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Saramago e Stockton: quem decide o que pode ser publicado?

3 de out.
3 min de leitura

Atualizado: há 11 horas

Saramago foi excluído de uma candidatura literária por um critério religioso declarado. Em Stockton, a retirada de uma mensagem académica deixou por esclarecer quem decidiu e porquê.



Em abril de 1992, António Sousa Lara retirou O Evangelho Segundo Jesus Cristo da candidatura portuguesa ao Prémio Literário Europeu. O romance já estava nas livrarias. O subsecretário de Estado da Cultura considerava que ofendia convicções religiosas de muitos portugueses e que, por isso, não devia representar o país. Saramago soube da decisão através de um jornalista, antes de receber confirmação oficial.


Capa de Saramago e Stockton: um homem lê um livro aberto enquanto uma mão apaga texto num computador, entre colunas clássicas.
Saramago e Stockton: um romance excluído de uma candidatura literária e uma mensagem retirada de uma página universitária. Ilustração gerada com inteligência artificial para o Atlantic Lisbon.

Em José Saramago: o Governo vetou o Evangelho, Sousa Lara intervém num ponto preciso da circulação do livro: a escolha dos títulos que Portugal apresentaria a um prémio europeu. Não ordenou a retirada de exemplares nem impediu a publicação. Recusou ao romance uma candidatura que dependia do Governo. Saramago acusou-o, e ao Governo de Aníbal Cavaco Silva, de censura.


Havia uma seleção a fazer, mas Sousa Lara justificou a exclusão pelas convicções religiosas dos portugueses. A qualidade literária ficou fora desse fundamento. O romance tomava uma narrativa religiosa conhecida e submetia-a à liberdade da ficção; os leitores podiam contestá-lo, como já acontecia. Ao considerar que essa divisão impedia o livro de representar Portugal, o governante fez da reação de parte dos leitores um critério de escolha oficial.


Em junho, O Evangelho Segundo Jesus Cristo recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. No ano seguinte, Saramago instalou-se em Lanzarote com Pilar del Río. O veto pesou nessa decisão, embora o retrato não reduza a mudança a um único episódio. Continuou a escrever em português e recebeu o Nobel da Literatura em 1998, depois de publicar outros livros. Nenhum desses acontecimentos devolveu o romance à candidatura de 1992.


A mensagem de Raz Segal estava publicada numa página do mestrado em Estudos do Holocausto e do Genocídio da Universidade de Stockton. Segal, diretor do programa, classificava como genocídio a atuação de Israel em Gaza. John F. Scarpa escreveu ao presidente da universidade, Joe Bertolino, contestando a apresentação dessa classificação como facto e perguntando se correspondia à posição oficial da instituição.


Stockton University apaga um texto sobre Gaza acompanha o que aconteceu depois: a área de Relações e Marketing anunciou uma revisão da página e dos procedimentos de aprovação dos conteúdos institucionais. Pouco depois, a mensagem desapareceu. A universidade invocou a necessidade de uniformizar os materiais destinados ao público.


Scarpa prometera oito milhões de dólares à fundação de Stockton em 2019, o maior donativo da sua história. Dois centros da universidade passaram a ter o seu nome. Não está documentada uma ordem sua para retirar a mensagem, uma ameaça pública de cortar financiamento ou um acordo associado à decisão. A carta antecedeu a revisão e a retirada; a informação disponível não permite ir além dessa sequência. Cabia à administração explicar como avaliara a intervenção de Segal depois de receber a objeção do doador.


A mensagem estava assinada pelo diretor de um programa dedicado ao estudo do genocídio. A sua presença no domínio da universidade exigia cuidados editoriais, incluindo a distinção entre a posição do autor e uma declaração oficial de Stockton. Scarpa levantara uma pergunta que podia ser respondida na própria página. A administração podia esclarecer a autoria, pedir fontes ou acrescentar uma nota sobre o alcance da afirmação.


Também era necessário distinguir uma classificação académica de uma decisão judicial final. A peça situa a posição de Segal num debate académico e jurídico e reconhece que os pronunciamentos citados não substituem uma sentença do Tribunal Internacional de Justiça. Esse enquadramento permitiria ao leitor perceber em que termos a afirmação era feita. Stockton retirou a mensagem completa, sem explicar por que razão uma precisão ou uma nota seriam insuficientes.


Sousa Lara deixou um fundamento que podia ser examinado: o romance ofendia convicções religiosas e, no seu entendimento, não devia representar Portugal. A contestação de Saramago dirigia-se a essa razão e ao uso que o governante fizera da sua competência. Em Stockton, continuam por identificar quem avaliou o conteúdo, a norma aplicada e a participação dos responsáveis académicos.


A referência à uniformização das páginas não esclarece se foi encontrada uma incorreção, se faltava separar a voz de Segal da posição institucional ou se a universidade decidiu excluir aquela classificação do seu site. Cada hipótese exigiria uma explicação diferente. Sem saber qual delas orientou a retirada, também não se sabe o que o autor teria de corrigir para que a mensagem pudesse permanecer publicada.

Composto em outubro de 2026


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