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Como a Indústria do Kratom Capturou Washington

A batalha política em torno do kratom não é uma discussão sobre saúde pública. É uma guerra de quota de mercado com financiamento político e cobertura ideológica.


QUANDO O ESTADO AMERICANO REGULA PARA UM


A política de saúde da administração Trump é definida pelo acesso. O acesso tem preço de tabela, auditável em registos de doações, em contratos de pressão política e em decisões regulatórias que chegam semanas depois dos cheques. O kratom não é uma anomalia nem um escândalo isolado: é a demonstração em tempo real de como um mercado captura um aparelho regulatório e o reconverte em instrumento de eliminação de concorrência. A questão de saber se o

Folha de kratom em composição minimalista para o artigo «O Estado ao Serviço de Um: Como a Indústria do Kratom Capturou Washington», Atlantic Lisbon.
Como uma planta exótica do Sudeste Asiático conseguiu capturar reguladores, lobistas e decisores em Washington.

é perigoso deixou de ser relevante para o processo político. O que é relevante é quem paga e quem conhece quem.


Um setor com produtos legalmente ambíguos, cientificamente contestados e economicamente significativos confronta um ambiente regulatório hostil.


A resposta racional não é investir em segurança ou em transparência — é investir em política. Não para obter proteção genérica, mas para obter algo mais específico: regulação dirigida contra os concorrentes.


O kratom "natural" não precisava de provar que era seguro. Precisava apenas de fazer parecer que o 7-OH era mais perigoso. E para isso não precisava de ciência — precisava de secretários de Estado, de procuradores e de conselheiros próximos do presidente.


Jerry Ross — outrora Jerry Cash, ex-executivo do setor energético de Oklahoma, ex-recluso federal por crime financeiro, fundador da Botanic Tonics — percebeu isto antes da maioria dos operadores do setor. A sua empresa estava sob ação judicial federal por venda ilegal de suplementos não aprovados quando decidiu intensificar as doações políticas.


O caso foi abandonado pelo Departamento de Justiça meses depois. A empresa celebrou. Ninguém no governo se demitiu.


O movimento MAHA criou uma narrativa de rutura com a medicina institucional que é simultaneamente sincera em alguns dos seus defensores e extraordinariamente útil para quem vende produtos sem aprovação regulatória.


No mercado concreto, "medicina alternativa" e "remédios naturais" funcionam como cobertura para produtos cuja segurança não foi demonstrada e cuja comercialização seria impossível sob qualquer regime regulatório normal.


A Botanic Tonics não é uma empresa de bem-estar. É uma empresa que vende um produto com ação nos recetores opioides do cérebro, com casos documentados de dependência e de morte, e que encontrou no ecossistema MAHA a narrativa perfeita para se apresentar como alternativa saudável ao sistema que mata as pessoas com OxyContin.


O kratom ganhou relevância nos Estados Unidos porque a epidemia de opioides criou uma procura de analgésicos fora do circuito médico. Pessoas com dor crónica, pessoas a tentar sair da dependência de opioides prescritos, pessoas sem acesso a cuidados de saúde — todas encontraram no kratom uma solução de mercado para um problema de sistema.


Que esse mercado seja agora controlado por empresas que financiam campanhas políticas para evitar regulação é uma sequência lógica, não uma perversão.


O contra-argumento mais sério é o seguinte: talvez o kratom natural seja genuinamente menos perigoso do que o 7-OH sintético, e talvez a distinção regulatória que a indústria pede seja cientificamente justificável.


Mas a distinção química entre kratom natural e 7-OH sintético não implica que o kratom natural seja seguro — implica apenas que pode ser menos potente em certas formulações.


Os dados sobre mortalidade associada ao kratom natural não são tranquilizadores. E mesmo que a distinção fosse cientificamente sólida, o processo pelo qual foi adotada — doações, acesso privado, abandono de processos judiciais, remoção de informação de sítios regulatórios — contamina a decisão de forma irreparável. Uma regulação correta produzida por um processo corrupto não restaura a confiança no sistema.


Markwayne Mullin é o caso mais claro. Um senador que aparece numa conferência de imprensa da FDA a apoiar restrições a produtos que concorrem com uma empresa em que tem investimento de até um milhão de dólares. O departamento que lidera não respondeu às perguntas sobre o investimento. A afirmação de que "segue todos os padrões éticos" fica registada ao lado dos factos.


A expressão "ciência de referência absoluta" invocada pelo porta-voz da Casa Branca não é uma descrição do processo decisório: é uma fórmula de encerramento de perguntas. A administração que expressa ceticismo sobre vacinas e paracetamol não tem fundamento epistemológico para invocar ciência quando lhe convém.


A frase mais honesta de todo este processo pertence ao diretor executivo de uma das empresas do setor: "Não é pagar para jogar. É pagar para ter conversas." Que o interlocutor o diga com esta candura é um indicador do estado do sistema: já não existe o esforço de fingir que o processo é outro.


A questão mais incómoda não é a da corrupção individual. É esta: o que acontece a um aparelho regulatório sistematicamente usado para fins de guerra de mercado?


A FDA não é apenas uma agência com uma página de internet editável mediante pressão política. É a instituição que determina o que entra no mercado americano de saúde e em que condições. Quando opera como árbitro de conflitos entre financiadores políticos em vez de árbitro entre evidência e risco, o dano atinge qualquer produto cujo perfil de segurança dependa de avaliação independente.


O kratom pode vir a ser regulado, banido ou aprovado com condições. Nenhuma dessas decisões, tomada por este processo, com estes atores, nestas condições de financiamento, terá autoridade suficiente para ser cumprida por quem discorde dela. O que está em causa não é o destino regulatório de um suplemento vendido em postos de gasolina — é a capacidade do Estado de produzir decisões que o mercado, os tribunais e o público tratem como legítimas. Essa capacidade gasta-se. E não se reconstitui por decreto.


GLOSSÁRIO


Kratom — Suplemento derivado das folhas de uma árvore originária do Sudeste Asiático. Contém um composto chamado mitragenina que age nos recetores opioides do cérebro, produzindo efeitos de alívio da dor, sedação ou energia consoante a preparação. Vendido livremente em lojas e postos de gasolina nos Estados Unidos, sem aprovação regulatória federal.


7-OH (7-hidroximitragenina) — Composto sintético relacionado com o kratom, mas significativamente mais potente. Emergiu no mercado americano em 2023 como produto concorrente do kratom natural. É o principal alvo da campanha da indústria do kratom junto da administração Trump, que procura a sua proibição para eliminar a concorrência.


Botanic Tonics — Empresa americana fundada por Jerry Ross, produtora do suplemento Feel Free, uma bebida contendo kratom e kava vendida em mais de 24.000 pontos de venda. Esteve sob ação judicial federal por comercialização ilegal de suplementos não aprovados; o caso foi abandonado pelo Departamento de Justiça em dezembro de 2024.


Jerry Ross — Fundador da Botanic Tonics. Anteriormente conhecido como Jerry Cash, foi um executivo do setor energético de Oklahoma condenado por crime financeiro federal em 2010, tendo cumprido pena de prisão. Após a saída da prisão, mudou de nome e criou a Botanic Tonics. É o principal financiador da campanha de influência junto da administração Trump em favor do kratom natural.


MAHA (Make America Healthy Again) — Movimento político-sanitário associado a Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde da administração Trump. Defende uma rutura com a medicina convencional e a indústria farmacêutica, promovendo alternativas naturais. O movimento criou um ambiente favorável à comercialização de suplementos sem aprovação regulatória.


Robert F. Kennedy Jr. — Secretário de Saúde da administração Trump e figura central do movimento MAHA. Recebeu doações significativas da Botanic Tonics e do seu fundador, e interveio junto do governador do Ohio para travar uma proibição estadual do kratom.


Markwayne Mullin — Secretário de Segurança Interna da administração Trump, anteriormente senador republicano pelo Oklahoma. Participou publicamente numa conferência de imprensa da FDA a apoiar restrições aos produtos concorrentes do kratom, tendo simultaneamente um investimento pessoal de até um milhão de dólares na Botanic Tonics.


FDA (Food and Drug Administration) — Agência federal americana responsável pela regulação de alimentos, medicamentos e suplementos. É a instituição que determina quais os produtos que podem ser comercializados no mercado de saúde dos Estados Unidos e em que condições.


OxyContin — Medicamento opioide de prescrição produzido pela Purdue Pharma, central na epidemia de dependência de opioides nos Estados Unidos a partir dos anos 1990. A sua comercialização agressiva e subsequente restrição de acesso criaram uma procura de alternativas fora do circuito médico, da qual o mercado do kratom beneficiou.


Departamento de Justiça — Ministério público federal americano. Foi o Departamento de Justiça que instaurou a ação judicial contra a Botanic Tonics e que, sob a administração Trump, decidiu abandonar o caso em dezembro de 2024.

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