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Cimeira BRICS 2026: Índia e China reabrem o jogo

há 2 dias
6 min de leitura

Nova Deli, 12 de setembro de 2026. Narendra Modi esperava Xi Jinping à entrada do Bharat Mandapam. À chegada ao aeroporto, o Presidente chinês fora recebido pelo ministro de Estado Jitin Prasada; diante das câmaras da Doordarshan, coube ao primeiro-ministro indiano completar a cerimónia. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia chamou-lhe uma «calorosa receção».


Cimeira BRICS 2026: a fronteira deixou de decidir tudo


Era o primeiro dia da 18.ª Cimeira dos BRICS e a primeira visita de Xi Jinping à Índia desde 2019. Entre as duas datas ficara o vale de Galwan.


Em junho de 2020, os soldados indianos e chineses enfrentaram-se no Ladakh com pedras, bastões e armas improvisadas. Houve mortos dos dois lados. O combate, travado entre as duas potências nucleares sem que fosse disparado um tiro, congelou a relação, reforçou a presença militar ao longo da Linha de Controlo Real e tornou cada encontro posterior dependente do que acontecia nos Himalaias.


Seis anos depois, Narendra Modi recebeu Xi Jinping no mesmo recinto onde a Índia acolhera outros chefes de Estado. O lugar permitia-lhe fazer um gesto sem parecer fazer uma concessão: Xi Jinping atravessara a fronteira política; Narendra Modi limitava-se a recebê-lo em casa.


O aperto de mão não resolveu a disputa territorial. Mostrou que a Índia e a China já não aceitavam que uma fronteira por definir tivesse poder de veto sobre toda a relação.


Composição editorial da Cimeira BRICS 2026 sobre a aproximação entre a Índia e a China
A Cimeira BRICS 2026 devolve à Índia e à China espaço para negociarem diretamente, sem resolverem a fronteira nem escolherem entre aproximação e rivalidade. Capa: Atlantic Lisbon.

A mudança não começou em Nova Deli nem nasceu apenas nos Himalaias. Enquanto os dois governos procuravam reduzir o risco de outro confronto, a relação de cada um com os Estados Unidos tornava-se menos previsível. Donald Trump aplicara tarifas aos dois países e convertera o acesso ao mercado norte-americano num instrumento de pressão política. No caso indiano, as compras de petróleo russo passaram diretamente para a tabela aduaneira.


Durante duas décadas, Washington e Nova Deli aproximaram-se por interesse comum em limitar a expansão chinesa. A Índia participou no Quad com os Estados Unidos, o Japão e a Austrália, reforçou a cooperação militar no Indo-Pacífico e foi tratada como o contrapeso asiático que não exigia uma aliança formal.


Essa última característica era indispensável. A Índia queria a parceria norte-americana, não uma política externa entregue a Washington. Conservou a relação com Moscovo, recusou acompanhar todas as prioridades ocidentais e fez da autonomia estratégica uma linguagem de poder.


O segundo mandato de Donald Trump atingiu precisamente essa autonomia. Os Estados Unidos elevaram para 50% as tarifas sobre muitos produtos indianos: 25% de tarifa recíproca e outros 25% como penalização pelas importações de petróleo russo. Em fevereiro de 2026, depois de Nova Deli se comprometer a interromper essas compras e a adquirir mais energia norte-americana, Washington retirou a sobretaxa punitiva e reduziu a tarifa recíproca para 18%.


A descida beneficiou a Índia. A forma como foi obtida deixou-lhe um aviso. Uma relação apresentada durante anos como estratégica passara a incluir uma punição comercial pelas escolhas energéticas de Nova Deli. A tarifa desapareceu; a demonstração de força não.


A Índia não deixara de recear Pequim. Encontrara uma razão adicional para não depender de Washington.


Em agosto de 2025, Narendra Modi viajara para a China pela primeira vez em sete anos, para participar numa reunião da Organização de Cooperação de Xangai. Encontrou-se com Xi Jinping e apareceu ao lado do Presidente chinês e de Vladimir Putin. As imagens dos três dirigentes a conversar circularam como prova de uma recomposição geopolítica.

Narendra Modi com líderes dos BRICS no encontro que antecedeu a Cimeira BRICS 2026
Narendra Modi com dirigentes dos BRICS no Fórum Empresarial de 2026, uma imagem da aproximação diplomática analisada no artigo. Fotografia: Gabinete do Primeiro-Ministro da Índia (PMIndia) — reprodução gratuita com atribuição.

Donald Trump respondeu escrevendo que os Estados Unidos tinham perdido a Índia para a «mais profunda e sombria China». Não tinham. A Índia não abandonara o Quad, não escolhera Pequim como substituto de Washington e não resolvera a fronteira. A reação revelou, contudo, uma diferença essencial: para Donald Trump, a proximidade indiana com a China parecia uma deserção; para Narendra Modi, demonstrava que a Índia continuava livre para se aproximar de quem Washington escolhera como rival.


No Bharat Mandapam, essa liberdade voltou a ser encenada. Receber Xi Jinping não significava confiar nele. Significava que a desconfiança já não bastava para manter a Índia no lugar que os Estados Unidos lhe tinham reservado.

Narendra Modi e líderes internacionais reunidos no Bharat Mandapam durante a Cimeira BRICS 2026
Narendra Modi com os líderes dos BRICS no Bharat Mandapam, em Nova Deli, durante a Cimeira BRICS 2026. Fotografia: Gabinete do Primeiro-Ministro da Índia (PMIndia) — reprodução gratuita com atribuição.

A fronteira deixou de decidir tudo


O degelo ganhou forma em outubro de 2024, quando a Índia e a China chegaram a um acordo sobre as patrulhas em Depsang e Demchok, dois pontos de fricção no Ladakh oriental. O entendimento permitiu retomar as atividades suspensas depois dos confrontos de 2020 e abriu caminho ao recuo das forças em algumas áreas.


Rajnath Singh, ministro da Defesa indiano, apresentou o acordo como resultado de um diálogo diplomático e militar persistente. O texto não fixava a fronteira, não eliminava reivindicações incompatíveis nem repunha a confiança anterior a Galwan. Impedia que duas zonas disputadas continuassem a bloquear todas as outras.


Resolver a fronteira exigiria que um dos países cedesse território ou abandonasse uma reivindicação apresentada como parte da soberania nacional. Administrá-la permite adiar essa escolha.


Para a China, uma fronteira mais estável reduz a pressão junto do Tibete e de Xinjiang e evita a dispersão de recursos enquanto Pequim enfrenta os Estados Unidos no Pacífico. Para a Índia, diminui o risco de acumular uma frente ativa com a China, a pressão permanente do Paquistão e a competição naval no oceano Índico.


Estas vantagens não exigem confiança. Basta que o custo de prolongar a hostilidade ultrapasse o benefício político de a exibir.


A relação da China com o Paquistão permanece uma barreira estrutural. Pequim fornece equipamento militar, investimento e apoio diplomático a Islamabad. Nova Deli aprofunda as relações de defesa com os Estados Unidos e com outros países interessados em limitar o poder chinês no Indo-Pacífico. Os dois governos aliviaram a tensão na fronteira sem abandonar as políticas que a tornam perigosa.


O acordo de outubro de 2024 não produziu uma reconciliação. Retirou à disputa territorial o direito de suspender o resto.


A tarifa que ficou depois de baixar


A economia torna a aproximação necessária e revela a sua desigualdade. O excedente comercial da China com a Índia atingiu cerca de 116 mil milhões de dólares em 2025. A indústria indiana continua dependente de componentes, máquinas e matérias-primas chinesas, incluindo bens intermédios utilizados na produção farmacêutica, eletrónica e de equipamentos solares.


Depois de Galwan, Nova Deli proibiu dezenas de aplicações chinesas, entre elas o TikTok, restringiu o investimento vindo da China e submeteu novas participações a controlo político. As medidas reduziram a presença direta de empresas chinesas, mas não eliminaram a dependência das fábricas indianas.


A Índia começou, entretanto, a admitir uma flexibilização. Em vez de devolver às empresas chinesas o acesso de que dispunham antes de 2020, poderá permitir participações minoritárias e joint ventures em setores nos quais precisa de tecnologia, capital ou componentes chineses. A política procura separar a dependência industrial da liberdade chinesa para adquirir ativos estratégicos indianos.


Os Estados Unidos atravessam esta escolha mesmo quando não participam nas negociações. Pretendem que a Índia integre cadeias de abastecimento alternativas às chinesas, mas a indústria indiana não consegue substituí-las com a rapidez exigida. Querem também uma Índia forte diante de Pequim e, ao mesmo tempo, mostraram-se dispostos a aplicar tarifas de 50% para condicionar a origem do petróleo comprado por Nova Deli.


Pequim oferece os componentes de que a Índia necessita, mas mantém a pressão militar nos Himalaias e uma relação profunda com o Paquistão. Washington oferece tecnologia, defesa e acesso ao seu mercado, mas demonstrou que pode converter esse acesso numa punição.


Nova Deli tem diante de si duas dependências e procura impedir que alguma delas se transforme em domínio.


Para Xi Jinping, o benefício é concreto. A China enfrenta restrições tecnológicas, tarifas e uma competição prolongada com os Estados Unidos. Uma relação menos hostil com a Índia reduz a probabilidade de uma frente asiática inteiramente alinhada com Washington. Pequim não precisa de afastar Nova Deli dos Estados Unidos; basta tornar mais difícil que a Índia aceite o papel de contrapeso que Washington lhe atribui.


Yun Sun, do Stimson Center, observou que a China pode interpretar a abertura indiana como uma forma de ganhar tempo enquanto Nova Deli espera por opções melhores depois de Donald Trump. Pequim também ganha tempo: alivia a tensão com um rival regional sem alterar a relação com o Paquistão, abandonar as reivindicações territoriais ou corrigir o desequilíbrio comercial.


A aproximação permite que cada país prossiga a competição com menos risco e mais alternativas.


Os BRICS oferecem o palco adequado. A organização permite à Índia cooperar com a China, a Rússia, o Irão, o Brasil e outras potências sem converter essa cooperação numa aliança. Narendra Modi pode receber Xi Jinping e manter o Quad. Xi Jinping pode defender a multipolaridade e conservar tropas nos Himalaias. Vladimir Putin pode aparecer ao lado dos dois sem que nenhum deles tenha de escolher Moscovo contra Washington.


Essa contradição ajuda a explicar a utilidade dos BRICS para países que não querem trocar uma dependência por outra.


Em Nova Deli, a fronteira continuou por resolver, o desequilíbrio comercial não desapareceu e a rivalidade no Índico permaneceu intacta. Ainda assim, Xi Jinping regressou à Índia e Narendra Modi recebeu-o diante das câmaras. Os conflitos mantiveram-se; perderam apenas a capacidade de determinar todas as escolhas seguintes.


No final da cerimónia, Narendra Modi encaminhou Xi Jinping para o interior do Bharat Mandapam. A fronteira permaneceu onde estava. A conversa prosseguiu sem esperar por ela.


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