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  • A Desconfiança de Peito Fechado

    A Desconfiança de Peito Fechado Há argumentos que não nascem da razão — nascem do ressentimento. E quando se fala de amamentação, os que pedem "limites" raramente querem proteger os bebés ou ajudar as mães. Querem, isso sim, proteger a ordem das coisas tal como ela é: desigual, desconfortável, masculina e hierárquica. Manuel Lemos, figura conhecida da saúde e da política social, acaba de dizer que há “abusos” no direito à amamentação e que, por isso, é preciso “definir limites”. Não apresenta números, nem estudos, nem experiências clínicas. Apresenta uma opinião — e ergue-a como doutrina. Fala como quem já viu de tudo e, por isso, já não acredita em nada. Nem no leite que alimenta, nem nas mães que o oferecem. É sempre assim: quando uma mulher amamenta em público, incomoda. Quando o faz no trabalho, atrapalha. Quando exige condições para continuar a fazê-lo, abusa. O que se exige dela, em silêncio, é que o faça às escondidas. Sem pedir nada. Sem faltar. Sem mostrar. Essa desconfiança de peito fechado — fria, moralista, paternalista — revela muito mais do que as palavras ditas. Revela a dificuldade que uma certa elite tem em compreender o que não viveu. Ou o que não quer ver. Fala-se de amamentação como se fosse um luxo. Um privilégio a que algumas se agarram para não trabalhar. E não como o que é: um gesto primário de nutrição, vínculo e amor. A ideia de que há mulheres a fingir que amamentam para ganhar tempo ou subsídio é repugnante — não apenas por ser falsa, mas por ser politicamente venenosa. Cria o retrato de uma mulher oportunista, manipuladora, sem ética. E prepara o terreno para uma coisa ainda mais grave: a criminalização da maternidade. Se há quem abuse do sistema, que se investigue. Mas que não se acuse todas para justificar um ataque legislativo. Não se reforma a lei com base no boato, nem se escreve política pública com medo de fantasmas. O que se esperaria de um responsável com cargos públicos — e com memória histórica — era outra atitude: proteger os mais frágeis, garantir direitos, promover a confiança. Mas não: prefere-se a suspeita. Prefere-se lançar a ideia de que as mulheres devem ser controladas, vigiadas, limitadas — sobretudo se quiserem cuidar dos seus filhos. Talvez se tenha esquecido que o verdadeiro abuso é outro. É usar uma tribuna para fazer política contra quem cuida. É lançar suspeitas públicas sem provas. É reduzir um gesto humano a uma fraude potencial. E se há limites a definir, comecemos por este: que se diga, com clareza, que a maternidade não é um problema — é um direito. E que os homens que nunca amamentaram não venham ensinar as mulheres a fazê-lo. AC Biberão vazio sobre uma secretária, com papéis e carimbo ao fundo — símbolo da burocracia sobre a maternidade.

  • Tenho de lhe confessar uma coisa

    Tenho de lhe confessar uma coisa. Não sei bem como começar, por isso começo assim: confesso. E se ainda está a ler, talvez seja porque uma parte de si já pressentia que havia algo. Não da minha parte, talvez — mas de alguém, nalgum lugar, que ficou calado tempo demais. Tenho andado com isto preso à garganta há anos. O que quer que isto seja. Não é crime. Não é vergonha. Não é sequer extraordinário. Mas pesa. E há coisas que pesam não por serem grandes, mas por nunca terem sido ditas. ❦ Foi no verão. Eu tinha vinte e quatro anos. E ela… não sei se devo dizer o nome. Talvez mais tarde. Para já, chamemos-lhe E. Como se o silêncio também tivesse apelidos. Conhecemo-nos numa fila. Daquelas filas longas e inúteis onde o tempo se esquece de passar. Ela estava à minha frente. Trazia um livro do Herberto — o que já me pareceu, na altura, um milagre. ❦ Depois olhou para trás, viu que eu não tinha nada nas mãos, e disse: — Vai ser uma espera longa. — E eu esqueci-me do relógio — respondi. Rimo-nos. Depois calámo-nos. Depois voltámos a rir. E assim começou tudo — como todas as coisas começam: sem ninguém saber que começaram. ❦ Durante aquele mês, fomos tudo menos amantes. Nunca nos tocámos, a não ser com os olhos. Íamos a pé por Lisboa como dois conspiradores sem causa. Falávamos de poesia como quem procura abrigo. Bebíamos vinho - muito pouco - mas como se tivéssemos idade para aguentar a ressaca. Não havia promessas, nem pressas. Só aquele intervalo onde nada dói ainda. ❦ Lembro-me de uma vez em que choveu. Sentámo-nos nos degraus de São Bento, e ela perguntou-me: — O que é que nunca disseste a ninguém? E eu respondi: — Que tenho medo de ser como o meu vizinho. Ela ficou em silêncio. Depois disse: — Eu também. Nunca me explicou o que queria dizer. Nem eu perguntei. Era assim: falávamos com uma corda presa ao peito. Se puxássemos demasiado, partia-se. Mas quero ser justo consigo: não estou aqui para romantizar o que não aconteceu. Não estou a escrever para fazer de nós uma história. Estou a escrever porque, desde então, nunca mais amei ninguém da mesma maneira. Não por falta de tentativas — mas porque nada mais foi feito com aquela leveza. Aquela urgência calma de quem tem medo, mas não foge. ❦ O que aconteceu depois? Ela partiu. Disse que ia “voltar ao norte”, e deixou um bilhete na minha caixa do correio. Três linhas. Duas certezas. Um adeus. Posso continuar? Esta é a primeira vez que escrevo não apenas sobre o mundo, mas de dentro de uma dor que nunca se resolveu. E talvez por isso, quem ler — pare. ❦ Nunca respondi ao bilhete. Não por orgulho. Nem sequer por medo. Mas porque havia qualquer coisa naquele adeus que parecia final. Como se ela soubesse que, se dissesse mais uma palavra, eu iria atrás. E talvez ela não quisesse isso. Ou pior: talvez quisesse, mas não podia. Durante anos, guardei o bilhete. Dobrado, quase ilegível, numa edição velha da Poesia Toda. Escondido entre páginas que ela nunca chegou a ler. Às vezes abria-o como quem revisita uma ferida, não para a curar, mas para confirmar que ainda dói. Era o meu ritual de silêncio. ❦ Entretanto, casei. Não com ela, evidentemente. Com uma mulher boa, serena, que me deu três filhos e uma casa com janelas viradas a sul. Nunca houve infidelidade. Nunca houve mentira. Mas também — e isso custa escrever — nunca houve aquele tipo de amor. O tipo de amor que faz com que a cidade mude de cheiro quando ela entra numa sala. A minha mulher percebeu isso antes de mim. Uma vez, durante um jantar qualquer, olhou para mim e disse: — Estás aqui, mas não estás. Eu sorri, fiz uma piada qualquer, e ela não insistiu. É isso que fazem as pessoas boas: não nos obrigam a confessar o que não temos coragem de dizer. Sei que podia ter feito melhor. Mas também sei — e isto é a parte mais dura — que, se pudesse voltar atrás, não mudaria nada. Porque há coisas que só sobrevivem inteiras enquanto permanecem incompletas. E E., seja lá o que tenha sido, ficou inteira porque nunca foi ferida pelo quotidiano. Nem pelo tédio. Nem pela rotina dos dias bons demais. ❦ Há semanas em que me esqueço dela. Depois passo por uma mulher de cabelo apanhado a ler num jardim, e ela volta. Ou ouço uma canção que nunca ouvimos juntos, mas que parece ter sido escrita para os dois. E ela volta. Sempre volta. ❦ Uma vez escrevi-lhe uma carta. Tinha cinquenta e um anos. Estava sozinho em casa, chovia, e senti aquele impulso infantil de fazer alguma coisa. Escrevi três páginas. Relembrei os dias de 98, as conversas sobre Herberto, os passos pela cidade, até as coisas que nunca chegámos a dizer. No final da carta, assinei com o nome completo. Nunca a enviei. Ficou numa gaveta da secretária. De vez em quando, quando me sento para escrever, olho para ela. Como se esperasse uma resposta. Mas cartas não respondem a cartas. Pessoas é que respondem. E, no nosso caso, a única coisa que houve foi uma troca de silêncios. ❦ Não sei se está viva. Já procurei. Uma vez, no início da internet, pus o nome dela num motor de busca. Apareceu uma tese de mestrado, talvez dela. Um nome parecido, numa cidade pequena. Mas não tive coragem de abrir. Não queria saber se foi feliz. Ou pior: que tenha sido feliz sem mim. ❦ Outra vez, anos mais tarde, ouvi alguém chamar por “E.” num comboio. Estava no outro lado do corredor, com os fones nos ouvidos, a fingir que lia. O nome ficou a flutuar no ar como uma nota que nunca se resolve. Olhei — claro que olhei. Mas não era ela. Ou então era, mas já não tinha o mesmo rosto. E eu, covarde, preferi não confirmar. ❦ Tenho-me perguntado, ultimamente, porque é que isto ainda importa. Já passaram mais de vinte anos. Já vivi mais do que alguma vez pensei viver. Já fui pai, já enterrei amigos, já tive doenças, já perdi dentes e ilusões. E, no entanto, o que me comove é ainda esta coisa frágil e antiga. Esta mulher que nunca me pertenceu. ❦ Talvez seja isso o amor: o que resiste a todos os finais. E talvez seja isso que precisava de lhe confessar: Que a coisa mais real que vivi nunca chegou a acontecer. Houve dias em que pensei em escrever-lhe um livro. Não uma carta, mas um livro inteiro. Disfarçado de ficção, claro. Onde ela não fosse ela, e eu não fosse eu. Onde tudo fosse dito como quem inventa. Mas depois percebi que não consigo. Porque se escrevesse um livro sobre ela, matava-a. E eu quero que viva — mesmo que só dentro de mim. ❦ Por isso escrevo isto agora. Não para ela. Nem sequer para si. Escrevo para mim. Porque há palavras que, se não forem escritas, apodrecem por dentro. Ontem, abri a tal edição do Poesia Toda. O bilhete ainda lá está. O papel amareleceu. O traço esbateu-se. Mas a última linha ainda se lê. Diz assim: “Não sei o que somos, mas sei que não te esqueço.” Eu também não. ❦ Hoje fiz uma coisa que nunca tinha feito. Fui ao sótão. Há anos que me prometia arrumar aquilo. Sacos, caixas, objetos sem nome nem utilidade. Uma espécie de museu das intenções por cumprir. Subi as escadas com o corpo pesado — não pela idade, mas por saber o que procurava. E encontrei. A caixa onde guardei tudo o que tem o nome dela, mesmo sem o ter escrito. ❦ Havia um postal de Sintra que nunca enviei. Um marcador de livros que lhe roubei. Um guardanapo com um verso do Eugénio que copiei da contracapa de um livro dela. E a tal carta. A que nunca mandei. Li-a em voz alta. Era a minha voz, mas parecia outra. Como se fosse um homem mais novo a tentar salvar o que não percebeu que estava a perder. Depois fechei a caixa. ❦ Mas não a voltei a esconder. Trouxe-a para baixo. Está agora na estante, entre dois livros que nunca li. Não como relíquia, nem como altar. Mas como lembrança de que houve uma vez em que fui inteiro, mesmo sem nunca o ter dito a ninguém. Talvez esteja a escrever isto por medo. Medo de que o tempo leve tudo. Medo de morrer com esta ternura enterrada. Ou talvez seja amor. Não o amor que se exige, que se grita, que se cobra. Mas o outro. O que só quer durar. Sei que ela nunca vai ler isto. Mas o que me espanta é perceber que isso já não importa. Importa que tenha sido escrito. Porque o silêncio é um bom lugar para guardar segredos. Mas não é um bom lugar para morar para sempre. Tenho de lhe confessar mais uma coisa. Durante muito tempo, achei que esta história não valia a pena ser contada. Porque não teve beijos, nem ruturas, nem reencontros dramáticos. Ninguém fugiu com ninguém. Não houve traições. Só ausência. Só silêncio. ❦ Mas agora percebo: há histórias que valem por não terem acontecido. E há sentimentos que sobrevivem porque não se gastaram. Se tivesse ido atrás dela, se tivesse forçado um destino, talvez hoje estivesse a escrever outra coisa. Talvez um relato de mágoas, de rotinas falhadas, de um amor que se deformou com os dias. Mas não. Fiquei. Ela partiu. E entre nós ficou esta espécie de eternidade suspensa — que não é felicidade, nem dor, nem lamento. É apenas memória viva. ❦ Nunca soube se ela quis que eu a procurasse. Nunca saberei. Mas há noites em que imagino que sim. E há dias em que me convenço que não. Vivo nesse intervalo. É lá que construí o que sou. Os meus filhos cresceram. Alguns partiram também. Às vezes voltam. Trazem filhos, pressas, telemóveis. São bons rapazes. Honestos. Educados. Nenhum deles saberá, nunca, que o pai teve medo de amar. Talvez um dia encontrem este texto. Talvez não. Talvez o leiam e não reconheçam o homem que o escreveu. Ou talvez percebam que todos temos um nome escondido em silêncio. Não escrevo mais. Já está tudo dito. Se ficou até aqui, então agradeço-lhe. Porque não escrevi isto para ser lido por muitos. Escrevi para ser lido por alguém. E isso basta. ❦ Agora posso fechar a caixa. E voltar a guardar o bilhete. Não como quem se despe de um peso, mas como quem abraça — finalmente —o que nunca deixou de estar vivo. FIM Newsletter Privada - Acesso exclusivo a textos íntimos e inéditos de Alberto Carvalho #TenhoDeLheConfessarUmaCoisa #AlbertoCarvalho #NewsletterPrivada #ContoConfissão #LeituraLenta #HistóriasQueNãoAconteceram #SilêncioComNome #OQueSeGuarda #EscreverÉResistir #CorrespondênciaPrivada

  • A Obra e o Poder

    Santidade de Gabinete: O Poder Silencioso da Obra Há formas de poder que se anunciam com trombetas. E há outras que se insinuam com silêncio. O Opus Dei pertence a esta segunda categoria. Não ergue bandeiras, não exige púlpitos, não clama por multidões. Prefere os bastidores, os conselhos discretos, os lugares em que se decide mas não se vê. É uma santidade que caminha de fato e gravata, uma espiritualidade com horários marcados e relatórios mensais, um fervor sem êxtase, mas com disciplina. E essa combinação — fé interior com eficácia exterior — é precisamente a origem da sua força. A influência do Opus Dei no espaço público raramente se mede em números. Mede-se em nomes, em cargos, em redes. Não são muitos, mas são estratégicos. Advogados, magistrados, economistas, editores, reitores, consultores parlamentares. Em muitos países, incluindo Portugal, há quem entre em certos corredores do poder e perceba, sem nunca o ouvirem dizer, que uma parte da sala fala a mesma língua espiritual — discreta, firme, blindada. Não se trata aqui de conspiracionismo. Quem conhece o Opus Dei por dentro sabe que a sua formação espiritual não tem nada de maquiavélico. O que há é uma antropologia prática: o mundo será transformado não pelo protesto, mas pela presença; não pela denúncia, mas pela excelência; não pela ruptura, mas pela infiltração virtuosa. E se for possível estar nas esferas onde se decide — políticas, jurídicas, culturais — melhor ainda. Deus também habita nas actas das comissões. Esta espiritualidade da influência não é nova. Os jesuítas já a viveram, com o brilho dos colégios e o peso das consciências régias. Mas havia nos jesuítas uma pedagogia aberta, um gosto pelo debate, uma entrega à missão universal. No Opus Dei, a missão é mais seletiva: ganhar almas influentes, consolidar estruturas, formar líderes silenciosos. O ideal não é a missão, é a eficácia. A santidade é uma questão de aplicação. É por isso que a integração de sacerdotes diocesanos na Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz não é apenas uma questão eclesial ou teológica — é também um fenómeno de gestão espiritual do território. A diocese tem o seu clero, o seu ritmo, os seus dramas. A Obra introduz, entre esse corpo, uma elite espiritual paralela, mais formada, mais disciplinada, mais obediente — mas a outra autoridade. E quando há nomeações, influências, promoções, quem terá mais apoio invisível? O padre das lutas quotidianas ou aquele que recebe formação num centro da Obra, com acompanhamento semanal e direção espiritual meticulosa? A resposta não está nos números. Está no que nunca se diz. Mais ainda: o Opus Dei representa, para muitos sectores da Igreja, uma última trincheira contra o caos contemporâneo. Diante da crise do relativismo, da desinstitucionalização, da dissolução da moral tradicional, a Obra oferece um modelo que conforta: padres com batina e agenda, leigos piedosos e eficazes, famílias grandes e submissas à doutrina. E isso, para muitos bispos, é mais fácil de acolher do que a inquietação dos pobres, a profecia das periferias ou o drama das vítimas. A Obra não levanta questões — entrega resultados. O problema é que, nesse processo, a espiritualidade transforma-se em ferramenta de gestão. A santidade, em produtividade. A fidelidade, em alavanca de poder. E quem perde com isso? Perde a Igreja. Perde a liberdade espiritual. Perde o povo de Deus, quando os seus pastores passam a responder a estruturas invisíveis. E perde o próprio Evangelho, que nos ensinou a servir sem calcular e a amar sem garantias. Há muito de admirável em muitos membros do Opus Dei. Mas há algo de inquietante quando o amor à Igreja se manifesta como controlo. Porque a Obra nasceu para santificar o mundo — e corre o risco de apenas o administrar. AC Luz fria e discreta #Poder #OpusDei #IgrejaEEstado #Clero #Influência #AlbertoCarvalho

  • Quando um padre serve dois altares, um deles deixa de arder com liberdade

    Entre Figuras e Figas: A Comunhão à Sombra da Figueira No coração da teologia católica, a palavra “comunhão” não é um ornamento — é uma raiz. E no entanto, quando um discurso propõe reforçá-la através de uma estrutura paralela, organizada, hierárquica e obediente a uma autoridade fora da diocese, é legítimo perguntar: será essa comunhão ou uma duplicação eclesial disfarçada de fidelidade? O texto recentemente publicado pelo Opus Dei sobre a vocação do sacerdote diocesano à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz (4 de agosto de 2025) apresenta-se como uma exposição serena e inspiradora. No entanto, por detrás das imagens bíblicas, dos testemunhos edificantes e da retórica da fidelidade, levanta-se uma questão séria, que a linguagem suavizada não deve esconder: pode um padre diocesano pertencer formalmente a uma entidade eclesial com estatuto jurídico próprio, submetida a uma prelazia pessoal, sem que isso afete a sua plena pertença ao presbitério local? O documento insiste que não há qualquer conflito: o sacerdote “não abandona nem modifica em nada sua vocação diocesana”. Mas será mesmo assim? Ou estaremos perante uma reinterpretação da noção de incardinação, onde a pertença afetiva, espiritual e formativa é gradualmente deslocada para outro eixo de fidelidade? Em teoria, a incardinação permanece. Na prática, a formação espiritual, os retiros, os círculos de meditação, os diretores de consciência, o léxico, os padrões de vida, o tempo e até a linguagem emocional do clero diocesano vinculado ao Opus Dei passam a orbitar em torno de uma estrutura exterior ao bispo. Isto não seria um problema se estivéssemos a falar de um movimento de leigos. Mas quando se trata de sacerdotes — homens cuja obediência ao ordinário é parte intrínseca da sua consagração — qualquer dupla filiação merece discernimento rigoroso. A própria eclesiologia do Concílio Vaticano II, sobretudo na Presbyterorum Ordinis, insiste na unidade orgânica do presbitério em torno do bispo, como expressão visível da comunhão eclesial. Quando um grupo de padres recebe acompanhamento espiritual, orientações e até atribuições de missão por via de uma organização à parte, surge inevitavelmente a sensação de “clero dentro do clero” — uma fraternidade particular dentro da fraternidade comum, ainda que se proclame fidelíssima à diocese. Claro que há muitos modos de viver o sacerdócio. Claro que a Igreja valoriza a diversidade de carismas e os apoios à vida espiritual dos padres. Mas há um limite: quando a pertença a um instituto começa a reconfigurar a identidade pastoral, espiritual e relacional de um padre, esse limite aproxima-se perigosamente. E o mais curioso é que se insiste tanto em que “nada muda”, que quase se denuncia o contrário. Porque o que de facto se procura no texto — e é legítimo reconhecê-lo — é uma maior perfeição sacerdotal. Só que essa perfeição é proposta não na via comum da diocese, mas numa via específica, codificada, regimentada, com estatutos e promessas — ainda que isso se disfarce sob a linguagem da figueira de Natanael. Perguntemos com honestidade: como pode o bispo exercer plenamente o seu pastoreio quando parte dos seus padres são formados espiritualmente fora do seminário, guiados espiritualmente por outros que não ele, integrados numa lógica que não responde nem reporta diretamente ao ordinário, mas ao prelado de uma prelazia pessoal? Ainda que se diga o contrário, a realidade funcional — eclesial, espiritual e pastoral — torna-se inevitavelmente dual. Não se trata de julgar a intenção dos que se associam à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz. Muitos são homens bons, generosos, autênticos servidores de Deus. Mas a boa vontade individual não corrige a fragilidade da estrutura eclesial que se cria. A comunhão não é apenas uma fidelidade jurídica; é também uma linguagem simbólica, um tempo partilhado, um sentido pastoral comum. Quando isso se esvai, o corpo começa a cindir-se, mesmo que os membros continuem a bater no mesmo coração. A pergunta que se impõe, à luz da eclesiologia católica, é simples mas séria: quem forma o clero diocesano? A quem pertence o coração dos padres? E, se a resposta não for unívoca, talvez estejamos menos à sombra de uma figueira bíblica e mais à sombra de um equívoco. AC Entre Figuras e Figas #Igreja #OpusDei #Presbitério #ComunhãoEclesial #Teologia #AlbertoCarvalho

  • Segunda Margem

    FAQ – Segunda Margem Há perguntas que não nascem por dúvida, mas por companhia. São aquelas que se fazem a quem escreve de forma diferente — como quem bate à porta, e não toca à campainha. Aqui ficam algumas dessas perguntas. Mais íntimas, mais lentas. São sobre o nome, o tom, o tempo, e o gesto. E nenhuma delas exige pressa. Há textos que não entendo à primeira. Isso é normal? É. Nem tudo foi escrito para ser decifrado no instante. Alguns textos são como cartas esquecidas numa gaveta — só revelam o que trazem quando o leitor está pronto. E às vezes, é o não entender que nos faz voltar a ler. Porque é que o Caderno parece falar comigo, mesmo sem me conhecer? Porque foi feito para isso. Cada texto foi escrito como se tivesse um destinatário secreto. Se o encontrou, talvez seja porque o era. O que acontece aos textos que não são publicados? Ficam em silêncio. À espera. Às vezes voltam com outra forma. Outras vezes, não voltam — mas ensinaram quem os escreveu. Porque nem tudo o que se escreve precisa de ser dito. Há palavras que só querem existir. Porque se chama “Caderno”? Porque é onde se escreve com margem. Onde cabem as rasuras, os parágrafos interrompidos, os segredos não entregues. Um caderno é mais íntimo do que um livro, menos solene que um jornal — e, por isso mesmo, mais verdadeiro. O Caderno tem datas fixas de publicação? Não. Publica-se quando há algo que precise de ser dito. Às vezes, o silêncio também faz parte do que se escreve. Posso comentar os textos? Sim. Desde há pouco tempo, o Caderno permite comentários. Há uma caixa de diálogo — discreta — para quem quiser acrescentar silêncio com palavras. Há textos que não entendo à primeira. Isso é normal? É. Nem tudo foi escrito para ser decifrado no instante. Alguns textos são como cartas esquecidas numa gaveta — só revelam o que trazem quando o leitor está pronto. E às vezes, é o não-entender que nos faz voltar a ler. Estas respostas continuam outras, escritas com a mesma margem. Ler o primeiro FAQ do Caderno Porque é que o Caderno parece falar comigo, mesmo sem me conhecer? Porque foi feito para isso. Cada texto foi escrito como se tivesse um destinatário secreto. Se o encontrou, talvez seja porque o era. O que acontece aos textos que não são publicados? Ficam em silêncio. À espera. Às vezes voltam com outra forma. Outras vezes, não voltam — mas ensinaram quem os escreveu. Porque nem tudo o que se escreve precisa de ser dito. Há palavras que só querem existir. Estas perguntas não fecham a porta. Deixam-na apenas entreaberta. Se houver mais silêncio, ou mais vontade, escreva-nos. No fundo, o Caderno é também isso: uma página à espera de ser lida — e respondida. Páginas por Escrever #SegundaMargem #FAQLiterário #CadernoAberto #LeituraComAlma #AlbertoCarvalho #PerguntasLentas #EscritaComSentido #SilêncioQueFala #TextoVivo

  • Porque se chama “Caderno”?

    📎 Perguntas adicionais para a FAQ do Caderno: Porque se chama “Caderno”? Porque é onde se escreve com margem. Onde cabem as rasuras, os parágrafos interrompidos, os segredos não entregues. Um caderno é mais íntimo do que um livro, menos solene que um jornal — e, por isso mesmo, mais verdadeiro. O Caderno tem datas fixas de publicação? Não. Publica-se quando há algo que precise de ser dito. Às vezes, o silêncio também faz parte do que se escreve. Posso comentar os textos? Ainda não. Estamos a estudar formas de permitir o diálogo sem que ele se transforme em ruído. Para já, os comentários chegam por carta ou por dentro. Porque é que alguns textos parecem cartas e outros parecem contos? Porque cada texto nasce com a sua forma. Há dias em que se escreve como quem pede desculpa. Outros, como quem conta o que não aconteceu. Mas todos dizem algo que não podia ficar por dizer. Se ainda não leu o segundo conjunto de perguntas, está aqui à distância de um gesto: Ver a FAQ – Segunda Margem Há alguma ligação entre os textos e a realidade política? Sim. Mas não é literal. A realidade aparece como um eco, não como manchete. Escreve-se para contrariar o esquecimento — mesmo quando o tema é invisível. Os textos falam de política? Falam da realidade — quando ela se impõe. Às vezes é uma notícia, outras uma injustiça. Nem sempre é política no sentido estreito, mas é sempre escrita com consciência do tempo em que vivemos. Porque é que não aparecem fotografias de quem escreve? Porque a escrita é a única assinatura que nos interessa. Os rostos mudam. As palavras ficam. Há algum compromisso ideológico? Sim: com a liberdade, com a justiça e com a ternura. O resto é ruído. É possível colaborar de outras formas? Sim. Lendo com atenção. Partilhando com critério. E, se quiser mesmo muito, escrevendo-nos uma carta — daquelas que se leem devagar. Caderno com anotações invisíveis #PerguntasComMargem #CadernoVivo #EscritaComConsciência #AlbertoCarvalho #TextoEcos #LiteraturaSilenciosa #PolíticaComoEco #LeituraCúmplice #FAQComAlma

  • Sábado Obrigatório

    A quem serve a imposição de trabalho ao fim de semana? Não é só a pressa que desfigura a política. É também a leveza com que se atropela aquilo que deveria ser sagrado: o tempo de um pai com os seus filhos. Na mais recente proposta de alteração ao Código do Trabalho, o Governo pretende que os pais de crianças com menos de 12 anos passem a estar obrigados a trabalhar ao fim de semana, mesmo quando o seu pedido de horário flexível previa a exclusão dessa possibilidade. A medida, travestida de modernidade laboral, não é mais do que uma reedição insidiosa da velha lógica da produção acima das pessoas. O Supremo Tribunal de Justiça tinha fixado um entendimento claro: os horários flexíveis existem para proteger a vida familiar. A decisão judicial reconhecia que um pai ou uma mãe não é apenas uma peça numa engrenagem — é um elo vital na estrutura emocional de uma criança. Contrariar essa jurisprudência, como agora se propõe, não é apenas uma questão técnica. É um recuo civilizacional. Não se trata de negar que há sectores — saúde, transportes, distribuição — que exigem presença humana constante. Trata-se, isso sim, de impedir que se torne regra o que deveria ser exceção. E de reconhecer que mesmo nesses sectores, o direito à vida familiar deve ser protegido, negociado com humanidade, e não diluído em contratos de trabalho inflexíveis e impessoais. É irónico que tudo isto surja num verão em que até o secretário de Estado admite que as negociações já se sobrepõem ao direito às férias. Como se o tempo de descanso fosse um luxo. Como se educar um filho ao domingo fosse uma frivolidade. Como se o trabalho digno pudesse florescer à custa de infâncias amputadas de presença. Querem tornar o trabalho ao fim de semana “habitual”. E quando uma injustiça se torna habitual, passa a parecer natural. Mas não é. Obrigar um pai a virar as costas ao sábado de manhã com o filho, só para cumprir mais um turno num supermercado ou num call center, não é progresso. É uma derrota invisível, repetida em milhares de lares. Vivemos tempos em que as grandes causas parecem sempre adiadas. Mas há pequenas resistências que dizem tudo. Uma delas é esta: o direito ao fim de semana não é um capricho. É uma trincheira onde se defende a infância, a intimidade e até a democracia. Porque quando o Estado começa a legislar contra os afetos, o que se segue é sempre pior. Que não se legisle com pressa nem com cinismo. E que não se esqueça que, por detrás de cada horário imposto, há uma criança à espera. AC Quando o Estado legisla contra o tempo dos pais, é a infância que fica para trás. #DireitoAoTempo #InfânciaNãoEspera #TrabalhoJusto #HorárioFlexível #FamíliaÉPrioridade #CódigoDoTrabalho #Parentalidade #PolíticaComAfeto #FimDeSemanaÉFamília #AlbertoCarvalho

  • O Último Ofício de um Homem Livre

    O Último Ofício Conheci-o num banco. Desses que há nos jardins das cidades pequenas, onde o tempo demora mais a passar e a conversa ainda tem o direito de não ir a lado nenhum. Trazia um chapéu gasto, um casaco que cheirava a folhas secas e a leveza de quem já não precisa de provar nada. Chamava-se Manuel, mas só o sabiam os papéis. Para os filhos era o Pai. Para os netos, o Avô. Para os amigos, era o Manel do quiosque — que fora livreiro quando isso ainda dava para viver e, talvez mais importante, para pensar. Aos 83 anos, já não pedia nada à vida, dizia ele. “Mas há uma coisa que a idade não leva — a responsabilidade.” Dizia isto enquanto via os rapazes passarem de skate e as miúdas rirem alto como só se ri antes de perceber o peso do mundo. Era ali, naquele banco, que o Manel se encontrava com o país. Lia o jornal de manhã, via as notícias ao fim da tarde e, entre uma coisa e outra, conversava. Com estranhos, com vizinhos, com um ou outro cão que lhe lambia a mão como quem reconhece alguém de confiança. Mas foi há pouco tempo que disse a frase que ainda hoje me persegue: “Não posso morrer sem lhes dizer isto.” Referia-se aos filhos. E aos netos. A uma geração que cresceu a ouvir falar de liberdade sem saber o preço do medo. A uma juventude que se distrai entre ecrãs, memes e indignações instantâneas — e que, sem dar conta, começa a normalizar o inaceitável. “Sabes,” disse-me um dia, “eu já fui novo. Também achei que o mundo era meu. Também quis rasgar os mapas antigos e fazer tudo de novo. E ainda bem. Mas havia uma coisa que nos segurava: sabíamos o que era a dor dos outros.” Fez-se silêncio. Não daqueles vazios, mas dos cheios. “Agora”, continuou, “há quem se ria dos direitos humanos. Há quem ache que proteger os fracos é fraqueza. Há quem queira voltar aos tempos em que ser diferente era crime e ter coração era um problema.” A sua voz não tremia. O corpo sim — mas só de frio. “Por isso, decidi: vou dizer-lhes. Sempre que estiver com os meus filhos, com os meus netos, com os filhos dos meus amigos. Vou dizer-lhes que a liberdade não é um dado adquirido. Que a civilização é feita de pequenos gestos. E que há uma coisa que nos distingue das trevas: a capacidade de sentir o outro.” Começou a escrever cartas. Uma para cada neto. Em folhas lisas, com a caneta que guardava desde o 25 de Abril. Nelas, não falava de partidos nem de ideologias. Falava de bondade. De discernimento. De não pactuar com o ódio mesmo quando este se disfarça de justiça. De não repetir o erro de calar por vergonha. Aos domingos, reunia a família. Fazia arroz de pato, punha Amália a tocar baixinho, e no fim, pedia silêncio. — Deixem-me contar-vos uma história. E contava. A de um vizinho que fora perseguido por ser comunista. A de uma rapariga expulsa da escola por amar outra mulher. A de um primo que desapareceu para “trabalhos forçados” e nunca mais voltou. Contava como quem segura um ramo frágil, com a urgência de quem sabe que, se não se disser, esquece-se. E se se esquece, repete-se. “É esta”, dizia, “a minha última tarefa. Ensinar-vos a ver. A não serem cúmplices por omissão. A fazerem perguntas. A distinguirem coragem de arrogância. Justiça de vingança. E pátria de fanatismo.” Lembro-me de um neto mais novo que lhe perguntou se isso ainda interessava. “Claro que interessa,” respondeu. “O mal nunca desaparece. Muda de roupa.” O Manel não falava com raiva. Falava com tempo. Como quem rega uma árvore mesmo sem saber se vai viver para ver o fruto. Houve quem achasse exagero. Quem dissesse que os tempos são outros, que agora já não há perigo. Ele sorria. E respondia:“É quando deixamos de ter medo que o perigo se instala. A indiferença é o combustível da barbárie.” Um dia, levou um dos netos a ver a antiga livraria. Era agora uma loja de coisas baratas, cheia de luzes falsas e sons repetidos. Olhou para a montra e disse: — Aqui vendia-se pensamento. Agora vende-se ruído. Não era lamento. Era constatação. Quando fez 84, pediu apenas uma coisa: que os netos lhe escrevessem uma carta. Não mensagens. Não vídeos. Uma carta. Com tempo, com erros, com papel. Recebeu sete. E guardou-as todas na mesma caixa onde ainda tem a primeira que escreveu à sua mulher, em 1959. Hoje, o Manel já não está no banco do jardim. A artrite ganhou-lhe os joelhos e a rua começou a doer-lhe mais do que os sapatos aguentam. Mas as cartas continuam. Agora, deixa-as na mesa da cozinha. Às vezes, em cima de um livro. Outras, dentro do pacote das bolachas preferidas de cada neto. Uma delas, a que deixou na última visita da neta mais velha, dizia assim: “Filha, não sejas nunca cúmplice de quem ri quando os outros choram. O que se levanta contra a dignidade humana nunca é solução — é doença. E a única herança que te quero deixar é esta: sê sempre mais humana do que o mundo te pedir. É esse o verdadeiro ato de coragem.” Se isto for sermão, que o seja. Mas parece-me antes um testamento. Não o de quem deixa bens, mas o de quem reparte o que sabe — enquanto ainda pode. E se me perguntarem quem foi o Manel, direi apenas isto: Foi um homem que, antes de partir, lembrou aos seus que viver é ver o outro. E que o último ofício da vida é impedir que o mundo se esqueça disso. AC Avô a escrever uma carta à neta numa tarde de outono #AlbertoCarvalho #ContoPortuguês #Liberdade #Humanidade #Democracia #Memória #ContraOÓdio #Responsabilidade #Avô #HistóriasQueFicam

  • Teletrabalho à Venda | Como o Governo Está a Privatizar os Nossos Direitos

    A Corda e o Telemóvel Durante anos disseram-nos que o teletrabalho era o futuro. Que reduziria a pegada ecológica, equilibraria a vida familiar, descentralizaria as oportunidades. Era a utopia da conciliação, vendida com fundo branco, estantes organizadas e sorrisos ao Zoom. Mas como tantas promessas modernas, também esta veio com rodapé: o que parece um direito, é muitas vezes apenas uma oportunidade para cortar custos. E quando os cortes se fazem à conta da dignidade, não há modernidade que nos salve. O Governo aprovou um anteprojeto que abre caminho à redução de direitos associados ao teletrabalho. Em nome da negociação coletiva, abre-se a porta para que normas como o pagamento do trabalho suplementar ou a rigidez do horário possam ser “adaptadas” — leia-se, diluídas — por convenções que, na prática, nem sempre protegem o lado mais fraco. É uma engenharia jurídica discreta: não se elimina o direito, apenas se flexibiliza. Não se rasga o Código do Trabalho, apenas se permite costurá-lo de outro modo — mais barato, mais “competitivo”, mais conveniente para quem decide. Mas há uma verdade que insiste em manter-se inteira: o teletrabalho pode ser uma conquista civilizacional, sim — mas também pode ser o novo nome da precariedade. Em Portugal, como se sabe, a negociação coletiva não é um campo nivelado. Os grandes sindicatos, por mais firmes que sejam, enfrentam empresas onde a pressão por “resultados” ou “eficiência” facilmente se sobrepõe à memória das lutas laborais. E do outro lado, muitos trabalhadores isolados, em casa, entre e-mails e microfones desligados, sem a força do coletivo, nem sequer do olhar do colega ao lado. Que negociação real pode haver assim? A ideia de que o “direito ao teletrabalho” não está em causa é uma meia-verdade. Porque um direito esvaziado de condições materiais para ser exercido não é um direito: é um simulacro. Se trabalhar em casa significa estar sempre disponível, se as horas extra deixam de ser pagas por convenção, se o descanso se torna ambíguo — então o teletrabalho deixa de ser uma conquista e passa a ser uma forma nova, e mais difícil de vigiar, de exploração. E sim, podemos admitir que haja exceções: realidades onde patrões e trabalhadores chegam a bons acordos, com equilíbrio e visão. Mas a legislação não se deve fazer a pensar nas exceções — deve proteger contra os abusos. Talvez o mais inquietante nisto tudo seja o tom com que o Governo apresenta a proposta: como quem resolve um problema técnico. Como se reduzir encargos fosse um gesto neutro, desprovido de consequências humanas. Mas não é. Cortar um direito é sempre uma decisão política — e ética. É escolher um lado, mesmo quando se finge imparcialidade. Dizem-nos que a medida trará “mais margem” para as empresas. O que não nos dizem é onde fica, nessa margem, a vida concreta das pessoas. A sua exaustão invisível. O seu quarto transformado em escritório. A ansiedade de receber notificações fora de horas. A solidão que não se vê nas folhas de Excel. O teletrabalho não é inimigo da justiça social — mas pode ser, se continuar a ser tratado como um privilégio individual e não como um direito coletivo, regulado com clareza e exigência. Porque o que está em causa não é só um modelo de trabalho — é o modo como queremos viver. Se a economia precisa de flexibilidade, que seja com responsabilidade. Se as empresas precisam de espaço para respirar, que não seja à custa de quem trabalha até tarde sem saber quando desligar. Num país onde a produtividade raramente se traduz em qualidade de vida, a corda não pode continuar sempre do mesmo lado. Porque um telemóvel ligado 24 horas não é liberdade. É servidão com wi-fi. AC Um mulher trabalha a partir de casa sob novas regras de teletrabalho em Portugal #Teletrabalho #DireitosLaborais #TrabalhoDigno #Precariedade #CódigoDoTrabalho #Portugal2025 #JustiçaSocial #AlbertoCarvalho

  • O Roubo Não Foi Só de Imagens

    O Roubo Não Foi Só de Imagens Roubaram 72 mil imagens de uma aplicação usada por mulheres para encontros seguros. Não foi um ataque a um servidor. Foi um ataque a um território íntimo, onde cada fotografia era um gesto de confiança, uma tentativa de liberdade, um lugar onde o medo parecia — por fim — não entrar. Mas entrou. Como entra sempre. Disfarçado de progresso, camuflado de neutralidade tecnológica, dissimulado sob a ideia de que "são só dados". Não são. São rostos. São corpos. São fragmentos de dignidade, organizados em retratos que as próprias escolheram partilhar — não com o mundo, mas com alguém. A TEA App, criada para proteger mulheres de perfis falsos, de encontros tóxicos, de homens com cadastro, foi invadida. E o que foi violado não foi apenas o código. Foi a promessa. A ideia de que, em pleno século XXI, poderia haver um espaço onde uma mulher deixasse de estar vulnerável por simplesmente querer estar. Mas não. Mesmo ali, mesmo dentro de uma aplicação construída com a segurança como valor fundador, o assalto aconteceu. E não foi inocente. Foi simbólico. Foi uma mensagem. Uma daquelas mensagens que não se escrevem — apenas se sentem: “não importa o que faças, estás sempre exposta.” Vivemos numa era em que a violência se sofisticou. Já não se faz só com gritos, murros ou insultos. Faz-se com cliques. Com silêncios cúmplices. Com a capacidade de transformar um gesto íntimo num ficheiro partilhado. Com a crueldade passiva de quem acha que tudo é entretenimento — mesmo o pânico de alguém a imaginar a sua fotografia a circular fora de contexto, fora de escolha, fora de controlo. E é sempre sobre elas. Não porque o sistema digital seja machista — mas porque o mundo ainda é. Porque a nudez de um homem é uma curiosidade. E a de uma mulher, um escândalo. Porque quando um perfil masculino é exposto, fala-se de cibercrime. E quando é feminino, fala-se de "imprudência". É este o ponto cego da nossa modernidade. A ideia de que os direitos digitais são universais, quando na verdade têm género, classe, e geografia. A ideia de que os dados são neutros, quando carregam dentro de si o medo de séculos. A TEA App caiu. Mas o que caiu com ela foi mais do que uma camada de segurança informática. Caiu a ilusão de que bastava criar plataformas para proteger as mulheres. Não basta. Enquanto o mundo continuar a desculpar estas invasões com palavras como “vazamento”, “exposição”, ou “falha”, estaremos a repetir o velho padrão: o de chamar "incidente" à violência quando ela acontece sem sangue. Este caso não é apenas uma notícia. É um espelho. E nesse espelho vê-se um corpo — o de uma mulher qualquer — apanhado entre o direito de existir e o risco de ser punida por isso. Roubaram imagens. Mas o que verdadeiramente se levou foi a sensação de poder confiar. E isso, para quem vive cercado por séculos de desconfiança, é talvez o roubo mais antigo do mundo. AC Silhueta de uma mulher a tomar banho, numa cena íntima e serena — imagem simbólica sobre vulnerabilidade e privacidade. #ORouboNaoFoiSoDeImagens #ViolênciaDigital #PrivacidadeÉDireito #MulheresOnline #Cibersegurança #DignidadeFeminina #AlbertoCarvalho #TEAApp #LiberdadeComSegurança #TOFL5

  • A Mãe que Guardava o Sol

    A Mãe que Guardava o Sol Dizem que havia, numa aldeia que já não vem nos mapas, uma mulher que sabia guardar o sol. Era uma mãe como tantas outras: de mãos cansadas e olhos que pareciam ouvir. Chamava-se Ana, e o filho, Tomás, tinha nascido num Outubro de chuva e vento, como quem vem ao mundo a pedir colo. Desde pequeno que Tomás achava que a mãe era diferente. Não diferente como quem brilha, mas como quem aquece. Nunca gritava, mesmo quando o mundo parecia fazer-lhe barulho dentro. Quando havia frio, ela cozia pão. Quando havia medo, punha-lhe a mão na cabeça. Quando a vida apertava, ela sorria — não para fingir, mas para ensinar. Um dia, o rapaz perguntou-lhe: — Mãe, por que é que tu nunca te zangas? Ela respondeu sem hesitar: — Porque cada vez que me apetecia gritar, guardei o sol dentro do peito. Tomás cresceu com essa ideia. Que a mãe era feita de silêncio e calor. Que havia qualquer coisa dentro dela que a fazia maior do que os dias, mais firme do que os muros, mais paciente do que a noite. Quando chegou à idade de partir, como todos os filhos partem, foi estudar para longe. E às vezes esquecia-se de ligar. Outras vezes lembrava-se e não sabia o que dizer. Mas quando voltava, a mãe continuava ali: com o pão quente, a janela aberta, o mesmo riso manso de quem espera sem cobrança. Um Inverno, ela adoeceu. Não disse nada. Continuou a varrer o quintal, a cozer as mesmas sopas. Mas os olhos, esses, começaram a acender-se menos. Até que um dia, sem aviso, o sol faltou. Tomás chegou tarde. Já só encontrou a cama feita e o silêncio a cheirar a alecrim. Mas sobre a mesa, havia um envelope com o seu nome. Dentro, uma carta: "Meu filho," "Não fiques triste. Guardei todo o sol que pude para que nunca tenhas frio. Ele está em ti agora. Quando fores bom sem razão, é meu. Quando te calares para ouvir, é meu. Quando amares sem ter nada a ganhar, sou eu a continuar." "Tu és o meu sol posto no mundo." "Com amor eterno," "Mamã." Tomás fechou os olhos. E nesse instante — mesmo nesse — o céu clareou. Um raio atravessou a janela e pousou na cadeira onde ela costumava fiar. E o filho soube, sem saber explicar, que a mãe ainda ali estava. Não como presença, mas como lume. Como promessa. Como tudo o que aquece. AC Que a mãe era feita de silêncio e calor. #AMãeQueGuardavaOSol #AlbertoCarvalho #ContoPortuguês #AmorDeMãe #LiteraturaComAlma #MemóriaEternizada #ContoDoDia #HistóriaComovente #Maternidade #LuzInterior

  • Justiça à Medida do Partido

    Dois Pesos Pedro Magalhães é investigador, cientista político, e um dos rostos mais respeitados da análise empírica da opinião pública em Portugal. No dia 28 de Julho de 2025, partilhou no seu perfil de Twitter os resultados de um estudo que deveria preocupar — e envergonhar — todos os democratas, sejam eles de direita, de esquerda ou do centro sem morada. O estudo, realizado com Rui Costa Lopes, Nuno Garoupa e Luís de Sousa, e publicado na revista Political Psychology, parte de uma pergunta simples e inquietante: será que os portugueses valorizam de forma igual os direitos fundamentais dos acusados — como a presunção de inocência ou o direito à reputação — consoante o partido do político acusado? A resposta, infelizmente, é clara: não. No inquérito experimental, os investigadores apresentaram aos inquiridos um cenário genérico de corrupção: um político suspeito de receber dinheiro em troca de favorecer um concurso público. Depois, pediram que os participantes avaliassem a importância de proteger certos direitos do acusado: a privacidade, o bom nome, a presunção de inocência. Mas havia uma variável escondida: o político em causa, na história apresentada, era ora líder do partido preferido do inquirido, ora apenas um militante desse partido, ora alguém do partido mais detestado pelo inquirido. O resultado foi cru e inequívoco: os portugueses defendem o Estado de Direito quando lhes convém. Se o político era do seu partido de eleição, os inquiridos consideravam “muito importante” que se protegessem os seus direitos fundamentais. Se era do partido rival, esses mesmos direitos tornavam-se secundários. A justiça, afinal, muda de peso conforme a camisola. É uma constatação grave. E não é nova — mas é agora medida com rigor científico. A literatura internacional já identificava esta tendência: a justiça como campo de batalha política, onde o garantismo é privilégio dos “nossos” e a punição exemplar é dever perante os “outros”. O estudo agora publicado vem confirmar que também em Portugal, mesmo entre eleitores comuns, há uma erosão ética profunda: uma espécie de justiça tribal, em que o crime é menos grave se cometido por quem fala como nós, e os direitos do acusado são mais incómodos se ele votar ao contrário. Não é apenas hipocrisia: é a falência moral de uma cultura cívica. Porque se os princípios democráticos — como o direito ao bom nome, à privacidade, ao devido processo — forem vistos como instrumentos estratégicos em vez de garantias universais, então deixaram de ser princípios. Passam a ser armas. Usadas por uns para abater os outros. Neste contexto, a Justiça perde o seu valor simbólico e torna-se uma arma branca de arremesso — que só corta num sentido. Pedro Magalhães, com a sobriedade habitual, resume a conclusão no último tweet: “Na responsabilização criminal, é preciso defender os direitos dos meus, mas acabar com o excesso de garantismo para os outros.” Essa frase devia estar afixada à porta de cada parlamento, de cada redação, de cada tribunal. Porque isto não é um desvio da norma — é o espelho da cultura política dominante. É por isso que se abrem telejornais com buscas ainda sem acusação. É por isso que se destrói a reputação de uma pessoa em três minutos e se pede contenção só quando é “dos nossos”. É por isso que a justiça se enreda em ciclos de suspeição pública, enquanto os verdadeiros culpados — sejam eles quais forem — se escondem atrás da lama que todos ajudaram a levantar. Não escrevo para defender culpados. Escreve para defender a ideia de que todos — todos — devem ser protegidos pelo mesmo conjunto de direitos. Porque se há algo mais perigoso do que um corrupto impune, é um inocente linchado por conveniência partidária. E se queremos uma democracia limpa, ela começa — não no fim dos julgamentos — mas no início das nossas convicções. AC O juízo moral mudou de lugar: foi parar às bancadas do estádio político #JustiçaComDoisPesos #PedroMagalhães #Corrupção #EstadoDeDireito #AlbertoCarvalho #CulturaCívica #EstudoPolítico #PresunçãoDeInocência #Democracia #PolíticaPortuguesa

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