Dedi Mulyadi, o pai que ameaça vir buscar os filhos alheios
Desde o ano passado, a conta oficial do governador de Java Ocidental divulga uma gravação com a voz de Dedi Mulyadi. O governador pergunta quem são os filhos que não querem tomar banho, comer ou ir à escola. Depois avisa: «O senhor governador vai a tua casa buscar-te.» A gravação tornou-se som de fundo em vídeos de crianças durante uma birra. Algumas riem quando a ouvem. Outras ficam visivelmente assustadas.
Milhões seguem Dedi Mulyadi nas redes sociais e chamam-lhe Bapak Aing, "o meu pai", em sundanês.
Chamam-lhe Bapak Aing, «o meu pai», em sundanês. Segundo consta, a alcunha nasceu de uma brincadeira da filha. Hoje é usada por muitos habitantes do estado mais populoso da Indonésia. Mulyadi publica pelo menos dois vídeos por dia. Tem mais de três milhões de subscritores no YouTube e oito milhões de seguidores no TikTok.
Em maio do ano passado, o seu gabinete lançou, em parceria com as Forças Armadas indonésias, um programa oficial de «Educação de Caráter, Disciplina e Defesa Nacional». Destina-se a adolescentes descritos como «malcriados», incluindo jovens envolvidos em brigas de rua, consumo de álcool ou uso excessivo de jogos em linha. Os pais assinam um termo de entrega voluntária. Os filhos seguem para instalações militares, onde podem permanecer entre duas semanas e seis meses, com instrução, desfiles e aulas de educação cívica.
Nos primeiros dias, mais de 270 adolescentes tinham passado pelo programa. A Imparsial, a Amnistia Internacional e uma aliança contra a violência sobre crianças pediram ao Presidente Prabowo Subianto que o suspendesse, invocando o risco de militarização da infância. A comissão nacional para os direitos da criança encontrou adolescentes doentes devido à exaustão. Em Bekasi, um pai apresentou uma queixa formal à polícia e à comissão de direitos humanos. Entretanto, o ministro dos Direitos Humanos do governo central declarou que gostaria de alargar o modelo a todo o país.
Mulyadi está na política há mais de duas décadas. Foi vice-regedor de Purwakarta entre 2003 e 2008 e regedor até 2018. Entre 2019 e 2023, representou o Golkar no parlamento nacional. Nas presidenciais de 2019, dirigiu em Java Ocidental a campanha de Joko Widodo. Mudou-se para o Gerindra, partido de Prabowo, em 2023, e tomou posse como governador em fevereiro de 2025.
Casou pela primeira vez em 1998 e ficou viúvo no ano seguinte. Voltou a casar em 2003. O segundo casamento terminou em divórcio vinte anos depois.
Na sua casa em Subang há um quadro que o representa como Prabu Siliwangi, o último rei hindu do povo sundanês. Conserva também uma coleção de carruagens, krisses cerimoniais e conjuntos de gamelão, objetos associados a uma residência palaciana. Alguns observadores veem nesse ambiente uma encenação política. Outros acreditam que Mulyadi descende do antigo rei ou que é a sua reencarnação.
«Esta política surgiu de repente na minha cabeça, e apliquei-a de imediato», disse Mulyadi ao explicar o perdão de multas e dívidas de imposto automóvel. A decisão foi tomada sem consulta prévia aos responsáveis técnicos. No dia seguinte ao anúncio, o Estado recebeu mais receita fiscal num único dia do que esperava arrecadar num mês.
Em abril do ano passado, propôs que certos apoios sociais fossem condicionados à vasectomia dos maridos, para limitar o crescimento das famílias pobres. A proposta também foi anunciada sem consulta prévia aos técnicos. O conselho de ulemás de Java Ocidental demarcou-se publicamente da medida.
Nos eventos chamados Abdi Nagri Nganjang ka Warga, expressão que significa «um servidor da nação visita os seus cidadãos», Mulyadi manda instalar uma tenda de grandes dimensões numa praça. Senta-se no palco acompanhado por funcionários e permite que pessoas da assistência lhe apresentem diretamente os seus problemas. Pode ser uma estrada esburacada, uma mãe de catorze filhos a pedir um subsídio ou uma acusação de negligência contra um funcionário municipal.
Mulyadi responde ali mesmo. Pode resolver o pedido, entregá-lo a um dos funcionários presentes ou prometer tratá-lo mais tarde. A plateia acompanha e aplaude. Entre intervenções, dança com crianças que sobem ao palco e troca piadas com os humoristas convidados.
Essa proximidade dá-lhe acesso direto a famílias que esperam pouco da administração pública. Também coloca nas mãos do governador decisões que normalmente passariam por pais, técnicos, serviços públicos ou órgãos políticos. Mulyadi fala às crianças através dos telemóveis, recebe queixas sem intermediários e decide que adolescentes devem ser enviados para instalações militares.
Nas zonas onde os serviços públicos chegam tarde ou com dificuldade, este modo de governar encontrou apoio. As respostas são rápidas e têm um responsável visível. No programa para adolescentes, porém, os pais entregaram voluntariamente os filhos e algumas famílias acabaram por contestar o que lhes aconteceu. Organizações de direitos humanos e entidades de proteção das crianças levaram as mesmas objeções ao governo central. O programa que começou com um termo assinado pelos pais passou a ser discutido pela polícia, por comissões de direitos humanos e pela Presidência da República.





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