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Terramoto de Lisboa: as perguntas que Pombal fez à terra

21 de set.
4 min de leitura

Atualizado: 25 de set.

A 1 de novembro de 1755, dia de Todos os Santos, um tremor de terra que os estudos modernos estimam ter ultrapassado a magnitude 8 destruiu grande parte de Lisboa em poucos minutos. Ao tremor seguiu-se um maremoto que engoliu o Terreiro do Paço. Depois, um incêndio que arderia durante dias. Morreram milhares de pessoas, numa cidade que não teria muito mais de duzentos mil habitantes. A capital de um império ficou reduzida a escombros numa manhã de missa.


O terramoto de Lisboa e as perguntas que ficaram de pé


Sebastião José de Carvalho e Melo, então secretário de Estado e ainda sem o título de marquês de Pombal que a história lhe reserva, organizou o enterro dos mortos e montou forcas pela cidade para dissuadir os saqueadores. Depois fez uma coisa menos óbvia: mandou um questionário a todas as paróquias do reino. Perguntava quanto tempo tinha durado o tremor, se a terra tinha aberto fendas, se o mar tinha recuado antes de voltar, como se tinham comportado os animais. Não perguntava a ninguém se Lisboa tinha pecado. Perguntava factos.


Ruínas de Lisboa após o terramoto de 1755, sob o título sobre as perguntas que Pombal fez à terra.
Lisboa em ruínas após o terramoto de 1755, entre os escombros da cidade e as perguntas que Pombal enviou às paróquias do reino.

A resposta ao terramoto de Lisboa não ficou confinada à cidade. Voltaire escreveu um poema sobre o desastre que reabriu, com fúria, o debate sobre se um Deus bom podia permitir um mal daquela escala. Rousseau respondeu-lhe, atribuindo a culpa aos homens, que tinham escolhido viver amontoados em edifícios altos de pedra. Kant, com pouco mais de trinta anos e ainda longe da fama que teria, escreveu três ensaios sobre o terramoto em 1756, tentando explicá-lo por causas físicas, entre cavidades subterrâneas, gases e água, sem recorrer ao castigo divino. Na Alemanha, um rapaz de seis anos chamado Johann Wolfgang von Goethe ouviu falar do desastre e, contaria décadas mais tarde, foi então que começou a perder a fé: não conseguia aceitar um Deus que escolhesse castigar os lisboetas por meio de um terramoto.


É esta memória de Goethe, recordada por Maria Filomena Molder numa entrevista ao Público, que dá o mote a este texto. A pergunta que Molder levanta a propósito de Pombal não pertence à geologia. Diz respeito ao que fazemos com o pavor.


Molder recusa a ideia, hoje corrente, de que vivemos numa idade de “pós-verdade” em que os factos deixaram de contar. A verdade, argumenta, nunca foi uma coisa que se extraísse como quem extrai um número: é um sentimento, uma adesão que a realidade nos impõe sem que a tenhamos calculado nem ela nos tenha sido imposta pela força. Confiamos numa pessoa; se ela nos mente, essa confiança quebra-se, e não é a lógica que se altera. É o sentimento. Pombal, sustenta a filósofa, tratou o terramoto como um facto físico, geológico e social que pedia observação, não sermão. O inquérito que mandou às paróquias, ainda hoje estudado como um dos primeiros instrumentos de investigação sismológica da Europa, não continha uma única pergunta sobre pecado.


Pensar assim exigia coragem, no sentido preciso que Molder dá à palavra: pensar por si próprio, mesmo quando o resultado não consola. É mais fácil aceitar que uma cidade ardeu por castigo divino do que admitir que ardeu porque a terra, indiferente a quem tinha por cima, se moveu sem aviso nem propósito. Esta explicação não oferece sentido, moral ou promessa de que nada voltará a acontecer se formos melhores. Oferece apenas factos. Aceitá-los sem os revestir de significado aproxima-se, na leitura que Molder faz dos filósofos capazes de enfrentar a morte, da aceitação da própria morte. Não porque consigam explicá-la, mas porque deixam de precisar dessa explicação.


Na mesma entrevista, Molder chega a Elon Musk pelo mecanismo contrário. Para Musk, diz, o horror da morte é tão insuportável que se disfarça de apetite sem fim por poder: colonizar Marte, prolongar a vida, dominar tudo o que se deixa dominar. Perante a prova brutal da pequenez humana, Pombal escolheu medir o chão. Musk, confrontado com a certeza de que também morrerá, procura aumentar o controlo sobre um mundo que nunca lhe pertencerá inteiramente.


Pombal aceitou a finitude e trabalhou, com o que restava, para reconstruir a cidade. Entre as propostas apresentadas, foi escolhida a solução mais radical: abandonar o traçado medieval e desenhar uma Baixa nova, rectilínea, preparada para durar e resistir a outro tremor. Era uma construção destinada aos que viriam depois. Musk procura outra coisa: adiar a finitude à escala dos seus próprios meios.


Gravura setecentista das ruínas da Ópera de Lisboa depois do terramoto de 1755.
A Ópera de Lisboa em ruínas depois do terramoto de 1 de novembro de 1755. Gravura de Henry Roberts, entre 1755 e 1790. Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público.

Mais adiante, Molder fala da coragem física. Dá o exemplo de quem se atira para debaixo de um carro para salvar uma criança, sem tempo para pensar. Só depois do gesto se descobre que se sabia fazê-lo, que se era capaz. A maravilha de estar vivo encontra-se também nessa surpresa diante de nós próprios.


Pombal não sabia, em 1755, que a Baixa sobreviveria durante séculos como referência de reconstrução antissísmica. Também não podia saber que as respostas ao seu inquérito seriam estudadas por sismólogos mais de duzentos anos depois. O que fez nasceu da necessidade imediata de conhecer o desastre e impedir que a cidade continuasse entregue a ele.


A pergunta permanece: o que fazemos quando a realidade destrói as explicações que nos protegiam? Lisboa começou por contar os mortos, observar o mar e perguntar quanto tempo a terra tinha tremido.


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