James Baldwin em Istambul: a liberdade de ser desconhecido
Atualizado: há 2 dias
Entre 1961 e 1971, James Baldwin encontrou em Istambul amigos, tempo para escrever e alguma distância das exigências da notoriedade. As fotografias e o filme de Sedat Pakay preservam uma parte dessa vida.
James Baldwin já conhecia a experiência de abandonar um país para conseguir escrever sobre ele. Em 1948, aos 24 anos, deixara os Estados Unidos e instalara-se em Paris. Era negro, homossexual e aspirante a escritor, numa sociedade norte-americana atravessada pela segregação racial e por uma profunda hostilidade à diferença sexual.
A Europa não eliminou essas tensões, mas permitiu-lhe observá-las de outra posição. Durante os seus anos em França, publicou o primeiro romance, Go Tell It on the Mountain, em 1953, e Giovanni’s Room, em 1956. O segundo, centrado no desejo e nas relações entre homens, confirmou que Baldwin não aceitaria os limites temáticos que outros procuravam impor-lhe.
A notoriedade trouxe novas exigências. Os seus ensaios sobre a sociedade norte-americana, a violência racial e as contradições da democracia transformaram-no numa figura pública. Passou a ser procurado não apenas como romancista, mas também como intérprete de um país em conflito consigo próprio.
Quando chegou a Istambul, em 1961, Baldwin trabalhava havia anos num romance que não conseguia concluir. Another Country exigia-lhe uma concentração difícil de preservar numa vida marcada por deslocações, encontros e solicitações públicas. A cidade turca ofereceu-lhe uma condição inesperada: podia ser uma personalidade literária internacional sem ser reconhecido pela maioria das pessoas com quem se cruzava.
James Baldwin em Istambul, entre amigos
Istambul não era uma cidade isolada do mundo. Situada entre a Europa e a Ásia, reunia tradições religiosas, políticas e culturais diferentes. A sua vida intelectual incluía escritores, atores, artistas plásticos e profissionais do teatro que mantinham contactos com outras capitais. Foi nesse ambiente que Baldwin encontrou uma comunidade.
O ator turco Engin Cezzar teve um papel importante na sua chegada e integração. Os dois tinham-se conhecido no final da década de 1950, em Nova Iorque, durante o trabalho numa adaptação teatral de Giovanni’s Room. Cezzar convidou Baldwin a visitar Istambul e ajudou-o a estabelecer relações com artistas turcos, incluindo Gülriz Sururi, atriz com quem viria a casar.
Baldwin passou a frequentar casas particulares, encontros culturais e espaços de convívio. Não vivia propriamente retirado da sociedade. Pelo contrário, era conhecido pela facilidade com que estabelecia amizades e pela intensidade da sua vida social.
Nos Estados Unidos, o seu nome remetia imediatamente para a questão racial, para a literatura e para os debates públicos em que participava. Em Istambul, a maioria dos habitantes não tinha razões para o identificar. Não compreender a língua turca também lhe permitia manter alguma distância relativamente às conversas e aos acontecimentos à sua volta.
Essa circunstância podia ser limitadora, mas libertava-o de uma obrigação que conhecia demasiado bem: responder continuamente ao que os outros esperavam dele. O seu antigo assistente e biógrafo David Leeming relacionou essa possibilidade de ser deixado em paz com melhores condições para trabalhar.
Em 1962, Another Country foi finalmente publicado. Não seria rigoroso atribuir a conclusão do romance exclusivamente à mudança de cidade. Baldwin levava consigo anos de trabalho, experiências e reflexão.
James Baldwin em Istambul: A distância não o afastou dos direitos civis
Another Country explora relações raciais, sexualidade, intimidade, violência e incompreensão. A narrativa atravessa ambientes sociais e afetivos nos quais as personagens procuram aproximar-se umas das outras, frequentemente sem conseguirem ultrapassar os preconceitos que transportam.
A distância física também não significou neutralidade política. Durante a década de 1960, os Estados Unidos viveram momentos decisivos do movimento pelos direitos civis. Baldwin participou nesse debate, escreveu sobre a segregação e manteve relações com figuras centrais da luta pela igualdade racial. Em 1963, publicou The Fire Next Time, uma das suas obras ensaísticas mais influentes.
Baldwin precisava de intervir no mundo, mas também precisava de períodos em que o mundo não exigisse a sua intervenção. A escrita literária não se desenvolvia necessariamente no mesmo ritmo da atividade política. Um ensaio podia responder a uma urgência histórica; um romance exigia tempo para construir personagens, desenvolver conflitos e encontrar uma linguagem.
Istambul permitia-lhe alternar entre essas duas formas de presença. A cidade não era uma fuga definitiva. Era um lugar a partir do qual podia regressar.
James Baldwin em Istambul: O escritor diante da câmara de um amigo
Em 1964, conheceu Sedat Pakay, um jovem turco interessado em fotografia. Pakay não pertencia ao círculo dos grandes fotógrafos internacionais. Estava ainda a desenvolver a sua formação e encontrou em Baldwin alguém que aceitou ser fotografado durante a vida quotidiana.
Dessa proximidade nasceu um conjunto de imagens que permite observar o escritor fora das situações em que habitualmente aparecia perante o público. Pakay acompanhou Baldwin pelas ruas, fotografou-o em casa, observou-o a trabalhar e registou momentos de convívio. O escritor surge a conversar, a deslocar-se pela cidade, a descansar e a escrever.
Nas fotografias de Pakay, Baldwin não precisa de estar a discursar para continuar a ser Baldwin. Uma imagem de 1965 mostra-o a trabalhar no romance Tell Me How Long the Train’s Been Gone, publicado em 1968. Outra situa-o nas imediações da mesquita Yeni Cami, entre pessoas que prosseguem as suas atividades.
Noutras fotografias, aparece junto de militares norte-americanos que o reconheceram, ou na companhia de amigos que visitavam a Turquia. Há ainda imagens das suas deslocações de barco e da sua passagem pela ponte de Gálata. O conjunto mostra uma cidade vivida, não apenas contemplada.
As fotografias de Pakay têm um valor documental particular porque foram produzidas ao longo de uma relação pessoal. O fotógrafo conhecia o homem que estava diante da objetiva. Isso não torna as imagens automaticamente mais verdadeiras, mas altera as condições em que foram feitas.
Um retrato oficial procura frequentemente fixar uma identidade reconhecível. Uma fotografia produzida entre amigos pode preservar situações que não foram organizadas para representar uma carreira. Pakay decidia quando fotografar, onde colocar a câmara e que momentos conservar. As suas imagens mostram uma parte da experiência de Baldwin, não a totalidade da sua vida.
O fotógrafo viria a estudar na Universidade de Yale, onde teve contacto com Walker Evans e concluiu o mestrado em Belas-Artes em 1968. A sua relação com Baldwin prolongou-se para além dos anos de convivência em Istambul. Entre as imagens, a correspondência e as memórias conservadas pela família de Pakay, tornou-se possível reconstruir aspetos de uma amizade que atravessou diferentes períodos da vida dos dois homens.
Onze minutos e meio sobre viver noutro lugar
Em maio de 1970, Pakay voltou a colocar Baldwin diante de uma câmara, desta vez para um filme. James Baldwin: From Another Place, de 1973, tem onze minutos e meio. Filmado a preto e branco, apresenta o escritor em Istambul, falando da vida no estrangeiro, da experiência negra nos Estados Unidos e da sua situação pessoal.
A obra não é uma biografia convencional. Acompanha Baldwin em espaços privados e públicos, combinando a sua presença física com reflexões sobre identidade e pertença.
Baldwin podia afastar-se dos Estados Unidos, mas não conseguia deixar de pensar no país onde nascera. O racismo norte-americano não desaparecia porque ele atravessava uma fronteira. Continuava presente na sua memória, nas suas relações e na matéria dos seus livros.
A investigadora Magdalena J. Zaborowska dedicou a esta experiência o livro James Baldwin’s Turkish Decade: Erotics of Exile, publicado em 2009. O estudo examina a importância da Turquia na construção literária e pessoal de Baldwin, incluindo as relações entre exílio, sexualidade, espaço e criação.
Dirigir teatro numa língua que não dominava
Em 1969, dirigiu em Istambul uma adaptação de Fortune and Men’s Eyes, peça do dramaturgo canadiano John Herbert, conhecida pela representação da violência e das relações de poder num estabelecimento prisional.
O trabalho tinha uma particularidade: Baldwin não dominava a língua turca. Dirigir atores numa língua que não compreendia plenamente exigia uma forma diferente de comunicação. A interpretação dependia também dos gestos, da expressão corporal, do ritmo e da colaboração com os artistas locais. A jornalista e crítica Zeynep Oral trabalhou como intérprete durante os ensaios.
Baldwin participou na atividade cultural da cidade e desenvolveu trabalho artístico com pessoas cuja formação e experiência eram diferentes das suas. A produção também encontrou obstáculos. Um estudo publicado em 2024 na revista Litera reconstitui a tentativa de encerramento do teatro por ordem das autoridades locais, em 1970, e a resistência da companhia. O desfecho foi favorável aos artistas.

Uma exposição recuperou os anos turcos
Entre 12 de dezembro de 2024 e 30 de março de 2025, a Biblioteca Pública de Brooklyn apresentou a exposição Turkey Saved My Life: Baldwin in Istanbul, 1961–1971. A mostra reuniu mais de cinquenta fotografias de Sedat Pakay, incluindo vinte que não tinham sido anteriormente expostas.
Organizada no contexto das comemorações do centenário do nascimento de Baldwin, permitiu dar maior visibilidade a um período frequentemente secundarizado perante os seus anos em Paris e a sua intervenção política nos Estados Unidos. A exposição encerrou depois de um prolongamento da programação inicial.
Engin Cezzar, Gülriz Sururi, Sedat Pakay e outros amigos não foram apenas personagens secundárias na passagem de Baldwin pela Turquia. Participaram, de maneiras diferentes, na construção das condições materiais e afetivas em que ele viveu e escreveu.
Há uma diferença entre ser livre para falar e ser livre para permanecer em silêncio. Baldwin tornou-se uma das grandes vozes do século XX precisamente porque recusou o silêncio perante o racismo, a desigualdade e as formas de opressão que conhecia. Mas essa intervenção tinha um custo.
A figura pública podia tornar-se tão dominante que ameaçava ocupar todo o espaço disponível para a pessoa e para o escritor. Istambul não resolveu definitivamente essa contradição. Ofereceu-lhe, durante alguns anos, uma maneira de a administrar.








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