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  • O que sobra de uma tarde

    Amélia dobrou o formulário ao meio antes de perceber que não o ia precisar. Voltou a abri-lo, alisou-o com a palma da mão, e colocou-o no tabuleiro de baixo, onde ficavam as coisas para segunda-feira. Numa sexta-feira de junho, o que não se diz ocupa mais espaço do que o que se diz. Capa de O Que Sobra de Uma Tarde, conto publicado por Atlantic Lisbon, evocando a solidão administrativa, o peso das pequenas perdas e a luz suspensa de um fim de tarde que já não volta. Eram dezassete e quarenta e dois. O ventilador do computador fazia um ruído que ela já não ouvia há anos. Pela janela do gabinete entrava a luz de fim de tarde, aquela luz baça de junho que não ilumina nada mas aquece tudo, e o campo de jogos lá ao fundo estava vazio à exceção de dois miúdos a darem pontapés numa bola sem qualquer convicção. Tinha ficado mais meia hora para fechar os registos do terceiro período. Era o que havia para fazer e ia fazê-lo. Ouviu passos no corredor antes de ver a sombra no vidro da porta. Bateram duas vezes, com os nós dos dedos, de forma hesitante — a hesitação de quem não tem a certeza se deve entrar. — Sim — disse ela, sem levantar os olhos do ecrã. O homem que entrou tinha a camisa desapertada no colarinho e carregava um casaco dobrado num braço. Trinta e tal anos, cabelo escuro, uma barba por fazer de três ou quatro dias. Ficou junto à porta como se a distância ao balcão fosse uma questão ainda por resolver. — Boa tarde. Desculpe incomodar a esta hora. — Diga. — Preciso de uma certidão de habilitações. Tenho uma entrevista na próxima semana e pediram-me o original. Amélia olhou para o relógio no canto do ecrã. Dezassete e quarenta e quatro. — O prazo para pedidos de certidões é até às dezasseis e trinta. Já não é possível hoje. — Sim, eu sei, é que — fez uma pausa — só soube hoje de manhã que precisava. É para uma coisa urgente. — Na segunda-feira estamos abertos a partir das nove. O homem assentiu, mas não saiu. Deslocou o casaco de um braço para o outro. Havia qualquer coisa no gesto — não no gesto em si, mas na repetição dele, a forma como o casaco passava de um lado para o outro como se fosse um objeto que precisasse de ser colocado algures e não houvesse sítio certo — que fez Amélia olhar para ele de verdade pela primeira vez desde que ele entrara. — Andou aqui na escola? — perguntou ela. Não era a pergunta que queria fazer. Queria dizer a segunda-feira estamos cá e voltar ao ecrã. — Sim. Saí em dois mil e oito. Ela virou-se para o teclado e escreveu o apelido que ele lhe deu. Rodrigo Tavares. A ficha abriu com a fotografia de um miúdo de dezasseis anos, cara redonda, expressão séria de quem estava a tentar parecer mais velho do que era. Amélia olhou para a fotografia e depois para o homem à sua frente e a correspondência era e não era evidente, a forma como certas pessoas crescem de um lado e não do outro, ficam com qualquer coisa da criança colada a uma parte do rosto que o tempo não encontra. — Está tudo em ordem — disse ela. — Na segunda-feira demora no máximo vinte minutos. — A entrevista é na segunda-feira de manhã. — A que horas? — Às dez. — Se vier às nove temos tempo. O homem ficou em silêncio. Amélia esperou que saísse. Em vez disso, ele disse: — A minha mãe morreu em março. Ela não respondeu imediatamente. Não era o tipo de coisa a que se respondesse imediatamente. — Lamento — disse ela, depois. — Ela guardava tudo. Diplomas, boletins, tudo em pastas. Mas a certidão não estava. Andei um mês à procura. — Compreendo. Não era verdade que compreendia, ou era verdade de uma forma que não servia para nada. Amélia conhecia o peso das gavetas de outra pessoa depois de essa pessoa ter morrido, a forma como os papéis ganham uma densidade diferente quando já não há ninguém para explicar porque é que aquele envelope estava junto àquele outro, porque é que esta fotografia estava dobrada e guardada entre dois documentos do banco. O seu marido tinha morrido com tudo em ordem e mesmo assim ela passara semanas a abrir gavetas à procura de qualquer coisa que não sabia nomear. — Posso fazer o pedido agora e emitir na segunda de manhã cedo — disse ela. — Mas não posso garantir antes das nove e meia. — Tudo bem. Obrigado. Ela começou a preencher o formulário. O homem ficou do outro lado do balcão, mas desta vez não havia a hesitação de antes. Ficou quieto, a olhar para o gabinete com uma atenção distraída, o tipo de atenção de quem está a ver sem estar realmente a ver. — Já trabalha aqui há muito tempo? — perguntou ele. — Vinte e três anos. — Deve conhecer muita gente. — Conheço os processos — disse ela. — As pessoas passam. Não era uma resposta simpática mas era verdadeira e ela não tinha obrigação de ser simpática fora do estritamente necessário. Vinte e três anos eram muitos alunos, muitos pais à porta com exigências, muitos professores com urgências que não eram urgências. Aprendera a fazer a separação cedo. — Eu lembro-me de si — disse ele. Amélia continuou a escrever. — Havia uma funcionária que nunca se enganava. Toda a gente dizia isso. Se fosse a dona Amélia estava resolvido, se fosse outro havia sempre um problema. — As pessoas exageram. — Era o que diziam. Ela imprimiu o comprovativo do pedido e carimbou-o com mais força do que era necessário. O barulho do carimbo encheu o gabinete por um momento e depois o ventilador voltou a ser o único som. — Segunda-feira às nove — disse ela, e estendeu o papel por cima do balcão. Ele pegou no comprovativo e dobrou-o com cuidado, como se fosse um documento mais importante do que era. Era um gesto que ela reconheceu sem conseguir imediatamente dizer de onde. Não do miúdo da fotografia. De outro sítio. O seu filho dobrava assim os papéis. Com aquela atenção ligeiramente excessiva, como se o gesto de dobrar fosse uma forma de ganhar tempo para pensar na coisa seguinte. Amélia voltou para o ecrã. — Boa sorte na entrevista — disse ela. — Obrigado. Boa tarde. Ouviu os passos a afastarem-se no corredor, ouviu a porta exterior a bater com o peso próprio das portas de escola, e ficou a olhar para o ecrã sem ler o que estava escrito. O campo de jogos lá fora estava agora completamente vazio. Os dois miúdos tinham ido embora sem que ela desse conta. A bola ficara encostada ao poste da baliza. Amélia abriu o ficheiro dos registos do terceiro período e colocou o cursor no primeiro campo em branco. Havia ainda quarenta e seis entradas para verificar. Era trabalho de quarenta minutos se não houvesse interrupções. O seu filho chamava-se Nuno. Tinha trinta e dois anos e trabalhava em Setúbal numa empresa qualquer de logística. Ela sabia isto não porque ele lho tivesse dito mas porque a irmã dele, a Catarina, lho dissera numa chamada de novembro, com aquele tom de quem está a transmitir informação e não quer ser responsabilizada pela informação. Ele está bem, mãe. Está a trabalhar. Como se estar a trabalhar fosse uma categoria moral suficiente. A última vez que tinham falado de verdade foi num domingo de outubro, há quase dois anos, ao telefone. Ela dissera alguma coisa sobre a forma como ele gastava o dinheiro. Ele dissera alguma coisa sobre ela não perceber nada da vida dele. Eram coisas que já tinham sido ditas antes e que por isso não deveriam ter o peso que tiveram, mas às vezes é assim: uma frase que podia ter sido dita em qualquer outra ocasião cai num momento errado e fica. Ele não ligou no Natal. Ela não ligou no aniversário dele. Não houve um dia em que tivessem decidido não falar. Houve vários dias em que não falaram até se tornarem demasiados para ser coincidência. Amélia escreveu o nome do primeiro aluno no campo de texto e verificou a nota. Catorze valores. Passou para o seguinte. Não tinha sido ela a dizer as coisas mais graves. Tinha a certeza disso. Ou tinha a certeza de que as coisas mais graves que tinham sido ditas tinham sido ditas dos dois lados, e que portanto a responsabilidade era partilhada, e que portanto não havia razão para ser ela a ligar primeiro. Esta era a lógica que usava quando a questão aparecia, o que acontecia menos do que aparentava. Conseguia passar dias sem pensar nisso. Semanas, às vezes. O ventilador do computador mudou ligeiramente de tom, aquele aumento imperceptível que anunciava que a máquina estava a trabalhar mais. Amélia guardou o ficheiro por precaução. O miúdo da fotografia — Rodrigo Tavares, saiu em dois mil e oito — tinha dezasseis anos na fotografia e agora tinha trinta e quatro, o que significava que tinha nascido em mil novecentos e noventa, o mesmo ano em que o Nuno começara a andar. Ela lembrava-se do ano porque o seu marido comprara uma máquina fotográfica nova especialmente para isso e havia uma caixa inteira de fotografias de um miúdo a tentar pôr-se de pé apoiado em coisas. Não era isso. Não era a coincidência dos anos. Era o casaco a passar de um braço para o outro, era os papéis dobrados com aquela atenção ligeiramente excessiva, era a forma de ficar parado junto à porta como se a distância fosse uma questão por resolver. Não era o Nuno. Era um homem que tinha perdido a mãe em março e precisava de uma certidão para uma entrevista na segunda-feira. Amélia voltou ao ficheiro. Décima entrada, quinze valores. Décima primeira, onze. A luz lá fora estava a mudar de cor, aquela passagem do amarelo para um laranja ainda suave que acontecia sempre antes de ela dar conta e que significava que eram quase seis horas. Havia quarenta e seis entradas para verificar. Era trabalho de quarenta minutos. Ela trabalhou em silêncio até terminar.

  • Os curdos, a guerra e a promessa que Washington nunca cumpre

    Há uma fotografia recorrente na história do Médio Oriente moderno: homens e mulheres curdos, de armas ao ombro, a olhar para uma linha de montanhas que para os outros é fronteira e para eles é apenas continuação da mesma terra e nas mesmas guerras. A imagem repete-se com pequenas variações de década para década — o uniforme muda, o patrocinador muda, a sigla muda, o inimigo muda de nome — mas a posição é quase sempre a mesma. Estão no limite de alguma coisa. À espera. Úteis. Capa editorial para Atlantic Lisbon sobre os curdos, a guerra e o padrão histórico de promessas estratégicas não cumpridas por Washington, numa composição austera de corredor vazio, tensão e distância. Curdos - Guerra - WASHINGTON. A utilidade é a forma mais instável de aliança. Enquanto serve, parece reconhecimento. Quando deixa de servir, revela-se o que sempre foi: uma relação de prazo curto entre a necessidade de uma potência e a sobrevivência de um povo sem Estado. Os curdos sabem-no melhor do que ninguém, porque quase toda a sua história contemporânea pode ser lida como uma sucessão de convites para a guerra seguidos de instruções para o silêncio. É por isso que, sempre que Washington volta a olhar para milícias curdas como instrumento possível de pressão sobre Teerão, Ancara, Bagdade ou Damasco, a linguagem oficial parece mais nova do que realmente é. O vocabulário muda: parceiros no terreno, forças locais, contenção regional, actores não estatais, estabilização, pressão assimétrica. A estrutura, essa, é antiga. Os curdos entram na frase como promessa táctica e saem dela como problema diplomático. No intervalo, morrem. O caso presente — a possibilidade de grupos curdos iranianos no Zagros funcionarem como componente periférica de uma guerra mais vasta contra o regime de Teerão — deve ser lido à luz dessa rotina. Não como episódio isolado, mas como uma variação de um padrão americano que já deixou ruínas suficientes para dispensar ingenuidade. Quando Washington sugere, de forma aberta ou apenas insinuada, que as milícias curdas podem vir a ter uma função num confronto regional, não está apenas a pensar em geografia militar. Está a activar uma memória política que, para os curdos, nunca é abstracta. A memória tem nomes, datas, valas, êxodos, postos de fronteira fechados à última hora. No norte do Iraque, essa memória continua inscrita no terreno. Não como monumento, mas como hábito. Há aldeias que conhecem demasiado bem o som das promessas estrangeiras: chegam pelo rádio, pela visita de um emissário, por uma alteração subtil no tom de um aliado local, pela circulação súbita de armas, pela linguagem nova de uma imprensa que, durante anos, ignorou o mapa e agora o descobre com urgência. A guerra começa muitas vezes assim, antes do primeiro tiro: quando uma potência distante decide que uma população periférica voltou a ter valor operacional. O problema, para Washington, é simples de formular e difícil de resolver. O regime iraniano pode ser demasiado resistente para cair só com sanções, sabotagem, ciberoperações e poder aéreo. Tropas americanas no terreno seriam politicamente tóxicas. Uma força curda, ou uma constelação de forças curdas, oferece portanto aquilo que os estrategas gostam de chamar uma solução intermédia: gente suficiente para complicar a vida ao inimigo, pouca visibilidade americana, margem plausível de negação. Na linguagem técnica, isto chama-se alavanca local. Na linguagem histórica, chama-se outra coisa: terceirização do risco. É nesse ponto que a análise militar e a memória moral se encontram. Os curdos não são apenas mais uma variável numa equação regional. São uma variável que já foi usada demasiadas vezes da mesma maneira para que se continue a falar dela como se fosse neutra. Em 1975, os Estados Unidos e o Irão do xá incentivaram uma insurreição curda no Iraque e abandonaram-na quando o acordo de Argel tornou a utilidade curda dispensável. Henry Kissinger respondeu à catástrofe com a frase que ainda hoje paira sobre qualquer conversa séria sobre este tema: a política externa não deve ser confundida com trabalho missionário. A frase tinha a secura da honestidade imperial. Também tinha a crueldade de quem sabe que a história será feita por outros corpos. A partir daí, a relação não melhorou; apenas ganhou novas embalagens. Em 1991, depois de encorajar os iraquianos a levantarem-se contra Saddam Hussein, Washington deixou os curdos expostos ao massacre e ao exílio em massa até o espetáculo humanitário se tornar demasiado grande para continuar ignorado. No nordeste da Síria, décadas mais tarde, os curdos voltaram a servir como infantaria indispensável contra o Estado Islâmico — eficazes o suficiente para serem celebrados enquanto combatiam, descartáveis o suficiente para serem deixados à mercê de outros aliados quando a geopolítica voltou a mudar de prioridade. É este o contexto real por detrás de qualquer hipótese de activação curda contra Teerão. Não um quadro limpo de opções estratégicas, mas um arquivo de precedentes em que a eficácia táctica curda foi quase sempre inversamente proporcional à solidez da garantia recebida. Quanto mais úteis foram, mais expostos ficaram ao momento em que a utilidade terminava. O que torna a situação actual mais instável é o sítio onde essa velha lógica regressa. O Curdistão iraquiano não é apenas uma retaguarda geográfica. É um espaço politicamente poroso, diplomaticamente vulnerável e militarmente demasiado próximo de demasiados interesses concorrentes. Teerão vê ali uma ameaça latente. Ancara vê uma infiltração permanente do problema curdo na sua própria arquitectura de segurança. Bagdade finge mais controlo do que tem. E Washington vê, como tantas vezes, uma periferia suficientemente distante para ser usada e suficientemente central para incendiar a região inteira se alguma coisa correr mal. Correr mal, neste caso, não significa necessariamente falhar no objectivo imediato. Pode significar até o contrário: uma operação curda suficientemente eficaz para obrigar Teerão a desviar meios, reforçar fronteiras, endurecer a repressão interna e elevar o custo da guerra. Isso, do ponto de vista americano, poderia parecer um sucesso parcial. Mas sucessos parciais têm o hábito de produzir desastres completos quando assentam sobre povos cuja protecção política nunca foi o objectivo central da operação. É aqui que a palavra promessa exige precisão. Washington raramente promete aos curdos um Estado. Já aprendeu a não prometer tanto. O que promete, ou deixa que seja ouvido como promessa, é uma coisa mais evasiva e por isso mais difícil de cobrar: apoio, cobertura, oportunidade, janela, parceria, reconhecimento funcional. O suficiente para que alguém arrisque. Nunca o suficiente para que alguém possa dizer, no fim, que houve traição no sentido contratual. A promessa americana aos curdos não é quebrada porque quase nunca chega a ser formulada de modo a poder ser juridicamente quebrada. É uma promessa por atmosfera. E é precisamente por isso que consegue repetir-se. Numa sala em Washington, esta distinção parece inteligência estratégica. Numa encosta do Zagros, parece outra coisa: a diferença entre voltar vivo e ficar dependente da próxima rotação do interesse americano. Há, além disso, um erro recorrente nas análises feitas de demasiado longe. Confunde-se frequentemente o desejo curdo de autonomia, ou simplesmente de sobrevivência digna, com disponibilidade automática para servir qualquer plano externo contra qualquer adversário comum. Essa leitura infantiliza. Nem todos os grupos curdos têm o mesmo cálculo, nem a mesma memória, nem a mesma margem de manobra. Alguns querem apoio, mas temem o preço político de o receber. Outros aceitam o apoio porque sabem que a alternativa é a irrelevância armada. Outros ainda percebem, com amargura adulta, que a história lhes retirou há muito o luxo da pureza. A pergunta para eles nunca é se devem confiar em Washington. É o que fazer num mundo em que não confiar não elimina a necessidade de agir. Talvez por isso haja qualquer coisa de enganador na imagem romântica do combatente curdo como símbolo universal da resistência traída. A imagem emociona, mas simplifica. O problema não é apenas a traição. É a estrutura que torna previsível a repetição da traição e, ainda assim, deixa poucas alternativas a quem está encurralado entre Estados hostis e potências oportunistas. O heroísmo, aqui, não corrige a assimetria; apenas a torna suportável de olhar. De Lisboa, isto vê-se com uma clareza particular. Não porque Portugal tenha qualquer autoridade especial sobre a questão curda, mas porque conhece bem a gramática dos aliados descartáveis. Conhece-a do lado de quem administrou periferias, usou interpostos, distribuiu lealdades por utilidade e chamou pacificação ao que era apenas gestão violenta da distância. E conhece-a também do lado de quem, já empobrecido e reduzido, aprendeu que as promessas das potências centrais raramente são feitas para durar mais do que o seu interesse. Há países que conhecem o mundo pelo centro do mapa. Portugal conhece-o também pelas bordas onde os compromissos ficam menos sólidos. Talvez seja por isso que a questão curda exija menos entusiasmo moral e mais precisão histórica. Não é preciso decidir se os curdos são “bons aliados” ou “más apostas”. Nem repetir, com vocabulário novo, a velha sentimentalização ocidental de um povo corajoso a quem se presta homenagem verbal no exacto momento em que se o deixa sozinho. O que é preciso é reconhecer que a relação entre Washington e os curdos não falha por acidente. Funciona segundo um desenho em que a falha está incorporada desde o início. A aliança dura enquanto o objectivo táctico coincide com a conveniência diplomática; a partir daí, a realidade regional volta a impor a hierarquia verdadeira dos interesses. Essa hierarquia nunca é anunciada com clareza total, mas revela-se sempre no momento decisivo. A Turquia pesa mais. A estabilidade iraquiana pesa mais. A gestão da escalada com o Irão pesa mais. O controlo da NATO pesa mais. O preço da energia pesa mais. A credibilidade global dos Estados Unidos, quando muito, pesa mais. Os curdos entram nesse cálculo não como sujeito estratégico autónomo, mas como variável dependente. O trágico não é apenas que isto aconteça. É que toda a gente envolvida, a certa altura, o sabe. Mesmo assim, a hipótese regressa. Regressa porque as montanhas continuam lá, porque as milícias existem, porque as fronteiras são porosas, porque a guerra gosta de ferramentas já disponíveis. Regressa porque a história nunca é suficientemente humilhante para impedir uma potência de repetir um método que continua a parecer-lhe eficiente no curto prazo. E regressa porque, para os curdos, a escolha raramente é entre confiança e recusa; é entre diferentes formas de risco, todas elas com precedente. Se a guerra com o Irão se prolongar, a tentação americana de usar a carta curda voltará a ganhar força. Não na forma grandiosa de uma promessa fundadora, mas na forma administrativa de sempre: um apoio aqui, uma abertura ali, alguma informação, alguma tolerância, algum equipamento, alguma linguagem de encorajamento que não comprometa demasiado. O suficiente para criar expectativa. O suficiente para produzir movimento. O suficiente, também, para que, se as coisas se complicarem, seja possível dizer que nunca houve garantia. É por isso que o título desta história não deve ser “os curdos e a América”, como se estivéssemos perante uma relação bilateral com alguma simetria. O título verdadeiro é a promessa que Washington nunca cumpre. Não porque seja sempre verbalizada e depois traída em espectáculo, mas porque está inscrita no próprio formato da relação: usar sem assumir, activar sem garantir, elogiar sem vincular, agradecer sem ficar. Nas montanhas, isto aprende-se cedo. Talvez seja por isso que a fotografia recorrente continua a ser a mesma: homens e mulheres curdos de armas ao ombro, a olhar para o horizonte como quem conhece demasiado bem a diferença entre ajuda e solução. Atrás deles mudam os impérios, os regimes, os presidentes, os acrónimos. À frente deles fica quase sempre a mesma coisa — a guerra, a montanha e a próxima promessa. #Curdos #MédioOriente #Irão #EstadosUnidos #GeopolíticaRegional #CurdistãoIraquiano

  • A rua e o que ficou por mudar

    Em Albuquerque, a avenida muda de nome a meio do caminho. De um lado, Cesar Chavez. Do outro, Dolores Huerta. O asfalto não muda, nem o trânsito, nem a pressa com que as pessoas atravessam a cidade sem olhar para a placa. Mas a placa está lá para isso mesmo: para fixar uma versão da memória no espaço, para transformar conflito em orientação, história em hábito. Capa visual de “A Rua e o Que Ficou por Mudar”, cruzando memória pública, conflito simbólico e paisagem urbana entre Albuquerque e Lisboa. Durante anos, a mudança de nome pareceu apenas uma curiosidade urbana, uma repartição elegante de homenagem entre duas figuras centrais do movimento dos trabalhadores agrícolas. Agora já não parece. Agora a avenida parece uma pergunta que a cidade adiou demasiado tempo. Mudar o nome de uma rua é um gesto visível. É por isso que, em momentos de revisão moral, se torna tão tentador. O nome está à vista. A homenagem pode ser retirada, substituída, corrigida. Há um procedimento, uma votação, um comunicado, um alívio. Tudo isso pertence ao domínio do que uma democracia sabe fazer quando quer mostrar que aprendeu. O problema é que a maior parte do trabalho sério começa precisamente onde esse gesto termina. As revelações sobre César Chávez tornaram esse limite difícil de ignorar. O fundador mítico da United Farm Workers, durante décadas elevado a figura quase litúrgica da dignidade latina e da luta dos trabalhadores agrícolas, passou a estar ligado, de forma credível e devastadora, a abusos sexuais contra raparigas e à violação de Dolores Huerta, a mulher sem a qual o movimento não teria sido o que foi. A reação pública foi imediata: cancelamentos, revisões, propostas de renomeação, declarações de luto moral. Tudo compreensível. Em certos casos, tudo necessário. Uma comunidade não é obrigada a conservar na fachada das suas instituições a glória intacta de quem fez, ao mesmo tempo, coisas imperdoáveis. Mas há uma diferença entre corrigir uma homenagem e compreender o mecanismo que a produziu. A primeira tarefa é administrativa, embora moralmente carregada. A segunda é estrutural, e por isso muito mais rara. A frase decisiva, neste caso, não foi dita por um autarca nem por um historiador. Foi dita por Huerta, ao explicar por que razão guardou silêncio durante décadas: acreditava que contar a verdade prejudicaria o movimento dos trabalhadores agrícolas a que tinha dedicado a vida. A frase é simples. E contém tudo. Não apenas a violência sofrida, mas a forma como uma estrutura consegue ensinar à própria vítima que a sua dor deve esperar pela causa. Não é uma história sobre falha individual de coragem. É uma história sobre a pedagogia interna de um movimento que, para se manter coeso, tornou politicamente onerosa a verdade dita a tempo. É aqui que a disputa sobre nomes de ruas começa a parecer pequena — não irrelevante, mas pequena. Porque o problema não está apenas em quem foi homenageado. Está no tipo de organização que fez da preservação de uma figura um interesse coletivo tão forte que a denúncia do dano interno passou a parecer traição. Uma placa pode ser substituída em semanas. Esse mecanismo leva anos a formar-se e, uma vez formado, sobrevive muito para lá do nome que o simbolizou. Os movimentos de emancipação têm uma vulnerabilidade própria. Precisam de coesão. Precisam de lealdade. Precisam de manter viva a convicção de que a causa é maior do que os custos imediatos que exige aos seus membros. Sem isso, desfazem-se antes de vencer. O problema é que a mesma energia que os torna capazes de resistir ao poder exterior pode torná-los cegos ao poder interior. A coesão deixa de ser apenas condição de sobrevivência e passa a funcionar como critério silencioso de verdade: é verdadeiro o que preserva o movimento; torna-se suspeito o que o expõe. A partir daí, o abuso já não precisa de grande sofisticação para se proteger. Basta-lhe habitar uma estrutura que distribui os custos de falar de forma desigual. Renomear uma rua não toca automaticamente nesse ponto. Pode até reforçar a ilusão de que ele foi tocado. Troca-se um nome por outro, como se a justiça simbólica pudesse abreviar o trabalho mais lento e menos fotogénico da autocrítica institucional. Em Albuquerque, a hipótese de substituir Chavez por Huerta parece, à primeira vista, uma correção justa. E é difícil não reconhecer a decência do gesto. Huerta foi central onde tantas vezes foi tratada como acessória. A história do movimento foi escrita demasiadas vezes em torno da figura masculina que concentrava a glória, relegando para segundo plano a mulher que organizou, pensou, suportou e, afinal, pagou também um preço que o movimento não quis ver. Mas até esse gesto, justo na superfície, contém uma ambiguidade. Se a solução for apenas substituir um nome por outro sem rever a lógica que organiza a memória em torno de figuras providenciais, a comunidade continuará a pensar a sua história pelo mesmo método: personalização, consagração, catequese cívica. Muda o altar. Não muda a forma do altar. É esse, talvez, o ponto mais difícil de aceitar nas democracias contemporâneas: elas são muito melhores a corrigir símbolos do que a rever dispositivos. Sabem retirar honras. Sabem produzir linguagem de condenação. Sabem, com alguma solenidade, mostrar que o presente já não aceita o que o passado aceitou. O que fazem pior é perguntar como foi possível que esse passado tenha permanecido tanto tempo limpo, ou tão pouco interrogado, dentro de estruturas que se diziam devotadas à dignidade humana. Portugal conhece bem essa tentação de resolver historicamente o que apenas foi resolvido simbolicamente. Lisboa está cheia de superfícies reconciliadas. Nomes, fachadas, cerimónias, memórias emolduradas por um vocabulário suficientemente elegante para dispensar perguntas difíceis. Talvez por isso seja um lugar útil para pensar estas revisões tardias. Não porque tenha alguma superioridade moral sobre o caso americano, mas porque conhece de perto a diferença entre mudar a decoração da memória e tocar a matéria que a sustenta. Há cidades que preferem azulejos a arquivos, fachadas a perguntas. E há momentos em que essa preferência deixa de parecer estética e começa a parecer método de evasão. No caso Chávez, o risco é esse: que a revisão do nome satisfaça a necessidade pública de gesto sem obrigar à pergunta mais custosa. Não se trata de defender permanências indecentes em nome da complexidade histórica, nem de pedir neutralidade onde o que houve foi violência. Trata-se de recusar a ideia tranquilizadora de que uma comunidade enfrentou realmente o seu passado porque alterou a superfície da homenagem. O verdadeiro teste não está em saber se uma avenida muda de nome. Está em saber se, da próxima vez, a estrutura em torno de uma causa justa deixará de ensinar aos seus membros mais vulneráveis que o silêncio também é uma forma de militância. É isso que as ruas raramente conseguem dizer sobre si próprias. Parecem fixar uma memória, mas na verdade expõem um método. Mostram menos o que uma sociedade venerou do que a forma como escolheu venerar, calar, simplificar e, anos depois, corrigir-se sem se desorganizar demasiado. A rua muda de nome. A cidade segue. O problema é o que fica intacto nesse seguimento. Em Albuquerque, a avenida continuará a atravessar Barelas com a banalidade material de qualquer outra: semáforos, carros, crianças a sair da escola, gente a caminho de casa. O poste receberá, talvez, um nome novo. Haverá quem veja nisso justiça. Haverá quem veja apagamento. Ambas as reações falham um pouco o alvo. O mais difícil de ver não está na placa. Está no que a placa não consegue reformar: o hábito de organizar causas em torno de figuras demasiado grandes, e de pedir aos frágeis que esperem pelo momento certo para dizer a verdade. Esse momento, quase sempre, chega tarde. E chega já sob a forma de memória pública.

  • A última mensagem

    O grupo chamava-se “Equipa Proj Final 🚀” e tinha duzentas e quarenta e sete mensagens quando alguém escreveu: “Obrigado a todos, foi um prazer trabalhar convosco. Até à próxima!” Num ecrã pequeno, fecha-se uma história inteira. Entre emojis e frases iguais a tantas outras, fica aquilo que ninguém escreveu — o silêncio que vem depois. Durante onze minutos, ninguém respondeu. Depois vieram os sinais esperados: um coração, duas chamas, três palmas, um “foi ótimo mesmo!”, um emoji que tentava resumir em entusiasmo aquilo que já não tinha corpo para ser conversa. E, logo a seguir, instalou-se aquele silêncio particular que só existe quando uma conversa percebeu que acabou, mas ainda não teve coragem de se deixar morrer. O grupo continua lá. Ficará durante meses, talvez anos, naquele limbo digital onde repousam as coisas que ninguém apaga porque apagar seria admitir que terminaram. De vez em quando, alguém há de lá cair por engano, à procura de um ficheiro, de uma fotografia, de um nome. A notificação acender-se-á por segundos no ecrã de todos, e todos farão o mesmo: olhar, reconhecer, fechar. Como quem passa por uma casa onde já viveu e evita subir as escadas. Há um género literário novo, embora ainda sem nome digno de universidade: a mensagem de encerramento de grupo. Tem convenções tão estáveis como as do soneto e, em certos meios, talvez mais força social. Abre com gratidão no plural. Escolhe um adjetivo caloroso, mas prudente: prazer, enriquecedor, especial, inesquecível. Insinua um futuro sem o prometer: até à próxima, vamos falando, fica o contacto. Por vezes, remata com um emoji, essa pequena almofada gráfica cujo trabalho é amortecer a dureza do definitivo. Nada disto é inocente. Sobretudo uma coisa: alguém decidiu escrever. Nos grupos de trabalho, de turma, de projeto, de evento, chega sempre o momento em que uma pessoa assume, sem eleição e sem mandato, a função de encerrar. Não há cargo para isso. Não há protocolo. E, no entanto, há poder. Porque quem escreve a última mensagem não limita a conversa: fixa a narrativa. Declara o que aquilo foi. Foi um prazer. Foi especial. Foi bom trabalhar convosco. E assim, numa frase aparentemente cordial, ficam arrumados os atrasos, os ressentimentos, os desequilíbrios, a fadiga de uns, a ausência de outros, a pequena injustiça nunca discutida, o mérito que ficou sem nome. Os outros podem discordar. Em teoria, podem. Podem não responder. Podem escrever: “Não foi bem assim.” Podem introduzir atrito, nuance, verdade. Raramente o fazem. A gramática social do encerramento é poderosa precisamente porque não se apresenta como gramática. Age como simpatia. E quase ninguém quer ser a pessoa que, num momento já ritualizado pela doçura, aparece a estragar o tom. Quem não responde arrisca-se a parecer frio. Quem responde com reserva parece amargo. Quem corrige a narrativa surge como desproporcionado. O formato consegue aquilo que as formas duras de autoridade raramente obtêm com tanta eficácia: conformidade espontânea. Isto não é novo. Novo é apenas o suporte. Todas as sociedades inventaram rituais para declarar que um tempo terminou. Houve sempre discursos de encerramento, brindes finais, atas, bênçãos, proclamações, palavras últimas ditas por quem tinha autoridade para lhes dar peso. O sacerdote, o presidente da mesa, o orador de fecho: figuras a quem se reconhecia o direito de concluir e, ao concluir, de interpretar. O fim nunca é neutro. Quem fecha um momento tenta também fechar o seu sentido. A diferença é que, nos grupos digitais, esse poder aparece sem vestes de poder. Um grupo de WhatsApp não tem púlpito, nem tribuna, nem mesa da presidência. Parece horizontal, espontâneo, quase inocente. E, contudo, basta uma última mensagem para que ali surja, em miniatura, a velha estrutura: alguém toma a palavra final, alguém estabiliza a memória, alguém oferece ao coletivo uma versão respeitável do que acabou de acontecer. E fá-lo com uma eficácia quase perfeita, porque não parece estar a fazê-lo. Parece apenas ser educado. A informalidade é o verdadeiro mecanismo. Precisamente por não haver cerimónia, não há como contestar a cerimónia. Precisamente por não haver orador oficial, o orador improvisado passa sem resistência. Precisamente por tudo parecer leve, a operação passa inteira. Não se impõe uma leitura; oferece-se uma gentileza. E, na vida social, há poucas coisas mais difíceis de contrariar do que uma gentileza no momento certo. Em Portugal, este dispositivo encontra terreno fértil. Não por sermos exceção, mas porque certas disposições antigas continuam a respirar dentro dos formatos novos. Há entre nós uma longa pedagogia da contenção: evitar o confronto direto, poupar a superfície das relações, preferir a concórdia declarada à tensão explicitada. Nem sempre por cobardia; muitas vezes por hábito, por educação, por fadiga, por essa velha crença de que o mal menor é deixar passar. É nesse húmus que a última mensagem prospera. Ela não ordena que todos concordem. Faz melhor do que isso: propõe uma versão harmoniosa e deixa que o grupo, quase aliviado, a aceite. Há palavras especialmente úteis nesta liturgia. Uma das mais eficazes é crescimento. “Foi uma experiência de crescimento.” A expressão tem um génio discreto. Converte qualquer desconforto em maturação, qualquer conflito em aprendizagem, qualquer fracasso em etapa. Permite que uma experiência medíocre saia de cena com dignidade terapêutica. Nada precisa de ser negado; basta ser reinterpretado. O crescimento tem essa vantagem soberana: é praticamente irrefutável. Quem se atreve a responder que não cresceu? Quem quer aparecer como alguém que atravessou meses de tensão, falhas, cansaço e deles retirou apenas exaustão? Mas a questão, no fundo, não é moral. Não se trata de ridicularizar quem escreve estas mensagens. Muitas são sinceras. Muitas nascem de genuína boa vontade, de desejo honesto de fechar bem aquilo que não se sabe fechar de outro modo. A questão é estrutural: o que acontece à experiência comum quando, no instante do seu encerramento, ela é sistematicamente comprimida num único registo emocional? Porque os grupos acabam, mas não acabam da mesma maneira para todos. A pessoa que trabalhou o dobro e foi louvada metade não sai dali do mesmo lugar que a que pouco fez e recebeu o agradecimento coletivo por igual. A pessoa que engoliu um conflito para não perturbar o andamento do projeto não lê da mesma forma o “foi um prazer”. A que se sentiu invisível durante meses recebe o “obrigado a todos” como se a diluição no plural fosse suficiente reparação. O que a última mensagem faz, com rara eficácia, é transformar diferenças vividas em unidade retrospetiva. Pega numa soma de experiências desiguais, por vezes contraditórias, e devolve-a ao grupo sob a forma de memória consensual. Produz pertença depois do facto. E essa talvez seja a sua operação mais sofisticada. Não diz apenas o que aconteceu; diz a quem aconteceu. Reconstitui o grupo como comunidade no exato momento em que ele deixa de existir. Dá a todos uma última identidade comum, ainda que provisória, ainda que falsa, ainda que assente no apagamento fino das assimetrias reais. Não silencia pela força. Silencia pela inclusão. Não exclui a dor; absorve-a num plural caloroso até ela perder contorno. Vale a pena notar outro detalhe. A última mensagem é quase sempre escrita por quem dispõe de mais poder informal no grupo. Nem sempre o líder oficial; muitas vezes algo mais decisivo do que isso: a pessoa com mais segurança relacional, mais autoridade tácita, mais facilidade em ocupar o centro sem o anunciar. Há pessoas que entram numa conversa como quem pede licença; há outras que, sem violência nenhuma, entram como se a licença já lhes tivesse sido dada. São quase sempre estas que encerram. Quem tem menos poder raramente toma para si a função de fechar. Espera. Responde. Ratifica. E quando, por exceção, tenta fazê-lo, o grupo sente um ligeiro desencaixe, mesmo que não o formule. A mensagem pode ser impecável, delicada, no tom certo. Ainda assim, qualquer coisa parece deslocada. Como se a frase estivesse correta, mas a voz não fosse a autorizada para a dizer. É assim que as hierarquias se reproduzem no ambiente digital: não desaparecem, apenas se tornam mais elegantes. Nada disto resolve, claro, o problema prático. Os grupos precisam de acabar. Os projetos terminam. As turmas dispersam-se. As equipas dissolvem-se. O silêncio puro também tem custos: deixa uma sensação de matéria por arrumar, a impressão de que ninguém teve a coragem mínima de reconhecer o fim. Há um vazio específico nas conversas que morrem sem uma palavra final, como se a ausência de fecho prolongasse artificialmente aquilo que já não vive. O problema, portanto, não é o encerramento. É a sua monotonia emocional. É o facto de quase todos os fins serem obrigados à mesma linguagem morna, ao mesmo civismo adocicado, à mesma gramática de gratidão indistinta que, em nome da elegância, varre a complexidade para debaixo do tapete. Talvez o gesto mais honesto fosse outro. Não a exuberância simpática, nem o mutismo. Talvez uma forma de fecho capaz de reconhecer que um grupo nunca termina por igual para todos. Que houve ali coisas boas e coisas duras. Que, para alguns, aquilo foi amizade; para outros, apenas tarefa. Que houve aprendizagem, sim, mas também desgaste. Que o “até à próxima” não significa o mesmo para quem sai leve e para quem sai esvaziado. Que a verdade coletiva, se existe, tem fissuras. Mas essa mensagem quase ninguém a escreve. Seria longa de mais para o ecrã, séria de mais para o tom, honesta de mais para o costume. Exigiria maturidade, e talvez coragem. Sobretudo, exigiria renunciar ao pequeno conforto de terminar bem à vista de todos. Por isso, ficamos com o que há: três palmas, um coração, uma chama, um “foi ótimo”, e depois aquele silêncio dócil que vem sempre a seguir. O grupo permanece ali, como permanecem certas fotografias emolduradas: não porque ainda digam a verdade, mas porque seria mais trabalhoso admitir que já só guardam uma versão aceitável dela. #AUltimaMensagem #Mensagens #WhatsApp #FimDeProjeto #VidaDigital #Comunicação #Silêncio #Grupos #Sociedade #RituaisDigitais #PsicologiaSocial #Reflexão #Escrita #Texto #Crónica #Portugal #CulturaDigital

  • O que estava arquivado

    Existe, no Arquivo Nacional Torre do Tombo, em Lisboa, um fundo com o nome da polícia política que o produziu. Chama-se Arquivo PIDE/DGS. Contém processos abertos a cidadãos suspeitos de subversão, relatórios de vigilância, fichas de informadores, transcrições de interrogatórios. Está parcialmente acessível ao público desde os anos oitenta. Há pessoas vivas que foram lá ler o que havia sido escrito sobre elas. A extrema-direita não chegou de fora. Estava guardada. Capa editorial de “O Que Estava Arquivado”, publicada sob o selo Atlantic Lisbon. O que esse arquivo contém não é apenas o registo de um regime. É o registo de uma gramática — a gramática de um mundo em que era permitido designar quem não merecia estar onde estava, apontar quem tinha as ideias erradas, registar quem frequentava as pessoas erradas. Uma gramática que funcionou durante quarenta e oito anos porque tinha o respaldo da lei, mas que não precisava da lei para existir. Precisava apenas de permissão. Quando o regime caiu, em abril de 1974, essa permissão foi retirada. Não a gramática. A gramática ficou — guardada, arquivada, esperando. A ascensão da extrema-direita na Europa e nos Estados Unidos tem sido descrita, repetidamente, como ruptura. Uma quebra com a ordem estabelecida. Um fenómeno novo, alimentado por redes sociais, por crises económicas, por migrações, por uma classe política que perdeu o contacto com o eleitorado. Cada uma destas explicações contém alguma verdade. Nenhuma chega ao que está por baixo. O que está por baixo não é novo. É a reactivação de permissões que existiam antes de 1945, antes de 1974, antes de todos os momentos que escolhemos como marcos da ruptura com o passado. Permissões que foram suspensas — pelo horror do que tinham produzido, pelo constrangimento colectivo de quem sabia o que tinha acontecido e preferia não repetir. Suspensas, não abolidas. Arquivadas, não destruídas. O que mudou, nas últimas duas décadas, não foi a sociedade. Foi o custo de exprimir certas coisas em público. Esse custo baixou. E quando o custo baixa, as coisas voltam. Portugal é um caso de estudo particular, porque a memória aqui é mais curta no sentido mais literal: a ditadura terminou em 1974. Há pessoas a votar hoje que nasceram antes do 25 de Abril. O intervalo entre o fim do autoritarismo e o regresso de um partido com retórica autoritária ao parlamento é, em Portugal, de menos de cinquenta anos. Em França, na Alemanha, na Itália, os intervalos são mais longos — mas a lógica é a mesma. Durante décadas, Portugal foi apresentado, dentro e fora do país, como excepção. Aqui não — essa frase, dita ou implícita, atravessou os anos noventa, os anos dois mil, os anos dez. O país que vivera mais tempo sob ditadura na Europa Ocidental do século XX seria, paradoxalmente, o mais imune ao regresso do que a ditadura representava. A explicação variava conforme quem a dava: a memória viva, a fragilidade democrática que tornava os portugueses mais vigilantes, a ausência de uma direita radical organizada. Em 2019, o Chega elegeu um deputado. Em 2024, elegeu cinquenta. A excepção não durou. Não porque Portugal fosse diferente do que se pensava — mas porque nunca tinha sido excepção. Tinha sido um país onde a permissão ainda não tinha sido dada. Quando foi dada, o resultado foi o que se viu. A palavra permissão é importante aqui, porque desloca a análise de onde ela costuma ficar. A maioria das explicações para a ascensão da extrema-direita centra-se nas causas — o que empurrou os eleitores para lá. Desigualdade, insegurança, identidade ameaçada, elites distantes. Estas causas existem. Mas explicam o combustível, não a ignição. A ignição é outra coisa. É o momento em que alguém com autoridade — um político, um comentador, um familiar mais velho — diz algo que não era dito há anos, e não é corrigido. Não pela lei, não pelos presentes, não pelo silêncio desconfortável que antes seguia certas frases. É dito e fica. E quando fica, o que ficou não é apenas a frase. É a sinalização de que aquele território voltou a estar disponível. Os historiadores do autoritarismo europeu descreveram este processo em contextos diferentes, mas o padrão é reconhecível: antes de os regimes mudarem, a linguagem muda. Não a linguagem oficial — a linguagem tolerada. O que se pode dizer numa mesa de café. O que se pode escrever num comentário sem ser moderado. O que um político pode afirmar numa entrevista sem perder aliados. Quando essa linguagem se alarga, o mapa do permitido alarga-se com ela. Há uma objecção óbvia a esta leitura: se as permissões nunca foram abolidas, só suspensas, porque é que a suspensão durou tanto? Porque é que o período entre 1945 e o início do século XXI foi, em comparação com o que veio antes e com o que está a chegar, relativamente estável? A resposta tem várias camadas, mas uma delas é esta: a suspensão foi mantida por uma geração que sabia o que tinha acontecido. Não como abstracção histórica — como experiência. As pessoas que construíram as democracias europeias do pós-guerra tinham visto o que as permissões produziam quando dadas sem controlo. A memória funcionava como travão. Esse travão não é eterno. Não porque as sociedades sejam congenitamente propensas ao autoritarismo. Mas porque a memória tem uma vida útil que não coincide com a duração dos processos históricos que tenta conter. As gerações que viveram o que não devia ser repetido envelheceram e morreram. O que ficou foi a narrativa da ruptura — a ideia de que havia um antes e um depois, e que o depois era irreversível. Essa narrativa, repetida como garantia, tornou-se ela própria um obstáculo à vigilância. Se a ruptura era definitiva, não havia nada que vigiar. A extrema-direita contemporânea não surgiu apesar dessa narrativa. Surgiu em parte por causa dela. De Lisboa, esta dinâmica tem uma nitidez particular. Portugal não teve a narrativa da ruptura definitiva que a Alemanha teve, com o peso da culpa colectiva institucionalizada, ou que a França construiu em torno da Résistance. A narrativa portuguesa do 25 de Abril foi sempre mais ambígua — uma revolução feita por militares, uma transição negociada, um passado que não foi completamente julgado. Os agentes da PIDE não foram, na sua grande maioria, julgados. Muitos continuaram a viver nas mesmas cidades, nas mesmas ruas. O arquivo existe — mas o processo público que lhe devia ter correspondido não teve a mesma intensidade que noutros países. Talvez por isso, em Portugal, o regresso das permissões não precisou de muito disfarce. Não chegou vestido de novidade nem de revolução. Chegou como o que toda a gente pensa mas ninguém diz — a frase que o Chega e os seus congéneres em toda a Europa repetem como se fosse uma descoberta, quando é apenas o levantamento de um constrangimento. O que toda a gente pensava, afinal, não era o que toda a gente pensava. Era o que uma parte da sociedade pensava e que, durante um período, não tinha permissão para dizer em público. Quando a permissão voltou, pareceu uma maioria. Como sempre parece. O que está a acontecer não é o fim da democracia liberal. Ainda não. É algo mais subtil e, de certa forma, mais perturbador: é a redefinição do que é tolerável dentro da democracia. A extrema-direita contemporânea, na maior parte dos casos, não chegou ao poder pela força. Chegou pelo voto. Não quebrou as regras — usou-as. E usou-as para alargar o mapa do permitido até incluir coisas que, há vinte anos, teriam custado uma carreira política. Esse alargamento é o processo. Não o resultado — o processo. O resultado, se o processo continuar, é outra coisa. Mas estamos ainda na fase em que é possível observar o mecanismo a funcionar: a linguagem que alarga, as permissões que regressam, o arquivo que começa a ser consultado de outra forma. Em Lisboa, o fundo PIDE/DGS continua no Torre do Tombo. As caixas estão lá. A gramática que contêm não desapareceu quando as caixas foram fechadas. Nunca desaparece. Fica à espera de ser de novo ensinada — não como história, mas como possibilidade.

  • Musk, SpaceX e a zona cinzenta da IA

    CONTEXTO · Economia e Poder · EUA/Europa · Tecnologia e IA. Em 2018, Elon Musk pediu 100 milhões de dólares emprestados à SpaceX. Segundo documentos internos divulgados publicamente, o recurso à empresa espacial não ficou por esse primeiro empréstimo: entre 2018 e 2020, o montante total terá chegado a 500 milhões de dólares, em condições favoráveis, com garantia em ações da própria SpaceX. O dinheiro terá sido devolvido até ao final de 2021, com juros. Musk, SpaceX, X e a zona cinzenta do poder tecnológico. A operação não pesa apenas pelo valor. Pesa pelo lugar da SpaceX no conjunto de empresas associadas a Musk. A empresa fundada em 2002 deixou de ser apenas a companhia dos foguetões reutilizáveis, dos contratos espaciais, dos satélites e da Starlink. Tornou-se o ativo mais valioso de um sistema empresarial que toca a Tesla, o X, a xAI e outras apostas ligadas ao mesmo fundador. Quando esse ativo serve também como fonte de liquidez, o problema deixa de ser doméstico. Passa a ser uma pergunta sobre risco, decisão e benefício. A imagem do astronauta suspenso no vazio serve como metáfora do ecossistema Musk: ambição tecnológica, dependência financeira e risco concentrado num mesmo centro de gravidade. Numa empresa cotada, os empréstimos diretos a executivos de topo enfrentariam limites severos e obrigações de divulgação muito mais apertadas. A SpaceX, por ser privada, move-se com outra margem. Essa margem não transforma, por si só, uma operação em abuso, mas reduz a quantidade de luz disponível. O fundador tem prestígio, controlo, capacidade de persuasão e uma posição acionista central; os restantes investidores têm menos acesso público aos termos em que certas decisões são tomadas. Durante anos, a SpaceX foi apresentada como uma empresa quase civilizacional: baixar o custo de acesso ao espaço, levar seres humanos a Marte, transformar satélites em infraestrutura global. A narrativa resistiu porque a empresa entregou resultados. Contudo, uma companhia com esse valor e esse peso contratual já não pode ser lida apenas pela ambição tecnológica. É também uma reserva de capital, um instrumento de influência e, em certas circunstâncias, uma almofada para outras apostas. A Tesla já tinha mostrado essa proximidade. Em 2008, num momento difícil para a fabricante de automóveis elétricos, Musk recorreu à SpaceX para apoio financeiro. Mais tarde, a empresa espacial comprou dívida da SolarCity, companhia de energia solar fundada por familiares de Musk e onde ele tinha interesses relevantes, antes de a Tesla a adquirir. A compra da SolarCity foi contestada por investidores e discutida em tribunal. Musk venceu essa frente, mas o desconforto não desapareceu: quando uma empresa próxima ajuda outra, nem sempre é evidente se a decisão serve a empresa que paga ou o desenho geral do fundador. A xAI trouxe a mesma questão para a inteligência artificial. Criada por Musk, comprou o X num momento em que a antiga Twitter enfrentava dificuldades financeiras. Depois surgiu a integração da xAI com a SpaceX, apresentada como combinação de capacidades tecnológicas. Dados, modelos de IA, redes sociais e infraestrutura espacial podem, em abstrato, reforçar-se. Um investidor da SpaceX não olha apenas para a abstração. Olha para a empresa em que investiu e pergunta se ela está a comprar futuro ou a absorver fragilidades. O vocabulário empresarial tem uma grande capacidade de amortecer este tipo de tensão. Fala-se em integração, ecossistema, sinergia, plataforma comum. As palavras podem ser verdadeiras e, ainda assim, insuficientes. Uma operação que parece visão estratégica durante uma fase de entusiasmo pode ser relida como socorro financeiro quando surgem perdas, diluição acionista, saídas internas ou necessidade de nova capitalização. A diferença raramente se decide no comunicado. Se a SpaceX avançar para a bolsa, a pergunta deixará de circular apenas entre investidores privados, documentos internos e processos judiciais. Uma entrada em mercado público obrigaria a empresa a explicar melhor as suas contas, as relações com Musk e as transações com partes relacionadas. A bolsa não traz apenas dinheiro novo. Traz perguntas novas, feitas por gente que não depende da confiança pessoal no fundador. A Tesla vive há anos nesse regime. Por estar cotada, tornou-se palco de disputas acionistas sobre decisões de Musk, incluindo a compra da SolarCity, alegações de recursos desviados para outras empresas e a relação com a xAI. Algumas ações foram rejeitadas; outras não produziram os efeitos pretendidos pelos queixosos. Ainda assim, o padrão incomoda. Um dirigente com várias empresas pode deslocar capital, oportunidades, atenção e talento entre elas, sem que o dever principal seja sempre óbvio. A corrida à inteligência artificial tornou essa ambiguidade mais cara. Os modelos avançados exigem centros de dados, energia, chips, equipas técnicas e acesso continuado a capital. A OpenAI, a Anthropic, a Google, a Meta, a Microsoft, a Amazon, a Oracle, a xAI e outros operadores disputam a infraestrutura de uma indústria que promete alterar a programação, a pesquisa, a publicidade, o trabalho administrativo e parte dos serviços empresariais. A promessa já mobilizou somas gigantescas. O retorno económico ainda não acompanha todos os discursos. Há adoção real. As empresas pagam por ferramentas de código, assistentes internos, análise documental e automação. Milhões de pessoas usam produtos de IA todos os dias, muitas sem pagar ou pagando pouco. Entre uso e lucro fica a parte mais difícil: transformar escala em receita recorrente, e receita recorrente em margem suficiente para sustentar a infraestrutura que está a ser construída. A história económica não estranha esta distância entre promessa e rentabilidade. A ferrovia, as telecomunicações e a internet deixaram ativos decisivos depois de destruírem capital em excesso. Uma tecnologia pode ser verdadeira e, mesmo assim, arruinar muitas empresas que tentaram capturá-la cedo demais ou com balanços frágeis. A IA pode tornar-se indispensável sem preservar todos os vencedores aparentes da primeira fase. O litígio entre Musk e a OpenAI pertence a esse mesmo terreno, embora entre por outra porta. Musk acusa antigos parceiros de terem afastado a organização da missão original; a OpenAI rejeita essa leitura e descreve a ação como uma ofensiva contra a empresa. A disputa tem matéria jurídica própria, mas não vive isolada dela: a IA avançada nasceu muitas vezes envolta em linguagem de benefício público, segurança e acesso amplo ao conhecimento, e entrou depois num regime industrial que exige milhares de milhões para competir. A passagem de uma missão idealizada para uma estrutura capaz de captar capital é mais do que uma alteração societária. O X enfrenta pressão de natureza diferente. Em França, a investigação sobre práticas da plataforma e ferramentas associadas à inteligência artificial coloca a empresa no campo penal e regulatório: conteúdos ilegais, deepfakes, abuso sexual de menores e responsabilidade das plataformas digitais. A tradição norte-americana protege um campo largo de expressão. A legislação europeia aceita limites mais diretos quando estão em causa determinados danos, crimes ou deveres de moderação. A mesma plataforma fica presa entre duas conceções jurídicas que não foram desenhadas para se acomodarem uma à outra. A dificuldade aumentou porque plataformas como o X já não se limitam a alojar mensagens de utilizadores. Ordenam visibilidade, sugerem conteúdos, automatizam respostas, incorporam modelos de IA e podem gerar imagens. Quando um sistema participa na produção ou amplificação de conteúdos, a responsabilidade deixa de caber apenas na remoção posterior de publicações denunciadas. Toca o desenho do produto, as regras internas, a prevenção técnica e a capacidade real de cumprir leis nacionais. Para os reguladores europeus, está em causa aplicar a lei a uma empresa que opera no seu território. Para Musk e para uma parte do debate político norte-americano, intervenções deste tipo aproximam-se de censura ou perseguição ideológica. A divergência não se resolve com uma fórmula elegante. Uma tradição aceita mais risco discursivo em nome da liberdade de expressão; outra admite intervenção pública mais cedo perante certos danos. A inteligência artificial torna a fratura mais difícil de gerir, porque não apenas transporta conteúdos: pode produzi-los, modificá-los e distribuí-los em escala. Musk concentra demasiadas camadas para que o seu caso seja tratado como mais uma disputa de personalidade. A SpaceX liga-se a infraestrutura espacial e contratos públicos. A Tesla continua a ter peso industrial e financeiro. O X permanece politicamente influente. A xAI tenta entrar na corrida mais cara da tecnologia contemporânea. A OpenAI, embora fora do seu controlo, está envolvida numa disputa que remete para a origem e o futuro comercial da IA. Cronologia essencial 2002 — Fundação da SpaceXElon Musk funda a SpaceX, que viria a tornar-se uma das empresas centrais do seu universo empresarial. 2008 — Apoio financeiro à TeslaNum momento difícil para a Tesla, Musk recorre à SpaceX para apoiar financeiramente a fabricante de automóveis elétricos. 2018-2020 — Empréstimos internos da SpaceXMusk terá obtido empréstimos junto da SpaceX num total de 500 milhões de dólares, com garantia em ações da própria empresa. 2021 — Reembolso dos empréstimosOs empréstimos terão sido devolvidos até ao final de 2021, com juros. 2025 — xAI compra o XA xAI, empresa de inteligência artificial de Musk, compra o X, antiga Twitter, num movimento que aproxima IA e plataforma social. 2026 — Pressão judicial e regulatória. As investigações e litígios envolvendo X, OpenAI, xAI e SpaceX colocam em evidência questões de governação, regulação e poder privado. Chamar a isto “império” pode soar forte, mas resolve pouco. O problema está na forma. São empresas formalmente distintas, com investidores, riscos e deveres próprios, atravessadas pela mesma figura e por operações que podem alterar o equilíbrio entre elas. A estrutura não cabe bem na imagem clássica de um grupo empresarial transparente, nem na fábula simples do fundador visionário. Fica num meio-termo desconfortável, onde resultados tecnológicos reais convivem com perguntas elementares de governação. Nem toda a colaboração entre empresas relacionadas é suspeita. Nem toda a aposta transversal é abuso. A integração entre IA, satélites, dados e plataformas pode ter sentido industrial. Mas a concentração de poder reduz a tolerância aceitável à opacidade. Quando uma empresa empresta ao fundador, compra dívida de uma companhia próxima, absorve uma aposta deficitária ou se prepara para abrir o capital ao público, a explicação não pode assentar apenas na confiança no génio de quem decide. Algumas empresas privadas já organizam infraestruturas usadas por Estados, mercados, cidadãos e forças armadas. Não são instituições públicas, mas produzem efeitos públicos. A lei das sociedades, a regulação digital e os tribunais continuam a trabalhar com categorias conhecidas: acionistas, administradores, dever fiduciário, conteúdo ilegal, responsabilidade de plataforma, concorrência. Essas categorias continuam necessárias. Nem sempre chegam a tempo. Uma investigação em França não explica a SpaceX. Um processo contra a OpenAI não explica a Tesla. Um empréstimo interno não explica a xAI. Lidos em conjunto, porém, estes episódios mostram como capital, plataformas e inteligência artificial passaram a circular dentro de arquiteturas empresariais pouco legíveis. Se a SpaceX chegar à bolsa, não terá apenas de vender uma promessa de crescimento. Terá de mostrar, com mais detalhe, que relações ajudaram a sustentar uma parte do poder que, até agora, permaneceu dentro da esfera privada.

  • A base secreta no Iraque e a guerra contra o Irão

    CONTEXTO · Geopolítica e Poder · Médio Oriente · Israel-Irão/Iraque. No deserto iraquiano, uma força enviada para verificar movimentos invulgares acabou sob fogo aéreo. O incidente, ocorrido em março segundo as versões citadas no relato jornalístico, deixou um militar iraquiano morto e dois feridos. Bagdade tratou-o como uma operação estrangeira não autorizada. Durante semanas, ficou sobretudo como mais um episódio opaco numa zona onde há muito espaço, pouca visibilidade e demasiados atores armados. Israel teve uma base secreta no Iraque? Orelato publicado pelo Wall Street Journal deu-lhe outra leitura: a de que Israel teria montado uma instalação clandestina em território iraquiano para apoiar a campanha aérea contra o Irão. Segundo pessoas citadas pelo jornal, o local teria servido de ponto logístico, abrigo de forças especiais e plataforma para equipas de busca e salvamento. Israel não confirmou. O Iraque negou a presença atual de forças não autorizadas. Essa distância entre relato, confirmação e negação deve acompanhar toda a leitura do caso. A instabilidade interna iraquiana torna mais sensível qualquer suspeita de uso do território por forças externas. O relato sobre uma instalação clandestina israelita expõe a logística da guerra aérea contra o Irão e a fragilidade da soberania iraquiana. O assunto pesa menos pela imagem imediata de uma “base secreta” do que pelo mecanismo que deixa entrever. Uma guerra aérea a longa distância precisa de apoios fora do mapa oficial: pontos de espera, evacuação, coordenação ou aproximação ao teatro de operações. Quando esses apoios entram no território de um terceiro Estado, a operação deixa de ser apenas militar. A campanha contra o Irão colocou Israel perante uma dificuldade simples: a distância. Um ataque aéreo não depende apenas da capacidade de chegar ao alvo. Depende também do que acontece antes e depois: por onde passam as aeronaves, onde podem receber apoio, que resposta existe se uma tripulação ficar em risco. Grande parte dessa estrutura não aparece nos comunicados militares. É nesse quadro que uma instalação discreta no Iraque teria utilidade. Não teria de ser uma base permanente, nem sequer uma infraestrutura grande. Bastaria funcionar como ponto avançado durante a campanha: um lugar de apoio, de passagem ou de contingência, suficientemente perto do teatro iraniano para reduzir tempos de resposta e suficientemente remoto para escapar, pelo menos durante algum tempo, à atenção pública. A presença relatada de equipas de busca e salvamento é um dos elementos mais relevantes. Numa guerra aérea, um piloto abatido transforma uma operação militar num problema urgente de tempo, território e exposição política. A recuperação tem de ser rápida. Também tem de ser negável, se ocorrer fora de um quadro oficialmente reconhecido. Para o Iraque, a questão começa no controlo do território. O deserto não é espaço neutro por ser remoto. Se uma força estrangeira o usa sem autorização pública, mesmo por pouco tempo, o problema passa a ser outro: saber se o Estado iraquiano consegue identificar a presença, interrompê-la e explicar depois o que aconteceu. Bagdade vive esta dificuldade de forma quase permanente. Tem relações institucionais com Washington, depende de equilíbrios internos frágeis, convive com forças próximas do Irão e tenta evitar que o país seja arrastado para cada nova colisão regional. Uma operação israelita em solo iraquiano, se confirmada, atingiria precisamente esse ponto fraco. A reação iraquiana ao incidente de março encaixa nessa tensão. As autoridades denunciaram uma operação não coordenada nem aprovada e apresentaram a ocorrência como ataque de forças estrangeiras apoiadas por meios aéreos. A atribuição inicial aos Estados Unidos também é significativa. No Iraque, a presença militar norte-americana é conhecida, contestada e politicamente visível. A presença israelita, pelo contrário, seria formalmente inadmissível. O país não mantém relações oficiais com Israel e a normalização é politicamente tóxica. A negação iraquiana não encerra a questão. Pode significar que nada existia no momento em que foi feita. Pode significar que a presença foi breve. Pode também refletir a dificuldade política de admitir que uma força estrangeira operou no país sem controlo claro das autoridades. Nenhuma destas hipóteses deve ser transformada em certeza. Também aqui a palavra “base” exige cuidado. No uso comum, sugere permanência. Numa operação militar, um local pode servir por horas ou dias e, mesmo assim, ser decisivo. A diferença entre base, ponto avançado, destacamento e local de extração não é detalhe técnico; muda o peso político da acusação. O deserto iraquiano ajuda a perceber a plausibilidade operacional do relato. Zonas vastas, pouco povoadas e difíceis de vigiar oferecem condições para movimentos discretos. Forças especiais, equipas de reconhecimento e unidades de apoio já usaram, em vários conflitos, áreas semelhantes para preparar operações ou reduzir distâncias. Isso não prova, por si só, a existência da instalação relatada. Mas explica por que razão um local remoto no Iraque poderia ser útil numa campanha contra o Irão. Para Israel, a utilidade de um ponto deste tipo seria simples: encurtar uma guerra que, no mapa, é longa. A campanha contra o Irão depende de alcance, repetição e capacidade de resposta. Quanto mais distante o alvo, mais relevantes se tornam os apoios intermédios. A tecnologia não apaga essa limitação; apenas permite trabalhar dentro dela. Em Bagdade, uma explicação operacional não resolve o problema. Mesmo que o local tivesse sido usado apenas como apoio temporário, isso significaria que uma parte do território iraquiano serviu uma guerra que o governo não declarou e que dificilmente poderia admitir. É esse ponto que torna o caso politicamente sensível: não a dimensão física da instalação, mas o facto de ela poder ter existido fora do controlo claro do Estado. O papel dos Estados Unidos fica num ponto sensível. O relato atribui a Washington conhecimento da instalação, mas separa esse conhecimento da ação contra as tropas iraquianas. Essa distinção é indispensável: saber de uma operação não equivale, por si só, a executá-la. Politicamente, porém, a nuance pode não bastar. No Iraque, a presença militar norte-americana já é contestada por vários atores. Qualquer suspeita de que forças israelitas operaram em território iraquiano com conhecimento de Washington alimenta uma leitura difícil de conter: a de que Bagdade não controla inteiramente o uso estratégico do seu próprio território. O caso recai sobre um país que já vive entre pressões incompatíveis. O Iraque coopera com os Estados Unidos, tem de lidar com forças próximas do Irão e tenta evitar que o confronto regional se instale abertamente no seu território. Uma suspeita de operação israelita clandestina entra diretamente nessa fragilidade. O caso também mostra uma característica das guerras recentes na região: parte do conflito acontece antes de ser assumida e, muitas vezes, nunca é assumida. Há operações que só aparecem quando falham, quando deixam mortos, quando uma patrulha local se aproxima demasiado ou quando uma fuga de informação lhes dá forma pública. Essa opacidade serve os intervenientes externos. Dá-lhes margem para agir, negar ou deixar a responsabilidade suspensa. Para o Estado em cujo território a operação ocorre, o efeito é diferente: ficam mortos, versões contraditórias e uma pergunta difícil de responder em público — quem mandava ali naquele momento? O Iraque conhece bem esse problema. A soberania não se mede apenas pela posição que um governo anuncia depois de um incidente. Mede-se pela capacidade de perceber o que ocorreu no terreno e de impedir que outros imponham a sua própria versão. Quando isso não acontece, cada ator ocupa o vazio com a narrativa que mais lhe convém. O episódio não precisa de ser ampliado para ser relevante. A instalação pode ter sido pequena, breve ou diferente da imagem sugerida pela palavra “base”. Ainda assim, aponta para uma dificuldade real: uma guerra aérea contra o Irão exige apoios que nem sempre podem ser assumidos. Quando esses apoios atravessam o território de outro Estado, a questão deixa de ser apenas logística. Também seria excessivo tratar o caso como se ele explicasse sozinho toda a guerra regional. O que se sabe publicamente ainda depende de relatos, versões oficiais incompletas e negações interessadas. Há diferença entre uma instalação clandestina duradoura, uma posição temporária e uma operação pontual. Misturar tudo numa mesma palavra pode tornar o caso mais explosivo, mas menos preciso. Mesmo assim, a suspeita já produziu efeito político. Reabriu a questão do uso do território iraquiano por forças externas e voltou a colocar Washington numa posição desconfortável. Para parte do sistema iraquiano, os Estados Unidos continuam a ser necessários. Para outra parte, qualquer sombra de coordenação com Israel confirma precisamente o contrário. A suspeita interessa também a Teerão, porque qualquer presença israelita perto das suas fronteiras reforça a leitura de que a guerra se desloca para espaços vizinhos. Para Israel, pelo contrário, um ponto avançado seria apenas uma peça de uma campanha conduzida à distância. O Iraque fica no centro da tensão: não é o alvo principal, mas é o território onde a disputa pode ganhar forma sem ser oficialmente declarada. Mesmo sem confirmação oficial israelita, o relato obriga a olhar para a campanha contra o Irão para lá dos ataques visíveis. Uma operação aérea prolongada precisa de retaguardas, pontos de apoio e soluções de emergência. Algumas podem estar dentro de bases conhecidas. Outras podem depender de locais temporários, politicamente sensíveis e difíceis de reconhecer. O Iraque surge, neste quadro, como território especialmente vulnerável. Está próximo do Irão, mantém relação militar com os Estados Unidos, vive sob pressão de forças próximas de Teerão e tenta preservar uma margem de autonomia cada vez mais estreita. Por isso, qualquer suspeita de presença israelita clandestina não é apenas um detalhe operacional. É um problema interno iraquiano e uma peça adicional da disputa regional. A confirmação plena dos detalhes continua limitada. O ponto, porém, não depende apenas da palavra “base”. Pode ter havido uma presença curta, um ponto de apoio ou uma equipa avançada. Mesmo assim, a dificuldade permanece: se uma guerra usa território de um Estado que não a assume, esse Estado fica preso entre a negação pública e a perda concreta de controlo. O episódio deve ficar nesse lugar mais limitado e mais útil: um indício de como a guerra contra o Irão pode depender de apoios discretos fora dos territórios diretamente envolvidos. No caso iraquiano, isso basta para abrir uma questão séria sobre controlo territorial, responsabilidade política e risco de arrastamento regional.

  • Guerra do Irão: 32 milhões sem voz em Islamabade

    O nitrato de amónia viaja por navio. A maior parte do que chega aos campos agrícolas do Sul da Ásia, da África Subsaariana e do Corno de África passa pelo Oceano Índico, pelo Golfo de Omã, por corredores marítimos que dependem da estabilidade do Estreito de Ormuz para funcionar com a regularidade que a agricultura industrial exige. Qual o impacto da guerra do Irão nos países mais pobres? Quando o Estreito fecha — ou quando o seguro marítimo sobe ao ponto de tornar a viagem economicamente inviável — o fertilizante ou não chega ou chega tarde. Uma estação agrícola perdida não se recupera na estação seguinte. Recupera-se, quando se recupera, ao longo de anos. O fertilizante não chega. As negociações continuam. A guerra do Irão fechou o Estreito em fevereiro de 2026. As negociações entre Washington e Teerão continuam. Os analistas discutem centrifugadoras, interceptores Patriot, calendários políticos americanos e a intransigência dos Guardiões. O nitrato de amónia está a não chegar. A guerra do Irão ameaça transformar uma crise energética e diplomática numa crise alimentar silenciosa, empurrando milhões de pessoas para a pobreza sem que tenham voz nas negociações de Islamabade. Alexander De Croo, secretário-geral adjunto das Nações Unidas que dirige o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, formulou o mecanismo com uma precisão que os mercados financeiros raramente conseguem: "A guerra é o desenvolvimento ao contrário. O que se constrói em décadas destrói-se em sete semanas de guerra." O PNUD estima que o aumento dos preços da energia, a disrupção dos sistemas alimentares e a desaceleração económica desencadeados pela guerra poderão empurrar até trinta e dois milhões de pessoas para a pobreza. Trinta e dois milhões é um número que não cabe numa manchete sobre o Estreito de Ormuz. Não tem rosto, não tem capital, não tem delegação em Islamabade. Tem campos. Tem estações de sementeira. Tem crianças que vão comer menos proteína durante os próximos dois anos porque o preço do fertilizante subiu num mês mais do que subiu em toda a década anterior. A guerra da Ucrânia fornece o precedente mais próximo. Quando a Rússia invadiu em 2022, os preços do trigo e dos fertilizantes dispararam. A Somália, que importava grande parte do seu trigo da Ucrânia, enfrentou uma crise alimentar que os números do PNUD já classificavam como catástrofe. A resposta internacional foi a Iniciativa dos Cereais do Mar Negro — um corredor humanitário negociado pela ONU que permitiu às exportações ucranianas continuar a fluir durante meses. De Croo disse-o de forma direta: "Encontrámos facilmente uma solução para fazer sair o grão da Ucrânia." O problema da guerra do Irão é diferente em estrutura. Não é o grão que falta — são os ingredientes para produzir o grão. O fertilizante, o combustível para os tratores, o querosene para os aviões que transportam medicamentos e equipamento agrícola. Coisas que não têm um corredor humanitário possível enquanto o Estreito estiver fechado, porque o Estreito não é uma exceção à rota — é a rota. A solução não depende de nenhum acordo entre a ONU e dois países beligerantes. Depende do fim de uma guerra que nenhuma das partes parece próxima de querer terminar nos termos que a outra aceita. Portugal tem uma relação com esta geometria que não é abstrata. Durante cinco séculos, foi um dos atores que decidiu as rotas marítimas do mundo — quem passava, a que preço, em que condições. O que esse período deixou não foi apenas monumentos e língua. Deixou a memória, nos países que essas rotas atravessavam, de que o controlo das vias de comércio é sempre exercido por alguém e raramente por quem mais depende delas. A disrupção do Estreito de Ormuz em 2026 tem uma lógica que Lisboa devia reconhecer: são os países mais distantes da negociação, mais dependentes do corredor, mais incapazes de influenciar o seu desfecho, os que pagam o preço mais alto e mais duradouro. A Somália não tem assento em nenhuma das mesas onde o futuro do Estreito está a ser discutido. O Bangladesh também não. O Sahel também não. Pagam em preços de fertilizante, em estações agrícolas comprometidas, em crianças com menos proteína disponível, numa proporção que nenhum dos atores com assento nessas mesas vai ser obrigado a contabilizar quando o acordo for assinado. A guerra do Irão é apresentada nos seus próprios termos como um conflito sobre nuclearização, sobre o Estreito, sobre a hegemonia regional americana e a sobrevivência do regime dos Guardiões. Esses termos são reais. Contudo, a cobertura que os segue produz uma narrativa com um ângulo de visão específico — o ângulo de Washington, de Teerão, de Riade, de Bruxelas. O ângulo das capitais com capacidade de agir sobre o conflito. As perturbações de combustível que desencadearam violência, paragens de trabalho e especulação em partes da Ásia e de África não chegam às primeiras páginas dos jornais que cobrem as negociações de Islamabade. Não há nada de conspirativo nisto. É a lógica normal da atenção mediática: a crise que acontece onde há correspondentes e câmaras é a crise que existe. A crise que acontece onde não há é uma estatística do PNUD. Trinta e dois milhões de pessoas é uma estatística do PNUD. Fatih Birol, diretor da Agência Internacional de Energia, descreveu o impacto da guerra como "a maior ameaça à segurança energética global da história". A formulação é correta e é também enganadora — porque "segurança energética global" é uma categoria que pesa de forma diferente consoante o ponto de observação. Para a Europa, significa preços do combustível e inflação. Para os Estados Unidos, significa pressão política e problemas de logística para o Campeonato do Mundo. Para o Sul Global, significa estações agrícolas perdidas e o tipo de fome que não tem fotografia porque acontece devagar, ao longo de meses, em lugares onde ninguém está a filmar. De Croo acrescentou que o peso dos choques económicos "cai mais pesado sobre os que menos conseguem absorvê-lo". É um mecanismo tão antigo quanto o comércio internacional: as perturbações nas grandes rotas sempre custam mais aos atores mais pequenos, mais periféricos, mais dependentes. O que muda é a escala. A negociação vai continuar. O Estreito vai reabrir, numa versão ou noutra, com um consórcio ou sem ele, com supervisão americana ou com outra arquitetura. Os mercados vão estabilizar. Os analistas vão escrever sobre o que cada lado ganhou e perdeu. O que não vai aparecer nessa contabilidade é o custo da estação agrícola que o Bangladesh perdeu em março de 2026 porque o fertilizante não chegou a tempo. Nem o da Somália. Nem o do Sahel. Esse custo não tem linha nos acordos que forem assinados. Não tem cláusula de compensação. Não tem nome nos tratados. Tem trinta e dois milhões de pessoas. E a memória, nessas regiões, de que as guerras das grandes potências sempre terminam com um acordo entre as grandes potências — e com a conta a pagar por quem não estava na sala. Fontes: reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026; dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, abril de 2026. #GuerraDoIrão #SulGlobal #CriseAlimentar #EstreitorDeOrmuz #PNUD #Geopolítica #AtlanticLisbon #Pobreza #SegurançaAlimentar

  • O que significa celebrar o 25 de Abril hoje?

    Ensaio Numa sala de reuniões de uma câmara municipal, as cadeiras já estão alinhadas antes de alguém chegar. A mesa espera. As bandeiras também. Há um programa impresso com horas, nomes, talvez uma palavra gasta sobre liberdade. Lá fora, noutro município, alguém testa o som para um concerto. Há cartazes, cabos pelo chão, gente que passa sem parar, uma criança que segura um cravo sem perceber bem o que transporta na mão. As duas cenas pertencem ao mesmo dia. Não precisam de se tocar. O que significa celebrar o 25 de Abril hoje? O 25 de Abril sempre foi muitas coisas ao mesmo tempo: memória, rutura, promessa, disputa. A data não mudou, nem o calendário, nem sequer o vocabulário que a acompanha. Mudou a forma como se habita aquilo que ela significa. E, mais devagar, a forma como se deixa de o habitar. Durante anos, a pergunta era saber se a democracia portuguesa sobreviveria ao seu próprio nascimento. A resposta foi-se acumulando em factos: eleições regulares, alternância, integração europeia, normalidade institucional, uma espécie de respiração administrativa que, por si só, já era muito para um país saído de ditadura, guerra colonial e isolamento. O regime consolidou-se. A pergunta perdeu urgência, talvez até tenha perdido público. Vieram outras, menos visíveis. Entre a festa pública e o protocolo institucional, a democracia portuguesa mostra sinais discretos de desgaste. Num país que já não precisa de provar que é democrático, o problema desloca-se. Não é a ausência de instituições. É a relação com elas. Não é a falta de liberdade formal. É a forma como essa liberdade circula no espaço comum: usada, ignorada, invocada, gasta, por vezes reduzida a palavra disponível para quase tudo. Um cravo permanece, mas já não ocupa o centro — entre a luz e a sombra, a liberdade torna-se presença discreta. A diferença entre uma celebração que se prolonga em cultura e outra que se fixa no protocolo não pertence apenas ao domínio da estética. Não é só questão de preferências políticas ou de estilos de governação local. Aponta para o modo como a democracia se transforma quando deixa de ser urgência e passa a ser dado adquirido: uma coisa que está ali, como a iluminação pública ou a calçada, reparada apenas quando falha. Há um momento em que a liberdade deixa de ser conquista e se torna cenário. Continua ali. Já não interrompe ninguém. Essa acomodação não costuma anunciar-se. Vem em mudanças de tom. Vem também na distância entre aquilo que se diz celebrar e aquilo que se pratica no dia seguinte, quando as cerimónias acabam, as cadeiras regressam ao armazém e o país volta à conversa habitual sobre suspeitas, irritações, culpas e pequenos ressentimentos que se oferecem como explicação de tudo. A linguagem altera-se primeiro. Certas palavras permanecem no lugar, mas perdem peso ou mudam de função. “Liberdade”, por exemplo, pode passar a designar coisas incompatíveis entre si — o direito de protestar e a vontade de humilhar, a autonomia cívica e o capricho agressivo, a crítica ao poder e o desprezo por qualquer limite comum. A ambiguidade, longe de ser resolvida, torna-se útil. Ao mesmo tempo, a desconfiança ganha terreno. Não a desconfiança crítica, que examina e distingue, mas uma suspeita difusa, que coloca tudo no mesmo plano. As instituições, os media, a justiça, a política: tudo passa a parecer igualmente contaminado. Não é recusa informada. É desgaste. E o desgaste tem uma vantagem sobre a rutura: não exige coragem, nem programa, nem rosto. Um discurso que antes seria recusado torna-se tolerável. Uma simplificação que antes pareceria grosseira passa a parecer eficaz. Uma exclusão que antes exigiria justificação começa a circular sem ela. A repetição faz o trabalho que a convicção ainda não conseguiria fazer. Depois de suficientemente repetida, a frase deixa de parecer violenta e começa a parecer apenas uma opinião entre outras. O país que saiu de uma ditadura construiu a sua democracia a partir de uma experiência concreta de limite. Sabia o que era não poder falar, não poder reunir, não poder escolher. Sabia também o que era medir palavras, desconfiar da parede, baixar a voz, conhecer alguém que tinha sido chamado, detido, vigiado, empurrado para fora da sua própria vida. Esse conhecimento não era doutrina. Era vida. O problema de uma democracia consolidada é diferente: a ausência dessa memória direta nas gerações seguintes. Não porque a História desapareça, mas porque deixa de ser experiência. Aprende-se uma data, talvez um slogan, talvez uma fotografia repetida nos manuais. Mais difícil é transmitir o peso daquilo que não se viveu: o ar parado de uma sociedade onde a prudência se confundia com sobrevivência. A transmissão não é automática. Entre o que aconteceu e o que se entende há sempre um intervalo. Pode ser preenchido por ensino, cultura, discussão pública, conflito honesto, contacto com testemunhos, leitura de documentos, prática cívica. Ou pode ficar vazio, entregue à pressa das redes, à simplificação partidária, à fadiga das famílias, à ideia cómoda de que a democracia é uma paisagem e não uma construção. Quando fica vazio, o passado não desaparece. Torna-se abstrato. E o abstrato protege menos. Ninguém arrisca grande coisa por uma abstração sem corpo. Arrisca-se por uma lembrança concreta, por uma injustiça reconhecida, por alguém a quem se deu nome, por uma ferida que ainda encontra linguagem. A diferença entre uma democracia que se defende e uma democracia que se presume começa aí. Na primeira, a liberdade é testada contra a realidade. Na segunda, é assumida como mobiliário da casa. Existe, ocupa espaço, parece sólida; mas ninguém pergunta quem a conserva, quem a limpa, quem a repara quando uma perna começa a ceder. Nada disto se traduz necessariamente em mudanças visíveis no funcionamento das instituições. O parlamento continua a reunir. Os tribunais continuam a decidir. Os jornais continuam a publicar. O calendário político mantém-se. A forma democrática pode resistir durante muito tempo ao empobrecimento da sua matéria. Mas a relação com esse conjunto altera-se. Uma democracia pode continuar a existir formalmente e perder densidade no modo como é vivida. Não há contradição nisso. Há desfasamento. As palavras permanecem; o uso que delas fazemos, esse, começa a mudar. O 25 de Abril não produz esse desfasamento. Expõe-no. Quando uma cidade celebra com intensidade cultural e outra cumpre com precisão institucional, não estamos apenas perante estilos diferentes. Estamos perante leituras diferentes do que ainda precisa de ser defendido. Numa, a memória é ativada como prática: sai à rua, procura público, mistura gerações, arrisca algum excesso. Noutra, é preservada como referência: fica ordenada, respeitosa, muitas vezes impecável, talvez demasiado segura de si. Nenhuma destas posições explica sozinha o estado da democracia. A coexistência das duas, quase sem atrito, diz alguma coisa sobre o momento. Diz que o consenso se deslocou. Não necessariamente contra Abril; talvez para longe dele, para uma zona onde a data é aceite, mas já não organiza o imaginário comum com a mesma força. Durante décadas, o 25 de Abril funcionou como ponto de convergência. Não eliminava divergências políticas, mas definia um terreno comum. Esse terreno ainda existe. Tornou-se menos evidente. A democracia já não tem apenas adversários exteriores ou nostálgicos declarados; tem também o cansaço dos que a herdam sem espanto e a usam sem gratidão, como se tivesse nascido com o mobiliário urbano. A disputa não é frontal. Não aparece como rejeição aberta da data ou do que ela representa. Passa por gestos mais discretos: a forma como se fala do passado, a forma como se redesenha o que conta como ameaça, a forma como se desloca a atenção de uma promessa coletiva para uma soma de irritações privadas. Quando a liberdade deixa de ser linguagem de emancipação e passa a ser apenas linguagem de licença, algo mudou no centro da conversa. Uma democracia não se esgota na sua origem. Mas a forma como trata essa origem denuncia alguma coisa do que se tornou. Portugal não é um caso isolado. Em várias democracias consolidadas, a relação com os seus momentos fundadores está a mudar. O problema não é apenas a perda de memória. É a conversão da memória numa coisa disponível, maleável, sem poder de orientação. Os acontecimentos permanecem nos arquivos; o seu sentido passa a circular mais leve, mais disputável, mais vulnerável a apropriações que dele retiram o incómodo. O 25 de Abril, visto a partir de Lisboa, não é só uma data nacional. É também peça de uma história mais larga: a de um país que foi centro de um império e que, ao perder esse lugar, teve de reaprender o tamanho da sua voz. Essa aprendizagem nunca ficou concluída. Nem poderia. Um país não se torna subitamente lúcido sobre si próprio por mudar de regime. Leva consigo hábitos antigos, fantasmas, hierarquias, nostalgias, formas de obediência que sobrevivem à queda das estátuas e ao fim das palavras oficiais. Há uma experiência acumulada — de poder, perda, adaptação, atraso, sobrevivência — que continua a informar a forma como se olha para o presente. Não como doutrina. Como fundo. Talvez por isso faça sentido desconfiar das narrativas demasiado triunfais, das certezas rápidas, da ideia de que a democracia é uma linha ascendente que só precisa de tempo para se aperfeiçoar. O olhar de Lisboa, quando não se deixa adormecer por si mesmo, pode ter essa utilidade: reparar no que se estraga devagar. Nas margens antes do centro. No tom antes da lei. Na piada antes da norma. Na impaciência antes da violência. Não como ameaça súbita. Como deslocação. No final do dia, as cadeiras são arrumadas. Os cabos de som são desligados. Os cravos começam a murchar. Alguém varre o chão perto da entrada da sala. Noutro lugar, desmonta-se o palco. A criança talvez já tenha largado a flor, ou a tenha levado para casa sem saber se deve pô-la num copo com água. A data passa. O que fica não é o programa nem o discurso. É a forma como, no dia seguinte, se continua — ou não — a habitar aquilo que se disse celebrar. #25DeAbril #Democracia #Liberdade #Memoria #Portugal #AtlanticLisbon #PensamentoCritico #Cultura #Historia #Politica #Sociedade #Reflexao #Europa

  • As Laranjas de Sevilha | Conto real

    Helena serviu o vinho branco e sentou-se à mesa com um suspiro. Do outro lado, Sofia mexia no telemóvel, provavelmente a ver as fotografias outra vez. Miguel estava na cozinha a falar de futebol com o Rui, as vozes abafadas pela porta entreaberta. "Então, vocês também foram à tal casa do Pilatos?" perguntou Helena, enchendo o copo de Sofia sem esperar por uma resposta. As Laranjas de Sevilha | Conto real — Atlantic Lisbon "Fomos sim. O Rui ficou fascinado com aquilo." Sofia largou o telemóvel, mas continuou a olhar de lado para ele. "Não parava de tirar fotografias aos azulejos. Eu é que fiquei enjoada ao fim de meia hora." "Pois." Helena bebeu um gole. "Nós também fomos. O Miguel fez questão. Mas sabes o que é que ele realmente queria ver? As mulheres em flamenco no bar à noite." Sofia riu-se, mas o riso saiu forçado. "O Rui também. Disse que era cultura, mas eu bem vi onde é que ele tinha os olhos." As duas ficaram em silêncio por um momento. Lá fora, uma buzina. Helena alisou a toalha da mesa com a mão, com um gesto nervoso que fazia desde miúda. "Vocês ficaram em que hotel?" perguntou Sofia. "Ah, um na zona histórica. Pequenino. O Miguel queria ir para um daqueles novos, mas eu achei demasiado caro." "Nós ficámos num Airbnb em Triana." Sofia fez uma pausa. "O Rui é que escolheu. Disse que era mais autêntico." Helena revirou os olhos. "Autêntico. O Miguel também anda com essa mania desde que começou a ler blogues de viagem. Autêntico é ficar em casa e poupar dinheiro." "Pois é." Sofia pegou no copo mas não bebeu. "Mas pronto, gostaste da cidade?" "Gostei, gostei." Helena encolheu os ombros. "É bonita. As ruas todas estreitas, as flores. Mas é estranha, não é? Aquele calor todo em fevereiro. E depois há turistas por todo o lado. No primeiro dia fomos àquele restaurante... como é que se chamava? Tinha um tigre pintado na parede." "Casa del Tigre?" "Esse! Como é que sabes?" Sofia corou um pouco. "Também fomos lá. Estava no artigo que eu tinha guardado." "Ah." Helena ficou tensa. "O do WP?" "Sim, esse." "Nós também seguimos esse." A voz de Helena saiu mais seca do que pretendia. "O Miguel imprimiu e levou na mala." Sofia mexeu-se na cadeira. "Nós vimos em online. O Rui fez uma lista." As duas olharam para os copos. Do interior da cozinha vinha agora uma gargalhada do Miguel. "E aquele museu de gravuras antigas?" perguntou Helena ao fim de um bocado. "Foste?" "Fomos. Sinceramente, achei uma seca. O Rui é que gostou, ficou meia hora a conversar com o tipo da loja sobre mapas do século XVI." Sofia fez uma careta. "Eu fingi que estava interessada mas só queria era ir embora. Tenho a certeza de que ele queria comprar uma gravura de cem euros qualquer." "Compraram alguma coisa?" "Não. Eu disse que não tínhamos espaço na mala." Helena sorriu pela primeira vez. "Fizeste bem. O Miguel comprou um chapéu ridículo. Disse que era típico. Gastou noventa euros num chapéu que nunca mais vai usar." "O Rui comprou cerâmica." Sofia revirou os olhos. "Tivemos de pôr na mala de cabine porque tinha medo que partisse. Ficámos sem espaço para as garrafas de vinho." "Nós trouxemos três garrafas," disse Helena com um ar triunfante. "Envolvi em roupa suja e veio tudo na perfeição." Sofia concordou, mas o olhar dela tinha qualquer coisa de ressentido. "Vocês almoçaram naquele sítio do rio? Com os mariscos?" "María Trifulca?" "Sim." "Fomos. Caríssimo." Helena baixou a voz, como se estivesse a contar um segredo vergonhoso. "Gastámos cento e cinquenta euros a dois. O Miguel pediu atum não sei de quê, eu comi umas gambas. Estava bom, sim, mas pelo mesmo preço comíamos no Ramiro três vezes." "Pois. Nós também achámos caro." Sofia olhou para a porta da cozinha. "Mas o Rui disse que era a experiência, que não era só a comida." "A experiência." Helena repetiu a palavra como se fosse uma ofensa pessoal. "Sabes o que é que foi a minha experiência? Ver o Miguel a olhar para a miúda da mesa ao lado durante todo o almoço." Sofia ficou calada. "Desculpa." Helena encheu o copo outra vez. "Estou a ser má língua. Foi uma boa viagem. Gostei mesmo." "Eu também gostei." Sofia pegou no telemóvel, desbloqueou-o, bloqueou-o outra vez. "Só que... não sei. Às vezes tenho a sensação de que fizemos exatamente o mesmo que toda a gente faz. Vimos o que toda a gente vê. Comemos onde toda a gente come." "Porque é que isso é mau?" "Não é mau. É só... não sei. Chato." Helena olhou para ela com curiosidade. "Querias ter feito o quê?" "Não sei. Algo diferente. Ter-me perdido numa rua qualquer. Ter comido numa tasca de bairro onde só vão espanhóis. Ter conhecido alguém." Sofia parou, como se tivesse dito demais. "Conhecido alguém?" "Esquece. É uma estupidez." "Não, diz." Sofia suspirou. "É só que... às vezes acho que a minha vida é como essas viagens. Tudo programado. Tudo previsto. O Rui com as listas dele, eu com os artigos guardados. Vamos aos sítios certos, comemos as coisas certas, tiramos as fotografias certas para pôr no Instagram. Mas não acontece nada de verdade." Helena ficou calada, a rodar o copo entre os dedos. Lá fora, a noite tinha caído completamente. "Sabes o que é que eu gostei mais da viagem?" disse Helena ao fim de um bocado. "O quê?" "Havia uma mercearia em Triana. Não era nada de especial. Vendia enchidos e azeitonas e essas coisas. Entrei lá sozinha porque o Miguel estava numa outra loja qualquer a olhar para camisolas de futebol. Estava lá uma senhora velhinha atrás do balcão. Não falava inglês, eu não falo espanhol. Mas comprei umas azeitonas e ela pôs num saco de papel e sorriu-me. E eu sorri de volta. E foi só isso." Sofia olhou para ela. "Foi só isso," repetiu Helena. "Mas fiquei a pensar naquilo durante dias. Naquele momento. Naquele sorriso. Porque era verdadeiro, percebes? Não estava em nenhum artigo. Ninguém tirou uma fotografia." "Sim," disse Sofia baixinho. "Eu percebo." A porta da cozinha abriu-se e os homens entraram, trazendo o cheiro do assado. Miguel trazia uma travessa fumegante, o Rui os pratos. "Pronto, meninas," disse Miguel, "vamos comer que já é tarde." "Estávamos a falar de Sevilha," disse Helena. "Ah, Sevilha!" Miguel pousou a travessa no centro da mesa com um estrondo. "Que saudades. Temos de voltar." "Temos de voltar," repetiu o Rui, distribuindo os pratos. Sofia e Helena trocaram um olhar por cima da mesa. Depois Sofia serviu-se de salada e Helena cortou o pão e ninguém disse mais nada sobre Sevilha até ao final do jantar. Mas mais tarde, quando os homens estavam na sala a ver televisão, as duas ficaram na cozinha a lavar a loiça. Sofia lavava, Helena secava. "Sabes," disse Sofia sem levantar os olhos do lava-loiça, "às vezes acho que a melhor parte da viagem é depois." "Depois?" "Sim. Quando voltas para casa e te lembras das coisas. Quando te lembras de como te sentiste. Não da fotografia que tiraste, mas de como te sentiste quando a tiraste." Helena secou um prato devagar. "Eu lembro-me do cheiro." "Que cheiro?" "Das laranjeiras. Havia milhares delas. O Miguel disse que eram quarenta mil, tinha lido não sei onde. E cheiravam tanto. À noite, quando passeávamos depois do jantar, era quase demasiado. Enjoativo. Mas também bonito. Estranho." Sofia desligou a água e ficou com as mãos na pia. "Nós também reparámos nas laranjeiras." "Pois." Um silêncio confortável desceu sobre a cozinha. Da sala vinha o murmúrio da televisão. "Helena," disse Sofia passado um bocado, "achas que somos felizes?" A pergunta ficou suspensa no ar como o cheiro das laranjeiras de Sevilha, doce e enjoativo e estranho. Helena pensou na gravura que o Miguel quase comprou, no chapéu ridículo que ele comprou, no almoço caríssimo à beira do rio. Pensou na rapariga da mesa ao lado. Pensou na senhora velhinha da mercearia. Pensou no cheiro das laranjeiras. "Não sei," disse Helena por fim, e era a primeira vez em muito tempo que dizia uma coisa completamente verdadeira. "Acho que sim. Às vezes." Sofia acenou em concordância e fê-lo devagar. Depois voltou a abrir a torneira e continuou a lavar a loiça. E assim ficaram as duas, lado a lado, na cozinha amarela de Helena, a pensar em Sevilha e em quarenta mil laranjeiras e em todas as pequenas mentiras e verdades que fazem uma vida. #AtlanticLisbon #AsLaranjasDeSevilha #Conto #Ficcao #Literatura #ContoLiterario #Sevilha #Relacoes #Casamento #Memoria #Melancolia #VidaDomestica Subscrever a Newsletter

  • Trump, Venezuela e o segundo disparo - Ensaio Militar Atlantic Lisbon

    Eu estava a olhar para um mapa antigo — desses em que o mar parece sempre maior do que a terra — quando a frase chegou, vinda do século XXI com a brusquidão de um selo de borracha: uma ordem, alegadamente verbal, para “não deixar ninguém vivo” numa embarcação suspeita de tráfico. Trump, Venezuela e o segundo disparo - Ensaio Militar no Atlantic Lisbon Quando o Estado decide que a dúvida já não merece tribunal - Ensaio Militar no Atlantic Lisbon O mapa era uma reprodução barata, comprada numa loja de museu; a frase vinha do lado frio do mundo, onde a política se escreve em plataformas e a guerra, muitas vezes, se anuncia com meia dúzia de palavras. Ficou-me a imagem: nessa zona como margem, como página molhada onde se tenta escrever um novo direito, mais rápido do que o antigo, mais útil ao instinto do que à lei. Não sei como explicar isto sem recorrer a uma lembrança que me acompanha desde cedo: nos manuscritos medievais, quando se descrevia o “direito da espada”, havia sempre uma preocupação em dizer quem podia levantar a lâmina e em que condições. O poder precisava de um ritual para não parecer apenas violência. A modernidade prometeu substituir o ritual por regras. E, durante algum tempo, até acreditámos. Depois vieram as guerras sem declaração, as operações com nomes assépticos, as justificações fechadas em gavetas. E voltámos ao princípio, com melhores ecrãs. O caso — a sequência de acontecimentos que, nos últimos dias, tem circulado entre Washington, quartéis e salas onde juristas falam baixo — é simples e, por isso mesmo, devastador. Um barco, apontado como parte de uma rota de tráfico ligada à Venezuela, é localizado ao largo de Trinidad e Tobago. Há um ataque. A embarcação arde. No acompanhamento da operação, surgem dois homens agarrados ao que resta, como náufragos de uma história antiga. E, segundo o relato, há um segundo ataque para “fechar” a missão. O detalhe — esse detalhe que não é técnico, é moral — é que o segundo ataque não teria como alvo um motor, um leme, uma ameaça altiva, mas dois sobreviventes na água. A Casa Branca nega a versão mais grave. O Pentágono rejeita a narrativa como um todo e insiste que a operação — e as outras que se seguiram — é legal, conforme a lei interna e o direito internacional, validada por advogados civis e militares ao longo da cadeia de comando. A frase “validada por advogados” é o novo incenso: serve para perfumar atos que, sem esse fumo, cheirariam demasiado a queimado. Também se diz — e isto é parte do mesmo quadro — que os EUA estão em “conflito armado” com “narco-terroristas”. É aqui que o mapa antigo volta a entrar na minha cabeça: a maneira como a palavra “guerra” cresce, como hera, por cima de uma casa. Começa numa parede, depois sobe, tapa janelas, e um dia damos por nós a viver no escuro, convencidos de que é normal. O que é, afinal, um “narco-terrorista”? A palavra parece ter sido escolhida com cuidado, como se alguém a tivesse testado em voz alta até perceber que ela faz duas coisas ao mesmo tempo: aproxima o traficante do inimigo militar e afasta o cidadão do tribunal. “Terrorista” é um rótulo que, na mente pública, autoriza quase tudo; “narco” acrescenta o veneno doméstico da droga, a dor real de bairros e famílias. O resultado é uma criatura nova, de propaganda e de direito: não é apenas um criminoso, é um inimigo existencial. E, quando se cria um inimigo existencial, a lei passa a ser tratada como obstáculo. Ora, há duas formas de um Estado lidar com o crime no mar. A primeira é a forma difícil e civil: vigilância, interdição, abordagem, detenção, recolha de prova, acusação. A segunda é a forma fácil e fatal: eliminar. É tentador chamar “eficácia” àquilo que, na verdade, é um atalho. E os atalhos, como se sabe desde as histórias de estrada, raramente levam a bom destino. O que se descreve nesta campanha — uma sequência de ataques a embarcações suspeitas, com dezenas de mortos — é uma mudança de gramática. Não se fala de apreender. Fala-se de “retirar a ameaça”. Não se fala de deter. Fala-se de “neutralizar”. É um vocabulário que, por si só, já é um sinal: quando a linguagem é feita para evitar a palavra “morte”, é porque a morte está demasiado presente. Mas o que, para mim, divide as águas não é a primeira explosão. É a segunda. Porque o mundo, depois de demasiadas carnificinas, foi obrigado a aceitar um princípio que parece banal, mas não é: até na guerra há pessoas que deixam de poder ser atacadas. O direito dos conflitos armados — aquele conjunto de regras que muitos citam sem ler — foi pensado para conter o pior, não para o decorar com fórmulas. E aqui entra uma palavra que me lembra sempre os claustros e a disciplina: honra. A honra, na tradição antiga, era um código ambíguo, muitas vezes violento; mas tinha um limite que a modernidade herdou, de forma mais clara e mais humana: não se mata quem já não pode combater. Um homem ferido, um prisioneiro, um náufrago. Não se mata porque, se se mata, o Estado torna-se aquilo que diz combater. O argumento que, segundo relatos, terá sido invocado para justificar o segundo ataque é de uma frieza que parece saída de um gabinete: os sobreviventes poderiam, teoricamente, comunicar com outros e facilitar um resgate da carga. Repare-se na palavra “teoricamente”. A teoria, quando serve para matar, é a máscara mais perigosa. Com “teoricamente”, tudo se torna possível. Um homem na água, “teoricamente”, pode fazer isto e aquilo. “Teoricamente”, qualquer sobrevivente é uma ameaça futura. “Teoricamente”, a compaixão é uma falha de segurança. O problema é que as regras não foram escritas para o “teoricamente”. Foram escritas para o que está diante dos olhos: um corpo a tentar não afundar. Se este segundo ataque aconteceu como descrito, não estamos perante um excesso de zelo. Estamos perante uma decisão que rasga uma linha fundamental: a linha entre combate e execução. E quando falo em “execução”, não o faço para dramatizar. Faço-o porque é isso que a execução é: morte deliberada de alguém que já não está em condições de lutar, sem julgamento, sem captura, sem processo, com a única legitimidade de uma ordem. A execução não precisa de pelotão, nem de parede; basta um míssil e um ecrã. Há quem responda com o argumento mais antigo e mais compreensível: “A droga mata. Isto é guerra.” Sim, a droga mata, e mata sem piedade. Mas é precisamente por isso que o Estado tem de ser mais cuidadoso, não menos. Se a dor social se torna autorização para abandonar regras, então qualquer dor social servirá, amanhã, para abandonar outras. A democracia não é testada nos dias em que é fácil ser justa; é testada nos dias em que a raiva pede sangue. A América, aliás, conhece bem esta tentação. Presidentes de vários partidos, em momentos diferentes, expandiram o uso unilateral da força, contornaram autorizações, reconfiguraram palavras para fazer caber operações em molduras legais estreitas. Houve campanhas aéreas justificadas por urgências humanitárias, houve ataques “limitados” apresentados como excepção controlada, houve golpes cirúrgicos tratados como atos de responsabilidade global. Tudo isso abriu precedentes. Mas há uma diferença essencial entre atingir infraestruturas militares de um Estado em guerra ou numa intervenção, e escolher alvos humanos em embarcações de suspeitos criminais, usando a lei da guerra como chave mestra. O que está a ser tentado — e isto é o ponto mais inquietante — é transformar a perseguição penal num conflito armado por decreto conceptual. Uma designação administrativa (“terrorista”) passa a funcionar como transubstanciação: alguém deixa de ser suspeito de crime e passa a ser alvo militar. É uma alquimia perigosa. E qualquer jurista sério sabe que a palavra não cria, por si só, a realidade. Não é por chamar “ataque armado” ao tráfico que ele se torna um ataque armado no sentido em que o direito internacional reconhece. Não é por colar “terrorista” a uma rede criminosa que ela passa a estar automaticamente no mesmo plano de um grupo armado com controlo territorial e capacidade militar organizada. Chamar não é provar. E quando se começa a construir legalidade por chamamento, abre-se um mundo em que a lei é usada como decoração de atos já decididos. A parte política desta história é igualmente reveladora. Quando membros do Congresso, com passado militar e de inteligência, divulgaram uma mensagem pública lembrando aos militares que têm dever de recusar ordens ilegais, a resposta foi de intimidação. Chamou-se sedicioso ao gesto de recordar a regra básica que separa um exército de uma milícia: obedece-se ao que é legal; recusa-se o que é ilegal. Houve investigações anunciadas, ameaças implícitas de consequências graves, sinais de que o aparato do Estado poderia ser usado para punir a lembrança da lei. Isto, para mim, é tão grave como o episódio no mar. Porque mostra o ambiente em que certas ordens se tornam possíveis: um ambiente em que se procura ensinar, por medo, que questionar é traição. Quando a lei passa a ser tratada como insolência, a violência passa a ser tratada como virtude. Depois, surgiram promessas de supervisão e de escrutínio. Alguns republicanos disseram, com cautela, que se a história for verdadeira será ilegal; outros mostraram incredulidade, como quem tenta proteger a própria ideia de instituições. A incredulidade é humana, eu sei. Também me custa acreditar. Mas a incredulidade não é método. O método chama-se apurar. E apurar, neste caso, implica uma coisa que os governos detestam: transparência. Há ainda um elemento que paira como espada suspensa: existe registo visual da operação, e foi divulgada uma versão editada. O resto permanece oculto. Ninguém precisa de ser especialista para perceber o que isso significa. Se o vídeo completo mostrar claramente sobreviventes a serem mortos, os comunicados cairão como folhas secas. E o país chamado América será confrontado com a imagem que mais teme: não a de um inimigo a cometer atrocidades, mas a de si próprio a atravessar um limite. Há momentos — raros e decisivos — em que uma nação se recorda do que prometeu ser. Não acontece por discursos bonitos, nem por slogans patrióticos. Acontece quando a prova é demasiado evidente para ser absorvida pelo cinismo. Acontece quando a imagem quebra a narrativa. E, sim, há precedentes históricos de choques dessa natureza: episódios em que a violência, exposta, obrigou a sociedade a encarar a distância entre o ideal e o ato. O problema é que, depois do choque, há sempre uma tentativa de voltar ao normal, de tratar o caso como “excepção”. Só que a excepção, quando é tolerada, vira manual. O que me interessa, como "escritor" — e como alguém que desconfia tanto da vaidade como do desespero — é a pergunta que a história impõe ao leitor comum, não ao jurista nem ao militar: quando é que uma democracia decide que já não precisa de tribunal? Porque, no fundo, é disso que se trata. Se se aceita que o Estado mate suspeitos de crime em alto mar com base numa moldura de “guerra” criada por palavras, então aceita-se, implicitamente, que o processo é dispensável sempre que a urgência política o exigir. Hoje é nas Caraíbas; amanhã será outra margem. Hoje é um barco; amanhã será uma casa. Hoje são “narco-terroristas”; amanhã será outra etiqueta. A violência adora etiquetas. As etiquetas facilitam a distância. E a distância facilita o esquecimento. Volto ao mapa antigo: aquelas cartas navais eram desenhadas por homens que sabiam que o mar engole tudo, inclusive as certezas. Havia monstros desenhados nas margens, não porque acreditassem neles literalmente, mas porque queriam marcar o que não conheciam, o que não controlavam. Hoje, os monstros não são desenhados. São pronunciados. “Terrorista.” “Inimigo.” “Ameaça.” A palavra serve para ocupar o lugar da dúvida. E a dúvida é essencial numa democracia. A dúvida é uma forma de decência. Não estou a pedir indulgência para traficantes. Nem romantismo para cartéis. Estou a pedir que se compreenda o mecanismo: quando o Estado se habitua a matar sem prender, começa a perder o hábito de provar. E quando perde o hábito de provar, perde o hábito de ser justo. Há uma imagem que não me larga: dois homens na água, sem terra à vista. Não os conheço. Não sei o que fizeram. Podem ter transportado veneno. Podem ter mentido. Podem ter sido, como tantos na engrenagem do crime, peões descartáveis. Nada disso muda a pergunta central: estavam fora de combate? Se estavam, a linha é clara. E a clareza, aqui, é uma forma de revolução tranquila: dizer que há um “não” que nem a raiva pode revogar. Se o relato for falso, então é urgente desmontá-lo com factos, ponto por ponto, sem neblina institucional. A verdade não teme detalhes. Se for verdadeiro — mesmo em parte — então há um problema que não se resolve com demissões simbólicas nem com frases sobre “legalidade”. Resolve-se com investigação séria, responsabilização e, sobretudo, com a reposição de um princípio: o Estado não tem direito a transformar o mar em tribunal, nem o tribunal em mar. A diferença entre um país e um bando não está na capacidade de disparar. Está na capacidade de se impedir de disparar quando já não há combate. Se houver vídeo completo, ele virá. Talvez não amanhã, talvez não pela mão de quem governa. Mas a história tem uma mania: o que é gravado acaba por aparecer, nem que seja em pedaços. E quando aparecer, o público terá de decidir se prefere a mentira confortável — “foi preciso, foi guerra, foi inevitável” — ou a verdade difícil: que, algures, alguém escolheu um segundo disparo. E que esse segundo disparo, mais do que matar dois homens, feriu uma coisa maior e mais frágil: a ideia de que a lei não é adorno, é limite. O limite no mar #DireitoInternacional #UsoDaForça #GuerraSemGuerra #EstadoDeDireito #PoderELei

  • Bondi, Roy Cohn e o colapso da independência judicial nos EUA

    O que a demissão de Pam Bondi revela sobre a lei como ilusão partilhada. A Procura de Roy Cohn. Do edifício do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em Washington, pende um banner com o rosto de Donald Trump. Não é uma decoração institucional. É um sinal de posse. Capa editorial do Atlantic Lisbon: um martelo de juiz assente sobre mármore rachado, ao lado de óculos e pérolas, simboliza a degradação da independência judicial nos EUA no artigo “Bondi, Roy Cohn e o colapso da independência judicial nos EUA” A diferença importa. As instituições democráticas sobrevivem, em parte, porque se mantêm distintas das pessoas que as ocupam temporariamente. O Departamento de Justiça americano — criado em 1789, o mesmo ano em que a República nasceu — foi construído sobre essa ficção operacional: que o seu titular serve a lei, não o Presidente. O banner desfaz a ficção em tela gigante. Diz: aqui habita o poder pessoal, e o poder pessoal é este homem. Pam Bondi foi despedida na quinta-feira. Tinha sido escolhida precisamente por não representar uma ameaça de independência — antiga procuradora-geral da Flórida, sem experiência no sistema legal federal, chegou ao cargo com a credencial que Trump valoriza acima de todas: lealdade demonstrada antes da nomeação. Saiu, segundo relatos, por razão oposta à que devia justificar uma demissão de um procurador-geral: não por ter abusado do cargo, mas por não ter abusado suficientemente depressa. O que a demissão de Pam Bondi destruiu no Departamento de Justiça americano? Trump queria indiciamentos. Comey. Letitia James. Adam Schiff. Queria-os com a urgência com que se quer uma dívida cobrada — pessoalmente, visivelmente, antes que a memória do insulto enfraquecesse. Os grand juries recusaram-se. Um juiz federal deitou abaixo os indiciamentos que chegaram a ser produzidos, por vício de nomeação. O instrumento falhou — não por resistência da procuradora-geral, mas porque a maquinaria judicial americana ainda contém partes que não obedecem por decreto. É aí que o momento se torna interessante. Roy Cohn morreu em 1986, de complicações da sida que recusou admitir ter. Era advogado. Era fixer. Era, acima de tudo, uma teoria da lei: a ideia de que o direito não é um árbitro mas um campo de batalha, e que vencer depende de o usar como arma antes que o outro lado o faça. Tinha sido o jovem procurador que ajudou a enviar Julius e Ethel Rosenberg para a cadeira eléctrica. Tinha sido o conselheiro de Joe McCarthy. Tinha sido o homem que ensinou o jovem Trump, nos anos 1970, que atacar é sempre melhor do que defender, que nunca admitir é sempre melhor do que reconhecer, e que a lei, em mãos certas, é apenas poder com toga. "Where's my Roy Cohn?" — Trump disse-o durante o primeiro mandato, a lamentar que o seu procurador-geral Jeff Sessions se recusasse a protegê-lo da investigação sobre a Rússia. A frase ficou registada, citada, analisada como curiosidade. O que raramente se analisa é o pressuposto que contém: que um procurador-geral deveria ser exactamente isso — um Cohn pessoal. Como o cargo de procurador-geral americano perdeu a sua última ficção operacional — e o que o precedente deixa para quem vier a seguir. Um homem que usa a maquinaria do Estado como se fosse um escritório de advogados privado ao serviço do cliente. Este pressuposto não é uma aberração. É a lógica subjacente de um cargo que nunca resolveu a sua própria contradição. O procurador-geral americano é simultaneamente chefe da máquina federal de aplicação da lei e membro do gabinete do Presidente — nomeado por ele, sujeito à sua confiança política, demissível ao seu critério. Nenhuma outra democracia ocidental consolidada organiza desta forma a sua mais alta autoridade judiciária. No Reino Unido, o Attorney General é um cargo político mas com independência operacional codificada em convenção robusta. Na maioria dos países da Europa continental, os ministros da Justiça têm poderes mais limitados sobre as procuradorias. Em Portugal, o Procurador-Geral da República tem mandato fixo, não é demissível pelo governo, e a separação entre autoridade política e autoridade de investigação é estrutural, não apenas convencional. A América escolheu a convenção. Durante dois séculos e meio, a convenção funcionou — não porque os Presidentes fossem particularmente virtuosos, mas porque os procuradores-gerais, mesmo os mais leais politicamente, tinham consciência de que a sua autoridade dependia da credibilidade que só a independência confere. Robert Kennedy serviu o seu irmão presidente. John Mitchell serviu Nixon com demasiada fidelidade e foi preso. Janet Reno resistiu a Clinton em momentos decisivos. A convenção sobrevivia porque havia um custo para a violar — reputacional, histórico, eventualmente judicial. O que Trump fez — e o que Bondi aceitou fazer — não foi inventar algo novo. Foi perceber que o custo tinha sido suficientemente erodido para deixar de funcionar como travão. Há uma frase de uma juíza federal, dita aos advogados do Departamento de Justiça num processo sobre deportação, que merece ser lida devagar: "Tomaram a presunção de regularidade e destruíram-na." A "presunção de regularidade" é um princípio processual: os tribunais presumem, por defeito, que os advogados do governo estão a agir de boa fé, que os factos que apresentam são verdadeiros, que os argumentos jurídicos que avançam são honestos. Essa presunção poupa tempo. Permite que o sistema funcione com alguma velocidade. É, também, o capital institucional acumulado durante décadas de advogados que, mesmo quando errados, não mentiram deliberadamente. Quando esse capital se esgota — quando os juízes deixam de presumir boa fé porque a boa fé foi sistematicamente traída — o sistema não colapsa de imediato. Fica mais lento. Mais caro. Mais adversarial em cada detalhe. É um custo difuso, distribuído, que não aparece em nenhuma manchete mas que a geração de advogados que agora começa a sua carreira vai carregar durante décadas. É este o tipo de dano que não se vê em tempo real. E é por isso que é o mais sério. De Lisboa, a leitura deste momento tem uma tonalidade diferente da que domina a cobertura americana. Nos Estados Unidos, o debate centra-se no escândalo: Bondi disse isto, Trump ordenou aquilo, o grand jury recusou, o juiz deitou tudo abaixo. O escândalo é real. Mas o escândalo é também um ecrã que impede de ver o padrão. Portugal passou quarenta e oito anos sob um regime que usou a lei exactamente como Trump sonha usá-la: como instrumento de ordem política, de perseguição selectiva, de protecção dos leais e punição dos adversários. A PIDE tinha mandatos judiciais. Os tribunais plenários funcionavam com formas legais. O Estado Novo não aboliu o direito — colonizou-o por dentro, lentamente, substituindo as pessoas, alterando as convenções, normalizando o que antes seria impensável. Não é uma comparação directa — as democracias têm anticorpos que os regimes autoritários suprimem. Mas conhecer esse processo por dentro, como Portugal o conhece, permite reconhecer os seus primeiros sintomas sem esperar pela febre alta. O que distingue uma república saudável de uma república em dificuldade não é a ausência de líderes que queiram usar o poder de forma pessoal — esses existem sempre. É a presença de instituições com densidade suficiente para resistir: juízes que não obedecem, grand juries que recusam, advogados que se demitem em vez de assinar. Nos Estados Unidos de 2025, alguns desses anticorpos ainda funcionaram. Os grand juries recusaram-se. Os juízes rejeitaram nomeações ilegais. Isso não é reconfortante. É apenas o sinal de que o processo ainda não terminou. Todd Blanche, que assumiu interinamente o cargo de procurador-geral, falou na CPAC — a conferência do movimento conservador americano — na semana passada. Pediu ao público que vaiasse quando mencionou ter sido democrata. O público correspondeu. Blanche agradeceu. É um gesto pequeno. Mas os gestos pequenos dizem o que os discursos oficiais escondem. Um procurador-geral que pede vaias ao público partidário como prova de lealdade política não está a desempenhar um cargo de aplicação da lei. Está a fazer uma performance de pertença que subordina o ofício à tribo. A questão não é se Blanche acredita no que diz. A questão é o que o gesto torna possível dizer sobre o que é o cargo — e o que se torna, daqui em diante, normal exigir a quem o ocupe. As repúblicas não morrem de golpe. Morrem de erosão — de cada convenção que se abandona sem custo visível, de cada linha que se cruza porque a anterior não teve consequências, de cada funcionário que decide que a lealdade ao superior é mais segura do que a lealdade ao cargo. A história americana tem exemplos de resistência a este processo: os procuradores que se demitiram na "Matança do Sábado à Noite" durante o Watergate, os advogados que documentaram os seus protestos antes de sair. Esses gestos importam — não porque parem o processo, mas porque criam o registo a partir do qual o processo pode, mais tarde, ser revertido. O que Bondi deixa para trás não é apenas um departamento com menos funcionários e menos credibilidade. É um precedente: a demonstração de que um procurador-geral pode subordinar completamente o Departamento de Justiça à vontade pessoal do Presidente durante meses, sem consequência institucional imediata. Esse precedente existe agora — para o próximo Presidente que queira tentar o mesmo, qualquer que seja o seu partido. A procura de Roy Cohn continua. O próximo candidato ao cargo sabe exactamente o que o emprego exige. O banner ainda está lá. #AtlanticLisbon #EstadosDeDireito #DepartamentoDeJustiça #Trump #PamBondi #RoyCohn #Democracia #JornalismoLiterário #EstadosUnidos #PoderJudicial

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