Ronaldo e a Seleção: a quem pertence a camisola?
Na zanga entre Ronaldo e a Seleção Nacional, todos contam perdas e ganhos. Ninguém pergunta a quem pertence aquilo que está em causa.
Há uma contabilidade a correr desde quarta-feira. Quanto perde a Federação sem o capitão, quanto perde o capitão sem a Federação, quanto vale um patrocínio, quanto vale um palco. Cada lado faz as suas contas, e nenhuma pergunta a quem pertence a camisola.

O jogador recebe-a por convocatória e devolve-a no fim do jogo. O selecionador manda na equipa, mas o símbolo não está sob o seu comando. A Federação administra-a e fatura-a, e tem-na há mais tempo do que qualquer dos que hoje lá trabalham. Junto ao Dragão há cartazes de apoio a Ronaldo e contra Jorge Jesus, e quem os instala fala da camisola como de um aval que se concede ou se retira.
Ronaldo e a Seleção Nacional: empréstimo, não posse
A marca que leva o nome de Ronaldo passou por Manchester, Madrid, Turim e Riade sem mudar de dono. Acompanhou-o de clube em clube, de camisola em camisola. Quem calcula o que ele perde sem a Seleção parte do princípio de que a camisola nacional é mais uma plataforma deste género, e uma plataforma aluga-se.
Esta é emprestada por convocatória, e só por o ser continua a valer alguma coisa. Se pudesse comprar-se, o que se comprava já não seria a camisola. Quanto lhe custaria ficar sem ela, não sei, e não vi ninguém demonstrá-lo com números. Uma conta que começa por tratar a camisola como plataforma já decidiu o que queria concluir.

O peso de ser símbolo
Ronaldo tem quarenta e um anos. Depois da conferência de imprensa de Jorge Jesus em Copenhaga e de uma conversa com o presidente da Federação, deixou o estágio e disse que contaria a verdade a seu tempo. Ainda não sabemos o que o levou a decidir. Sabemos que, no sábado, o selecionador voltou a chamar-lhe símbolo de Portugal.
Em Portugal, chamar símbolo a alguém é a maior homenagem possível. É também uma maneira de não lhe fazer perguntas, porque um símbolo não tem de explicar o que faz. Fica a figura, que se defende ou se castiga, e a pessoa de quarenta e um anos que tomou uma decisão passa para segundo plano.
A camisola da Seleção não pertence a Ronaldo, ao selecionador ou à Federação. Nenhum deles tem o direito de a confundir consigo. Pertence também a quem nunca entrou num estádio, a quem não gosta de futebol e a quem ainda não nasceu. É por isso que representar Portugal exige aceitar que o lugar passa e a camisola fica. O que cada um fez por ela merece reconhecimento. Não lhe dá a posse.
A Seleção já passou por Eusébio e por Figo, e nenhum deles foi tratado como dono dela. O que um jogador pode perder nela é o lugar.




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