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Decidir antes de conhecer todos os factos

5 de out.
4 min de leitura

Atualizado: há 11 horas

Decidir antes de conhecer todos os factos: Pombal recolheu observações, um arquivo ficcional conserva uma transcrição sem original identificado e Kaplan examina decisões tomadas com informação incompleta.


Depois do terramoto de 1755, Sebastião José de Carvalho e Melo mandou perguntar às paróquias quanto tempo durara o tremor, se tinham aparecido fendas e como se comportara o mar. A cidade precisava de enterrar mortos e começar a reconstrução. As respostas chegariam de lugares diferentes, recolhidas através de perguntas que permitiam comparar as observações.


Em «Terramoto de Lisboa: as perguntas que Pombal fez à terra», o questionário surge entre as explicações que procuravam atribuir um significado à destruição. Saber durante quanto tempo a terra tremeu não responde à pergunta sobre a razão do sofrimento. Permite começar a conhecer o que aconteceu naquela manhã: a duração, as fendas, o recuo da água.


Maria Filomena Molder aproxima o inquérito de uma disposição para enfrentar factos que não consolam. A sua interpretação acompanha a reconstrução de Lisboa e a decisão de procurar causas físicas para o desastre. Nas paróquias, o trabalho começava por aquilo que uma testemunha tinha visto e conseguia relatar.


Gravura das ruínas da Ópera de Lisboa, no Percurso Decidir antes de conhecer todos os factos.
Ruínas da Ópera de Lisboa depois do terramoto de 1755, no Percurso Decidir antes de conhecer todos os factos. Gravura de Henry Roberts, entre 1755 e 1790. Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público.

Conhecer todos os factos de uma transcrição


Uma caixa chega ao Porto com sete cassetes, um caderno e uma indicação sobre um original destruído num incêndio. É assim que começa a ficção «A entrevista de James Schuyler que sobreviveu numa cópia». Rui, o investigador, encontra referências que se encaixam. As datas formam uma sequência plausível. A etiqueta parece explicar a sobrevivência da cópia, mas ninguém identificou quem a fez, de que exemplar a retirou ou por que caminho aqueles papéis chegaram à caixa.


Nenhuma das sete cassetes está identificada como a gravação procurada. Mesmo que uma contivesse a voz de Schuyler, Rui teria ainda de demonstrar que era a fita de que a transcrição provinha. Há material para continuar a pesquisa. Falta-lhe uma ligação entre os objetos que recebeu e a conversa que procura.


Os parágrafos da transcrição podem preservar a maneira de falar de Schuyler ou resultar do trabalho de quem passou a conversa ao papel. Sem a gravação, Rui não consegue separar essas operações. Lê um texto organizado, com frases que terminam e episódios que se sucedem; as hesitações, os cortes e a pontuação ficaram entregues a quem o editou.


Na folha de entrada, acaba por registar «Transcrição sem original identificado». A caixa conserva valor documental com essa descrição. A origem permanece por estabelecer. O personagem poderia ter escrito uma identificação mais completa e mais satisfatória, aproveitando a coerência das datas, mas teria acrescentado ao documento uma certeza que não encontrou nele. A cena pertence à ficção, incluindo o arquivo no Porto.


Cassete BASF que ilustra o arquivo ficcional do Percurso Decidir antes de conhecer todos os factos.
Cassete BASF que ilustra o arquivo ficcional de Decidir antes de conhecer todos os factos. Fotografia: Pedro M. Martínez Corada/Wikimedia Commons. CC BY-SA 4.0.

Decidir antes de conhecer todos os factos


Um dirigente que precisa de tomar uma decisão pode não dispor do tempo de Rui. Em «Robert D. Kaplan: o perigo de governar com 30% da informação», a percentagem descreve decisões tomadas antes de estar disponível a maior parte do conhecimento desejável. O próprio ensaio assinala que a conta não pode ser feita. Ninguém recebe um indicador que anuncie ter atingido a quantidade suficiente de provas.


Kaplan aproxima essa insuficiência do conflito entre escolhas que protegem coisas diferentes. Adiar permite conhecer melhor uma situação e pode reduzir a possibilidade de a alterar. Agir pode evitar um dano e produzir outro. Quando chega a informação esperada, há pessoas afetadas, compromissos assumidos e alternativas que entretanto desapareceram.


Chamberlain tinha razões para temer a repetição de uma guerra europeia. O peso atribuído a esse medo deformou a avaliação do perigo representado por Hitler. Kaplan considera errada a decisão de Munique e procura perceber como foi composta. Depois, a lembrança desse erro passou a pressionar outros governantes: negociar podia parecer uma repetição de 1938, mesmo perante adversários e circunstâncias diferentes.


O ensaio regressa à responsabilidade ao tratar da invasão russa da Ucrânia. Putin decidiu com informação incompleta e escolheu iniciar uma guerra de agressão. Reconhecer o que desconhecia ajuda a examinar a sua avaliação; a escolha continua a ter autor e finalidade. A insuficiência de informação, partilhada por decisões muito diferentes, não permite julgá-las por si só.


Para esse julgamento são necessários os fundamentos usados, as alternativas consideradas e os riscos aceites. O registo de uma decisão permite confrontá-la com o que o dirigente sabia, incluindo avisos que possa ter descartado. Rui consegue limitar a descrição da caixa ao que encontrou. Quem governa tem de agir sobre pessoas que continuarão a suportar as consequências depois de os fundamentos serem revistos.


Os novos factos chegam, por isso, a uma situação já alterada pela primeira decisão. Corrigi-la exige regressar ao momento em que foi tomada, sem introduzir nesse momento o conhecimento adquirido depois. Se os fundamentos ficaram registados, é possível examinar o erro, perceber que avisos foram ignorados e discutir uma mudança de orientação. Sem eles, a explicação posterior do governante passa a ocupar o lugar das razões que efetivamente usou.


Composto em outubro de 2026


O Caderno


Decidir antes de conhecer todos os factos: uma figura de autoridade, com a cabeça transformada num arquivo fechado, assina um mapa incompleto. Capa: ilustração satírica gerada por IA para Atlantic Lisbon.


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