Insegurança alimentar: o preço de desinvestir
Há uma preocupação que explica a fome. Perder 3,5 biliões de dólares por ano por manter pessoas subnutridas, deixar pragas e doenças levarem até 40% do que se colhe e desinvestir nos centros que provaram devolver dez por cada dólar aplicado não é falta de meios.
No último ano documentado, 2,1 mil milhões de pessoas viveram em insegurança alimentar, mais de um quarto da humanidade. 260 milhões estiveram em situação aguda, com vida ou sustento em perigo imediato. Quase um quarto das crianças com menos de cinco anos ficou com o crescimento permanentemente afetado. Uma criança travada aos quatro anos chega a adulta com menos escola, menos rendimento e mais doença. O diagnóstico de custo já estava feito: 3,5 biliões por ano em crescimento perdido e despesa de saúde.
Picos de preços alimentares não ficam no mercado. Exacerbam queixas, precipitam tumultos, desestabilizam governos. A matéria recorda a Primavera Árabe. No campo, a mesma insegurança alimenta o recrutamento de grupos armados, disputas por terra e água, empurra gente para fora. Pragas e doenças levam 40% da produção global. É evitável.
O World Vegetable Center em Taiwan e o Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo no México, ambos com participação norte-americana na fundação, desenvolveram um arroz tolerante a cheias e milho tolerante à seca. Cada dólar ali rendeu dez em produtividade, custos e preço final. A própria matéria acrescenta que sofrem hoje de deriva de missão e acumulação burocrática.
A China gasta o dobro dos Estados Unidos em investigação e desenvolvimento agrícola público. Patentes e publicações disparam de um lado, estagnam do outro. Em 2019, Pequim investiu para assegurar a liderança da FAO. A disputa já não é por toneladas, é pela norma, pelo sítio onde se decide o que conta como prioridade, como se mede a fome, como se partilha a semente.
Os Estados Unidos são um dos maiores exportadores agrícolas do mundo, instrumentais na fundação da FAO e do Programa Alimentar Mundial, historicamente o seu maior doador. Durante décadas tiveram a agenda de desenvolvimento mais ambiciosa, com apoio público. No início de 2026, maioria forte dizia que deveriam ser o líder moral, maioria forte não acreditava que o fossem. Em meados de 2025, o Congresso retirou quase 8 mil milhões de dólares em fundos de assistência externa. Um doador relutante, membro crispado de organizações-chave.
A matéria propõe reforçar sistemas de alerta precoce e trocar contribuições voluntárias ad hoc por compromissos plurianuais pré-planeados para a emergência alimentar. O sistema atual vive de sustos e promessas. Sem financiamento previsível, o alerta torna-se ornamental. Os números que abrem o texto nem sequer incluem o que pode vir com preços de energia e fertilizantes em alta, quebras de exportação de grãos da Rússia e Ucrânia e El Niño a intensificar-se.
Em Gaza, no Sudão e na Ucrânia ficou demonstrado que é preciso proteger o acesso a alimentos, garantir entrada humanitária, proteger infraestruturas agrícolas e proibir o uso da fome como arma. A comida como cerco. Proibições súbitas de exportação de cereais por exportadores repetem a mesma lógica fora da guerra. Quem fecha a fronteira para baixar o preço interno exporta a escassez para quem compra. Um agricultor no outro hemisfério deixa de saber o que semear.
O Tratado sobre Recursos Fitogenéticos para a Alimentação e Agricultura foi desenhado para que sementes e tecidos circulassem livremente entre investigadores. Está a falhar. Investigadores acham a partilha de benefícios demasiado cara, países em desenvolvimento acham-na demasiado escassa. Menos pedidos, menos partilhas. O comum genético, de onde saem variedades mais produtivas, resilientes e nutritivas, fica parado por litígio de desenho. A Comissão do Codex Alimentarius, que fixa orientações de segurança alimentar com impacto no comércio, é descrita como lenta, subfinanciada e controversa. Mesmo com tecnologia, a porta de entrada no mercado fica entupida.
Se perder 3,5 biliões custa mais do que alimentar, se 40% da colheita pode ser salva e se um dólar nos centros certos rende dez, a pergunta já não é como produzir mais. Quem desinveste 8 mil milhões depois de ter construído a FAO e o Programa Alimentar Mundial e fundado centros que dão dez por um, e continua entre os maiores exportadores, troca previsibilidade por falta dela. Enquanto for lida como fatalidade climática ou técnica, a fome fica contabilizada como perda inevitável. Lida como desmontagem, torna-se escolha.





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