top of page

A China descobriu que precisa de consumidores

A China descobriu que precisa de consumidores


Pequim fixou uma meta para as compras das famílias, mas o problema chinês não parece estar na falta de produtos. Está no dinheiro que permanece guardado, nas casas que perderam valor e na insegurança quanto aos rendimentos futuros.


A China construiu fábricas. Agora precisa de consumidores


Sessenta biliões de yuans em vendas a retalho até 2030. O número aparece no primeiro plano quinquenal chinês dedicado exclusivamente ao consumo. Em 2025, o total tinha sido de 50,1 biliões.


A meta foi anunciada quando os dados do primeiro semestre já mostravam uma economia a avançar a velocidades diferentes. A indústria transformadora cresceu 5,5%. As vendas de bens a retalho aumentaram 1,1%. O investimento imobiliário caiu 18%.


O produto interno bruto ainda cresceu 4,7% entre janeiro e junho. No segundo trimestre, porém, o ritmo desceu para 4,3%, o valor mais baixo desde o final de 2022. O investimento em ativos fixos recuou 5,7%. Na construção, a quebra foi de 4%.


A produção industrial continuou a aumentar em junho. Os computadores, os equipamentos de comunicação e a maquinaria registaram crescimentos fortes. As fábricas chinesas não perderam a capacidade de produzir. Algumas continuam a instalar equipamento e a automatizar tarefas, mesmo quando reduzem novos projetos ou adiam a expansão física.


O plano de consumo parte desta diferença entre uma economia industrial ainda capaz de aumentar a oferta e famílias que gastam com maior cautela. Inclui a saúde, o turismo, a cultura, o desporto, o apoio à infância e os cuidados a idosos. Prevê o desenvolvimento de serviços digitais, o estímulo às marcas chinesas e novos programas para bens duradouros.


A lista é extensa porque o Governo procura vários tipos de procura ao mesmo tempo. Uma parte poderá ser criada através de descontos ou de incentivos à substituição de automóveis e eletrodomésticos. Outra dependerá de serviços cuja oferta ainda é escassa ou cujos custos são elevados. Há também referências ao rendimento das famílias e à proteção social, embora o plano não permita saber quanto dinheiro será reservado para essas áreas.


Essa distribuição será decisiva. Um subsídio à compra produz resultados rápidos e fáceis de medir. Uma reforma das pensões demora mais, e o seu efeito sobre o comércio pode não surgir de imediato. O mesmo acontece com a cobertura de saúde, o apoio no desemprego ou a integração dos trabalhadores migrantes nos serviços públicos das cidades onde vivem.


Durante décadas, Pequim não precisou de atribuir ao consumo um programa próprio. O investimento em infraestruturas, construção e indústria criava emprego e aumentava os rendimentos. A urbanização levava milhões de pessoas a comprar apartamentos e a equipá-los. O comércio crescia com a expansão do próprio modelo.


A habitação ocupava uma posição central. Era uma casa, mas também a principal aplicação financeira de muitas famílias. Enquanto os preços subiam, o valor do imóvel compensava parte da insegurança associada às despesas futuras. Uma pensão modesta ou uma conta médica elevada pareciam menos ameaçadoras quando o apartamento continuava a valorizar.


Vista frontal da Cidade Proibida sob céu azul, com dezenas de pessoas distribuídas ao longo do eixo central.
A China construiu fábricas. Agora precisa de consumidores

O investimento imobiliário caiu 18% no primeiro semestre de 2026. A área dos projetos iniciados diminuiu 23,4%. A área dos edifícios concluídos recuou 23,7%.


A crise dos promotores deixou obras interrompidas e empresas endividadas. Os governos locais perderam receitas provenientes da venda de terrenos. Para os proprietários, o efeito acumulou-se de maneira menos visível. O apartamento permaneceu no mesmo lugar, mas passou a ser mais difícil saber quanto valeria numa venda ou quanto tempo demoraria a encontrar comprador.


Uma família pode manter o emprego, continuar a pagar o empréstimo e, ainda assim, reduzir as despesas. O receio não precisa de resultar de uma perda já concretizada. A possibilidade de o principal ativo valer menos do que se pensava chega para adiar uma compra que não seja urgente.


Quase metade da poupança das famílias chinesas encontra-se aplicada em habitação. Uma parte adicional permanece em depósitos bancários. A escolha de aplicações seguras ganhou peso com a descida dos preços imobiliários e com expectativas mais cautelosas quanto aos rendimentos.


Os gastos das famílias não desapareceram. No primeiro semestre, aumentaram em categorias como a alimentação, os transportes, o vestuário e vários serviços. Cresceram pouco para a dimensão do ajustamento que Pequim pretende fazer.


Os programas de substituição de equipamentos têm utilidade neste contexto. Conseguem levar uma família a trocar um automóvel ou um frigorífico alguns meses antes do previsto. O efeito termina quando o apoio desaparece, caso os motivos que levaram essa família a poupar permaneçam intactos.


As despesas médicas continuam a pesar. A cobertura das pensões varia. Milhões de trabalhadores migrantes vivem em cidades onde não beneficiam dos mesmos serviços concedidos aos residentes registados. O salário pode ser recebido no litoral industrial, enquanto parte da proteção social permanece ligada à província de origem.


O Governo central pode anunciar uma melhoria destes sistemas, mas a execução depende, em grande medida, de administrações locais cuja situação financeira se deteriorou com a crise imobiliária. As receitas obtidas através dos terrenos permitiam financiar serviços e investimentos. A sua queda reduziu a margem para novas despesas precisamente quando Pequim pede aos governos locais que ajudem a sustentar o consumo.


Há também uma diferença importante entre financiar uma fábrica e aumentar o rendimento disponível. No primeiro caso, o Estado conhece o destino do dinheiro. Sabe onde será construída a instalação e qual o setor beneficiado. Uma transferência para uma família pode acabar numa loja, mas pode também ficar no banco.


Depois de uma crise imobiliária prolongada, poupar um rendimento adicional não seria uma resposta inesperada. As famílias precisariam primeiro de acreditar que a melhoria duraria.


A China tem motivos para hesitar antes de retirar recursos à política industrial. O modelo produziu cadeias de abastecimento extensas, infraestruturas modernas e empresas capazes de competir em mercados nos quais o país dependia anteriormente de tecnologia estrangeira. Os veículos elétricos, as baterias, os painéis solares e os equipamentos de telecomunicações tornaram-se fontes de crescimento e instrumentos de autonomia económica.


Muitos desses setores ainda beneficiam de crédito favorecido, apoio local e programas públicos. Uma redução brusca poderia agravar a dívida de algumas empresas e eliminar empregos em regiões que passaram a depender de determinadas indústrias. O plano de consumo acrescenta uma prioridade, mas não identifica claramente quais das anteriores receberão menos financiamento.


Os números do investimento mostram essa dificuldade. A compra de equipamento aumentou 8,1% no primeiro semestre, apesar da queda de 5,7% no investimento em ativos fixos. As empresas continuaram a modernizar as linhas de produção, enquanto reduziam a construção e a instalação de novos espaços.


A automatização responde ao envelhecimento da população e à diminuição futura da mão de obra. Permite aumentar a produtividade e competir em atividades de maior valor. Também reduz a quantidade de trabalhadores necessária para produzir o mesmo volume.


Os empregos criados pela modernização não chegam necessariamente às pessoas que perderam funções industriais. A manutenção avançada, a engenharia e a programação requerem outras qualificações. Podem surgir noutra cidade ou apenas depois de um intervalo prolongado.


A insegurança laboral não se reflete inteiramente na taxa de desemprego. Uma empresa pode manter os trabalhadores e congelar os salários. Outra reduz as contratações. Um projeto adiado significa empregos que nunca chegam a existir e rendimentos que não entram no comércio local.


Entre janeiro e junho, o investimento não governamental caiu 8,5%, mais do que o indicador total. As empresas privadas, com acesso desigual ao crédito e menor proteção perante uma desaceleração, mostraram-se particularmente cautelosas. Essa prudência chega aos trabalhadores através das decisões de contratação e de remuneração.


O plano pretende aumentar as despesas das famílias num momento em que parte dessas famílias observa empresas a contratar menos e fábricas a depender mais de máquinas. O consumo pode crescer sem um mercado laboral exuberante, mas será difícil torná-lo o principal motor da economia enquanto os rendimentos futuros permanecerem incertos.


A procura estrangeira tem compensado parte dessa fraqueza. Em 2025, as exportações ajudaram a sustentar o crescimento, e o excedente da conta corrente terá atingido 3,3% do produto interno bruto. A inflação baixa, quando comparada com a dos parceiros comerciais, reforçou a competitividade dos produtos chineses.


Cada empresa procura compradores onde os encontra. O efeito internacional surge quando milhares de fabricantes fazem o mesmo dentro de uma economia com a dimensão da China.


As exportações beneficiam de vantagens que levaram décadas a construir. Os fornecedores estão próximos, os portos funcionam, a mão de obra acumulou conhecimento e a produção pode atingir volumes difíceis de reproduzir. O apoio público também faz parte desta estrutura, através do crédito, dos terrenos e das políticas locais.


Reduzir toda a competitividade chinesa a subsídios seria inexato. Ignorar o papel do Estado também o seria. O resultado é uma capacidade industrial que continua a colocar produtos no exterior quando o mercado doméstico não os absorve.


Os Estados Unidos e a União Europeia responderam com tarifas e investigações antissubsídios. Outros países receiam que os fabricantes chineses ocupem setores que tentam desenvolver internamente. Algumas medidas protegem empresas pouco eficientes. Outras procuram evitar que a concorrência elimine produtores locais antes de estes conseguirem ajustar os custos ou aumentar a escala.


Pequim rejeita a expressão «excesso de capacidade» e aponta para a qualidade e o preço dos seus produtos. Em vários setores, as empresas chinesas possuem vantagens reais. A tensão comercial resulta precisamente da dificuldade de separar essa eficiência da fraqueza da procura interna e dos apoios que permitiram construir o atual volume de produção.


Uma expansão do consumo dentro da China reduziria parte da pressão exportadora. As empresas venderiam mais no mercado doméstico. Os serviços poderiam absorver trabalhadores que já não encontram lugar nas indústrias automatizadas. O envelhecimento da população deverá aumentar a procura de cuidados de saúde e de assistência a idosos, áreas nas quais existe margem para criar emprego.


O plano reserva espaço para esses serviços. Continuarão a competir por recursos com os semicondutores, a inteligência artificial, a energia e outros setores considerados essenciais para a autonomia tecnológica. Ainda não foi apresentado o modo como essa competição será resolvida nos orçamentos.


A meta dos 60 biliões de yuans poderá ser alcançada através do crescimento nominal, da expansão dos serviços e de novos incentivos ao comércio. O valor total das vendas não mostrará, por si só, quanto mudou a distribuição do rendimento ou quanto diminuiu a necessidade de poupança preventiva.


Essas alterações aparecerão noutros dados: no valor das pensões, na cobertura do desemprego, no peso das despesas médicas e no acesso dos trabalhadores migrantes aos serviços urbanos. Também aparecerão na recuperação do investimento privado e na estabilidade do mercado imobiliário.


No primeiro semestre de 2026, a indústria transformadora cresceu 5,5%, as vendas de bens a retalho aumentaram 1,1% e o investimento imobiliário caiu 18%. O plano foi aprovado com estes números já conhecidos. Os próximos orçamentos dirão que parte do dinheiro público chegará efetivamente às famílias.


Imagem: Nuno Alberto


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page