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  • Lisboa, cidade sem testemunhas

    O Silêncio e a Cidade Há cidades que nunca dormem, diz-se. Mas o que nunca dorme não é a cidade; são as suas feridas. As avenidas iluminadas, as fachadas de vidro, os candeeiros de ferro forjado – tudo repousa, tudo se cala no breu da madrugada. O que não adormece é o rumor de uma solidão acumulada, como se cada janela encerrasse um coração em sobressalto. Aprendi a escutar a cidade como quem encosta o ouvido a uma concha do mar: há um fundo de ondas que se repete, uma respiração invisível que atravessa os prédios e os corpos. Quando a noite se adensa e o trânsito se rende ao cansaço, sobram os sons mínimos – um cão que ladra, o vidro de uma garrafa que cai, o arrastar dos passos de alguém que não encontra descanso. É nesses instantes que o silêncio se revela, não como ausência, mas como uma presença mais funda, mais inquietante. Sempre me intrigou esta contradição: quanto mais ruído produzimos, mais precisamos do silêncio. Não do silêncio religioso, com claustros e vozes em surdina, mas de outro, mais feroz, que nos obriga a confrontar a nudez das nossas perguntas. A cidade, com toda a sua pressa, parece feita para nos distrair desse encontro. Multiplica ecrãs, semáforos, anúncios, notificações. Mas no intervalo entre um gesto e outro, quando baixamos a guarda, o silêncio regressa como quem cobra uma dívida. Recordo-me de uma madrugada em Lisboa, na Praça do Comércio. Não havia turistas, nem filas de elétricos, nem vozes a misturar línguas. Apenas o rio, pesado e escuro, com a sua respiração milenar. A lua inclinava-se sobre a água como se fosse um copo derramado. Senti que a cidade inteira estava suspensa naquele instante, como se tivesse envelhecido de súbito. E nesse vazio compreendi: as cidades são frágeis, apesar de toda a pedra, de toda a engenharia. um silêncio prolongado para que se desfizessem em pó. É por isso que muitos a temem. O silêncio expõe. O silêncio denuncia. Quantas vezes um casal, à mesa, se confronta com a impossibilidade de falar, e é nesse mutismo que se revela a falência do amor? Quantas vezes um político, interrompido, não suporta a pausa porque sabe que o vazio o desnuda mais do que qualquer acusação? O silêncio é uma espécie de espelho, mas um espelho sem imagem: devolve-nos a nós próprios em estado cru. E, no entanto, precisamos dele como de um chão firme. Sem silêncio, a palavra torna-se espuma, perde densidade. A poesia não existe sem o intervalo branco que a sustém. A música não respira sem o compasso que separa as notas. A amizade não sobrevive sem a possibilidade de estar junto e, simplesmente, calar. Talvez seja este o maior paradoxo das cidades modernas: quanto mais crescem em altura, em largura, em tecnologia, menos espaço concedem ao silêncio. Enchem-nos de barulho, mas não de presença. Distribuem vozes gravadas, alarmes, notificações, mas não oferecem o tempo nu em que se escuta o próprio coração. É como se tivéssemos medo de nos ouvir – e, no fundo, de nos conhecer. Há dias em que percorro ruas apenas para procurar recantos onde o silêncio ainda resista. Uma biblioteca quase vazia. Um banco de jardim esquecido. O interior de uma igreja abandonada, onde a luz entra pelas frestas como um salmo mudo. E nesses lugares sinto que a cidade me devolve algo essencial: a possibilidade de ser inteiro. Porque é no silêncio que se descobre a cidade invisível – aquela que não aparece em mapas, mas que pulsa sob o cimento. A cidade feita de gestos pequenos: a mulher que leva pão ao vizinho idoso, o rapaz que dá passagem antes da pressa, a criança que se detém diante de um pardal. Nenhum destes gestos faz ruído. Mas todos são a argamassa que impede a cidade de ruir. O silêncio, afinal, não é apenas ausência. É linguagem. Uma linguagem que a cidade tenta abafar mas que insiste em sobreviver. Talvez por isso eu acredite que, quando o mundo se cansar do seu próprio tumulto, será no silêncio que reencontrará a esperança. Elian Morvane Lisboa, cidade sem testemunhas — por Elian Morvane #ElianMorvane #Lisboa #Cidade #Solidão #Literatura #Portugal #PraçadoComércio

  • Uma homenagem a Frank Caprio

    O Juiz da Compaixão No claustro do direito, onde tantas vezes a letra se ergue como muralha, surgiu um homem que a transformou em ponte. Chamava-se Frank Caprio. Para muitos foi apenas juiz; para outros, um rosto simpático que aparecia nos ecrãs, perdoando pequenas infrações com um sorriso. Mas para quem sabe olhar com mais vagar, ele foi um sinal. Senhor, quando o mundo acredita que a lei só pode ferir, envias rostos assim, capazes de mostrar que a justiça também pode curar. Recordo as imagens do seu tribunal como quem assiste a uma liturgia: não havia pressa, não havia vaidade. O arguido entrava com medo e saía com um fragmento de dignidade restaurada. E se, por vezes, a sentença parecia apenas uma multa suspensa ou um perdão inesperado, na verdade era mais: era uma homilia feita de humanidade. Ele sabia que cada rosto traz consigo uma história invisível. Que atrás de um atraso no pagamento havia desemprego, doença, filhos para alimentar. Que por detrás de uma multa de trânsito havia cansaço, pressa de cuidar de alguém, distrações que não vinham da indiferença mas do excesso de vida. E, em vez de fechar os olhos à miséria, Caprio escancarava-os — e fazia da compaixão um ato judicial. Quantos de nós ousamos ver assim? Quantos magistrados, governantes, cidadãos comuns, param para perceber que a justiça não é apenas equilibrar pesos e medidas, mas restituir ao outro a consciência de que ainda é pessoa, ainda é digno, ainda pode recomeçar? Senhor, não são muitos. E, por isso, quando um se levanta, a sua vida torna-se luz. No seu tribunal não faltavam câmaras. Muitos pensaram que o espetáculo diminuía a seriedade da função. Mas a verdade é que, ao abrir as portas à televisão, Caprio fez algo maior: mostrou ao mundo que a misericórdia também é notícia, que o perdão pode ocupar o horário nobre. Num tempo em que se consome a violência como entretenimento, ele ofereceu um outro enredo: o da bondade. E a assembleia — não apenas de Rhode Island, mas de todos os que o viam no YouTube, na televisão, nas partilhas anónimas — reconheceu nele algo raro. Não era celebridade, era testemunha. Hoje partiu. E no silêncio que a sua ausência deixa, compreendo melhor a palavra do salmo: “A justiça e a paz abraçar-se-ão.” Porque foi isso que ele encarnou. Não uma justiça cega, nem uma paz ingénua. Mas a convicção profunda de que o direito e a compaixão não são inimigos. Senhor, quantas vezes repetimos que “ninguém está acima da lei”. Mas Caprio lembrava-nos que ninguém está abaixo da misericórdia. No claustro da tarde, imagino-o agora como juiz de um outro tribunal — não aquele em que se impõem sentenças, mas aquele em que se escuta o coração. Onde não há advogados de defesa nem acusadores públicos, mas apenas o rumor dos que chegam com a vida marcada de fragilidades. Vejo-o levantar-se, sorrir como sempre, e dizer: “Conte-me a sua história.” E sei que nesse instante o céu se abre como uma assembleia. Que resta a nós, aqui, diante da sua memória? Não basta chorar a partida. A verdadeira homenagem é aprender com ele. É levar para os nossos próprios julgamentos — pequenos ou grandes, familiares ou sociais, políticos ou íntimos — a mesma disposição de ouvir antes de condenar. É deixar que a compaixão tenha a última palavra. Na liturgia da justiça, Frank Caprio foi diácono fiel: serviu, não se serviu. E o seu legado não cabe num currículo, mas em milhares de vidas tocadas pelo gesto de alguém que acreditou que a bondade também pode ser lei. Senhor, recebe-o agora na Tua assembleia eterna. E concede-nos a graça de não esquecer que a Tua justiça se escreve sempre com a tinta da misericórdia. Amém. Frei Lourenço de Santa Clara – Pequenos Tratados do Invisível O malhete do juiz Frank Caprio #FrankCaprio #JustiçaCompassiva #FreiLourençoDeSantaClara #ComunidadeAC #PequenosTratadosDoInvisível

  • O Amor é um Feriado que Não se Assinala

    Alberto Carvalho — O Amor é um Feriado que Não se Assinala Amanhã é 15 de agosto, feriado nacional em honra de Nossa Senhora da Assunção. Dia santo para os católicos, com missa obrigatória e procissões em muitas terras, mas também ocasião de romaria popular, onde a fé e a festa se misturam como há séculos. Para outros, será apenas um dia a mais no calendário, com o descanso possível e a rotina ligeiramente suspensa. Pensei que podia aproveitar a véspera para falar de um assunto que não cabe no calendário nem se limita a ritos: o amor. Não o “amor” das capas de revista, feito de retoques e frases que parecem ter saído de um cartão perfumado. O outro. O que se inventa no improviso, o que chega atrasado e ainda assim é recebido à porta, o que sobrevive aos silêncios e aos dias maus. ✺ O amor que me interessa não se deixa medir em aniversários nem cabe em datas fixas. É mais parecido com uma ponte improvisada: feita de pedaços de madeira que se tinham à mão, e que se reconstrói todos os dias para que o outro possa atravessar sem cair. É esse que me apetece escrever hoje. No tempo em que os relógios ainda eram de corda, havia a ideia de que o amor durava para sempre. Os retratos ficavam na sala, e quem passava via o casal na moldura como se nada lhes pudesse acontecer. Mas a fotografia é apenas um instante congelado; o amor, esse, tem de atravessar invernos e verões, febres e noites mal dormidas. Tem de aceitar que a vida nem sempre deixa lugar para flores na jarra, e que há semanas em que a única prova de afeto é o chá quente deixado na mesa antes de sair. ✺ Hoje, trocámos a fotografia emoldurada pelo feed que se atualiza. O amor é agora feito de mensagens rápidas, corações digitais, fotografias que se apagam passadas vinte e quatro horas. Não digo isto com nostalgia — há beleza também na forma como encontramos meios novos para dizer o mesmo. Mas há uma diferença: a urgência. Queremos respostas imediatas, declarações diárias, prova constante de que o outro está ali. E esquecemo-nos de que, às vezes, amar é justamente saber esperar. O amor não se esgota na paixão. A paixão é o incêndio; o amor é a casa que se reconstrói depois, com paredes mais fortes e janelas que se abrem quando o fumo já passou. Há quem confunda as duas coisas e fuja quando as chamas baixam, procurando o próximo incêndio. Mas quem já viveu algum tempo sabe que é nas manhãs normais, nas conversas repetidas, no cuidado quase invisível que se esconde o verdadeiro milagre. E é aí que o feriado de amanhã me parece uma boa metáfora: um dia que não é para grandes acontecimentos, mas que nos oferece a pausa suficiente para olhar para o lado e reparar que a pessoa está ali, a segurar o mesmo jornal ou a mesma chávena de café. Talvez seja esse o ponto mais alto da vida a dois: perceber que, no meio de tudo, escolhemos ficar. O amor, quando é bom, não é uma prisão. É um porto. Podemos sair e regressar, sabendo que o outro não contou as horas nem fechou as portas. É por isso que o amor exige coragem: coragem para mostrar fragilidades, para admitir falhas, para pedir desculpa. E também para ouvir sem se defender, para abraçar sem fazer perguntas, para calar quando é preciso. ✺ Lembro-me de uma frase que ouvi a um velho marinheiro: “A âncora segura, mas não prende.” O amor que vale a pena é assim. Não se trata de manter alguém por falta de alternativas, mas de querer que seja precisamente essa pessoa a atravessar connosco os invernos e os verões. Talvez o problema esteja na forma como o procuramos. Falamos de “encontrar o amor” como quem encontra um objeto perdido. Mas o amor não está à espera numa esquina. Ele nasce de gestos mínimos: uma mão que se estende sem que a peçamos, um riso que nos apanha desprevenidos, um cuidado que não se anuncia. Cresce quando é alimentado, e definha se o deixarmos ao frio. ✺ E não é só nos casais que o amor acontece. Há amores que não passam pelo romance: o amor entre amigos que se salvam mutuamente sem fazer alarde; o amor dos pais que, mesmo cansados, deixam o melhor pedaço para os filhos; o amor de quem cuida de um desconhecido numa fila de hospital. É desse que se constrói uma cidade habitável. Amanhã, quando muitos acordarem sem saber exatamente o que fazer com o dia a mais, talvez seja boa ideia gastar parte dele a reparar no que nos liga. Não no que nos separa — disso já se ocupam as notícias, as redes, os partidos. Mas no que ainda nos permite olhar para alguém e sentir que estamos a salvo. Se me perguntarem se o amor salva, respondo sem hesitar: sim. Não porque cure todas as dores ou impeça todos os erros, mas porque nos dá uma razão para continuar a tentar. É uma espécie de feriado interior que não depende de calendários: pode acontecer numa terça-feira de trabalho ou numa madrugada de insónia. ✺ O amor é raro, sim. Mas não é frágil como dizem. Frágil é a nossa atenção, que se distrai com o barulho e deixa escapar os sinais. O amor, quando existe, aguenta. Aguenta más notícias, distâncias, tempestades. Aguenta porque não se alimenta de promessas vazias, mas de gestos concretos, às vezes tão pequenos que só mais tarde percebemos o peso que tiveram. Amanhã é feriado, e talvez para muitos seja só isso. Mas para quem quiser, pode ser também o dia de olhar para alguém — ou até para si mesmo — e dizer, de forma clara: “Gosto de ti. E fico.” Não há calendário que valha mais do que isso. AC Love — O Feriado que Não se Assinala #Amor #Vida #NossaSenhoraDaAssunção #Feriado #AlbertoCarvalho #Afeto #Esperança #RelaçõesHumanas

  • Trégua em marcha lenta

    Trégua em marcha lenta Wall Street encerrou ontem no vermelho, ainda que com perdas ligeiras, depois de Donald Trump ter assinado a prorrogação, por mais 90 dias, da trégua comercial entre os Estados Unidos e a China. O acordo, inicialmente estabelecido em maio, visava travar a escalada de tarifas entre as duas maiores economias do mundo. Os números ficaram registados: Dow Jones -0,45%, S&P 500 -0,20% e Nasdaq -0,30%. Nada dramático, mas o suficiente para lembrar que os mercados não vivem apenas de assinaturas — precisam de sinais concretos. A decisão, já antecipada pelo secretário do Comércio, Howard Lutnick, chegou enquanto delegações norte-americanas e chinesas se encontravam na Suécia, em busca de um alinhamento mais estável. O problema, como sempre, é que tréguas não são tratados de paz. Funcionam como um intervalo no jogo, mas as equipas mantêm-se em campo, olhando o adversário com desconfiança. A economia global assiste, prende a respiração… e continua a ajustar-se a cada rumor. Enquanto isso, o investidor comum — esse que não tem assento nas mesas de negociação — continua a depender de decisões tomadas a portas fechadas e de calendários que não controla. Talvez a verdadeira questão não seja quando termina a trégua, mas o que acontecerá no minuto seguinte. Helena Vale — Mapa de Coisas Sérias Gráficos de Wall Street em queda após prolongamento da trégua EUA-China #Economia #WallStreet #China #EUA #MercadosFinanceiros #PolíticaEconómica #HelenaVale #MapaDeCoisasSérias

  • Quando o Sentido se Completa em Quem Lê

    O Dia em que o Mar se Mudou para a Serra Diz o meu vizinho que o problema do país é que já não temos “patriotismo a sério”. Eu perguntei se isso vinha em frasco ou se se compra ao quilo na mercearia. Ele ficou sério: “Não, Zé, é que precisamos de proteger a nossa identidade!”. Ora, eu cá sei como isso acaba — começa com bandeiras na varanda e acaba com reuniões para decidir que cor de tapete é “verdadeiramente portuguesa”. Se calhar, azul não pode, porque lembra o mar, e o mar é perigoso, que traz estrangeiros. O melhor mesmo é fechar o mar. Puxar um toldo gigante, daqueles de esplanada, e pronto. A água fica só para nós, que assim ninguém nos rouba as ondas. E como é que se vive sem peixe? Fácil, meu amigo: bacalhau salgado do Minho (se lá ainda houver), sardinha de lata e carapau enlatado com rótulo patriótico. Só de pensar, já me sinto mais “nacional”. O problema é que depois começam a implicar com as palavras. “Fado” não pode, porque veio do árabe. “Bacalhau” também não, porque a receita foi apanhada no estrangeiro. “Pastel de nata” talvez passe, desde que seja com farinha nacional e ovos com certificado de origem. Mas ai de quem usar canela de fora — traidor! É este o tal nacionalismo moderno: um amor tão grande à pátria que até a querem pôr dentro de um frasco, fechar bem a tampa e guardar na despensa, não vá entrar um sopro de vento espanhol e estragar o lote. Eu cá acho graça, mas também fico preocupado: com esta lógica, daqui a pouco vão exigir passaporte até para entrar no café da esquina. E, pior, vão cobrar taxa para ouvir a vizinha falar francês com a tia emigrada. Enfim… se isto é “patriotismo a sério”, prefiro o antigo: bandeira no São João, vinho na mesa e mar aberto para quem queira chegar. Porque Portugal sempre foi assim — e quem não gosta, que vá ver se o mar já fechou. Zé das Verdades Meias Retrato do Zé no café #CadernoDoZé #HumorPortuguês #CrónicaSatírica #PolíticaComHumor #VidaEmPortugal #HumorIrónico

  • O Caderno das Duas

    No Caderno das Duas, as páginas não se escrevem sozinhas. Há nelas duas vozes, nascidas com um ano e pouco de distância, que se encontram num mesmo papel e se desafiam sem pedir licença. A mais velha mede o mundo como quem percorre um mapa antigo, sublinhando cada detalhe e perguntando-se onde começa a mudança. A mais nova atravessa o dia como quem corre atrás de uma ideia antes que ela fuja, rindo-se das regras e colecionando espantos. Entre ambas, o que nasce não é apenas um diálogo — é um retrato vivo de uma idade em que tudo ainda pode ser reinventado. E é dessa conversa, entre a paciência e a pressa, que se escreve aqui o futuro. A mais velha — 13 anos Escreve como quem atravessa uma ponte devagar, observando o rio e as margens antes de dar o passo seguinte. Gosta de sublinhar palavras no dicionário e de colecionar frases que encontra em livros velhos. A sua prosa é medida, quase matemática, mas com uma ternura escondida nas entrelinhas. Prefere textos longos, em que possa construir raciocínios, levantar hipóteses e deixar perguntas no ar. Fala de injustiças com um misto de indignação e paciência, como quem acredita que mudar o mundo exige mais do que pressa: exige clareza. No Caderno das Duas é a voz que organiza, que liga as ideias e que, mesmo em silêncio, está sempre a pensar no que virá a seguir. A mais nova — 12 anos Escreve como quem corre descalça numa rua cheia de sol. As palavras saem-lhe em rajada, ora a rir, ora a provocar, ora a espantar-se com coisas que os adultos já não veem. Não se preocupa com rascunhos: escreve à primeira e raramente apaga. Troca facilmente de tema, salta de uma ideia para outra como quem muda de passeio. É capaz de transformar um episódio da escola numa crónica afiada ou um rumor de recreio numa quase poesia. No Caderno das Duas é a faísca, a gargalhada que começa um texto e a exclamação que o fecha. E há ainda um terceiro olhar — o do irmão de seis anos — que ouve todas as histórias como quem descobre um segredo e, mesmo sem escrever, encontra palavras certas para as contar de novo. Entre os três, o que nasce não é apenas um diálogo: é um retrato vivo de uma idade em que tudo ainda pode ser reinventado. É dessa conversa, entre a paciência, a pressa e o espanto, que se escreve aqui o futuro. Usam o avatar que lhes desenhámos: duas figuras lado a lado, cúmplices, com expressões diferentes mas o mesmo brilho no olhar — como se estivessem prestes a contar um segredo que o mundo ainda não ouviu. AC As duas irmãs do Caderno — cumplicidade e contraste num só olhar. #CadernoDasDuas #ComunidadeAC #EscritaJuvenil #LiteraturaJovem #VozesDaJuventude #AlbertoCarvalho

  • O valor do silêncio

    Senhor, antes do som veio o sopro. E antes do sopro, a Tua proximidade. No adro da manhã, quando o sino ainda repousa, há uma quietude que prepara a assembleia melhor do que qualquer palavra. O acólito estende a toalha do altar; o coração aprende, devagar, a estender também a sua mesa. No breviário, entre dois salmos, não há vazio: há pausa. Respiração. Um intervalo onde a oração toma corpo sem pedir frase. Tu sabes: tememos a calma porque nela escutamos demasiado. Por isso apressamos o rumor, multiplicamos notícias, ocupamos cada fresta com comentários — como se o barulho fosse bênção e a espera, castigo. Mas a trégua do mundo que nos concedes não apaga; envolve. Sobe como incenso. Cura devagar. Dá espaço à ferida para respirar sem vergonha. É nesse recolhimento que a decisão aprende a ser justa, que a esperança não precisa de gritar para existir, que a caridade encontra a sua hora — não a nossa, a Tua. E, quando enfim regressamos à nave, levando connosco a luz breve das velas e o rumor de quem chega, percebemos que a palavra só vale quando foi precedida por esta escuta, por este consentimento íntimo em deixar-Te falar primeiro, mesmo que apenas por sinais pequenos, quase invisíveis. Concede-nos, Senhor, a graça de não fugir da quietude santa. E que, ao voltarmos à assembleia, o que dissermos retenha o perfume do incenso e a disciplina de quem foi enviado em paz. Frei Lourenço de Santa Clara — Pequenos Tratados do Invisível #PequenosTratadosDoInvisível #FreiLourençoDeSantaClara #SilêncioSagrado #ReflexãoEspiritual #VidaMonástica #Oração #Interioridade #PazInterior #IncensoEAltar #Assembleia

  • O Ofício das Horas

    No claustro da tarde, quando a luz já não fere mas acaricia, aprendo a medir o tempo pela lentidão com que o pó assenta nas páginas abertas. Não há sino que chame; é o próprio ar que se recolhe, como quem se lembra de rezar. O cálice repousa sobre o altar com a paciência das coisas que sabem esperar. Entre um salmo e outro, a assembleia respira num compasso que não foi escrito — é dom. Cada rosto traz a marca de um cansaço antigo e, ao mesmo tempo, a centelha de quem sabe que ainda pode recomeçar. É aqui, Senhor, que a Tua voz se esconde nas dobras de um gesto simples: o acólito que acende a vela, a mão idosa que ajeita o xale, o olhar de quem chega atrasado mas não perde a bênção. Não há pressa. Não há notícia que interrompa esta ordem secreta. Talvez a fé seja isto: guardar no coração o rumor das pequenas fidelidades, até que elas floresçam no instante certo. Como a água que corre debaixo da pedra, sem que ninguém a veja, mas que alimenta tudo o que cresce em redor. Quando a última oração se cala, não há despedida — há envio. E cada um parte com um fragmento da assembleia dentro de si, levando para as ruas o perfume do incenso e a leveza de quem foi, por um momento, hóspede da Tua paz. Frei Lourenço de Santa Clara — Pequenos Tratados do Invisível O valor do silêncio no altar #Silêncio #Oração #Espiritualidade #Liturgia #FreiLourençoDeSantaClara

  • Pequenos Tratados do Invisível

    Frei Lourenço de Santa Clara Escreve como quem acende uma vela antes de falar. As suas frases caminham devagar, com a gravidade de quem aprendeu a ouvir antes de responder. Nasceu no claustro imaginário que construiu para si mesmo — um lugar feito de silêncio, de leitura e de memórias partilhadas com monges que só existem nos livros. Gosta de olhar a vida pública com a lente da ética e da espiritualidade, não para fugir ao mundo, mas para o compreender de dentro. Nas suas páginas, política e fé não são inimigas: conversam à sombra do mesmo claustro. Fala de justiça como quem fala de pão, e de misericórdia como quem descreve o nascer do dia. No Pequenos Tratados do Invisível, deixa sementes que crescem devagar, mas nunca se perdem. Frei Lourenço de Santa Clara Frei Lourenço — a voz ética e espiritual da Comunidade AC. #FreiLourenço #ComunidadeAC #PequenosTratadosDoInvisível #Ética #Espiritualidade #VidaPública #AlbertoCarvalho

  • Esperar

    A espera também conta na história. A mais velha: Hoje, no parque, o escorrega grande estava fechado porque precisava de arranjo. Fiquei sentada a olhar para ele e pensei que esperar é mais difícil quando vemos o que queremos e não podemos ter. Há quem diga que esperar ensina paciência, mas acho que também nos ensina a imaginar o que vamos fazer quando a espera acabar. A mais nova: Eu acho que esperar é como quando estás a ver o pacote de batatas fritas na mesa e ainda ninguém disse que podes abrir. A cabeça começa a inventar histórias sobre como vai ser a primeira dentada. Às vezes, a espera é quase melhor do que o momento… quase. As duas: Talvez seja por isso que, quando finalmente chega a nossa vez, o momento sabe mais — porque o tempo que passou também faz parte do que recebemos. As duas irmãs do Caderno — cumplicidade enquanto esperam. #CadernoDasDuas #ComunidadeAC #Esperar #Paciência #EscritaJuvenil #VozesDaJuventude #AlbertoCarvalho

  • Ser justo

    A justiça também se aprende nas férias. A mais velha: Hoje, no jogo de cartas, vi um miúdo a inventar regras para ganhar. Não disse nada logo, mas senti que devia. Ser justo não é só seguir as regras — é lembrar aos outros que elas existem para todos, mesmo quando ninguém está a olhar. A mais nova: Eu acho que ser justo é mais difícil quando a pessoa que está a fazer batota é tua amiga. Porque aí ficas a pensar: “Não quero estragar o jogo.” Mas às vezes é preciso estragar um bocadinho para o arrumar de novo. Não é por mal, é porque se toda a gente fizer de conta que não vê, um dia já não há jogo, só confusão. As duas: E talvez seja isso que os adultos esquecem: a justiça começa nas coisas pequenas. Até num jogo de férias. Avatar das duas irmãs do Caderno das Duas, lado a lado, com expressões distintas mas cúmplices, como se acabassem de comentar um jogo nas férias. #CadernoDasDuas #ComunidadeAC #Justiça #Férias #JogosDeVerão #EscritaJuvenil #VozesDaJuventude #AlbertoCarvalho

  • A lupa de Helena Vale

    Helena Vale não escreve para entreter. Escreve para desmontar — com a paciência de quem sabe que, na política e na vida, os detalhes são o que mais pesa. Há quem fale de “opinião” como se fosse mera impressão. Helena trabalha a opinião como um artesão trabalha o vidro: limando arestas, expondo fragilidades, deixando passar a luz onde antes havia sombra. Não lhe interessa o aplauso fácil. Interessa-lhe que, ao fechar o texto, o leitor sinta que compreendeu melhor o que antes parecia um labirinto. Na Comunidade AC, Helena Vale é a voz que não tem medo de perguntar “porquê?” até ao fim. Mesmo que a resposta incomode. Sobretudo quando incomoda. AC Ver de perto para pensar mais longe. #ComunidadeAC #HelenaVale #AnálisePolítica #PensamentoCrítico #Opinião

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