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- Sefarad no Espelho de Portugal
A presença sefardita não é nota de rodapé — é capítulo fundador da nossa história. Há nomes que, quando pronunciados, soam como um eco mais antigo do que o país que hoje julgamos ser. “Sefarad” é um desses nomes. Não cabe só nos mapas: atravessa-os. É uma palavra que não nasceu connosco, mas que, há muitos séculos, nos escolheu para ser casa — e também para ser ferida. Muito antes de Portugal existir, muito antes até de a cruz cristã assinalar templos e caminhos, já havia hebreus a habitar este território. Vieram com as marés de comércio e risco, quando os portos se enchiam de línguas diferentes e os mercados eram mais vastos do que as fronteiras conhecidas. Vieram com os fenícios, talvez com as sombras de Cartago, talvez com o eco de um acordo entre Salomão e o rei de Tiro, muito antes de a palavra “ibérico” ter nacionalidade. A história guardou-lhes vestígios mínimos — uma pedra gravada, moedas perdidas, orações sobreviventes em português, ditas em sinagogas distantes, como Amesterdão, muitos séculos depois de terem partido à pressa, perseguidos. É sempre assim: a memória dos perseguidos cabe em objetos pequenos, mas resiste mais do que a dos perseguidores. Houve tempos em que aqui encontraram espaço para viver, negociar, estudar, orar — com menos muros e menos fogueiras. E houve depois a viragem, quando a mão que antes os tolerava se fechou em punho. A Inquisição não só dispersou famílias, mas tentou apagar uma parte da própria espinha dorsal cultural que ajudaram a construir. A língua portuguesa ficou com feridas e marcas desse encontro e dessa violência. Ainda hoje, certas expressões que repetimos sem pensar carregam ecos antigos — umas com veneno, outras com cumplicidade involuntária. Mas a relação entre Portugal e os sefarditas nunca foi simples. É uma história feita de proximidade e expulsão, de reconhecimento e negação, de raízes que não se deixam arrancar e de ramos cortados à força. Mesmo quando já eram “outros” no papel, continuavam a ser “nossos” no trabalho, na ciência, nas rotas marítimas, no pensar o mundo para lá do horizonte. A lei de 2013, que abriu a porta da cidadania a descendentes de sefarditas expulsos, foi mais do que um ato jurídico: foi uma admissão pública de que não somos completos sem eles. É uma frase que Portugal disse tarde e a medo, mas que tinha de ser dita. E talvez seja isso que Sefarad nos lembra: que um país é feito não apenas do que quis ser, mas também do que tentou apagar e não conseguiu. Que a identidade é uma herança tanto dos encontros como das fraturas. E que não há espelho limpo sem aceitar as imagens que nele persistem, mesmo as que a história quis estilhaçar. AC Símbolos judaicos, testemunho da presença sefardita em território português. #HistóriaDePortugal #Sefarditas #CulturaPortuguesa #MemóriaColetiva #IdentidadeNacional #Inquisição #Judaísmo
- Vacina contra o melanoma: o anúncio veio antes dos dados
A Moderna e a Merck anunciaram resultados positivos num ensaio com 1.137 doentes com melanoma. A dimensão do benefício, os dados completos de segurança e o efeito sobre a sobrevivência continuam por conhecer. A promessa da intismeran chegou antes dos números A intismeran é produzida a partir das mutações do tumor de cada doente e administrada em combinação com Keytruda. A Moderna e a Merck anunciaram resultados positivos antes de divulgarem os dados completos do ensaio. A Moderna e a Merck anunciaram que um ensaio clínico de fase 3 com uma terapia individualizada de mRNA contra o cancro atingiu os seus principais objetivos. Divulgaram a conclusão, mas não os resultados numéricos que permitiriam avaliá-la. O ensaio INTerpath-001 incluiu 1.137 pessoas com melanoma cutâneo de alto risco, nos estádios IIB a IV, cujo tumor tinha sido completamente removido por cirurgia. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente, numa proporção de dois para um, entre dois grupos. Um recebeu Keytruda, nome comercial do pembrolizumab, associado à intismeran. O outro recebeu Keytruda sem a vacina experimental. Segundo as duas empresas, a combinação produziu uma melhoria estatisticamente significativa na sobrevivência sem recidiva, o objetivo principal do ensaio, e na sobrevivência sem metástases à distância, um dos objetivos secundários. O primeiro indicador mede o tempo entre a distribuição aleatória dos participantes e uma recidiva local, regional ou distante, ou a morte por qualquer causa. O segundo acompanha o aparecimento de metástases à distância ou a morte. O comunicado conjunto da Merck e da Moderna não informa quantas recidivas ocorreram em cada grupo. Também não apresenta a redução absoluta do risco, os valores do hazard ratio, os intervalos de confiança ou a duração mediana do acompanhamento. Refere apenas que uma análise intercalar previamente definida encontrou diferenças classificadas pelas empresas como estatisticamente significativas e clinicamente relevantes. Os resultados deverão ser apresentados num congresso médico internacional e entregues às autoridades reguladoras. Nessa altura, será possível conhecer a distância entre os dois grupos e verificar se o benefício se distribuiu de modo semelhante pelos diferentes tipos de doentes incluídos. Um grupo recebeu Keytruda; o outro, Keytruda associado à intismeran. O pembrolizumab já é utilizado como tratamento adjuvante em determinados doentes com melanoma de alto risco depois da remoção cirúrgica do tumor. O ensaio procurou saber se a introdução da vacina reduzia ainda mais a probabilidade de a doença regressar ou se disseminar. A intismeran não foi avaliada isoladamente. Uma vacina que começa no tumor Depois da cirurgia, uma amostra do tumor é analisada para identificar mutações que possam originar neoantigénios. Estes são marcadores moleculares presentes nas células cancerígenas e ausentes, em princípio, das células normais da mesma pessoa. A informação selecionada é codificada numa molécula sintética de mRNA. Segundo a descrição das empresas, cada tratamento pode incluir instruções correspondentes a um máximo de 34 neoantigénios. Quando o mRNA é administrado, essas instruções são traduzidas pelo organismo e apresentadas ao sistema imunitário, procurando desencadear uma resposta das células T contra as células que transportam os mesmos alvos. O Keytruda intervém através de outro mecanismo. É um anticorpo que bloqueia o recetor PD-1, uma das estruturas envolvidas na contenção da resposta imunitária. Ao interferir nessa via, pode permitir que as células de defesa reconheçam e combatam o tumor com menos restrições. Os alvos fornecidos pela intismeran procuram dirigir essa resposta para as células cancerígenas. Não há uma reserva hospitalar de doses idênticas à qual se possa recorrer. Cada tumor tem de ser analisado, os alvos têm de ser escolhidos e o produto tem de ser fabricado para a pessoa que irá recebê-lo. Dois doentes com o mesmo diagnóstico podem apresentar conjuntos de mutações diferentes, pelo que a vacina produzida para um deles não serve necessariamente para o outro. Este processo foi realizado individualmente para os participantes que receberam a intismeran. A designação do tratamento era a mesma, mas o conteúdo da vacina dependia das mutações encontradas em cada tumor. De menos de vinte doentes a um ensaio de fase 3 A ideia de construir vacinas a partir das mutações de cada tumor não nasceu com este anúncio. Em 2017, investigadores ligados ao Dana-Farber Cancer Institute, à Harvard Medical School e ao Broad Institute publicaram na Nature um pequeno estudo sobre vacinas personalizadas contra o melanoma. Participaram apenas seis doentes, mas os investigadores conseguiram provocar respostas imunitárias dirigidas contra neoantigénios selecionados nos respetivos tumores. Esse trabalho inicial sobre vacinas pessoais contra o melanoma, liderado por Patrick Ott e Catherine Wu, não podia demonstrar eficácia clínica numa população tão reduzida. Mostrou que era possível identificar mutações, escolher alvos e produzir uma vacina capaz de mobilizar células imunitárias contra eles. O INTerpath-001 inscreveu 1.137 participantes. Com esta dimensão, o estudo pôde acompanhar recidivas, metástases e mortes e comparar a evolução dos dois grupos. Nos primeiros estudos, procurava-se sobretudo saber se a vacina podia ser produzida e provocar uma resposta imunitária. O ensaio de fase 3 foi concebido para detetar uma alteração na evolução clínica da doença. O registo público do INTerpath-001 confirma que o ensaio é aleatorizado, duplamente cego e controlado por placebo e por comparador ativo. A intismeran foi administrada de três em três semanas, até nove doses. O Keytruda foi administrado de seis em seis semanas, também até nove ciclos, durante um período aproximado de um ano. O estudo deverá prosseguir para avaliar outros indicadores. Entre eles está a sobrevivência global, sobre a qual não havia resultados públicos no momento do anúncio. Saber que uma terapêutica atrasa a recidiva não permite, por si só, concluir que prolonga a vida. O que o comunicado diz e o que ainda não permite saber A Moderna e a Merck afirmam que não foram identificados novos sinais de segurança e que o perfil da combinação foi semelhante ao observado em estudos anteriores. Não divulgaram, contudo, a frequência e a gravidade dos efeitos adversos, as interrupções do tratamento ou as diferenças registadas entre os dois grupos. O Keytruda pode provocar reações imunitárias graves, embora estas não ocorram em todos os doentes. Com a introdução de uma terapia experimental, será necessário conhecer os efeitos adversos observados e relacioná-los com a redução do risco de recidiva. O comunicado não indica se o benefício foi semelhante em todos os estádios incluídos, se variou consoante as características moleculares dos tumores ou se houve grupos de doentes nos quais a diferença foi pequena ou inexistente. Sem as taxas observadas em cada grupo, também não é possível calcular quantas pessoas teriam de receber a vacina para evitar uma recidiva adicional. A redução absoluta do risco dará a dimensão clínica da diferença. Os intervalos de confiança mostrarão a precisão das estimativas, enquanto a duração do acompanhamento permitirá observar se a distância entre os grupos se mantém. Estas informações não constam do anúncio. O melanoma pode não representar todos os cancros Os melanomas tendem a apresentar uma carga elevada de mutações. Isso aumenta o número de possíveis neoantigénios e, com ele, a possibilidade de encontrar alvos que o sistema imunitário consiga reconhecer. Em tumores com menos mutações ou com mecanismos diferentes de evasão imunitária, a seleção desses alvos pode ser mais difícil. A Moderna e a Merck estão a estudar a intismeran nos cancros do pulmão, da bexiga, do rim e do pâncreas. Estes tumores não partilham o mesmo número ou padrão de mutações, e os neoantigénios disponíveis variam entre doenças e entre doentes. A intismeran também não é uma vacina preventiva. Os participantes já tinham recebido um diagnóstico de melanoma e tinham sido operados. O tratamento foi administrado para tentar reduzir o risco de regresso de uma doença existente, não para impedir que uma pessoa saudável desenvolvesse cancro. O ensaio não incluiu pessoas sem melanoma, doentes com formas iniciais de baixo risco, pessoas cujo tumor não pudesse ser completamente removido ou doentes com outros tipos de cancro. Os resultados pertencem à população efetivamente estudada. Entre um resultado e uma mudança de tratamento A intismeran continua a ser experimental. A combinação com Keytruda ainda não foi aprovada com base neste ensaio, e os resultados completos não foram apresentados à comunidade científica. As autoridades reguladoras terão de examinar os dados sobre as recidivas, as metástases, a sobrevivência, a segurança e a qualidade de vida. Terão também de avaliar a consistência do fabrico, uma vez que o conteúdo da vacina muda de doente para doente. Uma eventual aprovação abrirá outras dificuldades. Será necessário integrar a sequenciação do tumor, a escolha dos neoantigénios e o fabrico individual no intervalo entre a cirurgia e o tratamento adjuvante. O custo, a capacidade industrial e o acesso dos doentes dependerão de um processo que terá de recomeçar sempre que chegar uma nova amostra tumoral. #Melanoma #VacinaContraOCancro #VacinaMRNA #Intismeran #Imunoterapia #Oncologia #InvestigaçãoClínica #MedicinaPersonalizada #Moderna #Merck #AtlanticLisbon
- VINDE A MIM TODOS | Cartoon
A porta de Deus não tem fechadura. A da instituição tem. Banda desenhada: Atlantic Lisbon Banda desenhada da Atlantic Lisbon sobre a recusa de exéquias religiosas a maçons — uma decisão que se toma por norma interna e chega às famílias sob a forma de uma porta. #Cartoon #BandaDesenhada #AtlanticLisbon #IgrejaCatólica #Igreja #Maçonaria
- Maria do Rio e a banca de flores que ainda sabe ouvir a praça
A banca das flores ficava logo à entrada da praça, naquele sítio onde toda a gente passa depressa e, mesmo assim, abranda. Não sei se por causa das cores, se por causa do cheiro húmido dos caules, se por aquela mania antiga de acharmos que uma flor ainda melhora uma casa. Uma jarra com cravos numa cozinha pobre faz mais pela dignidade de um domingo do que muitos discursos bem vestidos sobre a vida das pessoas. Eu ia só comprar maçãs. É sempre assim que começam as pequenas derrotas de uma manhã: “vou só comprar maçãs”, “vou só ver”, “não me demoro”. Depois a praça abre-se, chama por nós sem saber o nosso nome, e, quando damos por ela, estamos a conversar com uma senhora que vende flores como quem conhece a estação certa de cada tristeza. Uma crónica sobre flores, cuidado e a vida comum das praças portuguesas. Chamava-se Amélia, mas quase ninguém lhe chamava Amélia. Para uns era “a menina das flores”, com aquela ternura portuguesa que não pergunta a idade a ninguém. Para outros era “ó florista”, dito à pressa, porque há pessoas que transformam profissões em campainhas. Ela respondia a tudo. Não por submissão. Por prática. Quem trabalha numa praça aprende a escolher onde gasta a paciência. Num vaso gasto e algumas flores simples, a praça guarda aquilo que a cidade apressada quase esquece: o cuidado, a conversa e a atenção aos outros. Tinha as mãos pequenas, firmes, muito gastas de água fria. Cortava caules com uma tesoura antiga, prendia ramos com fio verde e escolhia flores como se estivesse a arrumar uma frase difícil. Ao lado, havia uma banca de queijos. Mais adiante, peixe. Depois, fruta. A praça inteira tinha uma ordem que os centros comerciais nunca conseguiram imitar: primeiro o cheiro, depois a fome, depois a conversa. — Hoje não leva nada? — perguntou-me ela, antes de eu ter tempo de fingir inocência. Disse-lhe que ia só ver. A Amélia sorriu. — Só ver é o que dizem as pessoas antes de levarem alguma coisa que não estavam a pensar comprar. A praça sabe mais de nós do que julgamos. Uma senhora discute o preço das cerejas como se estivesse em causa uma fronteira nacional e, dois minutos depois, pergunta pela neta da vendedora. Um homem resmunga contra o peixe, compra-o na mesma e ainda pede que lhe guardem as cabeças para a sopa. Numa banca compra-se salsa; noutra, deixa-se uma notícia. A Amélia pegou num ramo de gérberas. Vermelhas, amarelas, laranja. Cores sem vergonha. — Estas aguentam bem — disse. — Desde que a pessoa não se esqueça delas. Pareceu-me uma frase sobre flores. Talvez fosse só isso. Há frases que não têm culpa de nos apanhar distraídos. Enquanto me explicava a água, o corte oblíquo dos caules e o sítio onde não convém pôr a jarra, apareceu um rapaz com uma mochila maior do que as costas. Devia ter dez anos, talvez onze. Trazia uma moeda na mão e uma urgência na cara. — Tem uma flor barata? A Amélia baixou-se um pouco. Não fez aquela voz ridícula que alguns adultos inventam para falar com crianças. Limitou-se a ficar mais perto. — Barata para quem? O miúdo olhou para a moeda, depois para as flores. — Para mim. A mulher dos queijos riu-se, sem maldade. A praça também se riu um bocadinho, daquela forma espalhada que não tem dono. — É para a tua mãe? — perguntou a Amélia. — Para a professora. Ela hoje chorou. A frase ficou ali. A senhora do peixe continuou a pesar robalos, alguém escolhia batatas com uma seriedade de ministro, a máquina do café ao fundo soltou vapor. Durante dois ou três segundos, a praça pareceu falar mais baixo. A Amélia não perguntou porquê. Fez bem. Há dores que as crianças trazem na mão e que não pedem interrogatório. Pedem só um embrulho possível. Escolheu um cravo branco, depois outro encarnado. Juntou uma folha verde, enrolou tudo num papel simples e prendeu com fita. — Levas dois. O rapaz abriu muito os olhos. — Mas só tenho isto. — Então pagas um. O outro vai por conta da praça. Ninguém votou a proposta, mas ficou aprovada. A senhora dos queijos fingiu que estava muito ocupada com uma faca. O homem das batatas tossiu. Eu continuei a olhar para as gérberas, sem saber muito bem que cara se faz quando uma coisa pequena nos desarruma. O miúdo saiu com os cravos como quem leva uma missão séria. Caminhava devagar, talvez para não estragar o ramo, talvez porque percebeu que há gestos que não devem chegar depressa demais ao fim. A Amélia voltou às flores. — Há professores que mereciam um jardim inteiro — disse. Depois, olhou para a banca dos queijos e acrescentou: — Outros, pronto, uma ervinha já chegava. A gargalhada começou nos queijos e foi bater às couves. Foi uma gargalhada limpa, sem maldade, daquelas que tiram humidade ao ar. A praça precisava dela. Eu também. Comprei as gérberas, claro. Não por necessidade. Ninguém precisa de gérberas. É essa a sua pequena afronta. Há coisas sem utilidade imediata que tornam a vida menos castigo: flores, livros, bancos ao sol, conversas que não resolvem nada, uma criança que leva cravos a uma professora triste. Tudo muito pouco produtivo, portanto suspeito. Enquanto a Amélia embrulhava o ramo, entrou uma mulher apressada, telemóvel encostado ao ouvido, casaco aberto, cara de quem já tinha perdido a manhã antes das dez. Pediu “qualquer coisa bonita, mas rápida”. A frase devia ir para uma parede. Queremos tudo assim: bonito, mas rápido. Afeto sem demora. Cuidado sem pausa. Cidade sem bancos. Escola sem escuta. Política sem vizinhos. Democracia sem praça. A Amélia escolheu rosas pequenas, margaridas, dois ramos de verde. — É para levar a alguém ou para pedir desculpa? A mulher tapou o telemóvel com a mão. — Nota-se assim tanto? — Minha senhora, nesta banca nota-se tudo. Só não se diz tudo. Ali estava uma parte do país que não entra nas atas. Uma mulher a pedir desculpa com flores porque talvez já não soubesse pedir de outra maneira. Um rapaz a levar cravos a uma professora que chorou. Uma florista a vender ramos e a distribuir pequenas absolvições, sem recibo nem proclamação. Saí da praça com as gérberas encostadas ao peito. No caminho, reparei que muita gente olhava para o ramo. Não para mim, felizmente. Para as flores. As pessoas olham para flores com uma licença íntima, como se lhes fosse permitido desejar, por um segundo, que aquelas cores fossem para elas. Talvez as bancas de flores resistam por isso. Não vendem apenas flores. Vendem interrupções. Metem cor onde a cidade pôs pressa. Fazem perguntas sem ponto de interrogação: há quanto tempo não leva nada a alguém? Há quanto tempo não leva nada para si? Há quanto tempo aceita viver só com o necessário? Em casa, pus as gérberas numa jarra torta. Ficaram bonitas, apesar de mim. Durante a tarde, sempre que passava por elas, lembrava-me do rapaz, da professora, da Amélia, da mulher do telemóvel, da gargalhada que saltou dos queijos para as couves. Uma praça talvez seja isto: um lugar onde o país ainda não desistiu completamente de se olhar nos olhos. #MariaDoRio #PraçasDePortugal #VidaLocal #Mercados #CulturaPopular #PolíticaDoQuotidiano #HistóriasHumanas #Portugal
- A Metáfora Vigiada
Há regimes que não precisam de gritar para serem ouvidos. Basta-lhes ensinar uma população a vigiar as próprias palavras, a medir comparações inocentes, a desconfiar de imagens demasiado livres. Num dos episódios mais reveladores deste relato, um homem olha o fim da tarde e solta uma metáfora banal — o sol parece um ovo estrelado. Em qualquer lugar do mundo isso morreria ali, como morrem as frases ditas só para preencher o silêncio. Aqui, porém, a comparação torna-se prova; a prova, acusação; a acusação, obrigação de escrever meses de autocríticas. O delito não está na intenção, está na liberdade de ter uma imagem. Esse mecanismo — transformar o espontâneo em indício — reaparece em sítios onde ninguém esperaria encontrá-lo: na cantina, na cozinha, na categoria de um vale de refeição, no cartaz colado a uma parede. É uma política do detalhe. Não manda apenas no que se faz; manda no modo como se pensa, no modo como se descreve o mundo, no modo como se escolhe uma palavra em vez de outra. Num edifício de Pequim destinado a acolher “chineses de além-mar”, um casal chega com zelo moral e fé política. O Estado oferece alojamento e refeições, e ainda um subsídio diário para despesas. O casal recusa esse dinheiro. A recusa não é pobreza: é uma tentativa de pureza, uma vontade de provar que vieram para servir uma ideia e não para usufruir de privilégios. E vão mais longe — pedem para descer de “categoria” nos vales de refeição, como quem pede para descer de lugar numa hierarquia, por humildade. A humilhação, aqui, não é uma cena dramática; é uma textura. A diferença entre a categoria alta e a baixa não se mede por discursos, mede-se por pratos. Os legumes mantêm-se; a carne é que denuncia a desigualdade. A virtude, no prato, pode ter o sabor gorduroso e triste de vísceras que ficam na memória como castigo. E o mais estranho é isto: a burocracia aceita a auto-penitência com facilidade. Um sistema que vive de categorias agradece sempre a quem se rebaixa voluntariamente. No mesmo edifício, a cozinha — lugar supostamente imune à política — torna-se palco de acusações. Um cozinheiro é denunciado como “espião” por ter trabalhado num serviço internacional, e um cartaz agressivo cola-lhe uma identidade que não é a sua. Mais tarde, a denúncia cai por falta de prova, e a instituição recupera o homem, porque precisa dele. A lógica é brutalmente prática: a luta ideológica pode entrar no fogão, mas a fome exige competência. Há, no relato, uma figura que atravessa esta paisagem com uma espécie de insistência silenciosa: a mulher que varre o pátio sem levantar os olhos, em ambientes carregados de cartazes e medo. A cena repete-se com pequenas variações, como um motivo musical. Não é um símbolo escolhido; é uma imagem que o próprio texto deixa ficar, sem sublinhado, como se dissesse: o poder gosta de pessoas que não olham para cima. Esta China de cartazes, categorias e autocríticas não anula outra China — a das amizades, dos livros, dos objetos que sobrevivem por acaso e, por isso mesmo, parecem mais verdadeiros do que as narrativas oficiais. O relato passa por um vaso de porcelana: peça que deveria ser presente diplomático, com uma inscrição sobre amizade sino-japonesa. Mas é um vaso “defeituoso”, guardado fora do circuito, salvo precisamente pela imperfeição. Um objecto destinado à vitrine do Estado acaba por viver como relíquia privada, como se a beleza só pudesse existir sem carimbo. Nessa mesma linha, surgem livros e feiras. Num parque de Pequim, uma feira de inverno onde se compram volumes antigos; numa estante, um ensaio de crítica literária; noutro lugar, já longe, numa universidade americana, uma enciclopédia que conserva assinaturas e títulos como quem conserva ossos. O que impressiona não é a erudição em si. É o modo como estas vidas se ligam por coisas pequenas: uma dedicatória, um endereço anotado num caderno, um manuscrito meticuloso, um objeto guardado durante décadas num canto de arrumo. O relato insiste numa ideia discreta: a História também se faz do que sobra. Do que ficou fora do desfile. Do que não foi suficientemente “puro” para ser propaganda — e, por isso, escapou à destruição e à instrumentalização. Há um caderno de notas de um escritor, fino e frágil, com contatos de gente que atravessou o século como se atravessa uma rua perigosa. Nomes, moradas, telefonemas. A intimidade da vida intelectual reduzida a linhas de agenda. E, no entanto, esse caderno é mais revelador do que muitos discursos: mostra redes humanas, dependências, generosidades, pequenas heranças. Mostra que uma cultura não se sustenta apenas em ideias, sustenta-se em pessoas que se lembram umas das outras — e em objectos que passam de mão em mão como se fossem o último fio de ligação. De súbito, o texto abre uma janela para outra geografia: as montanhas do Colorado, uma estrada antiga de tábuas degradadas, restos de uma obra feita por trabalhadores chineses num tempo de febre e deslocação. A imagem funciona como contrapeso: fora da China, a presença chinesa aparece como rastro físico e silencioso; dentro da China, a presença individual pode ser esmagada até não sobrar rastro nenhum. E é então que o relato, sem pedir licença, entra no mundo militar — não com glorificação, mas com memória áspera. Um veterano do sul, marcado por combates, descreve uma batalha em Kunlun com uma precisão que não parece literatura: dias e noites, perdas vastas, sobreviventes contados nos dedos, combate corpo a corpo que ainda hoje arrepia só de ser descrito. Há uma fossa comum. Há visitas posteriores a esse lugar, como quem visita um pedaço de si próprio enterrado com os outros. Depois da guerra, esse homem entra numa zona ainda mais opaca: a proximidade de um líder, a vida de guarda, a travessia de um centro de poder onde quase ninguém entra. O que surpreende é a palavra que o relato lhe atribui para descrever aqueles anos: tranquilidade. Tranquilidade dentro de um núcleo de Estado. A contradição não se resolve; fica a pairar. Talvez seja essa a natureza do poder: pode ser inferno para os de fora e rotina para os de dentro. Há uma fotografia que existe e, ao mesmo tempo, não existe: uma imagem tirada num dos lugares mais exclusivos de Pequim, perdida antes de cumprir o seu destino de prova familiar. A ausência pesa. Porque, quando a memória não tem imagem, fica sempre vulnerável — fácil de negar, fácil de apagar, fácil de reduzir a “história contada”. E, no fim, surge uma cena que poderia ser banal, mas aqui funciona como síntese: um barco num lago público avança até ao ponto em que tem de virar. Não há tempestade. Não há sinal ostensivo. Não há explicação. Há apenas um limite invisível — e a obrigação de regressar. O relato parece dizer-nos que este é o verdadeiro idioma do poder: não é o grito, é o contorno. O cidadão aprende a virar antes da linha, aprende a calar antes da metáfora, aprende a aceitar a categoria, aprende a baixar os olhos quando o cartaz aparece. Só depois de atravessar estes corredores — cantinas, cartazes, cadernos, batalhas, fotografias perdidas, barcos que recuam — o texto regressa a uma outra origem: um homem envelhecido no sul, com um mandarim impecável que o torna estranho onde vive. A infância dele foi uma queda prematura na engrenagem institucional: orfandade, abrigo, tentativa de fuga, castigo desmedido, algemas numa criança. E, dentro desse cenário, uma janela com treino noturno, como se a disciplina pudesse ser, ao mesmo tempo, salvação e instrumento de controlo — depende de quem a oferece e com que intenção. Esse homem transforma o treino em vida, vence competições, forma campeões, tenta dar à sociedade um projeto de artes marciais que é também projeto de dignidade. Depois, volta a ser esmagado pela suspeita política e é deslocado, reduzido, empurrado para um cargo menor. O ciclo repete-se: ascensão por mérito, queda por etiqueta, sobrevivência por silêncio. Na casa dele, ficam armas guardadas como se fossem simples objetos domésticos. Crianças brincam com elas sem perceber. O texto não romantiza: mostra. E, ao mostrar, obriga a ver o que custa mais ver — que, num país assim, a biografia não se escreve apenas com grandes datas. Escreve-se com pequenas humilhações, com categorias de refeição, com cartazes na parede, com metáforas punidas, com um barco que vira quando a água, na verdade, ainda continua. Se há uma “coluna” neste relato, ela não é uma sequência fixa de episódios. É um princípio: o poder entra pela vida quotidiana, instala-se no detalhe e, quando damos por ele, já estamos a virar para trás sem saber exatamente em que momento aprendemos a fazê-lo. Ilustração: Atlantic Lisbon / (imagem original) A Metáfora Vigiada — Atlantic Lisbon #AtlanticLisbon #China #Pequim #Memoria #Poder #Censura #RevolucaoCultural #Historia
- O Silêncio de Junho
Há datas que não envelhecem. Não porque o Estado as repita, mas porque o Estado as evita. Capa editorial para o ensaio “O Silêncio de Junho” (Atlantic Lisbon), sobre a memória interditada de 1989 na China e o silêncio como técnica de governação. Imagem original (Atlantic Lisbon). China: 1989 como método de governo Na China, 4 de Junho não é um feriado, nem um luto, nem uma aula. É uma zona interditada. Um lugar mental onde a linguagem falha de propósito. Um país inteiro aprende, por repetição invisível, que há memórias que não se discutem, nomes que não se escrevem, perguntas que não se fazem em voz alta. O silêncio não é ausência. É técnica. Para compreender a China contemporânea — o crescimento, a disciplina, a campanha anticorrupção, o medo do imprevisível, a obsessão pela estabilidade — é preciso olhar para 1989 não como episódio, mas como viragem estrutural. Não é apenas a história de uma praça e de tanques. É a história de um contrato imposto: prosperidade em troca de desistência. O Ocidente tende a tratar Tiananmen como símbolo moral. E é. Mas, para o regime, Tiananmen é sobretudo uma lição administrativa. A lição não é “reprimir funciona”. A lição é mais subtil: a partir de certo ponto, a fiscalização pública é intolerável. A partir de certo ponto, o Partido não pode aceitar que a sociedade tenha instrumentos para vigiar o poder. Antes de 1989, a China vivia uma tensão: reforma económica, debates internos, abertura parcial, esperança de que a modernização pudesse trazer também reforma política. Havia zonas de respiração. Havia disputas dentro do Partido que se exprimiam em linguagem política, não apenas em disciplina. Havia a possibilidade — frágil, mas real — de que a história pudesse seguir por um caminho menos fechado. Depois de 1989, o caminho estreitou-se. A repressão não eliminou apenas protestos. Eliminou uma expectativa: a expectativa de que a sociedade pudesse ter voz na reforma. E, quando se elimina essa expectativa, muda-se a relação entre cidadão e Estado. O cidadão deixa de ser alguém que participa num futuro. Passa a ser alguém que é administrado. Administrar uma sociedade com ambição exige duas coisas: crescimento e controlo. O crescimento foi a promessa. O controlo foi o método. E, durante décadas, a combinação funcionou com uma eficácia que muitos governos, noutros lugares, olharam com inveja. As cidades cresceram, as infraestruturas multiplicaram-se, a pobreza extrema recuou, uma classe média emergiu. A narrativa oficial ganhou um corpo visível: “o Partido entrega”. Mas 1989 introduziu um segundo corpo — invisível — na mesma narrativa: “o Partido não discute”. A partir daí, a reforma económica ganhou uma tonalidade particular. O mercado não surgiu como libertação política; surgiu como compensação. Se a política não se abre, abre-se a vida material. Se não há pluralismo, há consumo. Se não há liberdade de imprensa, há mobilidade e emprego. Se não há fiscalização pública, há um pacto implícito: não questionar o topo em troca de melhoria no rés-do-chão. O problema de pactos implícitos é que não têm tribunal. Quando funcionam, parecem naturais. Quando deixam de funcionar, revelam-se cruéis. 1989 também alterou a distribuição de poder dentro do próprio sistema. O Partido aprendeu que o risco maior não vinha apenas de inimigos externos; vinha do contágio interno. Vinha de estudantes, de trabalhadores, de quadros desiludidos, de jornalistas, de intelectuais. Vinha da ideia de que a corrupção e o privilégio poderiam ser denunciados por baixo, em praça pública, e obrigar o centro a responder. Isso não podia voltar a acontecer. Por isso, a China pós-1989 tornou-se mais sofisticada na forma como gere dissenso. A repressão brutal não desapareceu; apenas passou a ser a última linha. As primeiras linhas são administrativas: controlar universidades, controlar meios digitais, controlar associações, controlar linguagem, controlar a própria memória. Criar um ambiente em que protestar não é apenas perigoso; é inútil. E é nessa inutilidade produzida que nasce a corrupção estrutural. Porque a corrupção não prospera apenas onde há ganância. Prosperar, prospera. Mas torna-se sistémica onde não há fiscalização independente e onde o cidadão aprende que não tem a quem recorrer. Quando um país perde a capacidade de falar, perde também a capacidade de corrigir. A corrupção, então, deixa de ser “excepção”. Torna-se infraestrutura informal: uma forma de resolver, de acelerar, de contornar, de sobreviver. Isto não significa que todos roubem. Significa que o sistema cria incentivos permanentes para transformar poder em renda. Há uma linha que merece ser dita com cuidado: em 1989, parte dos protestos denunciava corrupção e privilégios. Não era um capricho “ocidental”. Era uma angústia interna: ver filhos de quadros a enriquecer, ver favores, ver acesso hereditário, ver uma elite a crescer dentro de um regime que proclamava igualdade. O protesto era moral e político ao mesmo tempo. A resposta do Estado foi, paradoxalmente, moral também — mas moral de disciplina. O Estado disse: a estabilidade vale mais do que a crítica. E a crítica, mesmo quando tem razão, é inimiga. Deste modo, 1989 não congelou apenas uma reforma política. Estabeleceu uma hierarquia de valores que ainda hoje governa: estabilidade acima de transparência; disciplina acima de direito; crescimento acima de justiça; obediência acima de fiscalização. O efeito colateral foi profundo: o Partido tornou-se o árbitro exclusivo da virtude pública. Isto ajuda a compreender a campanha anticorrupção contemporânea. Quando o Partido diz que combate corrupção, fá-lo como quem faz higiene interna — para manter o corpo capaz de mandar. E, ao mesmo tempo, persegue quem tenta expor corrupção fora da autorização do Partido. Denunciar torna-se crime quando não é “ainda permitido”. É a mesma lógica do silêncio: o Estado aceita a verdade, desde que seja sua. O que torna este modelo particularmente instável é o seu próprio sucesso. Quanto mais rica e complexa se torna a sociedade chinesa, mais difícil é manter um silêncio homogéneo. Quanto mais educação, tecnologia e mobilidade, mais o controlo precisa de ser sofisticado. E quanto mais sofisticado é o controlo, mais o sistema depende de medo e de gestão de narrativa. O motor, por décadas, foi o crescimento. Mas crescimento não é eterno. Quando o crescimento abranda, o pacto implícito fica exposto. O cidadão começa a perguntar: se a vida material deixa de melhorar com a mesma velocidade, o que me resta? E, num país onde a política foi fechada como condição de sobrevivência do regime, essa pergunta é perigosa porque não tem canais legítimos de resposta. É aqui que 1989 volta como fantasma de governo. Não porque as pessoas se levantem todas de uma vez. Mas porque a memória interditada cria uma espécie de pressão subterrânea: a sensação de que o Estado tem medo da lembrança. E quando um Estado tem medo da lembrança, admite — sem o dizer — que a lembrança contém uma acusação. O Partido sabe isto. Por isso, não permite luto público, não permite discussão aberta, não permite investigação independente. Não se trata apenas de “não perder a face”. Trata-se de impedir que a história se torne tribunal. Porque, se a história se tornar tribunal, o edifício moral do regime sofre uma fissura que não se tapa com PIB. O resultado é uma China paradoxal: uma superpotência capaz de atravessar o país em alta velocidade, mas incapaz de atravessar uma data. Capaz de exportar tecnologia de ponta, mas incapaz de permitir que um cidadão publique um texto sobre 4 de Junho sem risco. Capaz de prometer futuro, mas com medo de um passado. Este ensaio fecha o Caderno Chinês com uma ideia simples: 1989 não é apenas memória censurada. É método. É o ponto em que o regime decidiu que a fiscalização pública era mais perigosa do que a corrupção. E, ao decidir isso, abriu a estrada para um capitalismo sob tutela, onde a regra suprema é a estabilidade do comando. Enquanto essa decisão não for enfrentada — enquanto o país não puder dizer, sem medo, o que aconteceu — a China continuará a crescer e a tremer ao mesmo tempo. Porque há coisas que o crescimento não compra: legitimidade moral, confiança institucional, direito à palavra. A história pode ser silenciada. Mas o silêncio, um dia, cobra. Subscreva a Newsletter #AtlanticLisbon #China #1989 #Tiananmen #PCC #Poder #Liberdade #Corrupção #Política #História
- A Sala Estava Quase Vazia
A Livraria Lello fechou às sete, como sempre, mas havia uma luz numa sala lateral no segundo andar. As janelas ficam no segundo andar, virada para a Rua das Carmelitas. Quem passa vê a luz. Livraria Lello, em desenho a lápis de cor — a fachada ao centro em detalhe, com o casario envolvente em rascunho. Dentro, doze cadeiras dobráveis, dispostas em meia-lua. Dez estavam ocupadas. Estamos a 3 de fevereiro, uma terça-feira sem nada de especial exceto isto: Rui Barroso ia ler. Rui Barroso não lê em público há seis anos. Escreve — isso toda a gente sabe porque os livros aparecem, impressos por uma editora minúscula em Matosinhos, distribuídos por algumas livrarias no Porto e uma em Lisboa, e depois desaparecem, comprados por pessoas que não os discutem em redes sociais nem os recomendam em cafés. Circulam. Mas ele não aparece. Não dá entrevistas, não vai a feiras, não assina exemplares, não tem fotografia na contracapa. A última vez que alguém o viu a falar sobre o trabalho foi há anos, numa biblioteca municipal em Gaia, e a sessão terminou quando uma senhora de meia-idade lhe perguntou se as personagens eram baseados em pessoas reais. Ele levantou-se, disse "obrigado pela presença", e saiu. Agora estava ali, sentado numa cadeira igual às outras, com um livro fechado no colo. Usava uma camisola de lã cinzenta, calças de ganga lavadas demais, sapatos de camurça gastos no calcanhar. Tinha cinquenta e tal anos mas parecia mais velho — não pela cara, que era comum e atenta, mas pela forma como segurava as coisas: com cuidado excessivo, como se tudo pudesse partir-se. Quem organizou a leitura foi a Helena Sá, uma das gestoras da livraria há quase 20 anos. Conhece-o desde sempre — foram vizinhos em Ramalde nos anos 1980, quando os pais dele ainda viviam e a mãe dela vendia peixe numa rua perto de Serralves. Não são amigos. Mas ela tem os números dele, que mudam de tempos a tempos, e desta vez ligou-lhe e disse: "Tens um livro novo, vens ler dez páginas, convido dez pessoas, ninguém grava, acabou." Ele não respondeu durante semanas. Depois enviou uma mensagem: "Terça, 19h30." As dez pessoas não foram escolhidas por ela. Foi ele quem fez a lista: nomes de gente que comprou os livros anteriores, que ele conhece apenas pelas fichas de venda que a Helena lhe mostra quando ele aparece, sem avisar, de meses a meses. Havia professores de liceus diferentes. Duas pessoas que trabalhavam em escritórios. Um enfermeiro. Uma reformada que tinha sido costureira, um estudante, uma mulher que geria um café em Leça, e um homem que apareceu com meia hora de atraso, pediu desculpa baixinho, e sentou-se ao fundo sem tirar o casaco. Não havia jornalistas. A Helena tinha contactado alguns — incluindo alguém de um jornal diário e uma crítica que escreve para revistas culturais. Todos confirmaram interesse. Ela não voltou a responder. Deixou os emails por ler. Quando um deles insistiu por telefone, disse que a sala era pequena e que já estava cheia. Rui Barroso abriu o livro às 19h37. Não disse nada antes. Leu durante doze minutos. Eram três páginas e meia de um romance que ainda não tem título definitivo mas que a editora vai chamar Casa Fechada quando sair em Junho. A voz era baixa, uniforme, sem inflexão dramática. Contava a história de um homem que vive sozinho num prédio em demolição na Baixa do Porto e que passa os dias a catalogar objetos deixados pelos antigos moradores: chaves sem fechaduras, calendários velhos, uma boneca sem cabeça, postais nunca enviados. A certa altura, a personagem encontra um caderno com uma única frase repetida em todas as páginas: "Não me esqueças." Ele não sabe quem escreveu. Copia a frase para o seu próprio caderno, fecha o original, e nunca mais o abre. Quando o Rui terminou, fechou o livro e disse: "Obrigado." Levantou-se. A Helena perguntou se alguém tinha perguntas. Ninguém tinha. Ou tinham, mas não fizeram. Ele ficou de pé durante talvez um minuto — tempo suficiente para que uma das professoras, de nome Carla, dissesse "gostei muito", e ele respondesse "obrigado" outra vez. O homem que tinha chegado atrasado levantou a mão como se fosse dizer alguma coisa, mas depois deixou-a cair. O Rui saiu. A sala ficou com as dez pessoas e a Helena, que serviu vinho tinto e queijo da serra. Falaram do texto durante alguns minutos. Depois falaram de Rui Barroso durante bem mais tempo. Há histórias sobre ele. Não do tipo que se publica — do tipo que circula em conversas de três pessoas que conhecem alguém que conhece alguém. Que viveu anos em Berlim e voltou sem dizer porquê. Que teve um filho que morreu pequeno, e a mulher deixou-o, e ele nunca mais falou nisso. Que escreve à mão, em cadernos comprados na mesma papelaria, e queima as primeiras versões. Que uma vez um editor de Lisboa lhe ofereceu um contrato com adiantamento generoso e ele recusou porque não queria "ter essa dívida". Que trabalha num arquivo municipal a organizar documentos antigos, e que ganha pouco mais de mil euros por mês. Que vive sozinho num apartamento em Paranhos, sem televisão, sem internet, com uma estante de livros que vai do chão ao teto. Nenhuma destas coisas é verificável porque ninguém lhe pergunta diretamente e ele não corrige. A Helena sabe algumas. Outras ouviu e não confirmou. O que ela sabe com certeza é isto: ele escreve todos os dias, cedo, antes de ir trabalhar. Tem cinco livros publicados ao longo de doze anos. Vende, em média, algumas centenas de exemplares de cada. Nunca pediu apoio público, nunca concorreu a prémios, nunca enviou manuscritos a editoras grandes. A primeira vez que publicou foi porque apareceu na editora de Matosinhos — que na altura era só uma sala alugada acima de uma mercearia — com o livro impresso em casa, encadernado como podia, e perguntou se eles o queriam publicar "a sério". Publicaram. Vendeu pouco no primeiro ano. Ele não quis saber das vendas. Só voltou quando tinha o segundo. A Helena conhece os leitores porque reconhece os nomes nas encomendas. Há um núcleo de talvez 50 pessoas que compram todos os livros. Outros aparecem e desaparecem. Nenhum é famoso. Nenhum escreve sobre os livros online. Alguns enviam cartas para a editora, que encaminha para a Helena, que as guarda numa caixa. Ela nunca lhe perguntou se quer lê-las. Ele nunca perguntou se há cartas. Uma vez, há uns anos, um estudante de mestrado da Faculdade de Letras pediu para entrevistá-lo para uma tese sobre "escrita fora do circuito comercial". A Helena passou o pedido. Ele não respondeu. O estudante apareceu na livraria, deixou o contacto, disse que só precisava de vinte minutos. A Helena transmitiu de novo a mensagem. O Rui enviou uma mensagem: "Diz-lhe que os livros já têm tudo o que tenho para dizer." O que os livros têm é isto: lugares reconhecíveis — ruas do Porto descritas com precisão topográfica, cafés que existem, autocarros com números reais — habitados por pessoas que fazem coisas pequenas e irremediáveis. No primeiro, Água Parada, um homem perde o emprego e passa meses a fingir que vai trabalhar, saindo de casa às 8h e voltando às 18h, sentando-se em bancos de jardim, entrando em igrejas, bebendo café sozinho. A mulher descobre. Ele não explica porquê. Separam-se. No segundo, O Peso das Malas, uma mulher de sessenta e tal anos que vende a casa onde viveu décadas e muda-se para um estúdio em Campanhã. Passa o livro inteiro a decidir o que leva e o que deixa. No final, leva quase tudo. Não cabe. Dorme no chão, rodeada de caixas que nunca abre. Não há revelações. Não há catarses. Não há personagens que "aprendem" ou "crescem". Há peso. Tempo. Silêncios que não são interrompidos. Gestos repetidos até se tornarem rituais vazios. E uma atenção quase insuportável ao detalhe: a forma como alguém dobra um guardanapo, o som de um frigorífico velho, a cor exata de uma parede em Miragaia às 17h de uma tarde de Inverno. Os poucos críticos literários que o leram escreveram variações da mesma coisa: "prosa austera", "realismo minimalista", "influências de Carver e Handke mas com voz própria". Uma vez alguém chamou-lhe "o oposto do Saramago": "onde Saramago acrescenta, Barroso remove; onde Saramago explica, Barroso cala." Ele não leu essas coisas. A Helena leu e guardou os recortes numa pasta que nunca lhe mostrou. Quando a sessão na Lello terminou, a professora Carla ficou para trás. Ajudou a Helena a arrumar as cadeiras. Perguntou: "Ele vai voltar?" "Não sei," disse a Helena. "Provavelmente não." "Pena." "Porquê pena?" Carla parou, com uma cadeira dobrada nas mãos. Ficou uns segundos sem dizer nada. Depois: "Porque é bom ouvir alguém que não está a tentar impressionar." A Helena não respondeu logo. Guardou a última cadeira, apagou as luzes da sala, fechou a porta. Desceram juntas. Lá fora, a Rua das Carmelitas estava quase vazia exceto por dois turistas perdidos e um cão vadio. Carla despediu-se, virou à esquerda, desapareceu. Capa de “A Sala Estava Quase Vazia”, no Atlantic Lisbon. A Helena ficou. Acendeu um cigarro — fuma alguns por dia, sempre depois das 20h. Olhou para uma janela do segundo andar, onde afinal havia uma luz acesa, embora a sala estivesse vazia. Tinha-se esquecido de desligar um interruptor lá dentro. Pensou em voltar. Não voltou. Rui Barroso tinha ido embora há vinte minutos ou mais. Não disse para onde. Provavelmente apanhou o metro em São Bento, mudou na Trindade, saiu algures, caminhou até casa. Amanhã acorda às 6h, escreve durante duas horas, vai trabalhar. O livro sai em junho. Vai vender algumas centenas de exemplares, talvez mais se houver sorte. Ninguém vai entrevistá-lo. Ninguém vai pedi-lhe para ler em festivais. A vida continua exatamente como antes, exceto que agora há mais um livro no mundo e uma sala que esteve cheia durante doze minutos. A Helena apagou o cigarro, trancou a porta da livraria, foi para casa. No bolso do casaco levava uma folha dobrada que o Rui lhe tinha deixado em cima da cadeira antes de sair. Só a viu quando arrumou a sala. Abriu-a no metro. Dizia, em letra manuscrita: "Obrigado por isto. Não volto a pedir." Ela guardou a folha. Quando chegou a casa, guardou-a dentro de um livro — Água Parada, primeira edição, com a dedicatória que ele lhe escreveu anos antes: "Para a Helena, que não desiste." Imagem: - Atlantic Lisbon Subscrever a Newsletter #LiteraturaPortuguesa #Porto #EscritaIndependente #Livraria #Silêncio
- Stockton University apaga um texto sobre Gaza
Em 31 de julho, John F. Scarpa escreveu ao presidente da Universidade de Stockton, Joe Bertolino, por causa de uma passagem publicada no site do mestrado em Estudos do Holocausto e do Genocídio. A mensagem, assinada pelo diretor do programa, Raz Segal, classificava como genocídio a atuação de Israel em Gaza. O Senhor Scarpa considerou que essa formulação apresentava como facto uma matéria ainda disputada e perguntou se correspondia à posição oficial da universidade. John F. Scarpa Academic Center da Stockton University, em Atlantic City. A universidade retirou do seu site um texto sobre Gaza após uma carta do doador John F. Scarpa. A área de Relações e Marketing de Stockton anunciou que iria rever a página e verificar como a universidade apresentava e aprovava os seus conteúdos institucionais. Pouco depois, a mensagem do Senhor Segal desapareceu, segundo noticiou o Press of Atlantic City. Não se conhece qualquer ordem do Senhor Scarpa nem qualquer acordo ligado à decisão; também não houve uma ameaça pública de retirada de financiamento. A universidade iniciou a revisão depois de receber a carta e o texto acabou por ser retirado. Em 2019, Scarpa prometeu oito milhões de dólares à fundação de Stockton, o maior donativo da história da universidade. O centro académico do campus de Atlantic City e o centro de ciências da saúde de Galloway passaram a ter o seu nome. Scarpa tinha o direito de contestar o conteúdo. Como era o maior doador da universidade, a administração precisava de demonstrar que a decisão tomada depois da carta obedeceu a um critério editorial independente. Stockton invocou a revisão dos conteúdos do site e a necessidade de uniformizar materiais destinados ao público. Não explicou como esse trabalho levou à retirada da mensagem de Segal. A política de publicações da universidade entrega à área de Relações e Marketing responsabilidades sobre as publicações oficiais. Uma página alojada no domínio da instituição não pertence exclusivamente ao professor que nela escreve. Pode comprometer a universidade e está sujeita a regras diferentes das que protegem uma aula, um livro ou um artigo científico. A passagem contestada integrava uma mensagem atribuída ao diretor do mestrado. Não surgia como uma declaração anónima de Stockton nem como uma resolução dos seus órgãos. Se a administração entendia que essa identificação era insuficiente, podia distinguir de modo mais visível a posição de Segal da posição formal da universidade. A administração optou por retirar a mensagem completa, incluindo o conteúdo que tinha provocado a carta. Segal continua identificado na página atual do programa como diretor do mestrado, professor de Estudos do Holocausto e do Genocídio e titular de uma cátedra dedicada ao estudo do genocídio moderno. A matéria sobre a qual se pronunciou pertence, portanto, ao seu campo profissional. A conclusão pode ser discutida, mas não pode ser tratada como uma opinião sem base académica ou como uma simples utilização pessoal de um canal universitário. Ainda não existe uma decisão final do Tribunal Internacional de Justiça que declare Israel responsável por genocídio em Gaza. O processo instaurado pela África do Sul continuava pendente em maio de 2026 e Israel rejeita a acusação. Este era o ponto válido da objeção de Scarpa. Uma página universitária que use a palavra «genocídio» deveria esclarecer o estado do processo. Classificar a formulação de Segal como desinformação ignora o estado do debate. Em agosto de 2025, a Associação Internacional de Investigadores do Genocídio declarou que as políticas e ações de Israel em Gaza preenchiam a definição jurídica de genocídio. Em setembro, a Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas chegou à mesma conclusão. Estes pronunciamentos não substituem uma sentença do Tribunal Internacional de Justiça, mas situam a posição de Segal dentro de uma controvérsia académica e jurídica real. Stockton podia ter mantido a mensagem com autoria e fontes, informando o leitor de que o processo judicial permanecia pendente e de que Israel contestava a acusação. Uma nota institucional serviria para separar a posição do programa da posição oficial da universidade. A universidade não teria de concordar com Segal para fazer isso. Sem um procedimento académico conhecido que justificasse outra resposta, apagar o texto foi uma decisão errada. A política de Stockton sobre liberdade académica inclui entre os direitos da comunidade académica estudar, discutir, investigar, ensinar, publicar e administrar. Atribui também aos administradores a responsabilidade de proteger esses direitos. O site continua sob controlo institucional. Ainda assim, a retirada de uma intervenção assinada por um especialista na sua área precisava de uma explicação mais específica do que a referência à uniformização das páginas. Bertolino também afirmou publicamente que Stockton deve acolher ideias difíceis e aceitar o desconforto associado ao debate académico. Neste caso, a instituição não disse se outros especialistas avaliaram o conteúdo nem identificou quem decidiu retirá-lo. Sem essa informação, não é possível separar a revisão editorial anunciada da intervenção que imediatamente a antecedeu. O subtítulo do artigo de Emily Van Duyne associa o caso ao ensino superior com fins lucrativos. Stockton, contudo, é uma universidade pública. Recebe financiamento privado, mas as decisões sobre conteúdos académicos continuam sob a responsabilidade da administração e devem resultar de procedimentos identificáveis. Stockton não identificou quem avaliou o conteúdo nem a norma aplicada. Também não disse se os responsáveis académicos foram ouvidos. No registo público, a revisão foi anunciada depois da carta de Scarpa; a mensagem contestada foi retirada pouco depois. #StocktonUniversity #Gaza #LiberdadeAcadémica #RazSegal #JohnFScarpa #EnsinoSuperior #IndependênciaAcadémica #AtlanticLisbon
- As melhores prendas não custaram dinheiro
Há prendas que passam depressa. Outras ficam. E, curiosamente, muitas das que ficam quase não custaram dinheiro. Estou a falar da carta escrita sem pressa. Do livro oferecido porque alguém precisava exatamente daquele livro. Do tempo reservado quando era mais fácil dizer “noutro dia”. Do gesto simples que chegou no momento certo. Gostava de saber: qual foi a melhor prenda que alguma vez ofereceu e que foi gratuita ou quase gratuita? Não precisa de ser Natal, nem precisa de ser grandiosa. Basta ter sido verdadeira. Se quiser, conte em poucas linhas: o que foi, quanto custou (ou se não custou nada) e porque ainda hoje a recorda. Sem nomes, sem exposição — apenas a história. Talvez descubramos, juntos, que algumas das melhores prendas não cabem em embrulhos. Conte a sua história. Meia vermelha de Natal #meia #Natal #Histórias #convite
- A máquina que não obedece
Em Março de 2020, quando os governos europeus começaram a impor confinamentos nacionais, a justificação era sempre a mesma: os modelos epidemiológicos previam o colapso hospitalar iminente se nada fosse feito. Os gráficos mostravam curvas exponenciais; projeções computorizadas indicavam datas precisas para a saturação de cuidados intensivos; os especialistas apresentavam cenários com três casas decimais. A promessa implícita era reconfortante: sabemos o que vai acontecer, sabemos quando, e sabemos como evitar. A política transformara-se em engenharia de saúde pública. Bastava seguir os números. Capa do ensaio “A Máquina Que Não Obedece”, publicado no Atlantic Lisbon (www.atlanticlisbon.com): uma composição noturna, em azuis e negros, onde se insinuam mapas de circuitos, traços de engrenagens e uma textura quase mineral. O desenho sugere uma ideia central do texto — a tentação moderna de tratar a vida coletiva como um mecanismo previsível — e o choque recorrente com aquilo que não se deixa modelar: comportamento humano, contingência, falhas de previsão, limites da técnica. Uma imagem de promessa e fricção: cálculo por um lado, imprevisível por outro. Dezoito meses depois, os mesmos governos admitiam que grande parte das previsões falhara — não por erro de cálculo, mas porque a realidade social não se comporta como sistema fechado. As pessoas adaptam-se, resistem, improvisam. A curva que deveria subir verticalmente achatou-se em lugares inesperados e disparou onde não era previsto. O vírus não leu os modelos. O que colapsou não foi apenas a previsão epidemiológica. Foi a confiança numa ideia mais profunda: a de que a razão técnica pode governar a vida coletiva como um engenheiro governa uma máquina. Essa promessa — a de controlo racional sobre a contingência humana — é a arquitetura invisível das democracias liberais contemporâneas. E é essa promessa que está hoje em crise. A substituição silenciosa Há algo específico que distingue a política moderna de todas as formas anteriores de governo. Não é a democracia — Atenas tinha assembleias populares dois mil anos antes de Rousseau. Não é a liberdade individual — cidades medievais italianas conheciam autonomia municipal. Não é sequer o constitucionalismo — tratados entre reis e barões limitavam o poder muito antes de Montesquieu. O que muda é a fonte de legitimidade. Durante séculos, o poder justificava-se por origem divina, linhagem heróica ou tradição imemorial. Um rei governava porque Deus o escolhera, porque descendia de conquistadores, ou porque "sempre fora assim". A pergunta política fundamental era: quem tem direito a mandar? A modernidade inverte isto. A pergunta deixa de ser sobre direito e passa a ser sobre capacidade. Não importa quem governa, importa se governa bem. A legitimidade desloca-se da transcendência para performance. Este deslizamento não foi acidental. Foi deliberado. Quando Hobbes escreveu o Leviatã (Leviathan) - Leviathan, or The Matter, Forme and Power of a Common-wealth Ecclesiasticall and Civil - em 1651, no rescaldo da guerra civil inglesa, a sua proposta é brutal na clareza: o poder existe para produzir paz, não para encarnar a verdade eterna. Se um soberano garante segurança, merece obediência. Se falha, perde o título. A autoridade mede-se por resultados. Isto parece razoável. Mas tem uma implicação que só se torna visível séculos depois: se a política se justifica por eficácia, então qualquer falha técnica mina o próprio sistema. Um rei que perde uma batalha pode invocar a vontade divina, infortúnio ou traição. Um Estado que promete controlo racional e falha não tem essa saída. Falhou no único critério que importa. A modernidade pôs todos os ovos no mesmo cesto. Se o sistema produz resultados, merece obediência. Se falha, perde o fundamento. Não há plano B. A engenharia da vontade geral Um dos dispositivos centrais deste sistema é a representação política. Não no sentido trivial de votar a cada quatro anos, mas no sentido filosófico: a ideia de que o poder exercido pelo Estado é, em última análise, poder do próprio povo. A operação é engenhosa. As pessoas detestam ser governadas. Mas aceitam ser governadas se acreditarem que governam através de representantes eleitos. O conflito entre autoridade e autonomia dissolve-se — pelo menos em teoria. O problema é escala. Numa assembleia ateniense com seis mil cidadãos reunidos fisicamente, a distância entre vontade individual e decisão coletiva é curta. Num Estado-nação com cinquenta milhões de habitantes espalhados por centenas de milhares de quilómetros quadrados, essa distância torna-se abismo. A representação moderna funciona através de múltiplas camadas de abstração: o voto transforma-se em mandato, o mandato transforma-se em coligação, a coligação transforma-se em governo, o governo transforma-se em lei, a lei transforma-se em regulamento, o regulamento transforma-se em decisão administrativa executada por funcionários que ninguém elegeu. No final desta cadeia, o cidadão individual olha para a decisão que o afeta e não reconhece nela a sua vontade. Mas também não a pode rejeitar legitimamente, porque foi "democraticamente decidida". A representação torna-se ficção funcional. Enquanto produz resultados aceitáveis — crescimento económico, segurança, serviços públicos —, a ficção aguenta. Quando os resultados falham, a legitimidade desmorona-se. E aqui está o paradoxo: quanto mais o Estado promete controlar, maior a probabilidade de falhar em alguma dimensão. E quanto maior a falha, mais frágil a legitimidade. Prosperidade como substituto de sentido Há também uma aposta económica no centro deste edifício, e assenta numa ideia ousada: o crescimento material pacifica. A lógica é simples. Se a produção de bens aumenta continuamente, a disputa pelo que existe diminui. Em vez de lutar por território fixo, as sociedades competem por expansão de riqueza. o Comércio substitui A conquista. a Inovação substitui a pilhagem. O conflito não desaparece — é redirecionado para arenas menos sangrentas. Durante três séculos, funcionou extraordinariamente bem. Entre 1800 e 2000, a produção global multiplicou-se por um fator de cinquenta. Dizem-nos que a esperança de vida duplicou. Que a pobreza extrema caiu de 90% para menos de 10% da população mundial. Mas este sucesso gerou dependência estrutural. Se a paz social depende de crescimento contínuo, qualquer estagnação torna-se ameaça existencial. O sistema não tolera pausa. E quando o crescimento abranda — como em 2008, ou durante crises energéticas, ou sob a pressão ambiental —, a pacificação económica revela-se frágil. Há também um custo antropológico. Quando a prosperidade material se torna substituto no sentido coletivo, a política esvazia-se. Votar transforma-se em escolher gestores de crescimento. Governar transforma-se em administrar o PIB. A pergunta deixa de ser "como devemos viver?" e passa a ser "quanto vamos crescer?". A economia liberta as sociedades da violência crónica. Mas aprisiona-as numa corrida sem linha de chegada. O obstáculo que nunca foi resolvido E há ainda um obstáculo que a modernidade nunca resolveu completamente: a religião. O problema não é que a fé seja irracional — muitas tradições religiosas desenvolveram a teologia sofisticada. O problema é que a religião introduz fonte de autoridade que escapa ao controlo humano. Se o mundo está submetido à vontade divina independente, o domínio técnico tem limite intrínseco. Há coisas que não podem ser calculadas, optimizadas ou geridas. Há autoridade que não se delega nem se revoga. A modernidade responde de duas formas. Uma é reinterpretar a religião como questão privada. A fé torna-se escolha individual, não estrutura pública. O Estado tolera-a desde que não interfira na gestão colectiva. Deus retira-se para o espaço interior; a política governa o espaço comum. A outra é substituir a transcendência religiosa por transcendência secular: direitos humanos universais, progresso histórico inevitável, razão como autoridade final. O conteúdo muda; a estrutura — algo que está acima da vontade humana imediata — mantém-se. Ambas as estratégias funcionaram durante séculos. Mas deixaram um vazio metafísico. Quando a religião deixa de fornecer sentido coletivo partilhado e a política se reduz a gestão técnica, resta apenas o indivíduo isolado procurando significado onde conseguir. Este vazio não é estável. Preenche-se com substitutos: identidades tribais, ideologias totalizantes, movimentos messiânicos seculares. A modernidade pensou que podia dispensar o sagrado. Descobriu que o sagrado regressa sob formas menos domesticáveis. Quando a razão se volta contra si mesma A crise contemporânea do controlo racional não vem de fora. Vem de dentro. Durante o século XX, filósofos, sociólogos e historiadores começaram a interrogar o próprio conceito de razão. E descobriram algo incómodo: aquilo que uma época considera "racional" depende de contextos históricos, estruturas sociais e relações de poder. Se a razão é produto histórico variável, então o "controlo racional" não é fundamento estável — é fase transitória num processo que pode mudar de direção. Este deslizamento do conceito produziu duas reações opostas, ambas destrutivas para o equilíbrio liberal. Uma tenta radicalizar o controlo: mais dados, mais algoritmos, mais planeamento científico da sociedade. A promessa é que a tecnologia suficientemente avançada eliminará incerteza. A Inteligência Artificial preverá o crime, os modelos climáticos guiarão a política energética, a análise de big data otimizará a saúde pública. A China contemporânea levou esta lógica ao extremo com sistemas de crédito social que monitorizam o comportamento individual em tempo real, atribuem pontuações e ajustam o acesso a serviços públicos conforme a sua conformidade. O sistema foi desenhado para ser racional, previsível, justo. Mas produziu efeitos que nenhum modelo previu: a simulação da virtude, ansiedade crónica de vigilância, colapso de confiança interpessoal. As pessoas adaptaram-se ao sistema que o próprio sistema não conseguiu antecipar. O problema é que quanto mais sofisticado o sistema de controlo, maior o custo de falha. E falha sempre ocorre — porque a realidade social não é sistema fechado. A outra reação rejeita completamente o projeto. Se a razão é construção histórica arbitrária, então não há critério objetivo para escolher entre alternativas. Sobra a vontade, identidade, autenticidade. A política torna-se afirmação tribal, não deliberação racional. Ambas as respostas são filhas da mesma crise: a promessa moderna de controlo racional já não convence, mas nada a substituiu de forma coerente. O paradoxo da eficácia total As democracias liberais enfrentam hoje uma armadilha que elas próprias construíram. O controlo racional foi suficientemente bem-sucedido para gerar expectativas de gestão total. Os Estados prometem não apenas a segurança externa, mas a saúde pública, estabilidade financeira, proteção ambiental, equilíbrio social, progresso tecnológico e até bem-estar emocional. Cada promessa amplia o perímetro do controlável. E cada ampliação aumenta a superfície de falha potencial. Quando uma pandemia expõe limites da medicina preventiva, quando uma crise financeira revela a fragilidade dos modelos económicos, quando as alterações climáticas demonstram incapacidade de gerir os sistemas planetários — cada evento transforma-se em crise de legitimidade. Se a política se justifica por eficácia técnica, qualquer ineficácia técnica questiona a própria política. O cidadão contemporâneo sente-se simultaneamente protegido e impotente. Protegido porque o Estado garante a segurança sem precedente histórico. Impotente porque a escala de decisões que o afetam ultrapassa qualquer capacidade individual de influência. Este paradoxo alimenta o ressentimento difuso. Não contra a injustiça específica, mas contra o sistema que promete controlo total e entrega controlo parcial. Contra-argumento: o progresso é inegável A objeção mais forte a esta análise é evidente, e seria desonesto ignorá-la. O projeto moderno de controlo racional produziu ganhos tangíveis sem paralelo histórico. Dizem que a Esperança de vida aumentou de 30 para 75 anos em dois séculos. Que a Mortalidade infantil caiu 95%. Que a Pobreza extrema diminuiu de maioria absoluta para minoria global. Que o Acesso à educação, saúde, informação expandiu-se para biliões de pessoas. Negar estes avanços seria irresponsável intelectualmente. Mas o ponto não é negar o progresso. É questionar a sustentabilidade política da promessa que o gerou. Um sistema que se legitima através da eficácia crescente cria vulnerabilidade estrutural: cada crise — sanitária, financeira, climática — transforma-se em teste existencial. Se a política é técnica, o erro técnico mina fundamento. E erro técnico é inevitável. Não por incompetência, mas porque a realidade social contém irredutível imprevisibilidade. O que resta quando a máquina falha O debate contemporâneo não é entre razão e irracionalidade. É entre dois modelos de razão. Um modelo vê a razão como instrumento de domínio: conhecer para controlar. Outro vê a razão como instrumento de compreensão: conhecer para aceitar limites. O primeiro produz eficiência e expansão. O segundo produz moderação e prudência. A modernidade escolheu o primeiro. O século XXI confronta-se com as consequências dessa escolha. Os Estados que continuem a prometer controlo total — climático, económico, sanitário, social — ampliam o risco de desilusão colectiva. Não porque sejam incompetentes, mas porque prometem o impossível. A política não é máquina. Governar não é engenharia. E quando se trata a contingência humana como problema técnico solucionável, cria-se a expetativa que nenhum sistema consegue satisfazer indefinidamente. O desafio não é abandonar a razão. É abandonar a fantasia de omnipotência racional. Num mundo saturado de dados, algoritmos e gestão em tempo real, a tentação do controlo absoluto cresce. Mas quanto mais sofisticadas as ferramentas, mais visível se torna o que elas não conseguem capturar: escolha moral, sentido partilhado, contingência irredutível. A crise das democracias liberais não é económica, cultural ou tecnológica. É filosófica. É a tensão entre uma promessa de engenharia social e a persistência teimosa do imprevisível. E o imprevisível — ao contrário do que a modernidade apostou — não desaparece com mais cálculo. Persiste. E exige resposta política que a técnica sozinha não pode dar. A questão não é se devemos usar a razão. É se devemos confiar que a razão elimina tragédia. A máquina não obedece. Talvez nunca tenha obedecido realmente, e o que funcionou durante três séculos foi apenas coincidência favorável de condições — crescimento fácil, energia abundante, expectativas contidas. Quando essas condições mudam, o que parecia controlo racional revela-se aposta sem cobertura. E continuar a dobrar essa aposta não é racionalidade. É fé disfarçada de técnica. 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- Os fungos sob os nossos pés estendem-se por 110 mil biliões de quilómetros
Nos primeiros 15 centímetros dos solos da Terra existem cerca de 110 mil biliões de quilómetros de filamentos produzidos por fungos micorrízicos arbusculares. Colocados em linha, permitiriam percorrer aproximadamente 730 milhões de vezes a distância entre a Terra e o Sol. Mapa revela 110 mil biliões de quilómetros de fungos no solo Redes de fungos micorrízicos estendem-se a partir das raízes e transportam nutrientes e carbono através do solo. A estimativa faz parte do primeiro levantamento global da densidade e da biomassa destas redes. O estudo, publicado na revista Science, reuniu medições de mais de 16 mil amostras de solo. Os investigadores usaram esses dados para treinar um modelo de aprendizagem automática e prever a presença dos fungos em regiões onde nunca foram feitas recolhas. Não se trata de uma rede contínua a atravessar o planeta. O número resulta da soma de incontáveis filamentos microscópicos, conhecidos como hifas, que se estendem a partir das raízes das plantas. Os fungos recebem o carbono produzido através da fotossíntese e ajudam as plantas a obter água, fósforo e azoto. Cerca de 70% das espécies vegetais terrestres dependem desta relação. A equipa compilou informação de 322 estudos realizados em nove biomas. Cruzou depois as medições com dados sobre o clima, a vegetação e a composição dos solos. O modelo calculou a densidade provável das hifas em áreas de aproximadamente um quilómetro quadrado. Para estimar a biomassa, faltava conhecer a espessura dos filamentos. Um robô de imagem desenvolvido no instituto neerlandês AMOLF fotografou redes cultivadas em laboratório e efetuou mais de 300 mil medições. A largura média encontrada foi combinada com as previsões globais de comprimento. Os investigadores calculam que os fungos vivos existentes na camada superficial do solo contêm cerca de 300 milhões de toneladas de carbono. Este valor corresponde a quatro a seis vezes o carbono presente na biomassa de todos os seres humanos. Ainda assim, representa uma parcela pequena das reservas totais dos solos. O valor corresponde ao carbono contido nas hifas no momento da medição. Não permite saber quanto permanecerá no solo durante décadas ou séculos. As plantas transferem anualmente cerca de mil milhões de toneladas de carbono para estes fungos, mas os filamentos crescem, morrem e voltam a formar-se. Depois da morte das hifas, alguns restos permanecem no solo. Parte desse material pode ligar-se aos minerais e integrar matéria orgânica capaz de persistir durante muito tempo. A dimensão global deste contributo continua por determinar, porque as estimativas sobre a velocidade de renovação dos filamentos variam consideravelmente. As maiores densidades foram encontradas nas pradarias, estepes e pastagens naturais. Estes ecossistemas concentram cerca de 40% da biomassa global estimada dos fungos analisados. Nas pastagens de montanha, a densidade prevista foi 39% superior à das florestas tropicais húmidas de folha larga. Entre as zonas destacadas no mapa publicado com o estudo encontram-se os Everglades, na Florida, as áreas alagadas do Sudd, no Sudão do Sul, e várias pradarias e estepes da Ásia Central. Uma parte importante da atividade biológica destes ecossistemas ocorre abaixo da superfície, embora muitos recebam menos proteção do que as florestas. Nas amostras provenientes de terrenos agrícolas, a densidade das hifas foi, em média, cerca de 47% inferior à observada nos solos não cultivados. O estudo não permite atribuir a diferença a uma prática específica. Os fertilizantes, os fungicidas, o tipo de cultura e a intensidade da exploração podem influenciar os resultados, mas o modelo não conseguiu separar esses efeitos. Também há regiões com poucas medições. Os desertos, as tundras e algumas florestas temperadas estão entre os ambientes menos estudados. As recolhas feitas a mais de 50 centímetros de profundidade são igualmente escassas, razão pela qual o cálculo global abrange apenas os 15 centímetros superficiais. Os autores consideram prioritárias novas campanhas de recolha nas regiões onde as previsões são menos seguras. O mapa mostra onde estão essas lacunas e fornece uma primeira referência para medir futuras alterações nas redes fúngicas. #Fungos #Micorrizas #RedesFúngicas #Ciência #Solos #Biodiversidade #CarbonoNoSolo #AtlanticLisbon
- Bispos nórdicos: Roma recusou exceção para católicos maçons
Em 29 de junho de 2026, os seis bispos da Conferência Episcopal Nórdica disseram aos párocos que um católico ligado à maçonaria deve abster-se da comunhão e fica impedido de receber os outros sacramentos enquanto conservar essa filiação. A carta enviada aos sacerdotes proíbe ainda as instituições católicas de celebrarem acordos de colaboração com maçons ou lojas maçónicas e de utilizarem imóveis que pertençam a essas organizações. Bispos nórdicos aplicam sem exceções a proibição aos católicos maçons Os bispos nórdicos afirmam que o Dicastério para a Doutrina da Fé rejeitou qualquer exceção regional à proibição de os católicos pertencerem à maçonaria. Ilustração: Atlantic Lisbon / IA. As instruções abrangem as comunidades católicas da Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia. Também determinam que uma pessoa que pretenda ser batizada na Igreja Católica, ou nela entrar em plena comunhão como cristão já batizado, abandone primeiro a maçonaria. Aos católicos que pertençam a uma loja, os sacerdotes devem pedir que terminem essa ligação. Antes de anunciar as medidas, a conferência perguntou ao Dicastério para a Doutrina da Fé se as características locais da maçonaria permitiam uma exceção. Durante anos, tinha circulado entre os católicos da região a ideia de que certas lojas nórdicas seriam diferentes das organizações maçónicas consideradas nos documentos de Roma. Algumas organizações maçónicas da região apresentam-se como assentes em referências cristãs e orientadas para o aperfeiçoamento moral, a fraternidade e a beneficência. Essa identificação levou alguns católicos a admitirem que a incompatibilidade declarada pela Igreja talvez não se aplicasse da mesma forma no Norte da Europa. Os bispos levaram a questão a Roma entre 1 e 5 de setembro de 2025. Durante a assembleia plenária da Conferência Episcopal Nórdica, reuniram-se com superiores e responsáveis do Dicastério para a Doutrina da Fé. A carta publicada nove meses mais tarde descreve a resposta recebida como “crystal clear”. Não existe, afirmam os bispos, qualquer exceção, norma particular ou dispensa que permita distinguir a filiação maçónica nos países nórdicos da disciplina universal da Igreja. As orientações da Santa Sé devem ser aplicadas integralmente em todo o território da conferência. Na carta, não aparecem os nomes dos representantes do Dicastério. A resposta é resumida pelos bispos, sem que seja apresentada uma ata da reunião ou um texto escrito entregue pelo organismo. Até agora, o Dicastério também não publicou um documento autónomo sobre a consulta. O comunicado divulgado em 5 de setembro de 2025, no final da assembleia, não fazia referência à maçonaria. Informava que os bispos tinham estado reunidos em Roma e que haviam sido recebidos por Leão XIV. Tratava ainda de outros assuntos discutidos durante aqueles dias, mas não dava notícia do encontro com o Dicastério nem da pergunta sobre uma eventual exceção nórdica. A consulta só surgiu publicamente na carta de junho de 2026, assinada pelo presidente da conferência, Erik Varden, pelo cardeal Anders Arborelius e pelos restantes membros do organismo. A reunião com o Dicastério ocorreu quatro meses depois do início do pontificado de Leão XIV. Segundo a carta, o organismo manteve perante os bispos nórdicos a disciplina existente e recusou uma adaptação regional. Durante a mesma assembleia, Leão XIV recebeu os bispos em audiência. Nenhum dos relatos publicados afirma que a questão maçónica tenha sido discutida com o Papa ou que este tenha aprovado as disposições posteriormente anunciadas. A Santa Sé não publicou uma alteração doutrinal nem uma nova norma pontifícia sobre o caso. Em 1983, a então Congregação para a Doutrina da Fé publicou a Declaração sobre as Associações Maçónicas. O documento explicou que a ausência de uma referência expressa à maçonaria no novo Código de Direito Canónico não significava que a proibição tivesse desaparecido. A declaração, aprovada por João Paulo II e assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger, considerava inconciliáveis os princípios maçónicos e a doutrina católica. Os fiéis inscritos em associações maçónicas encontravam-se, segundo o documento, em estado de pecado grave e não podiam receber a comunhão. A declaração de 1983 determinava também que as autoridades eclesiásticas locais não podiam avaliar certas organizações maçónicas de uma forma que permitisse afastar a regra estabelecida por Roma. A eventual diferença entre lojas não poderia ser usada por um bispo ou por uma conferência episcopal para autorizar a filiação de católicos. Em 2023, o Dicastério para a Doutrina da Fé voltou a confirmar a proibição. O documento então publicado reiterava que um católico não pode manter uma filiação maçónica ativa e recomendava uma explicação pastoral acessível acerca das razões da incompatibilidade. A carta nórdica cita tanto essa orientação como a declaração de 1983. A restrição relativa à comunhão já constava da declaração de 1983. A carta de 2026 acrescenta indicações explícitas sobre os outros sacramentos, sobre o batismo de novos católicos e sobre a entrada em plena comunhão de cristãos anteriormente batizados. Nas relações institucionais, nenhuma paróquia, comunidade religiosa, sociedade de vida apostólica, organização ou instituição católica pode celebrar acordos de colaboração com maçons ou lojas maçónicas, nem utilizar propriedades que lhes pertençam. Esta proibição não aparece formulada dessa maneira nos documentos citados pela conferência. A carta não diz como devem ser tratados eventuais acordos anteriores à sua publicação. A referência a colaborações com “maçons” também fica sem delimitação: o texto não esclarece se abrange uma relação institucional com uma pessoa que pertença a uma loja, nos casos em que essa pessoa atue em nome próprio e a filiação não tenha ligação com o acordo. O documento pressupõe que a filiação seja conhecida no âmbito do acompanhamento pastoral. Não cria um dever de declaração nem explica como deve ser apurada essa pertença quando a informação disponível é incompleta. A carta reconhece que pode haver boa vontade e obras meritórias entre maçons. A proibição não é apresentada como um juízo geral sobre o caráter de cada membro. A incompatibilidade invocada situa-se nos princípios teológicos e filosóficos atribuídos à maçonaria, independentemente da atitude de uma determinada loja perante a Igreja. O documento não volta a expor esses princípios. Pede aos sacerdotes que estudem os textos oficiais antes de explicarem a posição católica aos fiéis abrangidos. Devem incentivar o abandono da maçonaria e acompanhar os católicos durante esse processo. #IgrejaCatólica #Maçonaria #LeãoXIV #Vaticano #BisposNórdicos #AtlanticLisbon











