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Anne Carson: o Nobel de uma escrita entre géneros

10 de out.
2 min de leitura

Atualizado: há 14 horas

Anne Carson recebeu o Prémio Nobel da Literatura de 2026, anunciado a 8 de outubro. A Academia Sueca distinguiu a inventividade da obra e o diálogo com a tradição clássica, através dos quais Carson criou novas formas para a literatura contemporânea. Poeta, ensaísta e tradutora canadiana, trabalha frequentemente com vários géneros dentro do mesmo livro.


Nascida em Toronto em 1950, tem formação em estudos clássicos e desenvolveu uma carreira universitária a par da escrita. Doutorou-se em 1981 com uma investigação sobre o desejo, assunto que atravessa também a produção literária. O conhecimento do grego e do latim acompanha o trabalho de tradução e serve de base às suas próprias obras.


Em Autobiography of Red: A Novel in Verse, publicado em 1998, Anne Carson recupera Gerião, figura da mitologia grega, a partir dos fragmentos do poeta Estesícoro. Na sua narrativa, Anne Gerião ganha uma vida contemporânea, marcada pelo desejo, pela diferença e pelas relações com os outros. O livro conserva a ligação ao texto antigo, mas constrói uma narrativa própria para além do episódio mitológico.


Anne Carson: Gerião, escultura cipriota em calcário da segunda metade do século VI a. C.
Gerião, escultura cipriota em calcário da segunda metade do século VI a. C. The Metropolitan Museum of Art, coleção Cesnola. Domínio público (CC0).

Em The Beauty of the Husband: A Fictional Essay in 29 Tangos, de 2001, acompanha uma relação conjugal atravessada pela beleza, pela infidelidade e pelo ciúme. A obra está organizada em vinte e nove tangos que combinam narrativa e poesia. Referências antigas convivem aqui com experiências próximas do leitor, como a atração, a traição e a vulnerabilidade.


Publicado em 2010, Nox nasceu da morte do irmão da autora. É uma elegia que reúne escrita, fotografias e materiais de arquivo, apresentada numa longa folha dobrada em acordeão e guardada numa caixa. O leitor pode desdobrar o conjunto e acompanhar a sequência dos fragmentos. A edição reproduz em fac-símile a colagem original, que integra a escrita sobre a perda.


O trabalho com fragmentos tem expressão distinta em If Not, Winter, de 2002, a sua tradução dos poemas de Safo. Carson conserva na página os sinais das lacunas existentes nos textos que chegaram até nós. As palavras sobreviventes aparecem acompanhadas por parênteses retos e pelos espaços deixados pelo que se perdeu, permitindo distinguir o que subsiste daquilo que já não é possível recuperar.



Em Norma Jeane Baker of Troy, de 2019, aproxima Helena de Troia de Marilyn Monroe, reunindo duas figuras associadas à beleza e à notoriedade em épocas muito diferentes. Em 2021, publicou com a artista Rosanna Bruno The Trojan Women: A Comic, uma recriação em banda desenhada da tragédia de Eurípides.


Anne Carson: Marilyn Monroe numa atuação para militares na Coreia, em 1954.
Marilyn Monroe numa atuação para militares na Coreia, em 1954. Departamento de Defesa dos EUA, via Wikimedia Commons. Domínio público.

Para conhecer Anne Carson, o ponto de entrada pode ser o desejo em Autobiography of Red, a relação conjugal em The Beauty of the Husband ou a perda familiar em Nox. Cada livro oferece uma experiência de leitura diferente.


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