Ultradireita em Espanha: quem decidirá o governo?
Atualizado: há 15 horas
Em Espanha, a disputa pelo poder deixou de depender exclusivamente da capacidade dos dois maiores partidos para conquistar eleitores. O Partido Popular e o PSOE continuam a dominar a competição eleitoral, mas nenhum tem garantias de conseguir governar sem negociar com outras forças. A posição do Vox tornou-se particularmente importante para a direita. O partido de Santiago Abascal procura transformar a influência eleitoral em capacidade de decisão sobre a composição e o programa do futuro governo.
Para o PP, a questão não é apenas ultrapassar os socialistas nas próximas legislativas. É saber que concessões estará disposto a fazer para alcançar a maioria parlamentar com o apoio da ultradireita em Espanha. Isso envolve a orientação da política de imigração, as relações entre Madrid e as comunidades autónomas, os direitos sociais e a posição espanhola em diferentes debates europeus.

A entrada do Congresso dos Deputados, em Madrid, fotografada em setembro de 2026. Ganhar as eleições não garante os votos necessários à investidura. Fotografia: Zarateman. Domínio público, CC0 1.0.
Ganhar as eleições não significa conseguir governar
O sistema parlamentar espanhol exige que o candidato a primeiro-ministro obtenha apoio suficiente no Congresso dos Deputados. Na primeira votação de investidura, é necessária uma maioria absoluta de 176 deputados, num total de 350. Se essa maioria não for alcançada, a segunda votação permite a eleição por maioria simples, desde que os votos favoráveis ultrapassem os contrários.
Nas eleições de julho de 2023, o PP foi o partido mais votado e conquistou o maior número de deputados. Alberto Núñez Feijóo não conseguiu, porém, reunir os apoios necessários para formar governo. Pedro Sánchez permaneceu no poder depois de construir uma maioria de investidura com forças situadas à esquerda e partidos nacionalistas e independentistas. A vitória eleitoral não equivaleu à capacidade de formar governo. A mesma dificuldade poderá repetir-se nas próximas legislativas, sobretudo se o Congresso continuar dividido entre vários blocos. Em França, a disputa sobre o orçamento francês mostra também como a fragmentação parlamentar pode limitar a ação de um governo.

Santiago Abascal, líder do Vox, em Aínsa, em janeiro de 2026. O peso parlamentar do partido poderá condicionar um acordo com o PP. Fotografia: Vox España, recorte de retrato. Domínio público, CC0 1.0.
A ultradireita em Espanha influencia as escolhas do PP
Durante décadas, o PP reuniu diferentes sensibilidades conservadoras, liberais e nacionalistas espanholas. A consolidação de uma força à sua direita introduziu um concorrente capaz de disputar eleitores e condicionar alianças.
O Vox defende uma conceção centralizadora do Estado, políticas mais restritivas de imigração e a revisão de medidas relacionadas com a igualdade de género e a memória histórica. Estas posições distinguem-no do PP em matérias relevantes, embora existam áreas de convergência, nomeadamente na crítica ao Governo socialista e na defesa de determinadas políticas económicas e de segurança.
A relação combina concorrência e dependência. O PP procura conquistar eleitores suficientes para governar sem ficar subordinado às exigências do Vox. O partido de Abascal tem interesse em demonstrar que uma eventual maioria de direita não poderá dispensar a sua participação ou o seu apoio. Quanto mais próximos forem os resultados dos grandes blocos, maior poderá ser o peso negocial de um partido com representação relativamente menor.
As eleições antecipadas mudaram o calendário
A decisão de Pedro Sánchez de convocar legislativas antecipadas para 29 de novembro de 2026 transformou a disputa sobre a sobrevivência do Governo numa campanha eleitoral com consequências imediatas. A convocação ocorreu depois de o executivo não conseguir fazer aprovar medidas destinadas a responder à crise da habitação. A escassez de casas acessíveis, o aumento das rendas e a contestação social passaram a ocupar uma posição central na disputa.
Para Sánchez, a antecipação representa uma tentativa de recuperar a iniciativa política. Para o PP e o Vox, oferece a possibilidade de converter a vantagem registada nas sondagens em maioria parlamentar. A campanha coloca duas questões diferentes: que partido deverá liderar o próximo Governo e que forças serão necessárias para lhe assegurar uma maioria.

Alberto Núñez Feijóo, líder do Partido Popular, fotografado em maio de 2025. A projeção analisada deixa o PP abaixo da maioria absoluta. Fotografia: Partido Popular. Domínio público, CC0 1.0.
As sondagens apontam para uma maioria de direita
A média de sondagens divulgada pela RTVE atribui 137 deputados ao PP e 65 ao Vox. A soma permitiria ultrapassar a maioria absoluta, embora o PP continuasse longe de poder governar sozinho. As projeções apontam igualmente para o enfraquecimento dos socialistas e das forças à sua esquerda.
A evolução eleitoral da ultradireita em Espanha é particularmente relevante. O Vox conquistou 33 deputados em 2023. A projeção de 65 lugares representaria uma quase duplicação da presença parlamentar.
Uma maioria aritmética não determina a composição do executivo. Feijóo poderá procurar um acordo de apoio parlamentar sem integrar ministros do Vox, enquanto Abascal poderá exigir participação governativa em troca de apoio. O resultado dependerá da dimensão da vitória e da força relativa dos dois partidos.

Acampamento contra os despejos e pelo direito à habitação na Puerta del Sol, Madrid, em 28 de setembro de 2026. A habitação ganhou relevo na disputa eleitoral. Fotografia: Zarateman. Domínio público, CC0 1.0.
A habitação tornou-se uma questão decisiva
A crise da habitação introduziu uma dimensão social numa campanha dominada também por imigração, segurança e integridade política. A dificuldade de acesso afeta especialmente jovens, famílias com rendimentos intermédios e residentes nos principais centros urbanos.
O Governo socialista defende maior intervenção pública, incluindo medidas de proteção dos arrendatários e restrições a determinadas práticas especulativas. O PP privilegia o aumento da construção, a disponibilização de terrenos e a redução de obstáculos administrativos. As diferenças traduzem duas interpretações sobre as causas da crise e os instrumentos necessários para a resolver.
A questão poderá influenciar eleitores que não se identificam de forma estável com nenhum dos grandes blocos.
O preço político de uma coligação
A entrada do Vox num governo nacional representaria uma alteração significativa na política espanhola. A ultradireita em Espanha deixaria de exercer influência apenas através da oposição ou de acordos parlamentares e passaria a participar diretamente na definição e execução de políticas públicas.
Para o PP, a possibilidade envolve vantagens e riscos. Uma coligação permitiria formar um executivo com maioria absoluta, mas obrigaria a negociar áreas sensíveis do programa governativo. Para o Vox, a participação no Governo ofereceria acesso direto ao poder, mas implicaria assumir responsabilidades por decisões económicas e administrativas que poderiam contrariar as expectativas dos seus eleitores.
A experiência de acordos entre os dois partidos em comunidades autónomas demonstrou que a convergência eleitoral não elimina divergências na governação. À escala nacional, decisões sobre orçamento, relações europeias e política externa exigem compromissos mais amplos.

O hemiciclo do Parlamento Europeu em Estrasburgo, durante um debate em setembro de 2018. Uma mudança de governo em Madrid também teria consequências europeias. Fotografia: Hann Lans. Domínio público, CC0 1.0.
A Espanha perante uma escolha europeia
Uma eventual mudança de Governo teria consequências para a posição espanhola na União Europeia. O PP pertence à família do Partido Popular Europeu. O Vox integra uma corrente nacionalista e eurocética mais crítica de determinadas políticas comunitárias. Divergências poderão surgir em matérias como imigração, transição energética, política agrícola e integração europeia.
Isso não significa que uma coligação conduza automaticamente a uma rutura com Bruxelas. Espanha mantém compromissos económicos, institucionais e financeiros que qualquer governo terá de considerar. A influência do Vox dependerá das responsabilidades que assumir e da capacidade do PP para estabelecer limites ao programa conjunto.
A questão espanhola insere-se numa transformação política europeia mais ampla: partidos conservadores tradicionais enfrentam a possibilidade de depender eleitoralmente de forças situadas à sua direita. As respostas variam entre países. Em alguns casos, foram formadas coligações. Noutros, optou-se por acordos parlamentares ou pela manutenção de barreiras políticas.
Uma maioria possível, um governo ainda por definir
As eleições de 29 de novembro poderão encerrar o atual ciclo governativo de Pedro Sánchez. As sondagens colocam o PP em posição favorável, mas não dispensam a votação nem resolvem antecipadamente as negociações posteriores.
A principal incerteza já não se limita à possibilidade de a direita conquistar uma maioria. Inclui a forma como essa maioria será utilizada. Feijóo terá de decidir até onde poderá negociar com o Vox sem comprometer a identidade política do PP. Abascal terá de escolher entre exigir participação governativa e preservar a liberdade de atuação que a oposição proporciona.
Os eleitores decidirão a distribuição dos lugares. A composição do Governo dependerá também das escolhas que os partidos fizerem depois de conhecidos os resultados. Espanha poderá sair das eleições com uma maioria parlamentar mais clara do que aquela que sustentou o executivo de Sánchez. Isso não significa que desapareçam as tensões entre os partidos que a constituírem. O peso da ultradireita em Espanha no próximo Governo será medido não apenas pelo número de deputados que conquistar, mas pelas decisões que conseguir determinar.
Fontes:
La Moncloa: convocação eleitoral de 5 de outubro de 2026. Consultar a fonte (lamoncloa.gob.es)
RTVE: média de sondagens publicada em 7 de outubro de 2026. Consultar a fonte (rtve.es)
Decreto de convocação: Real Decreto 806/2026, de 5 de outubro. Consultar o documento oficial (PDF)
Constituição espanhola: artigo 99, regras da investidura. Consultar o texto oficial no BOE




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