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Rússia cedeu ao Irão mísseis C430L a troco de drones Shahed

3 de set.
3 min de leitura

Há décadas que a Rússia recusava ao Irão o acesso à propulsão ramjet. O programa que agora a transfere em segredo chama-se C430L e tem um objetivo preciso: ajudar Teerão a dominar o sistema que permite a um míssil de cruzeiro manter voo a várias vezes a velocidade do som.


Capa editorial em tons escuros com mapa-mundo em baixo-relevo e silhueta desfocada de drone em voo, com texto branco ao centro: Rússia cedeu ao Irão mísseis C430L a troco de drones Shahed, por baixo Atlantic Lisbon
Programa secreto C430L: investigação do Financial Times revela como a Rússia transferiu para o Irão tecnologia de mísseis ramjet recusada durante décadas a troco de drones Shahed para a guerra na Ucrânia. Imagem: Atlantic Lisbon

Uma investigação do Financial Times conduzida desde 2023, com base em correspondência divulgada, registos de viagens e análise de patentes iranianas, documentou a transferência. Não houve comunicado oficial. O Kremlin, a Rosoboronexport, a NPO Mashinostroyeniya e o governo iraniano não responderam aos pedidos de esclarecimento.


O C430L é um programa de transferência de conhecimento para que o Irão consiga construir e operar o motor que torna possível um determinado tipo de míssil de cruzeiro. Ao contrário de um míssil balístico, que segue uma trajetória balística depois do impulso inicial, um míssil de cruzeiro com ramjet mantém o voo sustentado a velocidade supersónica. Peritos militares citados na investigação dizem que esta classe de motor serve sobretudo dois fins: mísseis antinavio e mísseis de ataque terrestre.


No Golfo, são os porta-aviões e outros navios de guerra dos Estados Unidos. Jim Lamson, antigo analista da CIA para o dossiê iraniano e hoje no James Martin Center for Nonproliferation Studies, resume o resultado prático como um sistema de armas qualitativamente novo, capaz de ameaçar navios da Marinha dos Estados Unidos.


O Irão já construiu e testou variantes do sistema de propulsão ramjet, mas não há informações de que um míssil de cruzeiro assistido pela tecnologia russa tenha sido efetivamente tratado. O que está documentado é a fase de transferência. Os registos de viagens mostram responsáveis russos de exportação de armamento e engenheiros da NPO Mashinostroyeniya a deslocarem-se repetidamente a Teerão antes de novembro de 2023, quando o contrato foi assinado formalmente dentro do Ministério da Defesa e Logística das Forças Armadas do Irão.


Fabian Hinz, analista de mísseis iranianos no Conflict Armament Research, sublinha o ponto que distingue este caso: esta é tecnologia que a Rússia recusou transferir ao Irão durante décadas, e um programa deste tipo só avança com autorização política do topo do Kremlin.


Durante anos, Moscovo manteve a tecnologia guardada porque um Irão com mísseis de cruzeiro supersónicos operacionais fica mais difícil de controlar, mais imprevisível nas suas relações com o Golfo e com Israel. A recusa prolongada era um instrumento para limitar a autonomia do parceiro e a escala do conflito na região.


Foi o Irão que forneceu à Rússia os drones Shahed que se tornaram a peça central da guerra contra a Ucrânia. A cronologia do C430L insere-se dentro da janela em que Moscovo já dependia da indústria de drones iraniana para sustentar a sua guerra.


Quando Teerão precisou de apoio para enfrentar Israel, foram os responsáveis ucranianos e ocidentais que assinalaram a assistência russa em imagens de satélite e apoio com drones durante o conflito. A relação deixou de ser unidirecional.


O que existe é uma transação. A Rússia precisava de drones para manter viva a guerra na Ucrânia. O Irão precisava de sair da dependência exclusiva dos mísseis balísticos, cuja tecnologia já domina, e ter acesso a uma capacidade que só um punhado de potências possui.


O Irão, ao receber o C430L, fica menos dependente de Moscovo, não mais leal. Para um patrocinador que quer manter algum controlo sobre a escala do conflito na região, é uma contrapartida contraintuitiva, mas foi a que a necessidade de sustentar a guerra na Ucrânia tornou possível.


Na terça-feira desta semana, à margem da cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, no Quirguistão, Vladimir Putin apertou a mão a Massoud Pezeshkian e garantiu-lhe que o povo russo estava solidário com o povo iraniano na defesa dos seus interesses. É a frase que os chefes de Estado trocam para as câmaras.


Nos últimos anos, a Rússia tornou-se de facto mais solidária com o Irão do que em qualquer outro momento da relação entre os dois países. Depois de anos a receber drones iranianos, pagou de volta com a única coisa que, até agora, sempre guardara para si. O programa continua em fase de transferência de conhecimento, sem desdobramento operacional comprovado.



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