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Vida ou economia: o que a fórmula escondeu em 2020

8 de out.
4 min de leitura

Atualizado: há 11 horas

A pandemia pôs o emprego, o rendimento e a saúde sob pressão. A fórmula «vida ou economia» escondia quem pagava cada decisão e os meios que os governos tinham para reduzir esses custos.


Para quem recebia à tarefa ou vendia o suficiente para pagar as despesas do dia, ficar em casa podia significar ficar sem dinheiro para comer. Continuar a trabalhar trazia o risco de infeção, também para as pessoas com quem vivia. Em 2020, esta dificuldade era real. A expressão «vida ou economia» fazia-a parecer uma escolha com duas respostas possíveis: aceitar o contágio ou aceitar a perda de rendimento.


Mas havia decisões entre uma coisa e outra. Pagar um apoio, proteger um posto de trabalho, adaptar um local de atendimento ou garantir condições para cumprir o isolamento alterava aquilo que uma pessoa podia fazer. Esses meios tinham custos e limites. Ficavam fora de uma discussão que começasse e acabasse na escolha entre salvar vidas e salvar a economia.


Aviso de encerramento devido ao coronavírus numa porta de vidro.
Um aviso de encerramento nos Estados Unidos, em 2020. Para muitos negócios, as restrições interromperam as receitas enquanto as despesas continuavam. Fotografia: Bruce Dupree / Alabama Extension. CC0 — domínio público.

Vida ou economia - Quem podia aceitar o risco


Em abril de 2020, o vice-governador do Texas, Dan Patrick, defendeu a reabertura da economia numa entrevista à Fox News. Disse haver coisas mais importantes do que viver e invocou a necessidade de salvar o país para os filhos e os netos. A frase atribuía ao futuro da comunidade um valor pelo qual se poderia aceitar um risco pessoal.


Uma pessoa pode aceitar esse risco para si. A reabertura, porém, abrangia trabalhadores, clientes e familiares que podiam ter outras condições de saúde e outra margem para escolher. Um empregado precisava do salário; alguém com poupanças podia adiar uma compra ou continuar em casa. A decisão política não recolhia apenas a disponibilidade de quem se declarava pronto a correr riscos.


A referência aos filhos e aos netos também não resolvia a discussão sobre os resultados da reabertura. Era preciso saber que atividades se pretendia retomar, com que proteção e com que efeito previsível no contágio. Um argumento sobre o valor do sacrifício não fornecia essas respostas.


No Brasil, Jair Bolsonaro insistiu na fome como consequência das restrições. Em 14 de maio de 2020, criticou as medidas de governadores e autarcas e defendeu a retoma das atividades económicas. A perda de rendimento dava força ao argumento num país onde muitos trabalhadores dependiam de atividades informais.


Para uma família que tinha perdido a receita da semana, pedir que ficasse em casa exigia uma resposta sobre a comida, a renda e as contas. Faltava saber quanto dessa perda podia ser compensado, durante quanto tempo e se o dinheiro chegaria a quem dele precisava.


Vida ou economia - O auxílio mudava as opções


O Brasil criou o Auxílio Emergencial através da Lei n.º 13.982, de 2 de abril de 2020. O apoio inicial de 600 reais mensais, previsto por três meses, destinava-se a pessoas que cumprissem condições de rendimento e de situação profissional, incluindo trabalhadores informais. Não era um rendimento básico universal.


A proposta inicial do ministro da Economia, Paulo Guedes, apontava para 200 reais. O Congresso aprovou o valor de 600 reais e Bolsonaro sancionou a lei. Esta sequência permite discutir a dimensão do apoio que o Governo pretendia oferecer. Não basta para afirmar que o presidente se opôs a qualquer auxílio.


Telemóvel com a aplicação brasileira Auxílio Emergencial ao Trabalhador.
A aplicação do Auxílio Emergencial, fotografada em abril de 2020. O programa introduziu uma transferência de rendimento na discussão sobre as restrições. Fotografia: Leonardo Sá / Agência Senado. CC BY 2.0.

O pagamento podia permitir a alguém recusar uma tarefa, comprar alimentos ou cumprir um período de isolamento. Para avaliar o que conseguiu fazer, era necessário conhecer o montante recebido, a composição do agregado, os atrasos e as pessoas que ficaram de fora. A existência do programa não prova que todas as famílias tenham passado a poder ficar em casa.


Mostra que a falta de rendimento podia ser objeto de uma decisão pública. Apresentar a fome como consequência inevitável de qualquer restrição deixava por discutir o apoio disponível e a escolha de o aumentar ou limitar. Também os custos de fechar uma atividade variavam com a duração e com a ajuda concedida.


Vida ou economia - Deixar o vírus circular


A ideia de alcançar «imunidade de grupo» através da circulação do vírus colocava outra questão. Propunha que um número suficientemente elevado de infeções acabasse por reduzir a transmissão. A sua avaliação exigia conhecer a proteção adquirida, a duração dessa proteção e o número de pessoas que adoeceriam entretanto.


A imunidade de grupo não é uma expressão reservada à vacinação. Designa a proteção indireta que pode surgir quando uma parcela suficiente da população tem imunidade, adquirida por vacina ou por infeção anterior. A Organização Mundial da Saúde explicava esta distinção em 2020 e rejeitava a tentativa de alcançar essa proteção deixando a covid-19 propagar-se: o caminho implicava doença e mortes evitáveis, com incertezas sobre a imunidade e o limiar necessário.


Representação do SARS-CoV-2. Trata-se de uma ilustração científica, não de uma fotografia microscópica. Ilustração: Alissa Eckert e Dan Higgins / CDC. Domínio público; disponibilizada pelo USGS.

A gravidade da infeção, a capacidade hospitalar e a possibilidade de proteger as pessoas mais vulneráveis faziam parte dessa avaliação. Invocar uma proteção futura não permitia dispensar a contagem das consequências do percurso até lá.


As três intervenções pediam respostas diferentes. Patrick falava do risco que considerava aceitável em nome do país. Bolsonaro usava a perda de rendimento para defender a reabertura. A proposta de deixar o vírus circular prometia um efeito sobre a transmissão. Reunidas sob «vida ou economia», pareciam disputar a mesma escolha.


A partir de Lisboa, uma discussão sobre o custo das restrições precisava igualmente de descer aos rendimentos, aos apoios e às condições de trabalho. Para quem podia trabalhar em casa, o problema era diferente do de quem precisava de atender clientes ou deslocar-se todos os dias. Não se podia deduzir a capacidade de cumprir uma medida apenas da concordância com ela.


Em 2020, decidir sobre uma restrição exigia perguntar que risco se procurava reduzir, quem perderia rendimento e como seria compensado. Decidir reabrir exigia explicar a proteção de quem voltaria ao trabalho e as consequências previsíveis para os serviços de saúde. A fórmula não dizia quanto dinheiro chegaria à família que tinha deixado de receber nem em que condições o trabalhador teria de regressar.


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