
Decidir antes de conhecer todos os factos
Atualizado: há 11 horas
Decidir antes de conhecer todos os factos: Pombal recolheu observações, um arquivo ficcional conserva uma transcrição sem original identificado e Kaplan examina decisões tomadas com informação incompleta.
Depois do terramoto de 1755, Sebastião José de Carvalho e Melo mandou perguntar às paróquias quanto tempo durara o tremor, se tinham aparecido fendas e como se comportara o mar. A cidade precisava de enterrar mortos e começar a reconstrução. As respostas chegariam de lugares diferentes, recolhidas através de perguntas que permitiam comparar as observações.
Em «Terramoto de Lisboa: as perguntas que Pombal fez à terra», o questionário surge entre as explicações que procuravam atribuir um significado à destruição. Saber durante quanto tempo a terra tremeu não responde à pergunta sobre a razão do sofrimento. Permite começar a conhecer o que aconteceu naquela manhã: a duração, as fendas, o recuo da água.
Maria Filomena Molder aproxima o inquérito de uma disposição para enfrentar factos que não consolam. A sua interpretação acompanha a reconstrução de Lisboa e a decisão de procurar causas físicas para o desastre. Nas paróquias, o trabalho começava por aquilo que uma testemunha tinha visto e conseguia relatar.
Conhecer todos os factos de uma transcrição
Uma caixa chega ao Porto com sete cassetes, um caderno e uma indicação sobre um original destruído num incêndio. É assim que começa a ficção «A entrevista de James Schuyler que sobreviveu numa cópia». Rui, o investigador, encontra referências que se encaixam. As datas formam uma sequência plausível. A etiqueta parece explicar a sobrevivência da cópia, mas ninguém identificou quem a fez, de que exemplar a retirou ou por que caminho aqueles papéis chegaram à caixa.
Nenhuma das sete cassetes está identificada como a gravação procurada. Mesmo que uma contivesse a voz de Schuyler, Rui teria ainda de demonstrar que era a fita de que a transcrição provinha. Há material para continuar a pesquisa. Falta-lhe uma ligação entre os objetos que recebeu e a conversa que procura.
Os parágrafos da transcrição podem preservar a maneira de falar de Schuyler ou resultar do trabalho de quem passou a conversa ao papel. Sem a gravação, Rui não consegue separar essas operações. Lê um texto organizado, com frases que terminam e episódios que se sucedem; as hesitações, os cortes e a pontuação ficaram entregues a quem o editou.
Na folha de entrada, acaba por registar «Transcrição sem original identificado». A caixa conserva valor documental com essa descrição. A origem permanece por estabelecer. O personagem poderia ter escrito uma identificação mais completa e mais satisfatória, aproveitando a coerência das datas, mas teria acrescentado ao documento uma certeza que não encontrou nele. A cena pertence à ficção, incluindo o arquivo no Porto.
Decidir antes de conhecer todos os factos
Um dirigente que precisa de tomar uma decisão pode não dispor do tempo de Rui. Em «Robert D. Kaplan: o perigo de governar com 30% da informação», a percentagem descreve decisões tomadas antes de estar disponível a maior parte do conhecimento desejável. O próprio ensaio assinala que a conta não pode ser feita. Ninguém recebe um indicador que anuncie ter atingido a quantidade suficiente de provas.
Kaplan aproxima essa insuficiência do conflito entre escolhas que protegem coisas diferentes. Adiar permite conhecer melhor uma situação e pode reduzir a possibilidade de a alterar. Agir pode evitar um dano e produzir outro. Quando chega a informação esperada, há pessoas afetadas, compromissos assumidos e alternativas que entretanto desapareceram.
Chamberlain tinha razões para temer a repetição de uma guerra europeia. O peso atribuído a esse medo deformou a avaliação do perigo representado por Hitler. Kaplan considera errada a decisão de Munique e procura perceber como foi composta. Depois, a lembrança desse erro passou a pressionar outros governantes: negociar podia parecer uma repetição de 1938, mesmo perante adversários e circunstâncias diferentes.
O ensaio regressa à responsabilidade ao tratar da invasão russa da Ucrânia. Putin decidiu com informação incompleta e escolheu iniciar uma guerra de agressão. Reconhecer o que desconhecia ajuda a examinar a sua avaliação; a escolha continua a ter autor e finalidade. A insuficiência de informação, partilhada por decisões muito diferentes, não permite julgá-las por si só.
Para esse julgamento são necessários os fundamentos usados, as alternativas consideradas e os riscos aceites. O registo de uma decisão permite confrontá-la com o que o dirigente sabia, incluindo avisos que possa ter descartado. Rui consegue limitar a descrição da caixa ao que encontrou. Quem governa tem de agir sobre pessoas que continuarão a suportar as consequências depois de os fundamentos serem revistos.
Os novos factos chegam, por isso, a uma situação já alterada pela primeira decisão. Corrigi-la exige regressar ao momento em que foi tomada, sem introduzir nesse momento o conhecimento adquirido depois. Se os fundamentos ficaram registados, é possível examinar o erro, perceber que avisos foram ignorados e discutir uma mudança de orientação. Sem eles, a explicação posterior do governante passa a ocupar o lugar das razões que efetivamente usou.
Composto em outubro de 2026
O Caderno
Decidir antes de conhecer todos os factos: uma figura de autoridade, com a cabeça transformada num arquivo fechado, assina um mapa incompleto. Capa: ilustração satírica gerada por IA para Atlantic Lisbon.






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