Lula vence a eleição. O poder continua em disputa
Atualizado: há 2 dias
O presidente brasileiro conquistou um quarto mandato, mas o PL terá as maiores bancadas do Congresso. Governar exigirá acordos sobre medidas, prioridades e financiamento.
Luiz Inácio Lula da Silva venceu Flávio Bolsonaro na segunda volta das presidenciais brasileiras, em 25 de outubro de 2026, e conquistou um quarto mandato. Com a contagem praticamente concluída, obteve cerca de 51,8% dos votos válidos, contra 48,2% do adversário, segundo os resultados divulgados pela Justiça Eleitoral.
Recuperou de uma primeira volta em que terminara atrás: foi a primeira inversão dessa posição numa segunda volta presidencial desde a redemocratização, assinalou a Agência Senado.
Lula ganhou a Presidência. O Partido Liberal (PL), de Flávio Bolsonaro, conquistou as maiores bancadas nas duas câmaras do Congresso. O mesmo processo eleitoral que garantiu a continuidade do presidente reforçou uma força política adversária nos órgãos de que depende parte importante da ação governativa.
Lula precisará de aliados no Congresso
O PL elegeu 121 deputados para uma Câmara com 513 lugares. No Senado, terá 28 dos 81 lugares. São bancadas que lhe dão influência considerável, embora nenhuma constitua, por si só, uma maioria.
Lula precisará de construir acordos; os seus adversários também precisarão de aliados para transformar a dimensão das suas bancadas em decisões. É neste intervalo que se jogará o quarto mandato. A negociação poderá permitir aprovar medidas, mas poderá igualmente alterar o seu alcance, os seus destinatários ou o calendário de execução.
Uma promessa social pode sobreviver no nome e perder dimensão no orçamento. Pode também reunir apoios para além da esquerda, se os seus benefícios forem politicamente relevantes para deputados de outros partidos. O resultado não determina antecipadamente qual destas possibilidades prevalecerá.
O que já foi aprovado e o que falta cumprir
Na reta final da campanha, Lula apoiou-se em medidas e compromissos dirigidos a dificuldades concretas: o rendimento das famílias, as dívidas e o tempo de trabalho. A avaliação do próximo governo terá de distinguir o que já foi decidido das propostas que ainda precisam de aprovação.
O Bolsa Família já tivera um reajuste anunciado para outubro. A redução da jornada semanal, sem perda salarial, foi incluída numa emenda constitucional promulgada em 16 de outubro, com aplicação gradual. Neste caso, o desafio passa pela execução de uma alteração já aprovada, não pela aprovação inicial de uma promessa.
Cada medida coloca problemas próprios. Manter ou aumentar uma prestação exige financiamento e uma definição dos beneficiários. Aliviar dívidas obriga a decidir quem suporta o custo e como evitar que as famílias regressem rapidamente ao incumprimento. Aplicar a redução da semana de trabalho exige acompanhar atividades com condições muito distintas.
A questão política será saber quanto dos seus compromissos Lula consegue preservar nas decisões do próximo mandato. Invocar a resistência do Congresso poderá explicar uma derrota legislativa. O mesmo critério de responsabilidade deve valer para os parlamentares: quem defender uma redução da despesa terá de identificar os serviços, os apoios ou os investimentos atingidos. Quem exigir novas despesas terá de responder pelo seu financiamento.
A participação ajuda a explicar a vitória, mas não basta
A abstenção na segunda volta ficou próxima dos 19%, segundo os dados apresentados pela Agência Senado. A afluência às urnas merece atenção numa disputa que Lula começou em desvantagem. Ainda assim, o resultado nacional não permite identificar sozinho quem regressou às urnas, em quem votou ou por que razão o fez.
Uma recuperação entre duas voltas pode combinar transferências de votos de candidatos eliminados, alterações na participação e mudanças de preferência. A mobilização final da campanha é uma parte relevante da história. Transformá-la numa explicação completa exigiria dados adicionais.
O acesso às urnas e a disputa sobre os procedimentos
O acesso às secções de voto tornou-se uma questão central no próprio dia da eleição. Houve queixas relacionadas com transportes e chuvas. Uma decisão de Cristiano Zanin, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), permitiu prolongar a votação até às 19h00, hora de Brasília, nos locais onde as urnas ainda estavam abertas. As urnas já encerradas não foram reabertas.
O princípio a proteger é simples: uma dificuldade material de deslocação não deve decidir quem consegue exercer o direito de voto. A aplicação desse princípio exige decisões fundamentadas, critérios coerentes e informação clara para eleitores e responsáveis pelas mesas. As controvérsias sobre o procedimento devem ser examinadas pelos meios próprios. Não demonstram, por si, uma alteração ilegítima do resultado.
Lula venceu uma disputa difícil e impediu o regresso da família Bolsonaro à Presidência. O resultado merece ser reconhecido na sua dimensão política. Mas os cerca de 48,2% obtidos pelo adversário também impedem que se trate o campo derrotado como uma força residual ou se atribua uma única motivação a todos os seus eleitores.
O desafio do presidente será governar este país dividido e responder às necessidades que apresentou como prioridade. Isso inclui negociar com adversários, respeitar a oposição e tornar compreensíveis as escolhas feitas em nome dos seus compromissos sociais.









Comentários