Pamela Harriman: os milhões, o poder e a disputa familiar
Atualizado: há 14 horas
Sonia Purnell atribui a Pamela Harriman uma intervenção importante na política transatlântica. Numa recensão de abril de 2026, Azadeh Moaveni contesta a leitura dos documentos que sustenta essa influência.
Quanto poder tinha Pamela Harriman?
Quando Bill Clinton anunciou a intenção de nomear Pamela Harriman embaixadora em França, em março de 1993, a Casa Branca incluiu no comunicado a sua participação na campanha Clinton-Gore. Mencionou também os anos em que presidira ao Democrats for the ’80s, o comité de angariação de fundos conhecido como PamPAC.
Os encontros promovidos por Harriman juntavam candidatos, especialistas e doadores. Num perfil publicado pela Time em julho de 1993, Martha Duffy descreveu lugares pagos a mil dólares e apontou para perto de 12 milhões de dólares angariados no contexto dessa atividade.
Christopher Ogden, autor de uma biografia de Harriman, escreveu na mesma revista em 1997 que o comité reunira dez milhões. Atribuiu ainda mais de três milhões a um único dia de angariação para Clinton, em 1992, na propriedade de Middleburg, na Virgínia. Nenhum dos dois artigos discrimina as receitas de modo a permitir uma comparação dos totais.
Em setembro de 1994, já embaixadora, Pamela foi processada em Nova Iorque por descendentes de Averell Harriman. Acusavam-na, juntamente com consultores financeiros, de ter desperdiçado 30 milhões de dólares em investimentos imprudentes.
Outra ação, na Virgínia, alegava empréstimos a ela própria ou a empresas que controlava e pedia a sua substituição na administração dos fundos. O advogado de Pamela, Michael Helfer, contestava a iniciativa, que descrevia como mais uma tentativa de obter pagamentos para os herdeiros.
O acordo anunciado em dezembro de 1995 encerrou os processos contra ela através de uma redistribuição de bens familiares. A notícia da Associated Press indicava que Pamela e os herdeiros prosseguiriam conjuntamente certas reclamações contra outros intervenientes. Os termos financeiros eram confidenciais. As acusações não ficaram estabelecidas por uma decisão judicial apresentada nessa notícia.
Em Kingmaker, Sonia Purnell regressa à Londres da Segunda Guerra Mundial para investigar a intervenção de Pamela nas relações entre britânicos e americanos. Num excerto publicado em 2024, a autora explica que muito do que Harriman fez foi mantido em segredo por ela ou ignorado pelos outros. Os seus papéis estiveram fechados, outros documentos classificados e alguns dos amigos sobreviventes mostravam-se relutantes em falar.
Sonia Purnell descreve quatro anos de investigação em Inglaterra, nos Estados Unidos e em França. Invoca novos documentos, cartas, diários e transcrições de entrevistas para rever um percurso que, segundo ela, fora reduzido às relações de Pamela com homens influentes.
Pamela exercia parte dessa atividade em conversas e encontros privados, sem um cargo que produzisse um registo oficial do seu trabalho. Para reconstituí-lo, a investigação depende também da correspondência e dos testemunhos de quem a conheceu. O alcance político desses contactos é precisamente o que divide Purnell e Moaveni.
Na London Review of Books, Moaveni reconhece que a biografia incorpora material novo dos papéis de Harriman na Biblioteca do Congresso. Contesta, porém, as conclusões retiradas pela autora.
Segundo a reconstrução de Purnell descrita na recensão, Churchill queria que Roosevelt aceitasse reparar navios de guerra britânicos em portos americanos; Pamela defendeu essa pretensão; Averell Harriman acabou por convencer o presidente. Purnell atribui a Pamela um papel na obtenção do resultado. Moaveni considera que a ligação foi construída por inferências e limita a sua intervenção à de informadora útil.
A dificuldade documental invocada por Purnell justifica procurar nos arquivos privados o trabalho que não aparece nos comunicados. No caso dos navios, a sua leitura exige ainda estabelecer como a intervenção atribuída a Pamela chegou à decisão de Roosevelt. Moaveni admite a existência de novos papéis; continua a discordar do que a biógrafa entende ter encontrado neles.







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