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O Nobel da Medicina 2026: que saiu de uma alga

8 de out.
5 min de leitura

Atualizado: há 8 horas

Nobel da Medicina 2026: de uma alga ao controlo dos neurónios


O Nobel da Medicina de 2026 distingue a optogenética, o método que liga e desliga células nervosas com luz. O ponto de partida foi uma proteína de uma alga unicelular, e o seu uso médico é ainda parcial.


A 5 de outubro de 2026, a Assembleia Nobel do Instituto Karolinska atribuiu o Nobel da Fisiologia ou Medicina a Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel, pelas descobertas sobre canais iónicos controlados pela luz e sobre a optogenética. Os três dividem em partes iguais o prémio de 12 milhões de coroas suecas. Deisseroth é professor de bioengenharia e de psiquiatria na Universidade de Stanford e investigador do Howard Hughes Medical Institute. Hegemann trabalha na Universidade Humboldt de Berlim e Nagel na Universidade de Würzburgo.


Capa Atlantic Lisbon: O Nobel que saiu de uma alga e liga neurónios com luz. Colagem editorial com uma alga, um neurónio e luz azul.
Nobel da Medicina 2026 - As peças de um interruptor

O que o comité distingue é um método que permite ligar ou desligar a atividade de células nervosas individuais num cérebro vivo.


Nobel da Medicina 2026 - As peças de um interruptor


Para provocar potenciais de ação com luz são precisas três coisas: uma proteína que reaja à luz e deixe passar iões, um modo de levar o gene dessa proteína às células escolhidas e uma fonte de luz que chegue a essas células. Em termos gerais, a optogenética combina a transferência de um gene para neurónios-alvo com a entrega de luz a esses neurónios.


Uma proteína de alga


A Chlamydomonas é uma alga unicelular que deteta a luz com uma mancha ocular. Foi nela que Hegemann e Nagel encontraram a canalrodopsina. Em 2002, Nagel, Hegemann, Ernst Bamberg e outros colegas descreveram na revista Science a canalrodopsina-1, um canal de protões ativado pela luz em algas verdes. Expressa em ovócitos da rã Xenopus laevis, a proteína gerava correntes elétricas elevadas quando iluminada.


Em 2003, nos Proceedings of the National Academy of Sciences, o mesmo grupo apresentou a canalrodopsina-2, um canal seletivo para catiões e controlado diretamente pela luz. Ao receber luz, o canal abre-se e deixa entrar na célula iões de carga positiva. O artigo mostrou que a proteína podia ser expressa tanto em ovócitos como em células de mamífero, produzindo correntes elétricas por ação da luz.


As canalrodopsinas são canais de um único componente, em que o sensor de luz e o canal estão na mesma molécula. O que se transfere para outra célula é, por isso, o gene de uma só proteína.


Micrografia eletrónica de uma célula de Chlamydomonas reinhardtii, a alga estudada na descoberta das canalrodopsinas.
Chlamydomonas reinhardtii observada por microscopia eletrónica de transmissão. A investigação das proteínas sensíveis à luz desta alga está na origem dos trabalhos distinguidos pelo Nobel da Medicina 2026. Imagem: Dartmouth Electron Microscope Facility, Dartmouth College. Domínio público.

Do ovócito ao neurónio


Deisseroth procurava formas de regular a atividade dos neurónios de modo controlado, com versões das proteínas sensíveis à luz estudadas por Hegemann. Em 2005, o seu laboratório publicou na Nature Neuroscience, com Ed Boyden, Feng Zhang, Bamberg e Nagel, o artigo em que mostrou que a luz induzia potenciais de ação em neurónios cultivados que expressavam a canalrodopsina-2. O laboratório recorreu a um vetor lentiviral para expressar a proteína em neurónios do hipocampo de rato e, em trabalho posterior, introduziu o gene em neurónios de roedores que disparavam e comunicavam com outros neurónios.


Em 2006, o método recebeu o nome de optogenética. O grupo de Deisseroth levou também o gene da canalrodopsina-2 ao cérebro de ratinhos vivos e, com outros investigadores, usou a técnica para acordar ratinhos adormecidos de forma controlada. Com Susumu Tonegawa, Nobel de 1987 por descobertas em imunologia, Deisseroth ativou um engrama, o padrão de vias neuronais que se forma quando se cria uma memória.


O que muda na investigação


O comité considera que a técnica transformou a neurociência. Per Svenningsson, presidente do comité, afirmou que ela permite mapear o cérebro de uma maneira com que antes só se podia sonhar. Em vez de apenas registar atividade, passa a ser possível provocá-la num tipo de célula escolhido e observar o que se segue.


Neurónios de ratinho com marcação fluorescente numa imagem do NCCIH e dos NIH.
Neurónios de ratinho numa imagem associada a investigação dos circuitos da dor. A optogenética permite estudar a contribuição de grupos celulares para o funcionamento desses circuitos; a fluorescência visível não é, por si só, ativação por luz. Imagem: National Center for Complementary and Integrative Health / NIH. Domínio público.

Da bancada ao doente


Na visão, a abordagem combina uma terapia génica, que leva uma proteína sensível à luz a células da retina, com um dispositivo que capta imagens e projeta luz sobre a retina tratada. Em 2021, um estudo de caso publicado na Nature Medicine, ligado ao ensaio PIONEER, de fase 1/2, da empresa francesa GenSight Biologics, descreveu um homem de 58 anos com diagnóstico de retinite pigmentosa havia 40 anos. Depois de uma injeção num olho e de treino com os óculos do sistema, passou a localizar objetos pousados numa mesa. Segundo a empresa, a abordagem não depende da mutação concreta que causa a cegueira.


Os resultados descritos são parciais. Para a epilepsia e para a dor, entre outras indicações, a técnica está em fase de teste. O próprio comité fala em primeiros passos no uso médico.


Retina de esquilo terrestre observada por microscopia confocal, com fotorrecetores cones marcados a verde na camada superior.
Retina de esquilo terrestre observada por microscopia confocal, com os cones a verde. A retina é uma das áreas de investigação clínica da optogenética. Esta imagem mostra tecido animal e não documenta o doente do ensaio PIONEER. Imagem: Wei Li, National Eye Institute / NIH. Domínio público.


Quem assina os trabalhos


O prémio tem três nomes, e os trabalhos fundadores têm mais autores. Ernst Bamberg assina os trabalhos de 2002, 2003 e 2005 aqui referidos, e Ed Boyden e Feng Zhang assinam o de 2005. Em 2022, a Universidade de Columbia atribuiu o Prémio Louisa Gross Horwitz a Deisseroth, Hegemann e Gero Miesenböck, por investigação que lançou as bases da optogenética.


O Nobel de 2026 distingue as descobertas sobre canais controlados pela luz e sobre a optogenética, numa cadeia de trabalhos que envolveu mais pessoas do que as três premiadas.


Fontes:


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