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- Templo Maçónico de Santa Cruz avança para “Lugar de Memória Democrática”
O Boletín Oficial del Estado (BOE) publicou a "incoação do procedimento" para declarar o Templo Maçónico de Santa Cruz de Tenerife como “Lugar de Memória Democrática”, um reconhecimento institucional que enquadra o edifício como espaço associado à repressão franquista após o golpe de 1936, segundo a fundamentação divulgada no âmbito do processo. Tenerife ao amanhecer: um relevo abrupto, esculpido pela luz, que lembra como a memória também se escreve em pedra. Templo Maçónico de Santa Cruz avança para “Lugar de Memória Democrática” Em paralelo, foi anunciado um protocolo de colaboração entre o Ministério de Política Territorial e Memória Democrática e o Ayuntamiento de Santa Cruz de Tenerife, com o objetivo de coordenar iniciativas de preservação, estudo e divulgação e de iniciar um trabalho de localização e recuperação de fundos e materiais relacionados com a maçonaria canária que tenham sido espoliados durante a ditadura. O que está em causa De acordo com a informação associada ao procedimento, o templo — descrito como único em Espanha e construído de raiz para esse fim — foi, durante décadas, um símbolo urbano de modernidade e convivência cívica, antes de ser ocupado e desvirtuado após 1936, passando a integrar a máquina repressiva do regime. A iniciativa junta-se a outros expedientes de memória já em curso nas Canárias, incluindo o da Colónia Agrícola Penitenciária de Tefía (Fuerteventura), referida como símbolo da repressão de pessoas LGBTI+ durante a ditadura. Reabilitação recente e próximos passos O Templo Maçónico foi recentemente reabilitado, após um investimento superior a três milhões de euros, e reabriu ao público. Segundo dados citados no anúncio do processo, mais de 6.000 pessoas visitaram o edifício desde a reabertura, sinalizando interesse cívico e patrimonial crescente. Entre as linhas de trabalho previstas no protocolo estão: inventariação e divulgação de arquivos e fundos ligados a lojas maçónicas nas Canárias; criação de condições para acesso e coordenação Inter administrativa com arquivos históricos do Estado; atividades educativas e culturais sobre valores humanistas e democráticos associados à maçonaria e sobre a perseguição sofrida durante o franquismo; preparação de projetos expositivos, incluindo uma mostra fotográfica permanente. Também foi mencionada a intenção de recuperar materiais associados ao templo que possam estar em arquivos estatais, incluindo referência ao Arquivo de Salamanca, reconhecendo-se, ainda assim, que se trata de um processo potencialmente longo e complexo. O enquadramento político local À margem do anúncio, surgiu novamente o debate sobre a presença de simbologia franquista na cidade, em particular o monumento a Franco. Questionado sobre a aparente contradição entre o reconhecimento do templo e a demora na remoção do monumento, o presidente da câmara afirmou que não se trata de resistência política, mas de exigência de cumprimento estrito do quadro legal regional, sublinhando que não tem dúvidas quanto ao significado simbólico da estátua. Subscreva a Newsletter
- A Indústria da Boa Consciência
ENSAIO · Economia · Ajuda Internacional · Caridade Genebra não é um lugar. É um método. Há momentos em que a caridade parece uma sala com ar condicionado. Não é metáfora. É literalmente uma sala. A cena repete-se com pequenas variações, como um ritual secular: hotel impecável, carpetes espessas, um palco com luzes que fazem qualquer frase parecer mais séria do que é, e um ecrã grande o suficiente para transformar um gráfico num ato de fé. No foyer, mesas com café, água e pequenas peças de fruta cortada, como se a pobreza extrema fosse um assunto que se resolvesse com boas escolhas alimentares. A conferência, desta vez, tinha como tema “erradicação da pobreza”. Um título que soa absoluto, redondo, quase bíblico. E foi ali, no intervalo, que um trabalhador humanitário — duas décadas de terreno, África e Ásia, uma vida inteira a negociar com a logística e com a lama — olhou para o buffet e fez um comentário que não era sequer indignação. Era cansaço. Um tipo de lucidez exausta. Disse que, só naquele encontro, com voos, hotel, catering e produção, se queimava dinheiro suficiente para erguer várias salas de aula num distrito rural qualquer. Não tinha a exatidão de um auditor. Tinha a exatidão de quem já montou tendas em lugares onde as crianças escrevem no chão. A frase ficou no ar com um silêncio incómodo. Não porque fosse falsa. Mas porque era indecente, no sentido antigo da palavra: fora de cena. Há verdades que não se dizem em Genebra. Nem em Bruxelas. Nem em Nova Iorque. Nem em qualquer cidade onde a compaixão tem crachá e agenda. O estranho é que ninguém naquela sala precisava de ser convencido. Toda a gente sabia. E, mesmo assim, tudo continuou como se nada fosse. Porque, num certo ponto, a ajuda deixa de ser um gesto e passa a ser uma profissão. E, quando vira profissão, constrói o que qualquer profissão constrói: carreira, reputação, salários, redes, códigos internos, linguagem própria e um instinto de sobrevivência que não tem necessariamente má-fé — mas tem sempre consequência. A indústria da boa consciência não vive de cinismo. Vive de estrutura. O dinheiro e a viagem até ao “terreno” Quando uma pessoa doa cem euros, imagina uma linha direta: eu → alguém. A criança. A família. O poço. A escola. A ideia é tão simples que parece impossível ser mentirosa. Mas não é uma linha direta. É um percurso. Antes de chegar ao “terreno” (palavra repetida até ficar lisa), o dinheiro passa por escritórios, relatórios, revisões, reuniões, procurement, compliance, auditorias, avaliações intermédias e avaliações finais — e, no meio, pelo custo de manter gente capaz de fazer isso. Os defensores do modelo dizem: sem essa estrutura, a ajuda colapsa. E têm razão num ponto essencial. A ajuda, para existir, precisa de logística. Precisa de segurança. Precisa de contratos. Precisa de rastreabilidade. Precisa de evitar corrupção, desvio, captura política. Precisa de regras, porque, quando se mexe com dinheiro e vulnerabilidade, a tentação cresce. O problema começa quando a estrutura deixa de ser um meio e passa a ser o fim. Há um ponto a partir do qual a ajuda já não se organiza para chegar a pessoas — organiza-se para continuar organizada. E, quando isso acontece, a prioridade muda: menos “o que é preciso” e mais “o que é financiável”, “o que é reportável”, “o que é replicável”, “o que se traduz bem em indicadores”. Os números variam de organização para organização, e há instituições que trabalham com overhead baixo e disciplina real. Mas, mesmo nos melhores casos, ninguém sério promete que 100% da sua doação cai no colo de um beneficiário. Se prometesse, estaria a mentir ou a esconder coisas. A questão, portanto, não é existir custo administrativo. A questão é quando o custo administrativo ganha vida própria. E aqui entramos no assunto que irrita sempre alguém: salários. A ajuda como carreira e a moral dos salários No discurso oficial, ninguém é “bem pago”. É “remunerado de forma competitiva” para atrair talento. A linguagem, como sempre, faz a anestesia. Um diretor executivo de grande ONG pode receber valores próximos dos de gestores seniores no sector privado. Coordenadores de país, especialistas de segurança, responsáveis financeiros, gestores de projeto — muitos vivem num patamar salarial muito acima do contexto em que operam, com casa assegurada, motorista (em certos lugares), seguros, voos periódicos. Quem já esteve no terreno sabe que alguns desses benefícios são defensáveis: não é luxo, é sobrevivência operacional. A linha entre “necessário” e “confortável”, porém, é uma linha que se move sempre na direção conveniente. O argumento habitual é simples: “Se queremos competência, temos de pagar.” Certo. Só que o resultado concreto é este: cria-se uma classe profissional internacional que vive da pobreza como tema — sem, na prática, viver na pobreza como condição. Isto não implica falta de ética individual. Implica uma contradição estrutural. O humanitário veterano que fez o comentário do buffet não parecia invejoso. Parecia, isso sim, alguém que percebeu o que custa a justificar a si próprio, todos os anos, a mesma engrenagem. Há um tipo de fadiga moral que não se resolve com boas intenções. Resolve-se com desenho institucional. E, muitas vezes, ninguém quer mexer no desenho. Genebra como mercado — e a conferência como mecanismo de pertença A conferência não é apenas conferência. É mercado. Não um mercado de produtos, mas de pertenças: “Quem está dentro?”, “Quem é credível?”, “Quem pode ser parceiro?”, “Quem tem acesso ao doador?”, “Quem tem ‘capacidade de absorção’?”, “Quem é seguro para financiar?”. Numa área onde o risco reputacional pode destruir uma organização, o capital mais valioso é confiança entre pares — e essa confiança constrói-se, em larga medida, por presença. Genebra, por isso, não é um lugar. É uma forma de funcionar: encontros, painéis, documentos finais, fotografias, declarações, networking. E um detalhe quase cómico: muitas vezes, as pessoas que falam de “dar voz aos locais” são as mesmas que voam para falar sobre isso numa cidade onde o bilhete de comboio para a periferia já é caro para a vida real. As conferências cumprem funções legítimas: coordenam, estabelecem padrões, evitam duplicações, trocam práticas. O problema é quando o custo do ritual cresce até se tornar indecente — e quando a conferência serve mais a rede do que os destinatários do trabalho. E isso não se mede só em dinheiro. Mede-se em tempo. Tempo em que um gestor está em hotel e não está a ouvir uma comunidade. Tempo em que uma organização escreve um documento brilhante e não faz a pergunta óbvia: “Isto vai funcionar quando nós formos embora?” A ajuda, muitas vezes, vive de um paradoxo: o ato de “organizar para ajudar” consome uma parte significativa do que se pretende entregar. O projeto “bem desenhado” que nasce errado Há um tipo de falhanço que não é escândalo. É normalidade. Um projeto chega com nome optimista: “Resiliência alimentar” ou “Capacitação comunitária”. Tem orçamento grande o suficiente para dar confiança. Tem matriz lógica, teoria da mudança, indicadores. Tem tudo o que um doador quer ler. E, ainda assim, nasce errado — porque nasce no lugar errado. O desenho faz-se numa capital, numa sede regional, ou num escritório europeu, com gente competente, sim, mas distante. Visitas curtas, mediadas, uma tradução apressada, uma reunião com líderes locais que já aprenderam o que dizer para garantir continuidade de apoios. As prioridades do documento não são o que a comunidade precisa; são o que a cadeia institucional consegue financiar, justificar e medir. Depois vêm os “inputs”: sementes melhoradas, kits, formações, armazéns, cooperativas. A lista é familiar e, por isso, tranquilizadora. E é exatamente essa familiaridade que é perigosa: repete-se o que já foi aprovado antes, porque já tem prova burocrática de sucesso, mesmo quando o sucesso no papel não coincide com a vida. Dois anos depois, chega uma avaliação externa. A linguagem é prudente, eufemística: “impacto limitado”, “desafios de implementação”, “lições aprendidas”. E a vida continua. A organização não fecha. O doador financia outro ciclo. O responsável é promovido, deslocado, reatribuído. Não há maldade aqui. Há incentivos. O sector aprende depressa o que recompensa: gastar o orçamento dentro do prazo, produzir relatórios consistentes, não causar problemas ao doador, manter reputação, garantir renovação. O impacto real, quando existe, é bem-vindo. Quando não existe, é interpretado como “contexto”. E o contexto é sempre uma explicação disponível. Métricas: contar coisas em vez de mudar coisas A ajuda ama métricas porque precisa delas para existir. Sem números, o dinheiro fecha. Sem números, não há prestação de contas. O problema é que a métrica, quase sempre, mede o que é fácil e não o que é vital. Construíram-se cem poços. Óptimo. Mas quantos funcionam passados seis meses? Quantos funcionam passados três anos? Quem paga as peças? Quem sabe reparar? Quem responde quando o poço avaria no dia em que a ONG já saiu? Construíram-se escolas. Óptimo. E professores? Salários? Manutenção? Água? Manuais? Segurança? A escola é um edifício; a educação é um sistema. O sistema é difícil. O edifício é fotografável. O mesmo com clínicas, formações, “centros de mulheres”, “espaços seguros”, incubadoras de micro-negócios: sai bem numa brochura, sai bem num PowerPoint, sai bem num press release. E, no entanto, a realidade é menos elegante: sem instituições locais fortalecidas, o projeto vira ruína funcional. O sector não é estúpido. O sector é pressionado. E, quando a pressão é por resultados reportáveis, o trabalho adapta-se. O que se chama “accountability” vira, muitas vezes, “contabilidade”. A economia paralela da ajuda: um efeito colateral com cara de progresso Em certas capitais africanas, há dois mundos sobrepostos. O mundo local, com salários locais, preços locais, fragilidade local. E o mundo da ajuda, com viaturas, residências “seguras”, restaurantes que vendem vinho importado, escolas internacionais para filhos de expatriados, ginásios, e uma lógica de consumo que não é crime — mas é distorção. Os preços sobem onde a ajuda se concentra. As rendas disparam. Proprietários preferem alugar a quem paga em moeda forte. A classe média local, que já era estreita, fica encostada à parede. Depois há o mercado de trabalho: motoristas, tradutores, seguranças, assistentes administrativos, técnicos — muitos ganham mais em ONGs do que em serviços públicos. Resultado previsível: a ajuda drena talento do Estado. Enfermeiros saem de hospitais para clínicas financiadas por projectos. Professores deixam escolas para “programas” que pagam melhor. O Estado enfraquece, e a ajuda cresce para “compensar” o enfraquecimento. É um círculo estranho: a ajuda, em certos lugares, não substitui o Estado — mas convive com um Estado frágil e, por vezes, contribui para mantê-lo frágil, porque oferece alternativas que não consolidam o centro. Quando o financiamento muda, quando a “atenção internacional” migra para outra crise, quando o projeto acaba, a economia paralela desaba. E quem dependia dela fica sem chão — e com expectativas salariais que o mercado local não consegue absorver. É assim que se fabrica dependência sem querer. A pergunta indecente: e se dessem dinheiro às pessoas? Há uma pergunta que soa vulgar nas salas certas: por que não transferir dinheiro diretamente? Quando se coloca esta hipótese, há sempre uma reação quase automática, como se se estivesse a propor irresponsabilidade: “E a corrupção?”, “E o álcool?”, “E a má gestão?”, “E se gastarem mal?” O detalhe perturbador é que, em muitos casos, as pessoas pobres gastam melhor do que as organizações imaginam — porque têm o que a estrutura não tem: conhecimento íntimo do que falta. E, sobretudo, porque ninguém precisa de ser educado para querer sobreviver. Há experiências conhecidas de transferências diretas, com resultados geralmente positivos em termos de alimentação, saúde, investimento pequeno, escolaridade. Não é milagre. É, muitas vezes, apenas eficiência: menos intermediários, menos custos, menos teatro. Mas a transferência direta ameaça uma coisa que a ajuda institucional não quer perder: protagonismo. Quando o dinheiro vai direto, a organização perde centralidade. O consultor perde o papel de “desenhar” a solução. A conferência perde argumento. O relatório perde grandiosidade. E, então, constrói-se uma resistência sofisticada: aponta-se o risco (real) e ignora-se o desperdício já normalizado do modelo atual. Isto não significa que transferir dinheiro seja sempre a melhor opção. Em muitos contextos, não é. Há guerra, há colapso de mercado, há captura armada, há lugares onde dinheiro vira alvo. Há infra-estruturas que precisam de ser construídas. Há sistemas de saúde que não nascem só com transferências. O que significa é outra coisa: o sector devia fazer esta pergunta com frequência — e não faz, porque a resposta mexe na sua própria razão de existir. O peso moral: gente boa dentro de um mecanismo errado O trabalhador humanitário cansado não é vilão. E a maioria das pessoas na “indústria” não são vilões. O que existe é uma tensão interior, quase sempre silenciosa: perceber que o sistema é ineficiente, por vezes auto-serviçal, e continuar lá dentro porque abandonar parece pior. É assim que a boa consciência ganha forma de rotina. A rotina tem um preço. Não financeiro: moral. A pessoa repete, durante anos, um tipo de ficção funcional: “Estamos a fazer o melhor possível”, “O contexto é difícil”, “Sem nós seria pior”, “Aprendemos com os erros”. E, ao mesmo tempo, vê repetirem-se os mesmos erros com nomes diferentes. Esse atrito produz um cinismo específico — um cinismo cansado, não agressivo. É o cinismo de quem já viu demasiado para acreditar nos slogans, mas ainda acredita o suficiente para não sair. O sector, por isso, tem uma peculiaridade cruel: atrai idealistas e, com o tempo, especializa-os em sobreviver dentro da máquina. Reforma: sempre prometida, raramente feita De tempos a tempos, a indústria anuncia reforma. Há acordos com nomes que parecem optimistas. Há compromissos de “localização” — financiar mais diretamente atores locais, transferir poder decisório. Há linguagem nova. Há um conjunto de metas que, no papel, mudariam o sistema. O problema é que a reforma real exige abdicação. E abdicar não é um gesto comum em sistemas de carreira. A organização internacional tem receio de perder controlo e ser responsabilizada por falhas de um parceiro local. O doador tem receio de escândalos e prefere “marca conhecida”. O parceiro local, quando recebe o papel de implementador, continua sem receber a chave da decisão. E o ciclo mantém-se. A reforma falha não por conspiração, mas por inércia — e a inércia, quando está vestida de boas intenções, torna-se quase impossível de derrotar, porque qualquer crítica parece crueldade. Criticar a ajuda, no Ocidente, é sempre arriscado: parece que se está a atacar quem tenta fazer o bem. E isso é precisamente o escudo perfeito de qualquer indústria que vive do bem. Voltar ao hotel: o lugar onde se aprende a não dizer certas coisas A conferência acabou como acabam quase todas: uma “declaração final”, frases sobre compromisso, parcerias, urgência, esperança. Fotografias. Sorrisos profissionais. Um último café. O trabalhador humanitário não disse a frase do buffet ao microfone. E fez bem, do ponto de vista da sua sobrevivência. Em certos sistemas, a verdade é permitida apenas em conversa privada, como uma confissão. Publicamente, a verdade vira deslealdade. E é aqui que a indústria da boa consciência se revela por completo: não é apenas o dinheiro; é a disciplina interna. Uma disciplina suave, social. Um conjunto de limites sobre o que se pode dizer sem ser considerado “problemático”. A pergunta final não é “a ajuda é boa ou má?” — essa pergunta é infantil. A pergunta adulta é: a ajuda, tal como está desenhada, serve quem diz servir, ou serve sobretudo a sua própria continuidade? Talvez a resposta seja desconfortável porque pode ser “ambas”. Serve em momentos. Salva vidas em emergências reais. Sustém sistemas quando tudo colapsa. Mas, ao mesmo tempo, perpetua-se como indústria, com os seus rituais, as suas hierarquias, e uma tendência natural para converter sofrimento em carreira. A boa consciência, quando vira indústria, faz o que todas as indústrias fazem: expande-se. E, no fim, Genebra continua a ser o melhor símbolo desta contradição: um lugar onde se fala da pobreza extrema com salmão fumado ao alcance da mão — e onde a frase mais verdadeira é sempre dita ao lado, em voz baixa, como se fosse indecente. Autor: Atlantic Lisbon A Indústria da Boa Consciência — Capa editorial Subscrever a Newsletter #AjudaInternacional #Caridade #Economia #Desenvolvimento #ONU #ONG #Pobreza #Genebra #PolíticasPúblicas
- Autocensura Democrática: o Silêncio Sem Decreto
Em Fevereiro de 2003, no exato momento em que os Estados Unidos se preparavam para a invasão do Iraque, a MSNBC cancelou Donahue, o programa de Phil Donahue. Não foi um processo judicial. Não houve sentença, nem um polícia à porta do estúdio. Houve, isso sim, uma decisão empresarial num ambiente em que a dissidência antiguerra era vista como risco: risco de reputação, risco de audiência, risco de ser “o canal errado” quando a maré patriótica subia. O episódio tem valor porque é banal no seu mecanismo. Ninguém proibiu Donahue de falar. O sistema apenas tornou mais caro deixá-lo falar ali, àquela hora, com aquela montra. A democracia, quando começa a produzir silêncio, quase nunca o faz com as ferramentas clássicas da censura. Faz com ferramentas modernas: incentivos, desconforto, cálculo, medo de perder — dinheiro, pertença, futuro. Poucas semanas depois, a mesma anatomia repetiu-se noutro palco. Em Março de 2003, as Dixie Chicks disseram, num concerto em Londres, que tinham vergonha de o presidente dos EUA ser do Texas. O que se seguiu — boicotes, cortes em rádios, ameaças e uma reeducação pública em tempo real — não precisou de lei. Precisou apenas de uma comunidade em estado de alerta e de intermediários (estações, patrocinadores, promotores) capazes de traduzir indignação em consequências. E houve ainda a caricatura perfeita, quase infantil, mas por isso mesmo instrutiva: a história das freedom fries. Num impulso simbólico contra a França, por esta se opor à guerra, “French fries” e “French toast” foram renomeadas em espaços ligados ao Congresso. Não era censura; era sinalização. Um modo de dizer, sem o dizer: há palavras e gestos que, neste clima, convém evitar. Estes três episódios não provam que a democracia seja, por natureza, inimiga da liberdade. Provam algo mais desconfortável: a democracia é perfeitamente capaz de fabricar autocensura — e, quando a fabrica bem, não deixa impressões digitais. Como se aprende a calar sem ordem explícita A autocensura não nasce, normalmente, de uma convicção repentina (“isto não pode ser dito”). Nasce de um raciocínio progressivo (“isto pode sair caro”). É um processo de aprendizagem, e o seu motor é a antecipação. Primeiro observa-se o ambiente: quem disse o quê, e o que lhe aconteceu. Depois calcula-se o risco: que custo tem uma frase, uma reportagem, um post, uma piada, uma aula? E por fim ajusta-se o comportamento: troca-se uma palavra por outra, corta-se um parágrafo, escolhe-se um ângulo “mais neutro”, adia-se, engaveta-se. O silêncio, aqui, não aparece como capitulação moral. Aparece como prudência. E a prudência, quando se torna hábito, passa a parecer virtude. Há uma diferença crucial entre censura e autocensura: a censura tem um autor claro. A autocensura tem um clima. E contra um clima não se apresenta queixa. Um clima não assina ofícios. Um clima não responde a perguntas. Um clima só se sente — e, por isso, governa melhor do que um censor. Três pressões, todas legais, todas eficazes Pressão económica. As instituições onde se fala — jornais, televisões, editoras, universidades, fundações, galerias — vivem de dinheiro: assinaturas, publicidade, patrocínios, doações, parcerias. Não é preciso que um financiador telefone a ordenar. Basta que a organização aprenda, uma vez, que certo assunto “dá problemas”. O resto faz-se sozinho. E isto é particularmente perigoso porque se apresenta como racionalidade de gestão. Não se diz: “não publiquem”. Diz-se: “não arrisquem”. Não se diz: “isto é proibido”. Diz-se: “isto não compensa”. Pressão social. O medo de perder o emprego é real. Mas o medo de perder o lugar no grupo é, muitas vezes, mais imediato. Em ambientes polarizados, a discordância deixa de ser apenas discordância: passa a ser suspeita moral. E quando a suspeita moral entra na sala, a conversa muda de tom. O que acontece então não é um debate mais rigoroso. É um debate mais defensivo. As pessoas começam a falar para não serem mal-interpretadas — e, nesse gesto, a linguagem perde precisão, coragem e até humor. Passa a ser uma linguagem de prevenção. Pressão algorítmica. Aqui está a novidade dos nossos dias. As plataformas não precisam de proibir. Basta reduzirem visibilidade, desmonetizarem, atrasarem distribuição, aplicarem rótulos, tornarem “menos recomendado”. E fazem-no com regras opacas, aplicadas de modo irregular, com recurso a automatismos e à prudência comercial. O resultado é um incentivo direto à autocensura: se não sei onde está a linha, fico longe dela. E, ficando longe, não erro — mas também não digo nada de importante. O problema não é “quem manda”; é “quanto custa” Quando uma democracia começa a produzir autocensura, é tentador procurar um vilão único: o magnata, o partido, o dono do jornal, a plataforma, o “ativismo”, o “cancelamento”. Às vezes há vilões. Muitas vezes há apenas um mercado do medo: muita gente a tentar não perder. É por isso que a autocensura é tão resistente. Não depende de um tirano. Depende de uma soma de pequenas decisões individuais, cada uma defensável, cada uma compreensível, cada uma “sensata”. E, no entanto, a soma dessas sensatezes pode empobrecer o espaço público com a mesma eficácia que uma lei malvada. O espaço público não encolhe num dia. Encolhe como encolhe uma fotografia ao sol: quase não se nota, até se notar. Um teste simples Há um teste que ajuda a medir a autocensura sem recorrer a estatísticas: pergunte-se o que mudou na forma como se escreve. Não “o que mudou na lei”. O que mudou na frase. Quando se começa a escrever para evitar reacções, o texto muda. Perde arestas. Prefere o “talvez” ao “é”. Encosta-se a fórmulas. Evita nomes próprios. Troca afirmações por “debates”. E, a certa altura, já nem se percebe quando começou. Porque o escritor passa a acreditar que sempre escreveu assim. A autocensura, quando vence, faz-se passar por estilo. O que estes exemplos realmente dizem O cancelamento de Donahue, o castigo público às Dixie Chicks, a febre ridícula das freedom fries não são curiosidades históricas do início dos anos 2000. São uma lição estrutural: em tempos de choque, medo ou guerra, as democracias podem tornar-se ansiosas — e a ansiedade procura culpados, exige uniformidade, trata a dúvida como fraqueza. Não é preciso ditadura para isto acontecer. Basta um consenso inflamável e intermediários com capacidade de transformar indignação em penalização: uma direção, uma estação, um patrocinador, uma plataforma, uma multidão online. E depois? Depois o resto é psicologia humana. Se eu vi o que aconteceu ao outro, eu aprendo. Se aprendo, eu ajusto. Se ajusto, eu sobrevivo. E, se sobrevivo, eu racionalizo: “foi melhor assim”. A tragédia da autocensura não é a perda de uma frase. É a normalização do silêncio como forma de virtude cívica. Porque uma sociedade que fala apenas do que é seguro pode continuar a chamar-se livre — mas já começou a comportar-se como se não fosse. Autor: João da Praça Imagem original criada para o Atlantic Lisbon (João da Praça / Atlantic Lisbon). Sem utilização de imagem de terceiros. Autocensura: o silêncio sem ordem — Atlantic Lisbon #AtlanticLisbon #JoãoDaPraça #Autocensura #LiberdadeDeExpressão #LiberdadeDeImprensa #Jornalismo #Democracia #Opinião #CulturaPolítica #Media #Algoritmos #RedesSociais #PressãoSocial #McCarthyismo #EspaçoPúblico #albertocarvalho.com
- A Conta do Petróleo
Há frases que, por si só, revelam um modelo de poder. Não precisam de decreto, nem de papel timbrado. Basta a forma como alguém escolhe o pronome. O petróleo venezuelano transformado em instrumento de poder pessoal — e o custo estratégico de governar por transação. O petróleo como cofre e a confusão entre o Estado e o Presidente. Quando um Presidente americano escreve que o dinheiro “será controlado por mim”, não está apenas a prometer eficácia. Está a deslocar o centro de gravidade do Estado para a sua pessoa. Está a sugerir — mesmo que não o diga assim — que a soberania pode ter conta bancária com assinatura única. E quando essa frase aparece ligada ao petróleo de um país estrangeiro, a questão deixa de ser apenas geopolítica. Passa a ser também moral. E, num regime constitucional, passa a ser inevitavelmente institucional. Nos últimos dias, a Venezuela voltou ao centro do mapa americano por uma via que, à primeira vista, parece “dura”: uma operação que retira do tabuleiro a figura máxima do regime e, logo a seguir, a exibição musculada de que as sanções “valem” no mar — com apreensões, bandeiras, navios e fotografias de prova. Mas, quase ao mesmo tempo, a mesma administração anuncia outra coisa: a intenção de vender petróleo venezuelano e administrar o produto dessa venda sob controlo presidencial. Não é apenas uma contradição. É um sinal de que há duas narrativas a correr em paralelo — e que uma delas é mais antiga, mais instintiva e mais perigosa: a narrativa do petróleo como espólio. A sanção, na sua forma clássica, serve para criar escassez e produzir pressão. Um embargo quer apertar. Quer fazer doer. Quer reduzir a margem de sobrevivência de um regime que depende do fluxo de receita. O problema é que, quando se abre uma “válvula” — quando se transforma crude retido em receita desbloqueada — a pressão muda de natureza. Pode manter-se, pode até ficar mais sofisticada, mas deixa de ser linear. Passa a ser condicional. E, em política internacional, a condicional é sempre tentadora: “se fizerem isto, deixamos vender; se fizerem aquilo, deixamos importar; se cooperarem, a máquina não colapsa”. Isto pode parecer racional. Pode até ser apresentado como “pragmatismo”. Só que há um custo invisível: ao transformar o petróleo no mecanismo central de negociação, o objetivo político tende a afunilar-se. Em vez de democracia, instituições, transição e garantias, fica a pergunta curta: “quanto crude entra e quem controla a torneira?”. E é aqui que entra o lado mais corrosivo da frase do “controlado por mim”. Porque a questão do controlo não é apenas venezuelana. É americana. Uma coisa é um Estado gerir fundos, com regras, auditorias, escrutínio e limites claros. Outra coisa — e politicamente muito diferente — é um Presidente apresentar esses fundos como se fossem extensão do seu poder direto, com a elasticidade própria de uma decisão pessoal. Mesmo que haja mecanismos formais no bastidor, a mensagem pública é esta: a política externa pode ter cofre privado. Essa mensagem funciona sempre em duas direções. Para dentro, vende autoridade: “eu resolvo”. Para fora, envia uma instrução tácita aos regimes e aos intermediários: “não negociem com instituições; procurem o homem”. Ora, o petróleo é um terreno especialmente fértil para esse vício porque tem a linguagem perfeita para a ilusão de controlo. Barris. Preço. Navios. “Vender ao valor de mercado”. Tudo parece contabilidade. Tudo parece técnico. Mas, no fundo, trata-se de soberania e de legitimidade — e isso nunca é apenas técnico. Depois há a parte que a política costuma fingir que não existe: o tempo. A indústria petrolífera não vive em ciclos eleitorais. Vive em ciclos de investimento que atravessam governos e, por vezes, atravessam regimes. Um campo não se reabilita com conferência de imprensa. Infraestruturas não se “reabrem” com entusiasmo. Poços degradados, refinarias envelhecidas, cadeias logísticas corroídas por anos de sanções e má gestão — tudo isso exige capital paciente, contratos fiáveis, segurança jurídica, e uma expectativa mínima de continuidade. É por isso que a ideia de “trazer empresas americanas de volta” pode soar bem em Washington e soar irrealista no mundo empresarial. Não porque falte apetite por petróleo. Mas porque falta o que o petróleo, por si só, não compra: previsibilidade. E quando a previsibilidade não existe, o capital escolhe outras geografias. Não por ideologia, mas por instinto de sobrevivência. Há sempre alternativas: bacias mais estáveis, jurisdições mais previsíveis, projetos menos expostos a reviravoltas políticas. A Venezuela pode ter reservas imensas; isso não resolve, por magia, o problema que conta mais para quem assina cheques: “daqui a quinze anos, isto ainda é meu?”. Este ponto é decisivo, porque desmonta uma fantasia recorrente na política de choque: a fantasia de que basta “mandar” para que o investimento aconteça. Pode coagir-se uma empresa a fazer um movimento tático; é muito mais difícil forçá-la a acreditar numa estratégia de décadas. E depois há o risco final, o mais irónico: a pressão que se pretende exercer sobre Caracas pode acabar por salvar o sistema que se diz querer transformar. Quando há crude acumulado e capacidade de armazenamento no limite, o regime não enfrenta apenas uma crise financeira; enfrenta uma crise operacional. A máquina para. A manutenção falha. A produção degrada-se. A receita evapora-se, e com ela evapora-se a capacidade de comprar lealdades e manter a estrutura em pé. Se, nesse momento, surge uma solução que esvazia a pressão — mesmo temporariamente —, o regime ganha oxigénio. Talvez não ganhe legitimidade, mas ganha tempo. E tempo, em política autoritária, é muitas vezes a moeda mais valiosa. É por isso que o critério de sucesso não pode ser “quantos barris circulam”. Barris medem fluxo. Não medem futuro. A medida séria — a única que resiste ao tempo — é outra: a Venezuela emerge, ou não, como um país com instituições minimamente funcionais, regras minimamente críveis, e uma arquitetura política que não dependa de um homem, de um medo e de uma renda. Se a resposta for não, então o petróleo terá servido apenas para uma coisa: para financiar uma transição inconclusa e alimentar a perceção externa de que, no fim, era sempre sobre petróleo. E essa perceção tem consequências. Porque o mundo observa. E quando o mundo aprende que a forma de obter “apoio” americano é oferecer ativos — sobretudo ativos energéticos —, os Estados mais cínicos ajustam o comportamento. Não se aproximam por convergência. Aproximam-se por transação. É aqui que a frase inicial volta, como boomerang institucional. “Controlado por mim” não é apenas bravata. É um estilo de governação que, quando aplicado à política externa, transforma o interesse nacional numa propriedade temporária — e, ao fazê-lo, fragiliza exatamente aquilo que os Estados Unidos dizem querer exportar: a ideia de que o poder tem limites e de que a lei é superior ao homem. O petróleo pode comprar muitas coisas. Pode comprar tempo. Pode comprar alianças táticas. Pode comprar silêncio. Às vezes compra até uma aparência de vitória. O que não compra — nunca comprou — é legitimidade duradoura. E, no fim, é isso que decide se uma intervenção cria um aliado ou apenas fabrica um devedor: não o barril, mas a regra. Não a captura do recurso, mas a construção do Estado. Não a conta do petróleo, mas a arquitetura do país que há de viver depois da urgência. Subscreva a Newsletter #AtlanticLisbon #AlbertoCarvalho #Venezuela #Petróleo #Geopolítica #PolíticaInternacional #Energia #Sanções #EUA #Trump #AméricaLatina #Poder
- A Metáfora Vigiada
Há regimes que não precisam de gritar para serem ouvidos. Basta-lhes ensinar uma população a vigiar as próprias palavras, a medir comparações inocentes, a desconfiar de imagens demasiado livres. Num dos episódios mais reveladores deste relato, um homem olha o fim da tarde e solta uma metáfora banal — o sol parece um ovo estrelado. Em qualquer lugar do mundo isso morreria ali, como morrem as frases ditas só para preencher o silêncio. Aqui, porém, a comparação torna-se prova; a prova, acusação; a acusação, obrigação de escrever meses de autocríticas. O delito não está na intenção, está na liberdade de ter uma imagem. Esse mecanismo — transformar o espontâneo em indício — reaparece em sítios onde ninguém esperaria encontrá-lo: na cantina, na cozinha, na categoria de um vale de refeição, no cartaz colado a uma parede. É uma política do detalhe. Não manda apenas no que se faz; manda no modo como se pensa, no modo como se descreve o mundo, no modo como se escolhe uma palavra em vez de outra. Num edifício de Pequim destinado a acolher “chineses de além-mar”, um casal chega com zelo moral e fé política. O Estado oferece alojamento e refeições, e ainda um subsídio diário para despesas. O casal recusa esse dinheiro. A recusa não é pobreza: é uma tentativa de pureza, uma vontade de provar que vieram para servir uma ideia e não para usufruir de privilégios. E vão mais longe — pedem para descer de “categoria” nos vales de refeição, como quem pede para descer de lugar numa hierarquia, por humildade. A humilhação, aqui, não é uma cena dramática; é uma textura. A diferença entre a categoria alta e a baixa não se mede por discursos, mede-se por pratos. Os legumes mantêm-se; a carne é que denuncia a desigualdade. A virtude, no prato, pode ter o sabor gorduroso e triste de vísceras que ficam na memória como castigo. E o mais estranho é isto: a burocracia aceita a auto-penitência com facilidade. Um sistema que vive de categorias agradece sempre a quem se rebaixa voluntariamente. No mesmo edifício, a cozinha — lugar supostamente imune à política — torna-se palco de acusações. Um cozinheiro é denunciado como “espião” por ter trabalhado num serviço internacional, e um cartaz agressivo cola-lhe uma identidade que não é a sua. Mais tarde, a denúncia cai por falta de prova, e a instituição recupera o homem, porque precisa dele. A lógica é brutalmente prática: a luta ideológica pode entrar no fogão, mas a fome exige competência. Há, no relato, uma figura que atravessa esta paisagem com uma espécie de insistência silenciosa: a mulher que varre o pátio sem levantar os olhos, em ambientes carregados de cartazes e medo. A cena repete-se com pequenas variações, como um motivo musical. Não é um símbolo escolhido; é uma imagem que o próprio texto deixa ficar, sem sublinhado, como se dissesse: o poder gosta de pessoas que não olham para cima. Esta China de cartazes, categorias e autocríticas não anula outra China — a das amizades, dos livros, dos objetos que sobrevivem por acaso e, por isso mesmo, parecem mais verdadeiros do que as narrativas oficiais. O relato passa por um vaso de porcelana: peça que deveria ser presente diplomático, com uma inscrição sobre amizade sino-japonesa. Mas é um vaso “defeituoso”, guardado fora do circuito, salvo precisamente pela imperfeição. Um objecto destinado à vitrine do Estado acaba por viver como relíquia privada, como se a beleza só pudesse existir sem carimbo. Nessa mesma linha, surgem livros e feiras. Num parque de Pequim, uma feira de inverno onde se compram volumes antigos; numa estante, um ensaio de crítica literária; noutro lugar, já longe, numa universidade americana, uma enciclopédia que conserva assinaturas e títulos como quem conserva ossos. O que impressiona não é a erudição em si. É o modo como estas vidas se ligam por coisas pequenas: uma dedicatória, um endereço anotado num caderno, um manuscrito meticuloso, um objeto guardado durante décadas num canto de arrumo. O relato insiste numa ideia discreta: a História também se faz do que sobra. Do que ficou fora do desfile. Do que não foi suficientemente “puro” para ser propaganda — e, por isso, escapou à destruição e à instrumentalização. Há um caderno de notas de um escritor, fino e frágil, com contatos de gente que atravessou o século como se atravessa uma rua perigosa. Nomes, moradas, telefonemas. A intimidade da vida intelectual reduzida a linhas de agenda. E, no entanto, esse caderno é mais revelador do que muitos discursos: mostra redes humanas, dependências, generosidades, pequenas heranças. Mostra que uma cultura não se sustenta apenas em ideias, sustenta-se em pessoas que se lembram umas das outras — e em objectos que passam de mão em mão como se fossem o último fio de ligação. De súbito, o texto abre uma janela para outra geografia: as montanhas do Colorado, uma estrada antiga de tábuas degradadas, restos de uma obra feita por trabalhadores chineses num tempo de febre e deslocação. A imagem funciona como contrapeso: fora da China, a presença chinesa aparece como rastro físico e silencioso; dentro da China, a presença individual pode ser esmagada até não sobrar rastro nenhum. E é então que o relato, sem pedir licença, entra no mundo militar — não com glorificação, mas com memória áspera. Um veterano do sul, marcado por combates, descreve uma batalha em Kunlun com uma precisão que não parece literatura: dias e noites, perdas vastas, sobreviventes contados nos dedos, combate corpo a corpo que ainda hoje arrepia só de ser descrito. Há uma fossa comum. Há visitas posteriores a esse lugar, como quem visita um pedaço de si próprio enterrado com os outros. Depois da guerra, esse homem entra numa zona ainda mais opaca: a proximidade de um líder, a vida de guarda, a travessia de um centro de poder onde quase ninguém entra. O que surpreende é a palavra que o relato lhe atribui para descrever aqueles anos: tranquilidade. Tranquilidade dentro de um núcleo de Estado. A contradição não se resolve; fica a pairar. Talvez seja essa a natureza do poder: pode ser inferno para os de fora e rotina para os de dentro. Há uma fotografia que existe e, ao mesmo tempo, não existe: uma imagem tirada num dos lugares mais exclusivos de Pequim, perdida antes de cumprir o seu destino de prova familiar. A ausência pesa. Porque, quando a memória não tem imagem, fica sempre vulnerável — fácil de negar, fácil de apagar, fácil de reduzir a “história contada”. E, no fim, surge uma cena que poderia ser banal, mas aqui funciona como síntese: um barco num lago público avança até ao ponto em que tem de virar. Não há tempestade. Não há sinal ostensivo. Não há explicação. Há apenas um limite invisível — e a obrigação de regressar. O relato parece dizer-nos que este é o verdadeiro idioma do poder: não é o grito, é o contorno. O cidadão aprende a virar antes da linha, aprende a calar antes da metáfora, aprende a aceitar a categoria, aprende a baixar os olhos quando o cartaz aparece. Só depois de atravessar estes corredores — cantinas, cartazes, cadernos, batalhas, fotografias perdidas, barcos que recuam — o texto regressa a uma outra origem: um homem envelhecido no sul, com um mandarim impecável que o torna estranho onde vive. A infância dele foi uma queda prematura na engrenagem institucional: orfandade, abrigo, tentativa de fuga, castigo desmedido, algemas numa criança. E, dentro desse cenário, uma janela com treino noturno, como se a disciplina pudesse ser, ao mesmo tempo, salvação e instrumento de controlo — depende de quem a oferece e com que intenção. Esse homem transforma o treino em vida, vence competições, forma campeões, tenta dar à sociedade um projeto de artes marciais que é também projeto de dignidade. Depois, volta a ser esmagado pela suspeita política e é deslocado, reduzido, empurrado para um cargo menor. O ciclo repete-se: ascensão por mérito, queda por etiqueta, sobrevivência por silêncio. Na casa dele, ficam armas guardadas como se fossem simples objetos domésticos. Crianças brincam com elas sem perceber. O texto não romantiza: mostra. E, ao mostrar, obriga a ver o que custa mais ver — que, num país assim, a biografia não se escreve apenas com grandes datas. Escreve-se com pequenas humilhações, com categorias de refeição, com cartazes na parede, com metáforas punidas, com um barco que vira quando a água, na verdade, ainda continua. Se há uma “coluna” neste relato, ela não é uma sequência fixa de episódios. É um princípio: o poder entra pela vida quotidiana, instala-se no detalhe e, quando damos por ele, já estamos a virar para trás sem saber exatamente em que momento aprendemos a fazê-lo. Autor: Atlantic Lisbon Crédito: Atlantic Lisbon / albertocarvalho.com (imagem original) A Metáfora Vigiada — Atlantic Lisbon #AtlanticLisbon #China #Pequim #Memoria #Poder #Censura #RevolucaoCultural #Historia
- A Religião do PIB
Há um momento, banal e decisivo, na vida de um quadro local na China: o instante em que a carreira se torna uma folha. Não é uma metáfora, é mesmo uma folha — uma grelha de avaliação, uma coluna de metas, um número que sobe ou desce, e ao lado a palavra que ninguém pronuncia em público como se pronuncia no íntimo: futuro. Quando o crescimento se torna critério de carreira, a estatística passa a governar. Crédito: Imagem original (Atlantic Lisbon) China: o PIB como critério de poder Na superfície, é administração. Um ritual moderno, com tabelas e carimbos. Por baixo, é sobrevivência. O crescimento, durante décadas, foi mais do que um objetivo. Foi uma linguagem de legitimidade. Quando a política perde o conforto de se justificar por ideologia, descobre a tentação de se justificar por estatística. A promessa não é justiça; é velocidade. Não é igualdade; é melhoria visível. Um país, dizem, não se governa com poesia. Governa-se com estradas, pontes, fábricas, luzes acesas à noite. E, em boa medida, foi isso que aconteceu. Mas o preço de transformar um número em critério moral costuma ser pago em moeda impura. A ciência política e a economia, com a sua frieza útil, deram nome àquilo que muitos observavam sem conseguir fixar: um “torneio” de promoções, onde os responsáveis provinciais competem entre si e os vencedores sobem. Há trabalhos clássicos que encontraram relação entre desempenho económico e promoções/saídas de líderes provinciais no período pós-reforma, sugerindo que o controlo de pessoal funciona como incentivo. Se isto for verdade — e tudo indica que foi, pelo menos como tendência — então uma parte do “milagre” chinês não nasceu de virtude coletiva, mas de um desenho de incentivos: fazer do crescimento um currículo. O problema é que, quando um sistema coloca a salvação num número, começa a produzir comportamentos que protegem o número. Nem todos são criminosos. Nem todos são corruptos. Mas quase todos se tornam previsíveis: preferem o que é mensurável ao que é necessário; preferem a obra que inaugura ao serviço que mantém; preferem o investimento que aparece no relatório ao cuidado que não cabe numa coluna. O Estado passa a ter uma fé. E a fé exige sacrifícios. Durante algum tempo, a liturgia do PIB parecia perfeita. O país crescia, a pobreza recuava, as cidades subiam como se o betão fosse uma estação do ano. O centro via números; os territórios viam oportunidades. E, numa administração hierárquica, um território que promete números promete lealdade. Não há instrumento mais dócil do que um quadro que sabe que a próxima etapa depende de bater uma meta. Isto ajuda a explicar uma característica da China contemporânea que, vista de fora, parece paradoxo: a combinação de uma máquina estatal forte com uma economia que, em momentos críticos, se comporta como uma corrida. A corrida não é uma metáfora estética. É um mecanismo. Quando o mecanismo é esse, a corrupção deixa de ser apenas um desvio moral individual. Passa a ser, muitas vezes, uma consequência lateral de um jogo em que o poder local controla acesso, licenças, terrenos, contratação pública, autorizações ambientais, fiscalização. Mesmo quando não há envelopes, há favores; mesmo quando não há suborno explícito, há “preço da previsibilidade”. O mercado deixa de ser um espaço neutro. Torna-se uma sucessão de portas. O centro não precisa de ordenar a corrupção para colher os seus efeitos. Basta desenhar um sistema em que a carreira depende do que se consegue mostrar. E aqui entra um segundo fenómeno, igualmente bem estudado, que completa a fotografia: quando as promoções e a reputação política se amarram a métricas como o PIB, cresce também a tentação da manipulação — não apenas por vaidade estatística, mas por sobrevivência competitiva. Há investigação recente dedicada precisamente ao problema da misreporting do PIB sob incentivos de carreira e competição entre líderes locais. Num regime onde “errar números” pode ser interpretado como “falhar politicamente”, o número ganha um estatuto quase litúrgico. E quando o número ganha esse estatuto, ele tende a produzir duas coisas: aceleração e cegueira. A aceleração é óbvia: mais investimento, mais obra, mais atividade. A cegueira é mais lenta: solos degradados, água envenenada, dívida empurrada, cidades onde o brilho não corresponde a vida, projetos que existem para o relatório e não para as pessoas. Há uma terceira consequência, mais humana: a ansiedade administrativa. Um quadro local pode ser, ao mesmo tempo, patriota, trabalhador, eficaz — e ainda assim viver refém de um modelo que o obriga a escolher sempre o que sobe o indicador. Um hospital novo aparece numa fotografia. Uma rede de cuidados continuados não aparece. Um parque industrial dá números. Um sistema de queixas e transparência dá problemas. Numa cultura política que valoriza estabilidade, há algo de ironicamente instável nesta dinâmica: a estabilidade passa a depender de manter o motor sempre em rotação. E quando o motor abranda, o pânico entra no edifício. Nos últimos anos, esse abrandamento tornou-se mais visível, sobretudo por causa do imobiliário e do financiamento local. As vendas de terrenos — um pilar das receitas de muitos governos locais — enfrentaram quedas e fragilidade, segundo dados oficiais reportados internacionalmente, com descidas em 2025 em vários recortes temporais. Isto é crucial para compreender a moral do crescimento. Quando um município ou uma província depende de receitas extraordinárias associadas a terrenos e construção, a tentação de continuar a produzir “atividade” não desaparece com a necessidade; intensifica-se com ela. A mesma lógica que premiava a obra, em época de expansão, pode premiar a obra, em época de aperto — agora não para crescer, mas para evitar colapso orçamental, desemprego e protestos. O indicador, nesse momento, já não é apenas ambição. É contenção do medo. É aqui que a corrupção, a distorção e a propaganda se tocam. Porque a propaganda precisa de resultados; e os resultados, muitas vezes, precisam de atalhos. E os atalhos criam beneficiários: empresas próximas, intermediários úteis, redes capazes de transformar autorização em lucro. A corrupção, vista assim, não é um acidente ocasional. É um risco estrutural que emerge quando o Estado é, simultaneamente, legislador, proprietário e juiz — e quando a carreira depende de resultados contáveis. A pergunta importante não é “há corrupção?”. A pergunta é “o sistema consegue não produzir?”. É nesse quadro que a famosa campanha anticorrupção do período de Xi Jinping deve ser lida: não como simples cruzada moral, mas como tentativa de disciplinar uma máquina que, por desenho, produz zonas cinzentas. A fórmula “tigers and flies” tornou-se o slogan público da promessa de limpeza, articulada a partir de 2013, com ecos internacionais imediatos. Mas a própria existência de uma campanha deste tamanho é, por si, um sinal: quando a corrupção se torna endémica, o poder tem duas escolhas — aceitar a decadência ou reorganizar a disciplina. O que não pode fazer é fingir que o problema é apenas carácter. Um sistema que concentra decisão e recompensa números cria, inevitavelmente, incentivos para transacionar decisão. A religião do PIB, porém, tem uma particularidade: ela substitui um debate político por uma competição administrativa. E, quando isso acontece, a sociedade civil passa a ser vista como ruído indesejado — não porque esteja errada, mas porque atrasa. Fiscalização atrasa. Transparência atrasa. Media livres atrasam. Tribunais independentes atrasam. Associações autónomas atrasam. Num regime que mede sucesso por velocidade, a liberdade é, quase sempre, um travão. Este é o ponto em que um olhar europeu tende a cair numa armadilha: imaginar que “crescimento” é um objetivo neutro e que as distorções são defeitos corrigíveis. Em sistemas onde há alternância e fiscalização forte, muitas vezes são. Em sistemas onde o poder é monolítico e a carreira depende de metas, as distorções são parte da engrenagem. O país pode enriquecer. E enriqueceu. Mas o mecanismo que enriquece pode também envenenar a política. Há um debate académico e empírico sobre o grau em que o “torneio” é incentivo puro, seleção, ou uma combinação dos dois — e sobre como varia por épocas e por níveis administrativos. Essa nuance é importante: a China não é um bloco único, e os incentivos mudam conforme o centro muda de prioridades (crescimento, estabilidade, tecnologia, segurança). Ainda assim, mesmo com nuances, a ideia central permanece operacional: quando a carreira depende de indicadores, o indicador governa. E quando o indicador governa, aparecem duas China ao mesmo tempo. A China da eficácia: linhas de comboio, fábricas, portos, tecnologia, capacidade de mobilização. E a China da tensão: dívida local, projetos vazios, desigualdade de oportunidades, ressentimento silencioso, ecossistemas degradados, e um Estado que, para controlar o efeito colateral, precisa de mais controlo. Se este ensaio tem uma ambição, é apenas esta: recusar a explicação moralista e fácil. Não se trata de dizer que “os chineses são assim” ou que “o Partido é naturalmente corrupto” como se fosse um traço cultural. Trata-se de olhar para o desenho do poder e para os seus incentivos, e aceitar que sistemas produzem comportamentos. O PIB, quando vira religião, não mede apenas produção. Mede obediência. E isso ajuda a compreender por que razão certas campanhas de “limpeza” acabam por reforçar o mesmo edifício que dizem purificar. O edifício depende da estatística como legitimidade; e depende do controlo como método; e depende da disciplina para manter o motor a funcionar. Quando um regime substitui a política por números, o futuro torna-se contabilidade. E a contabilidade, um dia, cobra. Subscreva a Newsletter #AtlanticLisbon #China #PCC #Economia #PIB #Poder #Corrupção #Política
- Explodem barcos, repatriam tripulações.
Port Everglades, 19 de novembro de 2025. O cutter Stone regressa do Pacífico e o convés vem preparado para a fotografia — não para o mar. Fardos empilhados, selados, alinhados como se fossem caixas de armazém com orgulho institucional. Port Everglades recebe 22 toneladas de cocaína como troféu público. Ao mesmo tempo, nas Caraíbas e no Pacífico, aviões militares destroem embarcações suspeitas e matam tripulações. Entre repatriações rápidas e mísseis sem julgamento, os EUA parecem operar dois sistemas para o mesmo crime — e ninguém explica a regra. O País Que Explode Barcos, Prende Tripulações e um Presidente ao Mesmo Tempo. Dizem “cinquenta mil libras”, porque a América gosta do número assim. Em quilos, isso dá cerca de 22 680 kg. Em toneladas, 22,7. A diferença não é pequena; só fica pequena quando a transformamos em espetáculo. Tulsi Gabbard está ali, Diretora da Inteligência Nacional, ao lado de Terry Cole (DEA) e de Gregory Kehoe, procurador federal de Tampa. Câmaras. Declarações curtas. Aquele tipo de frase que serve para o ecrã e não para a dúvida. A droga, no centro, cumpre o papel de sempre: prova visível de que “algo” está a ser feito. E, no entanto, o que não aparece na fotografia é o mais importante — porque não cabe no formato, porque perturba o plano, porque obriga a explicar demais. Durante a missão, a tripulação deteve 36 pessoas. Vinte e nove foram repatriadas para o Equador antes de o navio atracar. As restantes passaram para o Departamento de Justiça — para um interrogatório breve, para recolhas de elementos para uma acusação a um qualquer Presidente, para uma deportação rápida, para um destino que ninguém descreve com gosto. Há uma espécie de recato oficial quando se trata de pessoas. A droga, essa, mostra-se. Ao mesmo tempo — e isto é o que torna a semana impossível de contar sem desconforto — noutro ponto das mesmas rotas, sob a mesma lógica declarada de “guerra à droga”, aeronaves militares norte-americanas destruíram 22 barcos entre setembro e novembro. Morreram 83 pessoas. Não foram capturadas. Não foram interrogadas. Não foram julgadas. Foram, simplesmente, apagadas do mapa como se fossem parte do material. As mesmas águas, o mesmo alegado crime, duas respostas que não se tocam e, ainda assim, coexistem. O país que posa com fardos em Port Everglades é o mesmo país que dispara do céu sobre embarcações com gente a bordo. E ninguém parece sentir que deva justificar por que razão uns são tratados como suspeitos a encaminhar e outros como alvos a eliminar. Durante décadas, havia uma lógica fria mas reconhecível: captura, processo, acordo. A Guarda Costeira interceptava lanchas rápidas — os “go-fast boats”, que deixam de ser “go-fast” quando um helicóptero desce e alguém inutiliza motores. Depois vinha Tampa. Os procuradores federais recebiam os detidos e negociavam acordos: cooperação em troca de redução de pena. O sistema não era “humano”, mas era um sistema. Extraía informação. Mapas. Rotas. Coordenadas. Alimentava centros de inteligência. Subia a escada. Rebecca Castaneda, advogada de defesa criminal em Tampa e ex-procuradora nestes casos, descreve o mecanismo sem romance: “É assim que a inteligência funciona. Sobes a escada a partir deste tipo de casos. Alimenta o quadro geral.” Só que a 5 de fevereiro de 2025 foi publicado um memorando da procuradora-geral Pam Bondi: uma orientação para que os procuradores deixassem de acusar “traficantes de narcóticos de baixo nível” ao abrigo da lei usada contra contrabandistas intercetados no mar. Em teoria, o foco passaria para “alvos de topo”. Na prática, o que secou foi a engrenagem. Muitos dos detidos, agora, acabam repatriados ou deportados depois de um interrogatório curto. Sem processo. Sem acordo. Sem incentivo para colaborar. E sem a velha fábrica de informação a trabalhar. É aqui que a contradição se torna mais do que moral — torna-se operacional, quase absurda. Um sistema que dependia de gente viva a falar é substituído por dois extremos: deportação rápida (que corta o incentivo a cooperar) e morte imediata (que corta qualquer hipótese de falar). No meio disto, continuam as rotas, continua a procura, continua o dinheiro. Os homens apanhados nestas operações são, quase sempre, o mesmo tipo de gente: equatorianos, colombianos, alguns venezuelanos. Pobres. Sem saberem falar inglês. Por vezes mal alfabetizados em espanhol. Não são donos dos barcos. Muitas vezes recebem um GPS com coordenadas programadas e pouco mais. Ben Stechschulte, advogado de defesa em Tampa, representou dezenas deles ao longo dos anos. E não tem paciência para mitos: “Não estamos a falar de Pablo Escobars. São pescadores pobres. Fazem contas e arriscam.” Uma frase de Castaneda cai como uma lâmina porque é verdadeira e feia: para os traficantes, estas pessoas são descartáveis. Trocam-se como se troca um objeto barato. E, mesmo assim, a narrativa oficial desta nova fase chama-lhes outra coisa: “combatentes”. Trump declarou formalmente que os Estados Unidos estão em estado de conflito armado com cartéis de droga. A Casa Branca usa essa formulação para defender que os ataques aéreos são legais. Uma parte grande de especialistas em direito internacional e doméstico discorda: contrabando não é, por si, estatuto militar; civis em barcos não são automaticamente alvos legítimos; “ameaça iminente” não nasce de um comunicado. Mas a administração mantém os ataques. E os números vão ficando como se fossem só números. Pelo menos 107 mortos desde setembro, segundo o que tem sido reportado. Entretanto, a atividade policial no mar continua quase como sempre. Entre 1 de setembro e 30 de novembro, período em que os militares destruíram 22 embarcações e mataram 83 pessoas, a Guarda Costeira intercetou 38 embarcações suspeitas. Três a mais do que no mesmo período de 2024. Ou seja: não houve uma “mudança de mar”. A máquina de interceção continua. Continua a abordagem. Continua a apreensão. Continua a detenção — só mudou o destino. E repare nisto, porque é um detalhe que diz muito: nos últimos cinco anos, segundo a própria Guarda Costeira, houve um único caso de um suspeito morto a tiro durante uma interceção. Um episódio descrito como abalroamento que colocou a equipa em risco. De resto, o padrão é não letal. A Guarda Costeira, no terreno, trata isto como missão policial. Noutras águas (mas nas mesmas rotas), trata-se como teatro de guerra. Stephen M. Crawford, advogado em Tampa há cerca de trinta anos nestes casos, chamou aos ataques aéreos “teatro político perturbador” e foi direto ao assunto: “Nós não temos pena de morte para traficantes de droga neste país.” A frase é simples e, por isso, insuportável. Porque obriga a perguntar: então o que é isto? A incoerência começa a crescer para todo o lado. A campanha é apresentada como resposta ao fentanil nos Estados Unidos, mas as apreensões marítimas de que se faz espetáculo são, esmagadoramente, de cocaína. E, nestas rotas das Caraíbas e do Pacífico Oriental, o fentanil aparece pouco e em quantidades residuais: cerca de 17 kg em 2021, 5 kg no ano anterior, e 113 gramas em 2023. Desde 2003, aparece apenas em três anos de apreensões nessa zona, e sem expressão comparável à cocaína. Depois há a história do primeiro ataque nas Caraíbas, alegadamente contra onze membros do gang venezuelano Tren de Aragua — chamados “terroristas” a transportar narcóticos rumo aos Estados Unidos. Advogados e investigadores que vivem destes casos levantam a sobrancelha por razões básicas: a logística. Os barcos de tráfico não costumam desperdiçar combustível e espaço a levar “passageiros” a mais, e muitos nem têm autonomia para chegar onde a retórica diz que iam chegar. E há, ainda, a carta divulgada em dezembro pelo senador Rand Paul indicando que mais de um quinto das embarcações suspeitas paradas pela Guarda Costeira (entre setembro de 2024 e outubro de 2025) não tinha droga a bordo. Isto não prova inocência automática, mas mostra o risco de transformar suspeita em sentença, e sentença em explosão. A contradição central continua a ser a mesma, e ninguém a resolve: por um lado, estas pessoas são tratadas como tão perigosas que “merecem” morte imediata. Por outro, quando são apanhadas vivas, tornam-se tão “menores” que nem valem um processo — deportação, repatriação, acabou. Se são “combatentes”, por que são deportados como irrelevantes? Se são irrelevantes, por que são mortos como ameaça? Um agente federal, falando sob anonimato, resumiu o lado operacional disto com frieza: matar e deportar quebra a cadeia de inteligência. Porque mortos não dão informação e deportados, sem processo e sem acordo, também não têm incentivo para falar. O velho ciclo — captura, interrogatório, cooperação, inteligência — começa a desfazer-se não por falhar, mas por ser desligado. Voltemos ao Stone. A Guarda Costeira apresentou esta patrulha como “a maior apreensão de cocaína numa única missão”: 49 010 libras, o que corresponde a cerca de 22 231 kg (aprox. 22,2 toneladas), provenientes de quinze interceções, valor estimado em 362 milhões de dólares. A fotografia mostra a carga. Não mostra as pessoas. Das 36 detidas, 29 foram mandadas de volta para o Equador antes de o navio atracar. As restantes seguiram para o Departamento de Justiça, provavelmente para um interrogatório e uma deportação que ninguém filma. Nenhuma morreu. Mas, no mesmo período, 83 morreram do céu, nas mesmas rotas onde a Guarda Costeira continua a operar como polícia. É isto que fica desta semana: duas Américas a funcionar ao mesmo tempo, na mesma água, com a mesma palavra (“guerra”), e com duas consequências que não podem ser reconciliadas. E, de repente, a frase de Crawford deixa de ser opinião e passa a ser pergunta: se não temos pena de morte para traficantes de droga, o que é isto — e quem decidiu que podia ser? #AtlanticLisbon #GuerraÀDroga #EUA #GuardaCosteira #Caraíba #AméricaLatina #Narcotráfico #DireitoInternacional #PolíticaExterna #Segurança
- O Futuro Não Eleito da Inteligência Artificial
Naquela tarde de 9 de dezembro de 2025, o Senado dos Estados Unidos tinha o seu ar habitual de catedral laica: madeira polida, bandeiras, uma solenidade que parece pedir sempre uma frase bem vestida. O que se ouviu, porém, não foi um discurso bem vestido. Foi uma sequência de perguntas ditas com a voz de quem já não tem paciência para cerimónias — nem para o tipo de optimismo tecnológico que se vende como se fosse sabonete: “lava tudo, resolve tudo, cheira bem”. Bernie Sanders subiu à tribuna como sobe há décadas: sem encanto, sem treino de televisão, sem sorriso calculado. Um homem com mais de oitenta anos, cabelo desalinhado, cara de quem dorme pouco e carrega demasiados países dentro da cabeça. Em teoria, Sanders é uma peça antiga. Na prática, o momento que vivemos é tão novo — e tão mal governado — que um homem antigo pode, de repente, soar como a única pessoa na sala a não estar a fingir. Sanders não foi ali falar dos seus temas de sempre, ou pelo menos não os trouxe pelo caminho habitual. Não fez o sermão clássico sobre Wall Street, não se limitou a repetir que o salário mínimo é indecente. Falou de inteligência artificial. E falou dela como se fala de poder — não como se fala de gadgets. Porque o problema, o bruto problema, é este: estamos a construir uma estrutura que vai mandar na vida de toda a gente, e estamos a fazê-lo com uma leveza moral que mete medo. Ele fez sete perguntas. Não no sentido escolar, de “vamos lá ver se a turma aprendeu”. No sentido de um diagnóstico: quando alguém não sabe o que está a fazer, começa a narrar. Quando alguém sabe que está a entrar numa zona perigosa, pergunta. E há perguntas que são uma forma de travão de mão. A primeira, a mais incómoda, foi a que deveria estar colada na porta de cada laboratório, de cada conselho de administração, de cada palco de conferência tech: quem controla a inteligência artificial? Quem está, de facto, a escrever as regras invisíveis do futuro? A conversa pública sobre IA tem sido uma coisa estranha. Por um lado, é tudo inevitável: “vai acontecer”, “não dá para parar”, “é como a electricidade”, “é como a internet”. Por outro, quem decide quase tudo são meia dúzia de pessoas e empresas. Isto é o truque. Dizem-nos que é inevitável para nos calarmos; depois, fazem as escolhas em privado como se fossem proprietários do destino humano. Sanders apontou nomes que já nem precisam de apresentação: Elon Musk, Jeff Bezos, Bill Gates, Larry Ellison — gente que tem dinheiro suficiente para comprar tempo, comprar influência, comprar portas. Gente que, em alguns casos, diz abertamente que despreza reguladores e que vê o Estado como um incómodo. O que Sanders perguntou — sem floreados — foi se é aceitável que esta elite molde a próxima etapa da vida coletiva sem prestar contas a ninguém. A pergunta é simples e, por isso mesmo, brutal: desde quando é que o futuro deixou de precisar de eleições? Desde quando aceitamos que decisões que afetam trabalho, informação, vigilância, intimidade, saúde, educação e guerra sejam tomadas como se fossem decisões de produto? Depois veio a pergunta que cai em cima do estômago, porque tem a ver com o que paga a renda e o que põe comida na mesa: o que acontece ao trabalho? Não ao “emprego do futuro” num slide bonito, mas ao trabalho real — o trabalho que tem horários, chefes, turnos, dores nas costas, e que termina com alguém a abrir a carteira no supermercado e a fazer contas. Sanders levou números. E os números, nestas coisas, não são profecia, são aviso. A automação e a robótica podem empurrar para fora do mercado dezenas de milhões de postos. As estimativas variam — e há sempre quem diga “não vai ser assim”, “vai criar novos empregos”, “foi assim na revolução industrial”. Tudo isso pode ser verdade em parte. Mas a escala e a velocidade são diferentes, e o tipo de substituição também. Havia percentagens duras no que ele referiu: uma fatia enorme do fast food, parte relevante de camionistas, contabilistas, assistentes educativos, um pedaço grande da enfermagem. Não interessa aqui discutir se o número exato é 40% ou 35% ou 45%. O que interessa é o mecanismo: quando uma tecnologia promete eficiência, a primeira coisa que corta é gente. E a segunda coisa que corta é poder negocial. Porque um trabalhador que sente que pode ser substituído amanhã trabalha hoje com medo. E o medo é uma forma de governo. É aqui que a conversa costuma ficar cínica. Dizem: “é o progresso”. Mas progresso para quem? Se a produtividade aumenta e os lucros disparam, mas o cidadão comum perde estabilidade, perde salário, perde tempo, perde dignidade, então não estamos a falar de progresso. Estamos a falar de um saque — um saque com ar de modernidade. Depois Sanders entrou na democracia. E aqui a rudeza é necessária, porque há um tipo de discurso tecnológico que se comporta como se a democracia fosse um detalhe irritante. “Depois logo vemos.” “Não travem a inovação.” “Não compliquem.” É exatamente assim que as coisas descarrilam: primeiro chamam “complicação” às regras; depois chamam “inevitável” ao abuso. A pergunta foi: o que acontece à democracia num mundo de vigilância algorítmica? Sanders invocou ideias associadas a Larry Ellison sobre vigilância em tempo real: sistemas capazes de registar e analisar movimentos, palavras, compras, deslocações, interações. O panóptico, só que sem torre e sem carcereiro visível. Um panóptico onde o carcereiro é um sistema, e onde a punição nem precisa de ser prisão: basta ser classificação, exclusão, predição, manipulação. A palavra “privacidade” já anda com ar de peça de museu. O nosso tempo tem uma habilidade especial para normalizar o que devia causar alarme. Sentimos aquela inquietação leve quando um anúncio parece saber demais, mas passamos à frente como quem espanta uma mosca. O problema é que uma mosca hoje é um enxame amanhã. E, quando damos por ela, a democracia está sentada numa cadeira a olhar para o chão, porque percebe que deixou de controlar as condições básicas da liberdade. Democracia não é só votar de quatro em quatro anos. É ter margem para discordar, para mudar de ideias, para experimentar sem ser imediatamente punido. É poder existir sem ser um ficheiro. Se tudo é rastreado e tudo é analisado, a dissidência torna-se estatística. E uma dissidência estatística é uma dissidência controlável. Depois ele foi ao ponto que mais gente tenta evitar, porque é o ponto que obriga a falar de fragilidade humana sem ironia: o que acontece à nossa humanidade? Sanders falou de solidão. Falou de adolescentes que já recorrem a “companheiros” de IA como forma de companhia. Os números citados em estudos recentes são esmagadores. E, mesmo que o número exato mude de estudo para estudo, o fenómeno é real: há miúdos a conversar com máquinas para não conversarem com pessoas. Há jovens a preferirem o conforto do algoritmo à fricção humana. Aqui convém abandonar a pose. Isto não é uma curiosidade sociológica. Isto é um sinal. Quando uma geração cresce a treinar a intimidade com uma entidade que nunca se zanga, nunca se afasta, nunca tem dias maus, nunca diz “agora não me apetece”, nós estamos a educar seres humanos para um tipo de relação que não existe. Estamos a ensinar que o outro deve ser sempre disponível, sempre gentil, sempre útil. E, depois, quando a vida real aparece — com pessoas reais, com limites reais — a vida real parece defeituosa. Parece “menos boa”. Parece “menos eficiente”. E é aí que começa uma espécie de miséria afetiva que não se resolve com tecnologia nenhuma. Sanders citou John Donne (“nenhum homem é uma ilha”) para lembrar a interdependência. Eu diria isto de forma menos elegante: sem relação humana a sério, ficamos mais burros e mais cruéis. Porque a empatia não nasce de discursos. Nasce de choques, de reconciliações, de aprender a lidar com alguém que não é programado para nos agradar. Depois veio o tema que os evangelistas da “nuvem” detestam: o chão. Qual é o custo ambiental disto tudo? A “nuvem” é uma mentira semântica confortável. Sugere leveza. Sugere invisibilidade. Sugere que nada pesa. Mas a IA pesa. Pesa muito. Pesa em energia, em água, em metais, em território, em infraestruturas gigantescas, em centros de dados que precisam de arrefecimento constante. Sanders falou de consumo eléctrico comparável ao de dezenas de milhares de casas e, em projetos maiores, de centenas de milhares. E, mais importante do que o número, é a lógica: a tecnologia não é etérea; é material. Ela ocupa terra, exige recursos, gera conflitos locais. E quem paga isso raramente é quem beneficia mais. Há comunidades que ficam com o ruído, a pressão sobre redes eléctricas e hídricas, a transformação do território; e há acionistas que ficam com a valorização. Isto é velho como o mundo, apenas mudou a embalagem. A seguir veio a pergunta que muita gente evita porque estraga o almoço: como é que isto muda a guerra? A guerra, tal como a conhecemos, tem um travão político essencial: os mortos próprios. Um governo pensa duas vezes quando sabe que vai mandar jovens para morrer e que isso vai ter consequências internas. Mas se o combate se fizer com drones, sistemas autónomos, “robôs-soldado”, se o custo humano directo for menor para quem ataca, então o travão moral e político enfraquece. A tentação aumenta. A guerra torna-se mais “administrável”. E uma guerra administrável é uma guerra mais provável. Isto não é alarmismo. É só olhar para a história com olhos limpos. Os Estados fazem o que conseguem justificar. Se a tecnologia lhes facilitar a justificação — “não morremos nós”, “é cirúrgico”, “é preciso” — então o mundo fica mais perigoso. Não necessariamente porque os líderes se tornam mais maus; mas porque o custo de ser mau diminui. Por fim, Sanders entrou na pergunta mais profunda e mais fácil de ridicularizar — e por isso mesmo mais importante: podemos perder o controlo? Ele citou Geoffrey Hinton, figura central da IA moderna, que alertou publicamente para riscos de sistemas ultrapassarem a nossa capacidade de supervisão. E invocou o imaginário de 2001: A Space Odyssey, com HAL a virar-se contra os criadores. É tentador tratar isto como cinema. Mas o risco real não é o robô assassino com voz calma. O risco real é mais prosaico e mais aterrador: é dependermos de sistemas que ninguém entende totalmente, que ninguém consegue auditar por inteiro, e que, mesmo assim, passam a decidir coisas vitais. É a civilização a operar com caixa negra. E, quando a caixa é negra, o poder desloca-se. Desloca-se para quem controla a caixa, para quem sabe mexer nela, para quem tem acesso aos dados, para quem tem o direito de desligar ou ligar. Desloca-se, muitas vezes, para fora do espaço democrático. No meio destas sete perguntas, há um fio que as cose: o poder. Não a IA como fenómeno técnico, mas a IA como reorganização de poder. Sanders não está a dizer “parem a tecnologia”. Está a dizer “parem a estupidez política”. Parem de agir como se o futuro fosse uma questão privada. Parem de confundir inovação com inevitabilidade. Parem de chamar “liberdade” ao direito de meia dúzia de empresas rearranjarem a vida dos outros sem discussão pública. Há um tipo de conversa que domina a nossa época e que é, francamente, covarde: “isto vai acontecer, portanto adaptem-se.” É a conversa de quem quer o conforto de não decidir. Mas um futuro que “vai acontecer” sem decisão coletiva é um futuro tomado. É um futuro apropriado. O que Sanders fez naquele dia, no Senado, foi recusar essa apropriação como se fosse normal. E isso, neste tempo de propaganda optimista e de medo silencioso, é um ato político raro. Um homem velho a lembrar que democracia não é um adereço. É o mecanismo — frágil, irritante, lento — que impede que o futuro seja capturado por quem tem mais dinheiro e menos escrúpulos. No fim, tudo isto pode ser dito numa frase que não tem glamour nenhum: o futuro é demasiado importante para ser deixado aos donos da tecnologia. E é precisamente por não ter glamour que a frase serve. O glamour, nestes assuntos, costuma ser a antecâmara da fraude. Talvez a esperança — se é que a palavra ainda pode ser usada sem cinismo — esteja mesmo nesta insistência pouco elegante de Sanders. Não porque ele tenha respostas perfeitas. Mas porque ele se recusa a aceitar a pergunta falsa que nos empurram: “o que pode a IA fazer?” A pergunta verdadeira é outra: quem manda, quem paga e quem fica de fora? O resto é conversa bonita. E, nesta fase, já tivemos conversa bonita suficiente para uma vida inteira. Autor: Aurelian Draven O Futuro Não Eleito da Inteligência Artificial #AtlanticLisbon #AurelianDraven #InteligenciaArtificial #IA #Tecnologia #Democracia #Poder #VigilanciaDigital #Privacidade #Trabalho #Automacao #Robots #DataCenters #Ambiente #Geopolitica #Futuro
- O Lugar Onde Já Não Se Pode Falar
Durante muito tempo, a China viveu num equilíbrio instável, mas funcional. Não era uma democracia. Nunca foi. Mas também não era um deserto. Nos anos 1990 e 2000, havia zonas cinzentas. Espaços onde se discutia. Onde se escrevia com cuidado, mas sem pânico. Onde uma reportagem podia incomodar alguém sem destruir uma carreira inteira. China vs Japão: - Quando a praça pública desaparece. Universidades abertas. Livrarias cheias. Auditórios improvisados. Nada disto era garantido. Mas existia. A geração que hoje pratica Runxue cresceu nesse intervalo. Não nasceu no silêncio absoluto. Nasceu na expectativa de que o espaço público poderia alargar-se, ainda que lentamente. O choque veio quando percebeu que esse espaço não estava apenas a estagnar. Estava a encolher. E que o encolhimento não era episódico, mas estrutural. Primeiro vieram as palavras novas. “Orientação correta”. “Benefício social”. “Energia positiva”. Depois vieram as grelhas de avaliação. Por fim, vieram as ausências. Livros que deixaram de ser publicados sem explicação clara. Eventos cancelados sem aviso. Convites que deixaram de chegar. A repressão raramente se apresenta como um murro. Apresenta-se como um sistema de incentivos. Quem aprende a evitar certos temas continua. Quem insiste neles, desaparece lentamente. Para muitos, o momento de rutura não foi uma prisão nem um interrogatório. Foi algo mais banal — e mais corrosivo. Foi perceber que já estavam a escrever com medo antes mesmo de alguém os mandar calar. A partir daí, tudo muda. A praça pública não fecha oficialmente. Torna-se inútil. A Universidades reforçam controlos de acesso. Estranhos deixam de poder entrar. Editores passam a cortar passagens inteiras para proteger equipas.Advogados aprendem que certas causas custam licenças. O Estado não precisa de proibir tudo. Precisa apenas de tornar o custo psicológico demasiado alto. É aqui que a fuga começa — muito antes do avião. Começa quando alguém decide não propor um tema. Quando alguém apaga uma frase antes de a guardar. Quando alguém se pergunta, em silêncio, se vale a pena continuar. Runxue nasce nesse ponto. Não como ideologia, mas como constatação. Sair torna-se uma forma de preservar a sanidade. Mas sair não resolve tudo. O medo não é territorial. É aprendido. Muitos dos que partem continuam a falar baixo. Continuam a evitar nomes próprios. Continuam a usar metáforas quando já não são necessárias. Durante os protestos do “papel branco”, em 2022, isso tornou-se evidente. Chineses no estrangeiro manifestaram-se em cidades onde a polícia não os conhecia. Ainda assim, muitos taparam o rosto. Outros pediram para não ser fotografados. Depois vieram as chamadas para casa. Famílias contactadas. Pais avisados. Irmãos “aconselhados”. A mensagem era simples: a distância não protege completamente. Este é talvez o elemento mais perturbador da atual diáspora chinesa: a repressão não termina na fronteira. Estica-se. Acompanha. E mesmo assim, algo resiste. Porque o silêncio absoluto também tem um custo. Alguns decidem falar, apesar de tudo. Outros criam espaços pequenos, quase invisíveis. Reuniões privadas. Leituras em salas emprestadas. Podcasts com nomes neutros. Não é dissidência clássica. É sobrevivência cultural. O objetivo não é derrubar o regime. É não desaparecer por dentro. China vs Japão Há uma diferença fundamental entre exílio político do século XX e este movimento atual. Antes, muitos partiam com a ideia de que estavam fora da história. Hoje, muitos sentem que carregam a história consigo. Não querem substituir a China. Querem preservar uma versão dela que já não tem lugar no território. Isso cria uma tensão constante. Entre falar e calar. Entre agir e acumular. Alguns chamam-lhe covardia. Outros chamam-lhe prudência. Na prática, é uma negociação diária com o medo. E talvez seja isso que distingue esta geração: não acredita em gestos finais. Acredita em adiamentos. Em ganhar tempo. Em manter portas entreabertas. Runxue não é um manifesto. É um sintoma. Quando uma sociedade deixa de conseguir absorver as suas próprias perguntas, essas perguntas deslocam-se. Quando não podem ser feitas em casa, são feitas fora. Quando não podem ser feitas em voz alta, são feitas em salas pequenas. A praça pública não desaparece. Migra. E a pergunta que fica não é se isto enfraquece a China ou a fortalece. É outra, mais simples e mais dura: Que país precisa de perder os seus próprios pensadores para continuar a funcionar? Essa resposta ainda não existe. Mas o silêncio que a rodeia é cada vez mais maior. Autor: Atlantic Lisbon China vs Japão #China #Japao #Runxue #DiasporaChinesa #Exilio #Sociedade #LiberdadeDeExpressao #Censura #Tokio #Cultura
- Runxue: fugir não é emigrar
A palavra começou a circular em surdina, como tantas outras na China contemporânea. Primeiro em conversas privadas, depois em grupos fechados, finalmente à superfície. Runxue. Literalmente, “a filosofia de fugir”. Runxue: fugir não é partir, é continuar Não é um conceito académico. Não nasceu num ensaio nem num manifesto. Nasceu do cansaço. Durante anos, partir da China era sinónimo de ambição. Estudar fora. Trabalhar fora. Voltar com capital simbólico e real. O movimento era circular. Hoje, não é. Hoje, partir é cortar o fio. Nos últimos anos, dezenas de milhares de chineses deixaram o país sem planos claros de regresso. Alguns ricos, visíveis nos números do imobiliário em Singapura ou no aumento de compras em Tóquio. Outros invisíveis, atravessando fronteiras improváveis, acumulando riscos que não aparecem em estatísticas elegantes. Mas há um grupo intermédio que raramente aparece nas manchetes e que, no entanto, diz muito sobre o momento chinês: profissionais qualificados da classe média urbana. Pessoas que escrevem, editam, ensinam, investigam, organizam debates. Pessoas que dependem da palavra — e do espaço público — para existir. Esse espaço encolheu. Não desapareceu de um dia para o outro. Foi sendo comprimido. Primeiro com avisos, depois com regras, depois com silêncio. Houve Universidades que se fecharam. Houve livrarias que se tornaram cautelosas. Há Revistas que aprenderam a cortar frases antes mesmo de alguém mandar cortar. A vida pública chinesa, vibrante nos anos 2000, transformou-se num conjunto de corredores estreitos onde se aprende a não parar demasiado tempo. É aqui que Runxue deixa de ser metáfora e passa a ser prática. E é aqui que Tóquio entra. Para uma geração anterior, o destino natural era o Ocidente. Estados Unidos, Europa, universidades prestigiadas, integração lenta mas possível. Hoje, esse caminho tornou-se mais longo, mais caro, mais politizado. O Japão oferece outra coisa: proximidade geográfica, distância política. Rapidez administrativa. E, talvez mais importante, uma neutralidade cultural que não exige conversão imediata. Em Tóquio, muitos chineses não se sentem “imigrantes” no sentido clássico. Sentem-se suspensos. Fora, mas não traduzidos. Presentes, mas não absorvidos. É nesse intervalo que algo inesperado acontece. Livrarias chinesas reaparecem — não como negócios de massa, mas como pontos de encontro. Salas pequenas, prateleiras altas, cadeiras desconfortáveis. Debates. Leituras. Concertos. Podcasts gravados em salas improvisadas. Não é nostalgia. É reconstrução. Durante décadas, a praça pública chinesa existiu dentro de universidades e editoras. Não era perfeita, nem livre no sentido ocidental, mas respirava. Essa respiração foi cortada. Em Tóquio, reaprende-se a respirar. Alguns dos que organizam estes espaços tinham carreiras sólidas na China. Outros perderam licenças profissionais. Outros simplesmente perceberam que o futuro seria um exercício permanente de autocensura. Fugiram antes disso. Há precedentes históricos. Intelectuais chineses já encontraram refúgio no Japão noutras épocas. O que muda agora é a escala e o contexto. Não se trata de exilados políticos clássicos. Trata-se de uma geração inteira a ajustar expectativas. Nem todos querem “mudar a China”. Muitos querem apenas voltar a pensar em voz alta. E mesmo isso tem custos. O medo não fica para trás quando se atravessa uma fronteira. Viaja com quem parte. Alguns evitam temas sensíveis mesmo fora do país. Outros mantêm nomes reais longe de eventos públicos. Há mensagens que continuam a ser escritas como se alguém estivesse a ler. Ainda assim, algo mudou. Pela primeira vez em anos, há perguntas que podem ser feitas sem consequências imediatas. Há livros que podem ser publicados sem cortes silenciosos. Há músicas que podem ser cantadas sem desaparecer no dia seguinte. Runxue não é um gesto heroico. É um gesto defensivo. Não é uma fuga da China enquanto cultura, língua ou memória. É uma fuga de um sistema que deixou de tolerar zonas intermédias. Talvez por isso Tóquio funcione. Não promete redenção. Não promete futuro. Promete apenas espaço suficiente para continuar. E, por agora, isso basta. Autor: Atlantic Lisbon Runxue — Exílio Chinês em Tóquio #ANÁLISE #NOTÍCIA #AtlanticLisbon #Japão #China #Literatura
- Moscovo acusa; Kiev nega; não há registo visual no local
NOTÍCIA · Mundo · Rússia/Ucrânia · Guerra. Um vídeo divulgado pelo Ministério da Defesa russo mostra um militar mascarado ao lado de destroços que Moscovo identifica como um drone abatido. É, até ao momento, o único elemento visual apresentado publicamente pelas autoridades russas para sustentar a alegação de que a Ucrânia teria tentado atingir uma residência associada a Vladimir Putin na região de Novgorod, a noroeste de Moscovo. Segundo a versão russa, o episódio ocorreu na noite de domingo para segunda-feira e terá envolvido 91 drones de combate lançados a partir de território ucraniano. Serguei Lavrov afirmou que Moscovo irá endurecer a sua posição nas conversações conduzidas com os Estados Unidos e indicou que uma resposta militar está em preparação, com alvos já definidos. A Ucrânia rejeitou a acusação e classificou-a como falsa. Em Kiev, a leitura é a de que a narrativa russa procura criar margem para alterar a linha negocial e justificar um endurecimento no terreno, num momento em que o tema das conversações voltou a ocupar espaço na agenda internacional. O ponto mais frágil do relato é a falta de confirmação independente. Até ao momento, não foram divulgados registos publicamente verificáveis — imagens no local, danos documentados, incêndios ou impactos — que comprovem o que Moscovo diz ter sido visado. Noutros casos anteriores, ataques em território russo ou próximo da linha da frente foram frequentemente acompanhados por vídeos de testemunhas, registos de câmaras ou sinais materiais rapidamente identificáveis. Aqui, esse rasto não apareceu. A União Europeia também reagiu, com responsáveis europeus a considerarem a alegação russa não comprovada e potencialmente útil para desviar o foco e endurecer as posições numa fase sensível do diálogo político. A mensagem central, em Bruxelas, é a de que a acusação não apresenta base verificável no terreno. Do lado norte-americano, a informação avançada pelos meios de comunicação dos EUA aponta no mesmo sentido: a avaliação atribuída a responsáveis de segurança nacional não corrobora que a Ucrânia tenha visado Putin ou propriedades associadas ao presidente russo. A Rússia mantém a versão e tenta reforçá-la com detalhes operacionais e material audiovisual controlado por si. Mas a ausência de verificação externa deixa o caso num espaço intermédio: há acusação oficial e há uma peça de vídeo colocada no domínio público, porém falta o elemento decisivo para fechar o circuito factual — prova independente do impacto e da localização ou provas robustas da parte da Federação Russa. O efeito imediato é político. Moscovo usa a alegação para justificar um possível endurecimento da sua posição nas negociações e para enquadrar ações futuras como resposta a uma escalada atribuída à Ucrânia. Kiev e vários parceiros europeus leem o episódio como instrumento de pressão, destinado a condicionar o terreno negocial e a narrativa pública do conflito. Nos próxima semanas, o essencial será simples: ou surgem elementos independentes que confirmem danos e enquadramento do alegado ataque, ou a história ficará marcada sobretudo como um episódio de acusação sem suporte verificável, usado para ganhar margem política num conflito em que a prova pública, muitas vezes, pesa tanto como a ação militar. Autor: Atlatinc Lisbon Alegado ataque à residência de Putin sem provas #Ucrania #Russia #Putin #Drones #Novgorod #GuerraNaUcrania #Diplomacia #UniaoEuropeia #EUA #SegurancaInternacional #Propaganda #NegociacoesDePaz
- O Socialista que Ganhou a Cidade Comprada
POLÍTICA · Atlantic Lisbon · EUA/Nova Iorque · Poder Nova Iorque, 2 de janeiro de 2026. Ontem, 1 de janeiro, Zohran Mamdani tomou posse como presidente da Câmara. Tem 34 anos, é socialista democrático, passou cinco anos como deputado, criticou abertamente Israel — e ninguém, literalmente ninguém, apostava que isto pudesse acontecer. O Socialista Que Ganhou a Cidade Que o Bilionário Tinha Comprado. Até que aconteceu. E aconteceu contra 28,4 milhões de dólares despejados em Super PACs para empurrar Andrew Cuomo para cima da linha de água. Aconteceu contra Michael Bloomberg, o antigo presidente da Câmara, bilionário, que meteu 9,5 milhões para tentar travar Mamdani. Aconteceu porque Mamdani tem 11 milhões de seguidores no Instagram e percebeu uma coisa que os velhos aparelhos fingem não entender: atenção vale mais do que dinheiro. Ou, pelo menos, nesta eleição valeu. Dois homens, duas Nova Iorques Há 24 anos, Nova Iorque abriu a porta a outro novato improvável. Michael Bloomberg tinha 59 anos, vinha do mundo das finanças e dos media e acabou por ficar três mandatos. Chamou à cidade um “produto de luxo” — e disse-o como quem elogia uma montra. Mamdani parte da premissa oposta: as pessoas deviam poder viver aqui sem empobrecer só por respirarem. Bloomberg e Mamdani não são aliados. Nem sequer habitam o mesmo planeta político. Mas, estranhamente, são dois outsiders que mexeram — ou prometeram mexer — nas regras do jogo. E há paralelos desconfortáveis. Ambos chegam ao poder sem aquela teia antiga de favores, dívidas e amizades úteis que se acumula quando se anda décadas a subir degraus. Ambos podem contratar sem terem de “pagar” o passado. E ambos representam uma ideia legível da cidade, quase como um cartaz: Bloomberg era o homem do dinheiro que queria tornar a cidade mais “fina”; Mamdani é o homem da acessibilidade que quer tornar a cidade habitável. Bloomberg ajudou a transformar partes de Brooklyn em vidro e arranha-céus; deu a Manhattan o Hudson Yards e o High Line. A Nova Iorque dele era caríssima, mais homogénea do que gosta de admitir, e policiada com músculo. Mamdani cresceu nessa cidade. E a visão dele — aquilo a que o jornalista Eric Lach chamou “o Universo Cinemático Mamdani” — soa, muitas vezes, como reação: bairros exteriores diversos, pequenas lojas, camaradagem de metro, aquela vida onde se aprende a cidade com o corpo e não com relatórios. É filho do Upper West Side que fez casa em Astoria. É um detalhe pequeno, mas em Nova Iorque os detalhes pequenos pesam. Talento, talento, talento Em setembro, Mamdani e Bloomberg encontraram-se. A conversa foi, segundo Howard Wolfson (assessor de Bloomberg há décadas), “definitivamente cordial”. Falaram de uma coisa prosaica e decisiva: contratar e reter talento. Bradley Tusk, que serviu na administração Bloomberg e geriu a campanha de 2009, disse: “O Mike era talento, talento, talento. A coisa que ele fez melhor, de longe, foi convencer muita gente talentosa a trabalhar no governo municipal.” Mamdani parece ter percebido a lição, mesmo vindo de outra escola. Chamou Lina Khan — antiga directora da Comissão Federal de Comércio, inimiga declarada de certos confortos empresariais — para a equipa de transição. No fim de novembro, a equipa reportou que mais de 70 mil pessoas tinham submetido candidaturas online para trabalhar na administração. Bloomberg tinha fama de dar autonomia real aos nomeados. Quando Elizabeth Kolbert o entrevistou para a New Yorker em 2002, um comissário contou que Bloomberg lhe disse apenas isto ao dar-lhe o cargo: “É a tua agência — não estragues tudo.” Não é impossível imaginar Mamdani a precisar do mesmo tipo de autonomia técnica. A campanha dele foi disciplinada, repetiu poucas propostas, insistiu nelas até ao osso. Isso costuma ser sinal de alguém que sabe que, depois, terá de pôr gente competente a mexer peças. “Alguém descreveu o Zohran como tecnocrata socialista”, recordou Tusk. “E, quando se trata de governo municipal, não vejo grande diferença entre um tecnocrata capitalista e um tecnocrata socialista. Se ele for tecnocrata como o Mike foi, será bom presidente da Câmara.” Nem todos os antigos de Bloomberg compram a comparação. Wolfson disse: “A chave do sucesso do Mike foi a gestão de classe mundial. Ele sabia atrair e reter talento e sabia cumprir objetivos porque andava a fazê-lo há anos. Não tenho a certeza de qual é a comparação apropriada aqui.” Dinheiro vs. atenção A eleição de 2025 foi, entre outras coisas, um choque entre dinheiro e atenção. Cuomo recebeu 28,4 milhões de Super PACs na eleição geral — “o maior montante alguma vez gasto para apoiar um único candidato em Nova Iorque por Super PACs”, segundo o grupo Citizens Union. E, “de facto”, acrescentaram, a comparação mais óbvia é com as campanhas auto-financiadas e destruidoras de orçamento de Bloomberg nos anos 2000. Dinheiro é a assinatura de Bloomberg desde que entrou na vida pública: dinheiro levou-o à Câmara, o dinheiro moldou o seu estilo, o dinheiro continua a ser a sua linguagem política preferida. Mas Mamdani comanda outra moeda: atenção. E atenção — já o vimos noutros lugares, por outros protagonistas — não precisa de pedir licença. Nesta eleição, a atenção venceu sem discussão. O que vem depois Depois do sucesso de Mamdani, há quem resuma tudo a “fazer vídeos curtos melhores”. É uma leitura preguiçosa. O que ele fez não foi só comunicar: foi criar ligação, e criar ligação sem aquele suor visível que, tantas vezes, passa por “carisma” na política. O modelo Bloomberg de proximidade era contar pedaços de lixo pela janela de um carro com motorista. O modelo Mamdani é mais de rua, mais de mão na massa, mais de corpo na cidade — para ele e para quem o segue. E isso mexe com uma geração que, em Nova Iorque, anda há anos a procurar comunidade onde só encontra uma renda. Um voluntário disse ao Times: “As pessoas com quem vou jantar, as pessoas com quem vou a concertos — o meu dia a dia está organizado em torno de Mamdani.” É uma frase bonita, e ao mesmo tempo perigosa. Porque o governo municipal não é um movimento: é orçamento, contratos, greves, lixo, metro avariado, polícia, tribunais, emergências. É o quotidiano a morder. A maratona “The Mayor Is Listening” — 12 horas de conversas individuais com cidadãos no mês passado — sugere que Mamdani sabia isto. Também o sugeriu o lançamento de Our Time, o grupo pós-campanha para mobilizar apoiantes em favor da agenda, trabalhando com a base de dados de voluntários, mas sem o envolvimento direto do novo presidente da Câmara. A questão com qualquer tipo de capital — político ou outro — é simples: se parar, perde-se. A cidade à beira de algo novo Bloomberg também chegou ao poder num tempo de incerteza aguda. Em 2002, o 11 de setembro era ferida aberta, e a cidade ainda não tinha percebido o tamanho da fatura. Em 2026, a ameaça iminente sente-se de outra forma: mais ligada ao governo federal, à possibilidade de agentes mascarados do ICE, à sombra da Guarda Nacional nas ruas, à sensação de que a cidade pode voltar a ser palco — não por escolha, mas por imposição. Entra então em palco uma figura que confunde expectativas. Ninguém sabe bem o que vai acontecer. A cidade está à beira de algo novo. Mamdani prometeu autocarros rápidos e gratuitos. Prometeu Nova Iorque acessível. Prometeu participação. Se consegue cumprir — ou se a atenção se dissolve quando começa o trabalho real — é história que ainda não foi escrita. Mas uma coisa já aconteceu, e essa não volta atrás: a cidade que Bloomberg comprou, Mamdani ganhou-a sem gastar quase nada. E isso, por si só, já mudou as regras. Autor: Atlantic Lisbon O Socialista que Ganhou a Câmara #NovaIorque #EUA #Política #Mamdani #CâmaraMunicipal #Eleições #Poder











