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A fissura judaica americana: sionismo como identidade em colapso

Sobre o que resta de uma comunidade quando o cimento que a unia nunca foi explicitamente negociado.


Nathaniel Felder é arquitecto.


Quando decidiu protestar à porta da sua sinagoga, pensou obsessivamente no design do cartaz. A cor das letras tinha de ser o azul exacto da Estrela de David na bandeira israelita — não qualquer azul. A mensagem tinha de falar de valores judaicos, não de política. Felder nunca tinha estado numa manifestação. Não gostava de chamar atenção a si próprio.


Por que a comunidade judaica americana está dividida sobre Israel e Gaza?


É este o detalhe que fica. Não os insultos que recebeu — get a life, go fuck yourself — nem o carro da polícia que chegou antes de qualquer congregante, nem a ameaça de ser banido da própria congregação. O que fica é a imagem de um homem que passa horas a escolher a sombra certa de azul para um cartaz que vai segurar à porta da comunidade que lhe ensinou o que é ser judeu.


Imagem editorial sóbria com uma estrela de David azul atravessada por uma fissura vertical, usada como metáfora visual para a divisão interna das comunidades judaicas americanas.
Capa do Atlantic Lisbon para o ensaio “A fissura judaica americana: sionismo como identidade em colapso”, usando uma estrela de David fendilhada como imagem da ruptura simbólica e moral que atravessa parte da comunidade judaica nos Estados Unidos.

A obsessão com o detalhe não é perfeccionismo. É o gesto de quem quer continuar a pertencer ao sítio onde está a protestar. Felder usava o quipá do avô materno — um sionista fervoroso que em 1975 vendeu a casa em Long Island e foi viver para Beersheba.


O mesmo avô que lhe ensinou que proteger a vida humana era o princípio mais sagrado do judaísmo. Felder escolheu o azul israelita para escrever que o apoio a Israel não podia ser incondicional.


Há uma contradição dentro desta cena. Beth El viu-a como ataque. Felder via-a como fidelidade.


A sinagoga conservadora Beth El, em South Orange, Nova Jérsia, tinha um sinal à entrada: We Stand with Israel and We Pray for Peace. Foi colocado cerca de um ano depois do ataque do Hamas de 7 de Outubro de 2023, que matou 1.200 pessoas e raptou 251.


A decisão era compreensível — múltiplos membros tinham familiares entre os reféns.


Mas o sinal ficou enquanto a guerra em Gaza se prolongava, enquanto o número de mortos palestinianos subia para mais de 72.000, enquanto organizações humanitárias alertavam que meio milhão de pessoas estavam em risco de fome.


Para alguns membros de Beth El, o sinal dizia solidariedade. Para outros, dizia cumplicidade. Para Felder, dizia que os vizinhos assumiriam que ele e os seus correligionários aprovavam o bloqueio de ajuda humanitária — o que lhe pareceu uma dessacralização do que o avô lhe ensinara.


Em Janeiro deste ano, o sinal foi retirado.


Como Beth El, uma sinagoga de Nova Jérsia, expôs que o debate sobre Gaza não é político — é identitário, e não há linguagem preparada para o que está por baixo.


O rabino-chefe Jesse Olitzky caminhou pela neve até à entrada da sinagoga, rodeado de congregantes agasalhados, e arrancou-o. Foram recitadas orações. Foi lida uma "Oração das Mães", escrita em conjunto por uma rabina israelita e uma líder islâmica palestiniana.


O momento tinha uma solenidade real.


Felder assistiu. Sentiu alívio. E depois soube que o sinal ia ser substituído por uma bandeira israelita.


Há uma distinção que vale a pena fazer: entre o que uma comunidade diz que acredita e o que consegue suportar que seja dito dentro de si.


Beth El tem bandeiras de orgulho gay e trans na entrada. Organizou uma shiva simbólica pela morte de George Floyd. Os rabinos foram presos numa manifestação contra as restrições de viagem a países muçulmanos. A congregação define-se como progressista — e genuinamente parece sê-lo em muitas matérias.


Mas quando Liba Beyer pediu para distribuir botões com a inscrição B'Tselem Elohim: ALL Life Is Holy durante as festas do Ano Novo judaico, o rabino recusou. Quando Alex Willick foi convidado a falar do bimah sobre uma visita a Israel — e escolheu falar sobre uma escola palestiniana destruída por um colono com um bulldozer — o convite foi cancelado uma semana antes.


Quando Beyer propôs um grupo de leitura em torno de um livro que argumenta a favor de um Estado binacional, foi dito que patrocinar essa conversa "não faz sentido para nós como sinagoga". Quando congregantes escreveram sobre a crise humanitária em Gaza, não houve resposta pública, não houve orientação, não houve e-mail para a congregação.


A palavra "inclusão", em Beth El, estica-se do centro-esquerda à direita. Não chega ao lugar onde a crítica a Israel deixa de ser nuance e se torna princípio.


Esta assimetria não é acidente. É estrutura.


Em 1973, o editor Norman Podhoretz escreveu que os judeus americanos tinham sido "convertidos ao sionismo". O evento que precipitara a conversão foi a Guerra do Yom Kippur — um ataque surpresa que perfurou a sensação de invulnerabilidade criada pela vitória de 1967. A resposta da comunidade judaica americana foi unitária: doações, voluntários, solidariedade fervorosa. Até judeus reformistas que tinham rejeitado a ideia de os judeus constituírem uma nação se converteram. Até alguns judeus ortodoxos que viam o sionismo como heresia.


O que Podhoretz chamou de conversão era, de certa forma, a substituição de uma identidade teológica difusa por uma identidade política coerente. O sionismo tornou-se o denominador comum — o código que permitia a judeus muito diferentes sentirem que pertenciam à mesma coisa sem terem de negociar os termos dessa pertença.


Cinquenta anos depois, esse código entrou em contradição consigo próprio. Um inquérito do Washington Post publicado em Outubro passado mostrava a comunidade dividida ao meio: 46% a favor da guerra em Gaza, 48% contra. 39% acreditavam que Israel estava a cometer genocídio. Não são números sobre política externa. São números sobre o que é ser judeu americano — e sobre o facto de a resposta já não ser consensual.


De Lisboa, esta divisão tem uma tonalidade particular.


Portugal passou décadas a construir uma identidade nacional que incluía o Império como dado natural — não como projecto político contestável, mas como extensão do que Portugal era.


Quando o Império colapsou, o colapso não foi apenas político. Foi identitário. A pergunta que ficou — o que éramos, se deixássemos de ser aquilo? — demorou décadas a ser formulada com honestidade, e ainda não foi respondida por inteiro.


A comunidade judaica americana não está a perder um Império. Mas está a perder algo com uma função semelhante: a capacidade de usar o sionismo como identidade não contestada — como o sítio onde judeus muito diferentes podiam reconhecer-se uns nos outros sem ter de concordar em tudo.


O que está a acontecer em Beth El não é apenas um debate sobre Gaza. É uma comunidade a descobrir que o cimento que a unia continha uma suposição que nunca foi explicitamente negociada: que apoiar Israel, fosse o que fosse, era parte do que significava ser judeu americano.


Quando essa suposição se torna moralmente insuportável para uma parte da comunidade, percebe-se que não há linguagem preparada para o que está por baixo dela. Há regras para incluir famílias interfaith e casais do mesmo sexo. Não há regras para incluir judeus que acham que Israel está a cometer crimes de guerra.


Não porque a questão seja mais difícil. Porque é mais central.


Liba Beyer usa um quipá estampado com melancias — símbolo de solidariedade com os palestinianos. Vai às orações do Shabat. Está a preparar o bar mitzvah do filho na mesma sinagoga onde o pai foi homenageado depois de morrer. Chama-se a si própria anti-sionista.


O seu marido é sionista de direita, filho de judeus marroquinos. "Temos um casamento misto em política israelita", diz ela, a rir.


A piada contém a estrutura do problema. Dentro de Beth El há um casal que representa os dois polos da divisão — e que continua casado, continua na mesma sinagoga, continua a viver na mesma casa. A comunidade tem um modelo de coexistência doméstica que não conseguiu transpor para a esfera institucional.


O que a sinagoga não conseguiu fazer é exactamente o que os Beyer fazem quotidianamente: habitar a contradição sem a resolver, sem exigir que uma das partes capitule.


O sinal foi retirado. A bandeira vai ser colocada.


A substituição é reveladora. O sinal dizia We Stand with Israel — uma frase que, depois de dois anos de guerra, se tornara impossível de ler sem contexto, sem argumento, sem contestação possível. A bandeira não diz nada em palavras. É anterior à linguagem. É um objecto de pertença, não de argumento. É mais difícil de contestar porque não contém proposição — só identidade.


As comunidades que não conseguem negociar as suas contradições em linguagem tendem a resolvê-las em símbolos. Os símbolos têm a vantagem de não poderem ser refutados. Têm a desvantagem de tornarem a conversa impossível — porque não há proposição a contestar, há apenas pertença a aceitar ou recusar.


Felder vai continuar em Beth El. Beyer também. Willick também. Nenhum quer incendiar o sítio — querem habitá-lo de outra forma. A pergunta que Beth El não conseguiu ainda responder é se "habitar de outra forma" é possível dentro de uma estrutura que trocou o sinal pela bandeira. Ou seja: se é possível discutir o que a bandeira representa quando a bandeira é o argumento.


A "Oração das Mães", lida na cerimónia de remoção do sinal, terminava assim: porque não nos criaste para nos matarmos uns aos outros / nem para vivermos com medo, raiva ou ódio no teu mundo. É uma oração bonita. Mas uma oração não é uma gramática. E o que Beth El precisa — o que muitas comunidades que sobrevivem à perda do seu cimento identitário precisam — é de uma gramática nova. Uma linguagem que consiga nomear o que está por baixo do símbolo, antes que o símbolo se torne a única resposta possível.


Nota editorial: Este ensaio foi escrito a partir da reportagem “At Synagogues, Tensions Are Boiling Over”, de Eyal Press, publicada na The New Yorker em 30 de março de 2026, da secção Annals of Religion. Os factos e episódios aqui referidos partem desse trabalho jornalístico, sendo neste texto objecto de reelaboração analítica e reflexão ensaística própria.


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