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Toyohiro Akiyama, o jornalista que recusou o guião

há 3 dias
4 min de leitura

Foi o primeiro jornalista no espaço e o primeiro a recusar o guião. Numa altura em que a órbita voltou a ser vendida como redenção, o seu anti-heroísmo continua a ser mais útil do que qualquer épica.


A primeira frase que Toyohiro Akiyama diz do espaço não é sobre o azul da Terra. Amarrado a uma parede para não flutuar, pergunta: “Is this live?”. É repórter até ao fim. Está na Mir há poucas horas, depois de chegar num vaivém coberto de autocolantes da TBS e de outras empresas japonesas, e a única coisa que quer saber é se a emissão está no ar.

Toyohiro Akiyama trabalha como jornalista numa representação do interior da Mir, junto a equipamentos de transmissão.
Em 1990, Toyohiro Akiyama tornou-se o primeiro jornalista a viajar para o espaço e relatou a vida a bordo da Mir sem a transformar em espetáculo.

Em dezembro de 1990, a Tokyo Broadcasting System paga cerca de metade de uma operação publicitária de 35 milhões de dólares para colocar um dos seus na Soyuz TM-11, com dois cosmonautas soviéticos. Akiyama tem 48 anos, úlceras no estômago, motivo pelo qual chega a ser desqualificado entre mais de cem candidatos, e responde à direção com a frase que o define: “Há alguém que tenha trabalhado numa televisão até aos 46 anos e não tenha úlceras?”


É escolhido e segue com Ryoko Kikuchi, a suplente que acabará afastada por uma apendicite aguda uma semana antes do lançamento, para a Cidade das Estrelas, perto de Moscovo. Durante cerca de um ano aprende a voar Soyuz em russo. Os instrutores proíbem levar manuais para casa porque são classificados. Akiyama discute alto até reverterem a ordem. Kikuchi recorda o cansaço de estudar matérias fora da sua área numa língua que não dominam.

Toyohiro Akiyama, o primeiro jornalista e o primeiro japonês no espaço, na missão comercial à estação Mir, em dezembro de 1990.
Toyohiro Akiyama, o primeiro jornalista e o primeiro japonês no espaço, na missão comercial à estação Mir, em dezembro de 1990.

O Japão está no pico económico, antes de três décadas de estagnação. A televisão tem dinheiro, quer palco global e espera um herói nacional. O homem que regressa oito dias depois é alguém que os colegas soviéticos dizem nunca ter visto vomitar tanto.


A reportagem não tem revelações nem meditações sobre o sentido da vida. Akiyama fala de dores de cabeça, de comida insípida, de protocolos complicados de casa de banho, de um cérebro que lhe parece “a flutuar dentro da cabeça”. Confessa que trouxe pouca roupa interior. Leva seis rãs-arborícolas verdes para uma experiência de escolas japonesas e nota que as gordas adoram a ausência de peso. Sente falta de cigarros — tinha deixado de fumar para poder voar, mas o corpo não esquece — e de natto, os grãos fermentados.


A Terra, diz, é “mesmo azul”. Os mares em torno do Japão parecem-lhe “muito lamacentos”, talvez poluídos. O país, visto de cima, está “coberto de musgo”, exceto Hocaido, que lhe parece “alga deliciosa”.


A TBS tem um pico de audiência e depois perde-o. A maior parte das pessoas desliga ao fim de dez minutos. Para animar a emissão, Akiyama mostra o monte Fuji como um ponto branco. Chega a esquecer-se de captar planos previstos porque fica absorvido pelo nascer do Sol e pelas nuvens a passar. Em terra, isso irrita.


Havia também ressentimento. O primeiro japonês no espaço não era Mamoru Mohri, o astronauta profissional treinado no Johnson Space Center, em Houston, cujo voo fora adiado depois da explosão do Challenger, em 1986. Era um repórter de televisão que, ao regressar, jurava não querer voltar: “I don’t particularly want to see it again, it’s not a very fun place”.


Na altura, Akiyama foi arrumado como “space antihero”, o anti-herói espacial sem bravura. A designação falha o essencial. A ideia de direto que lhe permitira conseguir, em Washington, uma entrevista com Ronald Reagan em 1985, quando outros correspondentes estrangeiros falharam, foi a mesma que levou para a Mir: encontrar a realidade em bruto e transmiti-la.

Toyohiro Akiyama entrevista o presidente Ronald Reagan em Washington, a 29 de abril de 1985, enquanto chefe de delegação da TBS.
Toyohiro Akiyama entrevista o presidente Ronald Reagan em Washington, a 29 de abril de 1985, enquanto chefe de delegação da TBS.

Em Londres, na BBC World Service, e depois em Tóquio, ganhara fama de agressivo, capaz de bater o telefone. No espaço não encontrou uma metáfora. Encontrou um local de trabalho onde se dormia mal, a ventilação era má e lhe apetecia fumar.


A órbita voltou entretanto a ser narrada como experiência transformadora para bilionários, com regressos coreografados e frases feitas sobre a fragilidade do planeta. Akiyama não negava a beleza. Em 2021, disse à NHK: “The Earth looked so beautiful from space. I felt a message from nature. The starry sky and the darkness of space — it made me think about how I should live after returning to Earth.”


Não fazia dessa beleza uma obrigação de mentir sobre o que a sustentava.


Depois deixou o jornalismo, foi cultivar shiitake e ensinou agricultura e ética na Universidade de Artes de Quioto. Continuou até morrer, em agosto deste ano, ainda a dar entrevistas sobre o que vira lá em cima. Olhar para a Terra como “mesmo azul” levava-o também à terra lamacenta. O homem que descrevera o Japão como musgo visto do alto acabou por tratar do musgo.


Numa biografia de 1992, Akiyama dizia que se via como um meio para informar sobre a vida no espaço e que não via sentido em deter-se na sua experiência pessoal. “Fundamentalmente, este projeto não foi sobre eu conseguir algo extraordinário. Foi apenas uma questão de sorte.” A viagem não se transformou no mito que a TBS tinha comprado.


O que ficou não foi o primeiro japonês em órbita nem a reportagem que reteve espectadores. Foi alguém que falou de vómitos, dores de cabeça e saudades de tabaco quando se esperava uma lição sobre o infinito. Amarrado a uma parede, queria apenas saber se estava em direto.



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