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  • Wiriyamu e Gaza: o mesmo vocabulário, décadas depois

    Uma bomba de 900 quilos, um relatório com uma dúzia de "no entanto", e uma aldeia moçambicana com o mesmo nome de código burocrático que Israel usa hoje em Gaza: separados por cinquenta anos e a mesma linguagem. Uma composição editorial que contrapõe Wiriyamu e Gaza através da linguagem burocrática da guerra. O ensaio analisa como conceitos técnicos, decisões jurídicas e vocabulários administrativos moldam a forma como Estados justificam e gerem a violência contra populações civis ao longo de diferentes épocas. Em memorandos internos trocados no governo dos Estados Unidos, entre 2023 e 2024, os números eram precisos: uma bomba de novecentos quilos mata qualquer pessoa num raio de trezentos e sessenta e cinco metros; uma de duzentos e vinte e sete quilos mata até vinte metros e fere até quarenta e seis. Advogados discutiam se deviam continuar a vender as duas bombas a Israel, ou só a maior, ou só a menor. Decidiram vender a menor. A maior ficou, durante uns meses, retida num porto. A mais pequena das duas — a que mata "só" até vinte metros — tinha sido, até então, a maior bomba que os próprios Estados Unidos alguma vez tinham deixado cair sobre uma cidade, em Mosul, contra o Estado Islâmico. Em momento nenhum, ao longo deste processo, foi necessário decidir se a guerra em Gaza devia continuar. Tiveram de decidir sobre uma bomba de novecentos quilos versus uma de duzentos e vinte e sete. É uma decisão tomada por pessoas com nomes e cargos, com consequências reais. Só que é uma decisão pequena o suficiente para caber dentro de uma reunião de trinta minutos, e precisa o suficiente para nunca obrigar ninguém a olhar para a guerra completa de uma vez. No próprio dia do massacre de 7 de outubro de 2023, o exército israelita reviu as suas regras de empenhamento: oficiais de nível intermédio passaram a poder autorizar ataques com um risco de até vinte mortos civis para eliminar um único combatente raso do Hamas. Antes, o limite era cinco, ou dez em certos casos. Vinte é o resultado de um cálculo, feito por pessoas com formação militar e jurídica, sobre quanto vale, em corpos, uma vida de baixa patente do lado contrário. Inspetores israelitas mantinham uma lista, em permanente atualização, de bens de "uso duplo" proibidos de entrar em Gaza: fertilizante, que podia transformar-se num explosivo; varas de tenda, que podiam virar lanças; por vezes cilindros de oxigénio, aparelhos de raio-X, e até kits de parto — por causa das pequenas tesouras lá dentro. Um único artigo proibido, encontrado num camião, chegava para mandar de volta o camião inteiro, por mais inofensivo que fosse o resto da carga. O direito internacional humanitário tem uma palavra para isto: proporcionalidade; pesar o dano civil esperado contra a vantagem militar concreta de um ataque. Quem decide o que conta como vantagem militar "concreta" é sempre alguém. Um prédio de três andares pode ser, em teoria, um posto de observação do Hamas. Um hospital pode ter, nalguma cave, um combatente escondido. Advogados do Departamento de Estado americano, encarregados de avaliar se as armas dos EUA tinham sido usadas em violações do direito da guerra, debateram-se durante meses com uma pergunta parecida: o que conta como prova suficiente? A política oficial proibia transferir as armas "com maior probabilidade do que não" de serem usadas em crimes de guerra: um padrão desenhado para ser mais fácil de cumprir do que "prova definitiva". Mas, sem o tribunal para pesar as provas, ninguém no Departamento de Estado tinha autoridade para declarar essa probabilidade ultrapassada. Um antigo funcionário resumiu-o assim, a alguém que lho contou mais tarde: a subtileza da linguagem: "não temos prova definitiva, mas estamos muito preocupados" — era entendida, pelos responsáveis mais graduados, como querendo dizer, na prática, "está tudo bem". O relatório que devia resolver esta ambiguidade, entregue ao Congresso a 11 de maio de 2024, acabou por ser uma peça de contorcionismo verbal: as palavras "no entanto", "ainda assim" e "apesar de" aparecem cerca de uma dúzia de vezes ao longo de poucas páginas, cada uma delas a admitir um facto incómodo e a seguir a esvaziá-lo. O relatório reconhecia ser "razoável concluir" que as armas americanas tinham sido usadas de forma incompatível com as leis da guerra. Concluía, ainda assim, que a política oficial não tinha sido violada, porque a incompatibilidade não passava do limiar de prova que ninguém tinha autoridade para declarar ultrapassado. Um crime de guerra tecnicamente plausível e processualmente incalculável: a fórmula perfeita para nunca ter de decidir nada. Portugal, durante a guerra em Moçambique, Angola e Guiné, tinha o seu próprio vocabulário técnico para o mesmo problema: "operações de pacificação", "reordenamento populacional", "aldeamentos" — as aldeias fortificadas para onde populações inteiras eram deslocadas, por vezes à força, com a justificação de as proteger da guerrilha e de cortar o apoio logístico ao inimigo. Era um vocabulário de gestão. Nele cabia perfeitamente, em dezembro de 1972, o que aconteceu em Wiriyamu: uma operação contra uma população que se suspeitava de apoiar a guerrilha da FRELIMO, que terminou com várias centenas de civis mortos, incluindo crianças, numa aldeia da província de Tete. A notícia só chegou ao mundo através de um missionário católico britânico, o padre Adrian Hastings, que recolheu os testemunhos de sobreviventes e os levou ao Times de Londres. O jornal publicou a investigação em julho de 1973 — dias antes de o primeiro-ministro português, Marcelo Caetano, viajar a Londres para celebrar os seiscentos anos da Aliança Luso-Britânica, a mais antiga aliança diplomática ainda em vigor no mundo. O embaraço foi considerável. O governo britânico não cancelou a visita, nem suspendeu a aliança, nem impôs sanções: manteve o programa protocolar, deixou correr as perguntas incómodas da imprensa, e seguiu em frente. Portugal negou tudo durante meses. A guerra colonial só terminou quando o regime que a sustentava foi derrubado em Lisboa, em abril de 1974: não por pressão externa, mas por um golpe militar interno cujos oficiais estavam, eles próprios, exaustos de gerir uma contabilidade de mortos que já não fazia sentido a ninguém. Meio século depois, em setembro de 2024, uma revisão formal do governo trabalhista britânico sobre a conduta de Israel concluiu que havia um "risco claro" de armas britânicas serem usadas em violações do direito internacional; o secretário dos Negócios Estrangeiros anunciou, com "pesar", a suspensão de licenças de exportação. Afetou cerca de trinta licenças. Israel dependia do Reino Unido para uma fração mínima do seu armamento; a decisão foi, por desenho, quase inteiramente simbólica. Uma suspensão de licenças de exportação não é um massacre de aldeia: sugerir equivalência moral entre as duas coisas seria obsceno. Mas a arquitetura de resposta repete-se, perante provas de sofrimento civil em grande escala infligido por um aliado próximo. Os próprios responsáveis americanos, anos mais tarde, descreveram a sensação de estarem presos dentro desta precisão sem conseguirem sair dela. Um antigo conselheiro de segurança nacional falou de noites em claro a pensar no que podia ter sido feito de outra forma; disse que a Casa Branca vivia um ciclo de "progresso e recuo, progresso e recuo, vezes sem conta", e que deviam ter encontrado forma de sair desse vaivém. Nunca a encontraram. Cada vez que uma decisão mais dura chegava perto de ser tomada: suspender de vez as bombas maiores, cortar os embarques por completo, havia sempre um argumento técnico, jurídico ou tático, perfeitamente legítimo em si mesmo, que a adiava mais um pouco: um cessar-fogo que parecia próximo, um risco para os reféns, uma consequência sobre a região que ninguém conseguia calcular com confiança suficiente para agir. Um antigo funcionário do Conselho de Segurança Nacional resumiu o essencial, sem lhe chamar isso: para o Hamas e para Israel, disse, "o dano civil não foi um efeito colateral. Foi parte da estratégia." A frase aplica-se, com um ligeiro deslocamento, também a Washington e a Londres: ali, o dano civil foi o resíduo previsível de um sistema construído para nunca decidir, em bloco, se uma guerra devia continuar: só, em pequenas doses técnicas, quanto dela ainda cabia dentro da lei. Sabe-se, com precisão de metro, até onde uma bomba de duzentos e vinte e sete quilos mata. Ninguém, em nenhum documento citado nesta história, soube dizer, com a mesma precisão, a partir de que ponto deixar de agir se tornou, também, uma forma de matar. Fontes e documentação Este ensaio resulta da leitura cruzada de documentação oficial, relatórios governamentais, investigação jornalística e bibliografia histórica. Entre as principais fontes consultadas encontram-se os documentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, do Governo do Reino Unido, investigações do The New Yorker, The New York Times, Reuters e The Times, bem como obras e estudos sobre a guerra colonial portuguesa e o massacre de Wiriyamu. #Wiriyamu #Gaza #DireitoInternacionalHumanitário #MemóriaColonial #CrimesDeGuerra

  • A Frase de um Tribunal que Levou 60 Mil Pessoas a Ceuta

    Uma decisão jurídica sobre o que conta como "barreira física" bastou para desencadear, em quarenta e oito horas, uma das maiores travessias de sempre para Ceuta. A história repete um padrão muito mais antigo do que esta fronteira. Uma Frase de um Tribunal Moveu Sessenta Mil Pessoas em Dois Dias Um jovem entra na água ainda de noite, primeiro os tornozelos, depois os joelhos, sabendo exatamente até onde consegue nadar e escolhendo não pensar nisso. A água do Estreito, mesmo em pleno verão, corta a pele com um frio que surpreende sempre, por mais vezes que se tenha ouvido falar dele. Segura um saco de plástico fechado com um nó, com roupa seca lá dentro e pouco mais. Não olha para trás, porque já discutiu este momento consigo mesmo tantas vezes que olhar para trás já não muda nada. uma multidão avança por uma estrada costeira, numa cena marcada pela escuridão, pelas luzes públicas e pelo movimento coletivo junto ao mar. Do outro lado, a poucos metros, está uma praia que parece igual a tantas outras, exceto por um pormenor que não se vê a olho nu: pertence a outro continente, tem outra polícia, outra moeda, outro idioma nos avisos afixados, e sobretudo outra pergunta a fazer a quem lá chega. A diferença entre nadar cem metros dentro de uma jurisdição e nadar os mesmos cem metros para fora dela não está na água. Está numa linha que ninguém consegue apontar debaixo de água, mas que decide, no minuto em que se atravessa, o resto do que pode acontecer a seguir. Fronteiras como esta são acordos, mapas, tratados assinados há décadas por gente que já não está viva para os explicar, não factos da natureza, e continuam ainda assim a decidir, com uma precisão absoluta, o que acontece a um corpo molhado que chega à outra margem. Isto aconteceu, à escala de dezenas de milhares de pessoas, entre quinta e sexta-feira desta semana, em Ceuta, um território sob soberania espanhola há séculos, encostado à costa marroquina, com uma população residente que ronda os oitenta mil habitantes. Entre 50 e 60 mil pessoas atravessaram para o território espanhol nesse curto espaço de tempo, segundo as autoridades locais e nacionais, um número equivalente a mais de metade da população residente da cidade, concentrado em pouco mais de vinte e quatro horas. Dezenas morreram na travessia; os números exatos variaram de fonte para fonte nos dias seguintes, como costuma acontecer nas primeiras horas de qualquer crise deste tipo. Menos de dois dias depois, a maioria, mais de 48 mil pessoas, já tinha regressado a Marrocos, por vontade própria ou por decisão das autoridades. Nas imagens que circularam nesses dias viam-se pessoas deitadas à sombra escassa dos poucos bancos de um parque, exaustas, e mais além, junto à vedação, pedras a voar entre grupos de jovens e as forças de segurança; gente sem comida havia quase dois dias, num território que não tinha meios preparados para alimentar ou alojar de repente tanta gente. Além da fome, faltava também onde dormir: o centro local de acolhimento temporário, um espaço pensado para lidar com fluxos normais e habitualmente bem avaliado, ficou imediatamente sobrelotado, muito acima da capacidade para que tinha sido desenhado. O responsável local pelo governo de Ceuta chamou à situação, sem rodeios, "insustentável". A explicação mais imediata é a de sempre, a que qualquer pessoa daria sem pensar muito: gente em fuga de pobreza ou de repressão tenta uma fronteira sempre que a vê ligeiramente mais aberta do que estava no dia anterior. Mas o que a tornou mais aberta, desta vez, foi uma frase de um tribunal, não uma decisão política visível, um anúncio ou uma cimeira. No início de julho, o Supremo Tribunal espanhol decidiu que quem entra em território espanhol sem contornar uma "barreira de contenção física", por exemplo nadando em vez de escalar uma vedação, não pode ser devolvido de imediato ao país de origem. O que muda, na prática, é que a expulsão sumária na hora dá lugar a um procedimento demorado de pedido de proteção, sem que isso signifique, de forma alguma, direito automático a ficar. Juristas que acompanharam o caso insistiram, nos dias seguintes, nesta distinção: não poder ser devolvido de imediato é uma coisa; poder ficar legalmente é outra, bastante diferente, e a segunda não decorre automaticamente da primeira. Essa nuance, no entanto, raramente sobrevive à viagem entre o texto de um acórdão e o boato que dele se espalha. A distinção jurídica é estreita: depende de como, tecnicamente, alguém entrou, não de quem é ou de onde vem. A resposta mais imediata das autoridades espanholas foi, de forma quase literal, tentar tornar visível aquilo que a lei tratava como ausente: a Guarda Civil anunciou a instalação de uma linha de boias no quebra-mar, precisamente no troço da costa onde mais gente tinha entrado a nado, para criar ali algo que a própria lei pudesse reconhecer como obstáculo, fechando assim, no futuro, a mesma exceção jurídica que a travessia a nado acabava de abrir. Bastaram poucos dias para que essa distinção técnica, discutida inicialmente entre juristas, se transformasse em conhecimento generalizado do lado marroquino da fronteira. Segundo especialistas em direito internacional, redes de tráfico de pessoas apressaram-se a divulgar a decisão pelos próprios canais que usam para recrutar clientes, replicando-a como se fosse a melhor notícia do ano. Uma frase escrita para regular um detalhe processual tinha-se tornado, na prática, um convite. A rapidez com que a notícia se espalhou deveu tanto às redes sociais como às próprias redes de tráfico. Publicações e mensagens sobre a decisão do tribunal circularam em poucas horas do lado marroquino da fronteira, cada partilha reforçando a impressão de que a travessia era agora mais segura e mais garantida do que realmente era. Bastou saber, de segunda ou terceira mão, que existia uma exceção, e que essa exceção parecia estar, agora, do seu lado, sem que ninguém precisasse de ler o texto do acórdão para agir sobre ele. Bruxelas reagiu enviando duas figuras da Comissão Europeia para o terreno: uma ficou encarregada de tratar diretamente com Madrid, a outra abriu uma linha com Rabat, sinal de que, para a União, o lado marroquino da fronteira pesava tanto quanto o espanhol nesta equação. Vários governos europeus reforçaram, nos dias seguintes, controlos nas próprias fronteiras internas, uma reação em cadeia que, por si só, mostra como um episódio localizado numa faixa de costa de poucos quilómetros se fez sentir em decisões administrativas a milhares de quilómetros de distância. Em 2015, no auge da anterior grande crise migratória europeia, a Grécia recebia, nos piores dias, cerca de dez mil entradas irregulares; o que aconteceu esta semana em Ceuta, num território minúsculo, aproximou-se de seis vezes esse valor, concentrado em pouco mais de vinte e quatro horas. A diferença mais notória em relação a essa crise anterior está na rapidez com que, desta vez, uma parte tão grande dessas pessoas regressou por vontade própria, mal percebeu que o outro lado da fronteira não oferecia o que esperava, mais do que na urgência de quem partiu. O padrão não é novo, nem é exclusivo desta fronteira. Na noite de 9 de novembro de 1989, um porta-voz do governo da Alemanha de Leste anunciou, de forma pouco clara e talvez até por engano, que os cidadãos passariam a poder viajar livremente para o Ocidente. Ninguém, incluindo os próprios guardas fronteiriços, sabia ao certo se a medida já estava em vigor nessa mesma noite. Mas em poucas horas, milhares de pessoas juntaram-se junto aos postos fronteiriços de Berlim a exigir passagem com base numa frase mal explicada numa conferência de imprensa, e os guardas, sem instruções claras e perante a multidão, acabaram por abrir os portões. Fidel Castro anunciou, em 1980, que qualquer cubano que quisesse sair do país podia fazê-lo a partir do porto de Mariel. Em poucos meses, mais de cento e vinte mil pessoas atravessaram o Estreito da Florida em barcos improvisados, muitos deles a bordo de embarcações que mal se aguentavam à tona, na maior parte das vezes por terem ouvido dizer que a porta estava aberta, sem esperar para confirmar em que condições exatamente. No Alasca, em 1897, bastaram alguns navios a chegar a Seattle carregados de ouro do Klondike para que dezenas de milhares de pessoas, muitas sem qualquer experiência de sobrevivência em condições árticas, largassem empregos e famílias para tentar a mesma rota, com base em relatos que se multiplicavam e se inflacionavam a cada repetição. Em nenhum dos três casos a abertura foi tão simples ou tão total quanto o boato sugeriu. Em Berlim, a fronteira reabriu de facto, mas negociações e formalidades continuaram durante meses. Em Mariel, muitos dos que partiram acabaram detidos ou devolvidos, e a decisão custou politicamente ao próprio Castro. No Klondike, a maioria dos que chegaram encontrou reclamações de ouro já esgotadas ou já tomadas. O padrão comum está antes na velocidade com que uma população em situação difícil reage a qualquer sinal, por mais ambíguo ou técnico que seja, de que uma porta pode estar entreaberta, mais do que na abertura em si. É tentador ler este padrão de duas maneiras opostas e ficar por aí. Numa leitura, trata-se de manipulação: redes de tráfico e rumores mal-entendidos empurram gente desesperada para riscos enormes, com base em informação incompleta ou deturpada, uma tragédia evitável gerida por terceiros com interesse comercial na travessia. Noutra leitura, trata-se do oposto: gente perfeitamente lúcida, a fazer a aposta mais racional disponível numa vida sem alternativas melhores, testando a única porta que parece ter uma fresta. Ambas as leituras aparecem nas próprias entrevistas feitas a quem atravessou: há quem fale em ter sido instruído por outros a avançar; há quem fale, com a mesma serenidade, em falta de emprego e liberdades limitadas em casa como motivo suficiente, sem precisar de mais explicação nenhuma. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, para pessoas diferentes, ou até para a mesma pessoa em momentos diferentes da mesma noite; nenhuma das duas leituras precisa de anular a outra para ser verdadeira. Há ainda uma terceira possibilidade, mais incómoda do que as outras duas: a de que a distinção entre manipulação e escolha racional interessa sobretudo a quem fica de fora a analisar o fenómeno depois dos factos. Para quem está dentro de água, a meio da travessia, a pergunta já não é filosófica. A povoação fronteiriça marroquina mais próxima ficou, em poucos dias, praticamente paralisada. Comércios fecharam portas por precaução, e alguns dos seus donos admitiram temer que a chegada de tanta gente exausta e sem recursos, mesmo sem qualquer intenção hostil da parte de ninguém, pudesse degenerar em tensões que ninguém ali estava preparado para gerir. Ao longo da estrada principal viam-se grupos de jovens a caminhar de volta sob um sol forte, muitos a pé, tendo percorrido a mesma distância dias antes na direção contrária, cheios de uma expectativa que a viagem de regresso já não continha. Especialistas em migração alertaram, nos dias seguintes, que não havia solução rápida disponível: uma população deste tamanho, confinada a um território tão pequeno, levaria semanas a gerir-se, fosse qual fosse o caminho escolhido a partir daqui, e nenhuma medida isolada, por mais bem pensada que fosse, resolveria isso sozinha de um dia para o outro. O jovem que entrou na água ainda de noite pode ter sido um dos que ficaram, ou um dos que, já do outro lado, sem comida, sem abrigo e sem ninguém à espera, decidiu voltar a atravessar a fronteira na direção contrária poucas horas depois. Nesse caso, terá caminhado, provavelmente, ao longo da mesma estrada por onde vieram tantos outros, sob o mesmo sol, sem o saco de plástico, que talvez tenha ficado para trás nalguma praia, com a roupa seca lá dentro, por usar. A fronteira continua exatamente onde estava, hoje como na véspera. Não tem forma, nem cor, nem se pode tocar. Mas esta semana, durante quarenta e oito horas, uma frase sobre o que conta como barreira física bastou para que dezenas de milhares de pessoas decidissem, cada uma por sua conta e sem se conhecerem entre si, descobrir sozinhas onde é que ela ficava. #Ceuta #Migração #Fronteiras #Espanha #Marrocos #CriseMigratória #DireitoInternacional #SupremoTribunal #Refugiados #Europa #TráficoDePessoas #PolíticaMigratória

  • Pessoa, a IA e o problema de saber quem escreve

    Segundo o relato que Fernando Pessoa faria em 1935, a 8 de março de 1914 aproximou-se de uma cómoda alta, no seu quarto em Lisboa. Levava dias a tentar inventar, para pregar uma partida ao amigo Mário de Sá-Carneiro, um poeta bucólico que pudesse apresentar como pessoa real. Não conseguira nada. Nesse dia, já desistira da ideia. Pegou numa folha de papel e começou a escrever de pé, como escrevia sempre que podia. Segundo contou, saíram trinta e tantos poemas seguidos, sem interrupção. Chamou-lhe, mais tarde, numa carta, o dia triunfal da sua vida — e disse que nunca poderia ter outro assim. Não escreveu como Fernando Pessoa. Escreveu como alguém a quem deu, ali mesmo, o nome de Alberto Caeiro. Pessoa, os heterónimos e a inteligência artificial: duas formas de enfrentar o problema de manter uma voz inteira. Pessoa insistiria, anos depois, que não sabia bem definir o que lhe tinha acontecido nessa tarde — hesitava entre chamar-lhe inspiração ou um sintoma e falava da sua própria tendência para a despersonalização quase como um médico descreveria um paciente, admitindo a hipótese de ser aquilo a que chamava histeria ou histero-neurastenia. Na carta, formulava a dúvida em termos quase clínicos: não sabia se o que lhe permitia escrever daquela forma era um dom ou uma avaria. A histeria, no vocabulário médico da sua época, era quase sempre diagnóstico de mulher — a própria palavra vem do grego para útero. Um homem a suspeitar de si mesmo dessa condição, para explicar de onde lhe vinham vozes inteiras com biografia e temperamento próprios, admitia, por escrito, que a explicação mais disponível para o que lhe acontecia pertencia a uma categoria clínica historicamente associada às mulheres, embora já então discutida também em homens. Feitos os poemas de Caeiro, Pessoa não parou. Pegou noutra folha e escreveu, também de um só fôlego, seis poemas assinados com o seu próprio nome — o regresso a si mesmo depois de ter sido, durante horas, outra pessoa por inteiro. Descobriu depois, mais devagar, um discípulo latente no "falso paganismo" do próprio Caeiro e deu-lhe o nome de Ricardo Reis. Em derivação oposta a essa, surgiu-lhe de repente um terceiro: sentado à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, saiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — um engenheiro naval formado em Glasgow, nascido em Tavira a uma hora que Pessoa dizia ter verificado depois num horóscopo, apaixonado pela velocidade das máquinas e pela violência do século que começava. Álvaro de Campos continha uma segunda camada de invenção. Anos depois da Ode Triunfal, Pessoa escreveu ainda um poema — o Opiário — que fingia ser obra de um Campos anterior, de antes de conhecer Caeiro e cair sob a sua influência, sem qualquer traço ainda do mestre que o viria moldar. Era preciso inventar a fase da vida desse homem em que ele ainda não era, de todo, quem viria a ser — um exercício que o próprio Pessoa descreveu como particularmente difícil, pelo duplo esforço de despersonalização que exigia. Um heterónimo tinha um antes. A leitura de Caeiro produz a impressão nítida de uma voz própria. É um poeta anti-metafísico que recusa interpretar o que vê e trata a simplicidade como a forma mais alta de pensamento — uma cosmovisão sustentada ao longo de dezenas de poemas, com uma biografia: nasceu em 1889, morreu tuberculoso em 1915, quase sem instrução. Um rio, para Caeiro, é só o rio; uma flor não simboliza nada além de si mesma; pensar sobre as coisas é já traí-las. A voz mantém uma consistência notável ao longo da obra que lhe foi atribuída. O que Caeiro aceitaria dizer e o que recusaria permanecem reconhecíveis — e é por isso que os outros heterónimos o chamam mestre. Quando Caeiro "morreu", em 1915, dentro da mitologia que Pessoa manteve durante vinte anos, os discípulos continuaram a escrever sobre o mestre desaparecido — Ricardo Reis em textos críticos e Álvaro de Campos nas Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, cada um no seu registo. Reconheciam-se e respondiam umas às outras; sabiam quem tinha morrido e quem continuava vivo. Nenhum "auditor" precisou de lembrar a Campos que Caeiro já não estava entre eles. Do outro lado do mundo, hoje, plataformas chinesas de ficção serializada para telemóvel — algumas delas propriedade de gigantes tecnológicos com milhares de milhões de dólares em receitas publicitárias e subscrições, que pagam aos autores conforme o número de leitores — enfrentam um problema que se parece, à superfície, com o de Pessoa. Autores usam ferramentas de inteligência artificial para gerar romances inteiros a partir de um esboço de enredo, com casos documentados de obtenção rápida de audiência e relatos de utilizadores que conseguiram ganhar dinheiro com histórias geradas por máquina. É um género de histórias — vinganças, artes marciais, amores impossíveis, saltos no tempo — que nasceu nos fóruns chineses dos anos noventa, feito para se ler aos pedaços, no ecrã de um telemóvel, muito antes de qualquer máquina escrever uma linha dele. Uma dessas plataformas lançou um "assistente do autor" para ajudar quem escreve a preencher lacunas de pesquisa histórica ou científica sem interromper o ritmo da escrita. Noutra frente, um programador independente construiu um sistema com agentes de inteligência artificial distintos: um estabelece a arquitetura do enredo, outro escreve os capítulos e um terceiro revê o texto à procura de erros lógicos e de maneirismos repetidos em excesso. Segundo o seu criador, mais de cinquenta mil utilizadores já o descarregaram. Em fóruns chineses, leitores partilham capturas de ecrã de instruções de inteligência artificial deixadas por engano a meio de um capítulo — o andaime da máquina, visível onde devia estar escondido. Outros dizem reconhecer a inteligência artificial por frases-tique que se repetem de romance para romance, do tipo "não é isto... é aquilo", como se fossem a assinatura de um único autor invisível, e não de milhares de contas diferentes. Uma plataforma impôs um limite diário de palavras a cada conta e, só num mês, recusou mais de cem mil submissões consideradas de fraca qualidade, incluindo obras assinaladas como geradas por máquina. Por vezes, a máquina esquece onde as suas próprias personagens estão dentro da história que acabou de inventar. Pessoa descreveu a irrupção inicial de Caeiro como um jorro quase contínuo, embora os manuscritos revelem correções e variantes. Caeiro raramente perde a lógica interna do "guardador de rebanhos" que constrói, enquanto a Ode Triunfal de Álvaro de Campos, escrita "sem interrupção nem emenda" à máquina de escrever, mantém a violência industrial que define os seus versos. Uma das vozes sabe, em todos os momentos, quem é e onde está; a outra, por vezes, não sabe. Bernardo Soares, autor a quem Pessoa atribuiu o Livro do Desassossego, não era, dizia o próprio, um heterónimo completo. Chamou-lhe um "semi-heterónimo": nas suas próprias palavras, alguém que, "não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela", ele mesmo "menos o raciocínio e a afetividade". Soares não tem uma biografia tão desenvolvida como Caeiro, nem um ofício exótico como Campos; é um guarda-livros de Lisboa, quase indistinguível de Pessoa na superfície e, por isso, mais difícil de separar do autor que o escreveu. Entre "ser inteiramente outro" e "ser inteiramente eu", Pessoa deixou um espaço intermédio. A pergunta sobre onde termina Pessoa e começa Soares nunca teve resposta fechada, nem o próprio a deu. Talvez a distinção entre voz coerente e voz incoerente não seja binária. Pode haver, também na escrita assistida por máquina, um espaço intermédio comparável ao de Soares, em que o autor humano fornece o suficiente da sua própria razão e emoção para que o resultado não seja nem plenamente seu nem plenamente alheio. Um autor que usa inteligência artificial apenas para expandir um esboço que já escreveu, corrigindo depois cada frase, ocupa esse espaço com mais legitimidade do que quem entrega o esboço a um sistema e publica o que sai sem tocar numa linha. O que os separa é quanto de si próprio cada um deixou por perto para responder pela personagem que a máquina, a meio do caminho, perdeu. Pode dizer-se que Pessoa "não teria conseguido" fazer o que fez sem ser Pessoa — que o génio literário garante, sozinho, a coerência que uma ferramenta comercial, por definição, não pode oferecer. Um sistema com um agente "arquiteto", um agente "escritor" e um agente "auditor", porém, é desenhado para impedir a incoerência que os leitores denunciam. Pessoa não teve auditor nenhum. Teve, segundo a sua própria descrição, uma consciência dividida o suficiente para sustentar vozes heteronímicas profundamente diferenciadas, sem depender de um mecanismo externo de auditoria para as manter coerentes. Num sistema composto por módulos separados — um a inventar a estrutura, outro a escrever a cena, um terceiro a auditar a lógica, o estilo e a continuidade —, o problema pode não ser a ausência de mecanismos de memória, que alguns destes sistemas já têm, mas a dificuldade de fazer convergir numa única voz todas essas camadas de controlo. O "auditor" de um desses sistemas, descreveu o seu criador, foi treinado sobretudo para apanhar erros lógicos e maneirismos de estilo repetidos em excesso — travessões a mais, seria o exemplo mais banal. Os mecanismos de continuidade das personagens ou de memória narrativa existem. As incoerências que os leitores detetam também. Fernando Pessoa nunca resolveu, para si próprio, se aquilo que lhe aconteceu na cómoda alta era um dom ou um sintoma. Descreveu-o como uma espécie de êxtase cuja natureza não saberia definir — e, mesmo sem essa definição, o poema saiu com uma pessoa inteira lá dentro, capaz de responder por si do primeiro ao último verso. Um século depois, do outro lado do mundo, alguém confia a uma máquina a escrita de um romance inteiro e também não sabe dizer, ao certo, quem o escreveu. Funcionou, ou não funcionou, consoante os leitores encontrassem ou não alguém coerente por trás das frases. A diferença entre os dois casos não está em nenhum dos dois ter uma resposta pronta para a pergunta sobre autoria. Está em qual dos dois, lido até ao fim, ainda parece ter alguém lá dentro a segurar a folha — de pé, como Pessoa dizia escrever sempre que podia, junto à cómoda alta que recordaria vinte anos depois ao contar o seu "dia triunfal".

  • A instituição que queimou os seus próprios radicais

    A 7 de maio de 1318, em Marselha, quatro frades franciscanos foram entregues ao braço secular da cidade e queimados vivos. Chamavam-se Jean Barrau, Déodat Michel, Guilhem Sainton e Pons Rocha. O tribunal que os condenou não era civil nem estava a puni-los por roubo, violência ou traição ao rei. Era um tribunal eclesiástico, e a acusação era heresia: recusarem-se a reconhecer que o papa e os seus próprios superiores tinham autoridade para autorizar celeiros, adegas e depósitos de azeite aos Frades Menores, e para dispensar aquilo que os quatro consideravam parte inegociável da Regra que o fundador da sua ordem lhes tinha deixado, e que identificavam com o próprio Evangelho. Não eram bandidos. Eram franciscanos, julgados sob autoridade papal por um tribunal em que a própria liderança da sua ordem teve parte ativa, por insistirem demasiado em Francisco. O conflito franciscano do século XIV expôs a tensão entre a pobreza radical dos fundadores e a sobrevivência material de uma instituição feita para durar. A ironia começa cem anos antes, com o próprio santo. Francisco de Assis morreu em 1226 depois de fundar uma ordem cujo voto central era não possuir nada — nem em nome próprio, nem em nome da comunidade. A Regra que lhes deixou, escrita em 1223, proíbe apropriar casas, lugares ou bens, e proíbe receber dinheiro. Mas essa mesma Regra já previa, no mesmo fôlego, um ano de noviciado, ministros provinciais, um ministro-geral eleito, capítulos periódicos, autorização formal para pregar e um cardeal protetor da ordem junto da Cúria romana. A tensão não nasceu apenas depois, por crescimento ou desvio dos sucessores. Já estava inscrita no próprio documento fundador: uma estrutura de governo com mecanismos de continuidade institucional, obrigada, ao mesmo tempo, a jurar que nada possuía. Em 1279, o papa Nicolau III tentou resolver o problema com um artifício jurídico, que consolidava um mecanismo já usado desde os anos 1240. A bula Exiit qui seminat declarava que os bens usados pelos franciscanos continuavam, em termos de propriedade legal, pertença da Santa Sé — os frades tinham apenas o "uso" desses bens, nunca a posse. Era uma ficção elegante: permitia à ordem usar e manter conventos, terrenos e outros bens, sem que nenhum franciscano tivesse, em teoria, deixado de cumprir o voto de nada possuir. A ficção sobreviveu quarenta e três anos, até João XXII a desmontar, em 1322, na bula Ad conditorem canonum — recusando à Santa Sé esse mesmo título de propriedade que Nicolau III lhe tinha atribuído. Não porque a ficção convencesse toda a gente, mas porque adiava a pergunta que ninguém, dentro da ordem, queria mesmo responder: se a pobreza de Francisco era absoluta, como podia sobreviver, séculos a fio, uma ordem com grandes conventos, igrejas e bibliotecas por toda a Cristandade? Os frades que seriam queimados em Marselha recusaram a ficção. Ficaram conhecidos como Espirituais, e a sua posição devia muito ao teólogo languedociano Pedro João Olivi, que décadas antes tinha argumentado que não bastava renunciar à propriedade legal dos bens: era preciso também um "uso pobre" desses bens, um limite real ao conforto material, sob pena de a renúncia ser só de nome. Insistiam que a Regra de Francisco, na sua letra original, era vinculativa e não negociável — que "usar" um convento sem o possuir era uma distinção que só existia no papel, e que a ordem já tinha, na prática, traído o fundador havia muito. Em 1317, o papa João XXII, através da bula Quorumdam exigit, convocou os Espirituais mais recalcitrantes a Avinhão e exigiu obediência sob pena de excomunhão — a bula deixava claro que a obediência pesava mais do que a própria pobreza, resumindo assim todo o conflito. Vinte e cinco recusaram ceder e foram entregues ao inquisidor franciscano Michel le Moine. Todos menos cinco acabaram por recuar. Desses cinco, quatro foram entregues ao braço secular e queimados; o quinto foi condenado a prisão perpétua. Cinco anos depois de os queimar, em 1323, João XXII foi mais longe do que qualquer papa anterior se tinha atrevido a ir: declarou, na bula Cum inter nonnullos, errónea e herética a tese segundo a qual Cristo e os apóstolos nada possuíram, individual ou coletivamente — a mesma tese que o capítulo franciscano de Perugia tinha defendido coletivamente, apenas um ano antes, como fundamentação central da pobreza da ordem. O ministro-geral dos franciscanos, Miguel de Cesena, tinha sido, seis anos antes, um dos instrumentos da repressão que levou os quatro à fogueira: foi ele quem, em 1317, interrogou pessoalmente os Espirituais detidos em Avinhão sobre se obedeciam à bula e reconheciam a autoridade do papa, antes de entregar os recalcitrantes ao inquisidor. Só em 1328 — não no rescaldo imediato de Cum inter nonnullos, mas cinco anos depois — Miguel rompeu com João XXII sobre essa mesma questão da pobreza apostólica, e fugiu para a proteção do imperador Luís da Baviera, levando consigo Guilherme de Ockham e Bonagratia de Bérgamo. O homem que ajudara a impor obediência aos Espirituais acabou, mais tarde, engolido pela mesma tensão que os tinha levado à morte. A disputa arrastou-se por décadas dentro de um conflito papal-imperial muito mais vasto, entre João XXII e Luís da Baviera, no qual a pobreza franciscana se tornou arma teológica e política dos dois lados. Aqui está o ponto que costuma escapar às leituras morais deste episódio: não é preciso invocar ganância pessoal ou hipocrisia deliberada para explicar por que a Igreja acabou por condenar como heresia a pobreza que ela própria tinha institucionalizado — embora as rivalidades pessoais, convicções teológicas sinceras e disputas internas da própria ordem tenham também pesado, e a política de João XXII tenha sido, segundo os historiadores que a estudaram, mais reativa a conflitos já em curso do que um plano único e deliberado contra os franciscanos. Por baixo de tudo isso, no entanto, havia uma necessidade estrutural que nenhum grau de sinceridade religiosa, por si só, conseguia contornar. Uma ordem que pretende durar séculos — que precisa de recrutar, formar, alimentar e alojar gerações sucessivas de membros, que precisa de manter edifícios, preservar manuscritos, negociar com reis e enviar missionários a continentes inteiros — precisa de continuidade material. E continuidade material significa contratos, propriedade, hierarquia de decisão sobre recursos escassos: exatamente a arquitetura que o voto original rejeitava. Não é que os franciscanos tenham falhado em cumprir o ideal de Francisco por fraqueza moral. É que transformar uma vida individual de renúncia numa instituição que atravessa séculos exige, por definição, os instrumentos que essa renúncia recusava. Não se pode institucionalizar, indefinidamente, a rejeição de instituições. É este o eixo, e vale a pena mantê-lo à distância de qualquer episódio específico da política contemporânea para se ver com clareza: todo o movimento que nasce contra o poder estabelecido enfrenta, se tiver sucesso, o mesmo problema que os franciscanos enfrentaram. Um movimento que dura uma manifestação, ou uma geração, pode manter-se puro, precisamente porque não precisa ainda de resolver a pergunta sobre o dia seguinte. Um movimento que vence — que passa a gerir universidades, tribunais, hospitais, orçamentos de Estado, carreiras profissionais inteiras — já não tem esse luxo. Precisa de recrutar, promover, remunerar e reter gente ao longo de décadas, o que significa credenciais, categorias profissionais, patrimónios acumulados, classes inteiras de administradores cuja subsistência depende da instituição continuar a existir amanhã, exatamente como existiu ontem. O sindicato que começou como assembleia de operários em greve, disposta a arriscar o emprego, torna-se, se sobreviver décadas, uma organização com quadro técnico próprio, sede, fundo de pensões e interesse direto em que a organização — não necessariamente a causa que a fez nascer — continue a existir. Em 1789, a Revolução não começou por abolir a monarquia — a França manteve Luís XVI como chefe do executivo numa monarquia constitucional até 1792. Mas quinze anos depois de a Bastilha cair, um general saído dos próprios exércitos revolucionários coroava-se imperador, com corte, protocolo e hereditariedade reconstituídos sob nome novo. Entre os revolucionários bolcheviques que passaram anos no exílio siberiano por distribuírem panfletos e a nomenklatura soviética que se seguiria, com dachas, lojas reservadas e privilégios que os camponeses em nome de quem tinham falado nunca chegaram a partilhar, não há uma linha biográfica contínua e literal — mas há a mesma lógica de fundo. Não há, nestes casos, nenhuma conspiração original a explicar a inversão. Há apenas o mesmo problema dos franciscanos, resolvido — ou melhor, adiado — da mesma forma: uma vez que se decide governar em vez de apenas protestar, as ferramentas de governar impõem-se, independentemente do que os fundadores queriam. A tentação, perante isto, é procurar um culpado: dizer que uma geração de dirigentes traiu os fundadores, tornou-se cómoda, perdeu a coragem original. É uma explicação confortável precisamente porque implica uma solução simples — bastaria mais vontade, mais pureza, mais memória do início. Mas a história de Marselha sugere outra coisa, mais incómoda: mesmo quando a vontade e a pureza estiveram do lado dos que recusaram ceder — os quatro frades não hesitaram, não negociaram, escolheram morrer em vez de recuar —, isso não impediu a instituição de seguir o caminho contrário. A pureza pessoal de quatro homens não alterou a lógica estrutural que a ordem inteira enfrentava. Substitua-se coragem por vontade política, e o problema mantém-se: nenhuma quantidade de convicção resolve uma equação que é, no fundo, sobre o que uma organização precisa fisicamente para durar. Há, ainda assim, uma segunda vida para o ideal que Marselha tentou apagar, e vale a pena segui-la até ao fim antes de fechar o argumento. Os quatro frades queimados tornaram-se, quase de imediato, mártires para uma rede de leigos no sul de França conhecidos como beguinos, que viram na execução a confirmação de tudo o que os Espirituais já pregavam: que a Igreja institucional se tinha tornado, ela própria, o poder corrupto contra o qual o Evangelho avisava. Seguiram-se mais fogueiras — Narbona, Béziers, Lunel — e processos inquisitoriais em Toulouse e Carcassonne, num martirológio que, ao longo de décadas, chegaria a registar mais de cem nomes. O ideal sobreviveu, portanto, fora da instituição, em redes clandestinas sem poder de decidir currículos, formar teólogos influentes ou gerir um único hospital — mesmo tendo construído uma circulação de textos e relíquias que a Inquisição levou décadas a desmantelar. Manteve a pureza ao preço de nunca mais participar nas decisões que moldavam a Cristandade. A ordem, do outro lado, manteve o poder de decidir essas coisas ao preço de nunca mais poder afirmar, sem ironia, que não possuía nada — e o problema não desapareceu com o tempo; apenas hibernou. Duzentos anos depois de Marselha, em 1525, um frade observante chamado Matteo da Bascio olhou para os conventos já grandes, já estáveis, já cheios de bibliotecas e propriedades da sua própria ordem, e decidiu, como os Espirituais antes dele, que aquilo já não era o que Francisco tinha pedido. Foi a Roma, em ano de jubileu — não a fugir, mas em peregrinação —, e obteve do papa Clemente VII uma licença pessoal para viver como eremita na pobreza mais radical possível, formalizada só no ano seguinte num breve papal, e alargada a toda a reforma apenas em 1528. Quando começou a viver assim e os seus superiores tentaram suprimir a novidade e prendê-lo, teve de se esconder — não em Roma, mas junto dos monges camaldulenses, de quem adotou o capuz pontiagudo que daria o nome à ordem que fundou, os capuchinhos. Dentro de poucos anos, o movimento que fundou teve o seu próprio escândalo: Bernardino Ochino, um dos seus primeiros vigários-gerais, acabaria por abandonar a Igreja e tornar-se pastor calvinista na Suíça. A ironia não é acidental. É estrutural, e por isso se repete: a Enciclopédia Católica de 1913 resumiria o padrão sem rodeios, ao notar que, invariavelmente, à medida que cada reforma franciscana crescia em número e construía conventos maiores, a simplicidade original perdia-se de novo — e cada nova reforma voltava, mais uma vez, a mirar o ideal da comunidade pequena onde essa simplicidade ainda parecia possível. Não há, nesta história, um lado que tenha resolvido o problema. Há dois lados que escolheram, cada um, qual das duas perdas conseguia suportar. Um movimento que só se importa em não trair a sua origem paga com a irrelevância; uma instituição que só se importa em durar paga com a impossibilidade de continuar a ser, no fundo, a coisa que a fez nascer. Setecentos anos depois, ainda não apareceu uma terceira opção — só, de vez em quando, uma nova geração que se recusa a acreditar nisso, veste um capuz diferente, cresce a barba, tira os sapatos, e recomeça, por mais uma vez, a tentar as duas coisas ao mesmo tempo. Ninguém, até hoje, conseguiu explicar por que motivo continuam a tentar, sabendo o que aconteceu da última vez. Talvez seja essa, e não a pureza em si, a parte do impulso franciscano que nenhuma fogueira alguma vez conseguiu queimar. #Franciscanos #História #Igreja #Heresia #PobrezaFranciscana #Poder #Instituições #HistóriaMedieval #AtlanticLisbon

  • Portugal prometeu reparar 1497. A sinagoga pagou a fatura.

    Às nove da manhã de 11 de março de 2022, dois agentes da Polícia Judiciária entraram na sinagoga do Porto e pediram para ver os arquivos. Não procuravam armas, nem dinheiro, nem droga. Procuravam papel: dossiês de genealogia, cartas de rabinos, certificados assinados a atestar que um apelido, uma fotografia de família, uma reza guardada de geração em geração, provavam que alguém nascido em Telavive, em Istambul ou em São Paulo descendia de um judeu expulso de Portugal cinco séculos antes. Abriram gavetas de arquivo com etiquetas manuscritas, pastas de cartolina que ninguém tinha pensado precisarem alguma vez de resistir a uma busca policial. Levaram caixas. A comunidade, avisada com poucas horas de antecedência, viu sair do próprio edifício onde reza há décadas o registo em papel de uma ascendência que não é a sua, mas que passara a ter, por lei, o dever de confirmar. A operação tinha nome. Chamava-se Porta Aberta. Uma lei pensada como reparação histórica aos judeus sefarditas deu a um oligarca russo sob sanções uma nacionalidade europeia em seis meses — e foi a comunidade que a certificou quem a polícia acabou por investigar. Portugal prometeu reparar uma injustiça iniciada em 1497. Décadas depois, uma sinagoga ficou a suportar parte do custo dessa promessa. Do outro lado da porta que a polícia abriu nessa manhã estava uma comunidade de poucas centenas de pessoas, talvez menos, entre Lisboa e o Porto. Do lado de dentro dos arquivos que reviraram estavam os pedidos de mais de cento e quarenta mil. Em 2013, o Parlamento português alterou a Lei da Nacionalidade para permitir que descendentes de judeus sefarditas expulsos de Portugal pudessem pedir a cidadania portuguesa por naturalização. A medida foi regulamentada dois anos depois, em 2015. O mecanismo era simples, quase administrativo na sua elegância: bastava obter, junto de uma das duas comunidades judaicas reconhecidas — Lisboa ou Porto —, um certificado que atestasse a tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa. O documento tinha de identificar nome completo, data de nascimento, naturalidade, filiação e a linha de descendência, direta ou colateral, até um antepassado sefardita de origem portuguesa. Apelido, língua de família, costumes preservados. Não era exigida residência em Portugal. Não era exigido sequer que o requerente alguma vez tivesse cá posto os pés. D. Manuel I decretara a expulsão em 1496, cedendo à pressão dos Reis Católicos de Espanha, dos quais dependia um casamento dinástico que lhe interessava mais do que a permanência dos seus súbditos judeus. Quem não aceitasse o batismo católico tinha um ano para partir; muitos dos que ficaram foram batizados à força, em massa, no Rossio de Lisboa, em 1497, sem que a conversão lhes fosse sequer perguntada. Nasceu assim uma categoria jurídica nova, a de cristão-novo, que os passaria a distinguir dos cristãos-velhos durante séculos, mesmo depois de gerações inteiras terem esquecido o hebraico e mantido apenas fragmentos de prática, transmitidos de mãe para filha, quase sempre em segredo. Alguns partiram, quando puderam, para o Norte de África, para os Balcãs, para Salónica e Constantinopla sob domínio otomano, para Amesterdão quando as Províncias Unidas se tornaram, um século depois, o único lugar da Europa cristã onde podiam praticar em público. Outros ficaram, batizados por fora, judeus por dentro, durante gerações que hoje se contam já em dezenas — até a lei de 2015 chamar a isto reparação histórica, um Estado a devolver por decreto o que um outro decreto tinha retirado. Com esse decreto nasceu, quase de imediato, uma indústria. Escritórios de advogados em Lisboa e no Porto passaram a anunciar, em inglês, em turco, em hebraico, em espanhol, serviços de reconstituição genealógica para quem suspeitasse ter um apelido sefardita algures na árvore da família. Genealogistas profissionais, alguns deles sem qualquer ligação prévia a Portugal, cobravam por localizar um Pinto, um Cardoso, um Toledano, três ou quatro gerações atrás, e transformar essa descoberta num dossiê apresentável. Não havia nada de fraudulento nisto, na maior parte dos casos: era o mercado a organizar-se em torno de uma lei que, sozinha, não dava a ninguém as ferramentas para provar o que pedia que se provasse. Portugal já tinha, em paralelo, um Visto Gold que trocava investimento imobiliário por autorização de residência e fora acusado, ano após ano, em Bruxelas e na imprensa internacional, de vender acesso à União Europeia a quem tivesse capital sem perguntas incómodas. A via sefardita não exigia investimento nenhum. Exigia apenas uma história bem contada e um certificado assinado. Entre 2015 e 2021, deram entrada cerca de cento e quarenta mil pedidos. Foram concedidas cerca de cinquenta e sete mil nacionalidades. Só em 2021, os pedidos por esta via representaram setenta e dois por cento de todos os pedidos de naturalização em Portugal — não setenta e dois por cento dos pedidos judaicos, mas de todos os pedidos de nacionalidade portuguesa, de qualquer origem, chegados nesse ano a Portugal. Um mecanismo pensado para uma diáspora específica tinha-se tornado, sozinho, a principal porta de entrada na cidadania portuguesa. A comunidade que assinava os certificados não cresceu ao mesmo ritmo dos pedidos. Continuou a ser o que sempre foi: pequena, envelhecida, concentrada em duas sinagogas. A lei tinha-lhe atribuído uma função que nenhuma legislação anterior alguma vez lhe exigira — não rezar nem preservar um cemitério, mas certificar, com assinatura e carimbo, a autenticidade da ascendência de gente que nunca tinha conhecido, a partir de um apelido e de uma história contada pelo próprio requerente sobre si mesmo. Em 2021, o jornal Público revelou que Roman Abramovich, o oligarca russo dono do Chelsea Football Club, tinha obtido a nacionalidade portuguesa por esta via em cerca de seis meses. Não há nada de ilegal, à partida, num oligarca pedir papéis a uma comunidade religiosa. O problema não era Abramovich enquanto pessoa. O problema era a rapidez, e o que essa rapidez revelava sobre o que um certificado de duas linhas, assinado por uma comunidade sem meios para investigar cento e quarenta mil árvores genealógicas, podia na prática comprar: não apenas um passaporte português, mas a cidadania de um Estado-membro da União Europeia, com liberdade de circulação em vinte e sete países, obtida sem residência, sem exame de língua, sem entrevista. Um mês depois da invasão russa da Ucrânia, com Abramovich sob sanções da União Europeia e do Reino Unido e forçado a vender o Chelsea, a Procuradoria-Geral da República confirmou que investigava a atribuição. A onze de março, a Polícia Judiciária entrou na sinagoga do Porto à procura de provas de que certificados de ascendência sefardita podiam ter sido emitidos sem o rigor que a lei presumia. O rabino da comunidade, Daniel Litvak, ficou sob investigação. Uma semana depois, a dezoito de março de 2022, o Governo publicou um decreto-lei a apertar as regras: já não bastava o apelido ou a língua de família, era preciso demonstrar ligação efetiva e duradoura a Portugal, através de bens herdados por via sucessória ou de viagens regulares comprovadas. As novas regras entraram em vigor a um de setembro. A própria comunidade judaica do Porto viria a dizer, publicamente, que a lei tinha na prática terminado nesse dia de março, semanas depois de uma busca policial anunciada, segundo a comunidade, com base em denúncias anónimas. Entre a revelação do caso Abramovich e a entrada em vigor das novas regras, chegaram cento e vinte e quatro mil seiscentos e sessenta e três novos pedidos — mais do dobro do ano anterior. Gente à pressa, a tentar entrar antes de a porta se apertar, engordando ainda mais um arquivo que a comunidade já não conseguia, sozinha, verificar linha a linha. A Inquisição portuguesa, instalada em 1536, não perseguia judeus praticantes — esses já tinham sido expulsos ou convertidos à força em 1497. Perseguia cristãos-novos suspeitos de, em segredo, continuarem judeus. O mecanismo da perseguição era a prova: um vizinho que denunciava um lençol lavado à sexta-feira ao pôr do sol, uma testemunha que jurava ter visto uma luz acesa debaixo de um alguidar invertido numa noite de sexta, um tribunal do Santo Ofício que decidia, com base nesses fragmentos, quem era cristão genuíno e quem fingia. A comunidade de Belmonte, no interior da Beira, manteve rezas em segredo durante mais de quatro séculos sob esta vigilância constante, adaptadas de memória, sem rabino, sem texto hebraico, transmitidas por mulheres que ensinavam às filhas o que não podia ser dito em voz alta perto de vizinhos — até um engenheiro de minas chamado Samuel Schwarz descobrir por acaso em 1917, ao ouvir uma velha rezar em segredo, e lhe devolver, com espanto de parte a parte, um nome que ali já não se usava em público havia gerações. Já não era o Estado a decidir quem escondia judaísmo. Era a comunidade judaica, transformada por decreto em avaliadora de sinceridade alheia, a decidir quem merecia ser reconhecido como descendente de quem os seus próprios antepassados tinham sido forçados a esconder que eram. O decreto de 2022 tem uma palavra para descrever a comunidade nesta função: fiel depositária. Fiel depositário é quem guarda bens de outrem em confiança, sujeito a prestar contas ao Estado. Uma sinagoga com talvez duzentos praticantes regulares passou a ser, perante a lei portuguesa, depositária fiel da autenticidade genealógica de gente que jamais tinha rezado ao seu lado, nem falado a sua língua, nem conhecido o nome dos seus rabinos. Quando a fraude apareceu — e apareceu, com um nome grande e visível o suficiente para forçar uma investigação internacional —, não foi o requerente estrangeiro que a polícia foi procurar primeiro. Foi o arquivo da comunidade que assinou o papel. A generalidade dos cento e quarenta mil pedidos não tinha qualquer relação com oligarcas ou sanções. Muita gente pediu esta nacionalidade por razões que a lei previa exatamente para isso: descendentes de comunidades sefarditas da Turquia e de Marrocos, sem qualquer interesse que não fosse simbólico — fechar, com um documento, um círculo que a sua própria família tinha sido forçada a abrir há quinhentos anos. Para essas pessoas, a exigência de 2022 — bens herdados, viagens regulares comprovadas — era tão inatingível quanto seria para qualquer imigrante comum sem património em Portugal. A lei não distinguiu, nas suas novas regras, entre quem procurava um passaporte de conveniência e quem procurava fechar esse círculo histórico. Distinguiu, isso sim, entre quem tinha meios para demonstrar ligação material a um país que os seus antepassados foram forçados a abandonar sem levar nada, e quem não tinha. Houve quem tivesse dado entrada com o processo em 2019 ou 2020, ainda ao abrigo das regras antigas, e visse o seu dossiê ultrapassar as novas exigências sem ter feito nada de diferente — a lei mudou por baixo do pedido, não o pedido que deixou de ser válido. Esses processos ficaram numa espécie de limbo administrativo, nem recusados nem decididos, à espera de que alguém, num gabinete do Ministério da Justiça, resolvesse se as regras vigentes no dia da entrada do requerimento contavam mais do que as regras vigentes no dia da decisão. Em 2024, o Parlamento voltou a mexer na lei. Desta vez, a exigência foi mais direta: três anos de residência legal em Portugal, antes de qualquer pedido. Não bens herdados, não viagens ocasionais — presença continuada, comprovada, sujeita a fiscalização. Reparar uma expulsão exigindo, como condição prévia, aquilo que a própria expulsão tornou impossível durante quinhentos anos, tem uma lógica que se pode defender num gabinete de Lisboa e que é difícil de justificar a alguém cuja família fugiu precisamente porque não podia ficar. O regresso, tal como a lei o desenhou em 2024, já não é para quem foi expulso. É para quem, de qualquer forma, já estava disposto a vir viver cá, com meios e tempo para o fazer durante três anos antes de sequer poder pedir o papel que lhe confirmaria o que já era. Ficaram pendentes, segundo os últimos números públicos, cerca de duzentos mil processos por decidir. Dossiês com fotografias, árvores genealógicas, cartas de comunidades judaicas de três continentes, à espera de uma decisão sobre se a ligação que descrevem chega para o Estado português os reconhecer como seus. Alguns desses dossiês estarão nas mesmas gavetas que a polícia abriu em março de 2022. Outros terão sido devolvidos, entretanto, às famílias que os enviaram, sem resposta que os satisfizesse. A sinagoga do Porto continua aberta. Continua a reunir, aos sábados, o número reduzido de pessoas que sempre reuniu, para rezar num edifício cujos arquivos a polícia esvaziou de gavetas há mais de três anos e cujas prateleiras, presume-se, ainda guardam as que restaram por examinar. Ninguém precisa de certificado nenhum para lá entrar e rezar; o certificado nunca foi para quem já está dentro. É para os que ficam do lado de fora, à espera de uma resposta sobre uma cidadania que os antepassados perderam sem terem tido sequer tempo de pedir, na saída apressada de 1497, um papel que provasse quem eram. Em Belmonte, a comunidade descoberta por Schwarz também continua a existir, hoje ao ar livre, com sinagoga própria inaugurada já depois do reconhecimento público, sem precisar de certificado nenhum passado por Lisboa ou pelo Porto para saber quem sempre foi. Guardou a memória sem papel durante quatro séculos, transmitida de boca em boca, sem nunca ter sido reconhecida por decreto nenhum enquanto durou a perseguição, e sem que esse reconhecimento lhe tivesse alguma vez sido, de facto, necessário para continuar a existir. Há uma forma de pertença que sobrevive sem que nenhum Estado a certifique, guardada em gestos que ninguém denunciou a tempo de a apagar. E há outra, mais recente, que só existe enquanto um decreto a sustenta — e que, quando o decreto muda, ou quando alguém usa mal a porta que o decreto abriu, deixa quem a devia beneficiar exatamente onde sempre esteve: de fora, com um dossiê numa gaveta, à espera de que Portugal decida, outra vez, o que significa ser reconhecido como seu. #JudeusSefarditas #Portugal #RomanAbramovich #NacionalidadePortuguesa #AtlanticLisbon

  • A pergunta que os 250 anos dos EUA não querem responder

    OPINIÃO · Poder · Estados Unidos · Aniversários, memória e ficção distópica · Alberto Carvalho Aos 250 anos, uma nação descobre que celebrar não é o mesmo que corrigir-se — e que a ansiedade que a história hesita em nomear já apareceu, há muito, na ficção Um aniversário nacional funciona como um pretexto social — talvez o único que uma sociedade se dá a si própria com regularidade — para confrontar os ideais com que se fundou com a realidade em que hoje vive. Quanto mais redondo o número, mais gente sente essa obrigação. A história sugere que os grandes marcos nacionais raramente correm em paz. Coincidem, com uma regularidade quase incómoda, com crises políticas, guerras, recessões e um ceticismo popular que os discursos oficiais preferem não mencionar. Tornam-se, por isso, palco tanto de celebração como de protesto — e essa tensão é, provavelmente, o sinal mais honesto de que a data ainda significa alguma coisa para quem a vive. Grandes aniversários nacionais deviam ser momentos de autocorreção. Cada vez mais, é a ficção distópica, não a história, que consegue nomear a ansiedade real do presente. Há um risco maior do que o protesto: a comemoração transformar-se em mercadoria — bandeiras em toalhas de mesa, o patriotismo embalado e vendido de volta ao cidadão como produto sazonal. Isso produz um cinismo previsível: a data transforma-se em campanha de vendas, e perde, pelo caminho, o convite à reflexão que a tornava relevante. Os grandes aniversários repetem, também, um padrão mais antigo e mais perigoso: celebrar o progresso técnico e territorial como se fosse, por si só, prova de justiça cumprida. Estradas, fábricas, fronteiras alargadas — tudo isso aconteceu, de facto, ao lado de fraturas sociais que continuaram abertas, e de grupos inteiros que ficaram de fora dos direitos que a própria celebração dizia garantir a todos. Por trás disto está uma questão de desenho institucional. Uma sociedade que se pretende democrática precisa de manter viva a capacidade de se corrigir a si própria — de rever as suas próprias regras fundamentais quando deixam de servir. Um bloqueio prolongado nessa capacidade transforma a ideia de regras democráticas vivas numa formalidade distante, sem correspondência na prática quotidiana. O bloqueio institucional tem, em geral, uma origem mais silenciosa: a erosão da capacidade cívica de dialogar, discutir e decidir em conjunto — a competência mais básica de qualquer democracia, e também a mais fácil de deixar atrofiar. Reconstruir essa competência, começando pela escala local, é uma condição prévia para qualquer tentativa séria de reescrever um pacto social ou constitucional. Uma reforma sem essa base deliberativa tende a ser imposta, e as reformas impostas raramente duram. A literatura distópica contemporânea faz, cada vez mais, um trabalho que a história ainda hesita em fazer com a mesma clareza. Mundos de vigilância biométrica governamental, de controlo de dados por corporações, de cidadãos declarados "não verificados" e por isso excluídos da própria cidadania — este género tornou-se o principal espaço onde essa ansiedade específica ganha nome e forma. O argumento contrário merece ser levado a sério mesmo quando incomoda: toda a geração encontra a sua distopia preferida, e toda a sociedade sobrevive, de alguma forma, ao seu próprio pessimismo cíclico. Aniversários anteriores também produziram profecias sombrias que o tempo acabou por desmentir. Vale a pena examinar, ainda assim, a escala a que essa ficção passou a soar mais precisa do que os relatos verificáveis sobre o presente — uma precisão que, há uma geração, teria soado como exagero de género. A coincidência literária revela algo sobre a capacidade coletiva de nomear o que se está a viver enquanto ainda está a acontecer — capacidade que nenhum livro, por si só, substitui. Tratar um aniversário nacional como celebração pura, sem abrir esse espaço de reconhecimento, desperdiça exatamente o instrumento que qualquer nação fundada na ideia de autocorreção deveria saber usar. A pergunta que um aniversário redondo devia obrigar a fazer é simples: porque é que essas ficções distópicas soam tão familiares — e ninguém, ainda, quer responder em voz alta.

  • A China descobriu que precisa de consumidores

    A China descobriu que precisa de consumidores Pequim fixou uma meta para as compras das famílias, mas o problema chinês não parece estar na falta de produtos. Está no dinheiro que permanece guardado, nas casas que perderam valor e na insegurança quanto aos rendimentos futuros. A China construiu fábricas. Agora precisa de consumidores Sessenta biliões de yuans em vendas a retalho até 2030. O número aparece no primeiro plano quinquenal chinês dedicado exclusivamente ao consumo. Em 2025, o total tinha sido de 50,1 biliões. A meta foi anunciada quando os dados do primeiro semestre já mostravam uma economia a avançar a velocidades diferentes. A indústria transformadora cresceu 5,5%. As vendas de bens a retalho aumentaram 1,1%. O investimento imobiliário caiu 18%. O produto interno bruto ainda cresceu 4,7% entre janeiro e junho. No segundo trimestre, porém, o ritmo desceu para 4,3%, o valor mais baixo desde o final de 2022. O investimento em ativos fixos recuou 5,7%. Na construção, a quebra foi de 4%. A produção industrial continuou a aumentar em junho. Os computadores, os equipamentos de comunicação e a maquinaria registaram crescimentos fortes. As fábricas chinesas não perderam a capacidade de produzir. Algumas continuam a instalar equipamento e a automatizar tarefas, mesmo quando reduzem novos projetos ou adiam a expansão física. O plano de consumo parte desta diferença entre uma economia industrial ainda capaz de aumentar a oferta e famílias que gastam com maior cautela. Inclui a saúde, o turismo, a cultura, o desporto, o apoio à infância e os cuidados a idosos. Prevê o desenvolvimento de serviços digitais, o estímulo às marcas chinesas e novos programas para bens duradouros. A lista é extensa porque o Governo procura vários tipos de procura ao mesmo tempo. Uma parte poderá ser criada através de descontos ou de incentivos à substituição de automóveis e eletrodomésticos. Outra dependerá de serviços cuja oferta ainda é escassa ou cujos custos são elevados. Há também referências ao rendimento das famílias e à proteção social, embora o plano não permita saber quanto dinheiro será reservado para essas áreas. Essa distribuição será decisiva. Um subsídio à compra produz resultados rápidos e fáceis de medir. Uma reforma das pensões demora mais, e o seu efeito sobre o comércio pode não surgir de imediato. O mesmo acontece com a cobertura de saúde, o apoio no desemprego ou a integração dos trabalhadores migrantes nos serviços públicos das cidades onde vivem. Durante décadas, Pequim não precisou de atribuir ao consumo um programa próprio. O investimento em infraestruturas, construção e indústria criava emprego e aumentava os rendimentos. A urbanização levava milhões de pessoas a comprar apartamentos e a equipá-los. O comércio crescia com a expansão do próprio modelo. A habitação ocupava uma posição central. Era uma casa, mas também a principal aplicação financeira de muitas famílias. Enquanto os preços subiam, o valor do imóvel compensava parte da insegurança associada às despesas futuras. Uma pensão modesta ou uma conta médica elevada pareciam menos ameaçadoras quando o apartamento continuava a valorizar. A China construiu fábricas. Agora precisa de consumidores O investimento imobiliário caiu 18% no primeiro semestre de 2026. A área dos projetos iniciados diminuiu 23,4%. A área dos edifícios concluídos recuou 23,7%. A crise dos promotores deixou obras interrompidas e empresas endividadas. Os governos locais perderam receitas provenientes da venda de terrenos. Para os proprietários, o efeito acumulou-se de maneira menos visível. O apartamento permaneceu no mesmo lugar, mas passou a ser mais difícil saber quanto valeria numa venda ou quanto tempo demoraria a encontrar comprador. Uma família pode manter o emprego, continuar a pagar o empréstimo e, ainda assim, reduzir as despesas. O receio não precisa de resultar de uma perda já concretizada. A possibilidade de o principal ativo valer menos do que se pensava chega para adiar uma compra que não seja urgente. Quase metade da poupança das famílias chinesas encontra-se aplicada em habitação. Uma parte adicional permanece em depósitos bancários. A escolha de aplicações seguras ganhou peso com a descida dos preços imobiliários e com expectativas mais cautelosas quanto aos rendimentos. Os gastos das famílias não desapareceram. No primeiro semestre, aumentaram em categorias como a alimentação, os transportes, o vestuário e vários serviços. Cresceram pouco para a dimensão do ajustamento que Pequim pretende fazer. Os programas de substituição de equipamentos têm utilidade neste contexto. Conseguem levar uma família a trocar um automóvel ou um frigorífico alguns meses antes do previsto. O efeito termina quando o apoio desaparece, caso os motivos que levaram essa família a poupar permaneçam intactos. As despesas médicas continuam a pesar. A cobertura das pensões varia. Milhões de trabalhadores migrantes vivem em cidades onde não beneficiam dos mesmos serviços concedidos aos residentes registados. O salário pode ser recebido no litoral industrial, enquanto parte da proteção social permanece ligada à província de origem. O Governo central pode anunciar uma melhoria destes sistemas, mas a execução depende, em grande medida, de administrações locais cuja situação financeira se deteriorou com a crise imobiliária. As receitas obtidas através dos terrenos permitiam financiar serviços e investimentos. A sua queda reduziu a margem para novas despesas precisamente quando Pequim pede aos governos locais que ajudem a sustentar o consumo. Há também uma diferença importante entre financiar uma fábrica e aumentar o rendimento disponível. No primeiro caso, o Estado conhece o destino do dinheiro. Sabe onde será construída a instalação e qual o setor beneficiado. Uma transferência para uma família pode acabar numa loja, mas pode também ficar no banco. Depois de uma crise imobiliária prolongada, poupar um rendimento adicional não seria uma resposta inesperada. As famílias precisariam primeiro de acreditar que a melhoria duraria. A China tem motivos para hesitar antes de retirar recursos à política industrial. O modelo produziu cadeias de abastecimento extensas, infraestruturas modernas e empresas capazes de competir em mercados nos quais o país dependia anteriormente de tecnologia estrangeira. Os veículos elétricos, as baterias, os painéis solares e os equipamentos de telecomunicações tornaram-se fontes de crescimento e instrumentos de autonomia económica. Muitos desses setores ainda beneficiam de crédito favorecido, apoio local e programas públicos. Uma redução brusca poderia agravar a dívida de algumas empresas e eliminar empregos em regiões que passaram a depender de determinadas indústrias. O plano de consumo acrescenta uma prioridade, mas não identifica claramente quais das anteriores receberão menos financiamento. Os números do investimento mostram essa dificuldade. A compra de equipamento aumentou 8,1% no primeiro semestre, apesar da queda de 5,7% no investimento em ativos fixos. As empresas continuaram a modernizar as linhas de produção, enquanto reduziam a construção e a instalação de novos espaços. A automatização responde ao envelhecimento da população e à diminuição futura da mão de obra. Permite aumentar a produtividade e competir em atividades de maior valor. Também reduz a quantidade de trabalhadores necessária para produzir o mesmo volume. Os empregos criados pela modernização não chegam necessariamente às pessoas que perderam funções industriais. A manutenção avançada, a engenharia e a programação requerem outras qualificações. Podem surgir noutra cidade ou apenas depois de um intervalo prolongado. A insegurança laboral não se reflete inteiramente na taxa de desemprego. Uma empresa pode manter os trabalhadores e congelar os salários. Outra reduz as contratações. Um projeto adiado significa empregos que nunca chegam a existir e rendimentos que não entram no comércio local. Entre janeiro e junho, o investimento não governamental caiu 8,5%, mais do que o indicador total. As empresas privadas, com acesso desigual ao crédito e menor proteção perante uma desaceleração, mostraram-se particularmente cautelosas. Essa prudência chega aos trabalhadores através das decisões de contratação e de remuneração. O plano pretende aumentar as despesas das famílias num momento em que parte dessas famílias observa empresas a contratar menos e fábricas a depender mais de máquinas. O consumo pode crescer sem um mercado laboral exuberante, mas será difícil torná-lo o principal motor da economia enquanto os rendimentos futuros permanecerem incertos. A procura estrangeira tem compensado parte dessa fraqueza. Em 2025, as exportações ajudaram a sustentar o crescimento, e o excedente da conta corrente terá atingido 3,3% do produto interno bruto. A inflação baixa, quando comparada com a dos parceiros comerciais, reforçou a competitividade dos produtos chineses. Cada empresa procura compradores onde os encontra. O efeito internacional surge quando milhares de fabricantes fazem o mesmo dentro de uma economia com a dimensão da China. As exportações beneficiam de vantagens que levaram décadas a construir. Os fornecedores estão próximos, os portos funcionam, a mão de obra acumulou conhecimento e a produção pode atingir volumes difíceis de reproduzir. O apoio público também faz parte desta estrutura, através do crédito, dos terrenos e das políticas locais. Reduzir toda a competitividade chinesa a subsídios seria inexato. Ignorar o papel do Estado também o seria. O resultado é uma capacidade industrial que continua a colocar produtos no exterior quando o mercado doméstico não os absorve. Os Estados Unidos e a União Europeia responderam com tarifas e investigações antissubsídios. Outros países receiam que os fabricantes chineses ocupem setores que tentam desenvolver internamente. Algumas medidas protegem empresas pouco eficientes. Outras procuram evitar que a concorrência elimine produtores locais antes de estes conseguirem ajustar os custos ou aumentar a escala. Pequim rejeita a expressão «excesso de capacidade» e aponta para a qualidade e o preço dos seus produtos. Em vários setores, as empresas chinesas possuem vantagens reais. A tensão comercial resulta precisamente da dificuldade de separar essa eficiência da fraqueza da procura interna e dos apoios que permitiram construir o atual volume de produção. Uma expansão do consumo dentro da China reduziria parte da pressão exportadora. As empresas venderiam mais no mercado doméstico. Os serviços poderiam absorver trabalhadores que já não encontram lugar nas indústrias automatizadas. O envelhecimento da população deverá aumentar a procura de cuidados de saúde e de assistência a idosos, áreas nas quais existe margem para criar emprego. O plano reserva espaço para esses serviços. Continuarão a competir por recursos com os semicondutores, a inteligência artificial, a energia e outros setores considerados essenciais para a autonomia tecnológica. Ainda não foi apresentado o modo como essa competição será resolvida nos orçamentos. A meta dos 60 biliões de yuans poderá ser alcançada através do crescimento nominal, da expansão dos serviços e de novos incentivos ao comércio. O valor total das vendas não mostrará, por si só, quanto mudou a distribuição do rendimento ou quanto diminuiu a necessidade de poupança preventiva. Essas alterações aparecerão noutros dados: no valor das pensões, na cobertura do desemprego, no peso das despesas médicas e no acesso dos trabalhadores migrantes aos serviços urbanos. Também aparecerão na recuperação do investimento privado e na estabilidade do mercado imobiliário. No primeiro semestre de 2026, a indústria transformadora cresceu 5,5%, as vendas de bens a retalho aumentaram 1,1% e o investimento imobiliário caiu 18%. O plano foi aprovado com estes números já conhecidos. Os próximos orçamentos dirão que parte do dinheiro público chegará efetivamente às famílias. Imagem: Nuno Alberto

  • Robert D. Kaplan: quarenta anos a decifrar o mundo pelo mapa

    I. Antes de Washington Antes de se tornar um escritor lido em Washington, Robert D. Kaplan era um repórter de circulação restrita. Formou-se em 1973 na Universidade do Connecticut, onde dirigiu as páginas de cultura do jornal universitário, e passou os dois anos seguintes a viajar pela Europa de Leste comunista e pelo Médio Oriente, antes de trabalhar como repórter num pequeno diário do Vermont. Em 1975 deixou os Estados Unidos e viveu, durante os dezasseis anos seguintes, sobretudo no mundo árabe e no Mediterrâneo. Cobriu a guerra Irão-Iraque a partir do terreno, em 1984. The Revenge of Geography (2012), o livro em que Robert D. Kaplan sistematiza o argumento que atravessa toda a sua obra: o mapa não desapareceu com a globalização, apenas mudou a forma como opera. O primeiro livro, Surrender or Starve (1988), partia da fome na Etiópia para defender uma leitura politicamente incómoda: a crise dos anos oitenta no Corno de África não era apenas desastre natural agravado pela seca, mas resultado de decisões políticas e coletivização forçada sob o regime de Mengistu Haile Mariam. Dois anos depois, Soldiers of God (1990) registou os anos passados junto dos mujahedin afegãos durante a guerra contra a União Soviética. Nenhum dos dois livros o converteu em figura de grande circulação. Foi aos Balcãs, no final dos anos oitenta, que essa disposição — ir ao terreno antes de fechar a tese — o levou, numa altura em que a região ainda era, para a maior parte da imprensa americana, periférica. O resultado, Balkan Ghosts, foi recusado por várias editoras antes de ser publicado em 1993. II. O livro que entrou em Washington Com a Jugoslávia já em guerra, o Presidente Bill Clinton foi visto com um exemplar de Balkan Ghosts debaixo do braço, e responsáveis da Casa Branca confirmaram, mais tarde, que a leitura pesou na hesitação inicial em enviar tropas para a Bósnia. Kaplan contestou essa utilização do livro — a leitura que via nele uma justificação para a inação que não tinha necessariamente pretendido escrever. A leitura mais polémica do livro, popularizada como a dos "ódios antigos", contestada por historiadores da região, acusa-o de fixar os Balcãs numa imagem de violência quase inscrita na história, com pouco espaço para décadas de convivência, casamentos mistos e vida urbana partilhada sob a Jugoslávia de Tito. É um debate que Kaplan já discutiu abertamente em entrevistas sobre os trinta anos do livro, sem o rejeitar por completo nem se deixar reduzir a ele. Um livro de reportagem e viagem, escrito por alguém que ainda não era figura central do establishment, entrou numa decisão de guerra. III. Da reportagem às instituições O reconhecimento tardio de Balkan Ghosts transformou Kaplan num nome consultado por instituições que pensam e executam política externa. Tornou-se consultor do Regimento de Forças Especiais do Exército, da Força Aérea e dos Fuzileiros norte-americanos; deu formação em academias militares, na CIA, na NSA e no Estado-Maior Conjunto do Pentágono; fez briefings a presidentes, secretários de Estado e da Defesa; e integrou o Defense Policy Board do Pentágono e o Executive Panel da Marinha. Entre 2012 e 2014 foi analista-chefe de geopolítica da consultora Stratfor. Hoje, as suas biografias mais recentes destacam sobretudo a ligação à Universidade do Texas em Austin e ao Foreign Policy Research Institute. Nos anos seguintes publicou uma série de livros que prolongavam o mesmo gesto inicial — ir primeiro ao terreno, teorizar depois: The Ends of the Earth, sobre espaços deixados à margem da globalização otimista dos anos noventa; Eastward to Tartary, sobre os Balcãs, o Médio Oriente e o Cáucaso; Mediterranean Winter, sobre o Mediterrâneo como arquivo de impérios e religiões; e, em 2005, Imperial Grunts, onde acompanhou forças especiais americanas dispersas pelo globo — da Colômbia à Mongólia, das Filipinas ao Iraque. Foi nesse contexto que esteve integrado com tropas no Iraque e escreveu, para a The Atlantic, "Five Days in Fallujah", sobre a campanha da Primavera de 2004. IV. A desordem antes de se tornar evidente Em 1994, um artigo — não um livro — tornou-se uma das peças mais influentes da sua carreira: "The Coming Anarchy", publicado na The Atlantic. A partir da experiência na Serra Leoa, o ensaio descrevia um mundo em que a ordem internacional deixava de se poder compreender apenas através de fronteiras formais entre Estados: um mosaico irregular de cidades frágeis, territórios informais, criminalidade, pressão demográfica e poderes locais sem enquadramento estável. A Guerra Fria tinha acabado de terminar, a globalização avançava, a democracia liberal parecia expandir-se. Kaplan olhou para as margens desse otimismo e viu fragmentação, colapso de autoridade e conflitos híbridos antes de o termo se tornar comum. Décadas depois, o ensaio continua a ser criticado pela proximidade com a tese do "Choque de Civilizações" de Samuel Huntington, e por transformar experiências localizadas numa visão considerada por alguns excessivamente sombria da ordem global. V. O Iraque e o custo do erro Kaplan apoiou publicamente a invasão do Iraque em 2003, coerente com a convicção, dessa época, de que o poder americano, exercido com disciplina, podia reorganizar espaços de instabilidade antes que se degradassem ainda mais. A ocupação revelou a distância entre derrubar um regime e construir uma ordem, e a fragilidade de uma leitura que subestimou o peso das identidades sectárias e a destruição institucional que se seguiu. Poucos defensores da guerra revisitaram essa posição com igual exposição pessoal. Em The Tragic Mind: Fear, Fate, and the Burden of Power (2023), Kaplan escreveu que sofreu de depressão clínica devido ao peso das vidas americanas e iraquianas perdidas, que sente ter contribuído indiretamente para causar através do apoio que deu à guerra. VI. O mapa antes da teoria Para Kaplan, a geografia não é pano de fundo da política internacional: é o que determina, antes de mais, o comportamento dos Estados. A tecnologia altera distâncias, mas não elimina o mar; intensifica fluxos, mas não apaga gargalos. Em Monsoon (2010), desloca a atenção estratégica para o Oceano Índico. Em Asia's Cauldron (2014), descreve o Mar do Sul da China como a Mitteleuropa do século XXI, e Taiwan como a rolha que fecha esse mar. Em The Revenge of Geography (2012), o mapa deixa de ser cenário e passa a ser a própria explicação: não desapareceu com a globalização, apenas mudou a forma como opera. A Etiópia, o Afeganistão, os Balcãs, o Cáucaso — e agora o Estreito de Taiwan. VII. Um mundo em declínio simultâneo Em Waste Land: A World in Permanent Crisis (2024), o problema deixa de ser apenas o espaço e passa a ser a coincidência histórica de Estados Unidos, China e Rússia atravessarem, ao mesmo tempo, fases de declínio relativo. Os Estados Unidos enfrentam polarização interna e fadiga estratégica; a China combina força industrial e centralização política sob Xi Jinping com envelhecimento demográfico e rigidez decisória — uma economia parte capitalista, parte autocrática, entregue a decisões cada vez mais leninistas, uma combinação que, no diagnóstico do próprio Kaplan, "não pode acabar bem"; a Rússia conserva armas nucleares e capacidade de perturbação, mas opera a partir de insegurança estratégica e declínio relativo. Durante décadas, países médios e pequenos puderam navegar entre blocos com margem de manobra. Num mundo de grandes potências simultaneamente desconfiadas e frágeis, essa margem diminui, e escolher lados torna-se mais provável, mais caro e menos reversível. VIII. O desconforto americano Kaplan tem sido crítico de uma política de defesa americana recente que, na sua leitura, substitui instrumentos diplomáticos e institucionais por demonstração de força — a que chamou "Cesarismo Americano", numa analogia direta com o declínio de Roma, onde o excesso de investimento na imagem militar coexistiu com a redução dos instrumentos "brandos" de política externa. Mesmo contrariando parte do eleitorado por quem, noutro livro, Earning the Rockies, tinha demonstrado simpatia sociológica, aplica-lhes a mesma régua que aplica à China e à Rússia. IX. Taiwan como advertência O aviso mais insistente de Kaplan não é sobre guerra deliberada, mas sobre erro de cálculo. A analogia repetida é sempre a mesma: a Alemanha de 1914 calculou mal a probabilidade de intervenção britânica em defesa da França e da Bélgica, e essa leitura errada ajudou a precipitar uma guerra que nenhum dos lados procurava à partida. Kaplan adverte que Pequim pode estar sujeita a um erro de leitura simétrico sobre a disposição efetiva de Washington para defender Taiwan — agravado pela imprevisibilidade de uma Administração que pode anunciar uma política e praticar o oposto. O que mais importa, nesse cenário, não é a doutrina declarada, mas a consistência do sinal enviado a Pequim. Taiwan concentra uma parte decisiva da produção mundial de semicondutores avançados, e o Mar do Sul da China é um corredor central do comércio internacional. Ao contrário de outras guerras recentes, que os mercados globais foram absorvendo com resiliência notável, um conflito no Estreito de Taiwan atingiria diretamente cadeias industriais, energia e credibilidade americana — um cenário que Kaplan já descreveu como um "extinction event" para os mercados financeiros globais. X. Não uma coleção de opiniões avulsas Da Etiópia ao Afeganistão, dos Balcãs ao Iraque, do Índico ao Estreito de Taiwan: começar no terreno, desconfiar de abstrações demasiado limpas, levar a geografia a sério, tratar a história como presença e não como arquivo, entender o poder como instrumento necessário mas perigoso. Kaplan foi criticado muitas vezes, e algumas dessas críticas têm fundamento — a leitura fatalista dos Balcãs, o apoio ao Iraque revelado, anos depois, como erro de avaliação grave. Recensão Há uma frase, algures a meio deste livro, que Robert D. Kaplan usa quase de passagem: a de que a geografia é "o que a política internacional tenta esquecer, e paga caro por isso". Lida de Lisboa, é uma frase que trai o seu próprio limite: há uma geografia inteira que este livro esquece, e por cujo esquecimento não paga preço nenhum, precisamente porque quem escreve nunca precisou de olhar para ela com atenção. O argumento central é conhecido, e Kaplan expõe-no com a clareza didáctica que o caracteriza: a Eurásia — o "world island" de Mackinder — continua a ser o tabuleiro onde se decide o poder global, e quem controla o seu centro, o Heartland, ou os seus rebordos populosos, o Rimland de Spykman, controla o essencial da história. É um regresso deliberado a pensadores fora de moda — Mackinder, Spykman, Mahan, Hodgson — que Kaplan resgata do desprezo académico em que caíram depois de o nazismo ter deformado a teoria do Heartland numa justificação de Lebensraum. O livro divide-se em três partes: uma revisão desses "visionários" esquecidos; um périplo pelo mapa do início do século XXI, região a região — a Europa dividida, a Rússia insegura, o Irão como charneira entre Heartland e Rimland, a China a tentar transformar o Pacífico Ocidental num lago próprio; e uma parte final, mais curta, sobre o destino geográfico dos próprios Estados Unidos. O capítulo sobre a Rússia é notável: um país que se estende por cento e setenta graus de longitude sem uma única barreira natural significativa, invadido repetidamente — lituanos, polacos, suecos, franceses, alemães —, para quem a insegurança não é traço de carácter mas condição geográfica. O capítulo sobre o Irão é, provavelmente, o mais original: a tese de que o planalto iraniano é o único ponto onde o Heartland de Mackinder e o Rimland de Spykman se tocam fisicamente, e de que a influência iraniana sobre o Iraque pós-2003 não é esquema político mas geografia a exprimir-se por conta própria. Siga-se o mapa até ao fim, e chega-se a um ponto onde ele simplesmente pára. A Europa que Kaplan descreve é a Europa Central e de Leste — a fronteira alemã, a Polónia, os Balcãs, o antigo território otomano —, porque é aí que o Heartland pressiona o Rimland e a teoria produz previsões interessantes. A fachada atlântica — Portugal, mas também a Galiza, a costa francesa, a Irlanda — não tem lugar próprio no argumento, porque não tem fronteira terrestre com o Heartland que a ameace nem posição no Rimland que a torne charneira estratégica. Um recensor da Association of American Geographers já notou, com alguma severidade, que Kaplan cita apenas nove geógrafos sensu stricto em todo o livro, quase todos do início do século XX, e nenhum geógrafo político contemporâneo — como se a disciplina tivesse parado em 1904, no artigo de Mackinder sobre o "pivô geográfico da história". É uma escolha deliberada: Kaplan procura precisamente os "pensadores fora de moda", como escreve na introdução. O efeito colateral é que a Eurásia continental, terrestre, imperial, se torna o único tipo de geografia que conta como geografia a sério — e o Atlântico, esse espaço que Portugal e Espanha organizaram durante séculos a partir de uma lógica exactamente inversa, marítima e não continental, fica reduzido a pano de fundo. O pensamento estratégico que Portugal produziu — não em tratados formais, mas na prática de séculos de expansão atlântica, de Ceuta a Malaca, de uma pequena faixa costeira que se tornou império precisamente por não ter Heartland nenhum para disputar — é a prova viva de que o argumento de Kaplan é incompleto, não errado. A geografia não determina apenas quem controla o centro do "world island"; determina também que um pequeno território sem profundidade continental, colado ao Atlântico, sem outra saída senão o mar, é empurrado por essa mesma geografia para uma vocação marítima que o Heartland nunca poderia gerar nem compreender bem. Kaplan sabe disto — é, no fundo, a mesma lógica que aplica a Mahan e ao poder naval — mas nunca a aplica à Península Ibérica com o mesmo rigor que aplica à Rússia ou à China. A vista de Lisboa, se este livro a tivesse incorporado, teria mostrado uma terceira categoria, a da potência marítima periférica sem ambição continental, que não é Rimland em disputa nem Heartland fechado, mas algo mais antigo e mais simples — uma fachada para o oceano, e nada mais atrás dela que valha a pena defender por terra. É um livro escrito por alguém que passou a vida a atravessar o Heartland e os seus rebordos: a densidade histórica é real, a erudição é real, o instinto de que a geografia continua a mandar recados que a globalização prometeu calar está certo. Um leitor que chegue a este livro a partir do Atlântico, e não de Washington, sente onde o mapa de Kaplan termina — não porque a geografia aí se torne menos importante, mas porque deixou de ser a geografia que Kaplan sabe ler. Ficha bibliográfica Kaplan, Robert D. The Revenge of Geography: What the Map Tells Us About Coming Conflicts and the Battle Against Fate. Nova Iorque: Random House, 2012. ISBN 9781400069835.

  • Portugal no vocabulário pessoal de Trump

    Donald Trump enviou uma mensagem aos portugueses por ocasião do 4 de Julho. A embaixada norte-americana em Lisboa publicou o vídeo. O presidente elogiou Portugal, falou da relação entre os dois países, felicitou o embaixador John Arrigo e deixou a promessa vaga de uma visita: “talvez em breve”. A diplomacia vive também destes sinais. Vídeos curtos, frases calorosas, gestos simbólicos, palavras que confirmam alianças antigas sem as pôr à prova. Mas o interesse da mensagem não está na cortesia. Está na ordem em que Trump decide contar a história. No vídeo dirigido a Lisboa, Portugal surge menos como interlocutor histórico do que como lugar escolhido, apreciado e validado dentro da rede pessoal do presidente americano. O vídeo não começa por Portugal enquanto país, nem pela relação luso-americana, nem pela comunidade portuguesa nos Estados Unidos, nem pela Base das Lajes, nem pela NATO, nem pelo Atlântico. Começa por John Arrigo, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa. Trump apresenta-o como “grande amigo”, recorda que fez dinheiro no setor automóvel, sublinha que lhe deixou escolher o posto e que Arrigo escolheu Portugal. Depois vêm os campos de golfe, a qualidade pessoal do embaixador, a sua competência, o seu carácter. Portugal entra no discurso como cenário de uma relação pessoal. Na diplomacia clássica, o embaixador representa o Estado. Na linguagem de Trump, o Estado passa muitas vezes por uma rede de pessoas: amigos, leais, vencedores, homens de negócio, figuras que escolheram um lugar porque gostam dele ou porque se ajusta ao seu estilo de vida. A relação entre países continua a existir. Mas é narrada através da confiança direta, do estatuto, da reciprocidade e do reconhecimento pessoal. Quando Trump diz que “adoramos Portugal”, a frase funciona em vários planos. Para o público português, é agradável. Para a embaixada, é útil. Para Arrigo, é uma validação pública. Para a administração americana, é um gesto de normalidade diplomática no ano dos 250 anos da independência dos Estados Unidos. A assinatura política é reconhecível: Trump não fala apenas de alianças; fala de pessoas que escolhe, de lugares que aprecia, de relações que personaliza. O elogio pode ser sincero. Trump pode gostar de Portugal, apreciar os campos de golfe, valorizar a relação bilateral e considerar Arrigo um bom representante. O ponto não é esse. O que interessa é o modo como a frase organiza o mundo. Para Trump, a política externa tende a caber numa narrativa simples: amigos e adversários; bons negociadores e maus negociadores; países que respeitam os Estados Unidos e países que se aproveitam deles; líderes fortes e líderes fracos. A diplomacia deixa de aparecer como um tecido paciente de instituições, tratados e equilíbrios. Passa a ser uma relação entre protagonistas. Conta quem está à mesa, quem tem acesso, quem é confiável, quem sabe negociar, quem merece elogio público. O detalhe de o embaixador ter escolhido Portugal não é neutro. Noutro presidente, talvez desaparecesse. Em Trump, torna-se central. O cargo diplomático aparece quase como uma escolha pessoal concedida por quem distribui lugares. Portugal surge como prémio, preferência, destino desejável. Alguém competente, próximo do chefe, recebe uma missão num país que valoriza. A cortesia diplomática diz: Portugal e Estados Unidos são aliados antigos. A linguagem trumpista acrescenta: esta relação é boa porque há pessoas certas nos lugares certos. O país é importante, mas a pessoa que o representa quase se torna tão importante como o país representado. Para Portugal, a mensagem é confortável. Nenhum governo português se queixará de ouvir um presidente americano dizer que gosta do país. Num sistema internacional instável, qualquer sinal de atenção vindo de Washington tende a ser recebido como confirmação de relevância. Portugal tem uma relação antiga com os Estados Unidos, uma posição atlântica importante, uma diáspora numerosa e uma utilidade estratégica que excede a sua dimensão territorial. Ser lembrado, mesmo num vídeo informal, não é irrelevante. O elogio de Trump recorda também a forma como pequenas e médias potências entram na política externa americana contemporânea: por vezes, menos pela sua profundidade histórica do que pela sua utilidade narrativa. Portugal pode ser o aliado simpático, o país seguro, o destino agradável, o lugar de golfe, o parceiro sem fricção, o posto escolhido por um embaixador amigo. A imagem é positiva, mas estreita. Transforma uma relação atlântica complexa numa cena leve de afinidade pessoal. A relação entre Portugal e os Estados Unidos não precisa de ser dramatizada para ser relevante. Existe na geografia, na segurança atlântica, nas comunidades emigrantes, na diplomacia multilateral, na energia, nos cabos submarinos, na Base das Lajes, na circulação económica e cultural. No vídeo, quase nada disso aparece. O que aparece é a superfície trumpiana da diplomacia: amizade, sucesso individual, escolha pessoal, golfe, elogio, promessa vaga de visita. Trump não fala de Portugal como um diplomata tradicional falaria. Fala como Trump. Mesmo quando elogia, deixa ver uma ideia de poder: os Estados não desaparecem, mas passam por relações pessoais; as instituições continuam no cenário, mas a atenção recai sobre os homens que o presidente conhece; a política externa mantém os seus rituais, mas é narrada como extensão da lealdade e da proximidade. Portugal recebeu uma frase simpática. “Adoramos Portugal” é uma boa manchete, uma boa publicação de embaixada, um bom gesto de ocasião. No vídeo para Lisboa, porém, Portugal aparece menos como interlocutor histórico do que como lugar escolhido, apreciado e validado dentro da rede pessoal do presidente americano.

  • Ceuta e Melilla: Washington Pôs a Soberania em Causa

    Não é preciso imaginar como seria a reação de Washington se um comité do parlamento chinês escrevesse, num documento oficial, que Taiwan está situada em território da República Popular e que o seu "futuro estatuto" devia ser discutido entre Pequim e Taipé. Seria manchete, seria convocada uma resposta diplomática formal, seria tratado como um ato hostil deliberado. Foi uma versão desse gesto, praticada desta vez por um terceiro Estado que nem sequer é parte na reivindicação territorial, que um comité da Câmara dos Representantes escreveu sobre Espanha em abril. Um relatório de uma comissão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos apresentou Ceuta e Melilla como territórios situados em Marrocos e defendeu o diálogo sobre o seu futuro estatuto. A passagem permaneceu no relatório oficial que acompanha o projeto de lei posteriormente aprovado pela Câmara, embora não faça parte do articulado votado. E o mais notável não é o parágrafo em si. É que quase ninguém em Madrid o tenha tratado como grave. Os factos, sem adjetivos: a Comissão de Dotações Orçamentais da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos apresentou, a 30 de abril de 2026, o relatório sobre o H.R. 8595, projeto de lei de dotações para a diplomacia americana e segurança nacional no ano fiscal de 2027. O relatório, identificado como H. Rept. 119-631, contém esta frase, confirmada junto do documento oficial pelo verificador de factos espanhol Maldita.es: "The Committee notes that the Spanish-administered cities of Ceuta and Melilla are located in Moroccan territory and remain the subject of Morocco's longstanding claim." Mais adiante, o mesmo relatório declara apoio a que o Secretário de Estado promova "diplomatic engagement between Morocco and Spain on the future status of Ceuta and Melilla". O texto invoca ainda o Tratado de Paz e Amizade de 1786 entre os Estados Unidos e Marrocos, e determina um mínimo de quarenta milhões de dólares em assistência a Marrocos para 2027: pelo menos vinte milhões através dos Programas de Investimento em Segurança Nacional, pelo menos vinte milhões através do Programa de Financiamento Militar Externo. A Câmara aprovou o projeto de lei a 15 de julho, por 217 votos contra 209. Do lado republicano, um único voto contra: Thomas Massie. Este parágrafo não caiu de um relatório genérico escrito por um funcionário anónimo. O relatório foi apresentado por Mario Díaz-Balart, republicano da Flórida, vice-presidente da Comissão de Dotações e presidente do subcomité que controla exatamente o financiamento da diplomacia do Departamento de Estado, e a passagem coincide com uma posição que ele já defendera publicamente. É descrito pelo El Español como um dos congressistas mais próximos do Secretário de Estado Marco Rubio. Numa entrevista a esse jornal, publicada a 1 de abril, Díaz-Balart já tinha dito o mesmo sem rodeios: que Ceuta e Melilla "não estão em Espanha, mas sim em Marrocos", e que este tipo de questão "se discute entre amigos e aliados". O documento oficial não identifica um autor individual do parágrafo, e relatórios deste tipo são normalmente redigidos por equipas técnicas da comissão; mas a coincidência entre o texto e a posição pessoal, pública e reiterada de quem preside ao subcomité não é despicienda. É verdade, e importa dizê-lo com o mesmo rigor com que se denuncia o resto, que o relatório não é lei. A linguagem de um relatório de comissão orienta tradicionalmente as agências federais, mas não tem força vinculativa; o articulado do H.R. 8595 não contém uma única palavra sobre Marrocos, Espanha, Ceuta ou Melilla, e a aprovação do projeto de lei pela Câmara não significa que os 217 representantes que votaram a favor tenham lido, aprovado ou subscrito aquela formulação específica. O próprio projeto de lei, já aprovado na Câmara, segue agora para o Senado, e falta ainda a assinatura presidencial. Nada disto mudou, do ponto de vista jurídico, uma vírgula da soberania espanhola sobre os dois territórios, e o próprio Maldita.es, ao verificar esta história, chegou à mesma conclusão: as frases são reais, mas nada nelas transfere ou autoriza transferir território. Mas tratar isto como irrelevante por não ser vinculativo é confundir direito com poder. Um relatório de comissão apresentado por quem preside ao subcomité que financia a diplomacia americana não é uma opinião perdida nas redes sociais: é um texto que pode orientar a execução administrativa, sinalizar prioridades ao Departamento de Estado e servir de referência política em decisões futuras. Aquele relatório introduziu, num documento oficial do Congresso, uma formulação que põe em causa a apresentação da soberania espanhola como matéria politicamente encerrada. Passou a ser, aos olhos de quem escreveu este parágrafo, uma questão em aberto, a resolver "entre amigos e aliados". Isso é precedente, mesmo sem ser lei, e precedentes têm o hábito de deixar de ser excecionais a segunda ou terceira vez que se repetem. Não é um episódio isolado dentro do próprio debate americano, e, ao contrário do que a sequência dos factos podia sugerir, não começou sequer com o relatório de abril. A 16 de março, semanas antes de Díaz-Balart dar a entrevista já citada, Michael Rubin, investigador sénior do American Enterprise Institute e colaborador do Middle East Forum, publicou um artigo nesse último espaço a defender que Marrocos deveria organizar uma "nova Marcha Verde" sobre Ceuta e Melilla. Os dois textos não demonstram coordenação nem influência recíproca: nada nas fontes disponíveis liga um ao outro. Revelam, contudo, que a tese marroquina passou a encontrar expressão em espaços políticos e intelectuais distintos, em Washington, durante o mesmo período. A resposta espanhola ao relatório de abril, essa sim, é a parte deste episódio que devia gerar mais desconforto em Madrid do que gerou. O ministro dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Albares, limitou-se a reafirmar, de forma genérica, que a espanholidade dos dois territórios não deixa lugar a dúvidas. É uma frase correta e, ao mesmo tempo, uma resposta insuficiente perante um comité de um parlamento aliado a escrever, num raro precedente, o contrário por escrito. Até à data, não foi tornado público qualquer protesto diplomático formal nem uma convocação do representante norte-americano por causa daquela passagem, o que não exclui a possibilidade de terem existido contactos reservados sem registo público. Há uma coincidência de calendário que vale a pena registar sem exagerar o seu significado: cerca de duas semanas depois de a Câmara aprovar o projeto de lei, durante a noite de 30 para 31 de julho, cerca de 50 mil pessoas entraram irregularmente em Ceuta a partir de Marrocos, segundo dados do Ministério do Interior espanhol; mais de 48 mil regressaram a Marrocos nas horas seguintes. A crise provocou dezenas de mortos, muitos deles por afogamento. Os balanços divergiam a 3 de agosto: pelo menos 72 do lado espanhol, segundo as autoridades de Ceuta, e 11 do lado marroquino, segundo o Ministério do Interior de Marrocos; a morgue de Ceuta registava 88 corpos, mas as próprias autoridades locais advertiam que esse total incluía cadáveres de tentativas de travessia anteriores a este episódio. A Associação Marroquina dos Direitos Humanos contestava todos estes números, estimando cerca de 130 vítimas. Pedro Sánchez, que se deslocou a Ceuta, classificou o sucedido, segundo comunicado oficial de La Moncloa, como "um ataque, uma violação da integridade territorial de Espanha". Não há, nas fontes disponíveis, prova de qualquer ligação causal entre o relatório do Congresso e essa entrada em massa, e sugerir uma não seria rigor, seria especulação vestida de análise. O que é razoável dizer, e nada mais do que isso, é que os dois episódios, coincidentes no tempo, tornam ainda mais visível o contraste entre as duas respostas de Madrid. Ao relatório de abril, Madrid respondeu com uma reafirmação genérica da soberania espanhola. À crise fronteiriça de julho, Sánchez respondeu com uma linguagem muito mais dura, uma deslocação ao terreno e uma condenação pública explícita. Nenhuma destas peças, isoladamente, obriga a alarme: um relatório de comissão não é uma declaração de política externa dos Estados Unidos, uma entrevista de um congressista não é a posição do Departamento de Estado, um artigo de opinião de um think tank não é a Casa Branca a falar. Na minha leitura, a soma destas peças constitui um dos testes mais sérios dos últimos anos à capacidade de Madrid para defender politicamente a sua posição sobre Ceuta e Melilla. A resposta à crise fronteiriça de julho mostrou que essa capacidade existe quando o Governo decide exercê-la. Ao parágrafo escrito em Washington, por enquanto, Madrid ainda não respondeu com a mesma força. #Ceuta #Melilla #Espanha #Marrocos #EstadosUnidos #CongressoDosEUA #Washington #Soberania #PolíticaExterna #Geopolítica #Diplomacia #AtlanticLisbon

  • O Livro do Sal e da Cinza - Genocídio em Darfur

    Há lugares do mundo que se tornam, de tempos a tempos, um espelho partido onde a humanidade se olha e não se reconhece. Darfur é um desses lugares. Digo “lugar” e falho a escala; digo “humanidade” e falho a intimidade do desastre. Entre o silêncio e a cinza: o que ainda resta da nossa humanidade em Darfur? Genocídio em Darfur Entre as duas falhas ergue-se um vazio: é o intervalo onde moram as crianças que não voltarão a ter nome, os velhos que já não guardam as safras, as mulheres que choram em voz baixa para não ensinar o medo às filhas. Não é uma metáfora. É um país inteiro a afundar num pântano de pó e de pólvora, enquanto as grandes capitais treinam a arte da linguagem que diz tudo sem comprometer nada. Recordo-me de 2003 como quem regressa a uma sala de aula antiga: um mapa no quadro, setas vermelhas a indicar a geografia do horror, siglas novas, debates improvisados na rádio, petições que corriam de mesa em mesa. Havia, ao menos, um rumor de urgência—uma consciência incerta de que a palavra “genocídio” não devia ser pronunciada em vão. Passaram mais de vinte anos e ficámos especialistas em relativizar a urgência. Aprendemos a sentar-nos à mesa com a desgraça e a falar dela num tom conveniente. Construímos a liturgia da preocupação: relatórios, briefings, notas de imprensa, fotografias com fundo neutro e soberba discreta. Entre uma cimeira e outra, os mortos arrumam-se sozinhos. Alguém me dirá: “Mas o mundo é complexo; as alianças mudam; as potências regionais jogam a sua partida”. Quem disser isto tem razão—e, apesar disso, erra. Porque há complexidades que não absolvem, apenas adiam o juízo. O adulto que decide ignorar o choro da criança fá-lo com as melhores justificações: está cansado, não quer interferir, não sabe por onde começar. O resultado, porém, permanece: a criança ficou sozinha. É esta a lição amarga de Darfur. Não nos faltam argumentos; falta-nos a coragem que devolve às palavras o valor de um começo. A cidade de El Fasher caiu. Escrevo a frase devagar, como quem pousa um cálice para não o partir. Caiu, dizem as agências; eu prefiro dizer: “foi empurrada”. Porque as cidades, como os homens, raramente caem de livre vontade. Primeiro cercam-se os caminhos do pão, depois envenenam-se as fontes, por fim reescreve-se o mapa das saídas até que fugir deixe de ser uma hipótese e se torne apenas um outro nome para morrer mais tarde. Uma muralha de terra pode ser, em certas latitudes, uma sentença. Mas é uma sentença moderna: drones, artilharia, colunas de pick-ups como cavalaria de metal. Muda o cenário, a coreografia é a mesma: um grupo armado que aprende depressa, um exército regular que desaprende mais depressa ainda, e uma população civil abandonada à pedagogia da brutalidade. Não me interessa, aqui, o inventário exaustivo das facções. Interessa-me o mecanismo moral que permite a repetição. Em 2003, a nossa linguagem ainda corava. Em 2025, domina a técnica do desvio. O ministro fala em “preocupação séria”, o enviado especial “avalia com atenção”, o parceiro estratégico “nega qualquer envolvimento”. E no entanto chegam, por rotas que toda a gente conhece e ninguém confirma, os fluxos que alimentam as máquinas da morte. Um homem que vende armas aprende cedo a suportar o peso do silêncio—porque o silêncio rende. É uma contabilidade feita em divisas fortes, ao abrigo do calor limpo do ar condicionado, com vista para uma cidade que brilha à noite. O que arde em Darfur não incomoda as luzes da avenida. Acusam-me, às vezes, de dramatismo: “A tua prosa acende velas onde devias acender holofotes”. Talvez. Mas, ao contrário do que se pensa, as velas não substituem os holofotes; recordam-lhes o ofício. A luz pequena é a única que resiste ao corte da eletricidade. E o mundo, nos seus pontos cegos, funciona como um bairro de fornecimento incerto: a qualquer momento a rede cai, e só fica acesa a lâmpada dos que se debruçam por cima da mesa para continuar, apesar de tudo, a ler. Ler é a primeira forma de resistência. Ler devagar, com atenção, sem permitir que a linguagem feita para neutralizar nos adormeça. Quando nos dizem “tragédia humanitária”, devemos ouvir “pessoas concretas”. Quando nos dizem “sítio remoto”, devemos ver um rosto. Quando nos dizem “equilíbrios regionais”, devemos perguntar “a favor de quem?” Sei que há, em cada um de nós, uma fadiga que se confunde com maturidade. “Já vimos isto”, pensamos, “isto repete-se”. Mas a repetição não é argumento para a indiferença; é precisamente o seu fruto. Não há ciclo histórico que não seja alimentado por resignações individuais. E não, não creio no moralismo fácil do “se cada um fizesse a sua parte”. A nossa parte—essa expressão modesta e grandiosa—nem sempre é dar dinheiro, assinar petições, partilhar um post. Às vezes, a nossa parte é mais difícil: manter viva a capacidade de reconhecer um crime mesmo quando os seus autores aparecem de gravata; recusar o léxico que transforma vítimas em “colaterais”; aprender a dizer “genocídio” quando todos esperam que digamos “conflito”. É uma guerra também de palavras, e perdê-la é preparar a derrota seguinte no terreno. Quem são, afinal, os nossos aliados? A pergunta não é diplomática, é moral. Um aliado é alguém com quem partilho não o interesse, mas a medida do humano. Se nos habituámos a pactuar com quem financia a devastação—e depois a cobrir o mal com uma manta de eufemismos—, então perdemos o critério que tutela a possibilidade do futuro. “Mas o mundo funciona assim”, replicam-me. Só funciona assim porque aceitámos que funcione. Houve um tempo em que as igrejas, as universidades, os jornais, os sindicatos, as ordens profissionais erguiam a voz e, com todas as suas contradições, impunham uma vigilância ética às escolhas do poder. Hoje, muitas dessas instituições aprenderam a arte da gestão reputacional: dizem o que é suficiente para não perder prestígio, nunca o que é necessário para não perder a alma. A diferença é subtil no currículo; é abissal no juízo. Que fazer, então, deste “aqui e agora” que nos envergonha e nos paralisa? Não tenho um plano para salvar Darfur. Tenho, apenas, uma teimosia: a de nomear. Nomear é o primeiro ato político. Um povo sem nome desaparece; um crime sem nome repete-se; um agressor sem nome é promovido. Precisamos de restituir às palavras o seu peso específico. Quando a esfera pública chama “intervenção” ao que é invasão, “estabilização” ao que é ocupação, “apoio logístico” ao que é cumplicidade, uma comunidade de falantes fica mais pobre e, por isso, mais governável. A pobreza da língua é o melhor investimento da tirania. Há quem fale de “choque civilizacional” para explicar o que não quer compreender. É uma expressão conveniente porque poupa trabalho: cria um antagonista metafísico e apaga responsabilidades concretas. O que está em curso, porém, não é a colisão entre civilizações; é a colisão entre interesses e vidas. Se a civilização significa alguma coisa, é a primazia da vida sobre o interesse. Quando perdemos esse eixo, podemos ter arranha-céus de três dígitos e escritórios inteligentes; seremos, ainda assim, bárbaros de luvas brancas. O século XXI ensinou-nos a combinar sofisticação técnica com regressão ética. Chamamos “melhoria” a tudo o que se move depressa. Mas nem todas as velocidades redimem; algumas apenas aceleram o caminho para a queda. Penso, com frequência, nos rostos que não veremos. A política internacional gosta de mapas sem gente; a televisão prefere estatísticas que caibam num gráfico. Mas uma comunidade que abdica de imaginar o rosto do outro prepara, sem o saber, a sua própria desintegração. O rosto do outro é o meu espelho moral. Não falo de sentimentalismo; falo de uma disciplina. Exige-se, hoje, um treino do olhar que nos restitua à experiência da singularidade. Não é fácil. Vivemos distraídos por design; educados para preferir o fluxo à presença. O rosto—qualquer rosto—é uma interrupção: convoca-nos, desarruma a agenda, impede que o sofrimento seja apenas “conteúdo”. Por vezes, é a poesia que chega primeiro onde a política tarda. Um verso, uma imagem, uma narrativa curta podem furar o verniz do cansaço. Não defendo que substituamos a ação pela estética; proponho que deixemos a linguagem respirar de tal modo que recupere a potência de agir. Em Darfur, como em tantos sítios de fronteira, a poesia não é luxo: é a forma concreta de dizer “a vida não acabou”. É por isso que os que esmagam civilizações começam sempre por empobrecer a canção, a aula, a praça. Controlar a voz é a metade do caminho para controlar o corpo. Escrever sobre Darfur, desde Portugal, é expor-se à acusação de distância. Aceito a acusação e devolvo uma pergunta: que outra coisa temos senão a distância para aprendermos a responsabilidade? A proximidade cria laços, mas também ilude: o vizinho que vemos torna-se, por definição, o mais real. A distância obriga a uma escolha moral mais exigente: reconhecer como “meu” alguém que não fala a minha língua, não reza no meu templo, não comerá nunca à minha mesa. Essa escolha—o reconhecimento de uma fraternidade que não se funda na familiaridade—é a pedra de toque de qualquer civilização que queira merecer esse nome. Lembro-me de um velho professor que dizia: “O inverso do ódio não é o amor; é a indiferença”. Discuti com ele a frase, por achar que o amor devia ser o oposto de tudo o que destrói. Hoje, começo a entender: o ódio, pelo menos, concede a presença; a indiferença retira-a. É a indiferença que permite as contabilidades frias, as reuniões para “avaliar cenários”, as parcerias que se multiplicam nos salões de hotéis. O ódio mata; a indiferença cria o clima onde matar deixa de ser um escândalo e passa a ser um dado. Por isso, a primeira militância que vos proponho é simples e radical: não sejamos indiferentes. Não por caridade; por justiça. “Mas o que queres que eu faça, agora, aqui, neste instante concreto?” Talvez apenas isto: recusar a anestesia. Ler mais, melhor, demoradamente. Exigir nomes, datas, cadeias de decisão, transferência de recursos. Perguntar aos nossos governantes que escalas morais os guiam quando apertam as mãos certas e evitam pronunciar as palavras perigosas. Cobrar às empresas que financiam, por via direta ou indireta, a perpetuação do horror: não apenas relatórios ESG elegantes, mas a coragem de perder um contrato. Reaprender a boicotar o que nos fere por dentro. Reaprender a recompensar quem paga um preço por dizer a verdade. Reaprender, enfim, a aceitar que o sofrimento do outro é um acontecimento político no meu país. “E a religião?”—perguntam-me alguns, com a gentileza desconfiada que reserva à fé um lugar lateral, decorativo. Respondo-lhes com a franqueza possível: se a religião não for capaz de gritar por Darfur, não merece o seu nome. E digo “religião” em sentido amplo: a busca daquilo que nos liga a algo maior do que nós. Não estou a pedir sermões; peço liturgias de justiça. Peço a coragem de nomear o pecado com rigor: é pecado beneficiar do sangue alheio, é pecado negociar a vida, é pecado travestir de “prudência” o medo, é pecado confundir neutralidade com sabedoria. A neutralidade, em tempos de massacre, é uma forma requintada de cobardia. Os evangelhos—que tantos gostam de citar nos almoços de domingo—são muito claros: quem passa adiante do homem caído não é neutro; é cúmplice. Se isto vos parece duro, pensem na dureza de uma mãe que alimenta o filho com ração animal. É essa imagem, quase inaceitável, que devíamos projetar nas paredes limpas onde se reúnem os homens importantes. Que cada discurso começasse por essa fotografia invisível: uma mulher a dividir a vergonha com a necessidade. Entre nós, há quem diga que “a política é a arte do possível”. Eu proponho uma emenda: a política é a arte de alargar o possível para salvar o necessário. Se o possível inclui pactos que sustentam a morte, então é a própria arte que precisa de ser reaprendida. Há, claro, quem procure consolo em comparações. “Há tragédias em todo o lado”, dizem, como quem distribui culpas para não assumir nenhuma. É verdade: o mapa do sofrimento é amplo. Mas a amplitude não nos dispensa da precisão. Quem tudo lamenta, nada enfrenta. A coragem não se mede pelo número de causas que abraçamos; mede-se pela coerência com que recusamos a lógica que as envenena a todas. Essa lógica, hoje, chama-se utilitarismo de gabinete: o cálculo que transforma princípios em variáveis. Um homem decente pode ceder uma vez; uma comunidade decente não pode fazer da cedência um método. Talvez o mais difícil, neste momento, seja reaprender a esperança. Não a esperança ligeira, distraída, que se resolve em slogans. A esperança que peço tem textura de trabalho: teima, demora-se, admite derrotas, corrige-se, volta. É a esperança dos que constroem um poço sabendo que a água não chega amanhã. Numa época apaixonada por resultados imediatos, esta esperança custa a aceitar. Preferimos promessas de impacto a seis meses; preferimos o gráfico que sobe; preferimos a fotografia de grupo. Mas a justiça—essa ciência frágil—cresce como as árvores: leva tempo, precisa de raízes, suporta ventos. Não prometo, portanto, finais luminosos. Prometo, apenas, que cada gesto coerente vale por si e por quem virá depois. É pouco? É tudo o que temos quando as cidades caem. Escrever, para mim, é uma forma de testemunho. Não substitui a ação; recusa o esquecimento. Quando termino uma página, imagino sempre um leitor que me contradiz: “Para que serve isto?” Respondo-lhe sem ironia: serve para que, no dia em que te pedirem silêncio em nome da prudência, tu reconheças a armadilha. Serve para que, quando te disserem que “não há provas”, tu saibas onde procurá-las e a quem cobrar. Serve para que, se algum dia tiveres de escolher entre ganhar influência e guardar a consciência, tu aches natural perder influência. Há decisões que só se tomam bem quando foram preparadas por uma longa fidelidade ao que sabemos ser verdade. E a verdade, aqui, é esta: estão a matar pessoas em Darfur com a ajuda direta ou indireta de quem podia impedi-lo. O resto são notas de rodapé. Podemos discutir pormenores, e devemos: quem financia, quem arma, quem protege, quem lucra. Mas o enunciado principal é inamovível. É a partir dele que devemos reordenar a agenda. Tudo o que não servir este enunciado serve, de algum modo, o seu contrário. Às vezes, no fim de um texto, tento construir uma imagem que me ajude a guardar o essencial. Hoje, vejo uma mesa de madeira, lisa, comprida, num pátio sem paredes. Em cima da mesa, um livro grosso editado sem luxo. O título: O Livro do Sal e da Cinza. Sal: o que conserva, o que impede a corrupção, o que dá gosto ao que seria insípido. Cinza: o que sobra do fogo, a memória do que ardeu. Este livro imaginário reúne as histórias de quem, num tempo de deserto, não aceitou que a fome fosse apenas um “contexto”. É um livro escrito por mãos diversas: a médica que ficou mais uma semana no hospital cercado; o jornalista que recusou a equivalência cínica entre algozes e vítimas; o padre que abençoou sem perguntar pela filiação; a embaixadora que perdeu o lugar por ter dito o que não era para dizer; o cidadão anónimo que sustentou, discretamente, um corredor de fuga. Quero, quando me for pedido o balanço do meu tempo, poder inscrever uma linha nesse livro. Talvez esta página seja, para mim, um começo. Que ninguém se iluda: não há neutralidade possível diante de um massacre. A neutralidade é um país confortável, com iluminação pública e boas escolas, onde se vive sem sobressaltos e se aprende a arte de não ver. Mas o conforto tem um preço: as fronteiras desse país alargam-se às custas de terras devastadas, e um dia, sem aviso, a devastação atravessa a ponte e instala-se no centro da cidade. Pagamos então em pânico o que antes recusámos em coragem. Ainda vamos a tempo de outra economia: a que investe já na honestidade, mesmo quando não rende dividendos; a que escolhe parceiros por caráter e não só por capacidade; a que devolve à justiça o seu lugar primeiro e à diplomacia o seu nome limpo. Termino como comecei: Darfur é um espelho partido. Se não gostamos do que vemos, não vale a pena fugir do espelho. É preciso refazer o rosto. Não é uma operação plástica; é uma conversão. As conversões não acontecem por decreto; nascem de gestos pequenos, repetidos, fiéis. Talvez a nossa geração não consiga resolver o que outras deixaram por fazer. Mas pode, ao menos, interromper a herança da indiferença. Pode ensinar aos seus filhos que “longe” não é sinónimo de “irrelevante”. Pode exigir, das suas instituições, menos publicidade e mais coragem. Pode começar hoje, sem comunicados, sem bandeiras, sem selfies. Às vezes, começar é calar para ouvir; outras vezes é levantar a voz sabendo que ela treme; quase sempre é insistir quando a desistência parecer sensata. Em El Fasher, alguém há de estar a guardar uma história para a contar quando for possível contar. Guardemos, deste lado, a responsabilidade de a escutar sem negociar a verdade. Que quando esse alguém disser “caímos”, nós possamos responder “levantámo-nos contigo”. E que, ao dizê-lo, não mintamos. Porque há promessas que não se fazem ao acaso. São promessas que fundam uma comunidade. Se ainda somos capazes de prometer, então ainda somos capazes de recomeçar. E este recomeço—chamem-lhe política, ética, fé, cidadania—talvez seja o primeiro gesto que devolve à palavra “humanidade” um sentido que não envergonhe os mortos. © Rockwell — Imagem do arquivo Unsplash, utilizada com autorização para fins editoriais Deserto de Darfur - Paisagem de deserto com árvores dispersas, tons de areia avermelhada e céu pálido #Darfur #Sudão #DireitosHumanos #Genocídio #AlbertoCarvalho #Reflexão #PolíticaInternacional #Esperança

  • A Religião do PIB

    Há um momento, banal e decisivo, na vida de um quadro local na China: o instante em que a carreira se torna uma folha. Não é uma metáfora, é mesmo uma folha — uma grelha de avaliação, uma coluna de metas, um número que sobe ou desce, e ao lado a palavra que ninguém pronuncia em público como se pronuncia no íntimo: futuro. Quando o crescimento se torna critério de carreira, a estatística passa a governar. Crédito: Imagem original (Atlantic Lisbon) China: o PIB como critério de poder Na superfície, é administração. Um ritual moderno, com tabelas e carimbos. Por baixo, é sobrevivência. O crescimento, durante décadas, foi mais do que um objetivo. Foi uma linguagem de legitimidade. Quando a política perde o conforto de se justificar por ideologia, descobre a tentação de se justificar por estatística. A promessa não é justiça; é velocidade. Não é igualdade; é melhoria visível. Um país, dizem, não se governa com poesia. Governa-se com estradas, pontes, fábricas, luzes acesas à noite. E, em boa medida, foi isso que aconteceu. Mas o preço de transformar um número em critério moral costuma ser pago em moeda impura. A ciência política e a economia, com a sua frieza útil, deram nome àquilo que muitos observavam sem conseguir fixar: um “torneio” de promoções, onde os responsáveis provinciais competem entre si e os vencedores sobem. Há trabalhos clássicos que encontraram relação entre desempenho económico e promoções/saídas de líderes provinciais no período pós-reforma, sugerindo que o controlo de pessoal funciona como incentivo. Se isto for verdade — e tudo indica que foi, pelo menos como tendência — então uma parte do “milagre” chinês não nasceu de virtude coletiva, mas de um desenho de incentivos: fazer do crescimento um currículo. O problema é que, quando um sistema coloca a salvação num número, começa a produzir comportamentos que protegem o número. Nem todos são criminosos. Nem todos são corruptos. Mas quase todos se tornam previsíveis: preferem o que é mensurável ao que é necessário; preferem a obra que inaugura ao serviço que mantém; preferem o investimento que aparece no relatório ao cuidado que não cabe numa coluna. O Estado passa a ter uma fé. E a fé exige sacrifícios. Durante algum tempo, a liturgia do PIB parecia perfeita. O país crescia, a pobreza recuava, as cidades subiam como se o betão fosse uma estação do ano. O centro via números; os territórios viam oportunidades. E, numa administração hierárquica, um território que promete números promete lealdade. Não há instrumento mais dócil do que um quadro que sabe que a próxima etapa depende de bater uma meta. Isto ajuda a explicar uma característica da China contemporânea que, vista de fora, parece paradoxo: a combinação de uma máquina estatal forte com uma economia que, em momentos críticos, se comporta como uma corrida. A corrida não é uma metáfora estética. É um mecanismo. Quando o mecanismo é esse, a corrupção deixa de ser apenas um desvio moral individual. Passa a ser, muitas vezes, uma consequência lateral de um jogo em que o poder local controla acesso, licenças, terrenos, contratação pública, autorizações ambientais, fiscalização. Mesmo quando não há envelopes, há favores; mesmo quando não há suborno explícito, há “preço da previsibilidade”. O mercado deixa de ser um espaço neutro. Torna-se uma sucessão de portas. O centro não precisa de ordenar a corrupção para colher os seus efeitos. Basta desenhar um sistema em que a carreira depende do que se consegue mostrar. E aqui entra um segundo fenómeno, igualmente bem estudado, que completa a fotografia: quando as promoções e a reputação política se amarram a métricas como o PIB, cresce também a tentação da manipulação — não apenas por vaidade estatística, mas por sobrevivência competitiva. Há investigação recente dedicada precisamente ao problema da misreporting do PIB sob incentivos de carreira e competição entre líderes locais. Num regime onde “errar números” pode ser interpretado como “falhar politicamente”, o número ganha um estatuto quase litúrgico. E quando o número ganha esse estatuto, ele tende a produzir duas coisas: aceleração e cegueira. A aceleração é óbvia: mais investimento, mais obra, mais atividade. A cegueira é mais lenta: solos degradados, água envenenada, dívida empurrada, cidades onde o brilho não corresponde a vida, projetos que existem para o relatório e não para as pessoas. Há uma terceira consequência, mais humana: a ansiedade administrativa. Um quadro local pode ser, ao mesmo tempo, patriota, trabalhador, eficaz — e ainda assim viver refém de um modelo que o obriga a escolher sempre o que sobe o indicador. Um hospital novo aparece numa fotografia. Uma rede de cuidados continuados não aparece. Um parque industrial dá números. Um sistema de queixas e transparência dá problemas. Numa cultura política que valoriza estabilidade, há algo de ironicamente instável nesta dinâmica: a estabilidade passa a depender de manter o motor sempre em rotação. E quando o motor abranda, o pânico entra no edifício. Nos últimos anos, esse abrandamento tornou-se mais visível, sobretudo por causa do imobiliário e do financiamento local. As vendas de terrenos — um pilar das receitas de muitos governos locais — enfrentaram quedas e fragilidade, segundo dados oficiais reportados internacionalmente, com descidas em 2025 em vários recortes temporais. Isto é crucial para compreender a moral do crescimento. Quando um município ou uma província depende de receitas extraordinárias associadas a terrenos e construção, a tentação de continuar a produzir “atividade” não desaparece com a necessidade; intensifica-se com ela. A mesma lógica que premiava a obra, em época de expansão, pode premiar a obra, em época de aperto — agora não para crescer, mas para evitar colapso orçamental, desemprego e protestos. O indicador, nesse momento, já não é apenas ambição. É contenção do medo. É aqui que a corrupção, a distorção e a propaganda se tocam. Porque a propaganda precisa de resultados; e os resultados, muitas vezes, precisam de atalhos. E os atalhos criam beneficiários: empresas próximas, intermediários úteis, redes capazes de transformar autorização em lucro. A corrupção, vista assim, não é um acidente ocasional. É um risco estrutural que emerge quando o Estado é, simultaneamente, legislador, proprietário e juiz — e quando a carreira depende de resultados contáveis. A pergunta importante não é “há corrupção?”. A pergunta é “o sistema consegue não produzir?”. É nesse quadro que a famosa campanha anticorrupção do período de Xi Jinping deve ser lida: não como simples cruzada moral, mas como tentativa de disciplinar uma máquina que, por desenho, produz zonas cinzentas. A fórmula “tigers and flies” tornou-se o slogan público da promessa de limpeza, articulada a partir de 2013, com ecos internacionais imediatos. Mas a própria existência de uma campanha deste tamanho é, por si, um sinal: quando a corrupção se torna endémica, o poder tem duas escolhas — aceitar a decadência ou reorganizar a disciplina. O que não pode fazer é fingir que o problema é apenas carácter. Um sistema que concentra decisão e recompensa números cria, inevitavelmente, incentivos para transacionar decisão. A religião do PIB, porém, tem uma particularidade: ela substitui um debate político por uma competição administrativa. E, quando isso acontece, a sociedade civil passa a ser vista como ruído indesejado — não porque esteja errada, mas porque atrasa. Fiscalização atrasa. Transparência atrasa. Media livres atrasam. Tribunais independentes atrasam. Associações autónomas atrasam. Num regime que mede sucesso por velocidade, a liberdade é, quase sempre, um travão. Este é o ponto em que um olhar europeu tende a cair numa armadilha: imaginar que “crescimento” é um objetivo neutro e que as distorções são defeitos corrigíveis. Em sistemas onde há alternância e fiscalização forte, muitas vezes são. Em sistemas onde o poder é monolítico e a carreira depende de metas, as distorções são parte da engrenagem. O país pode enriquecer. E enriqueceu. Mas o mecanismo que enriquece pode também envenenar a política. Há um debate académico e empírico sobre o grau em que o “torneio” é incentivo puro, seleção, ou uma combinação dos dois — e sobre como varia por épocas e por níveis administrativos. Essa nuance é importante: a China não é um bloco único, e os incentivos mudam conforme o centro muda de prioridades (crescimento, estabilidade, tecnologia, segurança). Ainda assim, mesmo com nuances, a ideia central permanece operacional: quando a carreira depende de indicadores, o indicador governa. E quando o indicador governa, aparecem duas China ao mesmo tempo. A China da eficácia: linhas de comboio, fábricas, portos, tecnologia, capacidade de mobilização. E a China da tensão: dívida local, projetos vazios, desigualdade de oportunidades, ressentimento silencioso, ecossistemas degradados, e um Estado que, para controlar o efeito colateral, precisa de mais controlo. Se este ensaio tem uma ambição, é apenas esta: recusar a explicação moralista e fácil. Não se trata de dizer que “os chineses são assim” ou que “o Partido é naturalmente corrupto” como se fosse um traço cultural. Trata-se de olhar para o desenho do poder e para os seus incentivos, e aceitar que sistemas produzem comportamentos. O PIB, quando vira religião, não mede apenas produção. Mede obediência. E isso ajuda a compreender por que razão certas campanhas de “limpeza” acabam por reforçar o mesmo edifício que dizem purificar. O edifício depende da estatística como legitimidade; e depende do controlo como método; e depende da disciplina para manter o motor a funcionar. Quando um regime substitui a política por números, o futuro torna-se contabilidade. E a contabilidade, um dia, cobra. Subscreva a Newsletter #AtlanticLisbon #China #PCC #Economia #PIB #Poder #Corrupção #Política

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