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O título esconde a história - Descubra o Atlantic Lisbon

Prazer feminino: a história depende de quem a registou

há 10 minutos
4 min de leitura

Um objeto romano, um processo judicial e um poema preservam vestígios diferentes da sexualidade. A história do prazer feminino depende também de como esses registos foram produzidos, classificados e conservados.


Durante cerca de três décadas, um objeto de madeira encontrado no forte romano de Vindolanda, no norte de Inglaterra, permaneceu identificado como utensílio de cerzir. Em 2023, os arqueólogos Rob Collins e Rob Sands publicaram uma reavaliação: a peça, descoberta em 1992, representava um falo.


Capa tipográfica do Atlantic Lisbon com o título Prazer feminino: a história depende de quem a registou, em preto e terracota sobre fundo marfim.
Objetos, processos judiciais e poemas preservam vestígios diferentes do prazer feminino. Capa: Atlantic Lisbon.

A identificação não resolveu a sua função.


Os investigadores consideraram a possibilidade de uso sexual, mas também a de um pilão ou de uma peça associada a uma estátua protetora. O desgaste nas extremidades e o contexto arqueológico forneciam pistas, sem permitir uma conclusão definitiva.


Um objeto não identifica necessariamente os seus utilizadores. Um poema representa uma situação imaginada. Um processo judicial preserva palavras recolhidas para investigar e punir. A história do prazer feminino obriga a reconhecer essas diferenças entre as fontes.


O que a madeira conservou


A madeira só sobrevive em condições particulares. Em Vindolanda, os depósitos húmidos e com pouco oxigénio conservaram materiais orgânicos que, noutros locais, se teriam degradado. O estudo de Collins e Sands chama a atenção para essa desigualdade do registo arqueológico.


A quantidade de peças encontradas não corresponde, por isso, à quantidade de objetos que existiram. Parte da diferença resulta das condições de preservação, antes sequer de começar a interpretação.


Ruínas de edifícios de pedra do povoado civil junto do forte romano de Vindolanda.
Povoado civil junto do forte de Vindolanda, no norte de Inglaterra. As condições do sítio permitiram conservar materiais orgânicos raros noutros locais. Fotografia de arquivo: Sandy Gerrard, 9 de setembro de 2021. CC BY-SA 2.0. · Origem · Licença

A primeira classificação de Vindolanda foi influenciada pelo contexto: a peça apareceu junto de calçado, acessórios e desperdícios de atividades artesanais. A associação a um utensílio de trabalho tinha, portanto, uma base arqueológica. A revisão mostra que uma classificação fundamentada pode continuar a ser provisória.


Quem pesquisa utensílios de costura e quem investiga sexualidade pode consultar conjuntos diferentes de um mesmo acervo. A designação interfere na descoberta do objeto, nas comparações que se fazem e nas hipóteses que chegam a ser discutidas.


O trabalho do museu inclui, assim, a possibilidade de rever descrições. Conservar uma peça permite regressar a ela com perguntas que os primeiros investigadores não formularam ou não conseguiram resolver.


A revisão também pode produzir um novo excesso. Substituir uma classificação prudente por uma certeza sexual que a evidência não sustenta seria trocar uma limitação por outra. A identificação da forma e a demonstração da função continuam a exigir argumentos distintos.


Duas metades fragmentadas de uma tabuinha de madeira de Vindolanda, com linhas de escrita a tinta.
Tabuinha 291 de Vindolanda, com um convite de Cláudia Severa a Lepidina, conservada no British Museum. A madeira preservou também correspondência quotidiana. Fotografia: Fæ, 3 de março de 2011. CC BY-SA 3.0. · Origem · Licença

As palavras que um tribunal decidiu guardar


Outro tipo de vestígio encontra-se no processo de Katherina Hetzeldorfer, julgado em Speyer em 1477. O historiador Helmut Puff estudou e publicou o documento, acompanhado de tradução, num artigo de 2000. Hetzeldorfer foi executada por afogamento no Reno.


O processo descreve relações sexuais com mulheres e um instrumento construído para esses encontros, mas não atribui um nome jurídico preciso à transgressão. Puff assinala a preocupação dos interrogadores com a adoção de um papel que entendiam como masculino.


O documento contém depoimentos da pessoa acusada, de testemunhas e referências a conversas na comunidade. Essas vozes chegaram à escrita através do aparelho de investigação municipal. A ordem das perguntas, as formulações registadas e as estratégias de defesa fazem parte da fonte.


O detalhe pode coexistir com uma ausência decisiva: sabemos o que os interrogadores procuraram esclarecer, mas muito menos sobre aquilo que a pessoa investigada teria escolhido contar fora daquele contexto.


Vista gravada de Speyer, com muralhas, torres e edifícios assinalados, numa edição de Braun e Hogenberg.
Speyer numa vista de Georg Braun e Frans Hogenberg, da edição de 1582 de Civitates Orbis Terrarum. A imagem é posterior ao processo de 1477. Reprodução: Biblioteca da Universidade de Heidelberg. Domínio público. · Origem · Licença

Prazer feminino numa voz inventada


Em The Choise of Valentines, poema de Thomas Nashe associado ao final do século XVI, uma personagem feminina encontra num objeto sexual uma alternativa à insatisfação com o amante. O dispositivo funciona também como rival cómico do homem.


A leitura permite reconhecer uma representação do desejo feminino com iniciativa própria. Mas a personagem pertence a uma construção literária: a sua fala não pode ser tomada como depoimento direto de mulheres daquela época.


Um autor pode pôr uma mulher a afirmar o seu prazer para produzir humor, provocar o leitor ou explorar uma ansiedade masculina. O poema mostra que tal situação podia ser imaginada e comunicada. A frequência das práticas, a composição do público ou a experiência das mulheres exigem outras provas.


Xilogravura satírica de Thomas Nashe de pé, com correntes nos tornozelos e cabelo desgrenhado.
Representação satírica de Thomas Nashe em The Trimming of Thomas Nashe, de Richard Lichfield, publicado em 1597. Xilogravura de autor desconhecido. Domínio público. · Origem · Licença

Os manuscritos também têm uma história


A Folger Shakespeare Library conserva uma das cópias de The Choice of Valentines e assinala que o poema não foi impresso durante a vida de Nashe. O Catalogue of English Literary Manuscripts identifica diferentes testemunhos manuscritos e situa a publicação integral em 1899.


As cópias mostram outra forma de transmissão. Um manuscrito pode desaparecer, permanecer numa coleção pouco acessível ou ser identificado muito depois. A investigação altera o conjunto conhecido quando localiza e compara esses testemunhos.


Vindolanda, Speyer e os manuscritos de Nashe não contam a mesma história. O objeto perdeu a explicação do seu uso; o tribunal organizou os relatos segundo uma investigação; o poema deu forma literária a uma situação sexual.


A experiência íntima chega ao presente através de suportes que selecionam e transformam aquilo que preservam. O arquivo torna algumas vidas visíveis.


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