top of page

Haitianos nos EUA: o que muda com o fim da proteção

há 17 horas
4 min de leitura

Uma autorização criada para evitar o regresso a países inseguros permite aos haitianos viver e trabalhar nos Estados Unidos desde 2010. A sua retirada afeta quem continua a depender desse regime para permanecer legalmente no país.


Haitianos nos EUA: residência e trabalho após o fim da proteção


Os Estados Unidos dispõem de um regime que protege da deportação pessoas de países onde uma guerra ou uma catástrofe impede o regresso em segurança. Durante a sua vigência, os beneficiários podem residir e trabalhar legalmente em território americano. Chama-se Estatuto de Proteção Temporária, habitualmente referido pela sigla inglesa TPS.


Capa do Atlantic Lisbon sobre haitianos nos EUA, com título em fundo azul escuro e detalhes em vermelho.
A retirada da proteção temporária afeta os haitianos nos EUA que dependem desse estatuto para residir e trabalhar legalmente.

Os haitianos beneficiam desta proteção desde 2010, quando um terramoto destruiu parte de Porto Príncipe e deixou cerca de 1,5 milhões de pessoas sem casa. Nos anos seguintes, a violência de grupos armados, a instabilidade política e a insegurança alimentar prolongaram as dificuldades de regresso.






***








A Administração de Donald Trump defende que as condições no Haiti melhoraram o suficiente para terminar a proteção. Para cerca de 330 mil haitianos abrangidos pelo programa, está em causa a autorização que lhes permite viver e trabalhar nos Estados Unidos. Alguns passaram ali grande parte da sua vida.


Habitantes de Porto Príncipe, fotografados dois meses após o terramoto de janeiro de 2010. Foi nesse ano que começou a proteção temporária dos haitianos nos EUA. Fotografia de arquivo: Susan E. Hough / USGS. Domínio público, utilização gratuita.

O TPS não oferece uma via própria para a cidadania. Mesmo depois de muitos anos de residência legal, quem depende exclusivamente deste estatuto continua sujeito à sua manutenção.


Uma autorização que pode durar anos


Criado em 1990, o programa responde às condições existentes no país de origem dos beneficiários. Enquanto a proteção vigora, estes podem ter emprego, pagar impostos e possuir casa nos Estados Unidos. Suportam também os encargos associados à manutenção do estatuto.


A palavra «temporária» não significa que a estadia seja necessariamente curta. No caso haitiano, a proteção atravessou sucessivas crises e permitiu anos de residência. Durante esse período, os beneficiários trabalharam e constituíram família, sem que o programa lhes concedesse automaticamente um direito permanente de permanência.


Quando se decide retirar a proteção, esses vínculos podem continuar a existir. Um emprego não desaparece necessariamente no dia em que termina a autorização para o exercer. Os familiares podem permanecer no país, embora um dos membros do agregado deixe de estar protegido pelo regime de que dependia.


A situação migratória precisa, por isso, de ser considerada individualmente. Quem dispõe de outro fundamento para residir nos Estados Unidos encontra-se numa situação diferente de quem tem apenas o TPS. O fim do programa não produz um resultado idêntico para todos os seus beneficiários.


Para os que continuam dependentes dele, a retirada altera uma presença até então autorizada. Pode afetar pessoas que cumpriram as condições do estatuto durante anos, porque a decisão incide sobre a continuidade da proteção concedida ao seu país de origem.


Haitianos nos EUA e as condições de regresso


O Haiti não realiza eleições presidenciais desde 2016. O presidente Jovenel Moïse foi assassinado em 2021. Grupos armados controlam grande parte da capital, cobram pela passagem em estradas e praticam raptos para exigir resgates.


Mais de um milhão de pessoas foram deslocadas dentro do próprio país devido à violência e à instabilidade. Centenas de escolas estão encerradas, os serviços hospitalares sofreram perturbações e mais de metade da população enfrenta insegurança alimentar.

Casa desabada em Porto Príncipe após o terramoto de 12 de janeiro de 2010. Esta imagem de arquivo documenta a catástrofe que antecedeu a proteção dos haitianos nos EUA; não retrata a situação atual. Fotografia: Walter Mooney / USGS. Domínio público, utilização gratuita.

Foi a impossibilidade de regressar em segurança que justificou a proteção dos haitianos. A catástrofe de 2010 esteve na sua origem, mas as dificuldades posteriores passaram a abranger a circulação, o acesso a cuidados de saúde, a alimentação e o funcionamento das instituições.


A Administração Trump considera que a melhoria das condições permite terminar o TPS. Essa é a sua avaliação sobre a continuidade do programa. Para compreender o que está em causa, é necessário atender às condições concretas de regresso: uma melhoria em relação a um período anterior pode coexistir com violência, deslocações e serviços públicos interrompidos.


O programa obriga a olhar para o país de origem mesmo quando os seus beneficiários vivem há muitos anos nos Estados Unidos. A autorização que usam diariamente para trabalhar e residir depende de uma decisão sobre a segurança do regresso ao Haiti.


Empregos e famílias abrangidos pela retirada


Auxiliares de enfermagem, trabalhadores de apoio domiciliário, empregados de escolas, pessoal de limpeza, seguranças e trabalhadores aeroportuários encontram-se entre os profissionais haitianos afetados.


Quem trabalha com uma autorização associada ao TPS depende da continuidade desse estatuto. A experiência profissional ou a vontade do empregador de conservar o trabalhador não substituem a autorização necessária para exercer a atividade. Uma função pode continuar a ser necessária quando a pessoa que a desempenha perde a possibilidade de trabalhar legalmente através do programa.


Os rendimentos desse emprego podem sustentar um agregado em que os restantes membros têm outras situações migratórias. A perda da autorização de um trabalhador alcança, assim, o orçamento e a organização da família, mesmo quando os familiares conservam o direito de permanecer.


Residência, trabalho e proteção contra a deportação estão reunidos no mesmo mecanismo. A sua retirada pode afetar essas três condições para quem não dispõe de outra solução migratória. Os anos de permanência tornam as consequências mais extensas, porque durante esse tempo se formaram compromissos profissionais e familiares que continuam a exigir resposta.


A permanência que o programa não resolve


O TPS permite organizar uma vida legal nos Estados Unidos enquanto o regresso ao país de origem é considerado inseguro. Ao prolongar-se, pode acompanhar a passagem da infância à idade adulta, anos de trabalho e a formação de uma família. Nenhum desses percursos transforma, por si só, a proteção temporária em residência permanente.


A decisão de terminar o programa volta a colocar essa questão perante os beneficiários. Para quem obteve outro fundamento de residência, a dependência do TPS pode ter acabado. Para os restantes, o estatuto continua a assegurar a autorização de que precisam.


No caso haitiano, uma resposta criada após o terramoto manteve-se perante crises sucessivas. A retirada dessa proteção exige uma avaliação das condições de regresso, mas deixa também por resolver a situação de quem passou anos nos Estados Unidos sem adquirir um direito permanente de residência.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page