A escrita de Hanif Kureishi passou a ter companhia
Atualizado: há 2 dias
Depois do acidente, o escritor começou a ditar à família. Carlo passou a discutir ideias e frases com o pai. O novo livro apresenta os dois nomes.
O catálogo da Penguin apresenta dois nomes para Are You with Me Now?: Hanif Kureishi e Carlo Kureishi. O livro, com lançamento britânico anunciado para 5 de novembro de 2026, acompanha a vida do escritor em casa depois do acidente que o deixou paralisado.
A informação bibliográfica regista uma mudança que começou junto de uma cama de hospital: escrever passou a exigir a presença de outra pessoa. Essa presença ganhou uma função criativa. A pessoa que recebia as palavras podia discuti-las, rejeitar uma frase ou pedir outra.
O filho entrou no trabalho do pai com ideias e objeções. A relação familiar passou a incluir uma conversa sobre o que merecia ficar na página.
Hanif Kureishi começou por ditar à família
Em 26 de dezembro de 2022, Kureishi sofreu uma queda em Roma. Ficou sem conseguir usar os membros e passou a depender de cuidados. Como não podia segurar uma caneta ou escrever num teclado, começou a ditar à família.
Os relatos desse período deram origem a Shattered, publicado no Reino Unido em 2024. A editora descreve o livro como uma combinação dos textos do hospital, revistos e ampliados, com material novo.
Ditar permitia registar o pensamento; a obra publicada exigiu ainda a seleção e a elaboração. A urgência de comunicar conviveu com o trabalho de dar uma forma duradoura ao que estava a ser vivido.
Num texto publicado em 29 de junho de 2024 nas Kureishi Chronicles, o escritor recordou ter começado por ditar a Isabella, sua companheira, nos cuidados intensivos em Roma. Depois participaram os filhos.
Enquanto estava deitado, preparava mentalmente o que queria dizer e procurava organizar o discurso em parágrafos, deixando espaço à improvisação. Atribuiu a esse método um tom mais imediato em Shattered. As frases tinham de poder ser ditas e acompanhadas por alguém que as escrevia. Entre o pensamento e a página passou a existir uma escuta.
Carlo também contesta as frases
No mesmo texto, Kureishi explicou que os filhos faziam mais do que registar as suas palavras. Carlo propunha ideias, contestava-o e obrigava-o a lidar com críticas vindas de alguém muito próximo. O pai reconhecia a dificuldade dessa posição e a utilidade de ouvir.
A colaboração artística já fazia parte da sua carreira. No cinema, trabalhou de perto com Roger Michell em The Mother, Venus e Le Week-End. Ao recordar essa relação, descreveu divergências e críticas entre dois profissionais que se respeitavam.
A entrevista concedida a Rebecca Watson, publicada no Financial Times em 23 de outubro, mostra a relação com Carlo em funcionamento. O filho acompanha o pai e participa na conversa. Kureishi descreve um processo em que uma frase sua pode ser questionada e em que os dois procuram uma formulação melhor.
Uma pessoa pode transcrever com rigor o que ouve. Pode também responder ao sentido, detetar uma passagem vazia e exigir precisão. Nesse segundo caso, a conversa intervém no texto que está a nascer.
A experiência do escritor e a familiaridade do filho dão a essa troca uma tensão particular. Existe uma carreira literária reconhecida de um lado e, do outro, a liberdade de quem conhece o autor fora dos livros. A correção de uma frase pode atravessar as duas relações: a de colaboradores e a de pai e filho.
Precisar de cuidados não elimina a discordância
Ser ajudado não obriga um escritor a aceitar tudo. Também não obriga quem ajuda a concordar com todas as escolhas. Na entrevista ao FT, Kureishi fala da escrita como uma forma de reconstruir a sua identidade depois do acidente. Relata também a raiva e o desconforto de depender de outras pessoas para tarefas íntimas e quotidianas.
A atividade literária prossegue dentro dessas condições, com os conflitos que elas trazem. Quem precisa de cuidados continua a ter critérios, opiniões e capacidade de discordar. A discussão de uma frase pode ser uma maneira concreta de exercer essa capacidade.
Carlo pode reconhecer o sofrimento do pai e, ainda assim, considerar insuficiente uma formulação. O respeito pelo escritor inclui levá-lo a sério como alguém cujo trabalho pode ser discutido.
Dois nomes no novo livro
Kureishi escreveu em 2024 que lhe tinham falado de programas capazes de registar o seu ditado. Admitia, contudo, não ter a certeza de querer regressar ao trabalho solitário depois daquela experiência.
Resolver a dificuldade de introduzir palavras num computador não reproduziria necessariamente a conversa que passou a acompanhá-las. O interlocutor pode surpreender, interromper ou perceber uma possibilidade que o autor ainda não tinha considerado.
Pai e filho têm uma conversa pública marcada para 1 de novembro, às 20h00, no Queen Elizabeth Hall do Southbank Centre, em Londres, com Emma Barnett. A sessão antecede o lançamento britânico do livro.
O catálogo do novo livro torna visível essa companhia. A apresentação editorial descreve uma adaptação familiar à deficiência e uma forma de trabalhar, palavra a palavra, à mesa da cozinha. Os dois nomes não permitem repartir a contribuição de cada um, frase a frase.









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