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- Vida ou economia: o que a fórmula escondeu em 2020
A pandemia pôs o emprego, o rendimento e a saúde sob pressão. A fórmula «vida ou economia» escondia quem pagava cada decisão e os meios que os governos tinham para reduzir esses custos. Para quem recebia à tarefa ou vendia o suficiente para pagar as despesas do dia, ficar em casa podia significar ficar sem dinheiro para comer. Continuar a trabalhar trazia o risco de infeção, também para as pessoas com quem vivia. Em 2020, esta dificuldade era real. A expressão «vida ou economia» fazia-a parecer uma escolha com duas respostas possíveis: aceitar o contágio ou aceitar a perda de rendimento. Mas havia decisões entre uma coisa e outra. Pagar um apoio, proteger um posto de trabalho, adaptar um local de atendimento ou garantir condições para cumprir o isolamento alterava aquilo que uma pessoa podia fazer. Esses meios tinham custos e limites. Ficavam fora de uma discussão que começasse e acabasse na escolha entre salvar vidas e salvar a economia. Um aviso de encerramento nos Estados Unidos, em 2020. Para muitos negócios, as restrições interromperam as receitas enquanto as despesas continuavam. Fotografia: Bruce Dupree / Alabama Extension. CC0 — domínio público. Vida ou economia - Quem podia aceitar o risco Em abril de 2020, o vice-governador do Texas, Dan Patrick, defendeu a reabertura da economia numa entrevista à Fox News. Disse haver coisas mais importantes do que viver e invocou a necessidade de salvar o país para os filhos e os netos. A frase atribuía ao futuro da comunidade um valor pelo qual se poderia aceitar um risco pessoal. Uma pessoa pode aceitar esse risco para si. A reabertura, porém, abrangia trabalhadores, clientes e familiares que podiam ter outras condições de saúde e outra margem para escolher. Um empregado precisava do salário; alguém com poupanças podia adiar uma compra ou continuar em casa. A decisão política não recolhia apenas a disponibilidade de quem se declarava pronto a correr riscos. A referência aos filhos e aos netos também não resolvia a discussão sobre os resultados da reabertura. Era preciso saber que atividades se pretendia retomar, com que proteção e com que efeito previsível no contágio. Um argumento sobre o valor do sacrifício não fornecia essas respostas. No Brasil, Jair Bolsonaro insistiu na fome como consequência das restrições. Em 14 de maio de 2020, criticou as medidas de governadores e autarcas e defendeu a retoma das atividades económicas. A perda de rendimento dava força ao argumento num país onde muitos trabalhadores dependiam de atividades informais. Para uma família que tinha perdido a receita da semana, pedir que ficasse em casa exigia uma resposta sobre a comida, a renda e as contas. Faltava saber quanto dessa perda podia ser compensado, durante quanto tempo e se o dinheiro chegaria a quem dele precisava. Vida ou economia - O auxílio mudava as opções O Brasil criou o Auxílio Emergencial através da Lei n.º 13.982, de 2 de abril de 2020. O apoio inicial de 600 reais mensais, previsto por três meses, destinava-se a pessoas que cumprissem condições de rendimento e de situação profissional, incluindo trabalhadores informais. Não era um rendimento básico universal. A proposta inicial do ministro da Economia, Paulo Guedes, apontava para 200 reais. O Congresso aprovou o valor de 600 reais e Bolsonaro sancionou a lei. Esta sequência permite discutir a dimensão do apoio que o Governo pretendia oferecer. Não basta para afirmar que o presidente se opôs a qualquer auxílio. A aplicação do Auxílio Emergencial, fotografada em abril de 2020. O programa introduziu uma transferência de rendimento na discussão sobre as restrições. Fotografia: Leonardo Sá / Agência Senado. CC BY 2.0. O pagamento podia permitir a alguém recusar uma tarefa, comprar alimentos ou cumprir um período de isolamento. Para avaliar o que conseguiu fazer, era necessário conhecer o montante recebido, a composição do agregado, os atrasos e as pessoas que ficaram de fora. A existência do programa não prova que todas as famílias tenham passado a poder ficar em casa. Mostra que a falta de rendimento podia ser objeto de uma decisão pública. Apresentar a fome como consequência inevitável de qualquer restrição deixava por discutir o apoio disponível e a escolha de o aumentar ou limitar. Também os custos de fechar uma atividade variavam com a duração e com a ajuda concedida. Vida ou economia - Deixar o vírus circular A ideia de alcançar «imunidade de grupo» através da circulação do vírus colocava outra questão. Propunha que um número suficientemente elevado de infeções acabasse por reduzir a transmissão. A sua avaliação exigia conhecer a proteção adquirida, a duração dessa proteção e o número de pessoas que adoeceriam entretanto. A imunidade de grupo não é uma expressão reservada à vacinação. Designa a proteção indireta que pode surgir quando uma parcela suficiente da população tem imunidade, adquirida por vacina ou por infeção anterior. A Organização Mundial da Saúde explicava esta distinção em 2020 e rejeitava a tentativa de alcançar essa proteção deixando a covid-19 propagar-se: o caminho implicava doença e mortes evitáveis, com incertezas sobre a imunidade e o limiar necessário. Representação do SARS-CoV-2. Trata-se de uma ilustração científica, não de uma fotografia microscópica. Ilustração: Alissa Eckert e Dan Higgins / CDC. Domínio público; disponibilizada pelo USGS. A gravidade da infeção, a capacidade hospitalar e a possibilidade de proteger as pessoas mais vulneráveis faziam parte dessa avaliação. Invocar uma proteção futura não permitia dispensar a contagem das consequências do percurso até lá. As três intervenções pediam respostas diferentes. Patrick falava do risco que considerava aceitável em nome do país. Bolsonaro usava a perda de rendimento para defender a reabertura. A proposta de deixar o vírus circular prometia um efeito sobre a transmissão. Reunidas sob «vida ou economia», pareciam disputar a mesma escolha. A partir de Lisboa, uma discussão sobre o custo das restrições precisava igualmente de descer aos rendimentos, aos apoios e às condições de trabalho. Para quem podia trabalhar em casa, o problema era diferente do de quem precisava de atender clientes ou deslocar-se todos os dias. Não se podia deduzir a capacidade de cumprir uma medida apenas da concordância com ela. Em 2020, decidir sobre uma restrição exigia perguntar que risco se procurava reduzir, quem perderia rendimento e como seria compensado. Decidir reabrir exigia explicar a proteção de quem voltaria ao trabalho e as consequências previsíveis para os serviços de saúde. A fórmula não dizia quanto dinheiro chegaria à família que tinha deixado de receber nem em que condições o trabalhador teria de regressar. #Saúde #Brasil #EstadosUnidos
- O Nobel da Medicina 2026: que saiu de uma alga
Nobel da Medicina 2026: de uma alga ao controlo dos neurónios O Nobel da Medicina de 2026 distingue a optogenética, o método que liga e desliga células nervosas com luz. O ponto de partida foi uma proteína de uma alga unicelular, e o seu uso médico é ainda parcial. A 5 de outubro de 2026, a Assembleia Nobel do Instituto Karolinska atribuiu o Nobel da Fisiologia ou Medicina a Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel, pelas descobertas sobre canais iónicos controlados pela luz e sobre a optogenética. Os três dividem em partes iguais o prémio de 12 milhões de coroas suecas. Deisseroth é professor de bioengenharia e de psiquiatria na Universidade de Stanford e investigador do Howard Hughes Medical Institute. Hegemann trabalha na Universidade Humboldt de Berlim e Nagel na Universidade de Würzburgo. Nobel da Medicina 2026 - As peças de um interruptor O que o comité distingue é um método que permite ligar ou desligar a atividade de células nervosas individuais num cérebro vivo. Nobel da Medicina 2026 - As peças de um interruptor Para provocar potenciais de ação com luz são precisas três coisas: uma proteína que reaja à luz e deixe passar iões, um modo de levar o gene dessa proteína às células escolhidas e uma fonte de luz que chegue a essas células. Em termos gerais, a optogenética combina a transferência de um gene para neurónios-alvo com a entrega de luz a esses neurónios. Uma proteína de alga A Chlamydomonas é uma alga unicelular que deteta a luz com uma mancha ocular. Foi nela que Hegemann e Nagel encontraram a canalrodopsina. Em 2002, Nagel, Hegemann, Ernst Bamberg e outros colegas descreveram na revista Science a canalrodopsina-1, um canal de protões ativado pela luz em algas verdes. Expressa em ovócitos da rã Xenopus laevis, a proteína gerava correntes elétricas elevadas quando iluminada. Em 2003, nos Proceedings of the National Academy of Sciences, o mesmo grupo apresentou a canalrodopsina-2, um canal seletivo para catiões e controlado diretamente pela luz. Ao receber luz, o canal abre-se e deixa entrar na célula iões de carga positiva. O artigo mostrou que a proteína podia ser expressa tanto em ovócitos como em células de mamífero, produzindo correntes elétricas por ação da luz. As canalrodopsinas são canais de um único componente, em que o sensor de luz e o canal estão na mesma molécula. O que se transfere para outra célula é, por isso, o gene de uma só proteína. Chlamydomonas reinhardtii observada por microscopia eletrónica de transmissão. A investigação das proteínas sensíveis à luz desta alga está na origem dos trabalhos distinguidos pelo Nobel da Medicina 2026. Imagem: Dartmouth Electron Microscope Facility, Dartmouth College. Domínio público. Do ovócito ao neurónio Deisseroth procurava formas de regular a atividade dos neurónios de modo controlado, com versões das proteínas sensíveis à luz estudadas por Hegemann. Em 2005, o seu laboratório publicou na Nature Neuroscience, com Ed Boyden, Feng Zhang, Bamberg e Nagel, o artigo em que mostrou que a luz induzia potenciais de ação em neurónios cultivados que expressavam a canalrodopsina-2. O laboratório recorreu a um vetor lentiviral para expressar a proteína em neurónios do hipocampo de rato e, em trabalho posterior, introduziu o gene em neurónios de roedores que disparavam e comunicavam com outros neurónios. Em 2006, o método recebeu o nome de optogenética. O grupo de Deisseroth levou também o gene da canalrodopsina-2 ao cérebro de ratinhos vivos e, com outros investigadores, usou a técnica para acordar ratinhos adormecidos de forma controlada. Com Susumu Tonegawa, Nobel de 1987 por descobertas em imunologia, Deisseroth ativou um engrama, o padrão de vias neuronais que se forma quando se cria uma memória. O que muda na investigação O comité considera que a técnica transformou a neurociência. Per Svenningsson, presidente do comité, afirmou que ela permite mapear o cérebro de uma maneira com que antes só se podia sonhar. Em vez de apenas registar atividade, passa a ser possível provocá-la num tipo de célula escolhido e observar o que se segue. Neurónios de ratinho numa imagem associada a investigação dos circuitos da dor. A optogenética permite estudar a contribuição de grupos celulares para o funcionamento desses circuitos; a fluorescência visível não é, por si só, ativação por luz. Imagem: National Center for Complementary and Integrative Health / NIH. Domínio público. Da bancada ao doente Na visão, a abordagem combina uma terapia génica, que leva uma proteína sensível à luz a células da retina, com um dispositivo que capta imagens e projeta luz sobre a retina tratada. Em 2021, um estudo de caso publicado na Nature Medicine, ligado ao ensaio PIONEER, de fase 1/2, da empresa francesa GenSight Biologics, descreveu um homem de 58 anos com diagnóstico de retinite pigmentosa havia 40 anos. Depois de uma injeção num olho e de treino com os óculos do sistema, passou a localizar objetos pousados numa mesa. Segundo a empresa, a abordagem não depende da mutação concreta que causa a cegueira. Os resultados descritos são parciais. Para a epilepsia e para a dor, entre outras indicações, a técnica está em fase de teste. O próprio comité fala em primeiros passos no uso médico. Retina de esquilo terrestre observada por microscopia confocal, com os cones a verde. A retina é uma das áreas de investigação clínica da optogenética. Esta imagem mostra tecido animal e não documenta o doente do ensaio PIONEER. Imagem: Wei Li, National Eye Institute / NIH. Domínio público. Quem assina os trabalhos O prémio tem três nomes, e os trabalhos fundadores têm mais autores. Ernst Bamberg assina os trabalhos de 2002, 2003 e 2005 aqui referidos, e Ed Boyden e Feng Zhang assinam o de 2005. Em 2022, a Universidade de Columbia atribuiu o Prémio Louisa Gross Horwitz a Deisseroth, Hegemann e Gero Miesenböck, por investigação que lançou as bases da optogenética. O Nobel de 2026 distingue as descobertas sobre canais controlados pela luz e sobre a optogenética, numa cadeia de trabalhos que envolveu mais pessoas do que as três premiadas. Fontes: Nobel Prize in Physiology or Medicine 2026, summary Nobel Prize 2026, press release Nobel Prize 2026, popular information Nobel Prize 2026, advanced information Medicine Nobel awarded for brain ‘switch’ that controls neurons with light (Nature) Method for controlling brain cells with light wins Nobel (Science) Optogenetics researchers win Nobel Prize in Physiology or Medicine (C&EN) Nobel Prize in medicine awarded to trio (CNN) How the discovery of microbial opsins led to the development of optogenetics (Cell) The optogenetic (r)evolution (Springer) Channelrhodopsin, overview (ScienceDirect) Optogenetics just won the Nobel Prize (R&D World) GenSight Biologics, Nature Medicine case report (Business Wire) Scientists are testing out ways to restore vision for genetic-caused blindness Horwitz Prize 2022 (Columbia) Three researchers win 2026 Nobel for optogenetics (NewsBytes) #Ciência
- Cristiano Ronaldo na Seleção: a camisola é de quem?
A camisola da Seleção nunca pertenceu a um jogador. Nem ao maior. Nem ao melhor. Nem ao mais decisivo. Passa de geração em geração, carregando memórias, vitórias, derrotas e expectativas. Cristiano Ronaldo na Seleção e a camisola que nunca teve dono Cristiano Ronaldo acrescentou-lhe páginas que dificilmente serão repetidas, mas a camisola continuará quando ele deixar de vestir o número sete. É essa diferença entre património e protagonismo que o debate tantas vezes esquece. Entre o peso da história e o peso da escolha: a camisola da Seleção continua a ser maior do que qualquer jogador, treinador ou Federação. #Portugal #Humor #Cartoon
- O que falta provar à internet quântica europeia
No final de setembro, a Quantum Internet Alliance anunciou ter recebido 47,5 milhões de euros da Comissão Europeia para uma segunda fase de investigação e desenvolvimento, com duração de 42 meses. É quase o dobro da primeira fase. A primeira decorreu entre outubro de 2022 e março de 2026, também ao longo de três anos e meio, e a Comissão indicava em 2023 um financiamento de 24 milhões de euros. A aliança é dirigida por Stephanie Wehner. O objetivo anunciado para estes 42 meses de desenvolvimento da internet quântica europeia é demonstrar ligações quânticas de longa distância com repetidores. O comunicado fala em demonstrar que duas redes quânticas de escala metropolitana podem ser interligadas por uma ligação de fibra de longa distância, com recurso a repetidores quânticos. Não indica a extensão dessa ligação. Região de diamante com elevada concentração de centros de azoto-lacuna, observada por microscopia de fluorescência. Imagem de investigação sobre materiais, não do protótipo da QIA. Crédito: Lillian B. Hughes e colaboradores, 2023. CC BY 4.0. Licença Internet quântica europeia: a exigência dos 500 quilómetros A segunda fase é a segunda convenção específica, SGA2, da parceria-quadro "Building the Quantum Internet", a que a QIA pertence. O concurso que a Comissão abriu para essa convenção fixava seis resultados esperados das propostas. Entre eles, distribuição de entrelaçamento a distâncias iguais ou superiores a 500 quilómetros, com repetidores quânticos, e um protótipo, em condições de laboratório, de uma rede de fibra de longa distância com repetidores capaz de ligar redes metropolitanas, com demonstração de interoperabilidade entre abordagens e de escalabilidade da arquitetura. Pedia também uma demonstração de software e de pilha de rede independentes da plataforma, a funcionar numa rede com pelo menos dois nós de computação quântica com memórias quânticas e resistente a formas conhecidas de ciberataque. Os dois últimos resultados eram a integração de aplicações de rede quântica, como a partilha de chaves secretas e a computação quântica distribuída ou cega, em infraestruturas de rede clássicas, e a demonstração de casos de uso em ambiente real. O texto fixava o grau de maturidade: as atividades deviam começar nos níveis 4 a 5 e chegar aos níveis 6 a 7 no fim do projeto. São resultados esperados das propostas. Não são compromissos assumidos pela QIA nem resultados obtidos. A participação estava limitada a entidades estabelecidas nos Estados-membros, na Islândia, na Noruega e em Israel. Excluía as controladas, direta ou indiretamente, por países não elegíveis. A justificação é evitar a dependência tecnológica de uma fonte fora da União. O âmbito pedia também que se maximizasse o contributo para o crescimento económico, a soberania tecnológica e a autonomia estratégica. Três nós no laboratório, 50 quilómetros de fibra Em 2021, a QuTech, parceira da QIA, reportou a primeira rede quântica multinó. Três processadores quânticos, baseados em centros de azoto-lacuna em diamante, a alguma distância uns dos outros dentro do mesmo edifício. Numa das demonstrações, dois dos nós ficaram ligados por entrelaçamento sem ligação física direta, através do nó intermédio. Os investigadores descreveram esta operação como equivalente à operação básica de um repetidor. Centro de azoto-lacuna numa lente de imersão sólida, configuração usada em experiências de entrelaçamento quântico. Crédito: David A. Hopper, Henry J. Shulevitz e Lee C. Bassett, 2018. CC BY 4.0. Licença Em maio de 2023, Benjamin Lanyon, da Universidade de Innsbruck, transferiu informação ao longo de 50 quilómetros de fibra ótica com princípios da física quântica, no âmbito da mesma iniciativa, segundo a revista Horizon da Comissão Europeia. Lanyon considerou então que o resultado tornava plausível uma rede à escala de uma grande cidade, ficando as distâncias entre cidades como etapa seguinte. O registo europeu da primeira fase fixava como objetivo uma ligação de longa distância superior a 500 quilómetros e indicava que o protótipo operaria sobre fibra ótica padrão. Em 2022, uma equipa de Delft de que faz parte Wehner simulou um repetidor entre Delft e Eindhoven com dados da rede de fibra real e as localizações possíveis para o equipamento. Segundo os autores, os cenários idealizados distorcem as exigências de hardware, sobretudo quanto à coerência das memórias e à recolha de fotões. Um laser de 532 nanómetros permite controlar centros de azoto-lacuna em diamante no laboratório de Gavin Morley. Fotografia ilustrativa da investigação em tecnologias quânticas. Crédito: Gavin Morley, 2016. CC BY-SA 4.0. Licença Um protótipo completo e programável O comunicado da segunda fase diz que o objetivo é combinar as tecnologias da primeira num protótipo completo e programável, capaz de executar aplicações de rede quântica. O programa dá também os primeiros passos para uma Quantum Internet Initiative, que o comunicado associa à passagem de tecnologias de laboratório a aplicações reais, com preparação de instalações-piloto e de infraestrutura de acesso aberto para investigadores, programadores e empresas. A QIA afirma que tecnologias desenvolvidas no programa já chegaram a produtos e que surgem startups no seu ecossistema. Quanto ao hardware, o concurso pedia que os componentes fossem desenvolvidos com as plataformas identificadas como mais promissoras segundo critérios objetivos. Os autores do estudo de Delft de 2022 notavam que a escolha da plataforma mais promissora continuava a ser objeto de disputa. Mesa ótica com uma câmara de vácuo onde um feixe infravermelho faz levitar um nanodiamante. A experiência não representa uma rede quântica da QIA. Crédito: Gavin Morley, 2016. CC BY-SA 4.0. Licença O horizonte de 2029 e os dados por esclarecer Quanto ao calendário, a Horizon escrevia em 2023 que uma internet quântica poderia existir para aplicações especializadas já em 2029. Os especialistas citados evitavam prever quando haveria uma versão para uso generalizado, e Wehner classificou a pergunta como muito difícil. O anúncio de 2026 não acrescenta data para esse horizonte. Fixa apenas a duração de 42 meses para o protótipo. Quanto à posição da Europa, Wehner afirma que o continente continua na vanguarda mundial da internet quântica e que o protótipo pode vir a ser o primeiro do género no mundo. Diz ainda que a segunda fase cria tecnologia que não existe em lado nenhum. O texto da Horizon de 2023 referia que Estados Unidos e China também tinham avançado em computação e em internet quânticas. O comunicado da QIA não compara o seu projeto com os desses países. O comunicado é mais curto do que o concurso. Não indica a distância da ligação. Não indica o número de nós. Não indica a resistência a ciberataques. Quais dos resultados esperados pela Comissão o projeto financiado assume é uma informação que o comunicado não dá. Capa: ilustração conceptual de um diamante e de um feixe de luz, criada com inteligência artificial para o Atlantic Lisbon. Não representa equipamento real da QIA. Fonte: comunicado da Quantum Internet Alliance #Ciência #UniãoEuropeia #Internet
- Até onde pode ir a aproximação entre Índia e China?
Nova Deli procura abrir espaço ao investimento chinês em alguns setores, enquanto mantém uma disputa fronteiriça com Pequim. Ambos enfrentam dificuldades com Washington, depois de anos em que a preocupação com a China aproximou a Índia dos Estados Unidos. A Índia depende de produtos chineses para desenvolver parte da sua indústria. Ao mesmo tempo, restringiu a entrada de empresas e investimento da China depois do confronto fronteiriço de 2020, em que morreram militares dos dois países. Nova Deli procura agora facilitar algumas formas de cooperação económica com o vizinho. Depois dos confrontos, dezenas de aplicações chinesas foram proibidas, incluindo o TikTok. A entrada de investimento ficou fortemente limitada e as empresas chinesas já instaladas passaram a enfrentar maior fiscalização. A Índia continuou, porém, a comprar à China bens e componentes utilizados pela sua indústria e pelo setor farmacêutico. Nova Deli indicou que facilitaria a aquisição de participações minoritárias por entidades chinesas em setores como a produção de eletrónica e a energia solar. Pretende favorecer associações com empresas indianas. A fronteira continua em disputa, apesar do avanço nas negociações em 2024. A abertura económica tem condições Até onde pode ir a aproximação entre Índia e China? Uma empresa indiana pode comprar componentes chineses sem que o fornecedor participe no seu capital. A abertura anunciada permite ir além dessa relação comercial: admite que entidades chinesas adquiram participações em empresas na Índia, dentro dos setores e das condições definidos pelas autoridades. A opção por participações minoritárias delimita a presença dos investidores. Não corresponde a uma autorização geral para investir em qualquer atividade, nem implica, por si, entregar-lhes o controlo das empresas. Nova Deli procura obter tecnologia e conhecimentos que ajudem a desenvolver a produção indiana. Para isso, as empresas terão de encontrar parceiros e negociar as atividades a realizar em conjunto. A autorização de investimento abre essa possibilidade; os anúncios ainda não esclarecem que tecnologia será disponibilizada ou que capacidades ficarão nas empresas indianas. A Índia utiliza bens e componentes chineses na sua produção. As associações empresariais poderão mudar a forma dessa relação, consoante o que vierem a produzir dentro do país e os conhecimentos que disponibilizarem aos parceiros indianos. As regras variam também com a atividade. Facilitar investimento em eletrónica ou energia solar não revoga automaticamente a proibição de uma aplicação digital. O conflito fronteiriço permanece Índia e China entraram em guerra em 1962 e tiveram vários confrontos fronteiriços desde então. As mortes de militares em 2020 agravaram a disputa e foram seguidas pelas restrições indianas à presença económica chinesa. Em 2024, Índia e China avançaram nas negociações fronteiriças, depois de anos de deterioração das relações. A disputa territorial permanece. Pequim mantém também uma relação estreita com o Paquistão, adversário da Índia. Os dois países competem no oceano Índico. Estas questões continuam a condicionar os contactos entre os governos, mesmo quando há interesse em admitir investimento ou aumentar a cooperação industrial. Nova Deli pode autorizar uma participação chinesa numa empresa e manter as suas objeções em matéria de segurança. Os contactos diplomáticos permitem negociar os assuntos em disputa, mas os compromissos terão de ser definidos para cada um deles. Na fronteira, o avanço de 2024 é o passo concreto conhecido neste percurso. Donald Trump e Xi Jinping no G20, em 8 de julho de 2017. As relações de Índia e China com Washington fazem parte do contexto da aproximação entre os dois vizinhos. Fotografia de arquivo: Shealah Craighead / Casa Branca. Domínio público, utilização gratuita. As dificuldades com Washington As tarifas de Donald Trump atingiram tanto a Índia como a China. No caso indiano, a deterioração dos contactos com Washington incluiu divergências sobre as compras de petróleo russo. A Índia vinha a aproximar-se dos Estados Unidos, em parte devido ao interesse comum em contrariar a China. Passou a enfrentar dificuldades com esse parceiro ao mesmo tempo que recuperava contactos com Pequim. Narendra Modi e Donald Trump numa reunião na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, em 24 de setembro de 2019. Os contactos entre Nova Deli e Washington antecedem a atual aproximação entre Índia e China. Fotografia de arquivo: Shealah Craighead / Casa Branca. Domínio público, utilização gratuita. As tarifas alteram as condições de acesso ao mercado americano. As divergências sobre o petróleo russo envolvem escolhas da política externa indiana. Os dois problemas pesam na relação com Washington, mas nenhum resolve os desacordos de Nova Deli com o vizinho chinês. Modi deslocou-se à China para um fórum regional em que participou também Vladimir Putin. Índia e China integram igualmente os BRICS, grupo a que pertencem a Rússia e o Irão. Os encontros permitem manter contactos e anunciar cooperação entre países que continuam a ter disputas bilaterais. Para Nova Deli e Pequim, essa participação coexiste com as negociações diretas sobre a fronteira e com as decisões de cada governo sobre o acesso ao seu mercado. O que pode mudar entre Índia e China A Índia anunciou uma abertura delimitada ao investimento chinês. O seu alcance dependerá dos setores abrangidos, das participações autorizadas e das associações que as empresas conseguirem concretizar. A cooperação industrial poderá avançar nessas condições, mesmo enquanto os governos continuam a negociar questões de segurança. Nas empresas indianas que venham a receber investimento, será possível avaliar o que passa a ser produzido e que tecnologia os parceiros chineses disponibilizam. São resultados que o anúncio de uma abertura ainda não permite conhecer. Na fronteira, os compromissos exigem um entendimento entre os Estados. O progresso das negociações de 2024 e a abertura a participações minoritárias pertencem ao mesmo período de recuperação dos contactos, mas têm aplicação em áreas diferentes. Os dois governos terão de decidir o que conseguem executar em cada uma delas, com os restantes conflitos ainda por resolver. Capa: bandeiras da Índia e da China, símbolos de domínio público. Composição gráfica para o Atlantic Lisbon disponibilizada sob CC0, utilização gratuita. A aproximação entre Índia e China envolve comércio, investimento e negociações fronteiriças. #EstadosUnidos #politicainternacional #China #Índia
- Decidir antes de conhecer todos os factos
Decidir antes de conhecer todos os factos: Pombal recolheu observações, um arquivo ficcional conserva uma transcrição sem original identificado e Kaplan examina decisões tomadas com informação incompleta. Depois do terramoto de 1755, Sebastião José de Carvalho e Melo mandou perguntar às paróquias quanto tempo durara o tremor, se tinham aparecido fendas e como se comportara o mar. A cidade precisava de enterrar mortos e começar a reconstrução. As respostas chegariam de lugares diferentes, recolhidas através de perguntas que permitiam comparar as observações. Em «Terramoto de Lisboa: as perguntas que Pombal fez à terra», o questionário surge entre as explicações que procuravam atribuir um significado à destruição. Saber durante quanto tempo a terra tremeu não responde à pergunta sobre a razão do sofrimento. Permite começar a conhecer o que aconteceu naquela manhã: a duração, as fendas, o recuo da água. Maria Filomena Molder aproxima o inquérito de uma disposição para enfrentar factos que não consolam. A sua interpretação acompanha a reconstrução de Lisboa e a decisão de procurar causas físicas para o desastre. Nas paróquias, o trabalho começava por aquilo que uma testemunha tinha visto e conseguia relatar. Ruínas da Ópera de Lisboa depois do terramoto de 1755, no Percurso Decidir antes de conhecer todos os factos. Gravura de Henry Roberts, entre 1755 e 1790. Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público. Conhecer todos os factos de uma transcrição Uma caixa chega ao Porto com sete cassetes, um caderno e uma indicação sobre um original destruído num incêndio. É assim que começa a ficção «A entrevista de James Schuyler que sobreviveu numa cópia». Rui, o investigador, encontra referências que se encaixam. As datas formam uma sequência plausível. A etiqueta parece explicar a sobrevivência da cópia, mas ninguém identificou quem a fez, de que exemplar a retirou ou por que caminho aqueles papéis chegaram à caixa. Nenhuma das sete cassetes está identificada como a gravação procurada. Mesmo que uma contivesse a voz de Schuyler, Rui teria ainda de demonstrar que era a fita de que a transcrição provinha. Há material para continuar a pesquisa. Falta-lhe uma ligação entre os objetos que recebeu e a conversa que procura. Os parágrafos da transcrição podem preservar a maneira de falar de Schuyler ou resultar do trabalho de quem passou a conversa ao papel. Sem a gravação, Rui não consegue separar essas operações. Lê um texto organizado, com frases que terminam e episódios que se sucedem; as hesitações, os cortes e a pontuação ficaram entregues a quem o editou. Na folha de entrada, acaba por registar «Transcrição sem original identificado». A caixa conserva valor documental com essa descrição. A origem permanece por estabelecer. O personagem poderia ter escrito uma identificação mais completa e mais satisfatória, aproveitando a coerência das datas, mas teria acrescentado ao documento uma certeza que não encontrou nele. A cena pertence à ficção, incluindo o arquivo no Porto. Cassete BASF que ilustra o arquivo ficcional de Decidir antes de conhecer todos os factos. Fotografia: Pedro M. Martínez Corada/Wikimedia Commons. CC BY-SA 4.0. Decidir antes de conhecer todos os factos Um dirigente que precisa de tomar uma decisão pode não dispor do tempo de Rui. Em «Robert D. Kaplan: o perigo de governar com 30% da informação», a percentagem descreve decisões tomadas antes de estar disponível a maior parte do conhecimento desejável. O próprio ensaio assinala que a conta não pode ser feita. Ninguém recebe um indicador que anuncie ter atingido a quantidade suficiente de provas. Kaplan aproxima essa insuficiência do conflito entre escolhas que protegem coisas diferentes. Adiar permite conhecer melhor uma situação e pode reduzir a possibilidade de a alterar. Agir pode evitar um dano e produzir outro. Quando chega a informação esperada, há pessoas afetadas, compromissos assumidos e alternativas que entretanto desapareceram. Chamberlain tinha razões para temer a repetição de uma guerra europeia. O peso atribuído a esse medo deformou a avaliação do perigo representado por Hitler. Kaplan considera errada a decisão de Munique e procura perceber como foi composta. Depois, a lembrança desse erro passou a pressionar outros governantes: negociar podia parecer uma repetição de 1938, mesmo perante adversários e circunstâncias diferentes. O ensaio regressa à responsabilidade ao tratar da invasão russa da Ucrânia. Putin decidiu com informação incompleta e escolheu iniciar uma guerra de agressão. Reconhecer o que desconhecia ajuda a examinar a sua avaliação; a escolha continua a ter autor e finalidade. A insuficiência de informação, partilhada por decisões muito diferentes, não permite julgá-las por si só. Para esse julgamento são necessários os fundamentos usados, as alternativas consideradas e os riscos aceites. O registo de uma decisão permite confrontá-la com o que o dirigente sabia, incluindo avisos que possa ter descartado. Rui consegue limitar a descrição da caixa ao que encontrou. Quem governa tem de agir sobre pessoas que continuarão a suportar as consequências depois de os fundamentos serem revistos. Os novos factos chegam, por isso, a uma situação já alterada pela primeira decisão. Corrigi-la exige regressar ao momento em que foi tomada, sem introduzir nesse momento o conhecimento adquirido depois. Se os fundamentos ficaram registados, é possível examinar o erro, perceber que avisos foram ignorados e discutir uma mudança de orientação. Sem eles, a explicação posterior do governante passa a ocupar o lugar das razões que efetivamente usou. Composto em outubro de 2026 O Caderno Decidir antes de conhecer todos os factos: uma figura de autoridade, com a cabeça transformada num arquivo fechado, assina um mapa incompleto. Capa: ilustração satírica gerada por IA para Atlantic Lisbon. #Percursos
- Burnham diz que houve interferência russa no Brexit
Andy Burnham disse que é claro que houve interferência russa no referendo do Brexit, depois de pedir respostas sobre o envolvimento do Kremlin quando chegou a Downing Street. Numa entrevista ao podcast The Rest is Politics, afirmou: «Ao chegar a Downing Street, fiz a pergunta: houve interferência da Rússia no referendo de 2016? Recebi uma resposta clara: sim, houve.» Burnham é primeiro-ministro desde 20 de julho de 2026, sucedendo a Keir Starmer após uma mudança de liderança. É o sétimo chefe de governo britânico numa década. A declaração marca uma rutura com a posição dos governos conservadores anteriores, que insistiam que não havia provas de interferência bem-sucedida da Rússia na votação. Burnham não revelou quem lhe deu a avaliação, em que provas esta se baseou ou se a interferência afetou o resultado. Em 2020, um relatório da comissão parlamentar de informações e segurança criticou o Governo e os serviços de informações por não terem investigado devidamente a potencial interferência russa no referendo. A comissão multipartidária concluiu que os ministros não pediram uma avaliação completa das atividades de Moscovo, apesar de indícios de tentativas de influenciar a política britânica através de meios de comunicação estatais russos e de contas nas redes sociais. Acrescentou que o Governo não fez qualquer avaliação após o referendo, ao contrário do que aconteceu nos EUA após as presidenciais de 2016. Defendeu ainda que é importante saber se um Estado hostil procurou influenciar um processo democrático, independentemente de o ter conseguido. Palácio de Westminster, em Londres. Em 2020, a comissão parlamentar de informações e segurança criticou a ausência de uma investigação adequada à eventual interferência russa no referendo. Fotografia: Hippopx, autor não identificado. Domínio público. Burnham diz que o Reino Unido precisa de ser mais aberto sobre as tentativas de Estados hostis de interferir na política, numa altura em que os líderes europeus lidam com a ascensão da extrema-direita. No mês passado, num discurso na Assembleia-Geral da ONU, acusou Moscovo de uma guerra de informação e disse haver provas de uma tentativa de interferência nas legislativas de 2019. «É importante deixar agora estas questões claramente registadas e acredito que isso ajuda os eleitores na Alemanha e em França a compreender que parte desta política é instigada pelos nossos inimigos, nomeadamente a Rússia. Penso que temos estado demasiado na defensiva e que não temos informado suficientemente as pessoas sobre a dimensão das tentativas, vindas do estrangeiro, de perturbar o processo político», disse ao podcast. Esta semana, durante uma visita a Berlim, discutiu com o chanceler Friedrich Merz a ameaça da Alternativa para a Alemanha (AfD). Segundo Burnham, Merz manifestou preocupação com as ligações do partido à Rússia. «Uma das coisas que disse ao chanceler Merz […] foi que precisamos de vos apoiar no combate à ameaça que enfrentam e, em particular, ao tipo de política com que se confrontam. Ele dizia-me que a AfD tem ligações claras à Rússia, incluindo financiamento, creio. Há certamente informação falsa e desinformação provenientes da Rússia a entrar na política alemã.» Downing Street anunciou que está a desenvolver um novo Centro Nacional de Defesa da Informação para detetar e travar campanhas de Estados hostis contra a democracia britânica e que trabalha com a Alemanha numa parceria contra ameaças híbridas. Um porta-voz afirmou: «A segurança nacional é o primeiro dever de qualquer governo. Estamos empenhados em garantir que os nossos cidadãos e as nossas instituições estão protegidos de potências estrangeiras e dos seus intermediários que procuram ameaçar vidas e minar os nossos valores democráticos. Fazemo-lo reforçando os nossos poderes através da National Security Act, a resiliência das nossas instituições e das infraestruturas nacionais críticas, as nossas fronteiras e as nossas forças policiais e serviços de informações. Continuaremos a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para proteger o Reino Unido.» No mês passado, Burnham admitiu que o Reino Unido pode vir a considerar o regresso à UE, dizendo que o Governo examinaria todas as opções para a futura relação com Bruxelas. Fontes institucionais Governo britânico: biografia de Andy Burnham Parlamento britânico: resposta governamental sobre o referendo de 2016 Comissão parlamentar de informações e segurança: relatório Russia, de 2020 Governo britânico: discurso na Assembleia-Geral da ONU Governo britânico: parceria com a Alemanha contra ameaças híbridas #politicainternacional #politicaspublicas #ReinoUnido #direitointernacional #Inglaterra
- DISCURSO DE ACEITAÇÃO DO PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA
Numa sala do terceiro andar em Arroios, alguém empurrara as mesas para as paredes para abrir um corredor no meio. Não para circular. Para que ninguém se toque por engano. De um lado sentaram-se quatro miúdos, do outro cinco. Todos chegavam no mesmo autocarro, da mesma pensão na Mouraria. Todos pediam pão da mesma maneira no café em baixo. Mas na escola tinham de escolher com que mão escreviam. O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA O professor de História chegava com dois marcadores, um azul e um preto. Dava a mesma aula duas vezes. Escrevia a mesma data no quadro, uma de cada lado do corredor. Não porque a data fosse diferente. Porque lhe pediram para não escrever no meio. Isto aconteceu em Lisboa, no outono de 1996. Os miúdos tinham chegado no verão anterior, depois de saírem de aldeias onde a língua servia para tudo, e descobriram que em Lisboa a língua que traziam já vinha partida de origem. Na pensão falavam entre si sem precisar de escolher. Na escola, a escolha era obrigatória. O nome composto que aquela língua teve durante trinta e sete anos não era um acordo linguístico. Era uma solução de engenharia. Como uma viga feita de duas madeiras coladas com a fibra cruzada: aguenta mais peso precisamente porque não é pura. Cortá-la ao meio para obter duas vigas mais puras produz duas vigas que aguentam menos de metade cada uma. É isto que acontece quando se separa uma língua que torcia para os dois lados. O que interessa em Arroios não é quem tem razão sobre o nome. O que interessa é o trabalho extra que a separação obriga. O professor precisava de duas cores. Precisava de apagar o quadro duas vezes. Precisava de garantir que não se enganava na mão. Os miúdos precisavam de aprender a fingir que não entendiam o que estava escrito do outro lado do corredor, quando entendiam perfeitamente. O mais velho começou a copiar os apontamentos do outro lado às escondidas, porque a letra do professor com a esquerda era mais legível. Repreenderam-no por ter olhado para o lado errado, não por copiar. Lisboa, em 1996, gostava de receber. Tinha festivais, cartazes com muitas bandeiras, senhoras de associações que traziam bolos. Era uma cidade que coleccionava diferenças, desde que cada diferença ficasse no seu sítio. O problema daqueles miúdos é que a diferença deles não tinha sítio. Era larga demais. Não cabia numa bandeira. Era uma ferramenta, não uma bandeira. E Lisboa, como Toronto, só sabia arquivar bandeiras. Durante meses, aquela sala funcionou com corredor. Depois deixou de funcionar, não porque alguém tenha feito um discurso sobre a tolerância, mas porque o professor se cansou. Uma manhã de novembro chegou atrasado. Tinha só um marcador, o azul. Escreveu a data no meio do quadro. Ninguém se levantou. Os miúdos copiaram. A aula seguiu. O corredor ficou ali, vazio, como ficam vazios os corredores que já não precisam de separar nada mas que ninguém tem coragem de ocupar. Eu estava lá. Era um deles. Albert Anker, Schulstube (Sala de aula), 1862. Óleo sobre tela. Reprodução em domínio público, via Wikimedia Commons. Foi nesse instante que percebi. Não foi uma epifania. Foi cansaço. A língua não é um território que se defende. É uma ferramenta que se usa. E usar uma ferramenta com as duas mãos, mesmo que doa, é diferente de escolher uma mão e chamar traidor a quem usa a outra. Voltei à sala anos depois. Já não havia corredor. Tinham voltado a pôr as mesas como antes, em filas. No quadro ainda se via, muito apagada, a marca de onde o marcador preto escrevia. Alguém tentou apagar melhor, mas ficou o fantasma. Não nasceu uma língua nova daquela sala. Ficou o gesto de escrever com as duas mãos, mesmo que doa, para não ter de dizer que a outra mão está errada. Há décadas que escrevo sobre pessoas que não conseguem dizer o que sentem. Não porque não saibam as palavras. Porque as palavras que têm foram partidas por alguém que não as precisava. Escrevi sobre um homem numa mercearia em Arroios que mantém dois cadernos: um para as contas em português, outro para as contas na língua que trouxe. Quando lhe perguntei por que não junta, disse que se junta perde a conta. Não se referia ao dinheiro. A literatura que me interessa mantém. Não explica. Manter uma língua que serve para pedir pão em qualquer mercado dá mais trabalho do que manter uma língua que serve para provar que és diferente no mercado. A primeira exige que aceites que a mesma palavra se escreva de duas maneiras e continue a ser a mesma palavra. A segunda exige só que escolhas uma maneira e chames traidor a quem usa a outra. A literatura fácil escolhe a segunda. A literatura que tento escrever escolhe a primeira e não porque isso seja virtuoso. Simplesmente não sei escrever de outro modo. As personagens dos meus livros são pessoas que falham de formas pequenas e persistentes. Uma mulher que não consegue pedir desculpa. Um homem que copia apontamentos do lado errado do corredor porque a letra é mais legível. Um filho que telefona para a mãe todas as semanas e nunca lhe diz o que realmente lhe aconteceu. Não os tornei simpáticos para que os leitores os perdoassem. Tornei-os verdadeiros para que os leitores os reconhecessem. Juan Gris, Natureza-morta com um poema, 1915. Óleo sobre tela, Norton Simon Museum. Reprodução em domínio público, via Wikimedia Commons. O reconhecimento é a única coisa que a literatura pode oferecer sem mentir. Não oferece redenção nem lição. Sabe demasiado para isso. Oferece apenas o gesto de dizer que isto aconteceu, que tu sabes, e que esse saber agora é partilhado. Disseram-me que o prémio Nobel da Literatura era meu. A primeira coisa que pensei não foi na cerimónia, nem no discurso, nem na história. Pensei naquele professor de História, que já deve ter oitenta anos, e na pergunta que nunca lhe fiz: se, no dia em que escreveu a data no meio do quadro com um só marcador, sabia que estava a fazer algo que eu levaria comigo para sempre. Não como lição. Como peso. Como a textura de um quarto onde o segredo viveu. A literatura não guarda o segredo. Guarda a textura do quarto. Não acredito que os livros mudem o mundo. Acredito que mudam a pessoa que os lê, não de imediato, nem de forma visível, mas da mesma forma que um corredor que deixou de separar nada continua a ocupar espaço na sala. Ainda o contornamos. Ainda sabemos que esteve lá. E um dia, sem que ninguém decida, deixamos de contorná-lo e sentamo-nos onde ele estava. Não porque alguém fez um discurso sobre tolerância. Porque nos cansámos de fingir que o corredor ainda separa alguma coisa. Os meus livros, se serviram para alguma coisa, serviram para isso. Para que alguém, numa manhã qualquer, percebesse que já não precisa de escolher com que mão escreve. Que pode escrever com as duas, mesmo que doa. Que a dor de escrever com as duas mãos é diferente da dor de ter de escolher uma e chamar errada à outra. Obrigado a quem leu. Obrigado a quem não leu mas guardou o livro na estante como quem guarda uma chave que já não abre nenhuma porta; porque um dia, talvez, precise de lembrar que alguma porta existiu. E obrigado a quem me ensinou, sem o saber, que a manutenção é a forma mais honesta de amor. Manter uma língua viva não é gritar que ela é pura. É usá-la para pedir pão. É escrever com ela mesmo quando ninguém pede. É manter dois cadernos quando um bastaria, porque se junto, perco a conta. Não estou a falar de dinheiro. Capa: duas mãos sobre um caderno aberto, entre planos cubistas de uma sala de aula e de Lisboa. Ilustração criada para o Atlantic Lisbon. #Portugal #Cultura #Lisboa #Homenagem #literaturajovem
- Anne Carson: o Nobel de uma escrita entre géneros
Anne Carson recebeu o Prémio Nobel da Literatura de 2026, anunciado a 8 de outubro. A Academia Sueca distinguiu a inventividade da obra e o diálogo com a tradição clássica, através dos quais Carson criou novas formas para a literatura contemporânea. Poeta, ensaísta e tradutora canadiana, trabalha frequentemente com vários géneros dentro do mesmo livro. Nascida em Toronto em 1950, tem formação em estudos clássicos e desenvolveu uma carreira universitária a par da escrita. Doutorou-se em 1981 com uma investigação sobre o desejo, assunto que atravessa também a produção literária. O conhecimento do grego e do latim acompanha o trabalho de tradução e serve de base às suas próprias obras. Em Autobiography of Red: A Novel in Verse, publicado em 1998, Anne Carson recupera Gerião, figura da mitologia grega, a partir dos fragmentos do poeta Estesícoro. Na sua narrativa, Anne Gerião ganha uma vida contemporânea, marcada pelo desejo, pela diferença e pelas relações com os outros. O livro conserva a ligação ao texto antigo, mas constrói uma narrativa própria para além do episódio mitológico. Gerião, escultura cipriota em calcário da segunda metade do século VI a. C. The Metropolitan Museum of Art, coleção Cesnola. Domínio público (CC0). Em The Beauty of the Husband: A Fictional Essay in 29 Tangos, de 2001, acompanha uma relação conjugal atravessada pela beleza, pela infidelidade e pelo ciúme. A obra está organizada em vinte e nove tangos que combinam narrativa e poesia. Referências antigas convivem aqui com experiências próximas do leitor, como a atração, a traição e a vulnerabilidade. Publicado em 2010, Nox nasceu da morte do irmão da autora. É uma elegia que reúne escrita, fotografias e materiais de arquivo, apresentada numa longa folha dobrada em acordeão e guardada numa caixa. O leitor pode desdobrar o conjunto e acompanhar a sequência dos fragmentos. A edição reproduz em fac-símile a colagem original, que integra a escrita sobre a perda. O trabalho com fragmentos tem expressão distinta em If Not, Winter, de 2002, a sua tradução dos poemas de Safo. Carson conserva na página os sinais das lacunas existentes nos textos que chegaram até nós. As palavras sobreviventes aparecem acompanhadas por parênteses retos e pelos espaços deixados pelo que se perdeu, permitindo distinguir o que subsiste daquilo que já não é possível recuperar. Safo, litografia de Camille Corot, de 1871. The Metropolitan Museum of Art, Harris Brisbane Dick Fund, 1932. Domínio público (CC0). Em Norma Jeane Baker of Troy, de 2019, aproxima Helena de Troia de Marilyn Monroe, reunindo duas figuras associadas à beleza e à notoriedade em épocas muito diferentes. Em 2021, publicou com a artista Rosanna Bruno The Trojan Women: A Comic, uma recriação em banda desenhada da tragédia de Eurípides. Marilyn Monroe numa atuação para militares na Coreia, em 1954. Departamento de Defesa dos EUA, via Wikimedia Commons. Domínio público. Para conhecer Anne Carson, o ponto de entrada pode ser o desejo em Autobiography of Red, a relação conjugal em The Beauty of the Husband ou a perda familiar em Nox. Cada livro oferece uma experiência de leitura diferente. Anne Carson: fontes e leituras relacionadas Anne Carson — New Directions Leia também no Atlantic Lisbon: Pessoa, a IA e o problema de saber quem escreve Autoria e inteligência artificial: de Pessoa aos tribunais #Escritores #Cultura #Canadá
- Weimar: cultura, democracia e poder nazi
A partir de 1941, o Teatro Nacional de Weimar apresentou óperas, concertos e peças para as SS em Buchenwald. Os espetáculos decorreram numa sala do complexo destinado aos seus membros, junto do campo de concentração. O registo conservado pelo Memorial de Buchenwald documenta uma ligação concreta entre uma instituição cultural da cidade e o aparelho de repressão nazi. O mesmo teatro tinha acolhido, em fevereiro de 1919, a primeira reunião da Assembleia Nacional encarregada de elaborar uma Constituição democrática para a Alemanha. A instituição atravessou regimes diferentes, com funções que não se explicam pelo nome ou pelo prestígio artístico da cidade. Composição gráfica original, sem IA, sobre património cultural e concentração do poder. Esta sobreposição é central. Weimar reúne património literário, experiências de renovação artística, acontecimentos fundadores da democracia alemã e vestígios do poder nazi. Nenhuma dessas histórias elimina as outras. Para perceber a relação entre elas é preciso observar o que aconteceu às instituições, quem passou a controlá-las e como foram usadas. Weimar: Uma cidade e uma república com o mesmo nome O prestígio cultural de Weimar antecede a república. No final do século XVIII e no início do século XIX, o apoio da corte ducal atraiu escritores e pensadores como Goethe, Schiller e Herder. A colaboração entre Goethe e Schiller, iniciada em 1794 e intensificada com a mudança de Schiller para a cidade em 1799, contribuiu para a sua projeção intelectual. Esse legado tem expressão material em casas, bibliotecas, palácios e jardins. O conjunto reconhecido pela UNESCO como Weimar Clássica conserva lugares associados à produção e circulação de obras literárias. O seu valor patrimonial diz respeito a essa contribuição cultural, não a uma continuidade política entre os autores, os habitantes e os governos que depois ocuparam a cidade. Em 6 de fevereiro de 1919, a Assembleia Nacional reuniu-se no Teatro Nacional. Tinha sido eleita em janeiro, nas primeiras eleições nacionais alemãs em que as mulheres puderam votar e ser eleitas. Entre as suas tarefas estavam a elaboração de uma Constituição democrática, a formação de um governo e a conclusão de um tratado de paz após a Primeira Guerra Mundial. A Constituição foi aprovada em 31 de julho. Em setembro, as reuniões passaram para Berlim. A designação República de Weimar ficou associada ao lugar onde o novo enquadramento foi elaborado, mas a cidade e o regime não eram a mesma coisa. A história local permite estudar instituições e decisões concretas; não substitui a história política de toda a Alemanha. O antigo Hoftheater de Weimar num postal de 1899, anterior ao edifício do atual Teatro Nacional. Imagem de arquivo relacionada com o património cultural; não mostra a Assembleia de 1919. Autor não identificado; edição Zedler & Vogel, Darmstadt. Origem: Wikimedia Commons. Domínio público. Página de origem. A mudança de regime passou por decisões e coerção A passagem da república à ditadura não se explica como uma alteração do gosto cultural. Envolveu a transformação das condições em que o poder era exercido. Em 30 de janeiro de 1933, o presidente Paul von Hindenburg nomeou Adolf Hitler chanceler. Hitler não foi eleito diretamente para esse cargo. A nomeação ocorreu através do processo constitucional então existente, ao qual se seguiu a destruição do regime democrático. A Lei de Plenos Poderes, aprovada em 23 de março de 1933, permitiu ao Governo legislar sem o consentimento parlamentar e aprovar disposições contrárias à Constituição. A votação decorreu sob intimidação. Deputados comunistas e parte dos deputados sociais-democratas foram impedidos de ocupar os seus lugares; membros das SA e das SS exerceram pressão sobre os representantes presentes. A existência de uma Constituição e de uma assembleia eleita não impediu que esses mecanismos fossem esvaziados através da repressão e da concentração de competências no Governo. Este processo nacional enquadra as mudanças em Weimar. O prestígio da cidade não determinava quem controlava as instituições nem garantia a preservação das suas condições de funcionamento. A Bauhaus foi perseguida, mas os percursos divergiram A Bauhaus nasceu em Weimar em abril de 1919, sob a direção de Walter Gropius. Propunha uma renovação do ensino artístico e do design. Permaneceu na cidade até 1925, quando se transferiu para Dessau. Segundo a história institucional da Universidade Bauhaus de Weimar, a mudança teve sobretudo razões políticas: aumentaram os ataques nacionalistas à orientação internacional da escola, às suas ideias e aos seus métodos de ensino. O conflito precedeu a chegada de Hitler à chancelaria. Em Weimar, a presença de uma instituição inovadora não significava acordo sobre a sua legitimidade ou sobre o apoio que deveria receber. A intervenção política alcançou também as coleções públicas. Em 1930, mais de 70 obras de artistas como Paul Klee e Lyonel Feininger foram retiradas do museu instalado no palácio. Em 1937, a campanha nazi contra aquilo que o regime classificava como arte degenerada levou à apreensão de mais de 450 obras das coleções de Weimar. A história da escola não pode ser confundida com uma posição política uniforme dos seus antigos alunos e professores. A investigação apresentada pela Klassik Stiftung Weimar na exposição de 2024 sobre a Bauhaus e o nacional-socialismo documentou trajetórias diferentes: perseguição, exílio, adaptação profissional e participação em projetos promovidos pelo regime. O poder nazi podia rejeitar artistas e obras e, ao mesmo tempo, aproveitar competências de design moderno. A mesma investigação identificou a participação de antigos membros da Bauhaus em exposições de propaganda. Outros foram perseguidos pelas suas posições políticas ou por serem judeus. Esta distinção permite compreender a relação entre arte e poder sem atribuir uma identidade única a todos os que passaram pela escola. A inovação estética, a posição política e a conduta profissional eram dimensões relacionadas, mas não equivalentes. Weimar: O poder nazi também transformou a cidade A implantação nazi em Weimar teve expressão urbana. Nas eleições regionais da Turíngia de julho de 1932, o partido nazi tornou-se a força mais votada, com 42,5% dos votos. Fritz Sauckel dirigiu depois um governo regional em associação com uma força nacional-conservadora. A reorganização de Weimar como capital regional nazi incluiu novos edifícios administrativos e partidários, espaços para concentrações e alterações na designação de praças. O projeto do Gauforum procurava dar presença monumental ao regime e acomodar as suas manifestações coletivas. O complexo foi concebido para incluir os gabinetes de Sauckel e uma praça de reunião para milhares de participantes. Não ficou concluído durante a guerra, e Sauckel nunca ocupou os gabinetes previstos. A sua função no regime ultrapassava a administração regional: nomeado responsável geral pela mobilização de mão de obra em 1942, teve responsabilidade central na deportação de milhões de trabalhadores forçados para a Alemanha. A transformação urbana não se limitava a acrescentar símbolos a uma cidade histórica. Criava instalações para a administração e a representação pública do poder. Weimar era simultaneamente um lugar de património cultural e um espaço onde o regime procurava organizar e exibir a sua autoridade. Buchenwald fazia parte dessas relações As SS começaram a construir Buchenwald no verão de 1937, no monte Ettersberg, próximo de Weimar. Os primeiros prisioneiros chegaram em 15 de julho. Foram obrigados a executar os trabalhos pesados necessários à construção do próprio campo. Entre os detidos iniciais encontravam-se opositores, Testemunhas de Jeová e pessoas perseguidas pela sua homossexualidade. O campo não funcionava como um universo inteiramente separado do exterior. A investigação do Memorial examina as suas relações com autoridades, empresas, instituições e indivíduos, incluindo as formas como essas ligações proporcionaram benefícios a pessoas e organizações fora do campo. Os espetáculos do Teatro Nacional para as SS são uma dessas relações documentadas. Não demonstram uma atitude idêntica de todos os habitantes, nem permitem atribuir a cada pessoa o mesmo conhecimento ou responsabilidade. Mostram que uma instituição cultural mantinha atividade no espaço destinado aos membros da organização que administrava o campo. Memorial de Buchenwald, fotografado em 15 de maio de 2020. Vista contemporânea do espaço de memória; não é uma fotografia do campo durante o regime nazi. Fotografia: Thomas Springer (Ordercrazy), Wikimedia Commons. Domínio público, CC0 1.0. Página de origem. Estudar o património em conjunto com a repressão Em 2024, abriu no antigo Gauforum o Museu do Trabalho Forçado sob o Nacional-Socialismo. A instalação ocupa parte do edifício onde estavam previstos os gabinetes de Sauckel e uma sala de receção das elites nazis. O local projetado para representar o poder passou a acolher uma investigação sobre a exploração que esse poder organizou. A exposição sobre a Bauhaus, realizada no mesmo ano, examinou também os percursos dos seus membros para além da história da escola. Já o Memorial de Buchenwald estuda o campo através das suas relações com a sociedade envolvente. Estas abordagens permitem relacionar histórias que, vistas separadamente, ficam incompletas. O teatro acolheu a Assembleia Constituinte e apresentou espetáculos para as SS; a Bauhaus sofreu ataques políticos, enquanto os seus antigos membros seguiram caminhos distintos; o centro urbano recebeu instalações nazis e o campo manteve ligações à cidade. Compreender Weimar exige acompanhar essas mudanças de função, de controlo e de participação, preservando a diferença entre cada instituição e cada percurso individual. Fontes institucionais Memorial de Buchenwald — O campo e os espetáculos no espaço das SS Bundestag — Assembleia Nacional de Weimar, 1919 UNESCO — Weimar Clássica USHMM — Nomeação de Hitler e destruição da democracia USHMM — Lei de Plenos Poderes: contexto e texto dos artigos Universidade Bauhaus de Weimar — História da escola Klassik Stiftung Weimar — Bauhaus e nacional-socialismo, exposição de 2024 Memorial de Buchenwald — Poder nazi e transformação urbana de Weimar Museu do Trabalho Forçado — Gauforum e responsabilidade de Sauckel Memorial de Buchenwald — Fundação do campo em 1937 Museu do Trabalho Forçado — Abertura em maio de 2024 #Cultura #Alemanha #Teatro
- Pamela Harriman: os milhões, o poder e a disputa familiar
Sonia Purnell atribui a Pamela Harriman uma intervenção importante na política transatlântica. Numa recensão de abril de 2026, Azadeh Moaveni contesta a leitura dos documentos que sustenta essa influência. Quanto poder tinha Pamela Harriman? Quando Bill Clinton anunciou a intenção de nomear Pamela Harriman embaixadora em França, em março de 1993, a Casa Branca incluiu no comunicado a sua participação na campanha Clinton-Gore. Mencionou também os anos em que presidira ao Democrats for the ’80s, o comité de angariação de fundos conhecido como PamPAC. Pamela Harriman angariou fundos para os democratas e foi nomeada embaixadora em França em 1993. Ilustração editorial original para o Atlantic Lisbon. Os encontros promovidos por Harriman juntavam candidatos, especialistas e doadores. Num perfil publicado pela Time em julho de 1993, Martha Duffy descreveu lugares pagos a mil dólares e apontou para perto de 12 milhões de dólares angariados no contexto dessa atividade. Christopher Ogden, autor de uma biografia de Harriman, escreveu na mesma revista em 1997 que o comité reunira dez milhões. Atribuiu ainda mais de três milhões a um único dia de angariação para Clinton, em 1992, na propriedade de Middleburg, na Virgínia. Nenhum dos dois artigos discrimina as receitas de modo a permitir uma comparação dos totais. Em setembro de 1994, já embaixadora, Pamela foi processada em Nova Iorque por descendentes de Averell Harriman. Acusavam-na, juntamente com consultores financeiros, de ter desperdiçado 30 milhões de dólares em investimentos imprudentes. Bill Clinton no seu retrato oficial de 1993, após a campanha presidencial para a qual Pamela Harriman angariou fundos. Crédito: Governo dos Estados Unidos / Congressional Pictorial Directory, 1993. Domínio público; utilização gratuita. Outra ação, na Virgínia, alegava empréstimos a ela própria ou a empresas que controlava e pedia a sua substituição na administração dos fundos. O advogado de Pamela, Michael Helfer, contestava a iniciativa, que descrevia como mais uma tentativa de obter pagamentos para os herdeiros. O acordo anunciado em dezembro de 1995 encerrou os processos contra ela através de uma redistribuição de bens familiares. A notícia da Associated Press indicava que Pamela e os herdeiros prosseguiriam conjuntamente certas reclamações contra outros intervenientes. Os termos financeiros eram confidenciais. As acusações não ficaram estabelecidas por uma decisão judicial apresentada nessa notícia. A embaixada dos Estados Unidos em Paris, fotografada em 1933. Pamela Harriman exercia o cargo de embaixadora em França quando foi anunciado o acordo familiar de 1995. Crédito: Agence Mondial Photo-Presse / Bibliothèque nationale de France, via Gallica. Domínio público; utilização gratuita. Em Kingmaker, Sonia Purnell regressa à Londres da Segunda Guerra Mundial para investigar a intervenção de Pamela nas relações entre britânicos e americanos. Num excerto publicado em 2024, a autora explica que muito do que Harriman fez foi mantido em segredo por ela ou ignorado pelos outros. Os seus papéis estiveram fechados, outros documentos classificados e alguns dos amigos sobreviventes mostravam-se relutantes em falar. Sonia Purnell descreve quatro anos de investigação em Inglaterra, nos Estados Unidos e em França. Invoca novos documentos, cartas, diários e transcrições de entrevistas para rever um percurso que, segundo ela, fora reduzido às relações de Pamela com homens influentes. Pamela exercia parte dessa atividade em conversas e encontros privados, sem um cargo que produzisse um registo oficial do seu trabalho. Para reconstituí-lo, a investigação depende também da correspondência e dos testemunhos de quem a conheceu. O alcance político desses contactos é precisamente o que divide Purnell e Moaveni. Na London Review of Books, Moaveni reconhece que a biografia incorpora material novo dos papéis de Harriman na Biblioteca do Congresso. Contesta, porém, as conclusões retiradas pela autora. Segundo a reconstrução de Purnell descrita na recensão, Churchill queria que Roosevelt aceitasse reparar navios de guerra britânicos em portos americanos; Pamela defendeu essa pretensão; Averell Harriman acabou por convencer o presidente. Purnell atribui a Pamela um papel na obtenção do resultado. Moaveni considera que a ligação foi construída por inferências e limita a sua intervenção à de informadora útil. A dificuldade documental invocada por Purnell justifica procurar nos arquivos privados o trabalho que não aparece nos comunicados. No caso dos navios, a sua leitura exige ainda estabelecer como a intervenção atribuída a Pamela chegou à decisão de Roosevelt. Moaveni admite a existência de novos papéis; continua a discordar do que a biógrafa entende ter encontrado neles. #EstadosUnidos
- Quem paga os anúncios de Trump?
Um anúncio pago pelo Governo dos Estados Unidos pode elogiar as políticas do Presidente. Pode explicar decisões da administração ou procurar convencer os cidadãos de que uma determinada política pública é acertada. As regras americanas sobre propaganda governamental não proíbem, por si só, uma comunicação oficial favorável às posições do poder executivo. A dificuldade aumenta quando o conteúdo se concentra no próprio Presidente. Vários anúncios televisivos protagonizados por Donald Trump e financiados com dinheiro público apresentam imagens do Presidente, recuperam a linguagem política associada à sua mensagem e incluem afirmações sobre as realizações da administração. Pelo menos uma das peças termina com a indicação de que foi paga pelo Governo dos Estados Unidos. Donald Trump no centro de uma campanha publicitária financiada pelo Governo dos Estados Unidos, que abriu uma discussão sobre os limites entre comunicação institucional e promoção política. A administração apresenta-as como mensagens de serviço público destinadas a promover o patriotismo. Os críticos consideram que o Estado está a financiar publicidade política centrada na figura do Presidente. Nos Estados Unidos existem restrições à utilização de verbas públicas para propaganda, regras sobre a atividade política de funcionários federais e critérios administrativos destinados a separar informação governamental de promoção partidária. Nenhum desses instrumentos, isoladamente, fornece uma resposta automática para estes anúncios. Anúncios de Trump e os limites da comunicação pública Os organismos federais podem explicar programas, justificar políticas e responder publicamente às críticas que lhes são dirigidas. O Government Accountability Office, o GAO, reconhece há décadas essas funções de informação. Donald Trump no centro de uma campanha publicitária financiada pelo Governo dos Estados Unidos Em 2010, o organismo analisou anúncios televisivos do Departamento de Saúde e Serviços Humanos relacionados com alterações ao Medicare e concluiu que não constituíam propaganda proibida. As peças identificavam o departamento responsável, informavam os beneficiários sobre alterações num programa público e não atribuíam os novos benefícios ao departamento ou aos seus responsáveis políticos. Havia também uma função administrativa concreta: informar os beneficiários do Medicare sobre alterações que lhes diziam respeito. O precedente deixa espaço considerável para a comunicação governamental. Uma administração não perde o direito de explicar uma política porque essa explicação a apresenta favoravelmente. Mas o conteúdo e a finalidade da despesa continuam sujeitos a escrutínio. A prática do GAO foi identificando três categorias particularmente relevantes: propaganda encoberta, autoengrandecimento e comunicação puramente partidária. A propaganda encoberta ocorre quando o Governo produz uma mensagem sem permitir que o público reconheça adequadamente a sua origem. Em 2005, por exemplo, o GAO advertiu organismos federais contra a utilização de notícias pré-produzidas que podiam chegar ao público sem identificação suficiente do Governo como fonte. Nos anúncios agora em discussão, o financiador é identificado. A indicação de que foram pagos pelo Governo dos Estados Unidos está visível. Resta saber o que está a ser promovido. O autoengrandecimento diz respeito à utilização da comunicação pública para promover o próprio organismo ou os seus responsáveis, em vez de cumprir uma finalidade pública autorizada. A comunicação partidária coloca um problema diferente, relacionado com a existência, ou ausência, de uma ligação real entre a mensagem e as funções oficiais do organismo que utiliza o dinheiro. O GAO tem estabelecido uma fasquia elevada para considerar uma comunicação puramente partidária. Uma mensagem pode ter conteúdo político e continuar relacionada com a obrigação de um organismo informar sobre as suas políticas e atividades. Para ultrapassar essa fronteira, a comunicação tem de estar desligada das funções oficiais e assumir natureza completamente política. Os anúncios de Trump ficam no espaço entre essas categorias. O que dizem os anúncios A Casa Branca classifica as peças como anúncios educativos de serviço público. Trump não está no boletim de voto e as mensagens não contêm um apelo explícito ao voto. A administração apresenta-as como uma forma de promover o patriotismo e recordar aos americanos aquilo que, na sua perspetiva, merece ser defendido. A presença do Presidente não basta para resolver a classificação jurídica. Presidentes aparecem regularmente na comunicação dos respetivos governos e são, por definição, responsáveis pela apresentação pública de muitas das suas políticas. O conteúdo destas peças vai além da identificação presidencial. Um dos anúncios apresenta Trump e enumera realizações atribuídas à sua presidência, incluindo reduções de impostos, política industrial e defesa da ordem pública, enquanto utiliza linguagem contra o comunismo, o socialismo e o marxismo. Outra peça recuperou material anteriormente associado à campanha presidencial de 2024, embora a anterior mensagem de mobilização política tenha sido substituída pela indicação de que o anúncio era pago pelo Governo dos Estados Unidos. Uma campanha sobre controlo fronteiriço pode corresponder diretamente às competências de um organismo federal. O mesmo sucede com publicidade destinada a explicar alterações fiscais ou o acesso a um programa público. Quando a peça enumera realizações presidenciais e recupera materiais usados numa campanha eleitoral anterior, a finalidade administrativa precisa de ser estabelecida por outros elementos. A identificação do Presidente, isoladamente, não esclarece para que função governamental foi produzida a mensagem. Vinte milhões de dólares Foram destinados 20 milhões de dólares à campanha publicitária, provenientes de fundos públicos ligados ao Departamento de Segurança Interna e à Customs and Border Protection. Nos primeiros dias de transmissão tinham sido gastos mais de 2,5 milhões de dólares. A origem da verba introduz outro elemento na avaliação. As regras federais sobre dotações não tratam o dinheiro público como uma verba indiferenciada. O Congresso aprova recursos para determinados organismos e finalidades, e a utilização posterior desses fundos tem de conservar uma relação com aquilo para que foram disponibilizados. O GAO já analisou contratos de comunicação verificando simultaneamente a origem da verba, a finalidade do serviço contratado e a eventual aplicação das proibições relativas a publicidade ou propaganda. Por isso, saber que o Governo pagou os anúncios é apenas uma parte da informação necessária. É preciso determinar qual a dotação utilizada e se a campanha corresponde às finalidades para as quais essa verba podia ser empregue. A ligação à Customs and Border Protection pode ser relevante para publicidade sobre fronteiras ou imigração. Torna-se menos direta quando uma peça apresenta um conjunto mais amplo de realizações presidenciais ou mensagens ideológicas sem uma relação evidente com essas competências. Essa relação terá de ser estabelecida através da finalidade formal da campanha, dos contratos e das decisões que autorizaram a despesa. O Capitólio, em Washington. O Congresso aprova as dotações federais e define as finalidades para as quais os organismos públicos podem utilizar essas verbas. Foto: United States Geological Survey / domínio público. A Hatch Act tem outra função A Hatch Act restringe determinadas atividades políticas dos funcionários federais. O Office of Special Counsel estabelece que os funcionários abrangidos não podem utilizar a autoridade ou influência oficial para interferir ou afetar o resultado de uma eleição. Existem igualmente limitações à atividade política durante o serviço, em instalações federais ou através de determinados recursos públicos. A definição está ligada à atividade dirigida ao sucesso ou fracasso de um partido, de um candidato a cargo partidário ou de um grupo político partidário. Trump aparece nos anúncios enquanto Presidente e não enquanto candidato nas eleições intercalares. A Casa Branca invoca precisamente esse facto na sua defesa. A análise não termina necessariamente aí. A aplicação da Hatch Act dependeria do papel desempenhado pelos funcionários envolvidos, do objetivo da atividade e da eventual relação entre a comunicação e o sucesso ou fracasso eleitoral das entidades abrangidas pela lei. Seria necessário saber quem decidiu produzir as peças, quem as autorizou, quem participou na sua elaboração e com que finalidade administrativa foi mobilizado o dinheiro público. Essas perguntas pertencem a uma investigação sobre a execução da campanha, não podem ser respondidas apenas pela visualização dos anúncios. A fronteira não está no rosto do Presidente Os precedentes administrativos não permitem concluir que toda a publicidade favorável a um Presidente seja ilícita. Também não permitem concluir que a identificação do Governo como financiador torne legítimo qualquer conteúdo. No caso dos anúncios do Medicare analisados em 2010, o GAO encontrou uma relação direta entre a mensagem e a responsabilidade do departamento de informar os beneficiários. O organismo salientou ainda que os anúncios não atribuíam os benefícios anunciados aos responsáveis políticos. Nos anúncios atuais, a administração invoca educação pública e promoção do patriotismo como finalidades. Parte do conteúdo, porém, apresenta realizações de Trump e utiliza elementos anteriormente associados à sua comunicação eleitoral. A apreciação jurídica acaba por depender de elementos bastante concretos: a verba utilizada, as competências do organismo que a disponibilizou, a finalidade constante do contrato, as decisões dos funcionários responsáveis e o conteúdo efetivamente difundido. A frase «Pago pelo Governo dos EUA» esclarece a autoria financeira e afasta uma parte do problema que existe na propaganda encoberta. Não esclarece se a despesa tinha uma finalidade autorizada nem se o conteúdo permaneceu dentro dessa finalidade. É nesse ponto que permanece a controvérsia. O Governo tem margem para explicar e defender as suas políticas, incluindo através do Presidente. Quando o dinheiro de um organismo federal financia uma mensagem centrada nas realizações e na linguagem política desse Presidente, a legalidade já não depende apenas de quem aparece no anúncio. Depende da relação que o Governo consiga estabelecer entre aquela mensagem, a função pública invocada e a verba que pagou por ela. #EstadosUnidos #politicainternacional #Trump











