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Adéla Jergová, a rapariga que queria demasiado

há 3 dias
6 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

Há qualquer coisa de desconfortável numa mulher que não disfarça a ambição. Adéla Jergová descobriu-o antes de ter uma carreira suficientemente grande para justificar essa ambição aos olhos dos outros.


Adéla Jergová não aprendeu a querer menos


Em 2023, tinha 19 anos e estava entre as vinte concorrentes escolhidas para The Debut: Dream Academy, o projeto da HYBE e da Geffen Records que procurava formar um grupo feminino internacional. Mais de 120 mil candidatas tinham tentado entrar. Adéla conseguiu.


Retrato de Adéla Jergová na capa de Pessoas com Interesse do Atlantic Lisbon.
Adéla Jergová, da formação clássica em ballet à construção de uma carreira própria na música pop.

Na primeira missão, integrou uma equipa de dança que interpretou “Pink Venom”, das Blackpink. Quando chegaram os resultados, Adéla e a japonesa Hinari foram as primeiras eliminadas. A votação do público colocou a eslovaca no fundo da classificação. O programa continuou sem ela e acabaria por produzir as KATSEYE.


Três anos depois, Adéla lançou *PRIMA*. “Ain't in LA” entrou na Billboard Hot 100 e o nome que desaparecera muito cedo daquela competição começou a circular sem depender dela. A antiga concorrente tinha agora uma carreira a solo e falava abertamente sobre querer levá-la muito mais longe.


O corpo chegou primeiro


Adéla começou a estudar ballet aos três anos. A formação levou-a de Bratislava para Viena e, mais tarde, para Londres, onde estudou na English National Ballet School. A música já estava presente, mas durante muito tempo o caminho profissional parecia passar pela dança.


Foram anos de repetição, correção física e avaliação. Um movimento voltava a ser feito até deixar de precisar da mesma correção. Adéla frequentava também aulas de canto, embora a dança ocupasse o centro da formação.


Essa passagem continua visível nas atuações que faz como cantora. O corpo não é um elemento acrescentado à música depois de a canção estar pronta. Faz parte da maneira como pensa uma atuação.


Adéla Jergová em atuação em Detroit em setembro de 2026.
Adéla Jergová em palco, em Detroit, a 9 de setembro de 2026. Fotografia: Desmondithink. CC0 1.0, domínio público.

Também não cultiva a história da artista descoberta por acaso. Fala do trabalho necessário para construir uma carreira pop e das dimensões que gostaria que essa carreira alcançasse. Salas maiores estão entre essas ambições.


PRIMA conserva uma ligação direta à formação anterior. A palavra significa “primeira” e aproxima-se inevitavelmente de prima ballerina. Adéla já falou sobre a possibilidade de se tornar, um dia, uma espécie de prima ballerina da pop.


Quando entrou no Dream Academy, porém, os anos de preparação passaram a ser observados num sistema em que câmaras, edição, redes sociais e votação pública também participavam na avaliação.


A rapariga que ficou de fora


Adéla passou muito tempo a preparar-se para uma oportunidade que terminou antes de conseguir mostrar grande parte daquilo que acreditava saber fazer.


A eliminação não apagou a exposição. Ficaram excertos, comentários e interpretações sobre a sua personalidade. A competitividade e a segurança com que se apresentava foram lidas por alguns espectadores como arrogância. Surgiu também a personagem da vilã, uma classificação habitual em formatos de competição e suficientemente simples para circular depressa nas redes sociais.


Adéla voltou posteriormente a esse período ao falar da instabilidade da perceção pública. Uma mulher conhecida pode ser celebrada num momento e tornar-se alvo de hostilidade pouco depois. A mudança pode ocorrer sem que a pessoa em causa tenha qualquer controlo sobre ela.


Não deixou, por isso, de dizer que quer ter sucesso. A experiência do programa deu-lhe, pelo menos, uma medida concreta do que significa falhar diante de uma audiência.


Quando o projeto terminou para ela, permaneceu em Los Angeles.


Los Angeles não é o sítio que prometia ser


Adéla tinha atravessado o Atlântico precisamente para tentar construir uma carreira nos Estados Unidos. Participara num projeto de duas grandes empresas da indústria musical e acabaria por assinar com a Capitol Records. Uma das primeiras canções a levá-la às tabelas americanas chamou-se “Ain't in LA”.


A história começa em Bratislava.


A mãe crescera na Checoslováquia comunista fascinada pela cultura popular ocidental. O pai trabalhava nas minas na Alemanha Ocidental e levava-lhe cartazes e imagens difíceis de obter do outro lado da fronteira. Los Angeles aparecia naquele quarto muito antes de alguém da família viver na cidade.


Adéla cresceu também a consumir televisão e música americanas, aprendeu inglês e quis partir. Anos depois, regressou a Bratislava e encontrou fotografias da mãe aos 18 anos, naquele quarto coberto de referências da cultura pop.


“Ain't in LA” nasceu desse encontro com uma ambição que não começara nela.


No vídeo, Adéla regressa a Bratislava. Dança entre blocos residenciais e inclui referências visuais eslovacas. A mãe e a irmã aparecem. A cantora que vive em Los Angeles coloca a cidade de onde saiu dentro de uma canção gravada já a partir da indústria americana.


Não renega a mudança para os Estados Unidos. Continua a viver lá. A canção deixa coexistir essa escolha com a descoberta de que talento, desejo e vidas interessantes não estavam concentrados no lugar para onde aprendera a olhar.


A mãe ficou no princípio da história


A mãe imaginara uma deslocação que nunca faria nos termos em que a filha acabou por fazê-la.


Há fotografias dessa juventude, os objetos trazidos da Alemanha Ocidental e uma filha que, décadas depois, chega efetivamente à cidade que fazia parte daquele imaginário. Quando Adéla regressa a Bratislava para filmar “Ain't in LA”, a mãe entra no vídeo.


A identidade eslovaca aparece no trabalho recente de Adéla sem exigir um regresso permanente ou uma rejeição dos Estados Unidos. Ela continua a trabalhar dentro da indústria que procurou e a utilizar referências da cultura pop americana que conhece desde criança.


Bratislava deixou, entretanto, de aparecer apenas como o lugar de onde era necessário sair. Está dentro do repertório visual e musical que Adéla começou a construir depois do Dream Academy.


Nicole Kidman e a máquina de fabricar símbolos


Numa festa relacionada com os Globos de Ouro, Adéla sentiu-se deslocada. Não era atriz e ainda não tinha uma posição comparável à das pessoas que circulavam naquele espaço. Estava, apesar disso, vestida e fotografada dentro do mesmo ambiente de celebridades.


Disse ter-se sentido como Nicole Kidman.


A frase tornou-se uma canção.


O nome funciona sem que Nicole Kidman seja propriamente o assunto. Transporta uma imagem reconhecível de cinema, elegância e celebridade que Adéla utilizou para escrever sobre aquele momento.


Mais tarde, Nicole Kidman tomou conhecimento da música. Reconheceu publicamente Adéla e usou “Ain't in LA” na sua entrada no TikTok.


A referência que começara numa festa regressava assim à pessoa cujo nome tinha sido usado na canção.


O problema de conseguir


Quando “Ain't in LA” entrou na Billboard Hot 100, Adéla tornou-se a primeira artista eslovaca a colocar uma canção na tabela. *PRIMA* ampliou a atenção. Vieram concertos, festivais, uma digressão própria e uma audiência para quem *Dream Academy* já não era necessariamente a porta de entrada para o seu trabalho.


A eliminação continuava disponível como parte da história, mas começava a explicar cada vez menos.


PRIMA não foi construído como um processo contra quem não a escolheu. Há referências aos detratores, mas o disco ocupa-se também de sexo, aparência, relações, família, fama e da personagem pública que Adéla está a construir.


Essa personagem está agora sujeita a um tipo de avaliação diferente daquele que conheceu na escola de ballet e no *Dream Academy*. Cabelo, corpo, voz, roupa, sexualidade, simpatia ou arrogância tornam-se matéria pública. Adéla trabalha dentro dessa exposição enquanto procura conservar algum controlo sobre aquilo que coloca nas canções.


Aos 22 anos, ainda há pouco material para saber como essa relação com a fama se altera quando deixa de ser novidade.


Não era preciso caber


As KATSEYE existem e construíram a sua própria trajetória. Adéla não foi escolhida para o grupo.


Também não abandonou Los Angeles depois da eliminação.


Ficou na cidade, começou a desenvolver material próprio e assinou um contrato a solo. Quando *PRIMA* apareceu, a distância entre as duas trajetórias já permitia olhar para o Dream Academy como um episódio concreto, em vez de uma decisão que continuasse a determinar tudo o que vinha depois.


A dança permaneceu. Bratislava regressou às imagens. Los Angeles continuou a ser casa e assunto. A ambição que lhe fora apontada durante a competição também não desapareceu.


Adéla fala hoje de arenas como um lugar onde gostaria de chegar. Por enquanto, tem 22 anos, um primeiro álbum e uma entrada recente na Billboard Hot 100.


Ainda está a tentar chegar lá.


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