Tung Chee-hwa, primeiro líder de Hong Kong leal a Pequim
Tung Chee-hwa, o homem que herdou uma lealdade antes de a poder escolher
A dívida da família Tung com Pequim é anterior a qualquer voto, juramento ou discurso sobre autonomia. É nessa ordem dos factos, não no balanço de oito anos de mandato, que se lê o desenho real de “um país, dois sistemas”.
Há uma imagem de 1996 que resistiu ao tempo melhor do que a maior parte do que se escreveu sobre Tung Chee-hwa. Jiang Zemin, então presidente da China, destacou-o de entre uma delegação de Hong Kong e apertou-lhe a mão durante mais tempo do que o protocolo pedia. A televisão estatal chinesa mostrou o gesto em destaque. Meses depois, um comité de seleção de quatrocentos membros, a esmagadora maioria alinhada com Pequim, confirmou o que aquele aperto de mão já tinha anunciado: Tung seria o primeiro chefe executivo de Hong Kong depois da retrocessão.
O gesto interessa mais do que a escolha em si. A legitimidade de Tung não nasce de um eleitorado a decidir entre candidatos; nasce de ser visto a ser escolhido por quem já detém o poder de escolher. “Um país, dois sistemas” apresentava autonomia, mas a autoridade de que Tung dependia estava noutro lugar desde o início.

No início da década de 1980, durante uma recessão global do transporte marítimo, a Orient Overseas, armadora fundada pelo pai de Tung, Tung Chao-yung, acumulou uma dívida superior a 2,6 mil milhões de dólares. Uma parte substancial de um resgate de 120 milhões veio de empresas ligadas ao continente chinês. Quando Tung chegou, catorze anos depois, ao cargo mais alto de Hong Kong, essa dívida estava, tecnicamente, saldada. Politicamente, nunca esteve.

Chris Patten, o último governador britânico de Hong Kong, descreveu-o como maleável. Via nele uma mistura de indecisão e teimosia, um homem incapaz de perceber a tempo o preço político das próprias decisões. Mas a palavra supõe uma vontade que se dobra sob pressão presente. Tung chegou ao cargo com uma relação já formada, contraída por outra geração, e herdou-a do mesmo modo que herdara a empresa. A questão nunca foi apenas se era leal a Pequim. Era também saber se lhe tinha sido oferecida a possibilidade de não o ser.
Os anos que se seguem costumam ler-se como uma sucessão de desastres que Tung não soube gerir: a crise financeira asiática rebentou no dia seguinte à sua tomada de posse, os preços da habitação afundaram-se durante mais de seis anos, a SARS matou quase 300 pessoas em Hong Kong, perto de 40 por cento das mortes mundiais da doença, e a cidade registou ainda os primeiros casos documentados de gripe aviária H5N1 em humanos. Regina Ip, que dirigiu como secretária para a Segurança a tentativa falhada de legislação em 2003, resume a defesa em substância: ele foi apenas infeliz, vítima de uma conjuntura que não escolheu.
A frase não é falsa. Mas nenhuma destas crises testou apenas a capacidade de Tung para governar. Testaram se Hong Kong toleraria um arranjo em que a autoridade vem de Pequim e as consequências caem sobre o homem colocado à frente da cidade.
O plano de Tung para aumentar a construção de habitação foi pensado para tornar Hong Kong menos dependente de um mercado imobiliário estreito e caro. Produziu um excesso de oferta que derrubou os preços durante mais de seis anos. Em 2003, mais de um em cada cinco apartamentos valia menos do que a hipoteca que o pagava. A política que devia render-lhe apoio junto de quem não tinha casa própria custou-lhe a confiança de quem já a tinha. Os governos seguintes restringiram tanto a construção que a habitação em Hong Kong se tornou, para a maioria, praticamente inacessível. O efeito dessa decisão continuou muito depois da saída de Tung.
Em julho de 2003, meio milhão de pessoas saiu à rua contra o pacote de leis de segurança que Tung tentava aprovar, leis que teriam permitido banir qualquer organização ligada a uma organização já proibida em Pequim. O governo recuou. Durante uns meses, pareceu que a parte de “dois sistemas” da fórmula ainda tinha peso real: a oposição pública mudou, de facto, uma política. Tung nunca recuperou popularidade suficiente para sobreviver a esse recuo e demitiu-se dois anos antes do fim do segundo mandato, invocando a saúde.
A mesma ideia de legislação de segurança regressou dezassete anos depois, sob outra liderança. Em 2020, não houve recuo. A retirada de 2003 deixou de parecer prova de que o sistema funcionava; foi o último momento em que a oposição pública ainda conseguiu alterar o resultado.

Antes de tomar posse, em 1996, Tung pediu unidade a Hong Kong: “a nossa sociedade tornou-se demasiado politizada nos últimos anos”. Lida hoje, a frase não soa a queixa sobre um excesso temporário de protesto. Qualquer território a quem se promete liberdade dentro da soberania de outro acaba, mais cedo ou mais tarde, demasiado politizado para alguém, porque política é o que uma população faz enquanto ainda acredita que discordar pode mudar um resultado.
Depois de sair do cargo, em 2005, Tung passou quase duas décadas — mais tempo do que o próprio mandato — como vice-presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês. A partir de 2014, fundou a Our Hong Kong Foundation, dedicada a defender e a explicar a mesma fórmula que se tinha desfeito à sua frente. No comunicado que assinalou a sua morte, o gabinete de ligação de Pequim em Hong Kong descreveu-o como um contribuidor notável para “um país, dois sistemas”. Tung parece ter acreditado até ao fim na fórmula que serviu. A sua utilidade para perceber o que lhe aconteceu está aí, não numa eventual traição à fórmula.
Em 2017, a Cosco Shipping, conglomerado estatal chinês, comprou a Orient Overseas por 6,3 mil milhões de dólares; a família Tung recebeu mais de 4 mil milhões. A empresa que uma geração antes tinha sido salva com capital ligado ao continente acabou comprada, por inteiro, por esse mesmo Estado. Em 2019, já com 82 anos, Tung recebeu uma medalha das mãos de Xi Jinping, em Pequim. Entre o aperto de mão de 1996 e a medalha mudou o cerimonial. A relação já estava definida.
Lisboa reconhece este vocabulário melhor do que a maior parte das capitais europeias. Escreveu uma versão dele, dois anos depois de Hong Kong, quando entregou Macau com a mesma promessa formal: os mesmos sistemas, a mesma vida, durante cinquenta anos. A palavra retrocessão, usada em português para as duas transferências, tem uma honestidade que “handover” não tem: descreve um movimento para trás, não apenas uma mudança de mãos. Quem escreveu essa palavra sabe quanto tempo uma promessa de continuidade consegue durar antes de se revelar apenas isso.
Tung Chee-hwa continua a importar não como o primeiro capítulo fechado de uma história de Hong Kong cujo desfecho já se conhece, mas porque o seu percurso mostra o que acontece a alguém colocado, com sinceridade e sem distância irónica, dentro de uma contradição construída para não se resolver. A fórmula não falhou por falta de pessoas dispostas a acreditar nela.





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