Cancro: Coimbra identifica nova defesa celular
Atualizado: há 2 dias
Uma variante da proteína p53 travou a divisão e o crescimento de colónias celulares em laboratório. As possíveis aplicações médicas continuam por demonstrar.
Há células que continuam a dividir-se quando já deveriam ter parado. Algumas acumulam alterações no ADN, escapam aos mecanismos de controlo e dão origem a populações capazes de crescer descontroladamente. Como impedir que uma célula danificada se transforme numa ameaça para o organismo?
Uma investigação internacional, com participação da Universidade de Coimbra, identificou uma nova peça desse sistema de proteção: a Delta246p53, uma variante da proteína p53. O trabalho, publicado em 7 de outubro de 2026 na revista Cell Death Discovery, descreve uma forma da proteína até agora não caracterizada. Nos ensaios realizados, promoveu a senescência, a paragem da divisão celular, e reduziu a formação e o crescimento de colónias de células tumorais. estudo científico.
O estudo foi coordenado por Marco Candeias e tem Shrutee N. Parkar como primeira autora. Reuniu investigadores do Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento da Universidade de Coimbra, da Universidade de Quioto, no Japão, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, da Universidade de Lisboa e da Universidade de Trento, em Itália, entre outras afiliações.
O papel da p53 na proteção contra o cancro
O gene TP53 é um dos elementos mais estudados da biologia do cancro. A proteína p53, produzida a partir deste gene, participa numa rede de mecanismos que ajudam a preservar a estabilidade genética. Quando uma célula sofre danos no ADN, a sua atividade pode contribuir para interromper temporariamente a divisão, dando tempo à reparação. Em determinadas circunstâncias, também pode favorecer a senescência ou a morte celular programada. o gene TP53.
Uma célula com alterações genéticas graves que continue a dividir-se pode transmiti-las às células descendentes. O TP53 não produz, porém, uma única forma de proteína. Existem diferentes variantes, designadas isoformas, que resultam de mecanismos de expressão genética e podem desempenhar funções distintas. A Delta246p53 vem ampliar esse conjunto.
Uma forma mais curta da proteína
Os investigadores identificaram uma proteína com aproximadamente 18 quilodaltons, produzida a partir de um ponto alternativo de início da tradução, correspondente ao codão 246. A célula consegue, assim, produzir uma forma mais curta da p53, utilizando parte da informação genética que também dá origem à versão convencional.
A equipa confirmou a existência e a origem desta variante por diferentes métodos experimentais. Incluíram alterações dirigidas à sequência genética, utilização de anticorpos e técnicas destinadas a reduzir seletivamente a produção da nova proteína. Os danos no ADN aumentaram a sua presença nas condições estudadas.
A variante interagiu com a p53 convencional e com a DeltaNp63, outra proteína da mesma família. Essas interações tiveram efeitos distintos na regulação da p21, importante no controlo do ciclo celular. O trabalho identifica, por isso, uma atividade inserida numa rede de mecanismos, cuja resposta depende das outras proteínas presentes.
Parar a divisão não significa matar a célula
A senescência celular é um estado em que uma célula deixa de se dividir, embora possa continuar metabolicamente ativa. Pode funcionar como uma barreira contra o cancro: uma célula que acumulou alterações perigosas, mas já não se multiplica, perde uma das capacidades necessárias à formação de um tumor. senescência celular.
Foi esta resposta que os investigadores observaram ao estudar a Delta246p53. A proteína promoveu características associadas à senescência e reduziu a capacidade de formar e fazer crescer colónias nos modelos celulares utilizados. Estes ensaios avaliam o comportamento das células em condições experimentais.
O envelhecimento dos tecidos e a prevenção do cancro partilham mecanismos biológicos. A interrupção da divisão de células danificadas pode proteger contra a formação de tumores, mas a acumulação de células senescentes também pode ter efeitos prejudiciais nos tecidos. Regular a sua atividade exige compreender esse equilíbrio.
Marco Candeias aponta como hipótese futura a possibilidade de restringir a expressão da Delta246p53 às células em risco de transformação oncológica. É uma possibilidade de investigação enunciada pelo coordenador, dependente de se conseguir esse controlo. comunicação da Universidade de Coimbra.
O que falta saber antes de uma aplicação médica
Os resultados publicados dizem respeito a mecanismos celulares. Não demonstram que administrar ou ativar a Delta246p53 permita tratar o cancro em seres humanos. A publicação não apresenta ensaios em doentes, redução da mortalidade por cancro ou aumento da longevidade humana.
Para explorar uma aplicação médica, será necessário esclarecer como a proteína funciona em diferentes tecidos e tipos de células tumorais e se é possível controlar a sua produção. Uma intervenção sobre a divisão celular exige precisão, porque os tecidos saudáveis também dependem da renovação das suas células.
Será ainda necessário estudar os efeitos prolongados da ativação da senescência e avaliar consequências indesejáveis. A passagem à investigação clínica dependerá da evidência pré-clínica e das condições de segurança necessárias. A descoberta identifica um mecanismo que pode agora ser investigado com maior detalhe; o seu aproveitamento médico continua por demonstrar.









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