As Laranjas de Sevilha | Conto real
- Aurelian Draven

- 21 de abr.
- 6 min de leitura
Helena serviu o vinho branco e sentou-se à mesa com um suspiro. Do outro lado, Sofia mexia no telemóvel, provavelmente a ver as fotografias outra vez. Miguel estava na cozinha a falar de futebol com o Rui, as vozes abafadas pela porta entreaberta.
"Então, vocês também foram à tal casa do Pilatos?" perguntou Helena, enchendo o copo de Sofia sem esperar por uma resposta.
"Fomos sim. O Rui ficou fascinado com aquilo."
Sofia largou o telemóvel, mas continuou a olhar de lado para ele.
"Não parava de tirar fotografias aos azulejos. Eu é que fiquei enjoada ao fim de meia hora."
"Pois."
Helena bebeu um gole.
"Nós também fomos. O Miguel fez questão. Mas sabes o que é que ele realmente queria ver? As mulheres em flamenco no bar à noite."
Sofia riu-se, mas o riso saiu forçado.
"O Rui também. Disse que era cultura, mas eu bem vi onde é que ele tinha os olhos."
As duas ficaram em silêncio por um momento. Lá fora, uma buzina.
Helena alisou a toalha da mesa com a mão, com um gesto nervoso que fazia desde miúda.
"Vocês ficaram em que hotel?" perguntou Sofia.
"Ah, um na zona histórica. Pequenino. O Miguel queria ir para um daqueles novos, mas eu achei demasiado caro."
"Nós ficámos num Airbnb em Triana."
Sofia fez uma pausa.
"O Rui é que escolheu. Disse que era mais autêntico."
Helena revirou os olhos. "Autêntico. O Miguel também anda com essa mania desde que começou a ler blogues de viagem. Autêntico é ficar em casa e poupar dinheiro."
"Pois é."
Sofia pegou no copo mas não bebeu. "Mas pronto, gostaste da cidade?"
"Gostei, gostei."
Helena encolheu os ombros. "É bonita. As ruas todas estreitas, as flores. Mas é estranha, não é? Aquele calor todo em fevereiro. E depois há turistas por todo o lado. No primeiro dia fomos àquele restaurante... como é que se chamava? Tinha um tigre pintado na parede."
"Casa del Tigre?"
"Esse! Como é que sabes?"
Sofia corou um pouco. "Também fomos lá. Estava no artigo que eu tinha guardado."
"Ah." Helena ficou tensa. "O do WP?"
"Sim, esse."
"Nós também seguimos esse." A voz de Helena saiu mais seca do que pretendia. "O Miguel imprimiu e levou na mala."
Sofia mexeu-se na cadeira. "Nós vimos em online. O Rui fez uma lista."
As duas olharam para os copos. Do interior da cozinha vinha agora uma gargalhada do Miguel.
"E aquele museu de gravuras antigas?" perguntou Helena ao fim de um bocado. "Foste?"
"Fomos. Sinceramente, achei uma seca. O Rui é que gostou, ficou meia hora a conversar com o tipo da loja sobre mapas do século XVI."
Sofia fez uma careta. "Eu fingi que estava interessada mas só queria era ir embora. Tenho a certeza de que ele queria comprar uma gravura de cem euros qualquer."
"Compraram alguma coisa?"
"Não. Eu disse que não tínhamos espaço na mala."
Helena sorriu pela primeira vez. "Fizeste bem. O Miguel comprou um chapéu ridículo.
Disse que era típico. Gastou noventa euros num chapéu que nunca mais vai usar."
"O Rui comprou cerâmica." Sofia revirou os olhos. "Tivemos de pôr na mala de cabine porque tinha medo que partisse. Ficámos sem espaço para as garrafas de vinho."
"Nós trouxemos três garrafas," disse Helena com um ar triunfante. "Envolvi em roupa suja e veio tudo na perfeição."
Sofia concordou, mas o olhar dela tinha qualquer coisa de ressentido. "Vocês almoçaram naquele sítio do rio? Com os mariscos?"
"María Trifulca?"
"Sim."
"Fomos. Caríssimo." Helena baixou a voz, como se estivesse a contar um segredo vergonhoso. "Gastámos cento e cinquenta euros a dois. O Miguel pediu atum não sei de quê, eu comi umas gambas. Estava bom, sim, mas pelo mesmo preço comíamos no Ramiro três vezes."
"Pois. Nós também achámos caro." Sofia olhou para a porta da cozinha. "Mas o Rui disse que era a experiência, que não era só a comida."
"A experiência." Helena repetiu a palavra como se fosse uma ofensa pessoal. "Sabes o que é que foi a minha experiência? Ver o Miguel a olhar para a miúda da mesa ao lado durante todo o almoço."
Sofia ficou calada.
"Desculpa." Helena encheu o copo outra vez. "Estou a ser má língua. Foi uma boa viagem. Gostei mesmo."
"Eu também gostei." Sofia pegou no telemóvel, desbloqueou-o, bloqueou-o outra vez.
"Só que... não sei. Às vezes tenho a sensação de que fizemos exatamente o mesmo que toda a gente faz. Vimos o que toda a gente vê. Comemos onde toda a gente come."
"Porque é que isso é mau?"
"Não é mau. É só... não sei. Chato."
Helena olhou para ela com curiosidade. "Querias ter feito o quê?"
"Não sei. Algo diferente. Ter-me perdido numa rua qualquer. Ter comido numa tasca de bairro onde só vão espanhóis. Ter conhecido alguém." Sofia parou, como se tivesse dito demais.
"Conhecido alguém?"
"Esquece. É uma estupidez."
"Não, diz."
Sofia suspirou. "É só que... às vezes acho que a minha vida é como essas viagens. Tudo programado. Tudo previsto. O Rui com as listas dele, eu com os artigos guardados. Vamos aos sítios certos, comemos as coisas certas, tiramos as fotografias certas para pôr no Instagram. Mas não acontece nada de verdade."
Helena ficou calada, a rodar o copo entre os dedos. Lá fora, a noite tinha caído completamente.
"Sabes o que é que eu gostei mais da viagem?" disse Helena ao fim de um bocado.
"O quê?"
"Havia uma mercearia em Triana. Não era nada de especial. Vendia enchidos e azeitonas e essas coisas. Entrei lá sozinha porque o Miguel estava numa outra loja qualquer a olhar para camisolas de futebol. Estava lá uma senhora velhinha atrás do balcão. Não falava inglês, eu não falo espanhol. Mas comprei umas azeitonas e ela pôs num saco de papel e sorriu-me. E eu sorri de volta. E foi só isso."
Sofia olhou para ela.
"Foi só isso," repetiu Helena. "Mas fiquei a pensar naquilo durante dias. Naquele momento. Naquele sorriso. Porque era verdadeiro, percebes? Não estava em nenhum artigo. Ninguém tirou uma fotografia."
"Sim," disse Sofia baixinho. "Eu percebo."
A porta da cozinha abriu-se e os homens entraram, trazendo o cheiro do assado. Miguel trazia uma travessa fumegante, o Rui os pratos.
"Pronto, meninas," disse Miguel, "vamos comer que já é tarde."
"Estávamos a falar de Sevilha," disse Helena.
"Ah, Sevilha!" Miguel pousou a travessa no centro da mesa com um estrondo. "Que saudades. Temos de voltar."
"Temos de voltar," repetiu o Rui, distribuindo os pratos.
Sofia e Helena trocaram um olhar por cima da mesa. Depois Sofia serviu-se de salada e Helena cortou o pão e ninguém disse mais nada sobre Sevilha até ao final do jantar.
Mas mais tarde, quando os homens estavam na sala a ver televisão, as duas ficaram na cozinha a lavar a loiça. Sofia lavava, Helena secava.
"Sabes," disse Sofia sem levantar os olhos do lava-loiça, "às vezes acho que a melhor parte da viagem é depois."
"Depois?"
"Sim. Quando voltas para casa e te lembras das coisas. Quando te lembras de como te sentiste. Não da fotografia que tiraste, mas de como te sentiste quando a tiraste."
Helena secou um prato devagar. "Eu lembro-me do cheiro."
"Que cheiro?"
"Das laranjeiras. Havia milhares delas. O Miguel disse que eram quarenta mil, tinha lido não sei onde. E cheiravam tanto. À noite, quando passeávamos depois do jantar, era quase demasiado. Enjoativo. Mas também bonito. Estranho."
Sofia desligou a água e ficou com as mãos na pia. "Nós também reparámos nas laranjeiras."
"Pois."
Um silêncio confortável desceu sobre a cozinha. Da sala vinha o murmúrio da televisão.
"Helena," disse Sofia passado um bocado, "achas que somos felizes?"
A pergunta ficou suspensa no ar como o cheiro das laranjeiras de Sevilha, doce e enjoativo e estranho.
Helena pensou na gravura que o Miguel quase comprou, no chapéu ridículo que ele comprou, no almoço caríssimo à beira do rio. Pensou na rapariga da mesa ao lado.
Pensou na senhora velhinha da mercearia. Pensou no cheiro das laranjeiras.
"Não sei," disse Helena por fim, e era a primeira vez em muito tempo que dizia uma coisa completamente verdadeira. "Acho que sim. Às vezes."
Sofia acenou em concordância e fê-lo devagar. Depois voltou a abrir a torneira e continuou a lavar a loiça.
E assim ficaram as duas, lado a lado, na cozinha amarela de Helena, a pensar em Sevilha e em quarenta mil laranjeiras e em todas as pequenas mentiras e verdades que fazem uma vida.
#AtlanticLisbon #AsLaranjasDeSevilha #Conto #Ficcao #Literatura #ContoLiterario #Sevilha #Relacoes #Casamento #Memoria #Melancolia #VidaDomestica
Subscrever a Newsletter




Comentários