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  • A China fecha os seus departamentos de línguas. É geopolítica.

    A língua como fronteira do mundo Ao Manyun* lecciona suaíli há mais de vinte anos na Universidade de Comunicação da China, em Pequim. O curso chama-se "Teoria e Prática da Tradução do Suaíli" e existe há seis décadas — mais velho do que a maioria dos seus alunos, mais velho do que muitas das alianças diplomáticas que justificaram a sua criação. Nos últimos semestres, os estudantes começaram a chegar com uma pergunta que ela não esperava tão cedo: para que serve isto, se a máquina traduz em segundos? A China não está a adaptar o ensino das línguas — está a substituí-lo por máquinas que traduzem sem habitar. Ao encerrar departamentos de línguas e redirecionar recursos para robótica, inteligência artificial e engenharia, a China redefine o conhecimento como instrumento de competição estratégica. Manyun não os mandou embora. Redesenhou o curso. O objetivo, disse ela num jornal estatal, já não é ensinar a traduzir — é ensinar a dirigir e a avaliar tradutores de IA em tarefas de tradução complexa. Em trinta palavras, uma disciplina de sessenta anos dobrou o joelho. Em maio de 2026, um inquérito acompanhou setenta universidades chinesas que anunciaram alterações aos seus programas. O padrão era inequívoco: oito licenciaturas em japonês eliminadas, cinco em alemão, cinco em estudos de tradução. Em simultâneo, o Ministério da Educação aprovava nove universidades para oferecer licenciaturas em "inteligência incorporada" — o termo técnico para sistemas físicos autónomos, robôs humanoides, máquinas que atuam no mundo sem intervenção humana direta. Aprovava também programas em "economia de baixa altitude", semicondutores e engenharia de terras raras. A linguagem das decisões era a linguagem da eficiência. Campos saturados. Mercado de trabalho em mutação. Excesso de capacidade instalada. Nenhuma das justificações mencionava a palavra que estava em causa: poder. Durante décadas, os departamentos de línguas estrangeiras foram máquinas de produzir mediadores — pessoas que não apenas convertiam palavras, mas que carregavam dentro de si uma estrutura cognitiva formada por outra língua, outro sistema de imagens, outra maneira de dividir o real. Uma pessoa que fala alemão fluentemente não é um chinês que sabe alemão. É alguém que aprendeu a pensar, durante uma fração do tempo, como pensa alguém criado em alemão. A IA elimina a vulnerabilidade que isso implica. Mas elimina também a força. Traduzir é converter. Interpretar é habitar. Uma máquina pode fazer a primeira com uma fidelidade que nenhum humano alguma vez atingirá na velocidade. A segunda pressupõe que o intérprete entrou em algum momento pelo outro lado — que viveu, mesmo que fugazmente, dentro da lógica do outro, com os seus pressupostos não ditos, as suas omissões reveladoras, as suas formas de não dizer o que se diz. Os diplomatas sabem isto. Os jornalistas que trabalham em países estrangeiros sabem isto. Não é o vocabulário que trouxeram de volta — é a capacidade de perceber quando algo que parece simples na superfície carrega, por baixo, uma estrutura de sentido que não se transfere diretamente. A capacidade de reconhecer o que a máquina não vai assinalar porque não sabe que aquilo é estranho. Ao reduzir sistematicamente a formação de pessoas capazes de habitar linguisticamente o exterior, o Estado chinês está a fazer uma escolha sobre o tipo de relação que quer ter com o mundo que não fala chinês. Uma relação mediada por máquinas é mais rápida, mais barata, mais escalável, mais controlável. É também mais opaca — não para o exterior, mas para o interior. Porque uma máquina não traz de volta o que não foi programada para reconhecer como relevante. A professora de Syracuse que o inquérito cita formula o risco com prudência académica: alguns campos podem ser desvalorizados antes de a sua importância de longo prazo ser compreendida. Mas a formulação pressupõe que a importância existe independentemente da decisão — que está algures à espera de ser reconhecida. O que acontece com capacidades que não são apenas desvalorizadas, mas ativamente não reproduzidas durante uma geração? Uma língua que deixa de ser ensinada não fica adormecida. As pessoas que a sabiam envelhecem. Os departamentos fecham. A cadeia de transmissão parte-se. E quando o Estado quiser voltar a ter pessoas que percebam o interior de outra cultura, não as encontra — porque o mercado que as deveria ter produzido foi declarado obsoleto vinte anos antes. Aconteceu em vários países ocidentais com o árabe, o persa, o mandarim — línguas que eram "menores" até deixarem de o ser, momento em que se descobriu que formar um especialista demora quinze anos e que a necessidade é imediata. A diferença, no caso chinês, é que não é um departamento que fecha por falta de alunos. É uma política nacional que elimina oito licenciaturas em japonês ao mesmo tempo. O argumento de que a IA torna as humanidades mais valiosas tem os seus defensores onde se esperaria encontrá-los: o CEO da Nvidia afirma que uma licenciatura em inglês pode ser a mais valiosa na era da IA; o diretor operacional da BlackRock diz que a empresa coloca ênfase crescente em licenciados em história e humanidades. Mas o argumento aplica-se a quem trabalha em inglês, dentro de estruturas ocidentais, em contextos onde a IA já é infraestrutura invisível. Não responde à pergunta sobre o que acontece a quem precisa de ser a ponte. E ignora uma ironia: se a IA tornou o inglês na linguagem universal da computação, as culturas que não pensam em inglês precisam mais do que nunca de pessoas que o compreendam de dentro — não como utilizadoras de ferramentas de tradução, mas como habitantes temporárias de um sistema de pensamento. A alternativa é usar a IA para aceder ao inglês como se acede a uma base de dados: eficaz para extração, cega para a nuance. Um curso que antes formava pessoas capazes de pensar em suaíli, de ler literatura suaíli, de perceber a lógica interna das sociedades que falam suaíli — esse curso foi transformado num curso que forma pessoas capazes de supervisionar uma máquina que faz isso. O resultado superficial pode parecer semelhante: há ainda uma pessoa no processo, há ainda competência humana envolvida. Mas a competência mudou de natureza. Passou de habitação para auditoria. A habitação produz diplomatas, intérpretes, académicos, negociadores — pessoas que sabem quando a máquina está errada não porque leram o relatório de erros, mas porque alguma coisa soa falso. A auditoria produz gestores de sistemas que são muito bons a verificar o output mas que não têm, por definição, acesso ao que o output pode estar a perder. O paradoxo é que esta reconfiguração acontece precisamente quando a China mais precisaria de mediadores humanos. A competição tecnológica com os Estados Unidos intensificou-se ao ponto de tornar o diálogo técnico difícil. As negociações sobre semicondutores, IA, acesso a mercados e padrões tecnológicos globais desenvolvem-se todas num terreno onde a compreensão do outro lado não é uma vantagem académica, é uma necessidade operacional. A explicação mais benigna é um desfasamento temporal: as decisões foram tomadas com base em dados de mercado de trabalho de curto prazo, e a consequência de longo prazo não foi calculada. A menos benigna — e não menos plausível — é que a mediação humana com o exterior é vista, por alguma fração do aparelho decisório, não como um ativo mas como um risco. Pessoas que habitam o interior de outra cultura tendem a desenvolver opiniões sobre essa cultura que não são facilmente controláveis. Uma máquina que traduz não desenvolve opiniões. Manyun diz que o objetivo já não é ensinar a traduzir — é cultivar competências para dirigir e avaliar tradutores de IA em tarefas complexas. Mas há uma palavra que desapareceu entre a versão antiga do curso e a nova: habitar. Ninguém dirige e avalia algo que habita. Habitar é perder-se, por um tempo, na lógica do outro — e voltar com algo que não se consegue nomear completamente, mas que transforma a maneira como se percebe o próprio lado. Daqui a vinte anos, quando alguém precisar de perceber o interior de uma situação que nenhuma máquina assinalou como problemática — porque a máquina não sabia que aquilo era estranho — essa pessoa terá de existir. A pergunta é onde foi formada. *Ao é o apelido — um apelido chinês, monossilábico, perfeitamente normal.

  • Breve História da Cultura Ocidental — Recensão

    Há livros que nascem contra a velocidade. Não recusam o presente, nem procuram abrigo numa nostalgia erudita; lembram apenas que nenhuma época se compreende a si mesma se perder a memória das formas que a tornaram possível. Breve História da Cultura Ocidental não quer substituir bibliotecas, nem encerrar a cultura numa síntese definitiva. Reabre um caminho que a pressa contemporânea tende a tornar indistinto. O título contém uma promessa e um risco. Toda a breve história de uma matéria tão vasta pode parecer demasiado arrumada, demasiado panorâmica, demasiado disponível para consumo rápido. Mas a síntese não é, por natureza, uma concessão à superficialidade. Há momentos em que a cultura precisa de mapas: não para dispensar a viagem, mas para impedir que a dispersão se confunda com conhecimento. Recensão feita por Alberto Carvalho — Breve História da Cultura Ocidental, de Fernando Gonçalves. Ideias de Ler, 2026. Fernando Gonçalves propõe uma travessia pela cultura ocidental da Antiguidade aos dias de hoje, cruzando história, pensamento, arte, literatura, religião, filosofia, pintura, música, cinema e formas de sensibilidade que moldaram o modo como o Ocidente se pensou a si próprio. O interesse de uma obra assim não está apenas na extensão do arco temporal. Está na tentativa de restituir continuidade a um mundo habituado a viver por fragmentos. A cultura ocidental é hoje frequentemente tratada como campo de batalha ou como museu. Para uns, torna-se património a defender em bloco, sem interrogação; para outros, um legado a desconstruir até à exaustão, como se a crítica exigisse sempre a demolição do objeto criticado. Entre estas duas tentações, perde-se a atitude mais exigente: compreender. Não venerar, não absolver, não cancelar por reflexo. Compreender. Saber de onde vêm as formas, as ideias, as obras, os conflitos, as feridas e as esperanças que ainda nos organizam. A cultura não aparece aqui como ornamento da vida prática, nem como luxo de quem tem tempo. Surge como estrutura de orientação. Uma sociedade que não reconhece as suas camadas de memória fica entregue ao ruído do imediato. Pode ter informação em excesso e, ainda assim, empobrecer na capacidade de juízo. Pode acumular dados, imagens, opiniões, indignações, e perder a continuidade interior que permite distinguir uma herança viva de uma coleção de referências soltas. A expressão cultura geral ganhou, em muitos ambientes, uma sonoridade antiga, quase embaraçosa. Parece pertencer a outro mundo, anterior à especialização extrema, à aceleração digital, à fragmentação dos públicos, à transformação do saber em utilidade mensurável. Talvez por isso volte a ser necessária. Não como pose social, nem como catálogo de nomes ilustres, mas como tecido comum: aquilo que permite a uma comunidade conversar consigo mesma sem começar sempre do zero. A cultura ocidental nunca foi uma linha limpa. É feita de criação e violência, razão e mito, fé e dúvida, império e emancipação, cânone e contestação. Inclui Atenas e Jerusalém, Roma e Florença, mosteiros e universidades, catedrais e revoluções, salões, fábricas, guerras, vanguardas, cinemas, bibliotecas e ruínas. Qualquer aproximação séria a esse percurso tem de aceitar a tensão. O Ocidente não é uma essência imóvel. É uma disputa contínua sobre o que merece ser preservado, reformulado ou superado. Quando se fala de grandes obras e grandes nomes, o perigo é deixá-los imóveis, como medalões numa parede. Mas as obras que permanecem não permanecem por estarem mortas. Permanecem porque continuam a mudar de lugar dentro de nós. Homero, Platão, Agostinho, Dante, Shakespeare, Cervantes, Bach, Kant, Goethe, Beethoven, Dostoiévski, Virginia Woolf, Picasso ou Chaplin — para ficar apenas no tipo de constelação que uma história cultural inevitavelmente convoca — não são peças de decoração civilizacional. São instrumentos de inquietação. Uma obra de divulgação cultural tem uma responsabilidade difícil: ser acessível sem ser pobre; ser panorâmica sem se tornar escolar no pior sentido; ser clara sem transformar a clareza em simplificação. O leitor que procura um livro deste género não precisa apenas de saber quem veio antes de quem. Precisa de perceber que certas ideias continuam a trabalhar por baixo do presente: a dignidade da pessoa, a tensão entre liberdade e ordem, a relação entre beleza e verdade, o lugar do sagrado, a crise da razão, a emergência do indivíduo, o poder da imagem, a fragilidade da democracia, a pergunta pelo sentido. A cultura não nos torna necessariamente melhores. A história europeia é demasiado brutal para consentir essa ingenuidade. Pessoas cultas participaram em violências extremas; sociedades letradas aceitaram barbáries; bibliotecas coexistiram com perseguições. A ausência de cultura, porém, deixa-nos mais disponíveis para simplificações agressivas, para a sedução dos slogans, para o empobrecimento da linguagem e para a ilusão de que o presente se basta a si próprio. Breve História da Cultura Ocidental chega num tempo que desconfia da demora. Tudo pede reação rápida, leitura breve, opinião imediata. A cultura exige outra respiração. Uma ideia atravessa séculos antes de se tornar hábito; uma forma artística reaparece onde menos se espera; uma pergunta antiga pode voltar, intacta, ao centro de uma crise contemporânea. Falar de cultura ocidental hoje é entrar num terreno carregado, frequentemente capturado por agendas identitárias opostas. Abandonar o tema aos que o usam como arma seria uma derrota intelectual. A herança ocidental deve ser estudada, criticada, amada quando merece amor, recusada quando exige recusa, mas nunca entregue à ignorância — nem à ignorância orgulhosa dos que a veneram sem a conhecer, nem à ignorância apressada dos que a rejeitam sem a compreender. O livro de Fernando Gonçalves recupera esse gesto elementar: voltar a ligar. Ligar épocas, disciplinas, obras, pensamentos, experiências históricas. Ligar a arte à vida comum. Ligar a memória à liberdade. Ligar o passado ao julgamento do presente. Numa época em que a atenção se fragmenta e a cultura é tantas vezes reduzida a conteúdo, essa ligação já não é pouco. A pressa continuará a vencer muitos dias. A cultura trabalha noutro tempo.

  • Recensão: - O medo com outro nome

    A ditadura portuguesa não terminou quando começou a hesitar. Antes disso, adaptou-se. Mudou o vocabulário, ajustou gestos, substituiu alguma rigidez pública por uma promessa de abertura, tentou dar à permanência o ar respeitável da reforma. O marcelismo viveu muito dessa ambiguidade. A PIDE passou a chamar-se DGS, como se uma polícia política pudesse ser transformada por uma alteração administrativa. O país ouviu falar de evolução e continuou vigiado. Recebeu uma linguagem nova, mas reconheceu, por baixo dela, a antiga disciplina do medo. Histórias da PIDE — Volume 2: Quando era a DGS de Caetano ocupa esse lugar incómodo da memória portuguesa: o momento em que o regime já percebia a necessidade de parecer menos imóvel, mas não admitia perder o mecanismo que lhe garantia obediência. A mudança de nome pertenceu ao teatro de sobrevivência de uma ditadura pressionada pela guerra colonial, pela contestação estudantil, pela oposição democrática, por setores católicos inquietos, por militares cada vez menos disponíveis para sustentar indefinidamente o império. A sigla antiga pesava demasiado. A prática continuava reconhecível. Alberto Carvalho fez a recensão — Histórias da PIDE — Volume 2: Quando era a DGS de Caetano, de José Pedro Castanheira. Tinta-da-China, 2026. A polícia política não desapareceu por se tornar mais burocrática na designação. A vigilância, a perseguição, os relatórios, os interrogatórios, a violência exercida sobre opositores e militantes anticoloniais continuaram a fazer parte do funcionamento do Estado. O nome DGS parecia menos carregado, menos salazarista, menos brutal à primeira vista. A função permanecia. O salazarismo terminal é hoje mais fácil de identificar. Tem uma iconografia própria: a censura, a imobilidade, a escola obediente, o chefe envelhecido, a polícia política como sombra natural do regime. O marcelismo é mais traiçoeiro para a memória pública. Apresenta-se com linguagem de transição, com promessa de modernização, com a ideia de que a ditadura poderia corrigir-se sem deixar de ser ditadura. Essa zona cinzenta permite, décadas depois, uma nostalgia mais limpa: não a nostalgia declarada da repressão, mas a nostalgia da ordem sem custo visível. José Pedro Castanheira tem trabalhado contra essa limpeza posterior. O arquivo da PIDE/DGS não é apenas um depósito de papéis antigos. É uma cartografia de vidas atravessadas pelo poder: nomes, escutas, processos, denúncias, prisões, carreiras, cumplicidades, vítimas. A polícia política não foi uma abstração sombria instalada algures fora do quotidiano. Foi uma máquina concreta, com funcionários, métodos, hierarquias e rotinas. A sua violência não existiu à margem do regime; ajudou a mantê-lo de pé. Há hoje em Portugal uma forma insistente de tornar o Estado Novo moralmente discutível, como se a ditadura pudesse ser reavaliada através de uma contabilidade seletiva: obras públicas de um lado, pobreza do outro; ordem de um lado, censura do outro; autoridade de um lado, perseguição política do outro. Esse jogo exige sempre a redução da polícia política a excesso episódico. Para que o autoritarismo pareça disciplina, é necessário afastar os corpos que ele prendeu, interrogou, silenciou ou empurrou para o exílio. O segundo volume de Histórias da PIDE devolve peso a essa parte mais cómoda de esquecer: a fase em que a ditadura já se sabia observada, já se sabia desgastada, já tentava negociar a própria imagem, mas conservava os seus instrumentos essenciais. A repressão podia falar com menos aparato. Continuava repressão. A expressão quando era a DGS de Caetano contém quase todo o problema. O regime não renunciou à polícia política; tentou torná-la compatível com a sua nova encenação. O país recebia pequenos sinais de abertura e, ao mesmo tempo, mantinha uma estrutura de vigilância preparada para defender a ordem estabelecida. Na metrópole, a promessa de mudança podia alimentar prudências e ilusões. Nas colónias, a violência do império permanecia ainda mais exposta, ligada à guerra, ao controlo dos movimentos de libertação e ao medo de que a queda começasse pela periferia. A memória democrática não se conserva apenas em datas solenes. Conserva-se na capacidade de reconhecer mecanismos antigos quando regressam com vocabulário novo. A história da PIDE/DGS pertence aos arquivos, mas não fica fechada neles. Interpela a cultura política de um país que ainda se vê, por vezes, tentado a confundir autoridade com ordem moral, polícia com estabilidade, silêncio com paz. Este livro chega num tempo em que a discussão sobre a ditadura deixou de ser apenas histórica. Tornou-se novamente política. Não porque o passado se repita intacto, mas porque as sociedades cansadas da complexidade procuram, com frequência, imagens simples de poder. A polícia política é uma dessas imagens quando se apaga a sua realidade: deixa de ser instrumento de medo e passa a ser lembrada, por alguns, como mecanismo de disciplina. A mudança de PIDE para DGS não absolveu a ditadura. Alterou-lhe a superfície. O nome mudou; a lógica permaneceu.

  • Recensão: O Estrangeiro, de Albert Camus

    Há livros que envelhecem por excesso de contexto. Foram escritos para ferir uma época e ficam presos à temperatura do instante que os produziu. O Estrangeiro, de Albert Camus, fez o percurso inverso. Nasceu de um tempo preciso, com a sua geografia colonial, a sua secura moral, o seu horizonte filosófico, e ainda assim continua a tocar uma zona que não passou. Lido hoje, não pede reverência nem trabalho arqueológico. Pede apenas disponibilidade para um incómodo que permanece surpreendentemente intacto. Alberto Carvalho — O Estrangeiro, de Albert Camus. Gallimard, 1942. Esse incómodo começa cedo. Não na morte, não no crime, nem sequer no julgamento, mas numa falha mais subtil: Meursault não sabe — ou não quer — apresentar os sentimentos na forma socialmente correta. A mãe morre e ele não oferece o tipo de dor que os outros esperam reconhecer. Ama sem ornamento. Deseja sem transcendência. Responde sem cobrir cada frase com a camada protetora de emoção que tornaria a sua presença mais aceitável. O romance encontra aí a sua força mais duradoura. Não faz de Meursault um herói, nem um monstro. Coloca-o numa posição quase insustentável para os outros: a de um homem que não domina a arte de converter a vida interior numa linguagem tranquilizadora. Camus percebeu cedo que a vida social não funciona apenas por actos, leis e juízos explícitos. Funciona também por coreografias. Há um modo esperado de sofrer, de amar, de lamentar, de pedir perdão. Quem falha o gesto falha mais do que o gesto. Fica fora do quadro legível do humano. É isso que faz de O Estrangeiro um romance ainda vivo. Não porque antecipe mecanicamente o presente, mas porque reconhece uma violência antiga e persistente: a que recai sobre quem não apresenta o rosto exato que a comunidade precisa de ver para se sentir segura de si. Lido de Lisboa, isto ganha um relevo particular. Não porque a cidade se pareça com Argel, nem porque Camus precise de ser traduzido para um código local. Ganha relevo porque Lisboa, como tantas cidades de escala moral apertada, conhece bem o poder do decoro afetivo. Sabe reconhecer a diferença entre o sentimento e a sua exibição correta, e muitas vezes confunde os dois. Entre a sociabilidade urbana, o peso ainda residual de certas formas católicas de expressão e a vigilância subtil das pequenas comunidades — familiares, profissionais, mediáticas —, também aqui se percebe depressa como a sanção não recai apenas sobre o que se faz, mas sobre o modo como se parece ter sentido. Meursault, neste contexto, não é um estrangeiro exótico. É uma figura-limite daquilo que uma ordem social mal suporta: a insuficiência do ritual. Camus não o constrói por acumulação psicológica. Faz quase o contrário. Depura. A prosa avança por frases limpas, controladas, sem a ansiedade de explicar tudo. A clareza não conforta; expõe. O sol, o suor, o mar, o peso das horas, a fadiga física, o incómodo do corpo: nada disto serve de simples atmosfera. É a matéria decisiva do romance. Em O Estrangeiro, o mundo chega primeiro pela pele. A consciência vem depois, mais tarde, e já sem autoridade suficiente para reorganizar inteiramente o que aconteceu. Nisso reside parte da originalidade formal do livro. Camus recusa a psicologia explicativa sem cair na abstração filosófica. A ideia nasce do contacto entre corpo e mundo, não de uma tese colocada sobre a narrativa a partir de fora. É por isso que chamar “indiferença” a Meursault é, quase sempre, um erro de leitura. Ele sente muito; não sente de maneira edificante. Sente o calor a esmagá-lo, a luz a feri-lo, o desejo a atravessá-lo, o aborrecimento a esvaziar as horas. O que não faz é converter essas experiências numa moral da sensibilidade reconhecível por todos. Falha a tradução pública do sentir. O escândalo não está apenas no que lhe acontece, mas no que falta entre a experiência e o discurso que devia torná-la apresentável. Quando o romance entra no tribunal, essa lógica deixa de estar implícita e ganha forma institucional. Meursault é julgado pelo homicídio, claro. Mas o processo moral excede largamente o crime. Pesam a ausência de lágrimas, a conduta no funeral, a secura da linguagem, a recusa em dramatizar o remorso. O tribunal não aparece apenas como lugar onde se apuram factos e responsabilidades. Aparece como máquina de restituição simbólica. O que ali se quer restaurar é a coerência entre a ordem social e a gramática dos afectos que a sustenta. A justiça, em O Estrangeiro, não se separa facilmente da pedagogia do sentimento aceitável. É talvez esta a dimensão do romance que mais facilmente resiste ao tempo. Hoje, a exigência de inteligibilidade emocional não desapareceu; sofisticou-se. Já não opera apenas no espaço jurídico ou familiar. Opera no discurso público, nas redes, nas linguagens terapêuticas, na obrigação quase contínua de cada um se narrar, se explicar, se posicionar, se declarar. A figura de Meursault continua a perturbar porque não entra nisso. Não se analisa longamente. Não oferece uma narrativa de auto-justificação. Não organiza o eu para consumo moral dos outros. Num tempo saturado de comentário sobre si mesmo, essa nudez produz um desconforto raro. Ainda assim, o romance não autoriza simplificações convenientes. Meursault não deve ser transformado num santo da autenticidade. Há nele passividade, pobreza moral, incapacidade de responder plenamente à gravidade do que vive. Romantizá-lo seria reduzir a dureza do livro. Também não é apenas uma criatura vazia, destituída de densidade humana. Camus mantém-no numa zona muito mais exigente: a de uma personagem que resiste tanto à idealização como ao diagnóstico sumário. Essa resistência é uma das marcas da grande literatura. Não porque produza ambiguidade ornamental, mas porque recusa o alívio de uma conclusão rápida. A economia formal de O Estrangeiro continua, por isso, impressionante. Poucos romances trabalham com tão pouco e deixam imagens tão duradouras. O velório, a praia branca e excessiva, o momento do disparo, a máquina do tribunal, a cela, a noite final: cada cena parece reduzida ao essencial sem nunca perder densidade simbólica. Camus sabe retirar, e essa arte de retirar dá ao livro a sua precisão rara. Nada sobra para mostrar inteligência. Nada se expande para garantir profundidade. A contenção não empobrece o romance; concentra-o. Essa contenção explica também por que razão a obra resiste melhor do que tantos romances de vocação filosófica. Em livros menos controlados, a personagem acaba por ilustrar a ideia. Aqui acontece o contrário. A ideia emerge da forma, do ritmo, da secura, das omissões, da luminosidade quase hostil do mundo representado. O Estrangeiro continua a ser um romance antes de ser um argumento. É essa prioridade da forma viva sobre a mensagem que o protege do envelhecimento didático. Há ainda outra razão para a sua permanência. O livro não oferece ao leitor a possibilidade cómoda de se colocar acima dele. Não deixa fácil nem a absolvição nem a condenação. Obriga a permanecer mais tempo do que seria confortável junto de uma forma humana incompleta, insuficiente, por vezes repelente, e ainda assim irredutível. Num espaço cultural como o nosso, tão habituado a distinguir rapidamente inocentes e culpados simbólicos, essa suspensão vale muito. Não porque dissolva o juízo, mas porque o torna menos preguiçoso. O resultado é um romance curto, severo e estranhamente expansivo. A sua escala física engana. Há ali mais mundo do que o tamanho do livro faz supor, e mais violência moral do que a superfície da prosa deixa ver à primeira leitura. Camus não escreve para comover. Escreve para expor. O leitor sai menos reconciliado do que deslocado, e isso, em matéria literária, continua a ser um dos efeitos mais difíceis de alcançar com verdade. No fim, O Estrangeiro conserva a sua potência não apenas por ter dado forma literária a uma experiência do absurdo, mas por ter percebido que a comunidade exige, de cada vida, uma tradução emocional reconhecível. Meursault falha essa tradução com uma nudez quase insuportável. Camus deixa-o diante de uma luz que não absolve nem interpreta. O desconforto do romance nasce aí e ainda não passou: na suspeita de que a sentença não recai apenas sobre um homem, mas também sobre o desejo colectivo de que toda a existência venha já preparada para leitura moral.

  • O mercado político do ódio útil

    A política portuguesa não se tornou mais áspera apenas porque as pessoas discutem mais. Essa seria uma explicação demasiado arrumada: redes sociais, comentadores, frases agressivas no Parlamento, menos paciência, mais gritaria. Uma questão de modos, quase. Mas a mudança parece outra. A política começou a oferecer pertença através da rejeição. Já não chega dizer ao cidadão o que pode defender ou esperar. É preciso dizer-lhe contra quem se deve reconhecer. A política do ressentimento cresce onde a representação deixa zonas inteiras na sombra. Durante muito tempo, mesmo quando falhava, a política prometia alguma coisa. Um partido dizia falar pelos trabalhadores, outro pelas classes médias, outro pelos pequenos empresários, outro pelos reformados, outro pelo interior. Havia sedes locais, jornais, sindicatos, cafés onde se discutia com excesso, mas também com alguma familiaridade. A política tinha corpos à sua volta. Gente que se conhecia, que se zangava, que voltava a encontrar-se. Hoje, muita dessa matéria adelgaçou. Os partidos ficaram mais leves, as vidas mais instáveis, a governação mais difícil de traduzir numa melhoria que alguém consiga contar ao jantar. Quando a política deixa de produzir confiança por resultados, procura outra cola. A aversão é fácil de transportar. A polarização afetiva nasce nesse chão já seco. Não é apenas discordar. Discordar é normal; uma democracia sem conflito seria uma repartição pública com eleições. A polarização afetiva começa quando a opinião do outro deixa de parecer errada e passa a parecer uma falha de carácter. O adversário já não é alguém com outra posição sobre impostos, imigração, escola, saúde, habitação ou apoios sociais. Passa a ser cúmplice, vendido, parasita, traidor, fanático, ingénuo, perigoso. A conversa muda de matéria. Já não pergunta apenas o que se defende. Pergunta que tipo de pessoa se é por defender aquilo. A sondagem ICS/ISCTE/GfK para o Expresso e a SIC deu contorno medível a este clima. O dado sobre PSD e Chega diz mais do que parece. Os simpatizantes sociais-democratas avaliam o partido de André Ventura com cerca de 2,8 numa escala de 0 a 10. Não é só um número baixo. É uma pequena fenda entre o jogo parlamentar e a vida social. Pode haver votos coincidentes, negociações, aproximações de circunstância. Isso não significa que os eleitorados se sintam próximos. Uma direção partidária calcula. Um eleitor, muitas vezes, reage. Essa diferença pesa. A política institucional gosta de fingir que tudo o que consegue negociar já está socialmente aceite. Não está. Por cima, os partidos podem aproximar-se. Por baixo, os eleitores continuam a ver fronteiras, desconfortos, repulsas. O Parlamento mexe-se por utilidade; a sociedade demora mais tempo a aceitar novas vizinhanças morais. Às vezes não aceita. O Chega concentra, nessa sondagem, uma carga negativa muito própria. Cerca de 46% das descrições feitas aos seus simpatizantes têm tom negativo. O que está em causa já não é apenas rejeitar um programa, uma proposta fiscal, uma estratégia parlamentar ou um dirigente. É olhar para uma pertença partidária como se ela denunciasse uma disposição íntima. O voto passa a ser lido como sintoma. Quem escolhe aquele partido não escolheu apenas mal, aos olhos de muitos: revelou qualquer coisa. Seria, ainda assim, demasiado cómodo imaginar que a desqualificação circula só num sentido. Os simpatizantes do Chega também usam, com frequência, linguagem negativa para falar dos apoiantes de outros partidos. Há uma espécie de espelho sujo. Cada campo olha para o outro e vê menos adversários do que impostores. O Chega é hoje o ponto de maior concentração simbólica desta rejeição, mas a linguagem da aversão já se soltou do seu ponto de origem. Espalhou-se. Começou a parecer uma fala comum. Os números pedem algum cuidado. Portugal não está socialmente partido ao meio. Cerca de 16% dos inquiridos dizem evitar falar de política para não gerar conflitos; cerca de 23% admitem detestar pessoas com opiniões políticas opostas; só cerca de 3% dizem ter cortado relações pessoais por motivos políticos. Ainda há família, trabalho, vizinhança, café, escola, consultas, filas, elevadores, almoços de domingo. A vida comum continua a obrigar as pessoas a uma convivência que a política, deixada sozinha, talvez já tivesse destruído mais depressa. Mas há uma mudança de ar. Certos temas entraram nas relações privadas como pequenos explosivos. Uma frase sobre imigração, apoios sociais, Chega, professores, sindicatos, juízes, impostos ou habitação pode alterar a temperatura de uma sala. O almoço continua, mas fica outro. Alguém muda de assunto. Alguém faz uma piada. Alguém baixa os olhos para o prato. Alguém guarda uma frase durante semanas. A democracia perde muito antes do corte formal de relações. Perde quando o desacordo obriga cada um a proteger-se. A pergunta difícil é saber por que razão esta linguagem encontra tanto material disponível. As redes sociais ampliam, claro. O algoritmo gosta do conflito porque o conflito prende o olhar. A frase que acusa viaja melhor do que a frase que distingue. A nuance não tem grande destino. A prudência faz fraca figura nas redes. Mas culpar apenas os algoritmos é uma forma contemporânea de absolver a política. A raiva precisa de chão. E chão não falta. Há salários que não chegam. Casas que expulsam. Serviços públicos gastos. Carreiras que começam tarde e se interrompem cedo. Jovens presos numa adolescência económica que se prolonga para lá do razoável. Reformados que contam moedas. Pequenos empresários entalados numa sobrevivência que raramente parece heroica aos olhos de quem legisla. Há muito país cansado antes de haver país zangado. Nada disto conduz automaticamente ao radicalismo. A frustração também pode gerar organização, solidariedade, exigência democrática, sindicatos mais fortes, associações de moradores, debates sérios sobre habitação, fiscalidade, produtividade, saúde, escola e território. Mas também pode ser desviada. E é mais simples desviá-la para um culpado próximo do que transformá-la numa conversa difícil sobre causas. Não é o modelo económico, dizem-lhe. Não é a desigualdade territorial. Não é a fragilidade do Estado. Não é a captura de setores essenciais. Não é a precariedade como modo de administrar vidas. São eles. Os de cima, os de fora, os subsídio-dependentes, os corruptos, os imigrantes, os jornalistas, os juízes, os funcionários, os professores, os pobres errados. A lista muda com a conveniência da semana. O processo mantém-se. O Chega percebeu esta disponibilidade antes de muitos adversários. Não inventou a frustração portuguesa; deu-lhe uma fala curta. Fala para quem se sente esquecido, enganado, diminuído ou simplesmente cansado de ouvir explicações longas para vidas que não melhoram. E oferece uma coisa poderosa: uma explicação sem grande custo intelectual e com recompensa moral imediata. A tua irritação não é apenas irritação; é lucidez. A tua raiva não é excesso; é prova de que viste o que os outros fingem não ver. A eficácia desta linguagem não depende inteiramente da verdade factual das acusações. Depende da sua serventia emocional. Uma análise séria obriga a falar de produtividade, rendas, imigração laboral, demografia, financiamento dos serviços públicos, regulação, captura, salários, investimento, justiça fiscal, confiança institucional. A acusação direta oferece outra coisa: rosto, culpa, castigo. A política tornou-se muito competente a arranjar rostos para problemas que não cabem num rosto. A resposta moralizante falha frequentemente por isso. Chamar fascista a todo o eleitor do Chega pode dar alívio a quem já pensa assim, mas explica pouco e combate menos. Há dirigentes, discursos e redes que devem ser descritos com dureza quando promovem xenofobia, autoritarismo, intimidação ou violência verbal. Mas isso não obriga a fingir que todo o eleitor radicalizado chegou ali por doutrina organizada. Muitos chegam por ressentimento, medo de desclassificação, humilhação antiga ou sensação de que ninguém lhes deu uma linguagem legítima para a perda. Explicar não é desculpar. É recusar enfrentar um fenómeno real com uma caricatura conveniente. Também há uma objeção séria à crítica da polarização. Talvez o conflito revele vitalidade. Portugal viveu demasiado tempo numa espécie de consenso mole: alternância previsível, elites que se conheciam bem, promessas parecidas, cidadania intermitente, pouca responsabilização. O conflito pode romper anestesias. Pode expor privilégios. Pode obrigar a escolher. Uma política sem antagonismo corre o risco de se tornar gestão orçamental com cartazes eleitorais. A diferença está no tipo de conflito. Há conflito que organiza interesses e conflito que fabrica inimigos. Um obriga a falar de salários, rendas, impostos, propriedade, investimento, escola, saúde, transportes, financiamento partidário, trabalho e poder. O outro prefere pureza, ameaça, decadência, traição, invasão, castigo, limpeza. O primeiro pode produzir negociação. O segundo produz dependência emocional de líderes que prometem restaurar uma ordem perdida sem dizer exatamente quem pagará a fatura. A polarização que cresce em Portugal tem muitas vezes esta segunda característica. Em vez de clarificar conflitos sociais, baralha-os. O trabalhador pobre aprende a desconfiar do beneficiário de prestações. O jovem sem casa olha para o imigrante como concorrente direto. O contribuinte sente o Estado social como peso antes de o reconhecer como proteção. O pequeno empresário transforma a fiscalização no rosto inteiro do Estado. O interior vê Lisboa não como capital, mas como apropriação. A vítima encontra outra vítima e chama-lhe privilégio. O ódio útil faz isso com eficácia: impede que pessoas com interesses materiais próximos se reconheçam como aliadas possíveis. Cada uma recebe um alvo mais perto, mais frágil e mais visível do que as forças que condicionam a sua vida. A discussão sobre apoios sociais encaixa aqui com nitidez. A Prestação Social Única, apresentada pelo Governo como forma de agregar várias prestações não contributivas e simplificar o acesso, contém elementos que qualquer Estado social responsável deve saber discutir: critérios, verificação, cruzamento de dados, combate à fraude, avaliação anual, obrigações para beneficiários em idade ativa e com capacidade para trabalhar. Não há Estado social robusto sem prestação de contas. Um sistema que não distingue situações, não corrige abusos e não se explica aos contribuintes perde legitimidade. O problema começa quando a reforma social passa a ser apresentada como suspeita permanente. Reformar apoios com base em evidência, proporcionalidade e eficácia é uma coisa. Construir uma acusação pública contra os pobres é outra. Quando a conversa se reduz à oposição entre “quem trabalha” e “quem vive à custa”, a política social deixa de ser técnica. Torna-se disciplinar. O beneficiário deixa de aparecer como cidadão em situação vulnerável e passa a aparecer como potencial infrator. A pobreza deixa de ser condição social e começa a ser tratada como defeito moral sob vigilância. O poder administrativo raramente precisa de gritar. Vive de formulários, critérios, obrigações, suspensões, cruzamentos, denúncias, prazos, exceções. Pode proteger com rigor ou humilhar com método. A diferença nem sempre está numa frase do diploma; muitas vezes está na cultura política que o envolve. Se a reforma for apresentada como instrumento de justiça, eficácia e dignidade, pode reforçar confiança. Se for apresentada como caça ao abuso, transforma solidariedade fiscal em ressentimento fiscal. Depois, qualquer corte parecerá uma correção moral. A esquerda tem aqui uma responsabilidade própria. Durante demasiado tempo respondeu a estas matérias com reflexos defensivos, como se admitir abusos, más execuções ou incentivos mal desenhados fosse conceder terreno ao adversário. Não é. Um Estado social digno precisa de direitos e deveres, proteção e rigor, universalidade moral e controlo material. Quando a esquerda fala apenas de direitos e evita falar de deveres, entrega os deveres a quem os transforma em humilhação. A direita moderada joga outro jogo perigoso. Quer recuperar autoridade sem parecer ressentida. Quer disputar eleitores radicalizados sem se confundir inteiramente com a direita radical. Quer endurecer a linguagem mantendo aparência institucional. Mas quando aceita o enquadramento moral do adversário, mesmo com melhor educação verbal, desloca o centro da conversa. A versão limpa raramente vence a versão original. Quem quer punição simbólica prefere ouvi-la sem verniz. Portugal ainda conserva reservas. Os números não dizem que o país se partiu. Dizem que aprendeu uma linguagem mais áspera, mais desconfiada, mais pronta a classificar pessoas. Ainda se almoça com quem pensa diferente. Ainda se evita a discussão antes de cortar relações. Ainda há distância entre rejeição emocional e rutura social. Mas a política já descobriu que o ódio é útil, barato e mobilizador. Descobriu que a frustração material pode ser convertida em identidade negativa. Descobriu que a suspeita pode passar das redes para os programas, dos programas para os diplomas, dos diplomas para os balcões. O risco maior não está apenas no crescimento eleitoral de um partido, nem na agressividade parlamentar que se vê todos os dias. Está na normalização administrativa da suspeita. Quando políticas públicas começam a ser desenhadas menos para resolver problemas do que para satisfazer ressentimentos, a polarização deixa de ser ambiente. Passa a método de governo. A pergunta, então, já não é apenas se os portugueses conseguem discordar sem se odiar. Essa é a pergunta educada, quase doméstica. A pergunta política é outra: quem ganha poder quando eles deixam de tentar?

  • Ainda reconhecemos o carácter?

    A cadeira estava encostada à parede, entre o bengaleiro metálico e uma planta de plástico que já tinha perdido duas folhas. Era uma cadeira vulgar, de sala de espera, com o assento gasto no centro e uma fenda pequena no vinil castanho. Por cima dela havia um relógio barato, sempre atrasado. Um minuto. Talvez dois. A reunião ainda não tinha começado. Ainda reconhecemos o carácter? — Uma reflexão sobre integridade, identidade e o que resta de nós quando tudo o resto se dissolve. Nova capa do Atlantic Lisbon As pessoas entravam com pastas debaixo do braço, cumprimentavam-se depressa, diziam “bom dia” sem esperar resposta. Uma senhora procurava uma caneta dentro de uma mala demasiado cheia. Um homem mais novo, de fato azul apertado nos ombros, falava ao telefone junto à janela. A voz era baixa, mas não o suficiente para esconder que estava a resolver qualquer coisa importante. Ao fundo, alguém ria. Não era um riso alegre. Era daqueles risos que servem para ocupar espaço antes de alguém o disputar. A cadeira não tinha importância. Alguém a deixara ali. Mesmo assim, dei por mim a olhar para ela. Naquela sala cheia de pessoas com pressa de serem escutadas, a cadeira parecia quase bem-educada. Não pedia nada. Não disputava lugar. Esperava. Foi nessa manhã que me ocorreu a palavra carácter. Não nos parlamentos, nem nos governos, nem nos grandes palcos onde se declara a decadência geral. Ali, numa sala sem história, dessas onde ninguém faz discursos memoráveis, mas onde se decide muita coisa sobre a forma como aceitamos ser tratados. A palavra ainda circula. Aparece em elogios fúnebres, entrevistas de domingo, editoriais preocupados, cerimónias. Ninguém se incomoda com ela. Tem uma solenidade antiga, inofensiva, quase decorativa. Passa pela conversa como uma moeda que todos aceitam por cortesia, embora já poucos saibam o seu valor. Dizemos que alguém tem carácter quando queremos elogiar de modo amplo. Dizemos que falta carácter a outro quando já não queremos perder tempo a explicar. A palavra ficou presa entre a moral e o temperamento. Serve para tudo. Começa, por isso, a servir pouco. O vocabulário público prefere termos mais leves. Competência. Liderança. Comunicação. Estratégia. Capacidade de decisão. Resistência à pressão. Visão. Há sempre uma palavra limpa, pronta para caber num perfil, numa conferência ou numa nota biográfica. Carácter é mais lento. Obriga a perguntar não apenas o que uma pessoa consegue fazer, mas o que se autoriza a fazer quando pode. Ninguém quer ser governado por incompetentes. A preparação importa. A inteligência importa. A capacidade de decidir também. Mas começámos a pedir a essas capacidades respostas que elas não sabem dar. Um homem pode ser brilhante e mesquinho. Pode decidir depressa e decidir mal. Pode conhecer todos os mecanismos do poder e não ter um único travão interior quando chega o momento de os usar. A política percebeu isso antes de muitos de nós. A política não inventa tudo. Muitas vezes, limita-se a pegar no que já estava à vista e a pô-lo num lugar onde se ouve melhor. Antes de chegarem ao parlamento, certas formas de brutalidade já passaram pelos escritórios, pelas famílias, pelas universidades, pelas redes sociais, pelos pequenos grupos onde se aprende que a agressividade parece força e que a falta de escrúpulos, quando produz resultados, pode ser chamada pragmatismo. Na sala dessa manhã, ouvi duas pessoas falar de alguém que não estava presente. Diziam que era duríssimo, que não deixava passar nada, que “limpava” qualquer oposição em três minutos. A palavra foi essa: limpava. Não havia reprovação no tom. Havia uma espécie de admiração prática, como se a capacidade de diminuir os outros fosse uma ferramenta rara, conveniente, talvez indispensável. Não conhecia a pessoa. Talvez fosse excelente. Talvez fosse apenas eficaz. Em certos lugares, essa diferença deixou de pesar. Durante muito tempo, esperou-se de quem mandava algum domínio sobre si próprio. Nem sempre existia. A história está cheia de vaidosos, oportunistas, cínicos e cobardes. Mas até a hipocrisia presta uma homenagem involuntária à regra que finge cumprir. Quando um vício precisa de se esconder, ainda reconhece a autoridade da virtude. Agora há vícios que entram pela porta principal. A grosseria passou a circular como franqueza. A mentira ganhou nomes mais macios. A arrogância, quando vem bem vestida, ainda encontra quem a confunda com segurança. A crueldade tornou-se coragem para dizer o que os outros não dizem. A ignorância, quando exibida com suficiente convicção, pode passar por autenticidade popular. O modo como se conta uma coisa muda quase sempre a coisa que se contou. Um ato que antes provocava embaraço passa a produzir aplauso se for contado com a entoação certa. Uma humilhação pública transforma-se num momento forte. Um insulto bem distribuído vale mais do que um argumento mediano. Sem decreto, sem programa, sem doutrina, educa-se assim uma parte da sensibilidade pública. Quem vive junto a uma estrada movimentada deixa, ao fim de algum tempo, de ouvir os carros. A casa continua atravessada pelo barulho, mas o ouvido aprende a poupar-se. Com a indignidade acontece algo parecido. Primeiro interrompe. Depois irrita. Mais tarde, cansa. Por fim, entra na paisagem. Dizemos então que “é assim”, que “sempre foi assim”, que “não vale a pena ser ingénuo”. Há nessa frase uma prudência de superfície, boa para evitar desilusões, péssima para impedir cedências. Quanto mais cedo aceitamos que nada pode ser melhor, mais disponíveis ficamos para desculpar o pior. A certa altura, já nem pedimos grandeza. Pedimos que os nossos sejam eficazes contra os deles. O carácter torna-se uma espécie de porcelana guardada para tempos calmos. Na guerra diária da opinião, da visibilidade e da disputa, parece pouco prático. Quem hesita perde. Quem pondera chega tarde. Quem mantém escrúpulos oferece vantagem. A força verdadeira sempre teve alguma relação com a contenção. Não por delicadeza de salão, mas porque só é forte quem não precisa de usar tudo aquilo que pode usar. O poder sem travão interior precisa de demonstrações constantes. Tem de mostrar que vence, que cala, que domina, que não recua. Anda sempre à procura de um novo adversário para provar que ainda existe. O carácter aparece muitas vezes como recusa. Recusar humilhar quando seria fácil. Recusar mentir quando a mentira resolveria o dia. Recusar aproveitar uma fraqueza alheia apenas porque ela ficou exposta. Recusar transformar cada relação numa oportunidade de vantagem. Não há grande espetáculo nisso. A visibilidade prefere gestos mais simples de reconhecer. Um ataque direto. Uma frase dura. Um confronto. Um momento que circule. A reputação, que antes exigia alguma permanência, foi sendo trocada por sucessivas aparições. Há pessoas conhecidas por serem conhecidas, influentes por serem repetidas, respeitadas porque aparecem sempre nos lugares onde se respeita quem aparece sempre. Às vezes, já não se sabe se aquelas pessoas são admiradas ou apenas repetidas até parecerem necessárias. Vê-se na política, mas também na cultura, no jornalismo, na universidade, nas empresas. Há figuras cuja autoridade se tornou difícil de distinguir da insistência com que ocupam espaço. Comentam tudo. Reagem a tudo. Não deixam que a sua ausência dure o suficiente para se perceber se faria falta. Ao fim de algum tempo, a presença começa a imitar a importância. E quase ninguém pergunta o que ficaria se deixassem de aparecer durante um mês. O que construíram? Que risco aceitaram? Que verdade defenderam quando lhes teria sido mais útil calar? Que pessoa protegeram quando ninguém estava a observar? São perguntas lentas. Não cabem bem no ritmo do momento. Lembro-me de um professor que falava pouco e escolhia as palavras com cuidado, como quem pousa objetos frágeis numa mesa. Um dia, a propósito de uma figura histórica que a turma admirava pela inteligência, disse apenas: “ser inteligente não impede ninguém de ser perigoso”. Não fez discurso. Passou adiante. Talvez soubesse que explicar demasiado podia estragar a frase. Na altura, pareceu-me excessivo. A juventude acredita facilmente que a inteligência salva. Salva da vulgaridade, da injustiça, da violência, talvez até da maldade. Mais tarde, percebe-se que não. A inteligência pode iluminar, mas também pode afiar. Pode abrir o mundo ou transformar os outros em peças de uma estratégia privada. Há pessoas brilhantes incapazes de pedir desculpa. Há pessoas cultíssimas que atravessam uma conversa deixando feridos discretos pelo caminho. Há dirigentes tecnicamente competentes para quem a injustiça é apenas um custo lateral. Não são monstros. Seria demasiado fácil. São pessoas funcionais em sistemas que premiam a função e raramente perguntam pela ferida. Não queremos líderes fracos. Mas também já não sabemos o que fazer com líderes fortes sem pudor. Queremos eficácia e assustamo-nos quando ela aparece sem limite. Pedimos competência e descobrimos tarde que a competência pode organizar impecavelmente uma indecência. Admiramos a rapidez e esquecemos que algumas coisas importantes só se veem devagar. A palavra carácter servia, pelo menos, para atrasar a absolvição. Não garantia nada. Nenhuma palavra protege uma sociedade sozinha. Mas obrigava a olhar para o interior de uma ação. Não apenas: resultou? Também: a que preço? Não apenas: venceu? Também: o que destruiu para vencer? Não apenas: é capaz? Também: é capaz de se deter? Talvez porque a contenção deixou de parecer virtude. Confunde-se com fraqueza, hesitação, falta de ambição. Há uma pedagogia permanente da aceleração que torna suspeito tudo o que se demora. O prudente parece cobarde. O ponderado parece lento. O discreto parece irrelevante. O decente parece ingénuo. O que não grita parece não existir. Mas a vida comum ainda depende dessas pessoas. Depende do funcionário que não abusa da pequena autoridade que tem. Do médico que explica outra vez, mesmo cansado. Do professor que não reduz uma criança ao pior dia. Também depende de gestos menos visíveis: uma informação íntima que não se usa como arma, uma dúvida séria que não se vende como certeza, uma frase que se cala porque sairia limpa demais e faria estragos. São atos pequenos, quase invisíveis. Talvez o carácter tenha vivido sempre mais aí do que nos grandes retratos oficiais. Quando esses gestos deixam de ser exemplares e passam a parecer apenas escolhas privadas, alguma coisa muda. A decência fica reduzida a uma preferência individual, como gostar de uma cor ou de uma música. Deixa de ser uma das condições silenciosas da confiança comum. Sem essa confiança, tudo precisa de contrato, vigilância, ameaça, exposição ou punição. A palavra deixa de bastar. O compromisso deixa de bastar. O rosto deixa de bastar. O mundo torna-se cheio de procedimentos porque já não acredita no que não consegue fiscalizar. Criam-se códigos, regulamentos, plataformas de denúncia, métricas de reputação, comissões de ética, declarações de compromisso. Algumas são necessárias. Muitas são úteis. Nenhuma substitui a presença de pessoas que não fazem certas coisas mesmo quando ninguém as apanha. Na reunião dessa manhã, a cadeira junto à parede acabou por ser ocupada por um homem mais velho que chegou atrasado. Pediu desculpa sem dramatizar. Sentou-se, abriu um caderno pequeno, ouviu durante muito tempo e falou apenas quando lhe pediram opinião. Disse pouco. Contrariou a sala sem levantar a voz. Não fez pose de coragem. Não humilhou ninguém. Não procurou uma frase. Introduziu apenas uma dúvida que todos estavam a evitar. Houve um silêncio desagradável. Durante alguns segundos, percebeu-se que aquela dúvida mudava a conversa. Não era brilhante. Era quase banal. Mas tinha sido dita no momento em que a sala se preparava para concordar com aquilo que lhe convinha. Depois, a reunião continuou. Alguém respondeu com impaciência. Outro tentou suavizar. O homem de fato azul olhou para o telefone. A planta de plástico continuava no canto. O relógio continuava atrasado. Nada de memorável aconteceu, se por memorável entendermos aquilo que mais tarde se conta com ênfase. Foi talvez isso que incomodou. Não a dúvida em si, mas o facto de ela ter mostrado que a sala podia ter escolhido outro caminho. Penso muitas vezes nessa cadeira. Não no homem, de quem já nem recordo bem o rosto. Recordo a cadeira vazia antes de ele chegar. O lugar discreto junto à parede, fora da mesa principal, quase esquecido. Talvez o carácter tenha hoje esse aspeto. Não desapareceu. Foi empurrado para o lado. Continua disponível, reconhecível, à espera de que alguém se sente nele. A cadeira continuou ali no fim da reunião. Alguém a afastou um pouco com o pé para abrir passagem. Ninguém reparou. Talvez seja assim que certas coisas desaparecem: não por serem expulsas, mas por deixarem de ter lugar à mesa.

  • A história depois da autoridade

    Nas redes chinesas, uma piada recente começou por parecer apenas mais uma brincadeira literária. Obras conhecidas — romances clássicos, séries televisivas, canções estrangeiras — eram lidas como se escondessem mensagens cifradas sobre uma dinastia desaparecida. Um nome, uma sílaba, uma coincidência sonora, uma imagem solta, e a interpretação ficava pronta. O resultado era absurdo, muitas vezes deliberadamente cómico. Mas a graça vinha de uma intuição menos leve: se qualquer coisa pode significar qualquer coisa, a história deixa de ser conhecimento comum e passa a ser jogo de suspeitas. Um bloco vermelho permanece no espaço vazio, como vestígio silencioso de uma autoridade que já passou, mas cuja sombra continua a organizar a memória. Sempre houve leituras extravagantes do passado, genealogias imaginárias, teorias de conspiração, falsificações, usos políticos da memória e entusiasmos populares por versões alternativas da história. O que mudou foi a escala. A internet tornou essas leituras instantâneas, replicáveis e visualmente sedutoras. Um fragmento sem contexto pode circular mais depressa do que um livro. Uma legenda agressiva pode valer mais do que uma demonstração. Um vídeo curto, montado com música dramática e frases de revelação, pode convencer mais do que uma explicação paciente. A história, que durante muito tempo dependia de instituições lentas — arquivos, universidades, museus, editoras, manuais, revistas especializadas — passou a disputar atenção no mesmo espaço onde circulam memes, propaganda, humor, ressentimento e publicidade. A história nunca pertenceu apenas aos historiadores. As famílias guardaram memórias, as comunidades transmitiram feridas, os povos criaram narrativas de origem, os vencidos conservaram lutos que os vencedores tentaram apagar. A história pública sempre foi mais vasta do que a história académica. A universidade oferecia, no seu melhor, outra coisa: método, prova, crítica documental, confronto entre interpretações, revisão pelos pares, prudência perante a lacuna. Não era infalibilidade. Era disciplina. A erosão actual nasce em parte da perda dessa diferença. O público habituou-se a ver a autoridade como suspeita e a suspeita como inteligência. Títulos como "isto não vem nos manuais" ou "a verdade que esconderam de si" funcionam porque partem de uma desconfiança real: muitos manuais omitiram factos, muitas instituições protegeram versões convenientes, muitos Estados organizaram a memória para se legitimarem. Mas a denúncia da omissão não prova a verdade da alternativa. Entre corrigir uma narrativa incompleta e substituí-la por delírio vai uma distância que as redes percorrem em segundos. A história pública tornou-se uma zona de conflito permanente. Disputa-se o que deve ser lembrado e o que foi deixado de fora. Disputa-se a fronteira entre interpretação e invenção. Disputa-se a leitura contemporânea de acontecimentos antigos. Disputa-se a autenticidade de imagens, vídeos e documentos. Disputa-se até a relação entre causa e consequência: quem foi vítima, quem foi agressor, que violência deve ocupar o centro da memória, que sofrimento foi usado para esconder outro sofrimento. A Segunda Guerra Mundial continua a mostrar essa dificuldade. Há imagens que se tornaram universais, quase obrigatórias em qualquer pedagogia do século XX: campos de extermínio, cidades destruídas, cogumelos atómicos, ruínas, corpos, rendições. Mas a escolha das imagens também organiza o pensamento. Uma fotografia de Hiroshima pode convocar a catástrofe nuclear e, ao mesmo tempo, deslocar para a sombra crimes cometidos pelo Japão imperial na Ásia. Uma memória não é falsa apenas por ser parcial. Mas uma memória parcial, quando se apresenta como total, começa a deformar o passado. A inteligência artificial acrescentou outra camada a esta crise. Durante décadas, a falsificação documental exigia perícia, tempo e algum risco. Hoje, imagens de guerra, discursos, fotografias antigas, rostos, mapas e documentos podem ser fabricados ou alterados com uma facilidade inédita. A falsificação deixou de ser excepção artesanal. Pode tornar-se produção abundante, barata e plausível. Para o leitor comum, a distinção entre arquivo e simulação será cada vez mais difícil, sobretudo quando a imagem falsa confirmar uma convicção já existente. A ameaça mais séria talvez não esteja na mentira isolada. Está no cansaço provocado por demasiadas versões. Quando tudo pode ser falso, a verdade deixa de ser procurada e passa a ser escolhida. Cada grupo recolhe as provas que lhe convêm, desconfia das que o incomodam e refugia-se numa comunidade interpretativa. A história deixa de ser terreno comum de desacordo e passa a ser munição identitária. Já não se discute apenas o que aconteceu. Discute-se quem tem o direito de dizer o que aconteceu. Durante muito tempo, muitos historiadores escreveram sobretudo para outros historiadores. O arquivo, a nota de rodapé e a monografia eram instrumentos de uma conversa exigente, mas relativamente protegida. Essa protecção acabou. A história circula em plataformas abertas, enciclopédias colaborativas, fóruns, canais de vídeo, jogos, séries, romances, podcasts e sistemas de inteligência artificial. O passado já não chega ao público apenas em forma de livro ou aula. Chega como imagem, experiência, simulação, emoção, pertença. A resposta não pode ser nostalgia da antiga autoridade. Seria inútil e, em muitos casos, injusta. A abertura da história a vozes antes excluídas permitiu corrigir silêncios reais. Mulheres, colonizados, minorias, trabalhadores, populações deslocadas, vítimas de violência estatal ou social encontraram novos meios para inscrever a sua memória no espaço público. A pluralidade não é o problema. O problema começa quando a pluralidade perde qualquer relação com prova, contexto e responsabilidade. Também não basta invocar "consenso histórico" como se fosse uma parede contra a confusão. O consenso não pode ser obediência. Não pode ser a imposição de uma versão oficial por medo da desordem. Consenso histórico sério é outra coisa: um ponto provisório de estabilidade, construído por confronto de fontes, debate crítico, revisão, acumulação de conhecimento e capacidade de corrigir erros. Uma casa sempre reparável, não um monumento intocável. Esse consenso tornou-se mais difícil porque os narradores mudaram. Qualquer pessoa pode publicar memórias, investigar a sua genealogia, comentar uma guerra, reinterpretar uma estátua, desmontar uma versão escolar, produzir um vídeo sobre impérios antigos ou acusar uma civilização inteira de fraude. Parte deste movimento é legítima. A história não deve ser uma propriedade fechada. Mas a democratização do acesso não elimina a diferença entre memória, opinião, documento, hipótese e prova. A arena também mudou. A página impressa tinha limites claros: autoria identificável, edição, data, circulação mais lenta. O espaço digital é instável. Um texto pode ser alterado, copiado, resumido, remixado, traduzido por máquina, separado da sua fonte, citado fora de contexto e devolvido ao público como se fosse evidência independente. As plataformas não organizam a circulação pela robustez do argumento, mas pela capacidade de retenção. A história mais rigorosa raramente é a mais excitante. A história mais excitante raramente é a mais prudente. Neste ambiente, o historiador perde o monopólio, mas ganha uma responsabilidade nova. Já não basta produzir conhecimento correcto em lugares onde quase ninguém o encontra. É preciso entrar na cultura pública sem abandonar o método. Explicar sem simplificar até à falsidade. Corrigir sem humilhar. Mostrar incerteza sem parecer evasivo. Distinguir omissão de conspiração, revisão de negação, memória de prova, emoção de demonstração. É um trabalho mais exposto e menos confortável do que o velho gabinete. A inteligência artificial pode agravar ou ajudar. Pode multiplicar falsificações, criar arquivos imaginários, responder com segurança a perguntas mal formuladas e dar aparência de coerência a erros antigos. Mas também pode organizar grandes corpora, comparar versões, encontrar padrões documentais, traduzir materiais, mapear a circulação de narrativas e tornar acessível conhecimento antes disperso. A questão não é se a IA entra na história pública. Já entrou. A questão é quem define os seus critérios, que arquivos a alimentam, que instituições verificam os seus resultados e que cultura crítica se forma em torno dela. A disputa pela história é também disputa política. Os Estados, as plataformas, os movimentos ideológicos, as comunidades religiosas, os grupos nacionais e os actores económicos sabem que controlar o passado ajuda a ordenar o presente. Uma sociedade que aceita determinada memória aceita mais facilmente certas hierarquias, certos ressentimentos, certas reivindicações e certas guerras. A história pública não é ornamento cultural. É infraestrutura moral. Quando uma comunidade perde qualquer chão comum sobre o passado, a política passa a operar num presente sem travões. Cada grupo escolhe as suas origens, os seus mártires, as suas traições e as suas datas sagradas. A memória deixa de servir como aviso e passa a servir como arma. O passado, em vez de alargar a experiência humana, estreita-a. Tudo confirma a tribo. Nada a obriga a pensar. A saída não está em regressar a uma história única, fechada, administrada de cima. Essa história também produziu cegueiras. A saída está em construir formas mais exigentes de história pública: abertas, mas verificáveis; plurais, mas não arbitrárias; sensíveis à experiência das vítimas, mas resistentes à fabricação; capazes de acolher novas perguntas sem destruir a diferença entre investigação e fantasia. Isso exige instituições, mas também hábitos. Ensinar a ler uma imagem. Perguntar de onde vem um documento. Distinguir fonte primária de comentário. Perceber que uma ausência num manual pode resultar de selecção, não de conspiração. Aceitar que nem todo o passado cabe numa narrativa simples. Reconhecer que a emoção pode iniciar uma pergunta, mas não deve substituir a prova. E admitir que a história, quando é séria, raramente oferece a satisfação imediata das teorias totais. A piada das leituras escondidas em romances, séries ou canções talvez desapareça depressa, como desaparecem quase todos os memes. Mas o gesto ficará. Procurar mensagens secretas onde há coincidências, suspeitar de toda a versão estabilizada, transformar o passado em código por decifrar, preferir a revelação à interpretação. Esse gesto é mais duradouro do que a moda que o tornou visível. A história nunca foi apenas aquilo que aconteceu. Foi sempre também o modo como as sociedades decidiram lembrar, esquecer, explicar e transmitir. A novidade é que esse processo deixou de ter margens reconhecíveis. Está nos ecrãs, nos motores de busca, nas plataformas, nos modelos de linguagem, nos vídeos curtos, nas guerras culturais, nos arquivos e nas conversas privadas. O passado tornou-se permanente e instável ao mesmo tempo. Defender a história, hoje, não é defender uma versão imóvel do mundo. É defender as condições mínimas para que o desacordo continue a ter realidade por baixo. Sem documentos, método, contexto e instituições capazes de corrigir o erro, a memória pública fica entregue à velocidade. E a velocidade, sozinha, não lembra. Apenas espalha.

  • A inteligência impressiona. O carácter fica.

    O rapaz sentava-se quase sempre na primeira fila. Não era por disciplina. Nem por especial gosto em ficar perto do quadro. Sentava-se ali como quem já conhece o lugar que lhe pertence. Era o melhor aluno da turma, e sabia-o. Havia, na forma como abria o caderno, pousava a caneta e esperava pelas perguntas, uma confiança que dispensava esforço. Quando o professor lançava uma questão mais difícil, vários colegas olhavam para ele antes de tentarem responder. Era inteligente. Isso ninguém discutia. A inteligência aparecia-lhe sem grande trabalho, como acontece a certas pessoas que decoram caminhos à primeira passagem ou percebem uma piada antes de ela acabar. Compreendia depressa. Ligava ideias. Apanhava relações que os outros ainda estavam a procurar. Nos testes, as notas confirmavam aquilo que a sala já tinha decidido. Havia, porém, uma coisa que raramente se dizia. «A inteligência impressiona. O carácter fica.» Como a verdadeira essência de uma pessoa se revela para além das aparências. Como a verdadeira essência de uma pessoa se revela para além das aparências. Pouca gente gostava dele. Não era propriamente mau. Não insultava colegas nos corredores, não fazia cenas, não tinha aquele tipo de crueldade visível que obriga os adultos a intervir. Era mais subtil. Se alguém se enganava, sorria de lado. Se uma colega demorava a compreender uma explicação, suspirava. Se uma dúvida interrompia o ritmo da aula, ficava com uma expressão de injustiça pessoal, como se o tempo dos outros lhe estivesse a ser roubado. Os professores admiravam-no. Os colegas aguentavam-no. Na altura, não pensei muito nisso. A escola habitua-nos cedo a reconhecer a inteligência. Há notas para a medir, prémios para a assinalar, concursos para a exibir, quadros de honra para a fixar. Aprende-se depressa quem responde primeiro, quem calcula melhor, quem escreve com mais limpeza, quem parece entender sem precisar de segunda explicação. Nada disso é estranho. O estranho vem depois. Quase sem darmos por isso, começamos a tratar a inteligência como se ela respondesse a perguntas que não lhe pertencem. Um aluno inteligente passa a parecer um aluno admirável. Um professor inteligente passa a parecer um professor respeitável. Um dirigente inteligente passa a parecer confiável. Há ali um pequeno salto, tão habitual que quase ninguém o nota. A capacidade começa a fazer o trabalho do carácter. Talvez gostemos de acreditar que as qualidades humanas vêm em conjunto. Dá-nos algum descanso. Queremos imaginar que quem vê mais depressa também vê melhor. Que quem compreende uma ideia complexa compreenderá, por isso mesmo, uma pessoa vulnerável. Que a inteligência, se for suficientemente alta, acabará por produzir prudência, generosidade ou justiça. A vida corrige essa esperança com frequência. Encontramos pessoas muito inteligentes que deixam atrás de si pequenas devastações. Nem sempre por maldade. Às vezes por impaciência. Outras por vaidade. Outras ainda porque nunca aprenderam a reparar no efeito que têm sobre os outros. A inteligência permite-lhes explicar quase tudo, menos o mal que fazem enquanto explicam. Conheci um médico brilhante que falava dos doentes como quem descreve máquinas avariadas. Conheci um professor de grande inteligência cuja presença, pelo contrário, parecia aumentar a paciência da sala. Conheci pessoas cultas incapazes de ouvir cinco minutos sem corrigir alguém. E conheci pessoas sem brilho especial que tornavam qualquer conversa menos agressiva, menos estreita, menos pobre. Não era só inteligência. Era outra coisa, mais difícil de nomear sem parecer antiquado. Algumas pessoas impressionam logo. Outras ficam connosco muito mais tarde, quando já nem nos lembramos bem do que disseram. A inteligência produz admiração rápida. O carácter demora mais. Precisa de tempo, repetição, episódios pequenos, dias vulgares. Vê-se menos numa resposta certa do que na forma como alguém usa a sua vantagem quando podia esmagar outro sem grande custo. Temos métricas para quase tudo o que se mostra depressa. Classificações, resultados, currículos, prémios, rankings, audiências, seguidores. Identificamos com facilidade quem fala bem, quem escreve bem, quem acumula conhecimento, quem resolve problemas difíceis. Mas, quando tentamos perceber se uma pessoa é leal, íntegra, generosa ou justa, entramos num terreno menos obediente. Não cabe bem numa tabela. A inteligência dá sinais visíveis. O carácter deixa vestígios. Uma pessoa inteligente pode dominar uma sala em dez minutos. Uma pessoa decente precisa, muitas vezes, de ser vista durante anos. A primeira capta atenção. A segunda constrói confiança. E a atenção, hoje, circula melhor. Tem plataformas, prémios, convites, cortes de vídeo. A confiança continua a ser uma coisa lenta, quase rural, desconfiada da pressa. Isto aparece bem nos debates públicos. Há participantes que vencem apenas por velocidade. Respondem antes de a pergunta assentar. Encontram a fraqueza do adversário em segundos. Sabem interromper sem parecer totalmente mal-educados. Sabem sorrir no momento em que o outro hesita. Conhecem a linguagem, o ritmo, a pequena violência aceitável da televisão. Muitas vezes ganham. Nem sempre têm razão. A diferença parece pequena quando se está a assistir. Depois, com o tempo, torna-se enorme. Uma sociedade que confunde rapidez com lucidez acaba por entregar demasiado poder a pessoas que nunca aprenderam a esperar. E há coisas que só aparecem quando alguém espera: uma hesitação legítima, uma dúvida honesta, uma ferida que a resposta brilhante teria passado por cima. Não acontece apenas na política. Acontece nas universidades, nas empresas, nos meios culturais, nos jornais, nos grupos de amigos. Em qualquer lugar onde a inteligência seja visível e o carácter exija convivência. A inteligência apresenta-se bem. O carácter tem de ser observado quando ninguém está a fazer apresentação. Continuamos, por isso, fascinados por certas figuras públicas muito depois de deixarmos de confiar nelas. Sabemos que manipularam, que humilharam, que mentiram, que atravessaram outros sem grande perturbação. Ainda assim, há qualquer coisa no talento que nos prende. Dizemos que são difíceis, arrogantes, impossíveis, mas brilhantes. E o "brilhantes" entra no fim da frase como uma absolvição parcial. A bondade não recebe esse benefício. Tem má reputação estética. Parece simples demais. Parece frágil. Parece pouco competitiva. A prudência soa a hesitação. A delicadeza pode ser confundida com insegurança. A contenção parece falta de garra. Há virtudes que envelheceram mal no mercado da impressão imediata, não porque tenham perdido valor, mas porque não sabem exibir-se com eficácia. Penso muitas vezes naquele rapaz da primeira fila. Durante anos, todos souberam que era o mais inteligente. Os testes diziam-no. Os professores repetiam-no. As classificações deixavam pouca margem para dúvida. Mas lembro-me melhor de outro aluno. Não era brilhante. Tinha boas notas, mas não extraordinárias. Demorava mais tempo a perceber algumas matérias. Às vezes fazia perguntas que os outros achavam simples demais. Havia nele uma atenção sem aparato, uma espécie de cuidado que, na altura, ninguém teria sabido transformar em mérito. Foi a única pessoa que vi ficar depois das aulas para ajudar colegas que tinham dificuldades. Não recebeu um prémio por isso. Não apareceu no quadro de honra. Não representou a escola em concursos. Quando penso nessa turma, porém, é dele que me recordo primeiro. Talvez a memória seja menos obediente às classificações do que imaginamos. Guarda outras coisas. Uma mão que fica. Uma explicação repetida sem impaciência. Um colega que não se ri quando teria sido fácil rir. Pequenos gestos, quase nada, que no momento parecem secundários e depois ganham uma persistência estranha. Não sei o que aconteceu ao rapaz da primeira fila. Talvez se tenha tornado uma pessoa admirável. Talvez tenha aprendido aquilo que naquela idade ainda não sabia. Também isso acontece. A adolescência é injusta como retrato definitivo. Ficou-me esta confusão, ou talvez esta suspeita. Perguntamos depressa quem é o mais inteligente. Perguntamos menos quem torna a vida dos outros menos áspera. A primeira pergunta resolve-se com relativa facilidade. A segunda exige atenção, tempo, talvez alguma humildade. E essas três coisas raramente entram nos quadros de honra.

  • Como a Indústria do Kratom Capturou Washington

    A batalha política em torno do kratom não é uma discussão sobre saúde pública. É uma guerra de quota de mercado com financiamento político e cobertura ideológica. QUANDO O ESTADO AMERICANO REGULA PARA UM A política de saúde da administração Trump é definida pelo acesso. O acesso tem preço de tabela, auditável em registos de doações, em contratos de pressão política e em decisões regulatórias que chegam semanas depois dos cheques. O kratom não é uma anomalia nem um escândalo isolado: é a demonstração em tempo real de como um mercado captura um aparelho regulatório e o reconverte em instrumento de eliminação de concorrência. A questão de saber se o Como uma planta exótica do Sudeste Asiático conseguiu capturar reguladores, lobistas e decisores em Washington. é perigoso deixou de ser relevante para o processo político. O que é relevante é quem paga e quem conhece quem. Um setor com produtos legalmente ambíguos, cientificamente contestados e economicamente significativos confronta um ambiente regulatório hostil. A resposta racional não é investir em segurança ou em transparência — é investir em política. Não para obter proteção genérica, mas para obter algo mais específico: regulação dirigida contra os concorrentes. O kratom "natural" não precisava de provar que era seguro. Precisava apenas de fazer parecer que o 7-OH era mais perigoso. E para isso não precisava de ciência — precisava de secretários de Estado, de procuradores e de conselheiros próximos do presidente. Jerry Ross — outrora Jerry Cash, ex-executivo do setor energético de Oklahoma, ex-recluso federal por crime financeiro, fundador da Botanic Tonics — percebeu isto antes da maioria dos operadores do setor. A sua empresa estava sob ação judicial federal por venda ilegal de suplementos não aprovados quando decidiu intensificar as doações políticas. O caso foi abandonado pelo Departamento de Justiça meses depois. A empresa celebrou. Ninguém no governo se demitiu. O movimento MAHA criou uma narrativa de rutura com a medicina institucional que é simultaneamente sincera em alguns dos seus defensores e extraordinariamente útil para quem vende produtos sem aprovação regulatória. No mercado concreto, "medicina alternativa" e "remédios naturais" funcionam como cobertura para produtos cuja segurança não foi demonstrada e cuja comercialização seria impossível sob qualquer regime regulatório normal. A Botanic Tonics não é uma empresa de bem-estar. É uma empresa que vende um produto com ação nos recetores opioides do cérebro, com casos documentados de dependência e de morte, e que encontrou no ecossistema MAHA a narrativa perfeita para se apresentar como alternativa saudável ao sistema que mata as pessoas com OxyContin. O kratom ganhou relevância nos Estados Unidos porque a epidemia de opioides criou uma procura de analgésicos fora do circuito médico. Pessoas com dor crónica, pessoas a tentar sair da dependência de opioides prescritos, pessoas sem acesso a cuidados de saúde — todas encontraram no kratom uma solução de mercado para um problema de sistema. Que esse mercado seja agora controlado por empresas que financiam campanhas políticas para evitar regulação é uma sequência lógica, não uma perversão. O contra-argumento mais sério é o seguinte: talvez o kratom natural seja genuinamente menos perigoso do que o 7-OH sintético, e talvez a distinção regulatória que a indústria pede seja cientificamente justificável. Mas a distinção química entre kratom natural e 7-OH sintético não implica que o kratom natural seja seguro — implica apenas que pode ser menos potente em certas formulações. Os dados sobre mortalidade associada ao kratom natural não são tranquilizadores. E mesmo que a distinção fosse cientificamente sólida, o processo pelo qual foi adotada — doações, acesso privado, abandono de processos judiciais, remoção de informação de sítios regulatórios — contamina a decisão de forma irreparável. Uma regulação correta produzida por um processo corrupto não restaura a confiança no sistema. Markwayne Mullin é o caso mais claro. Um senador que aparece numa conferência de imprensa da FDA a apoiar restrições a produtos que concorrem com uma empresa em que tem investimento de até um milhão de dólares. O departamento que lidera não respondeu às perguntas sobre o investimento. A afirmação de que "segue todos os padrões éticos" fica registada ao lado dos factos. A expressão "ciência de referência absoluta" invocada pelo porta-voz da Casa Branca não é uma descrição do processo decisório: é uma fórmula de encerramento de perguntas. A administração que expressa ceticismo sobre vacinas e paracetamol não tem fundamento epistemológico para invocar ciência quando lhe convém. A frase mais honesta de todo este processo pertence ao diretor executivo de uma das empresas do setor: "Não é pagar para jogar. É pagar para ter conversas." Que o interlocutor o diga com esta candura é um indicador do estado do sistema: já não existe o esforço de fingir que o processo é outro. A questão mais incómoda não é a da corrupção individual. É esta: o que acontece a um aparelho regulatório sistematicamente usado para fins de guerra de mercado? A FDA não é apenas uma agência com uma página de internet editável mediante pressão política. É a instituição que determina o que entra no mercado americano de saúde e em que condições. Quando opera como árbitro de conflitos entre financiadores políticos em vez de árbitro entre evidência e risco, o dano atinge qualquer produto cujo perfil de segurança dependa de avaliação independente. O kratom pode vir a ser regulado, banido ou aprovado com condições. Nenhuma dessas decisões, tomada por este processo, com estes atores, nestas condições de financiamento, terá autoridade suficiente para ser cumprida por quem discorde dela. O que está em causa não é o destino regulatório de um suplemento vendido em postos de gasolina — é a capacidade do Estado de produzir decisões que o mercado, os tribunais e o público tratem como legítimas. Essa capacidade gasta-se. E não se reconstitui por decreto. GLOSSÁRIO Kratom — Suplemento derivado das folhas de uma árvore originária do Sudeste Asiático. Contém um composto chamado mitragenina que age nos recetores opioides do cérebro, produzindo efeitos de alívio da dor, sedação ou energia consoante a preparação. Vendido livremente em lojas e postos de gasolina nos Estados Unidos, sem aprovação regulatória federal. 7-OH (7-hidroximitragenina) — Composto sintético relacionado com o kratom, mas significativamente mais potente. Emergiu no mercado americano em 2023 como produto concorrente do kratom natural. É o principal alvo da campanha da indústria do kratom junto da administração Trump, que procura a sua proibição para eliminar a concorrência. Botanic Tonics — Empresa americana fundada por Jerry Ross, produtora do suplemento Feel Free, uma bebida contendo kratom e kava vendida em mais de 24.000 pontos de venda. Esteve sob ação judicial federal por comercialização ilegal de suplementos não aprovados; o caso foi abandonado pelo Departamento de Justiça em dezembro de 2024. Jerry Ross — Fundador da Botanic Tonics. Anteriormente conhecido como Jerry Cash, foi um executivo do setor energético de Oklahoma condenado por crime financeiro federal em 2010, tendo cumprido pena de prisão. Após a saída da prisão, mudou de nome e criou a Botanic Tonics. É o principal financiador da campanha de influência junto da administração Trump em favor do kratom natural. MAHA (Make America Healthy Again) — Movimento político-sanitário associado a Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde da administração Trump. Defende uma rutura com a medicina convencional e a indústria farmacêutica, promovendo alternativas naturais. O movimento criou um ambiente favorável à comercialização de suplementos sem aprovação regulatória. Robert F. Kennedy Jr. — Secretário de Saúde da administração Trump e figura central do movimento MAHA. Recebeu doações significativas da Botanic Tonics e do seu fundador, e interveio junto do governador do Ohio para travar uma proibição estadual do kratom. Markwayne Mullin — Secretário de Segurança Interna da administração Trump, anteriormente senador republicano pelo Oklahoma. Participou publicamente numa conferência de imprensa da FDA a apoiar restrições aos produtos concorrentes do kratom, tendo simultaneamente um investimento pessoal de até um milhão de dólares na Botanic Tonics. FDA (Food and Drug Administration) — Agência federal americana responsável pela regulação de alimentos, medicamentos e suplementos. É a instituição que determina quais os produtos que podem ser comercializados no mercado de saúde dos Estados Unidos e em que condições. OxyContin — Medicamento opioide de prescrição produzido pela Purdue Pharma, central na epidemia de dependência de opioides nos Estados Unidos a partir dos anos 1990. A sua comercialização agressiva e subsequente restrição de acesso criaram uma procura de alternativas fora do circuito médico, da qual o mercado do kratom beneficiou. Departamento de Justiça — Ministério público federal americano. Foi o Departamento de Justiça que instaurou a ação judicial contra a Botanic Tonics e que, sob a administração Trump, decidiu abandonar o caso em dezembro de 2024.

  • Direitos de autor na era da IA: porque é que Hollywood negocia e África paga

    Em Bruxelas, no final de Fevereiro de 2026, os representantes do Conselho Europeu de Escritores sentaram-se diante da Comissão de Cultura e Educação do Parlamento Europeu. Representavam 250.000 autores de 34 países, que escrevem em 37 línguas. OS ESCRITORES FORAM À GUERRA. MAS A GUERRA NÃO ESTÁ ONDE ELES PENSAM. A submissão que apresentaram não usou a linguagem cautelosa que Bruxelas costuma preferir. Usou a palavra dano — económico, cultural, social. E acrescentou um argumento que raramente aparece nos documentos das federações profissionais: que a inteligência artificial generativa, ao simplificar textos e fornecer respostas pré-fabricadas, ameaça as próprias competências de leitura e escrita das gerações futuras. Não apenas os rendimentos dos escritores. A literacia como prática civilizacional. Capa editorial sobre direitos de autor, inteligência artificial e desigualdade global na proteção dos criadores: porque é que Hollywood consegue negociar e muitos autores africanos continuam a pagar o preço invisível do treino de modelos. Poucos dias antes, em Amesterdão, a associação de escritores holandesa, o sindicato de jornalistas e uma fundação de gestão de direitos tinham enviado uma carta formal à Meta. Exigiam que a empresa retirasse do mercado europeu os modelos de IA treinados com obras copiadas e distribuídas sem autorização dos criadores, sem consulta, sem remuneração. Do outro lado do Atlântico, a quatro de Abril de 2026, o WGA anunciou um acordo de quatro anos com os estúdios — o mais longo contrato da história do sindicato desde pelo menos a década de 1940, fechado após menos de um mês de negociações, sem greve, com disposições explícitas sobre o uso de guiões para treinar modelos de IA. Três movimentos em poucas semanas, com poderes de negociação radicalmente desiguais. E continentes inteiros onde a batalha ainda nem começou, enquanto os seus acervos culturais já estão a ser consumidos. Os sistemas de inteligência artificial generativa precisam de enormes volumes de texto para aprender a estrutura da linguagem, os padrões narrativos, os registos de estilo. Esses textos têm autores, têm editoras, têm contratos. Se o seu uso para treino de IA constitui infração de direito de autor está a ser decidido pelos tribunais — e as decisões contradizem-se. Em Junho de 2025, um tribunal federal norte-americano decidiu, no caso movido por um grupo de autores contra a Anthropic, que o treino com livros protegidos constitui “fair use”. O juiz descreveu a transformação como “espetacular”. A Anthropic tinha chegado a esse julgamento depois de pagar 1,5 mil milhões de dólares num acordo extrajudicial por ter descarregado milhões de cópias pirateadas para construir os seus conjuntos de dados. A linha entre uso aceitável e infração depende de como os dados foram obtidos, de como foram usados, e do direito da jurisdição que se aplica — uma linha que só existe, com clareza, onde há tribunais com capacidade e vontade de a fixar. Na Coreia do Sul, o organismo de propriedade intelectual determinou em 2025 que, numa obra musical criada com assistência de IA, apenas a melodia composta por um humano obtém proteção — o acompanhamento gerado pelo modelo fica em terra de ninguém. No Japão, a Agência Cultural estabeleceu que guiões de manga produzidos com IA só são elegíveis para proteção se o criador humano tiver definido previamente a lógica de storyboard e o perfil das personagens. Na China, um tribunal de Changshu protegeu uma obra criada com ajustes sucessivos de prompts e edição humana posterior, porque o processo refletia intenção e escolha demonstráveis. Quando as editoras japonesas confrontaram publicamente a OpenAI, em Novembro de 2025, sobre violações de direito de autor pelo modelo Sora 2, Sam Altman respondeu prometendo proteções mais fortes aos criadores. Pode ou não cumprir. Houve interlocução. O Tribunal do Direito de Autor do Quénia chegou em 2025 à mesma conclusão de fundo que Seul e Tóquio: obras criadas exclusivamente por IA não são elegíveis para proteção por falta de autoria humana. Mas o problema dos criadores africanos não é a autoria das obras que produzem com IA. É o que acontece com as obras que produziram sem ela. A Nollywood nigeriana é a segunda maior indústria cinematográfica do mundo por volume de produção. Os géneros Afrobeats e Amapiano têm presença global. Publicações como a Nation Media Group, do Quénia, e a Premium Times, da Nigéria, construíram audiências digitais ao longo de décadas. Esses arquivos — texto, som, imagem acumulados durante anos — estão acessíveis online e estão a ser incorporados, como observadores legais africanos têm documentado, nos conjuntos de dados que treinam os grandes modelos de linguagem. Sem autorização. Sem compensação. Frequentemente sem que os criadores saibam. O Quénia prepara em 2026 uma revisão à sua lei de direito de autor; o projeto em discussão não inclui ainda disposições sobre IA. A Tanzânia debate modelos sem ter sindicato de escritores com poder de negociação comparável ao WGA, nem federação regional com assento institucional em Bruxelas. No Brasil e no Chile, o debate público sobre IA concentra-se em infraestrutura — centros de dados, investimentos de centenas de milhões de dólares, impacto ambiental nas regiões de instalação. Os direitos dos criadores raramente aparecem. A autora que publica sob o pseudónimo Coral Hart, baseada na África do Sul, utilizou IA para escrever mais de duzentos romances em 2025, publicados em vinte e um nomes diferentes na Amazon, gerando rendimentos na ordem dos seis dígitos. Ensinou o método a mais de 1.600 pessoas. A mesma região cujos acervos culturais alimentam os modelos sem compensação produz já escritores que extraem rendimento desses mesmos modelos — enquanto a maioria dos criadores africanos não tem o enquadramento legal para reclamar o primeiro, nem o acesso aos mercados para beneficiar do segundo. O acordo do WGA impede que os estúdios treinem modelos com guiões sem licença e regula, com maior detalhe do que o acordo de 2023, a integração da IA nos processos de desenvolvimento de scripts. O emprego de escritores de Hollywood caiu 24,3% entre 2022 e 2024, mesmo com as proteções formais da greve anterior — a redução das salas de escrita aconteceu dentro dos limites do contrato. O novo acordo tenta fechar essas brechas. Não impede, contudo, que um modelo desenvolvido em São Francisco seja treinado com romances de autores nigerianos, crónicas de escritores quenianos ou letras de músicas brasileiras. A EWC submete documentos ao Parlamento Europeu porque existe há décadas e opera numa jurisdição com regulação de mercados em curso. O Quénia tem jurisprudência porque tem um tribunal que funciona. A diferença não é de vontade. É de capacidade institucional acumulada ao longo de gerações — e essa capacidade determina quem está sentado à mesa quando os termos são definidos. Em 2025, autores no Quénia e na Nigéria adotavam já ferramentas de escrita com assistência de IA para responder a prazos e condições de mercado onde os contratos são mal pagos. Não como indústria. Como adaptação — a mesma lógica que a ficção americana começou a registar quando a fratura de classes deixou de poder ser ignorada. São esses mesmos autores que não têm enquadramento legal para proteger as obras que produziram antes de a IA existir, que veem os seus acervos potencialmente incorporados em sistemas cujos outputs concorrem com o seu trabalho, e que não têm sindicato com assento nas mesas onde os termos dessa concorrência estão a ser definidos. O treino que já aconteceu não é reversível. Os dados foram processados. O que os modelos aprenderam, e de quem aprenderam, ficou — enquanto ainda não havia lei nenhuma a perguntar se podiam. João da Praça Subscrever a Newsletter

  • Porque é que tantas séries americanas falam de desigualdade?

    O country club californiano que serve de palco a Beef não é cenário: é a condensação de uma divisão real. Os membros pertencem às gerações mais velhas; os funcionários, às mais novas — e por mais que trabalhem, nunca serão membros. A classe social deixou de ser tema na televisão americana. Passou a ser a variável que organiza tudo o resto — e há razões concretas para isso. Um ecrã aceso numa sala comum: a televisão americana continua a contar histórias privadas, mas já quase nunca consegue escapar ao pano de fundo da desigualdade. Como chegámos aqui A televisão americana não chegou ao tema da classe por opção programática. Chegou por esgotamento das alternativas. Durante boa parte dos anos 2000 e 2010, a ficção de prestígio organizou-se em torno do indivíduo excecional — o anti-herói, o génio torturado, o outsider que desafia o sistema. A estrutura social estava lá, mas servia a psicologia das personagens. Era fundo, não figura. O que mudou não foi a televisão. A combinação de estagnação salarial para a maioria dos trabalhadores com enriquecimento acelerado de uma minoria, a impossibilidade crescente de acesso à habitação para as gerações mais jovens, e a visibilidade amplificada das fortunas tecnológicas tornaram a fratura de classes um dado ambiental antes de ser uma escolha temática. Qualquer história minimamente credível sobre vida contemporânea passou a ter de a incorporar — independentemente do género, da plataforma ou da intenção do criador. Lee Sung Jin não partiu de uma tese. Partiu de um conflito doméstico observado numa rua do seu bairro californiano, que gerou reações radicalmente opostas consoante a faixa etária de quem estava presente. Os mais velhos reconheceram algo banal; os mais novos consideraram-no intolerável. Não era só uma diferença geracional de sensibilidade — era uma fratura na perceção do que é normal, do que é tolerável, do que conta como limite aceitável entre pessoas. Essa observação tornou-se o ponto de entrada da segunda temporada, muito antes de qualquer decisão sobre country clubs, bilionárias coreanas ou chantagem. Quem está envolvido e porquê A série constrói um espaço com três camadas sobrepostas que raramente aparecem juntas na ficção televisiva, e menos ainda sem que uma delas funcione como alvo moral das outras. Porque é que tantas séries americanas falam de desigualdade? — Atlantic Lisbon No topo, a Chairwoman Park — proprietária coreana do country club, cabeça de um conglomerado familiar. O capital está lá, mas o reconhecimento social ainda está por conquistar num meio que não é o seu. A sua presença introduz uma lógica de acumulação diferente da que domina o ambiente californiano: não é a fortuna do empreendedor tecnológico nem a herança fundiária, é capital industrial sul-coreano com protocolos de representação próprios, com uma relação com o poder que passa por cerimónia, decoro e hierarquia de forma diferente da transação direta que Lee Sung Jin identifica como traço do capitalismo americano. No meio, o casal de gestão — o diretor do clube e a mulher, designer de interiores. Pertencem à classe profissional estabelecida mas não são proprietários. Têm acesso, não pertença. A sua crise é conjugal na superfície — foram filmados em violência doméstica por dois subordinados — mas o que realmente está exposto é a superfície de normalidade que sustenta a sua posição. Sem essa superfície, o que fica? Um salário de gestão num clube que não é deles, numa cidade onde a habitação absorve quase tudo. Na base, Austin e Ashley — funcionários da geração Z, prestes a casar, com o vídeo nas mãos. Não há aqui a ilusão da mobilidade social: ninguém nesta camada da série acredita que trabalhar muito no country club abre portas para se tornar membro. O que há é o reconhecimento de que o percurso normal está fechado, e de que o material de chantagem é um ativo de negociação, não um instrumento de destruição. A lógica é racional dadas as condições. A série não a condena. O que cada ator ganha e perde Para a Chairwoman Park, a exposição pública de violência no seu clube não é apenas um problema de gestão — é uma ameaça à única coisa que o dinheiro ainda não comprou. Capital não é reputação. A série usa essa distinção para explorar o que separa ter recursos de pertencer a um meio, e porque a segunda coisa resiste ao dinheiro de formas que o dinheiro não antecipa. Para o casal de gestão, o risco é a perda do único território em que operam com autoridade reconhecida. A posição que ocupam depende de aparências que eles próprios sabem frágeis — e a câmara dos subordinados tornou essa fragilidade transferível para outras mãos. O que se segue não é só chantagem: é a redistribuição involuntária de um poder que nunca foi realmente deles. Para Austin e Ashley, a equação é diferente. Precisam de capital inicial para construir uma vida que o salário presente nunca vai dar. A janela existe. Usá-la tem custos morais que a série não esconde, mas também não amplifica em julgamento. A geração Z não inventou a lógica da oportunidade — herdou-a de toda a gente acima. O que fica por resolver Os detalhes narrativos completos da temporada não estavam disponíveis no momento em que este texto foi escrito — o que existe é o que Lee Sung Jin descreveu publicamente. O arco da Chairwoman Park termina com ela a chorar junto ao túmulo do seu primeiro amor, com todo o dinheiro do mundo e sem nenhuma das coisas que ele não comprou. É um final que a série construiu como reshoot, substituindo um plano original de formigas a cobrir o rosto da personagem por uma imagem de samsara budista — a roda da vida com o deus da morte a segurá-la. Não é subtil. Mas a escolha de ir para lá da ironia social e tocar em iconografia do ciclo eterno diz algo sobre o que a série acha que o tema exige. Lee Sung Jin disse que todos os projetos no seu quadro de desenvolvimento partilham a variável da classe e do capitalismo. Disse também que gostaria, na sua vida, de um dia poder trabalhar sobre outras coisas. Essa frase não é pessimismo nem declaração de princípios — é o reconhecimento de que o constrangimento é exterior ao criador e anterior à sua intenção. Enquanto a condição persistir, a ficção que a ignora é ficção sobre outro país. Quando a desigualdade deixa de ser tema e passa a ser a variável que organiza tudo, a ficção e a política chegam ao mesmo ponto por caminhos diferentes — como mostra a análise da polarização portuguesa e do mercado político do ódio útil. @ Imagem: - Alin Surdu

  • Portugal no raio-X: patriotismo, memória e a bandeira no tabuleiro

    No Aeroporto Humberto Delgado, pouco depois das seis da manhã, um homem tirou da lapela um pequeno alfinete com a bandeira portuguesa e pousou-o num tabuleiro de plástico, ao lado do cinto, das chaves, de um terço gasto e de um telemóvel antigo, daqueles que parecem resistir mais por lealdade do que por tecnologia. A fila avançava aos solavancos. Um rapaz de mochila vermelha tentava enfiar, à pressa, um computador dentro da mala. Uma mulher segurava o passaporte de uma criança com cuidado excessivo, como se segurasse um pássaro. Do outro lado da barreira, alguém calçava os sapatos com a dignidade difícil de quem acabou de atravessar uma pequena humilhação moderna. Uma pequena bandeira portuguesa repousa num tabuleiro de segurança, reduzida à escala frágil de um objeto sob inspeção. A bandeira ficou virada ao contrário. O verde e o vermelho quase desapareceram sob a luz fria do controlo de segurança. Durante alguns segundos, Portugal coube ali: metal, esmalte, uma ponta de alfinete e a paciência burocrática de uma máquina. Numa cerimónia oficial, uma bandeira impõe respeito e esconde demasiado. Num tabuleiro de aeroporto, já não preside a nada. Passa pelo raio-X como passam cintos, relógios, brinquedos, medicamentos, promessas dobradas no bolso. Fora da lapela, perde vento. Fica mais pequena. Também mais verdadeira. O aeroporto tem o nome de Humberto Delgado. Durante anos, os aeroportos foram batizados com nomes de santos, reis, descobridores, cidades ou destinos. Este leva o nome de um homem que atravessou o século português como uma contradição viva: general do regime, candidato contra o regime, voz de rutura, figura perseguida, assassinado pela polícia política em 1965. O seu nome está agora suspenso sobre partidas e chegadas, malas de cabine, filas de baixo custo, trabalhadores cansados, turistas distraídos, emigrantes que regressam por poucos dias, jovens que saem sem saber se voltam. Portugal passa diariamente por baixo desse nome e talvez já nem o veja. A memória, quando se transforma em sinalética, perde sangue. Um homem que desafiou a ditadura torna-se placa sobre cafés, lojas, casas de banho, portas de embarque. A vida continua, como tem de continuar. Ninguém pode carregar a História inteira enquanto procura o cartão de embarque. Mas há lugares onde o passado insiste. O aeroporto de Lisboa é um deles. Ali, Portugal aparece menos composto do que nas cerimónias. Veem-se famílias vindas de Newark, Luxemburgo, Paris, Luanda, Genebra, Londres, Maputo, Toronto. Reformados regressam com malas cheias de presentes pequenos. Estudantes partem com uma mistura de entusiasmo e derrota. Trabalhadores da limpeza atravessam corredores antes de o país acordar para falar de produtividade. Turistas chegam ao país que muitos portugueses já não conseguem pagar. Crianças dormem sentadas. Velhos procuram máquinas que parecem feitas para os excluir. Mulheres empurram carrinhos e mundos. Um país não é uma ideia antes de ser corpo, espera, mala, salário, língua, cansaço. A pátria começa muitas vezes antes da política: na maneira como alguém embrulha queijo para levar para França, numa fotografia de aldeia guardada no telemóvel, no sotaque que resiste ao aeroporto, no abraço que dura mais do que a zona de chegadas permite. Depois vêm os discursos dizer que Portugal é isto ou aquilo. Portugal já estava ali, no gesto de quem confirma três vezes se trouxe o passaporte. Amar um país é mais difícil do que gostar da sua imagem. Portugal oferece imagens amáveis: o mar, a luz, os azulejos, os poetas, a língua espalhada pelo mundo, a beleza antiga de certas ruas onde até a decadência parece ter aprendido maneiras. Há também a pobreza persistente, a emigração como solução nacional, a violência doméstica atrás de janelas fechadas, a infância desprotegida, a velhice sozinha, a justiça lenta, a escola desigual, a habitação convertida em expulsão elegante, a exploração dos que chegam de fora para fazer o trabalho que os discursos não fotografam. O patriotismo mais pobre escolhe apenas a primeira parte. Gosta de varandas, bandeiras, feitos marítimos, mapas antigos, glórias escolares e frases sobre os portugueses serem um povo único. Fala de identidade como quem fecha uma porta. Fala de tradição como quem guarda uma arma. Fala de Portugal como se Portugal fosse uma herança limpa, ameaçada apenas por quem chega, por quem pergunta, por quem recorda. Durante muito tempo, ensinaram-nos um país sem fissuras. Um Portugal pequeno e imenso, pobre e providencial, humilde e escolhido, rural e imperial, obediente e eterno. A escola do Estado Novo soube fazer da pátria uma sala arrumada: Deus, Pátria e Família; mapas cor-de-rosa; camponeses felizes; soldados nobres; mães silenciosas; crianças lavadas; colónias chamadas províncias; pobreza chamada modéstia; censura chamada prudência; medo chamado ordem. A ditadura percebeu cedo que a infância era um lugar estratégico. Não era preciso que todos acreditassem. Bastava que repetissem. A repetição entra cedo, instala-se, fica. Mesmo depois do 25 de Abril, muita coisa continuou alojada nos cantos da linguagem. Ainda hoje, quando alguém diz que “no tempo de Salazar havia respeito”, raramente está a falar de respeito. Está a falar de medo com saudade. Recorda um país onde certas dores não apareciam na televisão porque a televisão, os jornais e a conversa pública estavam vigiados. A ordem parece sempre maior quando se apagam as vítimas. Que país se ama quando se diz amar Portugal? O dos navegadores ou o dos homens forçados a embarcar? O das descobertas ou o dos povos encontrados sem terem pedido descoberta nenhuma? O das aldeias brancas ou o dos casebres sem saneamento? O de Camões ou o dos analfabetos que não podiam lê-lo? O do fado ou o das mulheres que choravam sem palco? O de Abril ou o país que ainda hoje se cansa de Abril? A irritação surge depressa. Chamam a isto culpa, revisionismo, vergonha de ser português. Mas vergonha é precisar de mentira para ter orgulho. Um país que só pode ser amado depois de amputado da sua memória não está a ser amado; está a ser protegido como se protege uma fraude. Portugal tem uma relação sensível com a palavra império. Ainda a pronuncia, muitas vezes, entre a nostalgia e o embaraço. O império aparece como epopeia, viagem, encontro, missão, língua, mestiçagem, ponte. Também foi violência, exploração, hierarquia racial, trabalho forçado, guerra, catequese, apropriação, humilhação. O problema português não está em recordar os navios. Está em fingir que transportavam apenas coragem. Durante décadas, a memória colonial portuguesa foi envolvida num nevoeiro sentimental. Falou-se de brandura, de exceção, de convivência natural, como se Portugal tivesse inventado um império sem brutalidade por delicadeza especial do carácter nacional. Essa narrativa permite amar a expansão sem escutar os seus vencidos. Permite celebrar a língua sem perguntar quem foi obrigado a aprendê-la. Permite elogiar a miscigenação sem ver as desigualdades que a atravessaram. Permite dizer “fomos diferentes” como quem pede absolvição antes de julgamento. A História não serve para condenar filhos pelos pecados dos avós. Serve para impedir que os netos transformem ignorância em política. Saber o que fomos não obriga a odiar Portugal. Obriga a deixar de tratar Portugal como criança. A guerra colonial é uma das feridas onde essa recusa mais se sente. Durante treze anos, milhares de jovens portugueses foram enviados para África para defender uma ideia impossível: a de que Angola, Moçambique e Guiné eram Portugal da mesma maneira que Trás-os-Montes ou o Alentejo eram Portugal. Muitos partiram sem compreender inteiramente a guerra. Muitos voltaram sem conseguir contá-la. Outros não voltaram. Houve mutilados, traumas, silêncios familiares, fotografias guardadas, pesadelos sem nome. Do outro lado, povos que lutaram pela independência pagaram com sangue o direito de não serem apêndice de Lisboa. Durante anos, a conversa portuguesa sobre a guerra esqueceu-os ou reduziu-os a cenário, como se a guerra colonial tivesse sido apenas uma tragédia dos rapazes portugueses. Foi também isso. Não foi só isso. Nenhuma memória nacional é justa quando só os seus mortos têm rosto. O 25 de Abril interrompeu essa mentira. Não a resolveu toda. Nenhuma revolução resolve toda a memória de um país. Mas abriu janelas. Os cravos, os tanques, a rádio, a madrugada, a canção, os capitães, a multidão nas ruas pertencem ao melhor de Portugal. Ainda hoje há uma beleza quase inacreditável nesse dia em que uma ditadura longa caiu com menos sangue do que o seu próprio peso parecia exigir. Também Abril foi domesticado. Transformou-se em feriado, cerimónia, fotografia, discurso, cravo anual. As sociedades embalsamam depressa aquilo que as inquietou. O 25 de Abril é celebrado por muitos que talvez não suportassem hoje a sua energia real: a indisciplina, a impaciência perante privilégios, a suspeita do poder fechado. Há quem goste de Abril como data, mas não como método. Portugal beneficia de Abril e queixa-se dele. Usa a liberdade para desvalorizar a liberdade. Invoca a democracia enquanto namora discursos que a corroem por dentro. Há no país uma tentação crescente de transformar ressentimento em doutrina: contra imigrantes, pobres, ciganos, mulheres que exigem direitos, professores, jornalistas, juízes, contra tudo o que não se deixa reduzir a uma frase de café. A extrema-direita percebeu que a pátria pode servir de máscara à crueldade. Basta dizer “Portugal primeiro” e muita gente deixa de perguntar que portugueses ficam fora desse Portugal. Antes de mudar nas leis, um país muda no vocabulário. Portugal conhece bem o preço do vocabulário vigiado. Conhece a censura, a PIDE, o medo de falar, o cuidado com as paredes, o jornal cortado, o livro proibido, a carta observada, a carreira destruída, o exílio, a prisão política. Conhece também a pobreza usada como disciplina. Durante demasiado tempo, os portugueses foram ensinados a pedir pouco, a agradecer pouco, a desconfiar da ambição, a baixar a voz, a confundir paciência com virtude nacional. Quando a democracia chegou, descobriu-se que a liberdade política não apaga automaticamente séculos de obediência social. O aeroporto é uma das grandes metáforas portuguesas. Portugal é um país que partiu muito. Partiu por fome, por medo, por guerra, por falta de futuro, por salários baixos, por amor, por estudo, por necessidade. A emigração está no centro da nossa intimidade nacional. É Natal com lugares vazios, avós que conhecem netos por videochamada, casas fechadas onze meses por ano, sotaques misturados, euros enviados, saudades administradas. Portugal habituou-se a admirar os seus emigrantes depois de os obrigar a sair. E agora, no mesmo país, há quem olhe com desprezo para os imigrantes que chegam. Como se a mala do português em França fosse dignidade e a mala do brasileiro, do cabo-verdiano, do indiano, do nepalês ou do angolano fosse ameaça. Como se a necessidade mudasse de valor conforme a nacionalidade de quem a carrega. Há poucas hipocrisias mais feias, num país de emigrantes, do que a arrogância perante a imigração. Amar Portugal, hoje, exige recusar essa amnésia moral. Somos filhos de partidas. Não temos o direito de transformar chegadas em crime simbólico. Quem conhece a estação, o cais, o aeroporto, a mala de cartão, o quarto partilhado, o trabalho duro, a língua difícil e a saudade não pode fingir que tudo isso se torna suspeito quando acontece a outros. O patriotismo decente não precisa de gritar. Pode estar num professor que chega cedo a uma escola difícil. Numa enfermeira que continua depois do turno. Num juiz que decide sem ceder à praça pública. Num bombeiro voluntário. Numa mãe que atravessa serviços para proteger um filho. Num trabalhador estrangeiro que limpa a cidade antes de a cidade acordar. Num velho que vota porque sabe quanto custou poder votar. Num jovem que parte e continua a chamar casa a um país que não lhe deu lugar. A bandeira portuguesa não pertence mais a quem a agita do que a quem a interroga. Não pertence mais aos que falam de “valores” do que aos que exigem habitação, justiça, escola, saúde, proteção para as crianças, dignidade para os idosos. Não pertence mais aos que invocam os mortos do passado do que aos vivos que tentam impedir novas formas de abandono. Uma bandeira séria não cobre apenas monumentos. Também cobre responsabilidades. No aeroporto, o homem voltou a prender o alfinete na lapela. Fez o gesto com cuidado, talvez por hábito, talvez por convicção, talvez porque alguém lho oferecera. Depois pegou na mala e seguiu para a porta de embarque. Não sei para onde ia. Paris, talvez. Ou Genebra. Ou Toronto. Ou apenas Faro, porque também há exílios dentro do próprio país. A bandeira regressou ao peito, mas por instantes tinha estado nua, sem cerimónia, submetida à mesma luz que examina tudo. Portugal talvez precise desse gesto: tirar a pátria da lapela, pousá-la no tabuleiro, deixar que a máquina atravesse o império, a ditadura, a guerra, Abril, a emigração, a pobreza, a vergonha, a beleza, a língua, o mar, os mortos e os vivos. E só depois, se ainda houver coragem, voltar a prendê-la ao peito — não como ornamento de inocência, mas como peso escolhido.

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