Gloria Steinem e o feminismo que ganhou um rosto
Atualizado: há 1 dia
Quando a primeira edição autónoma da revista Ms. chegou às bancas, em janeiro de 1972, trazia uma precaução impressa na própria data. O número aparecia como edição da primavera, para que não parecesse velho se demorasse a vender. As trezentas mil cópias desapareceram em oito dias.
Gloria Steinem entre o símbolo e o movimento
Os editores tinham calculado a possibilidade do fracasso. As leitoras responderam com milhares de cartas. Procuravam uma publicação onde as suas experiências fossem tratadas como matéria pública, e não como dificuldades domésticas que cada uma deveria resolver em silêncio.

Uma mulher humilhada no emprego, dependente do salário do marido, impedida de decidir sobre uma gravidez ou agredida dentro de casa podia ser apresentada como alguém a quem acontecera uma desgraça privada. Muitas mulheres a descreverem a mesma experiência obrigavam a outra leitura. O azar tinha regularidade; a intimidade tinha regras que não tinham sido escolhidas por quem vivia submetido a elas.
Gloria Steinem trabalhou sobretudo nessa passagem. O assédio sexual, a violência doméstica, a desigualdade salarial, o aborto, a distribuição do trabalho familiar e a dependência económica começaram a aparecer juntos. Deixavam de ser problemas menores de mulheres incapazes de organizar a própria vida e passavam a dizer alguma coisa sobre uma democracia que prometia igualdade na lei.
Quando Gloria Steinem começou a escrever, uma mulher podia precisar da assinatura de um homem para obter um cartão de crédito ou um empréstimo. Em vários Estados norte-americanos, a violação dentro do casamento permanecia protegida por exceções legais. As revistas femininas ensinavam a conservar um marido, a disfarçar a idade e a preparar refeições. A autonomia não ocupava o mesmo espaço.
O feminismo americano vinha de uma história longa, feita por sufragistas, sindicalistas, intelectuais, socialistas, mulheres negras e organizadoras comunitárias. Algumas tinham formulado argumentos mais radicais e suportado consequências maiores sem alcançarem o reconhecimento comparável. Gloria Steinem conseguiu transportar parte desse pensamento para fora dos lugares onde já era conhecido.
Conhecia os mecanismos da imprensa. A televisão preferia uma pessoa reconhecível a uma estrutura difícil de mostrar; uma frase curta circulava melhor do que uma teoria. Gloria Steinem conseguia ainda entrar nos espaços preparados para rejeitar o feminismo antes de o ouvir. A aparência, a serenidade, o humor e a fluência diante das câmaras contrariavam a caricatura da feminista ressentida e incapaz de atrair homens com que os adversários procuravam desacreditar o movimento.
Os óculos de aviador, o cabelo comprido e a dicção tranquila fixaram-se na memória pública. Gloria Steinem usou a atenção daí resultante para angariar dinheiro, organizar conferências, participar em campanhas e sustentar publicações e grupos de apoio. Apareceu na televisão, escreveu em revistas de grande circulação, falou nas universidades e entrou na política partidária.
Os meios de comunicação fizeram dela o rosto do feminismo. Uma luta construída por milhares de mulheres tornou-se mais simples de apresentar num noticiário ou numa capa de revista. Passou também a ser contada através de uma figura que nunca poderia representar todas as experiências reunidas sob o mesmo movimento.
Dorothy Pitman Hughes acompanhava Gloria Steinem quando o medo de falar em público ainda tornava difícil subir sozinha a uma tribuna. Organizadora comunitária negra, dirigia um centro de apoio a crianças e levava para as discussões feministas as questões da raça, da classe e da maternidade. Uma fotografia de 1971 mostra as duas lado a lado, com os punhos erguidos.
A fotografia tornou-se uma das imagens reconhecíveis do feminismo norte-americano. O nome de Dorothy Pitman Hughes permaneceu muito menos conhecido do que o de Gloria Steinem. A diferença não decorre apenas das decisões de qualquer uma delas. A escolha mediática de uma personalidade central condicionava quem seria identificado como protagonista e quem apareceria sobretudo na condição de acompanhante.
Gloria Steinem procurou alargar o movimento às mulheres negras, trabalhadoras, pobres e lésbicas. Esse esforço afastava-a de feministas que receavam perder aceitação pública se a agenda ultrapassasse as reivindicações das mulheres brancas de classe média. Para algumas críticas, continuava a ser insuficiente. A sua própria centralidade confirmava a dificuldade do feminismo em escapar às hierarquias de raça, classe e projeção pública.
A revista Ms. tornou algumas dessas tensões inevitáveis. O título continha uma reivindicação precisa. “Ms.” identificava uma mulher sem indicar se era casada ou solteira, recusando a obrigação de inscrever o estado civil no nome feminino. A palavra já circulava antes da revista, mas ganhou através dela uma presença nacional.
Aborto, violência, salário, maternidade, sexualidade e poder político apareciam no mesmo espaço editorial. As leitoras já não eram tratadas apenas como consumidoras à procura de um produto, de um corpo ou de um marido melhor. Encontravam leis, instituições e relações que distribuíam o poder de forma desigual.
As trezentas mil cópias vendidas em oito dias mostraram que a procura antecedia a publicação. Faltava um lugar onde pudesse reconhecer-se.
Manter esse lugar exigia capital, publicidade, distribuição e proprietários. Ms. dependia do mercado editorial enquanto publicava textos destinados a alterar a cultura que o alimentava. Enfrentou dificuldades financeiras, mudanças de controlo e discussões sobre as mulheres que representava. O feminismo fragmentava-se e a revista tinha de decidir quais desses conflitos cabiam dentro de uma publicação comum.
Gloria Steinem procurava preservar coligações. Essa disposição aproximava pessoas e instituições que, de outro modo, dificilmente trabalhariam juntas. As feministas mais radicais viam aí uma tendência para moderar conflitos que exigiam ruturas. Algumas mulheres negras consideravam a revista demasiado branca; outras críticas acusavam-na de permanecer próxima das elites e excessivamente dependente da imagem da sua fundadora.
A confiança de Gloria Steinem na intervenção a partir das instituições já aparecera no final da década de 1950. Trabalhou então para uma organização que levava estudantes norte-americanos a festivais internacionais dominados por estruturas comunistas. Mais tarde, tornou-se público que a organização fora parcialmente financiada pela CIA.
Parte da esquerda passou a desconfiar da sua atividade política. Gloria Steinem respondeu que nunca recebera instruções sobre o que deveria pensar, fazer ou dizer. A ligação à CIA permaneceu, ainda assim, na sua trajetória e tornou-se um argumento frequente entre quem via o seu feminismo como demasiado próximo do poder norte-americano.
Ela continuou a trabalhar com partidos, fundações, investidores, empresas editoriais e figuras políticas. Essas relações davam-lhe acesso a meios sem os quais várias iniciativas dificilmente teriam sobrevivido. Também criavam lealdades e compromissos que se tornariam visíveis quando os interesses políticos entrassem em conflito com os princípios defendidos.
Em 1998, perante as acusações sexuais contra Bill Clinton, Gloria Steinem argumentou que determinadas aproximações atribuídas ao Presidente não tinham sido coercivas nem indesejadas. A sua leitura foi considerada indulgente por muitas mulheres. Bill Clinton era um aliado político e ocupava uma posição de enorme poder perante aquelas de quem se aproximara.
Durante as primárias democratas de 2016, Gloria Steinem sugeriu que algumas jovens apoiavam Bernie Sanders porque os rapazes estavam com ele. A frase reduzia escolhas políticas de mulheres mais novas à procura de aprovação masculina. Gloria Steinem pediu desculpa e afirmou ter-se exprimido mal.
O episódio mostrou uma dificuldade própria das gerações que abrem possibilidades para as seguintes. As jovens que beneficiavam de escolhas antes recusadas às mulheres podiam escolher um candidato diferente, contestar as prioridades das pioneiras e considerar insuficientes conquistas que tinham exigido décadas de trabalho.
Gloria Steinem escreveu com maior consistência sobre a autonomia quando a retirou da disputa partidária. Durante grande parte da vida, recusou o casamento e a maternidade porque não aceitava que fossem apresentados como destinos obrigatórios. Ter um útero não obrigava uma mulher a ter filhos, dizia, tal como ter cordas vocais não obrigava ninguém a tornar-se cantor de ópera.
A comparação incidia sobre a possibilidade de escolher. Uma mulher sem dinheiro, sem acesso ao aborto, sem proteção contra a violência ou sem condições para abandonar uma relação podia possuir liberdade formal e não dispor de meios para a exercer.
A autoestima entrou por essa via no seu pensamento. Algumas feministas desconfiaram da aproximação ao território terapêutico. A cultura americana convertia facilmente injustiças em insuficiências pessoais: a mulher não progredia porque lhe faltava confiança, não saía porque ainda não acreditava em si, não suportava o trabalho porque não aprendera a cuidar-se.
Nos textos de Gloria Steinem, a subordinação também atuava dentro da pessoa. As leis, o dinheiro e a violência podiam acabar transformados numa explicação íntima de falta de valor. Recuperar a confiança deveria permitir reconhecer a origem exterior dessa explicação e regressar à ação.
Os círculos de conversa davam-lhe uma forma concreta. Mulheres sentavam-se numa sala e relatavam acontecimentos que julgavam exclusivamente seus. Outras reconheciam-nos. A repetição fornecia um padrão e, a partir daí, tornava-se possível encontrar palavras e organizar uma resposta.
Gloria Steinem chamava a si própria uma empreendedora da mudança social. Via as ideias como trabalho que precisava de organização, meios de comunicação, financiamento e capacidade de circulação. Décadas mais tarde, o vocabulário feminista passou a circular na publicidade, nas empresas, nas redes sociais e nos discursos institucionais. “Empoderamento” começou a vender cosméticos, roupa, cursos, carreiras e estilos de vida. Era possível adotar a linguagem sem alterar a distribuição do poder.
A trajetória de Gloria Steinem permite acompanhar esse percurso. Uma experiência relatada numa sala chegava a uma revista, entrava na televisão e alcançava a política. Depois, algumas das suas palavras regressavam como produtos. A linguagem mudara aquilo que a sociedade conseguia reconhecer; as instituições comerciais também aprenderam a usá-la.
Durante anos, a casa de Gloria Steinem em Manhattan recebeu reuniões, textos em preparação e círculos de conversa. A sua sala não dependia de uma única pessoa a falar. Havia outras mulheres, experiências diferentes e conflitos que nenhuma representante poderia resolver em nome das restantes.
A celebridade de Gloria Steinem ajudou a financiar e proteger espaços como esse. Ao mesmo tempo, facilitou uma narrativa pública em que uma luta plural adquiria uma protagonista principal. A desproporção entre o reconhecimento de Gloria Steinem e o de Dorothy Pitman Hughes ficou dentro da fotografia de 1971, mesmo quando ambas ocupavam o mesmo enquadramento.
A primeira edição de Ms. foi datada da primavera porque alguém receou que permanecesse demasiado tempo por vender. Esgotou-se antes de a estação chegar. As leitoras não precisavam que Gloria Steinem falasse por todas elas. Precisavam de um lugar onde pudessem reconhecer-se e começar a falar umas com as outras.







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