top of page

Luís Montenegro e o melhor desempenho económico da Europa?

há 1 dia
5 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Luís Montenegro subiu à tribuna da Assembleia da República na tarde de terça-feira, 8 de setembro, para responder a uma moção de censura apresentada pelo Chega. Não abriu com Luís Neves, o ministro que estava na origem da iniciativa. Falou de impostos e de emprego. Depois afirmou: «Portugal tem o melhor desempenho económico da Europa.»


O melhor desempenho económico da Europa depende do indicador


As fontes consultadas não reproduzem da mesma forma a continuação da frase. O Polígrafo registou «o melhor crescimento do emprego da Europa»; a Euronews escreveu «o maior crescimento do emprego na Europa» e antecedeu a declaração de «Enquanto alguns sonham com demissões». Nenhuma das versões foi confrontada com uma gravação ou transcrição oficial do debate. No essencial, ambas atribuem a Montenegro duas proclamações: Portugal lideraria o desempenho económico europeu e também o crescimento do emprego.


Composição editorial sobre a afirmação de Luís Montenegro acerca do melhor desempenho económico da Europa
Luís Montenegro reivindicou para Portugal o melhor desempenho económico da Europa, mas os dados da Eurostat mostram diferenças entre a evolução do emprego e a do PIB. Capa: Atlantic Lisbon.

Segundo a RTP, esta foi a trigésima sexta moção de censura apresentada a um Governo português desde 1976. Apenas uma foi aprovada: a que derrubou o governo de Cavaco Silva, em 1987. A iniciativa do Chega surgiu na sequência da polémica relativa à atuação de Luís Neves enquanto diretor nacional da Polícia Judiciária e da recusa do primeiro-ministro em exonerá-lo.


O resultado estava decidido antes de começar o debate. O PS, o PCP, o Bloco de Esquerda e o JPP abstiveram-se. O PSD, o CDS-PP, a Iniciativa Liberal, o Livre e o PAN votaram contra. Só os sessenta deputados do Chega aprovaram a moção.


A moção caiu. A afirmação sobre a economia ficou por esclarecer.


O «Desempenho económico» não corresponde a um indicador estatístico definido. A expressão pode incluir o produto interno bruto, o emprego, o investimento, as contas públicas, o rendimento ou a produtividade. Montenegro não disse qual deles estava a usar, que período considerava ou sequer qual era o universo geográfico da comparação. Falou da Europa, não da União Europeia nem da Zona Euro.


O emprego e o PIB são, ainda assim, os indicadores mais próximos do que disse. Foram também os dois divulgados pela [Eurostat a 7 de setembro](https://ec.europa.eu/eurostat/en/web/products-euro-indicators/w/2-07092026-ap), um dia antes do debate.


No segundo trimestre de 2026, o número de pessoas empregadas em Portugal aumentou 1,0% em relação ao trimestre anterior. Foi a maior subida entre os Estados-membros da União Europeia com dados disponíveis, à frente da Chéquia e de Malta, ambas com 0,9%. Nesta comparação, Montenegro tem razão.


Os números demonstram que Portugal liderou o crescimento trimestral do emprego na União Europeia, não necessariamente em toda a Europa. A liderança também desaparece quando se muda o período de comparação. Em termos homólogos, confrontando o segundo trimestre de 2026 com o mesmo trimestre de 2025, o emprego cresceu 2,2% em Portugal. Malta registou 4,4% e Espanha 2,3%. Portugal ficou em terceiro lugar entre os Estados-membros.


É um resultado favorável nas duas comparações. Só numa delas é o melhor.


Gráfico da Eurostat sobre o emprego usado para avaliar o melhor desempenho económico da Europa
Portugal liderou o crescimento trimestral do emprego na União Europeia, com uma subida de 1,0%. Gráfico: Eurostat. © União Europeia, 2026 — reutilização ao abrigo da licença CC BY 4.0.


No PIB, Portugal não aparece em primeiro lugar em nenhuma das leituras. Em relação ao trimestre anterior, a economia portuguesa cresceu 0,8%, o mesmo que Chipre. Seis Estados-membros apresentaram valores superiores: Irlanda, com 10,2%; Eslovénia, com 1,8%; Lituânia, com 1,7%; Suécia, com 1,6%; Malta, com 1,1%; e Polónia, com 1,0%. Portugal ficou em sétimo lugar entre os vinte e seis países da União Europeia com valores publicados. O Luxemburgo não apresentava dados na tabela.


Gráfico da Eurostat sobre o crescimento do PIB que enquadra a alegação de melhor desempenho económico da Europa
Portugal cresceu 0,8% em cadeia no segundo trimestre de 2026, ficando atrás de seis Estados-membros. Gráfico: Eurostat. © União Europeia, 2026 — reutilização ao abrigo da licença CC BY 4.0.


Se a comparação for limitada à Zona Euro, como fez o [Polígrafo na sua verificação](https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/mocao-de-censura-luis-montenegro-repete-portugal-tem-o-melhor-desempenho-economico-da-europa/), a Suécia e a Polónia deixam de contar por não usarem a moeda única. Portugal sobe para o quinto lugar, ainda empatado com Chipre. Em nenhum dos universos ocupa o primeiro.


A Irlanda constitui um caso à parte. A subida trimestral de 10,2% é atribuída por analistas citados na imprensa ao peso e aos resultados extraordinários das multinacionais tecnológicas e farmacêuticas instaladas no país. A Eurostat publica o valor, mas não estabelece essa causa na comunicação de 7 de setembro. Mesmo sem a Irlanda, Portugal continuaria sem liderar.


A variação homóloga do PIB conduz ao mesmo resultado. A economia portuguesa cresceu 2,5% relativamente ao segundo trimestre de 2025. Dez Estados-membros apresentaram valores superiores: Malta, com 5,0%; Eslovénia, com 4,8%; Dinamarca, com 4,6%; Lituânia e Polónia, ambas com 3,8%; Chipre e Suécia, ambas com 3,3%; Letónia, com 3,0%; Bulgária, com 2,8%; e Espanha, com 2,7%. Portugal ficou em 11.º lugar.


Na Zona Euro, sete países ficaram à frente: Malta, Eslovénia, Lituânia, Chipre, Letónia, Bulgária e Espanha. Portugal ocupou o oitavo lugar.


Em julho, parte da imprensa apresentou Portugal como o país com a terceira maior subida homóloga entre os Estados então incluídos na comparação. Os dados mais completos publicados em setembro já não sustentavam essa posição.


Isto não basta para concluir que Montenegro mentiu. Seria necessário demonstrar que conhecia a falsidade do que dizia e decidiu comunicá-la. Os dados permitem avaliar a declaração; não permitem determinar a intenção de quem a fez.


O [Polígrafo classificou a afirmação como falsa](https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/mocao-de-censura-luis-montenegro-repete-portugal-tem-o-melhor-desempenho-economico-da-europa/), depois de alargar a comparação à produtividade e à inflação. Se a análise se limitar ao emprego e ao PIB, a conclusão exige outra precisão. «Desempenho económico» não tem uma métrica definida e, por isso, não pode ser inteiramente confirmado nem reduzido a um único número. O emprego lidera apenas na comparação trimestral da União Europeia; o PIB não lidera em nenhuma das comparações consideradas.


A frase junta, portanto, um resultado verificável: o primeiro lugar no crescimento trimestral do emprego na União Europeia, a uma conclusão que vai além desse dado. A certeza da primeira parte prolonga-se sobre a segunda, embora esta não tenha um critério declarado nem suporte equivalente.


Chamar-lhe amplificação política, em vez de falsidade estatística simples, é uma classificação editorial. Não favorece o Governo nem a oposição. Se o primeiro-ministro entende que Portugal tem o melhor desempenho económico da Europa, falta saber quais são os indicadores, os países e o período em que baseia a afirmação.


A moção de censura discutia Luís Neves, a sua permanência no Governo, a confiança nas instituições e o pedido do JPP para uma comissão parlamentar de inquérito. Depois de evitar o assunto na abertura, Montenegro defendeu o ministro, garantiu-lhe «confiança total e plena» e descreveu-o como «excelente», com «aptidão» e «competência» comprovadas.


José Luís Carneiro, líder do PS, respondeu à referência aos salários, não à classificação do PIB ou do emprego. Horas depois, a moção foi rejeitada. Ficou por saber o que Luís Montenegro estava a medir quando disse que Portugal tinha o melhor desempenho económico da Europa.



Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page