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Pedro Cavalheiro levou trinta anos a confirmar Bocage

há 4 dias
2 min de leitura

Em 1992, João Francisco Vilhena vestiu Pedro Cavalheiro de Bocage para a série "Ilustradores Ilustrados". O texto que acompanhava a fotografia falava de coincidência, licenciosidade erótica e escatológica, destino funesto. Pedro Cavalheiro tinha trinta e poucos anos, desenhava banda desenhada histórica com rigor de arquivista, fardas, armas, datas.


Vestiram Pedro Cavalheiro de Bocage por brincadeira. Passou a vida a dar-lhe razão.


Nasceu em 1961, filho de um capitão-tenente da Marinha com papel na Revolução dos Cravos. Aos catorze anos já desenhava, num caderno escolar, uma aventura sobre a invasão napoleónica de Junot. Entrou nas Belas Artes de Lisboa em 1982, ao mesmo tempo que outros Pedros: Silva Dias, Proença, Portugal, que fariam carreira na fotografia, no design, na pintura. Colou-se ao grupo Homeoestética, sem nunca participar formalmente das suas obras. Aparecia como performer ocasional nas noitadas dos Irmãos Catita. Uma das contribuições era comer um peixe inteiro em palco.


Imagem elegante de uma biblioteca antiga com estantes de livros, mesa com manuscritos e volumes empilhados sob luz suave de janela, com o texto centrado “Pedro Cavalheiro levou trinta anos a confirmar Bocage” e “Atlantic Lisbon” abaixo.

A banda desenhada mais conhecida, O Facínora, a partir de um romance de Camilo Castelo Branco, saiu na primeira edição da revista dominical do Público, em Março de 1990, a dividir espaço com Calvin & Hobbes. Depois desenhou para o Independente, para o Combate, para o JL, para suplementos infantis; ilustrou memórias da própria família em álbuns como Os Brinquedos do Meu Avô. Traço rápido, a tinta-da-china, raramente a cores. Os que o conheceram falam de originalidade limitada. Esteve lá, publicação atrás de publicação, durante duas décadas.


Nos últimos anos foi deixando o desenho. Passou a escrever sonetos de métrica canónica. Dois temas apenas: a História que sempre o obcecara e um erotismo cada vez mais desbragado, a roçar a pornografia. Compararam-no sempre a Stuart Carvalhais: aura boémia, pincel e frasco de tinta sempre à mão, ainda que sem o álcool que costuma acompanhar a lenda. Nasceu em 1961 e morreu a 9 de Setembro passado. Vestido de Bocage numa tarde de 1992 por brincadeira, passou as três décadas seguintes a tornar a brincadeira séria.



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