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Sanna Marin: o direito de ocupar o poder sem pedir desculpa

18 de set.
4 min de leitura

Foi julgada pela idade, pelas roupas e por dançar enquanto governava. Hoje, fora do poder, dirige a mesma frontalidade à Europa: uma região que continua a confundir prudência com dependência e soberania com isolamento.


Sanna Marin foi julgada pela idade e pela vida pessoal como primeira-ministra da Finlândia.


Em agosto de 2022, um vídeo de Sanna Marin a dançar e a cantar com amigos numa festa privada tornou-se notícia internacional. Semanas depois, surgiu uma fotografia de duas convidadas em topless na residência oficial de verão da primeira-ministra finlandesa. Marin pediu desculpa pela fotografia.


Capa abstrata com o título “Sanna Marin: o direito de ocupar o poder sem pedir desculpa” e “Atlantic Lisbon” no centro.
“Sanna Marin: o direito de ocupar o poder sem pedir desculpa” e a assinatura Atlantic Lisbon.

Com a distância dos anos, já não aceita que o episódio seja contado apenas como um erro seu. Na autobiografia publicada em 2025, escreveu que perdeu a conta às ameaças de violação recebidas enquanto esteve no cargo. A festa deixou de ser uma nota sobre comportamento pessoal para expor uma vigilância que procurava no corpo, nas roupas e na vida privada de uma mulher a prova de que ela não pertencia inteiramente ao lugar que ocupava.


Não foi a primeira chefe de governo a ter vida privada. Foi uma das poucas obrigadas a justificá-la perante audiências internacionais, como se dançar aos 36 anos revelasse alguma coisa de essencial sobre a capacidade de governar um país.


Marin não apaga o pedido de desculpa que fez na altura. Recusa a interpretação moral construída em torno dele. O que foi apresentado como um problema de decoro aparece agora como parte de uma tentativa persistente de a reduzir à idade, ao género e à aparência.


Essa resistência reconhece-se também na forma como fala da Europa.


Sanna Marin deixou a política finlandesa em 2023 e tornou-se conselheira estratégica do Tony Blair Institute for Global Change. Avisa agora os governos europeus de que estão a repetir na tecnologia o erro cometido com a energia russa.


Durante anos, os países europeus aceitaram depender de uma potência hostil para obter uma matéria indispensável ao funcionamento das suas economias. Arriscam-se agora a entregar a outras potências o controlo de infraestruturas digitais, plataformas, dados, semicondutores e sistemas de inteligência artificial dos quais dependerá uma parte crescente da vida coletiva.


Para Sanna Marin, o problema é político. Uma Europa que não controla as tecnologias de que depende também não controla inteiramente as condições em que decide, produz, comunica ou se defende.


A Finlândia tem cerca de 1300 quilómetros de fronteira com a Rússia, combateu-a em várias guerras, perdeu aproximadamente um décimo do território e teve de realojar centenas de milhares de pessoas. Quando Marin fala da ameaça russa, não descreve um exercício teórico elaborado em Bruxelas. Fala a partir de um país cuja memória política foi construída ao lado dessa fronteira.


É também por isso que sustenta uma ideia desconfortável para várias capitais: a Europa precisa hoje mais da Ucrânia do que a Ucrânia precisa da Europa. O argumento é prático. A Ucrânia adquiriu um conhecimento operacional sobre o exército russo, os seus métodos, as suas vulnerabilidades e a transformação contemporânea da guerra que nenhum Estado da União Europeia consegue reproduzir em exercícios ou documentos estratégicos.


A Europa fornece armas, financiamento e apoio político. A Ucrânia possui a experiência militar de que a segurança europeia já depende.


Ao assumir o cargo de primeira-ministra, em dezembro de 2019, a adesão à NATO não constituía o horizonte imediato da Finlândia. A invasão russa da Ucrânia alterou essa posição. Sanna Marin participou então num dos movimentos estratégicos mais profundos da história recente do país, encerrando cerca de oito décadas de neutralidade militar e concluindo em poucos meses um processo que antes parecia politicamente improvável.


Tinha 34 anos quando se tornou primeira-ministra, sendo então a chefe de governo mais jovem em funções no mundo. A idade tornou-se uma descrição recorrente, quase sempre acompanhada por referências à aparência, às roupas ou à vida social. Marin insistiu noutro dado: não chegou ao poder apesar das suas origens. Chegou porque encontrou instituições públicas que impediram que essas origens decidissem antecipadamente o seu destino.


A mãe crescera num orfanato, começara a trabalhar aos 15 anos e tivera-a aos 23, sem dinheiro nem rede familiar. A trajetória de Sanna Marin poderia alimentar a narrativa habitual da mulher que venceu sozinha. Ela prefere falar das creches, das escolas e da universidade financiadas por um Estado que não perguntava de que família vinha cada criança antes de decidir quanto valia a pena investir nela.


Não nega o trabalho, a ambição ou a capacidade individual. Nega que bastem quando uma sociedade distribui de forma desigual as condições necessárias para que possam produzir resultados.


É a partir dessa experiência que Sanna Marin critica a fragmentação europeia. Quando estão em causa a defesa, a energia ou a tecnologia, cada governo continua frequentemente a agir como se pudesse proteger sozinho a sua indústria, a sua segurança e a sua autonomia.


A coligação liderada por Sanna Marin ficou em terceiro lugar nas eleições de 2023. Mais tarde, ela abandonou o Parlamento finlandês. Fora do governo, deixou de ter de acomodar o que pensa às cautelas diárias do poder.


Durante o mandato, teve de defender o direito de não ser reduzida à sua vida privada. Hoje, questiona a disposição europeia para aceitar dependências estratégicas enquanto lhes chama cooperação, mercado ou prudência.


Nos dois casos, Sanna Marin recusa aceitar como inevitável aquilo que apenas se tornou habitual. A festa foi um episódio. A discussão sobre quem pode ocupar o poder sem pedir desculpa por existir nele ainda não terminou.


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