Caminhar à noite: a escuridão também se planeia
Atualizado: há 2 dias
A luz permite usar a rua depois de anoitecer. A sua intensidade, direção e horário também determinam o que se vê, das janelas ao céu.
Uma rua pode ser percorrida duas vezes e parecer diferente depois de anoitecer. Alguns pormenores desaparecem; outros ganham relevo. Uma janela iluminada chama a atenção, um som torna-se mais fácil de localizar, a distância entre dois pontos deixa de ser avaliada apenas pelo que se vê.
Caminhar à noite altera a relação com um lugar conhecido. A literatura tem explorado essa mudança. A propósito de The Indigo Hours: Writers Walk the Night, antologia organizada por Duncan Minshull, a jornalista Jan Dalley percorreu com o editor um troço do Tamisa, em Londres. A reportagem do Financial Times reúne a experiência do passeio e a história de escritores que encontraram na noite outras formas de observar.
O tema permite sair do itinerário literário e olhar para uma condição material desses passeios: a noite disponível numa cidade depende da forma como é iluminada. A luz torna possíveis atividades e deslocações. A sua distribuição decide também o que fica visível, o que entra pelas janelas e quanto do céu ainda se consegue distinguir.
Quem pode caminhar à noite?
A antologia de Minshull reúne mais de cinquenta textos, provenientes de memórias, diários, cartas e relatos de viagem. O catálogo da editora apresenta vozes de diferentes épocas, incluindo Thomas De Quincey, Mary Morris e Colm Tóibín.
O mesmo percurso pode ser lazer para uma pessoa e uma deslocação necessária para outra. Um texto capta uma dessas relações; dificilmente representa todas as condições em que as pessoas usam a rua.
Na reportagem do FT, a liberdade de passear é atravessada por essa diferença. Dalley refere as perguntas de amigas sobre o medo de caminhar à noite e inclui a reflexão de Annabel Abbs sobre esse receio.
O interesse cultural da noite depende de haver condições para a percorrer. A possibilidade de escolher a hora, o trajeto e a companhia faz parte dessa experiência. Um espaço desenhado apenas para quem se sente confortável em todas as circunstâncias deixa perguntas por responder sobre os restantes utilizadores.
As estrelas que se deixam de ver
A transformação luminosa da noite pode ser estudada para além das impressões individuais. Um trabalho publicado na revista Science, em 2023, analisou 51 351 observações de estrelas a olho nu, recolhidas entre 2011 e 2022 no âmbito de um projeto de ciência cidadã.
Os investigadores encontraram uma redução da visibilidade das estrelas compatível com um aumento do brilho do céu de cerca de 7% a 10% por ano, na faixa de luz percetível pelo olho humano. O estudo identificou ainda diferenças em relação ao que as observações por satélite mostravam, associadas às características e à direção da luz emitida.
Estes resultados não medem a situação de cada rua portuguesa. Uma intervenção feita ao nível do passeio pode ter efeitos para além do espaço que se pretendia iluminar. O céu é partilhado por pessoas que não escolheram a intensidade nem a orientação das fontes de luz à sua volta.
Onde faz falta a luz
A DarkSky International e a Illuminating Engineering Society, a IES, propõem cinco princípios para a iluminação exterior: utilidade, orientação para o local necessário, intensidade adequada, controlo do período de funcionamento e preferência por cores mais quentes quando possível.
A proposta exige definir a tarefa antes de instalar a luz. Iluminar uma passagem, destacar uma fachada e tornar legível uma entrada são objetivos diferentes. O local para onde a luz é dirigida e o horário em que funciona devem poder ser justificados por esses usos.
Aplicados ao espaço público, estes princípios permitem discutir alternativas concretas. Importa saber onde as pessoas precisam de distinguir o piso, reconhecer acessos e orientar-se. Importa igualmente verificar se a luz se dispersa para áreas onde não serve a função prevista.
Essa avaliação tem de incorporar quem utiliza o espaço. A experiência de alguém com dificuldades de visão ou mobilidade pode revelar problemas que passam despercebidos a outro utilizador.
Antes de olhar para o céu, é preciso conseguir andar
O interesse pelas caminhadas noturnas convida a olhar novamente para um percurso familiar. A cidade oferece lugares que podem ser observados em horas diferentes, sem que seja necessário transformar a noite numa viagem especial.
Mas essa possibilidade depende da qualidade do percurso. Um passeio contínuo, uma travessia compreensível, um acesso reconhecível e uma iluminação bem distribuída entram na experiência antes de qualquer disposição contemplativa. A atenção ao céu ou às fachadas pressupõe que seja possível deslocar-se.
A leitura dos passeios literários ganha outra dimensão quando regressa a estas condições. O escritor pode narrar o que sentiu ao atravessar a noite. O planeamento urbano tem de considerar quem poderá atravessá-la, em que condições e para realizar que tarefas.
Uma antologia conserva descrições de lugares e sensações. Um projeto de iluminação altera o lugar que os próximos caminhantes encontrarão.









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