Quem é Abdulmalik al-Houthi, o líder invisível dos Huthis
Atualizado: há 2 dias
Ninguém vê Abdulmalik al-Houthi em público há anos. Não há fotografias recentes fora das gravações divulgadas pelo movimento, nem confirmação independente do lugar onde vive. Quem o estuda à distância suspeita de que se encontra algures numa rede de túneis e grutas nas montanhas de Saada, a província do norte do Iémen onde nasceu e onde o movimento tem as suas raízes.
Como Abdulmalik al-Houthi transformou os Huthis
Esta semana, as decisões tomadas sob o seu comando voltaram a atingir as instalações petrolíferas sauditas, a navegação no mar Vermelho e o estreito de Bab al-Mandeb. A escalada contribuiu para levar o petróleo aos níveis mais elevados desde meados de maio.

Mohammed al-Basha, fundador da consultora de risco Basha Report, descreve uma transformação. Al-Houthi comunica através de longas mensagens em vídeo, gravadas sem que se saiba onde nem quando. Segundo al-Basha, tornou-se um «megalómano», cada vez mais isolado do exterior, mas «acredita genuinamente que vai libertar a Palestina».
O movimento foi fundado pelo irmão, Hussein al-Houthi, nos anos 90, a partir de uma leitura radical do zaidismo, o ramo do xiismo predominante no norte do Iémen. A sua doutrina era profundamente antiamericana, anti-israelita e pró-palestiniana.
Durante anos, os Huthis foram tratados pelos países vizinhos e por muitos analistas como uma força tribal de alcance limitado. Eram combatentes das montanhas, mal instruídos, reconhecíveis pelas roupas tradicionais e pelas sandálias usadas em vez de botas militares.
Hussein morreu às mãos das forças do Estado, em 2004. Abdulmalik recebeu então o comando de uma insurreição perseguida e com poucos meios. Ao longo das duas décadas seguintes, transformou-a numa força disciplinada, endurecida em combate e ideologicamente coesa.
Combateu o regime de Ali Abdullah Saleh em várias guerras. Durante a Primavera Árabe de 2011, os Huthis aproximaram-se dos manifestantes e de grupos da oposição que procuravam afastar Saleh. Durante algum tempo, foram vistos por parte dessa oposição como defensores de uma população cansada de esperar por mudanças políticas.
Em 2015, uma coligação árabe liderada pela Arábia Saudita interveio no Iémen para repor o governo deposto. Riade receava que o Irão ganhasse um aliado junto à sua fronteira meridional. A guerra acabou por aproximar Teerão dos Huthis, que passaram a receber treino, armas e tecnologia iranianos.
Um antigo diplomata chamou-lhe uma «profecia autorrealizada», porque a relação com o Irão ainda estava a formar-se quando começou a intervenção. A Arábia Saudita ficou presa numa guerra dispendiosa, marcada por anos de bombardeamentos e pela resistência dos Huthis.
Depois do ataque do Hamas a Israel, em outubro de 2023, o movimento intensificou as operações. Disparou mísseis e drones contra Israel e atacou navios no mar Vermelho, alegando agir em solidariedade com os palestinianos. Os Estados Unidos e Israel responderam com bombardeamentos, sem conseguirem forçar o fim dos ataques.
Donald Trump classificou o grupo como organização terrorista. Mais tarde, elogiou publicamente a sua «bravura» e a capacidade de «resistir ao castigo», quando os Estados Unidos suspenderam a campanha de bombardeamentos.
Em julho, al-Houthi reacendeu a guerra com a Arábia Saudita. Os Huthis bloquearam portos do reino e atacaram petroleiros sauditas. Na semana passada, lançaram vagas quase diárias de mísseis e drones contra as instalações petrolíferas, avançaram ao longo da costa iemenita do mar Vermelho e aumentaram a pressão sobre o estreito de Bab al-Mandeb, uma das principais passagens marítimas do comércio mundial.

A ofensiva reforçou a posição de al-Houthi no chamado eixo da resistência apoiado pelo Irão. Analistas iemenitas que acompanham o movimento sustentam, contudo, que ele não recebe ordens de Teerão.
Os ataques servem também objetivos internos. Os Huthis procuram obrigar Riade a aceitar um acordo para a guerra nos seus próprios termos, numa altura em que aumenta a pressão económica no norte do Iémen, território sob o seu controlo. Exigem concessões sauditas e procuram transformar a capacidade de atingir a navegação e as instalações petrolíferas numa vantagem negocial.
«É absolutamente movido por uma agenda interna, porque os Huthis querem acabar a guerra nos seus próprios termos», afirmou um antigo diplomata.
O mesmo diplomata considera que al-Houthi tem «uma noção bastante clara da sua vantagem, militar e política». Essa avaliação acompanha a descrição de um dirigente cada vez mais isolado, que governa sem exposição pública e comunica através de gravações produzidas pelo próprio movimento.
Não se sabe onde Abdulmalik al-Houthi vive nem em que condições toma as decisões. Conhecem-se os seus efeitos: ataques no mar Vermelho, pressão militar sobre a Arábia Saudita, perturbações no Bab al-Mandeb e oscilações no preço do petróleo.





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