém a quem seja preciso contá-la. Os próprios autores dizem que a técnica precisa de mais estudos antes de chegar à prática clínica — antes de alguém decidir o que fazer a quem tiver uma PanIN detetada por ressonância. Quando isso acontecer, vai existir uma categoria nova de pessoa. Uma PanIN não é uma doença, mas é mais do que nada — e a medicina ainda não decidiu como lhe chamar quando alguém a tiver, nem o que fazer a seguir. Nesse território, alguém passaria a viver, talvez durante anos, sem nunca saber se aquilo que tem vai ficar parado ou vai começar a avançar. Os autores já falam em explorar "possibilidades interventivas ou de vigilância" para essa pessoa: vão ter de decidir entre vigiar, durante anos, uma coisa que pode nunca se tornar cancro, ou intervir numa coisa que ainda não é cancro. Essa decisão ainda não foi tomada — os estudos que a preparam ainda estão para vir. Imagem por tensor de difusão (DTI) — a técnica de ressonância magnética usada, pela primeira vez, para detetar lesões pré-malignas no pâncreas. (Imagem Simulada e Não Real)
- O fármaco que prolonga vidas. Portugal vai adquiri-lo a tempo?
Na quarta-feira, a agência norte-americana do medicamento aprovou o primeiro fármaco dirigido especificamente à proteína RAS para tratar o cancro do pâncreas metastático. Chama-se Rasonque, é fabricado pela Revolution Medicines e resulta de mais de uma década de trabalho sobre um alvo que a farmacologia considerou, durante muito tempo, praticamente impossível de atacar. Num ensaio de fase 3 com 500 doentes com adenocarcinoma pancreático metastático que já tinham recebido tratamento, a sobrevivência mediana foi de 13,2 meses entre os que receberam o medicamento e de 6,7 meses entre os que receberam apenas quimioterapia. Segundo a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA), estes resultados correspondem a uma redução de 60% no risco de morte. Atlantic Lisbon | SAÚDE • INOVAÇÃO • FUTURO O adenocarcinoma é a forma mais comum de cancro do pâncreas. Só nos Estados Unidos, são diagnosticados todos os anos cerca de 67.500 novos casos da doença. O Rasonque é tomado por via oral, num comprimido diário de 300 miligramas. Os efeitos secundários mais comuns incluem erupções cutâneas, diarreia, náuseas e fadiga. Nos ensaios clínicos, 86% dos doentes tiveram problemas de pele, considerados graves em cerca de uma décima parte dos casos. A proteína RAS está mutada na maioria dos tumores do pâncreas, mas resistiu durante décadas às tentativas de a bloquear: a superfície não oferece um ponto óbvio onde uma molécula se possa fixar. Os poucos inibidores de RAS anteriormente aprovados, da Amgen e da Bristol Myers Squibb, atuam apenas sobre uma mutação específica e apenas quando a proteína se encontra inativa. O Rasonque foi concebido para bloquear várias formas da proteína mesmo no estado ativo e pode ser usado independentemente de ter ou não sido identificada uma mutação no doente. Desde maio, antes da aprovação formal, a Revolution Medicines já o distribuía através de um programa de acesso alargado autorizado pela FDA. O programa chegou a mais de 2.000 pessoas em centros oncológicos e clínicas comunitárias. Sete meses antes da aprovação, o medicamento esteve no centro de uma tentativa falhada de comprar a própria empresa que o desenvolveu. Em janeiro, o Wall Street Journal noticiou que a AbbVie estava em conversações avançadas para adquirir a Revolution Medicines. A AbbVie negou, em comunicado à Reuters, estar em qualquer negociação com a empresa. Dias depois, o Financial Times e o próprio Wall Street Journal noticiaram que era a Merck, e não a AbbVie, quem negociava a compra, por um valor entre 28 e 32 mil milhões de dólares. A Revolution Medicines, que valia pouco mais de 15 mil milhões de dólares antes destas notícias, viu as suas ações subirem mais de 30% em poucos dias, chegando a um valor de mercado superior a 20 mil milhões. No final de janeiro, porém, o Wall Street Journal noticiou que a Merck tinha travado as conversações, sem que as duas partes conseguissem chegar a acordo sobre o preço. O presidente executivo da Revolution Medicines, Mark Goldsmith, recusou sempre confirmar ou desmentir qualquer negociação, invocando uma política de não comentar rumores. Em abril, a empresa fechou uma oferta de ações e obrigações convertíveis que lhe trouxe mais de 2.200 milhões de dólares. A Erasca, um rival direto que desenvolve outro medicamento dirigido à mesma proteína RAS, perdeu mais de 40% do seu valor em bolsa depois de revelar que um doente de 66 anos, participante no seu ensaio clínico, tinha morrido após desenvolver uma inflamação pulmonar grave. A Revolution Medicines alegou ainda, numa carta formal, que o medicamento da concorrente infringia as suas patentes. Em maio, a Revolution Medicines recebeu 250 milhões de dólares da Royalty Pharma em troca de direitos sobre futuras royalties. Em julho, a Agência Europeia de Medicamentos aceitou acelerar a avaliação do Rasonque, e a FDA aceitou o pedido de aprovação para revisão prioritária. A 11 de agosto, as ações da Revolution Medicines fecharam acima de 205 dólares, dando à empresa um valor de mercado superior a 44 mil milhões de dólares. Era mais do dobro do que valia antes da especulação de janeiro e ultrapassava largamente o valor que a Merck chegou a oferecer. As ações voltaram a atingir um máximo histórico a 18 de agosto e continuaram a subir. Entre os investidores conhecidos da empresa está o gestor de fundos Stanley Druckenmiller, que reforçou a sua posição em mais de 26% no segundo trimestre do ano, segundo documentos entregues às autoridades reguladoras. A Revolution Medicines fixou o preço de tabela do Rasonque em 39.800 dólares por mês, cerca de 478.000 dólares por um ano completo de tratamento. A empresa afirma que, para a generalidade dos doentes nos Estados Unidos, a maior parte do custo será coberta por seguro. O litígio de patentes com a Erasca continua por resolver. Ainda este mês, os analistas voltaram a apontar a Revolution Medicines como um possível alvo de aquisição, embora o preço de entrada seja hoje muito superior ao de janeiro. #CancroDoPancreas #Rasonque #Daraxonrasib #Oncologia #AcessoAoTratamento #SNS #INFARMED #DireitoASaude #Portugal #AtlanticLisbon
- Encontrou um caroço. Faltou à consulta para cuidar do pai
Teresa fechou a porta da casa de banho com o pé e ficou especada em frente ao espelho, a mão esquerda enfiada por dentro da camisola, os dedos a percorrer devagar o contorno de um caroço do tamanho de um bago de uva. Onze dias. Contava-os todas as manhãs sem dizer o número a ninguém, nem a si própria em voz alta. O pai precisava dela naquele dia. O caroço teria de esperar. Vestiu-se depressa. Na cozinha, Jorge já tinha o café feito e a rádio ligada baixo no noticiário local. Não perguntou por que é que ela se tinha demorado. Há meses que Jorge não perguntava nada que pudesse ter resposta comprida. — Hoje passo pelo lar antes da loja — disse ela. Ele acenou com a cabeça sem levantar os olhos do jornal, e Teresa sentiu, como sentia quase todas as manhãs, um alívio pequeno e vergonhoso por ele não ter perguntado mais nada. A loja ficava por cima de uma mercearia, duas divisões com pouca luz e uma máquina Singer que tinha sido da mãe dela. Teresa herdara o ofício antes de o escolher: aos catorze anos já fazia bainhas de calças para os vizinhos, aos vinte fazia fatos de casamento completos, com forro e tudo. Naquela manhã tinha uma noiva marcada para as nove e meia, uma rapariga de vinte e poucos anos, magra, nervosa, que já tinha vindo três vezes provar o mesmo vestido e continuava a achar que alguma coisa estava mal, sem saber dizer o quê. — Ainda está apertado aqui — disse a rapariga, virando-se de lado ao espelho, a mão a apontar para as costas onde não havia nada a apertar. Teresa ajoelhou-se e passou os dedos pela costura, sentindo onde o tecido puxava de facto e onde não puxava nada. Alfinetou um centímetro de cada lado, devagar, com a boca cheia de alfinetes, para a rapariga se ir embora tranquila, e pensou, sem querer, em como era fácil corrigir um vestido e impossível corrigir um corpo. — Fica pronto sexta — disse, tirando os alfinetes da boca um a um e espetando-os de novo na almofadinha. Às onze fechou a loja com um cartão na porta, Volto às 14h, e conduziu os vinte minutos até ao lar. Aníbal estava sentado junto à janela, num cadeirão que uma auxiliar empurrava até ali todas as manhãs para ele ver o pátio. Desde o AVC, catorze meses antes, o lado direito do corpo tornara-se uma coisa que ele carregava mais do que usava. Falava pouco, três ou quatro palavras de cada vez, e nem sempre as certas, mas os olhos seguiam tudo, e isso, para Teresa, era pior do que se ele tivesse deixado de ver de todo. Na mesa de cabeceira, ao lado do copo com a palhinha dobrável, estava uma fotografia pequena, já amarelada, dele fardado, novo, em frente a uma composição da CP em que fora revisor durante trinta e dois anos. Ninguém no lar sabia o que era aquele uniforme. Teresa tinha posto lá a fotografia no primeiro dia e nunca mais falara nisso com ele, nem ele com ela. — Pai — disse, e sentou-se ao lado dele. Ele virou a cabeça devagar. Saiu-lhe da garganta um som, nem palavra nem suspiro, o som que fazia sempre que a reconhecia. Teresa pegou-lhe na mão esquerda, a boa, e ficou ali um bocado sem dizer nada, porque já tinha aprendido que preencher o silêncio com frases era mais para ela do que para ele. Depois foi buscar o alicate de unhas à mala e cortou-lhe as unhas uma a uma, soprando o pó que caía, como fazia de duas em duas semanas desde que ele deixara de conseguir fazê-lo sozinho. Era um gesto sem urgência nenhuma. Podia ter esperado mais uma semana. Não esperou. A enfermeira, Sílvia, entrou com o tabuleiro do almoço e ficou a vê-la um instante antes de pousar a bandeja. — Dona Teresa, desculpe esta minha preocupação, mas a senhora está com um ar cansado e que não tinha na semana passada. Já dorme alguma coisa? — Durmo o suficiente. — Devia ir ao médico fazer uns exames, nem que seja só isso. As pessoas cuidam de toda a gente menos de si. Teresa sorriu o sorriso que já tinha pronto para estas ocasiões e perguntou se o pai tinha comido bem ao pequeno-almoço. Sílvia disse que sim e saiu, e Teresa ficou ali mais dez minutos a dar-lhe a sopa às colheradas, inclinando-lhe a cabeça com uma mão para que não se engasgasse, limpando-lhe o queixo com o guardanapo de pano que trazia de casa porque os do lar eram de papel e desfaziam-se. No bolso do casaco, o telemóvel vibrou duas vezes. Era o centro de saúde. Desligou o som sem olhar para o ecrã e continuou a dar a sopa. Ricardo ligou de Londres nessa noite, como fazia aos domingos, à hora do jantar. Perguntou pelo avô, e Teresa disse que estava na mesma, o que já não era bem verdade havia semanas mas era a frase que usava desde sempre para não ter de explicar graus. Perguntou também como é que ela estava, e Teresa disse que estava bem, cansada mas bem, e mudou de assunto: o trabalho dele, o frio de lá, se já tinha comprado um casaco decente. Desligou antes de o filho poder voltar à primeira pergunta. Depois do jantar, o telefone de casa tocou enquanto Jorge via televisão na sala. — Fala da parte da doutora Meireles, é só para confirmar a consulta de amanhã de manhã. A senhora tinha faltado à primeira marcação. — Vou ter de remarcar outra vez — disse Teresa, baixinho, a mão a tapar o auscultador embora não houvesse ninguém por perto. — Tenho uma coisa com o meu pai. A rapariga do outro lado disse que não havia problema e perguntou se queria já ficar com outro dia marcado. Teresa disse que ligava ela. Voltou à sala. Jorge tinha adormecido no sofá, a boca ligeiramente aberta, o comando ainda preso na mão. Ela ficou a olhar para ele um bocado, para o peito a subir e a descer, para a maneira como um homem de sessenta anos ainda conseguia dormir sem peso nenhum na cara, e por um segundo teve vontade de o acordar e de lhe dizer. Dormiam em quartos separados desde que a mãe de Teresa morrera, sete anos antes. Teresa cuidara da mãe em casa até ao fim. Nunca tinham falado sobre isso. Pegou no cobertor da arca e estendeu-lho por cima das pernas, e foi deitar-se sozinha. Graça chegou de Lisboa no sábado seguinte, sem avisar com mais do que um telefonema na véspera. Trouxe uma mala pequena e um ar de quem já tinha decidido ficar só uma noite antes de sair de casa. Foram as duas ao lar depois do almoço. No caminho, no carro, Graça falou da filha, do trânsito na A1, de um colega de trabalho que se tinha reformado antecipadamente. Só ficou calada quando entraram no quarto e viram o pai, mais magro do que da última vez que o tinha visto, os pulsos finos por cima do lençol. — Ninguém me disse que ele tinha piorado assim — disse, já no corredor, depois de saírem. — Piora todas as semanas, Graça. Achas que eu não te ligo porque me esqueço? — Não disse isso. — Tu vives a três horas. Eu venho cá todos os dias, ao almoço, e às vezes à noite outra vez. Achas que tenho tempo para andar a fazer boletins semanais para quem não vem? Ficaram as duas em silêncio junto às máquinas de café do átrio. Uma auxiliar passou a empurrar um carrinho de roupa lavada. — Estás com mau aspeto, Teresa — disse Graça, por fim, mais baixo. — A sério, não é maldade. Estás magra de um jeito estranho. Teresa sentiu o caroço, por baixo do casaco, como uma moeda quente contra as costelas. Por um segundo achou que ia dizer. Já tinha a primeira frase pronta: encontrei uma coisa. Graça estava ali, à espera. — É o cansaço — disse. — Toda a gente com um pai num lar tem mau aspeto, Graça. Vai perguntar às outras senhoras da sala de espera. Graça não insistiu. Ajeitou o casaco e disse que ia à casa de banho antes de voltarem para junto do pai. O telefonema veio às três e meia da manhã de terça-feira, duas semanas depois. Era Sílvia, com a voz de quem já tinha feito aquela chamada antes e sabia não alongar o preâmbulo. — Dona Teresa, é melhor vir. O seu pai está a piorar muito depressa. Não chegou a tempo. Quando entrou no quarto, às quatro e vinte, uma auxiliar mais nova estava a tapar o espelho da casa de banho com uma toalha, e Sílvia estava sentada na cadeira junto à cama, à espera, com as mãos no colo. — Foi tranquilo — disse. — Não sofreu. Teresa aproximou-se da cama. A cara do pai estava virada para a janela, como sempre preferira, e a mão esquerda, a boa, pousada por cima do lençol, a aliança agora demasiado larga a rodar-lhe no dedo a cada movimento que Teresa lhe dava sem querer, ajeitando o lençol, endireitando o colarinho da camisa do pijama que a auxiliar já lhe tinha vestido. Pegou-lhe na mão e ficou ali sem chorar, sem saber ao certo se era vergonha ou apenas cansaço. Ligou a Graça às cinco menos um quarto. A irmã disse que vinha já, que apanhava o primeiro comboio. O funeral foi na quinta-feira, numa manhã de vento que fazia bater a porta da igreja entre as orações e trazia folhas de plátano para dentro do adro, coladas ao chão molhado pelos sapatos de quem entrava. Depois, em casa, Graça ficou mais dois dias a tratar de papéis com Teresa: a conta do lar, a certidão, uma caixa de fotografias que nenhuma das duas sabia bem onde arrumar. Trabalharam lado a lado na mesa da cozinha sem falar muito. A meio da caixa, Graça tirou uma fotografia da mãe, dos últimos meses, magríssima numa cadeira de rodas no jardim da casa antiga, e ficou a olhar para ela mais tempo do que para as outras. — Tu fizeste isto sozinha — disse, sem levantar os olhos da fotografia. — Com ela. Eu estava grávida da Inês e vinha um fim de semana por mês. — Fiz. — Nunca me disseste que era difícil. — Não valia a pena — disse Teresa, e esticou o braço para pegar noutra fotografia. Graça pousou a mão em cima da mão de Teresa, sem dizer mais nada, e Teresa deixou-a ficar ali um bocado antes de a puxar de volta para o monte de papéis. Na noite antes de a irmã voltar para Lisboa, Teresa entrou na casa de banho e fechou a porta com o pé. Enfiou a mão por dentro da camisola. O caroço continuava lá, do mesmo tamanho. Ficou a olhar para o próprio reflexo. Depois foi buscar a mala à entrada, tirou de dentro o cartão amarrotado com o número do centro de saúde e pousou-o em cima da mesa da cozinha, virado para cima, onde Jorge o havia de ver de manhã ao passar com o café. Não lhe telefonou nessa noite. Foi deitar-se. #AtlanticLisbon #Ficcao #Conto #Cuidadores #SaudeDaMulher #RelacoesFamiliares
- Cancro, surdez e obesidade: aprovações em dois meses
Quando a Food and Drug Administration anunciou, em junho de 2025, um novo mecanismo para acelerar a aprovação de medicamentos, afirmou que atribuiria um número limitado de vouchers no primeiro ano. Pouco mais de um ano depois, o número de produtos que já receberam esse voucher ultrapassa os dezoito. O programa está hoje a decidir sobre uma gama de produtos muito mais ampla do que os avanços clínicos dramáticos que serviram de primeira justificação pública: de um antibiótico reintroduzido no mercado a uma terapia génica gratuita para surdez hereditária, passando por um medicamento para perda de peso e vários fármacos oncológicos. Como funciona o mecanismo O programa de prioridade nacional da FDA promete decisões em um a dois meses para medicamentos selecionados, da oncologia à terapia génica e à obesidade. O programa chama-se Commissioner's National Priority Voucher, ou CNPV, e nasceu de uma analogia pessoal do seu criador. Marty Makary, então comissário da FDA, é cirurgião oncológico de formação, habituado a decisões multidisciplinares tomadas em reunião única sobre casos difíceis de doentes concretos. Desenhou o programa à imagem desse modelo: uma equipa alargada de especialistas da agência discute o pedido de aprovação num único dia, em vez de o processo avançar sequencialmente por diferentes gabinetes internos, como acontece na revisão normal. A promessa é reduzir o tempo médio de resposta de dez a doze meses para um a dois meses. Esse painel tem hoje nome próprio, o CNPV Review Council, formalizado em janeiro de 2026. Segundo a própria FDA, não decide sobre a aprovação do medicamento, que continua a caber aos centros normais da agência. O painel reúne a discussão dos especialistas para acelerar o processo dentro da estrutura de decisão já existente. Os edifícios 1 e 21 do campus da FDA em White Oak, Maryland, acolhem o gabinete do comissário e o Center for Drug Evaluation and Research. Foto: U.S. Food and Drug Administration, domínio público. Cinco critérios, um deles novo para um regulador de saúde Nem todos os medicamentos são elegíveis para o programa. A FDA definiu cinco critérios: resposta a crises de saúde pública; terapias verdadeiramente inovadoras; doenças com necessidades terapêuticas ainda não satisfeitas; melhoria da acessibilidade e do custo dos tratamentos; e, por fim, um critério menos habitual no vocabulário de um regulador de medicamentos, o regresso da produção farmacêutica a solo americano, para reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros, formulado explicitamente como uma questão de segurança nacional. Este último critério distingue o CNPV de outros mecanismos de revisão acelerada que a FDA já utilizava. A autorização de um medicamento depende tradicionalmente de segurança e eficácia clínica; a geografia da sua produção não fazia, até aqui, parte central desse cálculo regulatório. A inclusão explícita de onshoring e resiliência de cadeias de abastecimento como critério de prioridade nacional aproxima este programa de instrumentos de política industrial mais do que de um mecanismo puramente sanitário. Os produtos aprovados Em dezembro de 2025, o Augmentin XR, um antibiótico que tinha deixado de ser comercializado, viu reposto o seu fornecimento através do CNPV. Em fevereiro de 2026, o Hernexeos foi aprovado para um tipo de cancro do pulmão associado a mutações do gene HER2. Em abril, o Foundayo tornou-se o primeiro medicamento inteiramente novo aprovado através do programa, para perda de peso; no mesmo mês, a Regeneron obteve aprovação para o Otarmeni, uma terapia génica para surdez hereditária que a empresa decidiu disponibilizar gratuitamente nos Estados Unidos. Em maio, o Bizengri tornou-se a sétima aprovação do programa, para um cancro biliar raro associado à fusão de um gene específico, com base num ensaio de apenas dezanove doentes. O daraxonrasib, o medicamento para cancro do pâncreas avançado desenvolvido pela Revolution Medicines, recebeu o seu voucher em outubro de 2025, ainda antes de a empresa anunciar os resultados que o tornariam conhecido. O pedido de aprovação foi aceite para revisão a 22 de julho deste ano. A FDA aprovou-o a 26 de agosto, com o nome comercial Rasonque, tornando-se a décima aprovação realizada através do programa. A autorização destina-se a adultos com adenocarcinoma pancreático metastático que tenham recebido pelo menos uma terapia sistémica anterior ou não sejam candidatos a tratamento sistémico com vários medicamentos. A FDA concedeu ainda vouchers a um inibidor oral de colesterol e a um fármaco para cancro do pulmão, citando o custo dos medicamentos como parte da justificação. Ilustração anatómica do pâncreas. O daraxonrasib foi aprovado nos Estados Unidos para adultos com adenocarcinoma pancreático metastático ou localmente avançado com mutação KRAS G12X. Imagem: National Cancer Institute/NIH, domínio público. As perguntas que ainda não têm resposta O CNPV não assenta em legislação específica aprovada pelo Congresso, como têm assinalado analistas de política de saúde. Os critérios de seleção estão formalmente definidos, mas deixam larga margem de discricionariedade à agência. As decisões continuam a ser tomadas caso a caso e, sem um quadro plenamente transparente, correm o risco de parecer acordos individuais em vez de uma política regulatória previsível. A FDA sofreu também cortes de pessoal quando o programa passou de uma expectativa inicial de um número limitado de vouchers para mais de dezoito produtos em pouco mais de doze meses, aumentando a pressão sobre os recursos internos da agência. A 4 de junho de 2026, a FDA realizou uma audiência pública dedicada aos critérios de elegibilidade, ao processo de seleção de vouchers, às responsabilidades dos promotores e ao papel do Review Council. O período para apresentação de comentários prolongou-se até ao final desse mês. O programa acelerou aprovações em áreas terapêuticas tão distintas como antibióticos, terapia génica, oncologia e obesidade. Fica por saber se uma agência construída para verificar segurança e eficácia científica pode funcionar também como instrumento de política industrial e de segurança de abastecimento sem que uma dessas funções acabe por condicionar a outra. #Medicamentos #Saúde #Cancro #TerapiaGénica #Obesidade #FDA #PolíticaDeSaúde
- Montenegro quer decidir o tamanho das notícias
Luís Montenegro estava num púlpito partidário quando escolheu a palavra «censura». Não falava de um discurso proibido, de uma notícia retirada ou de jornalistas impedidos de trabalhar. Falava do lugar que as decisões do Governo ocupam nos jornais e nas televisões. Na sua descrição, a comunicação social empurra as «grandes coisas» para «notas de rodapé» e entrega o espaço principal aos incidentes. O objeto da queixa não era o silêncio. Era a paginação. Na Festa do Pontal, Luís Montenegro chamou «censura moderna» ao relevo dado pela comunicação social aos incidentes em detrimento das medidas do Governo. Esta diferença muda o discurso por completo. O primeiro-ministro não acusou os media de esconderem factos no sentido habitual da palavra. Acusou-os de atribuírem aos factos um tamanho diferente daquele que o Governo lhes atribui. A medida considerada decisiva pelo Executivo aparece abaixo da polémica. O resultado anunciado disputa espaço com a falha que exige explicação. A notícia existe, mas não está onde Montenegro entende que deveria estar. Foi a essa perda de controlo sobre o relevo da informação que chamou «censura moderna». A frase foi dita no Pontal, perante uma audiência partidária. Montenegro não estava a apresentar uma reclamação dirigida a um diretor de jornal, nem a pedir a correção de uma falsidade concreta. Falava para pessoas dispostas a ouvi-lo e oferecia-lhes uma explicação para a distância entre o país descrito pelo Governo e o país que encontram quando acompanham as notícias. Se os resultados governativos não dominam a conversa pública, a culpa estará no filtro. Se uma dificuldade ocupa o primeiro plano, será porque alguém diminuiu aquilo que verdadeiramente conta. O discurso fornece assim uma chave para ler as notícias futuras: quando a cobertura for desfavorável, não resultará apenas de uma escolha editorial discutível; estará a esconder a realidade. É uma acusação poderosa porque chega ao leitor antes da notícia. A absolvição vem incluída Todo o Governo tenta organizar a realidade. Dos números disponíveis, escolhe os que permitem contar uma história de progresso. Uma obra anunciada pode passar a resumir o rumo de um mandato. Quando a mensagem chega ao público, os factos já trazem o lugar que o Executivo lhes reservou. O jornalismo começa por retirar essa legenda. Perante uma obra anunciada, procura o que foi executado. Uma política apresentada como benefício obriga a saber quem ficou de fora. Por vezes, a verificação confirma a dimensão que o Governo anunciara. Noutras, encontra pouco para lá do comunicado. Montenegro chama às falhas «pequenas coisas que, porventura, não corram tão bem». A formulação é cómoda porque o caso chega classificado antes de ser examinado. O Governo conserva a dimensão dos seus resultados e reduz o problema à escala de um episódio. Um caso não nasce pequeno por ser inconveniente. Pode morrer no próprio dia ou conduzir a uma decisão mal explicada, a uma responsabilidade que ninguém quer assumir, a uma falha que se repete longe das câmaras. Só depois de investigado se saberá. Tratá-lo antecipadamente como questões menores é pedir ao jornalismo que aceite a conclusão antes de fazer a pergunta. As medidas chamadas grandes precisam do mesmo exame. O alcance só começa a perceber-se quando a decisão sai do púlpito, encontra os seus destinatários e deixa ver o problema que ficou por resolver. O tamanho de uma política não vem impresso no comunicado. Com a fórmula do Pontal, qualquer cobertura pode dar razão a Montenegro. O destaque das falhas confirma, aos olhos dos seus apoiantes, que existe um filtro. Quando as medidas do Governo dominam as notícias, os factos terão finalmente conseguido impor-se. A acusação deixa de precisar de um ato concreto de censura. Basta olhar para a primeira página e discordar do tamanho das letras. O discurso de Montenegro não era para os jornalistas Os jornalistas eram o alvo, mas não eram o público mais importante daquela passagem. Montenegro não precisava de os convencer de que trabalham mal. Precisava de preparar os seus ouvintes para desvalorizarem antecipadamente a informação adversa. Não lhes pediu que deixassem de acreditar nas notícias. Ensinou-os a desconfiar da proporção. Uma investigação pode estar factualmente correta e, ainda assim, ser desvalorizada porque ocupou o espaço que o Governo reservara para as suas medidas. Já não é necessário responder ao conteúdo. Discute-se o incómodo que o provocou. Para um Executivo sob pressão, este desconto é útil. As dificuldades permanecem, mas perdem autoridade política. As controvérsias entram na série das distrações e a insistência dos jornalistas passa a parecer uma obsessão. Quanto maior for a cobertura, mais fácil será dizer que as realizações voltaram a ser atiradas para a margem. A expressão «notas de rodapé» revela, por isso, mais do que uma irritação. Montenegro escolheu uma imagem editorial. Há um texto principal, onde deveria estar a obra do Governo, e um espaço inferior para o que não merece interromper a leitura. Na página que imaginou, os jornalistas trocaram tudo. Promoveram o acessório e encolheram o essencial. Falta decidir quem tem o direito de paginar. Se esse direito pertencer ao Governo, a independência editorial torna-se decorativa. Os jornalistas continuam livres para escrever, mas dentro da escala fornecida pelo poder: a falha pode ser investigada, contanto que não cresça o suficiente para perturbar o anúncio. Montenegro não formulou esta exigência. Apresentou-a como senso comum: o país devia falar mais do que corre bem e menos do que corre mal. Parece um pedido de equilíbrio. Na prática, entrega ao Governo a definição prévia do que merece ser grande. A crítica que ficou por provar Há razões sérias para criticar a comunicação social. O conflito rápido vence demasiadas vezes a explicação demorada. Uma frase áspera circula melhor do que a execução gradual de uma política. Há assuntos acompanhados durante horas e abandonados antes de produzirem qualquer resposta. Esse modo de cobrir a realidade deforma o país que pretende mostrar. Montenegro podia ter entrado por aí. Bastava identificar uma medida ignorada e demonstrar que o seu alcance justificava outro tratamento. Teria então um caso concreto ao qual os media precisariam de responder. Não o fez. A acusação ficou sem objeto verificável. Não indicou uma informação omitida nem explicou como mediu o desequilíbrio. «Censura moderna» entrou no discurso como conclusão de um processo que nunca foi apresentado. Também o Governo participa no sistema de que se queixa. Não espera passivamente que os jornalistas descubram as suas medidas. Tem assessores, canais institucionais e acesso permanente ao espaço público. Decide quando anuncia e com que enquadramento. Pode falar diretamente aos cidadãos sem enfrentar uma pergunta que altere o assunto preparado. Nada disso é ilegítimo. Torna-se problemático quando o poder controla a mensagem nos seus próprios canais e acusa os intermediários de censura por fazerem aquilo que a comunicação oficial evita: escolher outra pergunta. O escrutínio começa precisamente aí. Um jornalista obriga o Governo a sair do tema que escolheu e a responder pelo facto que deixou fora da apresentação. Se apenas for considerada justa a cobertura que preserva a ordem do discurso oficial, essas perguntas continuam a existir, mas já chegam ao público sob suspeita. Da maledicência à capa Montenegro pediu menos «maledicência» e criticou quem trata como um «frete» o reconhecimento do que o Governo faz bem. Aqui, o conflito deixa de ser apenas editorial. «Maledicência» não identifica um erro nem a omissão de contexto. A palavra atribui aos jornalistas uma vontade de falar mal. O trabalho deixa de ser avaliado; a intenção passa a estar sob suspeita. Uma acusação sobre o método jornalístico pode ser testada. A suspeita de que os jornalistas pretendem diminuir o Governo ou o país não oferece essa possibilidade. Qualquer notícia incómoda pode tornar-se mais um sintoma da hostilidade atribuída a quem a publicou. É neste ponto que os resultados económicos começam a carregar um significado nacional. As medidas apresentadas pelo Executivo deixam de ser apenas matéria sujeita a confirmação e tornam-se sinais de confiança em Portugal. A crítica não é declarada antipatriótica. Fica, porém, suficientemente perto dessa ideia para que a suspeita faça o resto. Esta linguagem não censura os jornalistas. Afirmá-lo seria repetir o abuso da palavra que se critica. Prepara uma audiência para avaliar a notícia não pela prova que contém, mas pelo lugar que ocupa numa narrativa de hostilidade. O facto já não chega sozinho. A desconfiança está à espera dele. O primeiro-ministro tem razão quando diz que uma sociedade alimentada apenas por escândalo perde a capacidade de reconhecer mudanças reais. Quando o jornalismo abandona um assunto antes de verificar o resultado, o retrato do país fica preso à primeira crise. Mas essa falha não transfere para o Governo a escolha da capa. Para tornar verificável a sua crítica, Montenegro teria de identificar a realização diminuída e demonstrar a desproporção. Foi esse passo que ficou por dar. «Censura moderna» permite dispensá-lo. Retira a acusação do terreno da prova e instala-a no da perceção. A discordância do primeiro-ministro sobre a ordem dos assuntos passa a ser suficiente. Foi isso que aconteceu no Pontal. Montenegro não reclamou apenas o direito de explicar a obra do Governo. Reclamou autoridade para definir a proporção entre essa obra e as falhas com que os outros a confrontam. Quer governar e conservar uma palavra sobre a edição da página onde será julgado. Escolheu a imagem da nota de rodapé. É provável que volte a servir-lhe. Sempre que um problema subir ao título, poderá apontar para baixo e lembrar a realização que, segundo ele, ficou esquecida. Não para mostrar o que foi censurado, mas o que o Governo desejava ver em letras maiores. #LuisMontenegro #Jornalismo #ComunicacaoSocial #LiberdadeDeImprensa #Portugal #AtlanticLisbon
- A Fórmula Michelle Bolsonaro Chegou a Sintra
Em 1549, seis padres jesuítas desembarcaram na baía de Todos os Santos, na comitiva do primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa. Vinham por incumbência da Coroa portuguesa, ao abrigo do padroado, o acordo com Roma que dava ao rei de Portugal autoridade para nomear bispos, fundar dioceses e financiar missões nas terras que ia descobrindo, em troca de as evangelizar em nome da Igreja. Manuel da Nóbrega chefiava o grupo. Nas cartas que os jesuítas trocavam com Lisboa nesses anos, as populações que ainda não tinham sido convertidas apareciam descritas com a fórmula da época: gente sem fé, sem lei, sem rei. O Atlântico, então, só corria num sentido: levava padres, catecismos, sacramentos e a autoridade de uma Coroa que se pensava incumbida de estender ao Novo Mundo aquilo que já possuía em casa. Quatrocentos e setenta e sete anos depois, a 11 de julho de 2026, uma deputada federal brasileira chamada Priscila Costa subiu a um palco no Palácio Valenças, em Sintra, para discursar perante um auditório de mulheres portuguesas. Priscila Costa é aliada de Flávio Bolsonaro; foi convidada para o pré-lançamento de um movimento chamado Mulheres Conservadoras, fundado pela evangélica Rebeca Batista, com Rita Matias, deputada do Chega, a fazer de mestre de cerimónias. O objetivo declarado, segundo a fundadora, é responder a um feminismo que já não representaria a maioria das mulheres. Os princípios invocados dizem-se de matriz judaico-cristã: dignidade humana, família, responsabilidade, liberdade. Ninguém, garantiram os organizadores, pretende alterar a laicidade do Estado. Não é preciso subscrever nenhuma das duas cenas, nem a de Nóbrega nem a de Rebeca Batista, para reparar no que as separa e, de forma mais interessante, no que as liga. O que as separa é óbvio: uma é conversão religiosa em terra alheia; a outra, mobilização eleitoral em casa. O que as liga é a direção. Em 1549, o Atlântico levava. Em 2026, o Atlântico trouxe. Do Brasil para Sintra, uma fórmula político-religiosa atravessa o Atlântico e encontra em Portugal uma escala muito menor do que a que a fez crescer. A inversão não é só de propaganda política; é também, literalmente, religiosa. Um inquérito da Aliança Evangélica Portuguesa a 509 dirigentes de igrejas, publicado em 2025, apurou que 65% das congregações evangélicas fundadas em Portugal desde 2020 têm à frente um missionário brasileiro. Não é uma metáfora conveniente para abrir um ensaio: é um dado administrativo, contável, com sede e responsável fiscal. O país que Portugal evangelizou à força de padroado, jesuítas e naus está hoje a mandar de volta os seus próprios missionários. Só que desta vez ninguém os manda; eles vêm, encontram um mercado religioso em contração e um público disponível, e fundam uma igreja. E atrás da igreja, por vezes, vem também a política, porque uma coisa que o pentecostalismo brasileiro aperfeiçoou nas últimas três décadas, com um rigor de engenharia que a Igreja Católica portuguesa nunca precisou de ter, foi a arte de transformar o púlpito em voto organizado. O embaraço começa no tamanho. O que se trouxe para Sintra foi pensado para países onde os evangélicos pesam nas urnas de outro modo. No Brasil, rondam hoje os 27% da população; nos Estados Unidos, onde a Assembleia de Deus e as suas congéneres aperfeiçoaram a mobilização de fiéis por via do púlpito, a fatia anda perto dos 23%. Em Portugal, segundo os Censos de 2021, os protestantes evangélicos não chegam a 2% da população residente com mais de quinze anos, pouco mais de 186 mil pessoas, num universo em que 80% continua a dizer-se católico, ainda que pratique cada vez menos. Os especialistas que estudam o fenómeno são taxativos: um voto religioso só produz efeito eleitoral mensurável a partir de uma base de 15 a 20% do eleitorado. Portugal está a um oitavo dessa fasquia. Isto devia bastar para arquivar o assunto como uma curiosidade de importação cultural sem consequência prática. E, no entanto, ali estava uma deputada federal brasileira a discursar num palácio em Sintra, e ali estava o Chega, não simpatizantes difusos, mas várias das suas deputadas, com uma delas a fazer de anfitriã, a emprestar palco e nome a um movimento que, pelos números, não devia interessar a ninguém que faça contas antes de fazer política. A pergunta que interessa não é «porque é que isto não vai funcionar», que é óbvia; é «para que serve, então, montar em Portugal uma operação que não pode funcionar pela razão que a fez funcionar noutro lado». A igreja evangélica, em Portugal, pode não estar a ser cortejada como bloco eleitoral, mas aproveitada como rede: pastores que já falam a uma comunidade, salas que já enchem, grupos de WhatsApp que já circulam, cultos que já produzem presença, disciplina e fotografia. Não é preciso que 15% do país seja evangélico para que uma congregação de duzentas pessoas seja, num sábado à tarde, o local mais eficiente de Portugal para produzir duzentas fotografias de gente animada a bater palmas a uma candidata. O alvo declarado, «as mulheres evangélicas», também permite falar para fora da igreja. Fala-se ao segmento pequeno e organizado para, através dele, emitir um sinal maior e mais difuso, dirigido a mulheres católicas praticantes, a mulheres sem prática religiosa mas de sensibilidade conservadora, a todas as que reconhecem no vocabulário, família, dignidade, responsabilidade, uma linguagem que já não ouvem no espaço público dito de esquerda. O léxico «judaico-cristão», note-se, é deliberadamente maior do que «evangélico»: é uma bandeira que qualquer cristão praticante, catedral ou capela, pode hastear sem se sentir a jogar fora de casa. Mas talvez ninguém esteja a apostar no presente. Os mesmos dados da Aliança Evangélica mostram 88% das igrejas inquiridas a crescer desde 2003, 73% com mais gente nos cultos do que há cinco anos e 70% com planos de abrir nova congregação até 2030, sobretudo na Grande Lisboa, em Aveiro e no Porto. Mais de metade dos novos convertidos, sublinhe-se, já não são brasileiros: nasceram em Portugal. Se a curva se mantiver, os 2% de hoje não serão os 2% de 2040. Montar agora esta rede de pastores, influenciadoras, salas cheias e vocabulário partilhado com o Chega pode ser menos uma campanha do que uma antecipação: abrir a estrada antes de haver tráfego suficiente para a justificar. Também não é acidental que a peça central seja uma mulher. E aqui talvez valha a pena recuar de novo ao Brasil, não à igreja, mas à campanha de 2022. Michelle Bolsonaro, até então uma figura discreta ao lado do marido, tornou-se nesse ano a face pública de um esforço deliberado para recuperar um eleitorado feminino que a imagem de Jair Bolsonaro afugentava. A politóloga Graziella Testa explicou-o sem rodeios: Michelle não competia com o marido, complementava-o. Onde ele era, aos olhos de muitas eleitoras, agressivo e católico de exibição, ela era evangélica praticante, de discurso suave, e prometia levar «a presença do Senhor Jesus» ao governo. A lição atravessou o Atlântico: o líder duro precisa de um rosto que fale a linguagem do cuidado, e essa linguagem, no imaginário conservador contemporâneo, fala-se melhor em registo religioso do que em registo político. Com Rita Matias, o Chega parece ensaiar a mesma distribuição de papéis: a deputada do partido que, num evento assim, assume o lugar de anfitriã e não de convidada. A comparação com Michelle Bolsonaro talvez não resista a um exame demorado. Michelle falava a um Brasil onde ser evangélica já era, por si, pertencer a uma comunidade organizada de dezenas de milhões de pessoas; Rita Matias fala a um Portugal onde essa comunidade ainda cabe num bairro médio de Lisboa. Mas o gesto é reconhecível, e talvez seja isso, mais do que a demografia, o que interessa observar: partidos que constroem uma ala dura à volta de um homem descobrem, quase sempre, que precisam também de construir uma ala afetiva em torno de uma mulher. Não para dividir o poder, mas para entregar a outra pessoa o cuidado que a liderança não quer oferecer. Nada disto seria motivo de comentário assinalável, aliás, se acontecesse num país sem memória recente de outra coisa. Portugal tem-na. Há uma geração inteira que ainda se lembra, ou herdou de perto a memória, de um Estado em que a Concordata de 1940 fazia da Igreja Católica um pilar de legitimação do regime, em que «Deus, Pátria e Família» não era um slogan de campanha mas moldura ideológica de facto. A Constituição de 1976 ergueu, com cuidado deliberado, um muro entre os partidos e as igrejas, o mesmo muro que os organizadores do movimento de Sintra invocam para jurar que não o querem derrubar, ao mesmo tempo que colocam várias deputadas do mesmo partido a organizar, no mesmo palco, um evento com uma igreja específica ao fundo. É essa a memória, mais do que os 186 mil evangélicos dos Censos, que explica por que motivo um acontecimento demograficamente irrelevante gerou, em poucas semanas, mais páginas de comentário do que qualquer congresso de partido produziria pela sua substância. Lisboa não reage aos números; reage ao eco. Voltemos à baía de Todos os Santos. Os jesuítas que ali desembarcaram em 1549 tinham a seu favor aquilo que falta a qualquer missão inversa hoje possível: um continente que a Coroa considerava vazio de instituições próprias, moldável à medida da fé que se lhe quisesse impor. O Portugal de 2026 não é essa margem. Tem uma Constituição, tem uma memória do que custou escrevê-la, e tem, sobretudo, um número. Dois por cento não é uma nação a converter; é uma fração a organizar. A pergunta em aberto, que nenhum discurso em Sintra resolveu, é se uma política pensada para milhões de fiéis consegue, à força de paciência, púlpito e fotografia, produzir efeito num país onde continuará, por muitos anos, a falar a uma minoria, ou se aquilo a que se assiste é sobretudo uma tentativa de fingir um tamanho que ainda não existe, na esperança de que o gesto, repetido vezes suficientes, acabe por fabricar a realidade que hoje apenas ensaia. O Atlântico, desta vez, não está a inverter uma fé. Está a testar se uma importação brasileira sobrevive à aritmética portuguesa. #MichelleBolsonaro #Chega #Sintra #Bolsonarismo #Evangélicos #PortugalBrasil #AtlanticLisbon
- O fármaco que venceu o puzzle do pâncreas
Em 2021, o MD Anderson descrevia o cancro do pâncreas como um puzzle a resolver mutação a mutação. Cinco anos depois, o fármaco que quase duplicou a sobrevivência dos doentes nasceu precisamente da decisão de deixar de escolher a peça. A 13 de abril de 2026, o New England Journal of Medicine publicou os resultados do ensaio de fase III RASolute 302: doentes com cancro do pâncreas metastático, já tratados com pelo menos uma linha de quimioterapia, viveram uma mediana de 13,2 meses com daraxonrasib, contra 6,7 meses com quimioterapia convencional. O risco de morte caiu 60%. O investigador principal chamou-lhe um avanço "claro e altamente significativo". Não é uma linguagem que a oncologia use com facilidade para uma doença que, noutras frases do mesmo campo, continua a ser descrita como das mais letais que existem. O resultado é animador. O incómodo está no tipo de avanço que ele não confirma. O daraxonrasib não foi desenhado para a mutação do doente. Funciona porque não escolhe uma só mutação. Um puzzle com peças em falta Uma peça deixou de ser procurada isoladamente: o avanço do daraxonrasib está em bloquear a família RAS como um conjunto. Em 2021, questionado sobre o futuro da investigação sobre KRAS, um oncologista do MD Anderson descrevia o problema em termos que qualquer leitor reconheceria: a proteína tinha de ser "dividida em subconjuntos", como G12C, G12D ou G12R, e cada subconjunto tratado com o seu próprio composto. "É como um puzzle", dizia. "Podemos dividir todas estas mutações em cancros individuais, que são visados com agentes diferentes." A frase descrevia com rigor o estado da arte da altura: a oncologia de precisão prometia isso mesmo, uma chave para cada fechadura. As chaves começaram a ser fabricadas. O problema é que nenhuma chegou para abrir a porta por si. O sotorasib, o primeiro inibidor a atingir uma mutação de KRAS até então considerada indomável, mostrou em doentes com cancro do pâncreas G12C uma taxa de resposta de 21%, uma sobrevivência livre de progressão de quatro meses e uma sobrevivência global de 6,9 meses. A MD Anderson, que conduziu o ensaio, descreveu-os como dados "animadores". Eram-no, num sentido estrito: a doença respondia a um medicamento dirigido a uma mutação até há pouco tempo tida por impossível de bloquear. Mas G12C é a mais rara das mutações de KRAS no pâncreas: a peça do puzzle que menos doentes possuem. Para a mutação mais comum, G12D, o MD Anderson lançou os iExosomas: nanopartículas carregadas com siRNA desenhado para silenciar especificamente essa variante, financiadas pelo Pancreatic Cancer Moon Shot da própria instituição. Os resultados da fase I, publicados em 2025, confirmaram segurança total, sem toxicidade limitante da dose mesmo na dose mais elevada, e uma resposta imunitária real: mais células T CD8+ dentro do tumor, supressão da via de sinalização de KRAS, queda do ADN tumoral circulante em vários doentes. E, ainda assim, treze doentes tratados, a maioria com doença estável durante alguns ciclos, e depois "todos menos um" a progredir com novas lesões. A tecnologia funcionava. A doença, no fim, também. Duas razões para o puzzle não fechar O padrão repete-se por razões que já não são apenas técnicas. Começa pela aritmética. Um inibidor desenhado para G12C só serve doentes com G12C, uma fração de uma fração dentro de uma doença em que a mutação mais frequente, G12D, aparece em cerca de 35% dos casos, e as restantes se dividem por G12V, G12R e variantes mais raras. Construir um medicamento por mutação significa aceitar, à partida, que a maioria dos doentes de hoje não vai beneficiar do medicamento de hoje. Vai ter de esperar pela próxima peça, se ela chegar a ser fabricada. Depois vem a biologia, mais difícil de contornar: a resistência. Quando um fármaco bloqueia uma única variante de KRAS, o tumor tem outras vias por onde reativar a mesma sinalização: outros membros da família RAS, outras mutações compensatórias. Bloquear a fechadura não impede a casa de ter outra porta. Os inibidores pan-RAS, como o daraxonrasib, respondem às duas razões ao mesmo tempo, precisamente por recusarem a lógica da correspondência exata. Bloqueiam KRAS, HRAS e NRAS em conjunto, sejam quais forem as mutações presentes, e o ensaio RASolute 302 incluiu doentes com G12D, G12V, G12R e até tumores sem mutação de RAS identificada. Em vez de procurar a peça certa, tentam impedir que o tabuleiro continue a jogar contra o doente. A mesma voz, cinco anos depois Os comunicados de imprensa não se detêm neste ponto, mas ele é parte da história: o oncologista do MD Anderson que, em 2021, descrevia o KRAS como um puzzle a resolver peça a peça é, em 2026, uma das vozes mais citadas a propósito do daraxonrasib, o fármaco que, no essencial, abandonou essa metáfora. A mesma pessoa que ajudou a construir a linguagem da precisão assinou também, sem contradição aparente, o momento em que essa linguagem deixou de ser a que explicava o avanço real. O trabalho anterior não perde valor por causa disso. O sotorasib e os iExosomas não foram becos sem saída: foram a prova de que KRAS podia, de facto, deixar de ser "indomável", uma palavra que a própria oncologia usava sem ironia há uma década. Mas a história que a investigação contava sobre si própria, subconjunto a subconjunto, chave a chave, não foi a história que produziu o resultado que agora se cita como "sem precedentes". Foi preciso deixar de escolher a peça para fechar o puzzle. Entre o resultado publicado no New England Journal of Medicine e o medicamento disponível numa farmácia hospitalar há ainda uma distância, esperemos que muito curta mas real, que os comunicados de imprensa tendem a apagar. Essa distância deve ficar visível: é a diferença entre um resultado publicado e um tratamento que ainda não chegou ao doente. #AtlanticLisbon #CancroDoPâncreas #KRAS #Daraxonrasib #Oncologia #MedicinaPersonalizada
- Regulares em Tudo, Exceto no Sexo
Em 2018, a Grande Loja Unida de Inglaterra publicou uma orientação sobre os maçons transgénero que merece ser lida devagar. Um irmão que, depois de iniciado, deixa de ser homem, escreveu a Grande Loja, não deixa de ser maçon. A instituição que recusa iniciar mulheres aceita manter nas suas fileiras alguém que já não é homem, desde que o tenha sido quando entrou. A orientação fixa a condição exigida no momento da admissão; o que acontece depois não desfaz a iniciação. A pergunta habitual: porque é que a maçonaria regular exclui as mulheres? A admissão de mulheres continua a separar as principais tradições maçónicas, embora a história mostre que essa fronteira não foi sempre entendida da mesma maneira. Já vem enviesada pela resposta que espera receber: uma essência, um carácter, uma incapacidade atribuída ao género. É precisamente essa acusação que a própria tradição maçónica sempre recusou. Um dos poucos pontos em que as fontes internas insistem, desde o século XVIII, é este: a mulher não é excluída «por a considerarmos indigna ou infiel», mas por uma questão de herança de ofício. Um ofício, não um carácter A proibição explícita aparece pela primeira vez em 1723, nas Constituições de James Anderson: os admitidos numa loja devem ser «homens bons e verdadeiros [...] nenhum servo, nenhuma mulher». A justificação que a tradição especulativa oferece não é moral; é laboral. A maçonaria operativa, a dos canteiros medievais, só aceitava «homens sãos e robustos, na posse de todos os seus membros», capazes do esforço físico do ofício da pedra. A maçonaria especulativa, ao herdar o ritual do ofício, herdou também o requisito de admissão. A mesma Europa produziu, porém, a partir desse ofício, outras tradições. A tradição que ficou de fora da história da tradição Enquanto Londres codificava a exclusão, a França construía, com a mesma lentidão institucional que qualquer costume antigo exige, uma prática paralela. As "loges d’adoption" nasceram nos anos 1740 para acolher esposas e parentes de maçons em graus próprios; em 1774, o Grande Oriente de França já reconhecia quatro desses graus. A prática sobreviveu à Revolução e, em 1805, teve como presidente a própria Imperatriz Josefina: antes de o Grande Oriente a marginalizar, em 1808, por a considerar incompatível com a sua constituição. Quando o século XIX começou a fixar por escrito aquilo a que hoje se chama «os landmarks antigos da maçonaria», já havia meio século de prática ritual feminina reconhecida por uma das mais antigas obediências europeias. Um marco sem mapa A própria doutrina dos landmarks não é tão antiga quanto o nome sugere. O termo vem de uma imagem bíblica: não remover o marco antigo que os pais colocaram, mas nenhuma obediência produziu alguma vez uma lista fechada e universalmente aceite daquilo que esses marcos protegem. A enumeração é a de Albert Mackey, publicada em 1858: vinte e cinco pontos, entre os quais a exigência de que o candidato seja homem. Meio século depois, Roscoe Pound reduziu essa lista a sete. Entre esses sete estava ainda a exigência de que o maçon fosse homem, livre e maior de idade. Em meados do século XX, a Comissão de Informação para o Reconhecimento da Conferência de Grão-Mestres da América do Norte usou três critérios para avaliar o reconhecimento de uma grande loja: a crença em Deus, a presença de um Livro da Lei Sagrada e a proibição de discutir religião e política dentro da loja. A exigência masculina não figurava entre eles. Continuava, no entanto, entre os sete landmarks de Pound. A comissão estabelecia uma norma de reconhecimento entre obediências; não substituía as listas anteriores. A condição masculina aparece, assim, em algumas formulações e não noutras. As listas de landmarks e os critérios de reconhecimento coexistem sem formar uma doutrina única. Cada obediência decide quais dessas formulações conserva. A porta que ninguém pediu para abrir A resposta das mulheres a esse hábito também não é recente, nem foi pedida como favor. Maria Deraismes, iniciada em 1882 numa loja ligada ao Grande Oriente de França e alvo de escândalo por isso, passou a década seguinte a trabalhar com Georges Martin para construir algo que não dependesse da tolerância de ninguém. A 4 de abril de 1893, dezasseis mulheres, já elevadas aos três graus simbólicos, fundaram em Paris a Grande Loja Simbólica Escocesa de França, Le Droit Humain, a primeira obediência mista, autónoma e autogovernada da história maçónica moderna. Conta hoje cerca de trinta e quatro mil membros em mais de setenta países. Em Inglaterra, o mesmo impulso deu origem, por caminhos próprios, à Honourable Fraternity of Ancient Freemasons e à Order of Women Freemasons, ambas nascidas nas primeiras décadas do século XX. Em França, o que restava das antigas loges d’adoption reagrupou-se, entre 1936 e 1952, na Grande Loja Feminina de França. Estas obediências organizaram-se fora da Grande Loja Unida de Inglaterra e sem depender do seu reconhecimento. Um «quase» com um século de idade Em 1999, a Grande Loja Unida de Inglaterra declarou que a Order of Women Freemasons e a Honourable Fraternity eram regulares na prática, tanto quanto lhe era possível verificar, exceto no que respeitava à admissão de mulheres. Admitiu também que podiam ser consideradas parte da maçonaria quando se falasse da instituição em geral. Não as reconheceu formalmente e manteve a proibição de visita. Segundo a sua própria declaração, a diferença relevante estava nos membros admitidos, não nas práticas das lojas. Em 2024, as três organizações declararam que seguem as mesmas regras e regulamentos, colaboram entre si e partilham as instalações. A Order of Women Freemasons e a Honourable Fraternity disseram não pretender abandonar a sua composição exclusivamente feminina e apoiar que a Grande Loja Unida de Inglaterra continue exclusivamente masculina. A declaração não estabeleceu o reconhecimento nem a visitação entre as lojas. A UGLE conserva, dentro do sistema de regularidade que representa, o poder de decidir que obediências reconhece para as suas relações internacionais. Um maçon admitido como homem mantém a qualidade maçónica depois de deixar de o ser. Uma mulher que se apresente como mulher continua impedida de entrar. A primeira situação não exige que a regra de admissão seja alterada; a segunda exige. Uma soleira em Lisboa A Grande Loja Feminina de Portugal tornou-se independente a 29 de março de 1997. As primeiras quatro mulheres portuguesas da futura obediência tinham sido iniciadas em França em 1982. A primeira loja portuguesa, Unidade e Mátria, instalou-se em Lisboa no ano seguinte. Quando chegou o momento da independência, havia já quatro lojas. A cerimónia de fundação teve lugar no Palácio Maçónico do Grande Oriente Lusitano e foi presidida por Veneráveis Mestres francesas. O Grande Oriente apoiava a maçonaria feminina, mas não admitia mulheres nas suas próprias lojas. O Grande Oriente Lusitano a votar, por dois terços, aquilo que dizia ser um landmark há 223 anos A 31 de maio de 2025, a Grande Dieta do Grande Oriente Lusitano aprovou, por maioria superior a dois terços, a admissão de mulheres. A decisão passou a permitir as lojas masculinas, femininas e mistas dentro da obediência.
- Oscar de la Renta, ou a beleza como forma de presença
Flores, cor, tule, saias amplas, mangas leves. A moda de Oscar de la Renta nunca teve vergonha do prazer. Também por isso parece, à primeira vista, fácil de compreender. A armadilha está aí: chamar-lhe apenas beleza, como se o trabalho acabasse na superfície. O que vinha depois era mais interessante. A roupa dava a certas mulheres uma maneira de entrar no mundo sem se encolherem perante o olhar dos outros. Primeiras-damas, atrizes, anfitriãs, noivas, mulheres de sociedade: todas expostas de modos diferentes, todas obrigadas a negociar a mesma coisa elementar, ser vistas sem ficarem menores por serem vistas. A elegância, em Oscar de la Renta, não terminava no vestido: começava quando alguém o levava para a vida. Há uma suspeita moderna sobre a beleza. Para ser levada a sério, parece muitas vezes obrigada a tornar-se austera, defensiva, quase invisível. De la Renta vinha de outra convicção. A beleza não precisava de se desculpar. Podia agradar, podia ter cor, podia ser decorativa. O limite era outro: não ser oca. Em mãos fracas, o decorativo serve para cobrir a ausência de pensamento. Em de la Renta, servia para dar forma social a uma pessoa. O vestido não devia vencer a mulher. Devia deixá-la chegar inteira. A elegância como hospitalidade Há criadores que impõem uma visão ao corpo. De la Renta parecia preferir outra operação: criar um lugar onde o corpo pudesse habitar sem hostilidade. Talvez seja por isso que tantas das suas roupas continuam a parecer menos datadas do que a época que as produziu. Não dependiam apenas do choque, da rutura ou do manifesto. Dependiam de proporção, movimento, cor e entendimento da ocasião. Um vestido de de la Renta quase nunca se entende fora da ocasião para que foi imaginado. A moda não acontece inteiramente no ateliê nem na passerelle. Acontece quando a peça entra na vida: no jantar, na posse, na gala, no casamento, no retrato oficial, na fotografia que será vista por milhões. A roupa não termina quando é acabada. Termina quando alguém a veste. A sua distinção entre passerelle e moda diz muito sobre isto. A passerelle podia ser espetáculo; a moda só começava quando uma mulher vestia a peça. A diferença parece simples. Separava, porém, a roupa enquanto objeto da roupa enquanto relação. De la Renta trabalhou sobretudo nesse segundo mundo. O contrário da nostalgia De la Renta podia ter ficado preso à imagem de um mundo antigo: jantares, salões, primeiras-damas, editoras temidas, mulheres treinadas para ocupar uma sala. Seria uma leitura cómoda. E insuficiente. Durante uma parte importante do século XX, a elegância pública passava por círculos relativamente fechados: a alta sociedade, a política institucional, as revistas, os comités, as galas, as grandes casas. De la Renta conhecia esse idioma por dentro. Vestiu primeiras-damas e mulheres da elite norte-americana com uma naturalidade que vinha menos da submissão ao poder do que da compreensão dos seus rituais. Esse mundo não acabou de um dia para o outro. Perdeu, porém, o monopólio da visibilidade. A passadeira vermelha começou a fazer, para uma audiência global, aquilo que os salões faziam para círculos restritos. A atriz fotografada nos Óscares passou a concentrar estatuto, desejo, consumo e comentário público. Mais tarde, as imagens deixaram de depender apenas das revistas e passaram a circular em velocidade própria. De la Renta não tratou essa mudança como decadência. Leu-a. Adaptou-se. Continuou reconhecível sem se tornar peça de museu. A continuidade estava menos nos lugares do que no problema que ele voltava a resolver: que roupa permite a uma mulher aparecer ali sem ser engolida pelo cenário? Essa pergunta não pertence apenas às primeiras-damas nem às atrizes. Também explica o poder discreto de um vestido de noiva. O vestido em público O “vestido bonito” foi uma das suas fórmulas mais conhecidas. A frase pode parecer uma forma de modéstia, talvez até de ligeireza. Mas, aplicada à sua obra, tem uma consequência mais séria. Um vestido bonito nunca é apenas bonito quando surge no lugar certo, sobre a pessoa certa, no momento certo. Um vestido pode fazer trabalho público. Suaviza uma imagem, impõe distância, protege quem está demasiado exposto. Às vezes, dá cerimónia a um corpo que já não tem descanso do olhar. Foi por isso que de la Renta serviu tão bem primeiras-damas e atrizes. Umas representavam instituições; outras representavam desejo e imaginação coletiva. Em ambos os casos, a roupa precisava de fazer uma coisa delicada: chamar a atenção sem parecer que implorava por ela. O seu trabalho não era minimalista, mas sabia conter-se. Não era tímido, mas raramente parecia desesperado. Não negava o ornamento, mas obrigava-o a servir uma presença. Os vestidos podiam ser exuberantes; não pareciam querer vencer a mulher que os usava. Uma vida treinada para entrar em salas Oscar Arístides de la Renta nasceu em Santo Domingo, em 1932, e saiu jovem para Madrid para estudar arte. O pai preferia outro destino. Ele escolheu outro mundo. Os perfis e entrevistas que fixaram a sua juventude espanhola insistem num ponto revelador: antes de dominar completamente o ofício, de la Renta já compreendia a encenação da presença. Madrid deu-lhe cafés, flamenco, noite, roupa feita por medida, uma educação do olhar. Não foi apenas formação artística. Foi aprendizagem social. Mais tarde, passaria por Balenciaga, Lanvin, Elizabeth Arden e pela Seventh Avenue. Há histórias repetidas sobre essa ascensão, algumas contadas pelo próprio, que mostram não apenas ambição, mas uma espécie de audácia prática. De la Renta parecia saber entrar primeiro e justificar depois a entrada. A coragem não estava em fingir que já sabia tudo. Estava em aprender depressa o suficiente para não desperdiçar a porta aberta. Havia talento, claro. Mas havia também velocidade, encanto, disciplina, sentido de oportunidade e uma compreensão quase física dos códigos sociais. Ele sabia o que uma sala esperava antes de a sala o dizer. O luxo sem crueldade Há uma forma de luxo que humilha. Faz sentir que a beleza pertence a quem pode pagar por ela e que todos os outros devem apenas observá-la de fora. De la Renta movia-se entre elites, dinheiro e poder, mas a sua moda raramente parecia cruel. Era luxuosa, sim, mas não cínica. Refinada, mas não gelada. Social, mas não morta. Talvez por isso a ideia de hospitalidade volte sempre que se pensa nele. Nas casas da República Dominicana, descritas em perfis da época, surgem convidados, família, cães, música, conversas, jogos de dominó, varandas e uma noção de prazer partilhado. Esses elementos biográficos interessam menos como cenário de privilégio do que como extensão de uma sensibilidade. A roupa de de la Renta também tinha portas abertas. Não obrigava uma mulher a parecer severa para ser levada a sério. Não lhe retirava cor em troca de autoridade. O encanto, para ele, não era uma deficiência. Isto pode ser visto como conservador. Em parte, era. Mas havia ali outra coisa: fidelidade a uma experiência humana elementar. Há alegria em vestir-se para uma ocasião. Há dignidade em querer aparecer bem. Há inteligência numa beleza que não se transforma em agressão. O que fica de um vestido A memória de um criador de moda é instável. Os vestidos envelhecem, os corpos mudam, as fotografias perdem contexto, os nomes que pareciam eternos tornam-se notas de rodapé. A pergunta, então, é o que resta quando a ocasião passou. No caso de Oscar de la Renta, resta uma lição sobre a relação entre beleza e vida pública. Ele mostrou que a elegância não é apenas bom gosto, nem apenas dinheiro, nem apenas técnica. É uma forma de mediação entre uma pessoa e o olhar dos outros. Essa mediação pode ser frívola, manipuladora ou vazia. Mas também pode fazer uma coisa mais rara: ajudar alguém a ocupar o seu lugar com mais nitidez. Transformar a exposição em presença. Fazer da roupa não uma máscara, mas uma companhia. Talvez seja por isso que o seu nome continue a convocar mais do que uma marca. O que fica é mais concreto: uma mulher à entrada de uma sala, o tecido a mover-se, o olhar dos outros já preparado. De la Renta sabia trabalhar esse segundo antes da aparição. Oscar de la Renta chamou-lhe, com aparente simplicidade, um vestido bonito. A memória permite hoje dizer mais. O vestido era bonito, sim. Mas o seu valor estava noutro ponto: não ficava no cabide, nem na fotografia oficial, nem no nome da etiqueta. Só começava verdadeiramente quando alguém o levava para a vida. #OscarDeLaRenta #AtlanticLisbon #Moda #Elegancia #AltaCostura #Memoria #Beleza #Estilo #DesignDeModa #Cultura
- Portugal Vigia Agressores. Não Sabe Quantos Reincidem
O Estado reconhece que uma mulher está em perigo. Identifica o agressor, impõe-lhe uma medida protetiva e declara, por decisão judicial, que ele não pode aproximar-se dela. Se essa mulher for assassinada pelo mesmo homem, já não é possível dizer que o perigo passou despercebido: a medida continuava em vigor quando ela foi morta. No Brasil, aconteceu pelo menos 148 vezes em 2025. Entre 1.127 feminicídios analisados em dezasseis estados, 13,1% das vítimas tinham uma medida protetiva de urgência em vigor no momento em que foram mortas. No Acre, encontrava-se nessa situação uma em cada quatro mulheres assassinadas; no Mato Grosso e em São Paulo, mais de uma em cada cinco. Não se trata de uma taxa de insucesso da Lei Maria da Penha. Seria necessário conhecer o universo das mulheres abrangidas por medidas protetivas e o que lhes aconteceu para calcular a eficácia dessas medidas. Os 13,1% referem-se às vítimas de feminicídio analisadas e incluem 148 mulheres que o Estado sabia que estavam em perigo. Portugal não conhece o número equivalente. O país aumentou de 513 para 1.655, em dez anos, o número de pulseiras eletrónicas associadas a processos de violência doméstica. Conhece o crescimento até à casa decimal: 222,61%. Sabe que estes casos representam 60% de toda a vigilância eletrónica existente. Mas não sabe quantos dos agressores monitorizados reincidiram. A ministra da Justiça admitiu-o em 2026 e prometeu um estudo. Portugal utilizava 1.655 pulseiras eletrónicas em processos de violência doméstica no final de 2025, mas ainda não conhecia a taxa de reincidência dos agressores monitorizados. Os dados disponíveis produzem, desde logo, um desequilíbrio. No Brasil, permitem localizar as mortes ocorridas quando a proteção já estava em vigor. Em Portugal, descrevem sobretudo a quantidade de aparelhos utilizados. A eficácia ainda não foi avaliada quanto à reincidência. Os dois países não produzem o mesmo tipo de resposta. Para perceber o que essa diferença esconde, é preciso começar pelas leis e pelo modo como cada uma passou da decisão para a proteção. A lei que nasceu de uma mulher que sobreviveu Em 1983, Maria da Penha Maia Fernandes dormia quando o marido lhe deu um tiro nas costas. Sobreviveu, mas ficou paraplégica. Semanas depois, ele tentou eletrocutá-la durante o banho. Passaram dezanove anos até que fosse preso. Em 1998, apoiada por organizações de direitos humanos, Maria da Penha apresentou queixa contra o Estado brasileiro à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A Comissão concluiu que o Brasil fora «omisso, negligente e tolerante» perante a violência exercida contra as mulheres. A lei que recebeu o seu nome, promulgada a 7 de agosto de 2006, surgiu depois de uma mulher sobreviver ao marido, esperar quase duas décadas por justiça e levar a omissão do Estado a uma instância internacional. A Lei Maria da Penha fez mais do que agravar ou reorganizar crimes. Criou juizados especializados, delegacias da mulher, redes de apoio psicológico e jurídico e medidas protetivas de urgência que permitem afastar o agressor de casa. Em 2010, era citada pela ONU como uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência contra as mulheres. Entre os feminicídios analisados em 2025 estão, contudo, aqueles 148 casos. Não demonstram que a lei seja inútil nem que as medidas protetivas falhem em 13,1% das situações. Mostram o que aconteceu a uma parte das mulheres assassinadas depois de o perigo já ter sido reconhecido. A decisão do juiz não garante, sem execução e vigilância, que o agressor cumpra a distância imposta. O Brasil consegue identificar quantas dessas vítimas tinham proteção ativa, em que estados morreram e que proporção representam nos casos analisados. Portugal escolheu vigiar Portugal chegou ao problema por um caminho menos reconhecível. Não tem uma lei com o nome de uma vítima nem uma condenação internacional transformada em momento fundador. A violência doméstica tornou-se crime público pela Lei n.º 7/2000: o Ministério Público passou a poder avançar independentemente da vontade da vítima. Em 2007, a Lei n.º 59/2007 completou a autonomização do crime no artigo 152.º do Código Penal. Essa alteração ocorreu antes da promulgação da Lei Maria da Penha, embora sem a mesma projeção internacional. O agressor sujeito a vigilância transporta um dispositivo; a vítima pode receber outro. Se a distância imposta pelo tribunal for violada, o sistema emite um alerta. A aproximação pode ser detetada sem depender de uma nova denúncia da mulher. Havia 513 pulseiras ligadas à violência doméstica em 2016. No final de 2025, eram 1.655. Quase duas em cada três pulseiras eletrónicas utilizadas em Portugal estavam já associadas a este crime. O Brasil expôs 148 mortes ocorridas depois de a proteção ter sido decretada. Portugal expõe o crescimento das pulseiras, mas não o que aconteceu depois de terem sido ligadas. Um país enfrenta o número que encontrou; o outro continua protegido pelo número que ainda não procurou. A falha documentada pesa contra o Brasil. A falha que Portugal ainda não procurou medir não pesa, por enquanto, contra ninguém. É esse o privilégio: aquilo que não foi avaliado pode continuar a apresentar-se como se tivesse resultado. A conta que ficou por fazer Um estudo da Universidade Fernando Pessoa, relativo ao período entre 2016 e 2018, registou 3.286 feminicídios no Brasil e 70 em Portugal. A taxa brasileira foi de 1,04 por 100 mil mulheres; a portuguesa, de 0,43. A diferença é superior ao dobro. Os autores não a atribuem apenas às leis ou aos instrumentos de vigilância. Consideram também a desigualdade de género, o desemprego, o rendimento e o desenvolvimento humano. A violência letal é, em geral, muito superior no Brasil e não se circunscreve às mulheres nem às relações de intimidade. O estudo não permite isolar qualquer efeito da pulseira eletrónica portuguesa. Esse efeito exigiria acompanhar os agressores monitorizados, comparar comportamentos e saber o que acontece durante e depois da vigilância. Questionada em 2026, a ministra da Justiça admitiu que não conhecia a taxa de reincidência. Prometeu então um estudo. A instalação de uma pulseira demonstra que houve uma decisão judicial e que existem meios para executar a vigilância. O número de dispositivos mostra até onde o sistema foi alargado. Sem os dados sobre a reincidência, não permite saber quantos agressores voltaram a aproximar-se das vítimas nem comparar o seu comportamento com o dos agressores não monitorizados. O que os números ainda não mostram No Brasil, os 13,1% não abrangem todas as mulheres que receberam proteção. Partem dos feminicídios analisados em dezasseis estados e recuam até às medidas que estavam em vigor. Em Portugal, o percurso estatístico faz-se no outro sentido: começa nos dispositivos instalados, mas ainda não acompanha o que aconteceu depois. Para saber se as mulheres ficaram mais seguras, falta conhecer a reincidência dos agressores monitorizados e o que ocorreu durante e depois da vigilância. Foi para responder a essa questão que a ministra da Justiça anunciou o estudo. Uma pulseira instalada prova que o Estado agiu. Não prova que a mulher ficou protegida. Enquanto Portugal não souber o que aconteceu depois de cada dispositivo ter sido ligado, 1.655 dirá quantas vezes o sistema foi acionado — não quantas vezes a proteção chegou a tempo.
- Portugal prometeu reparar 1497. A sinagoga pagou a fatura.
Às nove da manhã de 11 de março de 2022, dois agentes da Polícia Judiciária entraram na sinagoga do Porto e pediram para ver os arquivos. Não procuravam armas, nem dinheiro, nem droga. Procuravam papel: dossiês de genealogia, cartas de rabinos, certificados assinados a atestar que um apelido, uma fotografia de família, uma reza guardada de geração em geração, provavam que alguém nascido em Telavive, em Istambul ou em São Paulo descendia de um judeu expulso de Portugal cinco séculos antes. Abriram gavetas de arquivo com etiquetas manuscritas, pastas de cartolina que ninguém tinha pensado precisarem alguma vez de resistir a uma busca policial. Levaram caixas. A comunidade, avisada com poucas horas de antecedência, viu sair do próprio edifício onde reza há décadas o registo em papel de uma ascendência que não é a sua, mas que passara a ter, por lei, o dever de confirmar. A operação tinha nome. Chamava-se Porta Aberta. Uma lei pensada como reparação histórica aos judeus sefarditas deu a um oligarca russo sob sanções uma nacionalidade europeia em seis meses — e foi a comunidade que a certificou quem a polícia acabou por investigar. Portugal prometeu reparar uma injustiça iniciada em 1497. Décadas depois, uma sinagoga ficou a suportar parte do custo dessa promessa. Do outro lado da porta que a polícia abriu nessa manhã estava uma comunidade de poucas centenas de pessoas, talvez menos, entre Lisboa e o Porto. Do lado de dentro dos arquivos que reviraram estavam os pedidos de mais de cento e quarenta mil. Em 2013, o Parlamento português alterou a Lei da Nacionalidade para permitir que descendentes de judeus sefarditas expulsos de Portugal pudessem pedir a cidadania portuguesa por naturalização. A medida foi regulamentada dois anos depois, em 2015. O mecanismo era simples, quase administrativo na sua elegância: bastava obter, junto de uma das duas comunidades judaicas reconhecidas — Lisboa ou Porto —, um certificado que atestasse a tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa. O documento tinha de identificar nome completo, data de nascimento, naturalidade, filiação e a linha de descendência, direta ou colateral, até um antepassado sefardita de origem portuguesa. Apelido, língua de família, costumes preservados. Não era exigida residência em Portugal. Não era exigido sequer que o requerente alguma vez tivesse cá posto os pés. D. Manuel I decretara a expulsão em 1496, cedendo à pressão dos Reis Católicos de Espanha, dos quais dependia um casamento dinástico que lhe interessava mais do que a permanência dos seus súbditos judeus. Quem não aceitasse o batismo católico tinha um ano para partir; muitos dos que ficaram foram batizados à força, em massa, no Rossio de Lisboa, em 1497, sem que a conversão lhes fosse sequer perguntada. Nasceu assim uma categoria jurídica nova, a de cristão-novo, que os passaria a distinguir dos cristãos-velhos durante séculos, mesmo depois de gerações inteiras terem esquecido o hebraico e mantido apenas fragmentos de prática, transmitidos de mãe para filha, quase sempre em segredo. Alguns partiram, quando puderam, para o Norte de África, para os Balcãs, para Salónica e Constantinopla sob domínio otomano, para Amesterdão quando as Províncias Unidas se tornaram, um século depois, o único lugar da Europa cristã onde podiam praticar em público. Outros ficaram, batizados por fora, judeus por dentro, durante gerações que hoje se contam já em dezenas — até a lei de 2015 chamar a isto reparação histórica, um Estado a devolver por decreto o que um outro decreto tinha retirado. Com esse decreto nasceu, quase de imediato, uma indústria. Escritórios de advogados em Lisboa e no Porto passaram a anunciar, em inglês, em turco, em hebraico, em espanhol, serviços de reconstituição genealógica para quem suspeitasse ter um apelido sefardita algures na árvore da família. Genealogistas profissionais, alguns deles sem qualquer ligação prévia a Portugal, cobravam por localizar um Pinto, um Cardoso, um Toledano, três ou quatro gerações atrás, e transformar essa descoberta num dossiê apresentável. Não havia nada de fraudulento nisto, na maior parte dos casos: era o mercado a organizar-se em torno de uma lei que, sozinha, não dava a ninguém as ferramentas para provar o que pedia que se provasse. Portugal já tinha, em paralelo, um Visto Gold que trocava investimento imobiliário por autorização de residência e fora acusado, ano após ano, em Bruxelas e na imprensa internacional, de vender acesso à União Europeia a quem tivesse capital sem perguntas incómodas. A via sefardita não exigia investimento nenhum. Exigia apenas uma história bem contada e um certificado assinado. Entre 2015 e 2021, deram entrada cerca de cento e quarenta mil pedidos. Foram concedidas cerca de cinquenta e sete mil nacionalidades. Só em 2021, os pedidos por esta via representaram setenta e dois por cento de todos os pedidos de naturalização em Portugal — não setenta e dois por cento dos pedidos judaicos, mas de todos os pedidos de nacionalidade portuguesa, de qualquer origem, chegados nesse ano a Portugal. Um mecanismo pensado para uma diáspora específica tinha-se tornado, sozinho, a principal porta de entrada na cidadania portuguesa. A comunidade que assinava os certificados não cresceu ao mesmo ritmo dos pedidos. Continuou a ser o que sempre foi: pequena, envelhecida, concentrada em duas sinagogas. A lei tinha-lhe atribuído uma função que nenhuma legislação anterior alguma vez lhe exigira — não rezar nem preservar um cemitério, mas certificar, com assinatura e carimbo, a autenticidade da ascendência de gente que nunca tinha conhecido, a partir de um apelido e de uma história contada pelo próprio requerente sobre si mesmo. Em 2021, o jornal Público revelou que Roman Abramovich, o oligarca russo dono do Chelsea Football Club, tinha obtido a nacionalidade portuguesa por esta via em cerca de seis meses. Não há nada de ilegal, à partida, num oligarca pedir papéis a uma comunidade religiosa. O problema não era Abramovich enquanto pessoa. O problema era a rapidez, e o que essa rapidez revelava sobre o que um certificado de duas linhas, assinado por uma comunidade sem meios para investigar cento e quarenta mil árvores genealógicas, podia na prática comprar: não apenas um passaporte português, mas a cidadania de um Estado-membro da União Europeia, com liberdade de circulação em vinte e sete países, obtida sem residência, sem exame de língua, sem entrevista. Um mês depois da invasão russa da Ucrânia, com Abramovich sob sanções da União Europeia e do Reino Unido e forçado a vender o Chelsea, a Procuradoria-Geral da República confirmou que investigava a atribuição. A onze de março, a Polícia Judiciária entrou na sinagoga do Porto à procura de provas de que certificados de ascendência sefardita podiam ter sido emitidos sem o rigor que a lei presumia. O rabino da comunidade, Daniel Litvak, ficou sob investigação. Uma semana depois, a dezoito de março de 2022, o Governo publicou um decreto-lei a apertar as regras: já não bastava o apelido ou a língua de família, era preciso demonstrar ligação efetiva e duradoura a Portugal, através de bens herdados por via sucessória ou de viagens regulares comprovadas. As novas regras entraram em vigor a um de setembro. A própria comunidade judaica do Porto viria a dizer, publicamente, que a lei tinha na prática terminado nesse dia de março, semanas depois de uma busca policial anunciada, segundo a comunidade, com base em denúncias anónimas. Entre a revelação do caso Abramovich e a entrada em vigor das novas regras, chegaram cento e vinte e quatro mil seiscentos e sessenta e três novos pedidos — mais do dobro do ano anterior. Gente à pressa, a tentar entrar antes de a porta se apertar, engordando ainda mais um arquivo que a comunidade já não conseguia, sozinha, verificar linha a linha. A Inquisição portuguesa, instalada em 1536, não perseguia judeus praticantes — esses já tinham sido expulsos ou convertidos à força em 1497. Perseguia cristãos-novos suspeitos de, em segredo, continuarem judeus. O mecanismo da perseguição era a prova: um vizinho que denunciava um lençol lavado à sexta-feira ao pôr do sol, uma testemunha que jurava ter visto uma luz acesa debaixo de um alguidar invertido numa noite de sexta, um tribunal do Santo Ofício que decidia, com base nesses fragmentos, quem era cristão genuíno e quem fingia. A comunidade de Belmonte, no interior da Beira, manteve rezas em segredo durante mais de quatro séculos sob esta vigilância constante, adaptadas de memória, sem rabino, sem texto hebraico, transmitidas por mulheres que ensinavam às filhas o que não podia ser dito em voz alta perto de vizinhos — até um engenheiro de minas chamado Samuel Schwarz descobrir por acaso em 1917, ao ouvir uma velha rezar em segredo, e lhe devolver, com espanto de parte a parte, um nome que ali já não se usava em público havia gerações. Já não era o Estado a decidir quem escondia judaísmo. Era a comunidade judaica, transformada por decreto em avaliadora de sinceridade alheia, a decidir quem merecia ser reconhecido como descendente de quem os seus próprios antepassados tinham sido forçados a esconder que eram. O decreto de 2022 tem uma palavra para descrever a comunidade nesta função: fiel depositária. Fiel depositário é quem guarda bens de outrem em confiança, sujeito a prestar contas ao Estado. Uma sinagoga com talvez duzentos praticantes regulares passou a ser, perante a lei portuguesa, depositária fiel da autenticidade genealógica de gente que jamais tinha rezado ao seu lado, nem falado a sua língua, nem conhecido o nome dos seus rabinos. Quando a fraude apareceu — e apareceu, com um nome grande e visível o suficiente para forçar uma investigação internacional —, não foi o requerente estrangeiro que a polícia foi procurar primeiro. Foi o arquivo da comunidade que assinou o papel. A generalidade dos cento e quarenta mil pedidos não tinha qualquer relação com oligarcas ou sanções. Muita gente pediu esta nacionalidade por razões que a lei previa exatamente para isso: descendentes de comunidades sefarditas da Turquia e de Marrocos, sem qualquer interesse que não fosse simbólico — fechar, com um documento, um círculo que a sua própria família tinha sido forçada a abrir há quinhentos anos. Para essas pessoas, a exigência de 2022 — bens herdados, viagens regulares comprovadas — era tão inatingível quanto seria para qualquer imigrante comum sem património em Portugal. A lei não distinguiu, nas suas novas regras, entre quem procurava um passaporte de conveniência e quem procurava fechar esse círculo histórico. Distinguiu, isso sim, entre quem tinha meios para demonstrar ligação material a um país que os seus antepassados foram forçados a abandonar sem levar nada, e quem não tinha. Houve quem tivesse dado entrada com o processo em 2019 ou 2020, ainda ao abrigo das regras antigas, e visse o seu dossiê ultrapassar as novas exigências sem ter feito nada de diferente — a lei mudou por baixo do pedido, não o pedido que deixou de ser válido. Esses processos ficaram numa espécie de limbo administrativo, nem recusados nem decididos, à espera de que alguém, num gabinete do Ministério da Justiça, resolvesse se as regras vigentes no dia da entrada do requerimento contavam mais do que as regras vigentes no dia da decisão. Em 2024, o Parlamento voltou a mexer na lei. Desta vez, a exigência foi mais direta: três anos de residência legal em Portugal, antes de qualquer pedido. Não bens herdados, não viagens ocasionais — presença continuada, comprovada, sujeita a fiscalização. Reparar uma expulsão exigindo, como condição prévia, aquilo que a própria expulsão tornou impossível durante quinhentos anos, tem uma lógica que se pode defender num gabinete de Lisboa e que é difícil de justificar a alguém cuja família fugiu precisamente porque não podia ficar. O regresso, tal como a lei o desenhou em 2024, já não é para quem foi expulso. É para quem, de qualquer forma, já estava disposto a vir viver cá, com meios e tempo para o fazer durante três anos antes de sequer poder pedir o papel que lhe confirmaria o que já era. Ficaram pendentes, segundo os últimos números públicos, cerca de duzentos mil processos por decidir. Dossiês com fotografias, árvores genealógicas, cartas de comunidades judaicas de três continentes, à espera de uma decisão sobre se a ligação que descrevem chega para o Estado português os reconhecer como seus. Alguns desses dossiês estarão nas mesmas gavetas que a polícia abriu em março de 2022. Outros terão sido devolvidos, entretanto, às famílias que os enviaram, sem resposta que os satisfizesse. A sinagoga do Porto continua aberta. Continua a reunir, aos sábados, o número reduzido de pessoas que sempre reuniu, para rezar num edifício cujos arquivos a polícia esvaziou de gavetas há mais de três anos e cujas prateleiras, presume-se, ainda guardam as que restaram por examinar. Ninguém precisa de certificado nenhum para lá entrar e rezar; o certificado nunca foi para quem já está dentro. É para os que ficam do lado de fora, à espera de uma resposta sobre uma cidadania que os antepassados perderam sem terem tido sequer tempo de pedir, na saída apressada de 1497, um papel que provasse quem eram. Em Belmonte, a comunidade descoberta por Schwarz também continua a existir, hoje ao ar livre, com sinagoga própria inaugurada já depois do reconhecimento público, sem precisar de certificado nenhum passado por Lisboa ou pelo Porto para saber quem sempre foi. Guardou a memória sem papel durante quatro séculos, transmitida de boca em boca, sem nunca ter sido reconhecida por decreto nenhum enquanto durou a perseguição, e sem que esse reconhecimento lhe tivesse alguma vez sido, de facto, necessário para continuar a existir. Há uma forma de pertença que sobrevive sem que nenhum Estado a certifique, guardada em gestos que ninguém denunciou a tempo de a apagar. E há outra, mais recente, que só existe enquanto um decreto a sustenta — e que, quando o decreto muda, ou quando alguém usa mal a porta que o decreto abriu, deixa quem a devia beneficiar exatamente onde sempre esteve: de fora, com um dossiê numa gaveta, à espera de que Portugal decida, outra vez, o que significa ser reconhecido como seu. #JudeusSefarditas #Portugal #RomanAbramovich #NacionalidadePortuguesa #AtlanticLisbon
- Pessoa, a IA e o problema de saber quem escreve
Segundo o relato que Fernando Pessoa faria em 1935, a 8 de março de 1914 aproximou-se de uma cómoda alta, no seu quarto em Lisboa. Levava dias a tentar inventar, para pregar uma partida ao amigo Mário de Sá-Carneiro, um poeta bucólico que pudesse apresentar como pessoa real. Não conseguira nada. Nesse dia, já desistira da ideia. Pegou numa folha de papel e começou a escrever de pé, como escrevia sempre que podia. Segundo contou, saíram trinta e tantos poemas seguidos, sem interrupção. Chamou-lhe, mais tarde, numa carta, o dia triunfal da sua vida — e disse que nunca poderia ter outro assim. Não escreveu como Fernando Pessoa. Escreveu como alguém a quem deu, ali mesmo, o nome de Alberto Caeiro. Pessoa, os heterónimos e a inteligência artificial: duas formas de enfrentar o problema de manter uma voz inteira. Pessoa insistiria, anos depois, que não sabia bem definir o que lhe tinha acontecido nessa tarde — hesitava entre chamar-lhe inspiração ou um sintoma e falava da sua própria tendência para a despersonalização quase como um médico descreveria um paciente, admitindo a hipótese de ser aquilo a que chamava histeria ou histero-neurastenia. Na carta, formulava a dúvida em termos quase clínicos: não sabia se o que lhe permitia escrever daquela forma era um dom ou uma avaria. A histeria, no vocabulário médico da sua época, era quase sempre diagnóstico de mulher — a própria palavra vem do grego para útero. Um homem a suspeitar de si mesmo dessa condição, para explicar de onde lhe vinham vozes inteiras com biografia e temperamento próprios, admitia, por escrito, que a explicação mais disponível para o que lhe acontecia pertencia a uma categoria clínica historicamente associada às mulheres, embora já então discutida também em homens. Feitos os poemas de Caeiro, Pessoa não parou. Pegou noutra folha e escreveu, também de um só fôlego, seis poemas assinados com o seu próprio nome — o regresso a si mesmo depois de ter sido, durante horas, outra pessoa por inteiro. Descobriu depois, mais devagar, um discípulo latente no "falso paganismo" do próprio Caeiro e deu-lhe o nome de Ricardo Reis. Em derivação oposta a essa, surgiu-lhe de repente um terceiro: sentado à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, saiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — um engenheiro naval formado em Glasgow, nascido em Tavira a uma hora que Pessoa dizia ter verificado depois num horóscopo, apaixonado pela velocidade das máquinas e pela violência do século que começava. Álvaro de Campos continha uma segunda camada de invenção. Anos depois da Ode Triunfal, Pessoa escreveu ainda um poema — o Opiário — que fingia ser obra de um Campos anterior, de antes de conhecer Caeiro e cair sob a sua influência, sem qualquer traço ainda do mestre que o viria moldar. Era preciso inventar a fase da vida desse homem em que ele ainda não era, de todo, quem viria a ser — um exercício que o próprio Pessoa descreveu como particularmente difícil, pelo duplo esforço de despersonalização que exigia. Um heterónimo tinha um antes. A leitura de Caeiro produz a impressão nítida de uma voz própria. É um poeta anti-metafísico que recusa interpretar o que vê e trata a simplicidade como a forma mais alta de pensamento — uma cosmovisão sustentada ao longo de dezenas de poemas, com uma biografia: nasceu em 1889, morreu tuberculoso em 1915, quase sem instrução. Um rio, para Caeiro, é só o rio; uma flor não simboliza nada além de si mesma; pensar sobre as coisas é já traí-las. A voz mantém uma consistência notável ao longo da obra que lhe foi atribuída. O que Caeiro aceitaria dizer e o que recusaria permanecem reconhecíveis — e é por isso que os outros heterónimos o chamam mestre. Quando Caeiro "morreu", em 1915, dentro da mitologia que Pessoa manteve durante vinte anos, os discípulos continuaram a escrever sobre o mestre desaparecido — Ricardo Reis em textos críticos e Álvaro de Campos nas Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, cada um no seu registo. Reconheciam-se e respondiam umas às outras; sabiam quem tinha morrido e quem continuava vivo. Nenhum "auditor" precisou de lembrar a Campos que Caeiro já não estava entre eles. Do outro lado do mundo, hoje, plataformas chinesas de ficção serializada para telemóvel — algumas delas propriedade de gigantes tecnológicos com milhares de milhões de dólares em receitas publicitárias e subscrições, que pagam aos autores conforme o número de leitores — enfrentam um problema que se parece, à superfície, com o de Pessoa. Autores usam ferramentas de inteligência artificial para gerar romances inteiros a partir de um esboço de enredo, com casos documentados de obtenção rápida de audiência e relatos de utilizadores que conseguiram ganhar dinheiro com histórias geradas por máquina. É um género de histórias — vinganças, artes marciais, amores impossíveis, saltos no tempo — que nasceu nos fóruns chineses dos anos noventa, feito para se ler aos pedaços, no ecrã de um telemóvel, muito antes de qualquer máquina escrever uma linha dele. Uma dessas plataformas lançou um "assistente do autor" para ajudar quem escreve a preencher lacunas de pesquisa histórica ou científica sem interromper o ritmo da escrita. Noutra frente, um programador independente construiu um sistema com agentes de inteligência artificial distintos: um estabelece a arquitetura do enredo, outro escreve os capítulos e um terceiro revê o texto à procura de erros lógicos e de maneirismos repetidos em excesso. Segundo o seu criador, mais de cinquenta mil utilizadores já o descarregaram. Em fóruns chineses, leitores partilham capturas de ecrã de instruções de inteligência artificial deixadas por engano a meio de um capítulo — o andaime da máquina, visível onde devia estar escondido. Outros dizem reconhecer a inteligência artificial por frases-tique que se repetem de romance para romance, do tipo "não é isto... é aquilo", como se fossem a assinatura de um único autor invisível, e não de milhares de contas diferentes. Uma plataforma impôs um limite diário de palavras a cada conta e, só num mês, recusou mais de cem mil submissões consideradas de fraca qualidade, incluindo obras assinaladas como geradas por máquina. Por vezes, a máquina esquece onde as suas próprias personagens estão dentro da história que acabou de inventar. Pessoa descreveu a irrupção inicial de Caeiro como um jorro quase contínuo, embora os manuscritos revelem correções e variantes. Caeiro raramente perde a lógica interna do "guardador de rebanhos" que constrói, enquanto a Ode Triunfal de Álvaro de Campos, escrita "sem interrupção nem emenda" à máquina de escrever, mantém a violência industrial que define os seus versos. Uma das vozes sabe, em todos os momentos, quem é e onde está; a outra, por vezes, não sabe. Bernardo Soares, autor a quem Pessoa atribuiu o Livro do Desassossego, não era, dizia o próprio, um heterónimo completo. Chamou-lhe um "semi-heterónimo": nas suas próprias palavras, alguém que, "não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela", ele mesmo "menos o raciocínio e a afetividade". Soares não tem uma biografia tão desenvolvida como Caeiro, nem um ofício exótico como Campos; é um guarda-livros de Lisboa, quase indistinguível de Pessoa na superfície e, por isso, mais difícil de separar do autor que o escreveu. Entre "ser inteiramente outro" e "ser inteiramente eu", Pessoa deixou um espaço intermédio. A pergunta sobre onde termina Pessoa e começa Soares nunca teve resposta fechada, nem o próprio a deu. Talvez a distinção entre voz coerente e voz incoerente não seja binária. Pode haver, também na escrita assistida por máquina, um espaço intermédio comparável ao de Soares, em que o autor humano fornece o suficiente da sua própria razão e emoção para que o resultado não seja nem plenamente seu nem plenamente alheio. Um autor que usa inteligência artificial apenas para expandir um esboço que já escreveu, corrigindo depois cada frase, ocupa esse espaço com mais legitimidade do que quem entrega o esboço a um sistema e publica o que sai sem tocar numa linha. O que os separa é quanto de si próprio cada um deixou por perto para responder pela personagem que a máquina, a meio do caminho, perdeu. Pode dizer-se que Pessoa "não teria conseguido" fazer o que fez sem ser Pessoa — que o génio literário garante, sozinho, a coerência que uma ferramenta comercial, por definição, não pode oferecer. Um sistema com um agente "arquiteto", um agente "escritor" e um agente "auditor", porém, é desenhado para impedir a incoerência que os leitores denunciam. Pessoa não teve auditor nenhum. Teve, segundo a sua própria descrição, uma consciência dividida o suficiente para sustentar vozes heteronímicas profundamente diferenciadas, sem depender de um mecanismo externo de auditoria para as manter coerentes. Num sistema composto por módulos separados — um a inventar a estrutura, outro a escrever a cena, um terceiro a auditar a lógica, o estilo e a continuidade —, o problema pode não ser a ausência de mecanismos de memória, que alguns destes sistemas já têm, mas a dificuldade de fazer convergir numa única voz todas essas camadas de controlo. O "auditor" de um desses sistemas, descreveu o seu criador, foi treinado sobretudo para apanhar erros lógicos e maneirismos de estilo repetidos em excesso — travessões a mais, seria o exemplo mais banal. Os mecanismos de continuidade das personagens ou de memória narrativa existem. As incoerências que os leitores detetam também. Fernando Pessoa nunca resolveu, para si próprio, se aquilo que lhe aconteceu na cómoda alta era um dom ou um sintoma. Descreveu-o como uma espécie de êxtase cuja natureza não saberia definir — e, mesmo sem essa definição, o poema saiu com uma pessoa inteira lá dentro, capaz de responder por si do primeiro ao último verso. Um século depois, do outro lado do mundo, alguém confia a uma máquina a escrita de um romance inteiro e também não sabe dizer, ao certo, quem o escreveu. Funcionou, ou não funcionou, consoante os leitores encontrassem ou não alguém coerente por trás das frases. A diferença entre os dois casos não está em nenhum dos dois ter uma resposta pronta para a pergunta sobre autoria. Está em qual dos dois, lido até ao fim, ainda parece ter alguém lá dentro a segurar a folha — de pé, como Pessoa dizia escrever sempre que podia, junto à cómoda alta que recordaria vinte anos depois ao contar o seu "dia triunfal".











