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Robin Morgan: o feminismo e a disputa pelas palavras

15 de set.
4 min de leitura

Há uma frase de Robin Morgan que resume, melhor do que qualquer resumo da sua obra, o instrumento com que trabalhou a vida inteira: «Não vou chamar “ela” a um homem.» Disse-a em 1973, como oradora principal de uma conferência lésbica na Costa Oeste, a propósito de uma cantora trans que atuava no evento.


Décadas depois, essa frase tornou-se a etiqueta que uma nova geração da política de género lhe colou em vida: «radical feminista trans-excludente». Em 2024, perguntada sobre o episódio, respondeu sem hesitar que os direitos das pessoas trans são direitos humanos. Depois fez uma pausa, suspirou e acrescentou: «É complicado.»


Composição editorial sobre Robin Morgan, o feminismo e a linguagem política.
Robin Morgan fez da linguagem um campo decisivo da luta feminista, onde nomear também significa disputar poder.

Durante mais de meio século, Robin Morgan fez da recusa da ambiguidade uma forma de intervenção política. Escreveu «a pornografia é a teoria, a violação é a prática», cunhou o termo «herstory» e reivindicou parte do crédito por «o pessoal é político». As três fórmulas dependem da convicção de que as palavras têm consequências e de que chamar uma coisa pelo nome errado pode ajudar a mantê-la no lugar.


Em 1973, essa convicção não lhe deixou espaço para hesitar. Em 2024, deixou.


A insistência em nomear com exatidão tem uma origem que a própria Robin Morgan resistia a discutir. Antes de ser a mulher que interrompia homens em público para lhes apontar o nome, foi uma criança apresentada ao público antes de ter idade para escolher sê-lo. Aos cinco anos, tinha um programa semanal de rádio com o seu nome no título. Pouco depois, entrou numa série de televisão sobre uma família de imigrantes noruegueses, empurrada para a modelagem infantil pela tia e gerida por uma mãe que se tornou uma stage mother implacável. Deixou a representação ainda adolescente, contra a vontade da mãe, para se tornar escritora.


Anos mais tarde, durante uma participação no programa de Johnny Carson, Morgan discutia o tema da violação quando começaram a ser exibidas imagens suas em criança. Levantou-se e saiu do estúdio em direto. «Imaginem falar de um assunto destes e vê-lo trivializado assim», disse depois.


Mulheres transportam faixas numa marcha feminista em Washington em 1970
Marcha de Libertação das Mulheres, Washington, 1970. Manifestantes percorrem Washington em defesa da igualdade de direitos. A mobilização pertence ao mesmo ciclo histórico em que Robin Morgan ajudou a fixar o vocabulário político do feminismo norte-americano. Fotografia: Warren K. Leffler. Library of Congress, LC-DIG-ppmsca-03425. Domínio público; sem restrições conhecidas à publicação.


O episódio reaparece de outras formas na sua vida pública. Em 1968, Robin Morgan ajudou a organizar um dos primeiros protestos contra o concurso Miss América. Centenas de mulheres atiraram para um caixote do lixo soutiens, espartilhos e rolos de cabelo, objetos convertidos em símbolos de uma «escravatura» que Robin Morgan conhecia também pelo lado do espetáculo.


Dois anos depois, publicou num jornal alternativo de Nova Iorque um texto que nomeava homens concretos como sexistas. Chamava a Charles Manson «apenas o extremo lógico da fantasia normal do homem americano». As ameaças de morte vieram de ativistas da própria contracultura. «Chamaram-lhe o tiro que ecoou por toda a Esquerda», contaria depois.


Robin Morgan e o feminismo atravessaram décadas de mudança. O que acontece quando a precisão das palavras deixa de oferecer respostas simples? Robin Morgan e o feminismo atravessaram décadas de mudança. O que acontece quando a precisão das palavras deixa de oferecer respostas simples? Robin Morgan e o feminismo atravessaram décadas de mudança. O que acontece quando a precisão das palavras deixa de oferecer respostas simples?Morgan não concedia à esquerda uma inocência automática em matéria de poder masculino. Se encontrava sexismo entre homens que se apresentavam como libertadores, escrevia os nomes.


Editou Sisterhood Is Powerful em 1970, uma antologia que reuniu as vozes do feminismo de segunda vaga e cujos direitos de autor financiaram, mais tarde, um fundo de apoio a projetos feministas. Dirigiu a revista Ms. durante cinco anos a partir de 1989, devolvendo-lhe a independência editorial ao livrá-la da publicidade. Em 2006, disse a um jornal britânico que ela e as mulheres da sua geração «estavam fartas de fazer café e não políticas». Em 2008, regressou a Goodbye to All That, desta vez para escrever sobre a misoginia dirigida a Hillary Clinton. O texto circulou tão depressa quanto o primeiro havia circulado décadas antes.


Mulheres e homens atrás de um cartaz de apoio à libertação das mulheres em Nova Iorque
Homens pela libertação das mulheres, Nova Iorque, 1970. Mulheres e homens participam na primeira Marcha pela Igualdade das Mulheres em Nova Iorque. A imagem mostra como a disputa feminista pelas palavras também procurava redefinir alianças, papéis e identidades políticas. Fotografia: Bernard Gotfryd. Library of Congress, LC-DIG-ds-04449. Domínio público; sem restrições conhecidas à publicação.


A menina transformada em espetáculo, a candidata a Miss América transformada em ideal de mulher, a militante obrigada a tolerar o sexismo dos companheiros porque existiam combates considerados mais importantes, uma revista feminista dependente de anunciantes, uma candidata presidencial julgada por critérios que Morgan considerava diferentes dos aplicados aos homens. Em momentos muito diferentes, Morgan procurou retirar estas situações das palavras que as tornavam normais.


Durante décadas, a operação funcionou: encontrar aquilo que estava escondido e dar-lhe um nome.


A frase de 1973 pertence ainda a esse mundo de certezas. Para Robin Morgan, chamar «ela» a quem considerava um homem seria aceitar que a linguagem deixasse de corresponder à realidade que julgava estar a nomear.


Meio século depois, a pergunta regressou alterada. Os direitos das pessoas trans, respondeu, são direitos humanos. Quando a conversa chegou à frase antiga, Robin Morgan não a retirou. Também não a repetiu.


Mulheres negras e brancas marcham pela ratificação da Emenda dos Direitos Iguais em 1977
Marcha pela ratificação da ERA, Nova Iorque, 1977. Mulheres negras e brancas marcham pela ratificação da Emenda dos Direitos Iguais. A tensão entre igualdade jurídica, identidade e linguagem atravessou as sucessivas vagas do feminismo analisadas no percurso de Robin Morgan. Fotografia: Bernard Gotfryd. Library of Congress, LC-DIG-ds-04450. Domínio público; sem restrições conhecidas à publicação.


Fez uma pausa.


«É complicado.»


Nada no seu percurso sugere uma mulher especialmente inclinada a refugiar-se nessa resposta. Talvez por isso aqueles segundos sejam mais reveladores do que uma retratação teria sido. A exatidão continuava a importar-lhe; já não lhe dava, sozinha, uma resposta.


Aos 77 anos, quando lhe perguntaram o que dizia às mulheres mais novas que lhe pediam conselho, respondeu: «Arranjem a vossa própria tocha. Ainda não acabei com a minha.»


Não lhes pediu que pegassem na dela.



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