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- Decidir antes de conhecer todos os factos
Decidir antes de conhecer todos os factos: Pombal recolheu observações, um arquivo ficcional conserva uma transcrição sem original identificado e Kaplan examina decisões tomadas com informação incompleta. Depois do terramoto de 1755, Sebastião José de Carvalho e Melo mandou perguntar às paróquias quanto tempo durara o tremor, se tinham aparecido fendas e como se comportara o mar. A cidade precisava de enterrar mortos e começar a reconstrução. As respostas chegariam de lugares diferentes, recolhidas através de perguntas que permitiam comparar as observações. Em «Terramoto de Lisboa: as perguntas que Pombal fez à terra», o questionário surge entre as explicações que procuravam atribuir um significado à destruição. Saber durante quanto tempo a terra tremeu não responde à pergunta sobre a razão do sofrimento. Permite começar a conhecer o que aconteceu naquela manhã: a duração, as fendas, o recuo da água. Maria Filomena Molder aproxima o inquérito de uma disposição para enfrentar factos que não consolam. A sua interpretação acompanha a reconstrução de Lisboa e a decisão de procurar causas físicas para o desastre. Nas paróquias, o trabalho começava por aquilo que uma testemunha tinha visto e conseguia relatar. Ruínas da Ópera de Lisboa depois do terramoto de 1755, no Percurso Decidir antes de conhecer todos os factos. Gravura de Henry Roberts, entre 1755 e 1790. Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público. Conhecer todos os factos de uma transcrição Uma caixa chega ao Porto com sete cassetes, um caderno e uma indicação sobre um original destruído num incêndio. É assim que começa a ficção «A entrevista de James Schuyler que sobreviveu numa cópia». Rui, o investigador, encontra referências que se encaixam. As datas formam uma sequência plausível. A etiqueta parece explicar a sobrevivência da cópia, mas ninguém identificou quem a fez, de que exemplar a retirou ou por que caminho aqueles papéis chegaram à caixa. Nenhuma das sete cassetes está identificada como a gravação procurada. Mesmo que uma contivesse a voz de Schuyler, Rui teria ainda de demonstrar que era a fita de que a transcrição provinha. Há material para continuar a pesquisa. Falta-lhe uma ligação entre os objetos que recebeu e a conversa que procura. Os parágrafos da transcrição podem preservar a maneira de falar de Schuyler ou resultar do trabalho de quem passou a conversa ao papel. Sem a gravação, Rui não consegue separar essas operações. Lê um texto organizado, com frases que terminam e episódios que se sucedem; as hesitações, os cortes e a pontuação ficaram entregues a quem o editou. Na folha de entrada, acaba por registar «Transcrição sem original identificado». A caixa conserva valor documental com essa descrição. A origem permanece por estabelecer. O personagem poderia ter escrito uma identificação mais completa e mais satisfatória, aproveitando a coerência das datas, mas teria acrescentado ao documento uma certeza que não encontrou nele. A cena pertence à ficção, incluindo o arquivo no Porto. Cassete BASF que ilustra o arquivo ficcional de Decidir antes de conhecer todos os factos. Fotografia: Pedro M. Martínez Corada/Wikimedia Commons. CC BY-SA 4.0. Decidir antes de conhecer todos os factos Um dirigente que precisa de tomar uma decisão pode não dispor do tempo de Rui. Em «Robert D. Kaplan: o perigo de governar com 30% da informação», a percentagem descreve decisões tomadas antes de estar disponível a maior parte do conhecimento desejável. O próprio ensaio assinala que a conta não pode ser feita. Ninguém recebe um indicador que anuncie ter atingido a quantidade suficiente de provas. Kaplan aproxima essa insuficiência do conflito entre escolhas que protegem coisas diferentes. Adiar permite conhecer melhor uma situação e pode reduzir a possibilidade de a alterar. Agir pode evitar um dano e produzir outro. Quando chega a informação esperada, há pessoas afetadas, compromissos assumidos e alternativas que entretanto desapareceram. Chamberlain tinha razões para temer a repetição de uma guerra europeia. O peso atribuído a esse medo deformou a avaliação do perigo representado por Hitler. Kaplan considera errada a decisão de Munique e procura perceber como foi composta. Depois, a lembrança desse erro passou a pressionar outros governantes: negociar podia parecer uma repetição de 1938, mesmo perante adversários e circunstâncias diferentes. O ensaio regressa à responsabilidade ao tratar da invasão russa da Ucrânia. Putin decidiu com informação incompleta e escolheu iniciar uma guerra de agressão. Reconhecer o que desconhecia ajuda a examinar a sua avaliação; a escolha continua a ter autor e finalidade. A insuficiência de informação, partilhada por decisões muito diferentes, não permite julgá-las por si só. Para esse julgamento são necessários os fundamentos usados, as alternativas consideradas e os riscos aceites. O registo de uma decisão permite confrontá-la com o que o dirigente sabia, incluindo avisos que possa ter descartado. Rui consegue limitar a descrição da caixa ao que encontrou. Quem governa tem de agir sobre pessoas que continuarão a suportar as consequências depois de os fundamentos serem revistos. Os novos factos chegam, por isso, a uma situação já alterada pela primeira decisão. Corrigi-la exige regressar ao momento em que foi tomada, sem introduzir nesse momento o conhecimento adquirido depois. Se os fundamentos ficaram registados, é possível examinar o erro, perceber que avisos foram ignorados e discutir uma mudança de orientação. Sem eles, a explicação posterior do governante passa a ocupar o lugar das razões que efetivamente usou. Composto em outubro de 2026 O Caderno Decidir antes de conhecer todos os factos: uma figura de autoridade, com a cabeça transformada num arquivo fechado, assina um mapa incompleto. Capa: ilustração satírica gerada por IA para Atlantic Lisbon. #Percursos
- Burnham diz que houve interferência russa no Brexit
Andy Burnham disse que é claro que houve interferência russa no referendo do Brexit, depois de pedir respostas sobre o envolvimento do Kremlin quando chegou a Downing Street. Numa entrevista ao podcast The Rest is Politics, afirmou: «Ao chegar a Downing Street, fiz a pergunta: houve interferência da Rússia no referendo de 2016? Recebi uma resposta clara: sim, houve.» Burnham é primeiro-ministro desde 20 de julho de 2026, sucedendo a Keir Starmer após uma mudança de liderança. É o sétimo chefe de governo britânico numa década. A declaração marca uma rutura com a posição dos governos conservadores anteriores, que insistiam que não havia provas de interferência bem-sucedida da Rússia na votação. Burnham não revelou quem lhe deu a avaliação, em que provas esta se baseou ou se a interferência afetou o resultado. Em 2020, um relatório da comissão parlamentar de informações e segurança criticou o Governo e os serviços de informações por não terem investigado devidamente a potencial interferência russa no referendo. A comissão multipartidária concluiu que os ministros não pediram uma avaliação completa das atividades de Moscovo, apesar de indícios de tentativas de influenciar a política britânica através de meios de comunicação estatais russos e de contas nas redes sociais. Acrescentou que o Governo não fez qualquer avaliação após o referendo, ao contrário do que aconteceu nos EUA após as presidenciais de 2016. Defendeu ainda que é importante saber se um Estado hostil procurou influenciar um processo democrático, independentemente de o ter conseguido. Palácio de Westminster, em Londres. Em 2020, a comissão parlamentar de informações e segurança criticou a ausência de uma investigação adequada à eventual interferência russa no referendo. Fotografia: Hippopx, autor não identificado. Domínio público. Burnham diz que o Reino Unido precisa de ser mais aberto sobre as tentativas de Estados hostis de interferir na política, numa altura em que os líderes europeus lidam com a ascensão da extrema-direita. No mês passado, num discurso na Assembleia-Geral da ONU, acusou Moscovo de uma guerra de informação e disse haver provas de uma tentativa de interferência nas legislativas de 2019. «É importante deixar agora estas questões claramente registadas e acredito que isso ajuda os eleitores na Alemanha e em França a compreender que parte desta política é instigada pelos nossos inimigos, nomeadamente a Rússia. Penso que temos estado demasiado na defensiva e que não temos informado suficientemente as pessoas sobre a dimensão das tentativas, vindas do estrangeiro, de perturbar o processo político», disse ao podcast. Esta semana, durante uma visita a Berlim, discutiu com o chanceler Friedrich Merz a ameaça da Alternativa para a Alemanha (AfD). Segundo Burnham, Merz manifestou preocupação com as ligações do partido à Rússia. «Uma das coisas que disse ao chanceler Merz […] foi que precisamos de vos apoiar no combate à ameaça que enfrentam e, em particular, ao tipo de política com que se confrontam. Ele dizia-me que a AfD tem ligações claras à Rússia, incluindo financiamento, creio. Há certamente informação falsa e desinformação provenientes da Rússia a entrar na política alemã.» Downing Street anunciou que está a desenvolver um novo Centro Nacional de Defesa da Informação para detetar e travar campanhas de Estados hostis contra a democracia britânica e que trabalha com a Alemanha numa parceria contra ameaças híbridas. Um porta-voz afirmou: «A segurança nacional é o primeiro dever de qualquer governo. Estamos empenhados em garantir que os nossos cidadãos e as nossas instituições estão protegidos de potências estrangeiras e dos seus intermediários que procuram ameaçar vidas e minar os nossos valores democráticos. Fazemo-lo reforçando os nossos poderes através da National Security Act, a resiliência das nossas instituições e das infraestruturas nacionais críticas, as nossas fronteiras e as nossas forças policiais e serviços de informações. Continuaremos a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para proteger o Reino Unido.» No mês passado, Burnham admitiu que o Reino Unido pode vir a considerar o regresso à UE, dizendo que o Governo examinaria todas as opções para a futura relação com Bruxelas. Fontes institucionais Governo britânico: biografia de Andy Burnham Parlamento britânico: resposta governamental sobre o referendo de 2016 Comissão parlamentar de informações e segurança: relatório Russia, de 2020 Governo britânico: discurso na Assembleia-Geral da ONU Governo britânico: parceria com a Alemanha contra ameaças híbridas #politicainternacional #politicaspublicas #ReinoUnido #direitointernacional #Inglaterra
- DISCURSO DE ACEITAÇÃO DO PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA
Numa sala do terceiro andar em Arroios, alguém empurrara as mesas para as paredes para abrir um corredor no meio. Não para circular. Para que ninguém se toque por engano. De um lado sentaram-se quatro miúdos, do outro cinco. Todos chegavam no mesmo autocarro, da mesma pensão na Mouraria. Todos pediam pão da mesma maneira no café em baixo. Mas na escola tinham de escolher com que mão escreviam. O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA O professor de História chegava com dois marcadores, um azul e um preto. Dava a mesma aula duas vezes. Escrevia a mesma data no quadro, uma de cada lado do corredor. Não porque a data fosse diferente. Porque lhe pediram para não escrever no meio. Isto aconteceu em Lisboa, no outono de 1996. Os miúdos tinham chegado no verão anterior, depois de saírem de aldeias onde a língua servia para tudo, e descobriram que em Lisboa a língua que traziam já vinha partida de origem. Na pensão falavam entre si sem precisar de escolher. Na escola, a escolha era obrigatória. O nome composto que aquela língua teve durante trinta e sete anos não era um acordo linguístico. Era uma solução de engenharia. Como uma viga feita de duas madeiras coladas com a fibra cruzada: aguenta mais peso precisamente porque não é pura. Cortá-la ao meio para obter duas vigas mais puras produz duas vigas que aguentam menos de metade cada uma. É isto que acontece quando se separa uma língua que torcia para os dois lados. O que interessa em Arroios não é quem tem razão sobre o nome. O que interessa é o trabalho extra que a separação obriga. O professor precisava de duas cores. Precisava de apagar o quadro duas vezes. Precisava de garantir que não se enganava na mão. Os miúdos precisavam de aprender a fingir que não entendiam o que estava escrito do outro lado do corredor, quando entendiam perfeitamente. O mais velho começou a copiar os apontamentos do outro lado às escondidas, porque a letra do professor com a esquerda era mais legível. Repreenderam-no por ter olhado para o lado errado, não por copiar. Lisboa, em 1996, gostava de receber. Tinha festivais, cartazes com muitas bandeiras, senhoras de associações que traziam bolos. Era uma cidade que coleccionava diferenças, desde que cada diferença ficasse no seu sítio. O problema daqueles miúdos é que a diferença deles não tinha sítio. Era larga demais. Não cabia numa bandeira. Era uma ferramenta, não uma bandeira. E Lisboa, como Toronto, só sabia arquivar bandeiras. Durante meses, aquela sala funcionou com corredor. Depois deixou de funcionar, não porque alguém tenha feito um discurso sobre a tolerância, mas porque o professor se cansou. Uma manhã de novembro chegou atrasado. Tinha só um marcador, o azul. Escreveu a data no meio do quadro. Ninguém se levantou. Os miúdos copiaram. A aula seguiu. O corredor ficou ali, vazio, como ficam vazios os corredores que já não precisam de separar nada mas que ninguém tem coragem de ocupar. Eu estava lá. Era um deles. Albert Anker, Schulstube (Sala de aula), 1862. Óleo sobre tela. Reprodução em domínio público, via Wikimedia Commons. Foi nesse instante que percebi. Não foi uma epifania. Foi cansaço. A língua não é um território que se defende. É uma ferramenta que se usa. E usar uma ferramenta com as duas mãos, mesmo que doa, é diferente de escolher uma mão e chamar traidor a quem usa a outra. Voltei à sala anos depois. Já não havia corredor. Tinham voltado a pôr as mesas como antes, em filas. No quadro ainda se via, muito apagada, a marca de onde o marcador preto escrevia. Alguém tentou apagar melhor, mas ficou o fantasma. Não nasceu uma língua nova daquela sala. Ficou o gesto de escrever com as duas mãos, mesmo que doa, para não ter de dizer que a outra mão está errada. Há décadas que escrevo sobre pessoas que não conseguem dizer o que sentem. Não porque não saibam as palavras. Porque as palavras que têm foram partidas por alguém que não as precisava. Escrevi sobre um homem numa mercearia em Arroios que mantém dois cadernos: um para as contas em português, outro para as contas na língua que trouxe. Quando lhe perguntei por que não junta, disse que se junta perde a conta. Não se referia ao dinheiro. A literatura que me interessa mantém. Não explica. Manter uma língua que serve para pedir pão em qualquer mercado dá mais trabalho do que manter uma língua que serve para provar que és diferente no mercado. A primeira exige que aceites que a mesma palavra se escreva de duas maneiras e continue a ser a mesma palavra. A segunda exige só que escolhas uma maneira e chames traidor a quem usa a outra. A literatura fácil escolhe a segunda. A literatura que tento escrever escolhe a primeira e não porque isso seja virtuoso. Simplesmente não sei escrever de outro modo. As personagens dos meus livros são pessoas que falham de formas pequenas e persistentes. Uma mulher que não consegue pedir desculpa. Um homem que copia apontamentos do lado errado do corredor porque a letra é mais legível. Um filho que telefona para a mãe todas as semanas e nunca lhe diz o que realmente lhe aconteceu. Não os tornei simpáticos para que os leitores os perdoassem. Tornei-os verdadeiros para que os leitores os reconhecessem. Juan Gris, Natureza-morta com um poema, 1915. Óleo sobre tela, Norton Simon Museum. Reprodução em domínio público, via Wikimedia Commons. O reconhecimento é a única coisa que a literatura pode oferecer sem mentir. Não oferece redenção nem lição. Sabe demasiado para isso. Oferece apenas o gesto de dizer que isto aconteceu, que tu sabes, e que esse saber agora é partilhado. Disseram-me que o prémio Nobel da Literatura era meu. A primeira coisa que pensei não foi na cerimónia, nem no discurso, nem na história. Pensei naquele professor de História, que já deve ter oitenta anos, e na pergunta que nunca lhe fiz: se, no dia em que escreveu a data no meio do quadro com um só marcador, sabia que estava a fazer algo que eu levaria comigo para sempre. Não como lição. Como peso. Como a textura de um quarto onde o segredo viveu. A literatura não guarda o segredo. Guarda a textura do quarto. Não acredito que os livros mudem o mundo. Acredito que mudam a pessoa que os lê, não de imediato, nem de forma visível, mas da mesma forma que um corredor que deixou de separar nada continua a ocupar espaço na sala. Ainda o contornamos. Ainda sabemos que esteve lá. E um dia, sem que ninguém decida, deixamos de contorná-lo e sentamo-nos onde ele estava. Não porque alguém fez um discurso sobre tolerância. Porque nos cansámos de fingir que o corredor ainda separa alguma coisa. Os meus livros, se serviram para alguma coisa, serviram para isso. Para que alguém, numa manhã qualquer, percebesse que já não precisa de escolher com que mão escreve. Que pode escrever com as duas, mesmo que doa. Que a dor de escrever com as duas mãos é diferente da dor de ter de escolher uma e chamar errada à outra. Obrigado a quem leu. Obrigado a quem não leu mas guardou o livro na estante como quem guarda uma chave que já não abre nenhuma porta; porque um dia, talvez, precise de lembrar que alguma porta existiu. E obrigado a quem me ensinou, sem o saber, que a manutenção é a forma mais honesta de amor. Manter uma língua viva não é gritar que ela é pura. É usá-la para pedir pão. É escrever com ela mesmo quando ninguém pede. É manter dois cadernos quando um bastaria, porque se junto, perco a conta. Não estou a falar de dinheiro. Capa: duas mãos sobre um caderno aberto, entre planos cubistas de uma sala de aula e de Lisboa. Ilustração criada para o Atlantic Lisbon. #Portugal #Cultura #Lisboa #Homenagem #literaturajovem
- Anne Carson: o Nobel de uma escrita entre géneros
Anne Carson recebeu o Prémio Nobel da Literatura de 2026, anunciado a 8 de outubro. A Academia Sueca distinguiu a inventividade da obra e o diálogo com a tradição clássica, através dos quais Carson criou novas formas para a literatura contemporânea. Poeta, ensaísta e tradutora canadiana, trabalha frequentemente com vários géneros dentro do mesmo livro. Nascida em Toronto em 1950, tem formação em estudos clássicos e desenvolveu uma carreira universitária a par da escrita. Doutorou-se em 1981 com uma investigação sobre o desejo, assunto que atravessa também a produção literária. O conhecimento do grego e do latim acompanha o trabalho de tradução e serve de base às suas próprias obras. Em Autobiography of Red: A Novel in Verse, publicado em 1998, Anne Carson recupera Gerião, figura da mitologia grega, a partir dos fragmentos do poeta Estesícoro. Na sua narrativa, Anne Gerião ganha uma vida contemporânea, marcada pelo desejo, pela diferença e pelas relações com os outros. O livro conserva a ligação ao texto antigo, mas constrói uma narrativa própria para além do episódio mitológico. Gerião, escultura cipriota em calcário da segunda metade do século VI a. C. The Metropolitan Museum of Art, coleção Cesnola. Domínio público (CC0). Em The Beauty of the Husband: A Fictional Essay in 29 Tangos, de 2001, acompanha uma relação conjugal atravessada pela beleza, pela infidelidade e pelo ciúme. A obra está organizada em vinte e nove tangos que combinam narrativa e poesia. Referências antigas convivem aqui com experiências próximas do leitor, como a atração, a traição e a vulnerabilidade. Publicado em 2010, Nox nasceu da morte do irmão da autora. É uma elegia que reúne escrita, fotografias e materiais de arquivo, apresentada numa longa folha dobrada em acordeão e guardada numa caixa. O leitor pode desdobrar o conjunto e acompanhar a sequência dos fragmentos. A edição reproduz em fac-símile a colagem original, que integra a escrita sobre a perda. O trabalho com fragmentos tem expressão distinta em If Not, Winter, de 2002, a sua tradução dos poemas de Safo. Carson conserva na página os sinais das lacunas existentes nos textos que chegaram até nós. As palavras sobreviventes aparecem acompanhadas por parênteses retos e pelos espaços deixados pelo que se perdeu, permitindo distinguir o que subsiste daquilo que já não é possível recuperar. Safo, litografia de Camille Corot, de 1871. The Metropolitan Museum of Art, Harris Brisbane Dick Fund, 1932. Domínio público (CC0). Em Norma Jeane Baker of Troy, de 2019, aproxima Helena de Troia de Marilyn Monroe, reunindo duas figuras associadas à beleza e à notoriedade em épocas muito diferentes. Em 2021, publicou com a artista Rosanna Bruno The Trojan Women: A Comic, uma recriação em banda desenhada da tragédia de Eurípides. Marilyn Monroe numa atuação para militares na Coreia, em 1954. Departamento de Defesa dos EUA, via Wikimedia Commons. Domínio público. Para conhecer Anne Carson, o ponto de entrada pode ser o desejo em Autobiography of Red, a relação conjugal em The Beauty of the Husband ou a perda familiar em Nox. Cada livro oferece uma experiência de leitura diferente. Anne Carson: fontes e leituras relacionadas Anne Carson — New Directions Leia também no Atlantic Lisbon: Pessoa, a IA e o problema de saber quem escreve Autoria e inteligência artificial: de Pessoa aos tribunais #Escritores #Cultura #Canadá
- Weimar: cultura, democracia e poder nazi
A partir de 1941, o Teatro Nacional de Weimar apresentou óperas, concertos e peças para as SS em Buchenwald. Os espetáculos decorreram numa sala do complexo destinado aos seus membros, junto do campo de concentração. O registo conservado pelo Memorial de Buchenwald documenta uma ligação concreta entre uma instituição cultural da cidade e o aparelho de repressão nazi. O mesmo teatro tinha acolhido, em fevereiro de 1919, a primeira reunião da Assembleia Nacional encarregada de elaborar uma Constituição democrática para a Alemanha. A instituição atravessou regimes diferentes, com funções que não se explicam pelo nome ou pelo prestígio artístico da cidade. Composição gráfica original, sem IA, sobre património cultural e concentração do poder. Esta sobreposição é central. Weimar reúne património literário, experiências de renovação artística, acontecimentos fundadores da democracia alemã e vestígios do poder nazi. Nenhuma dessas histórias elimina as outras. Para perceber a relação entre elas é preciso observar o que aconteceu às instituições, quem passou a controlá-las e como foram usadas. Weimar: Uma cidade e uma república com o mesmo nome O prestígio cultural de Weimar antecede a república. No final do século XVIII e no início do século XIX, o apoio da corte ducal atraiu escritores e pensadores como Goethe, Schiller e Herder. A colaboração entre Goethe e Schiller, iniciada em 1794 e intensificada com a mudança de Schiller para a cidade em 1799, contribuiu para a sua projeção intelectual. Esse legado tem expressão material em casas, bibliotecas, palácios e jardins. O conjunto reconhecido pela UNESCO como Weimar Clássica conserva lugares associados à produção e circulação de obras literárias. O seu valor patrimonial diz respeito a essa contribuição cultural, não a uma continuidade política entre os autores, os habitantes e os governos que depois ocuparam a cidade. Em 6 de fevereiro de 1919, a Assembleia Nacional reuniu-se no Teatro Nacional. Tinha sido eleita em janeiro, nas primeiras eleições nacionais alemãs em que as mulheres puderam votar e ser eleitas. Entre as suas tarefas estavam a elaboração de uma Constituição democrática, a formação de um governo e a conclusão de um tratado de paz após a Primeira Guerra Mundial. A Constituição foi aprovada em 31 de julho. Em setembro, as reuniões passaram para Berlim. A designação República de Weimar ficou associada ao lugar onde o novo enquadramento foi elaborado, mas a cidade e o regime não eram a mesma coisa. A história local permite estudar instituições e decisões concretas; não substitui a história política de toda a Alemanha. O antigo Hoftheater de Weimar num postal de 1899, anterior ao edifício do atual Teatro Nacional. Imagem de arquivo relacionada com o património cultural; não mostra a Assembleia de 1919. Autor não identificado; edição Zedler & Vogel, Darmstadt. Origem: Wikimedia Commons. Domínio público. Página de origem. A mudança de regime passou por decisões e coerção A passagem da república à ditadura não se explica como uma alteração do gosto cultural. Envolveu a transformação das condições em que o poder era exercido. Em 30 de janeiro de 1933, o presidente Paul von Hindenburg nomeou Adolf Hitler chanceler. Hitler não foi eleito diretamente para esse cargo. A nomeação ocorreu através do processo constitucional então existente, ao qual se seguiu a destruição do regime democrático. A Lei de Plenos Poderes, aprovada em 23 de março de 1933, permitiu ao Governo legislar sem o consentimento parlamentar e aprovar disposições contrárias à Constituição. A votação decorreu sob intimidação. Deputados comunistas e parte dos deputados sociais-democratas foram impedidos de ocupar os seus lugares; membros das SA e das SS exerceram pressão sobre os representantes presentes. A existência de uma Constituição e de uma assembleia eleita não impediu que esses mecanismos fossem esvaziados através da repressão e da concentração de competências no Governo. Este processo nacional enquadra as mudanças em Weimar. O prestígio da cidade não determinava quem controlava as instituições nem garantia a preservação das suas condições de funcionamento. A Bauhaus foi perseguida, mas os percursos divergiram A Bauhaus nasceu em Weimar em abril de 1919, sob a direção de Walter Gropius. Propunha uma renovação do ensino artístico e do design. Permaneceu na cidade até 1925, quando se transferiu para Dessau. Segundo a história institucional da Universidade Bauhaus de Weimar, a mudança teve sobretudo razões políticas: aumentaram os ataques nacionalistas à orientação internacional da escola, às suas ideias e aos seus métodos de ensino. O conflito precedeu a chegada de Hitler à chancelaria. Em Weimar, a presença de uma instituição inovadora não significava acordo sobre a sua legitimidade ou sobre o apoio que deveria receber. A intervenção política alcançou também as coleções públicas. Em 1930, mais de 70 obras de artistas como Paul Klee e Lyonel Feininger foram retiradas do museu instalado no palácio. Em 1937, a campanha nazi contra aquilo que o regime classificava como arte degenerada levou à apreensão de mais de 450 obras das coleções de Weimar. A história da escola não pode ser confundida com uma posição política uniforme dos seus antigos alunos e professores. A investigação apresentada pela Klassik Stiftung Weimar na exposição de 2024 sobre a Bauhaus e o nacional-socialismo documentou trajetórias diferentes: perseguição, exílio, adaptação profissional e participação em projetos promovidos pelo regime. O poder nazi podia rejeitar artistas e obras e, ao mesmo tempo, aproveitar competências de design moderno. A mesma investigação identificou a participação de antigos membros da Bauhaus em exposições de propaganda. Outros foram perseguidos pelas suas posições políticas ou por serem judeus. Esta distinção permite compreender a relação entre arte e poder sem atribuir uma identidade única a todos os que passaram pela escola. A inovação estética, a posição política e a conduta profissional eram dimensões relacionadas, mas não equivalentes. Weimar: O poder nazi também transformou a cidade A implantação nazi em Weimar teve expressão urbana. Nas eleições regionais da Turíngia de julho de 1932, o partido nazi tornou-se a força mais votada, com 42,5% dos votos. Fritz Sauckel dirigiu depois um governo regional em associação com uma força nacional-conservadora. A reorganização de Weimar como capital regional nazi incluiu novos edifícios administrativos e partidários, espaços para concentrações e alterações na designação de praças. O projeto do Gauforum procurava dar presença monumental ao regime e acomodar as suas manifestações coletivas. O complexo foi concebido para incluir os gabinetes de Sauckel e uma praça de reunião para milhares de participantes. Não ficou concluído durante a guerra, e Sauckel nunca ocupou os gabinetes previstos. A sua função no regime ultrapassava a administração regional: nomeado responsável geral pela mobilização de mão de obra em 1942, teve responsabilidade central na deportação de milhões de trabalhadores forçados para a Alemanha. A transformação urbana não se limitava a acrescentar símbolos a uma cidade histórica. Criava instalações para a administração e a representação pública do poder. Weimar era simultaneamente um lugar de património cultural e um espaço onde o regime procurava organizar e exibir a sua autoridade. Buchenwald fazia parte dessas relações As SS começaram a construir Buchenwald no verão de 1937, no monte Ettersberg, próximo de Weimar. Os primeiros prisioneiros chegaram em 15 de julho. Foram obrigados a executar os trabalhos pesados necessários à construção do próprio campo. Entre os detidos iniciais encontravam-se opositores, Testemunhas de Jeová e pessoas perseguidas pela sua homossexualidade. O campo não funcionava como um universo inteiramente separado do exterior. A investigação do Memorial examina as suas relações com autoridades, empresas, instituições e indivíduos, incluindo as formas como essas ligações proporcionaram benefícios a pessoas e organizações fora do campo. Os espetáculos do Teatro Nacional para as SS são uma dessas relações documentadas. Não demonstram uma atitude idêntica de todos os habitantes, nem permitem atribuir a cada pessoa o mesmo conhecimento ou responsabilidade. Mostram que uma instituição cultural mantinha atividade no espaço destinado aos membros da organização que administrava o campo. Memorial de Buchenwald, fotografado em 15 de maio de 2020. Vista contemporânea do espaço de memória; não é uma fotografia do campo durante o regime nazi. Fotografia: Thomas Springer (Ordercrazy), Wikimedia Commons. Domínio público, CC0 1.0. Página de origem. Estudar o património em conjunto com a repressão Em 2024, abriu no antigo Gauforum o Museu do Trabalho Forçado sob o Nacional-Socialismo. A instalação ocupa parte do edifício onde estavam previstos os gabinetes de Sauckel e uma sala de receção das elites nazis. O local projetado para representar o poder passou a acolher uma investigação sobre a exploração que esse poder organizou. A exposição sobre a Bauhaus, realizada no mesmo ano, examinou também os percursos dos seus membros para além da história da escola. Já o Memorial de Buchenwald estuda o campo através das suas relações com a sociedade envolvente. Estas abordagens permitem relacionar histórias que, vistas separadamente, ficam incompletas. O teatro acolheu a Assembleia Constituinte e apresentou espetáculos para as SS; a Bauhaus sofreu ataques políticos, enquanto os seus antigos membros seguiram caminhos distintos; o centro urbano recebeu instalações nazis e o campo manteve ligações à cidade. Compreender Weimar exige acompanhar essas mudanças de função, de controlo e de participação, preservando a diferença entre cada instituição e cada percurso individual. Fontes institucionais Memorial de Buchenwald — O campo e os espetáculos no espaço das SS Bundestag — Assembleia Nacional de Weimar, 1919 UNESCO — Weimar Clássica USHMM — Nomeação de Hitler e destruição da democracia USHMM — Lei de Plenos Poderes: contexto e texto dos artigos Universidade Bauhaus de Weimar — História da escola Klassik Stiftung Weimar — Bauhaus e nacional-socialismo, exposição de 2024 Memorial de Buchenwald — Poder nazi e transformação urbana de Weimar Museu do Trabalho Forçado — Gauforum e responsabilidade de Sauckel Memorial de Buchenwald — Fundação do campo em 1937 Museu do Trabalho Forçado — Abertura em maio de 2024 #Cultura #Alemanha #Teatro
- Quem paga os anúncios de Trump?
Um anúncio pago pelo Governo dos Estados Unidos pode elogiar as políticas do Presidente. Pode explicar decisões da administração ou procurar convencer os cidadãos de que uma determinada política pública é acertada. As regras americanas sobre propaganda governamental não proíbem, por si só, uma comunicação oficial favorável às posições do poder executivo. A dificuldade aumenta quando o conteúdo se concentra no próprio Presidente. Vários anúncios televisivos protagonizados por Donald Trump e financiados com dinheiro público apresentam imagens do Presidente, recuperam a linguagem política associada à sua mensagem e incluem afirmações sobre as realizações da administração. Pelo menos uma das peças termina com a indicação de que foi paga pelo Governo dos Estados Unidos. Donald Trump no centro de uma campanha publicitária financiada pelo Governo dos Estados Unidos, que abriu uma discussão sobre os limites entre comunicação institucional e promoção política. A administração apresenta-as como mensagens de serviço público destinadas a promover o patriotismo. Os críticos consideram que o Estado está a financiar publicidade política centrada na figura do Presidente. Nos Estados Unidos existem restrições à utilização de verbas públicas para propaganda, regras sobre a atividade política de funcionários federais e critérios administrativos destinados a separar informação governamental de promoção partidária. Nenhum desses instrumentos, isoladamente, fornece uma resposta automática para estes anúncios. Anúncios de Trump e os limites da comunicação pública Os organismos federais podem explicar programas, justificar políticas e responder publicamente às críticas que lhes são dirigidas. O Government Accountability Office, o GAO, reconhece há décadas essas funções de informação. Donald Trump no centro de uma campanha publicitária financiada pelo Governo dos Estados Unidos Em 2010, o organismo analisou anúncios televisivos do Departamento de Saúde e Serviços Humanos relacionados com alterações ao Medicare e concluiu que não constituíam propaganda proibida. As peças identificavam o departamento responsável, informavam os beneficiários sobre alterações num programa público e não atribuíam os novos benefícios ao departamento ou aos seus responsáveis políticos. Havia também uma função administrativa concreta: informar os beneficiários do Medicare sobre alterações que lhes diziam respeito. O precedente deixa espaço considerável para a comunicação governamental. Uma administração não perde o direito de explicar uma política porque essa explicação a apresenta favoravelmente. Mas o conteúdo e a finalidade da despesa continuam sujeitos a escrutínio. A prática do GAO foi identificando três categorias particularmente relevantes: propaganda encoberta, autoengrandecimento e comunicação puramente partidária. A propaganda encoberta ocorre quando o Governo produz uma mensagem sem permitir que o público reconheça adequadamente a sua origem. Em 2005, por exemplo, o GAO advertiu organismos federais contra a utilização de notícias pré-produzidas que podiam chegar ao público sem identificação suficiente do Governo como fonte. Nos anúncios agora em discussão, o financiador é identificado. A indicação de que foram pagos pelo Governo dos Estados Unidos está visível. Resta saber o que está a ser promovido. O autoengrandecimento diz respeito à utilização da comunicação pública para promover o próprio organismo ou os seus responsáveis, em vez de cumprir uma finalidade pública autorizada. A comunicação partidária coloca um problema diferente, relacionado com a existência, ou ausência, de uma ligação real entre a mensagem e as funções oficiais do organismo que utiliza o dinheiro. O GAO tem estabelecido uma fasquia elevada para considerar uma comunicação puramente partidária. Uma mensagem pode ter conteúdo político e continuar relacionada com a obrigação de um organismo informar sobre as suas políticas e atividades. Para ultrapassar essa fronteira, a comunicação tem de estar desligada das funções oficiais e assumir natureza completamente política. Os anúncios de Trump ficam no espaço entre essas categorias. O que dizem os anúncios A Casa Branca classifica as peças como anúncios educativos de serviço público. Trump não está no boletim de voto e as mensagens não contêm um apelo explícito ao voto. A administração apresenta-as como uma forma de promover o patriotismo e recordar aos americanos aquilo que, na sua perspetiva, merece ser defendido. A presença do Presidente não basta para resolver a classificação jurídica. Presidentes aparecem regularmente na comunicação dos respetivos governos e são, por definição, responsáveis pela apresentação pública de muitas das suas políticas. O conteúdo destas peças vai além da identificação presidencial. Um dos anúncios apresenta Trump e enumera realizações atribuídas à sua presidência, incluindo reduções de impostos, política industrial e defesa da ordem pública, enquanto utiliza linguagem contra o comunismo, o socialismo e o marxismo. Outra peça recuperou material anteriormente associado à campanha presidencial de 2024, embora a anterior mensagem de mobilização política tenha sido substituída pela indicação de que o anúncio era pago pelo Governo dos Estados Unidos. Uma campanha sobre controlo fronteiriço pode corresponder diretamente às competências de um organismo federal. O mesmo sucede com publicidade destinada a explicar alterações fiscais ou o acesso a um programa público. Quando a peça enumera realizações presidenciais e recupera materiais usados numa campanha eleitoral anterior, a finalidade administrativa precisa de ser estabelecida por outros elementos. A identificação do Presidente, isoladamente, não esclarece para que função governamental foi produzida a mensagem. Vinte milhões de dólares Foram destinados 20 milhões de dólares à campanha publicitária, provenientes de fundos públicos ligados ao Departamento de Segurança Interna e à Customs and Border Protection. Nos primeiros dias de transmissão tinham sido gastos mais de 2,5 milhões de dólares. A origem da verba introduz outro elemento na avaliação. As regras federais sobre dotações não tratam o dinheiro público como uma verba indiferenciada. O Congresso aprova recursos para determinados organismos e finalidades, e a utilização posterior desses fundos tem de conservar uma relação com aquilo para que foram disponibilizados. O GAO já analisou contratos de comunicação verificando simultaneamente a origem da verba, a finalidade do serviço contratado e a eventual aplicação das proibições relativas a publicidade ou propaganda. Por isso, saber que o Governo pagou os anúncios é apenas uma parte da informação necessária. É preciso determinar qual a dotação utilizada e se a campanha corresponde às finalidades para as quais essa verba podia ser empregue. A ligação à Customs and Border Protection pode ser relevante para publicidade sobre fronteiras ou imigração. Torna-se menos direta quando uma peça apresenta um conjunto mais amplo de realizações presidenciais ou mensagens ideológicas sem uma relação evidente com essas competências. Essa relação terá de ser estabelecida através da finalidade formal da campanha, dos contratos e das decisões que autorizaram a despesa. O Capitólio, em Washington. O Congresso aprova as dotações federais e define as finalidades para as quais os organismos públicos podem utilizar essas verbas. Foto: United States Geological Survey / domínio público. A Hatch Act tem outra função A Hatch Act restringe determinadas atividades políticas dos funcionários federais. O Office of Special Counsel estabelece que os funcionários abrangidos não podem utilizar a autoridade ou influência oficial para interferir ou afetar o resultado de uma eleição. Existem igualmente limitações à atividade política durante o serviço, em instalações federais ou através de determinados recursos públicos. A definição está ligada à atividade dirigida ao sucesso ou fracasso de um partido, de um candidato a cargo partidário ou de um grupo político partidário. Trump aparece nos anúncios enquanto Presidente e não enquanto candidato nas eleições intercalares. A Casa Branca invoca precisamente esse facto na sua defesa. A análise não termina necessariamente aí. A aplicação da Hatch Act dependeria do papel desempenhado pelos funcionários envolvidos, do objetivo da atividade e da eventual relação entre a comunicação e o sucesso ou fracasso eleitoral das entidades abrangidas pela lei. Seria necessário saber quem decidiu produzir as peças, quem as autorizou, quem participou na sua elaboração e com que finalidade administrativa foi mobilizado o dinheiro público. Essas perguntas pertencem a uma investigação sobre a execução da campanha, não podem ser respondidas apenas pela visualização dos anúncios. A fronteira não está no rosto do Presidente Os precedentes administrativos não permitem concluir que toda a publicidade favorável a um Presidente seja ilícita. Também não permitem concluir que a identificação do Governo como financiador torne legítimo qualquer conteúdo. No caso dos anúncios do Medicare analisados em 2010, o GAO encontrou uma relação direta entre a mensagem e a responsabilidade do departamento de informar os beneficiários. O organismo salientou ainda que os anúncios não atribuíam os benefícios anunciados aos responsáveis políticos. Nos anúncios atuais, a administração invoca educação pública e promoção do patriotismo como finalidades. Parte do conteúdo, porém, apresenta realizações de Trump e utiliza elementos anteriormente associados à sua comunicação eleitoral. A apreciação jurídica acaba por depender de elementos bastante concretos: a verba utilizada, as competências do organismo que a disponibilizou, a finalidade constante do contrato, as decisões dos funcionários responsáveis e o conteúdo efetivamente difundido. A frase «Pago pelo Governo dos EUA» esclarece a autoria financeira e afasta uma parte do problema que existe na propaganda encoberta. Não esclarece se a despesa tinha uma finalidade autorizada nem se o conteúdo permaneceu dentro dessa finalidade. É nesse ponto que permanece a controvérsia. O Governo tem margem para explicar e defender as suas políticas, incluindo através do Presidente. Quando o dinheiro de um organismo federal financia uma mensagem centrada nas realizações e na linguagem política desse Presidente, a legalidade já não depende apenas de quem aparece no anúncio. Depende da relação que o Governo consiga estabelecer entre aquela mensagem, a função pública invocada e a verba que pagou por ela. #EstadosUnidos #politicainternacional #Trump
- Israel nos EUA: a erosão do apoio chega ao Senado
No dia 7 de outubro de 2026, Israel assinalou pela primeira vez o aniversário do ataque do Hamas sem nenhum refém em Gaza. Nos Estados Unidos, a medição de fevereiro do Gallup tinha registado uma situação inédita: 41% diziam simpatizar mais com os palestinianos e 36% com os israelitas, uma diferença sem significado estatístico. Em fevereiro de 2023, meses antes do ataque, a relação era de 54% para 31% a favor dos israelitas. O capítulo dos reféns está encerrado em Israel. O saldo de simpatia por Israel nos EUA diminuiu, e a descida começou antes da guerra. Israel nos EUA: uma mudança anterior à guerra O Gallup situa por volta de 2017 o início da deslocação entre os democratas. Em 2016, cerca de metade simpatizava mais com os israelitas e cerca de um quarto com os palestinianos. Em 2026, são cerca de dois terços do lado palestiniano e cerca de dois em cada dez do lado israelita. Entre os mais novos, a inclinação vem de 2020. Este ano, os independentes passaram, pela primeira vez na série, a simpatizar mais com os palestinianos. O apoio a Israel nos EUA diminuiu nas sondagens, enquanto cresceu no Senado a oposição às vendas de armamento. Ilustração editorial criada para o Atlantic Lisbon. O saldo a favor de Israel era de 23 pontos em fevereiro de 2023 e de 13 em fevereiro de 2025, com 46% contra 33%. Em fevereiro de 2026, passou a cinco pontos contra. Entre as duas últimas medições, foram dez pontos a menos para os israelitas e oito a mais para os palestinianos. Esse intervalo cobre o cessar-fogo de outubro de 2025 e os meses seguintes, em que, segundo a Reuters, os ataques israelitas continuaram. Cerca de sete em cada dez republicanos continuam a simpatizar mais com os israelitas, segundo o Gallup, quando antes da guerra eram cerca de oito em cada dez. O Pew Research Center, num inquérito de março realizado durante a guerra do Irão, encontrou 57% dos republicanos e dos independentes próximos do partido entre os 18 e os 49 anos com uma opinião desfavorável de Israel, contra 50% um ano antes. Acima dos 50 anos, permanecem em grande maioria favoráveis. No conjunto dos americanos, 60% têm uma opinião desfavorável; entre os democratas e os independentes próximos do partido, são cerca de oito em cada dez. Uma série mede simpatia, a outra mede opinião sobre o país, por isso não se somam. Mas apontam para o mesmo lado e incluem republicanos mais novos que uma explicação do apoio a Israel nos EUA centrada num só partido deixa por explicar. O Capitólio dos Estados Unidos, em Washington. As votações do Senado mostram uma mudança no apoio parlamentar a vendas de armamento a Israel. Noclip, via Wikimedia Commons. Domínio público. O descontentamento chega às votações do Senado A 15 de abril de 2026, o Senado rejeitou duas moções para fazer avançar resoluções de Bernie Sanders destinadas a impedir a venda de bulldozers e de bombas a Israel, por 40 votos contra 59 e por 36 contra 63, sem um único republicano a favor. Quarenta dos 47 senadores do bloco democrata votaram para bloquear os bulldozers e 36 para bloquear as bombas, quando votações do mesmo tipo tinham reunido 27 votos em 2025 e 18 em 2024. Mark Kelly, Jon Ossoff, Elissa Slotkin, Cory Booker e Ruben Gallego estavam entre os que o fizeram pela primeira vez. Chuck Schumer ficou com a minoria. No mesmo dia, o Senado rejeitou, por 47 votos contra 52, uma moção para fazer avançar uma resolução destinada a travar a guerra que Trump lançou com Israel contra o Irão em fevereiro, sem aprovação do Congresso. A AP leu as votações sobre armamento como um sinal de descontentamento com Netanyahu e com as guerras de Gaza e do Irão. Sanders ligou as duas votações de modo expresso, defendendo que quem vota contra a guerra não pode votar a favor das armas que a alimentam. Nos inquéritos consultados, não há uma medida de quanto pesa cada uma das duas guerras na decisão de senadores ou eleitores. Bernie Sanders, num retrato oficial de 2007. Em abril de 2026, promoveu as iniciativas para bloquear vendas de bulldozers e bombas a Israel. Congresso dos EUA, via Wikimedia Commons. Domínio público. Depois do cessar-fogo de 10 de outubro de 2025, a Reuters descreve os combates de maior dimensão como interrompidos, mas não o fim dos ataques israelitas nem o desarmamento do Hamas. As autoridades de saúde de Gaza contam mais de 1.400 mortos desde essa data, sem distinguir civis de combatentes, e mais de 74.200 no total, número que a AFP diz ser considerado fiável pela ONU. Israel afirma controlar mais de 60% do território e diz que não recua sem o desarmamento total. O Hamas diz que aceitou um desarmamento por fases, mas não desarma enquanto os ataques continuarem. Com estes dados, não é possível dizer quanto da queda medida pelo Gallup entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026 pertence a estes meses. O Michigan será um teste político Zohran Mamdani venceu a eleição para a Câmara Municipal de Nova Iorque depois de prometer ordenar a prisão de Netanyahu em caso de visita. Em julho de 2026, reconheceu que a cidade não tem autoridade legal para executar o mandado do Tribunal Penal Internacional e pediu ao governo federal que o fizesse. Abdul El-Sayed, apoiado por Sanders e Ocasio-Cortez, ganhou por escassa margem a primária democrata do Michigan a 4 de agosto, derrotando Haley Stevens, em quem o aparelho do partido se tinha concentrado. Enfrenta o republicano Mike Rogers num estado que Trump ganhou em 2024. O Cook Political Report classifica a corrida como toss-up, sem vantagem clara para nenhum dos candidatos. Capitólio do estado do Michigan, em Lansing, fotografado em julho de 2025. O estado é um dos palcos da disputa eleitoral de novembro; o edifício não é a sede do Senado federal. Roguerenaissance, via Wikimedia Commons. Domínio público (CC0). A deslocação democrata vem de 2017, a guerra de Gaza coincidiu com uma aceleração da mudança e a erosão entre republicanos mais novos mostra que a opinião sobre Israel nos EUA já não depende de um só partido. Em 2026, o voto parlamentar aparece associado ao descontentamento com Netanyahu e com as guerras de Gaza e do Irão, na leitura da AP. O facto mais forte está nas votações do Senado: 18 votos em 2024, 27 em 2025 e 40 em 2026 para bloquear armamento, embora as propostas não sejam idênticas. O que ainda não existe é prova de que os eleitores decidam o voto por causa disto. A eleição de novembro no Michigan será um teste político, mas o resultado, por si só, não permitirá medir quanto pesou Israel na escolha dos eleitores. Fontes e notas de leitura As sondagens citadas foram realizadas em fevereiro e março de 2026. Simpatia pelos israelitas ou palestinianos e opinião favorável ou desfavorável de Israel são medidas diferentes. As votações de 2024, 2025 e 2026 incidiram sobre propostas distintas e não constituem uma medição direta das motivações eleitorais. Gallup · Pew Research Center · Senado dos Estados Unidos · Comunicado de Bernie Sanders · Reuters: cessar-fogo e desarmamento · Reuters: os limites da promessa de Mamdani · Associated Press: o regresso de todos os reféns Continue a leitura Dois artigos do Atlantic Lisbon para aprofundar este assunto. Stockton University apaga um texto sobre Gaza O debate sobre Gaza também atravessa as universidades norte-americanas. Este artigo examina a retirada de uma mensagem académica após a intervenção de um doador. Netanyahu e o Desmantelamento da Democracia Israelita Para aprofundar o contexto político israelita: um ensaio sobre o poder judicial, a guerra e as escolhas do Governo de Netanyahu. #EstadosUnidos #Israel #politicainternacional
- Chamaram-lhe justiça. A cadeira não notou a diferença
Há sentenças que acabam quando são lidas. Outras só começam quando são executadas. Quando a justiça se senta na cadeira da morte, já não julga apenas o condenado. Julga-se também a si própria. #Cartoon #EstadosUnidos #Justiça #DireitosHumanos #Humor
- Pedro Sánchez: quando o ódio se torna identidade política
A oposição a Pedro Sánchez ultrapassou, em alguns setores da direita espanhola, a disputa sobre decisões do Governo. O primeiro-ministro tornou-se uma figura à volta do qual se organizam sentimentos de rejeição que abrangem a sua pessoa, os acordos parlamentares que sustentam o executivo e a própria legitimidade das alianças estabelecidas desde a sua chegada ao poder. A contestação reúne manifestações de rua, discursos parlamentares, intervenções nas redes sociais e mobilizações promovidas por diferentes organizações. Não se limita aos partidos. Nem todos os participantes partilham as mesmas posições, mas encontram na oposição a Pedro Sánchez um elemento de identificação comum. O que acontece quando a rejeição de um governante deixa de depender principalmente das suas políticas e passa a funcionar como princípio de organização de um campo político? Pedro Sánchez chegou à presidência do Governo em junho de 2018, depois de uma moção de censura que afastou Mariano Rajoy. Desde então, a sua permanência no poder dependeu de diferentes combinações parlamentares, incluindo acordos com forças que defendem uma maior autonomia ou a independência de territórios espanhóis. Estas alianças tornaram-se um dos principais argumentos utilizados pelos adversários. Pedro Sánchez e Nancy Pelosi durante a COP25, em Madrid, em 2 de dezembro de 2019. Fotografia de arquivo. Crédito: gabinete da presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, via Wikimedia Commons. Domínio público. Pedro Sánchez e o conflito territorial A relação com os partidos independentistas catalães adquiriu particular importância depois das eleições gerais de julho de 2023. A aprovação da lei de amnistia relacionada com o processo independentista catalão intensificou o confronto. Para os seus defensores, a medida procurou reduzir um conflito territorial prolongado e facilitar a normalização institucional. Para os opositores, representou uma cedência destinada a assegurar a continuidade de Pedro Sánchez no Governo. A divergência não dizia respeito apenas aos efeitos jurídicos da amnistia. Envolvia interpretações diferentes sobre a unidade do Estado, a igualdade perante a lei e os limites dos compromissos parlamentares. A partir desse conflito, a oposição passou a incorporar uma discussão mais ampla sobre a legitimidade das decisões governativas. O Vox desempenha um papel importante na transformação da contestação numa mobilização identitária. Combina posições nacionalistas, oposição a determinadas políticas de imigração e críticas a mudanças sociais e culturais que associa à esquerda. A defesa da unidade territorial espanhola ocupa uma posição central no seu discurso. A contestação a Pedro Sánchez permite reunir estas dimensões numa mensagem relativamente simples. O primeiro-ministro é apresentado como responsável por decisões que, na perspetiva do partido, ameaçam a continuidade institucional e cultural de Espanha. Quando um dirigente político passa a representar um conjunto de transformações consideradas indesejáveis, a rejeição da sua figura pode tornar-se mais importante do que a discussão isolada de cada política. A personalização facilita a mobilização, mas também reduz o espaço para compromissos. Uma concessão parlamentar pode ser interpretada não como resultado de uma negociação, mas como confirmação de uma ameaça previamente identificada. Pedro Sánchez entre o PP e o Vox O Partido Popular enfrenta uma dificuldade diferente. Enquanto principal força da direita tradicional, procura apresentar-se como alternativa de governo. Ao mesmo tempo, disputa com o Vox parte do eleitorado que rejeita profundamente Pedro Sánchez. Um discurso mais moderado pode facilitar a aproximação a eleitores centristas, mas corre o risco de ser apresentado pelo Vox como insuficientemente firme. Uma oposição mais agressiva pode mobilizar o eleitorado conservador, mas dificultar a construção de uma alternativa capaz de conquistar apoios fora desse campo. A fragmentação parlamentar espanhola agrava o problema. A possibilidade de formar governo depende frequentemente de acordos entre partidos com posições diferentes sobre questões territoriais, económicas e sociais. O PP precisa de avaliar não apenas a capacidade de vencer eleições, mas também a possibilidade de reunir apoios suficientes para governar. A relação com o Vox torna-se uma questão estratégica que ultrapassa as divergências programáticas. Palácio das Cortes, sede do Congresso dos Deputados espanhol, em 7 de novembro de 2023. As maiorias parlamentares determinam a possibilidade de formar e sustentar um governo. Fotografia: Alberto-g-rovi, via Wikimedia Commons. Domínio público, CC0 1.0. A oposição desempenha uma função essencial nas democracias parlamentares. Fiscaliza o Governo, apresenta alternativas e permite aos eleitores avaliar diferentes propostas. A crítica intensa a um primeiro-ministro não constitui, por si só, um sinal de deterioração democrática. A dificuldade surge quando a identidade política passa a depender sobretudo da rejeição de uma pessoa ou de um grupo. Os argumentos utilizados para contestar uma decisão podem perder importância relativamente à necessidade de demonstrar oposição. Uma medida pode ser rejeitada não apenas pelo conteúdo, mas por ter sido apresentada por um adversário considerado ilegítimo. As democracias parlamentares exigem negociação, especialmente quando nenhum partido dispõe de maioria absoluta. Se qualquer compromisso for interpretado como traição, torna-se mais difícil formar governos e aprovar políticas duradouras. A polarização não impede necessariamente o funcionamento das instituições. Pode aumentar os custos políticos da cooperação. A mobilização nas ruas faz parte da vida democrática espanhola. Permite expressar posições que não encontram representação suficiente nas decisões governativas ou que pretendem influenciar o debate público. A participação em protestos contra Pedro Sánchez não significa que todos os manifestantes rejeitem o sistema democrático. Existem diferenças entre contestar uma lei, exigir eleições antecipadas, defender a demissão de um governante e negar legitimidade às instituições que permitem a sua permanência no poder. Um primeiro-ministro pode enfrentar uma forte oposição social e continuar a exercer legitimamente as suas funções enquanto dispuser do apoio parlamentar constitucionalmente exigido. Da mesma forma, a existência desse apoio não elimina o direito de contestar decisões. O problema político surge quando a discussão sobre legitimidade deixa de reconhecer a diferença entre a oposição democrática e a rejeição das regras institucionais. A organização territorial continua a ser uma das principais fontes de conflito. A Constituição de 1978 estabeleceu um modelo de autonomias que permitiu reconhecer diferenças territoriais dentro de um Estado comum. Esse modelo não eliminou as reivindicações independentistas, particularmente na Catalunha e no País Basco. Os acontecimentos relacionados com o referendo catalão de 2017 demonstraram a profundidade das divergências sobre soberania, legalidade e autodeterminação. As negociações posteriores entre governos espanhóis e partidos catalães procuraram responder a parte destas tensões, mas produziram novas divisões. Para alguns setores, o diálogo representa uma condição necessária para preservar a convivência política. Para outros, determinados compromissos colocam em causa princípios constitucionais. Pedro Sánchez tornou-se uma figura central neste confronto porque a sua estratégia parlamentar dependeu de entendimentos com partidos nacionalistas e independentistas. A oposição passou a incorporar uma disputa sobre a própria definição do Estado espanhol. Sala de sessões do Parlamento da Catalunha, numa imagem de arquivo de dezembro de 2017. A organização territorial é uma das matérias centrais da disputa política espanhola. Fotografia: Iván Melenchón Serrano, via Wikimedia Commons. Domínio público, CC0 1.0. Os partidos não oferecem apenas programas de governo. Proporcionam referências coletivas, símbolos e formas de participação. Em contextos de forte polarização, a identificação com um campo político pode ser reforçada pela oposição ao campo adversário. A dinâmica permite reunir pessoas com interesses diferentes em torno de uma rejeição comum. Um eleitor pode discordar de determinadas propostas económicas de um partido e, ainda assim, apoiá-lo por considerar prioritária a derrota do adversário. Uma competição em que a mobilização emocional adquire maior importância do que a comparação entre políticas públicas não é exclusiva de Espanha. Em diferentes democracias, a personalização da política e a fragmentação dos meios de comunicação contribuíram para aumentar a visibilidade de conflitos centrados em dirigentes individuais. As redes sociais podem intensificar esta dinâmica ao favorecer mensagens simples, facilmente identificáveis e capazes de provocar reações imediatas. As divergências territoriais, as decisões governativas e a competição partidária espanhola têm causas anteriores à expansão dessas redes. A oposição a Pedro Sánchez e a alternância A rejeição de Pedro Sánchez pode constituir um instrumento eficaz de mobilização eleitoral. Mas a capacidade de reunir eleitores contra um governante não garante a existência de uma maioria capaz de sustentar uma alternativa. O PP e o Vox representam sensibilidades diferentes, apesar de partilharem a oposição ao executivo socialista. As divergências sobre política europeia, questões sociais e estratégias de governação podem tornar-se mais visíveis quando deixam de discutir apenas a permanência de Sánchez. A passagem da oposição para o governo exige decisões concretas. É necessário negociar orçamentos, definir prioridades económicas e assumir responsabilidades perante diferentes grupos sociais. Uma coligação construída sobretudo em torno da rejeição de um adversário pode encontrar dificuldades quando precisa de estabelecer objetivos comuns. A unidade na oposição não equivale automaticamente à unidade na governação. Se a oposição a Pedro Sánchez funciona como elemento central de identificação de parte da direita, a sua saída do Governo poderá obrigar esses setores a redefinir prioridades e relações internas. O desaparecimento de um adversário comum não elimina as divergências entre partidos que competem pelo mesmo eleitorado. Também não resolve os conflitos territoriais, económicos e sociais que alimentaram a polarização. Uma mudança de governo pode alterar políticas e a distribuição do poder, mas não garante uma transformação imediata da cultura política. O desafio das instituições espanholas consiste em preservar a possibilidade de alternância sem transformar cada vitória eleitoral numa disputa sobre a legitimidade do adversário. A democracia permite que forças profundamente diferentes se confrontem e procurem substituir-se no poder. A sua continuidade depende do reconhecimento de regras comuns. A rejeição de Pedro Sánchez tornou-se um dos elementos mais visíveis da competição política espanhola. Resta saber se a mobilização conseguirá produzir uma alternativa de governo ou se continuará a alimentar uma divisão cuja intensidade ultrapassa as diferenças concretas entre programas. A resposta dependerá das escolhas do PP e do Vox, mas também da capacidade dos restantes partidos para reconstruir espaços de negociação. Fontes documentais Congresso dos Deputados: moções de censura · BOE: Lei Orgânica 1/2024, de amnistia · Vox: mobilização contra a amnistia Continue a leitura Ultradireita em Espanha: quem decidirá o governo? A relação entre o PP e o Vox coloca outra questão: como transformar uma eventual maioria eleitoral num acordo para governar. O mercado político do ódio útil Um ensaio sobre Portugal que examina como a rejeição do adversário pode criar pertença política e deslocar a discussão sobre interesses e políticas públicas. #politicainternacional #Europa #Espanha #politicaspublicas #Governo
- Negros na Argentina: a categoria que mudou entre 1838 e 1887
Em 1838, o recenseamento municipal de Buenos Aires contou 62 957 habitantes, dos quais 14 928 foram registados como afrodescendentes, 23,7% do total. Em 1887, o recenseamento seguinte contou 425 370 habitantes e 8 005 afrodescendentes, menos de 2%. Em cinquenta anos, a população total multiplicou-se por quase sete e a categoria baixou cerca de 46% em números absolutos. A diferença costuma ser lida como destino de pessoas e explicada pela dimensão do tráfico, pelas guerras ou pela imigração. O que as fontes permitem afirmar sobre os negros na Argentina é mais estreito. Mostram uma categoria de registo que encolheu, e a distância entre isso e o desaparecimento de seis ou sete mil pessoas é onde está a discussão historiográfica. Negros na Argentina e o tráfico no Rio da Prata Circula a explicação de que a Argentina foi um destino secundário do tráfico atlântico, com uma pecuária que dispensava braços escravizados. Se a pecuária dispensava ou não, as fontes consultadas não resolvem. Mostram que a mão de obra africana estava noutros sítios. Entre 1587 e 1640, cerca de 30 mil africanos desembarcaram em Buenos Aires em navios portugueses, e antes de 1645 os escravos chegaram a valer dois terços de tudo o que o porto importava, segundo Alex Borucki, historiador da Universidade da Califórnia em Irvine. O interior também não era um vazio demográfico. O censo de 1778 aponta mais de metade de população de origem africana em Catamarca com 74%, Tucumán com 64% e Santiago del Estero com 54%, e 44% na cidade de Córdoba. Para Buenos Aires, as compilações divergem: Erika Edwards, que reproduz valores de Ricardo Rodríguez Molas, dá 24%; Omer Freixa, que cita Daniel Picotti, fala em cerca de 40%. As cifras dependem do território e da fonte, e não foram aqui confrontadas com o censo original. A direção é a mesma em todas. «Vendedora de tortas», litografia de César Hipólito Bacle, cerca de 1833. A presença dos negros na Argentina também ficou registada nas representações dos ofícios urbanos. Fonte: Archivo General de la Nación Argentina, via Wikimedia Commons. Domínio público. Quanto ao volume total, Borucki estima que, entre 1585 e 1835, tenham chegado ao Rio da Prata cerca de 200 mil africanos escravizados, 90 mil diretamente de África e os restantes por via do Brasil. A base das viagens transatlânticas só contém as primeiras. A das viagens intra-americanas regista 52 400 cativos vindos do Brasil, e Borucki calcula mais 47 400 entrados por Colónia do Sacramento que não constam de nenhuma das duas. O período de maior afluxo foi de 1777 a 1812, com perto de 70 mil. Quem se fica pela primeira base obtém, portanto, um número inferior ao que a investigação especializada considera provável. Em 1808, a fragata portuguesa Luisa entrou em Montevideu com 230 cativos, depois de embarcar 337 em Moçambique, e as autoridades sanitárias mandaram desembarcá-los fora da cidade, no Caserío de los Negros, onde se faziam as quarentenas. Parte dos cativos seguia dali para Buenos Aires, Mendoza, os Andes, Valparaíso e Lima. O encarregado da carga do navio americano Tyre, Stephen Dexter, anotou em 1801 que cerca de três mil negros por ano eram assim encaminhados de Buenos Aires para o Peru. Borucki julga o valor provavelmente excessivo, mas aceita um fluxo de pelo menos 1500 a 2000. A dimensão do tráfico dá uma ordem de grandeza das chegadas e nada diz sobre quantos ficaram. Guerra, epidemia e memória Perante a quebra, duas explicações ficaram na memória: a Guerra do Paraguai, de 1865 a 1870, e a epidemia de febre amarela de 1871. Em 2005, o Washington Post descrevia-as como as duas hipóteses que o mito popular oferecia. Segundo o resumo que Freixa faz de George Reid Andrews, o historiador que mais estudou o tema, nenhuma das duas tem apoio estatístico direto. Da guerra constam apenas dois batalhões de combatentes afro-argentinos, sem listas da sua composição. Dos óbitos de 1871 com raça indicada, só 268 em 17 729 foram de afro-argentinos. O mesmo resumo acrescenta que as estatísticas de casamentos e de óbitos posteriores a 1871 mostram uma quebra absoluta, pelo que a epidemia pode ter pesado mais do que aqueles números sugerem. Nem a hipótese está provada nem está afastada. «Un episodio de la fiebre amarilla en Buenos Aires», de Juan Manuel Blanes, 1871. A pintura evoca a epidemia, mas não estabelece o seu impacto demográfico sobre os negros na Argentina. Fonte: Museo Nacional de Artes Visuales, Montevideu, via Wikimedia Commons. Domínio público. María Remedios del Valle, nascida em Buenos Aires por volta de 1766, juntou-se ao Exército do Norte em julho de 1810 com o marido e os filhos, e Belgrano deu-lhe o título de capitã. A Junta de Representantes de Buenos Aires concedeu-lhe em 1828 uma pensão de 30 pesos mensais, com efeitos desde março de 1827. Morreu em 1847, e a lei 26 852, de 2013, fixou o dia 8 de novembro, a data tradicionalmente dada para a sua morte, como Dia Nacional dos Afro-argentinos e da Cultura Afro. Casos individuais como o dela não dão, porém, a dimensão do conjunto. As palavras que mudaram os registos Em Buenos Aires, pouco depois da independência, passou a usar-se "trigueño", cor de trigo, em listas de presos, de funcionários municipais e de recrutas do exército. Aplicava-se a mulatos e mestiços de pele clara, mas também a europeus morenos, sicilianos, andaluzes e portugueses, segundo Edwards. Uma pessoa registada como trigueña saía da categoria negra sem que ninguém precisasse de afirmar que era branca. A este deslocamento da população negra para categorias mais claras, por mistura racial somada à ambiguidade das palavras dos registos, Andrews deu o nome de "lightening", aclaramento. Edwards seguiu indivíduos nos recenseamentos de Córdoba. Josefa Rodríguez, escrava negra em 1813, aparece como parda livre em 1822. O censo da cidade de 1840 já não tinha categoria racial. Em Córdoba, conclui a historiadora, a população foi aclarada antes de ser branqueada. Em 1895, 52% dos habitantes da cidade de Buenos Aires tinham nascido no estrangeiro, e no país inteiro eram 25,4%, mais de um milhão em quase quatro milhões. Alberdi e Sarmiento tinham pedido imigrantes para povoar e governar, e os intelectuais da época olhavam para a Europa como modelo. Em 1905, a revista Caras y Caretas descrevia a população negra como uma raça que perdia na mistura a sua cor primitiva. Lia o fenómeno como diluição, e não como extinção. Antigo Hotel de Inmigrantes, em Retiro, Buenos Aires, 1880. A imigração alterou a composição da população e o peso percentual dos negros na Argentina. Fotógrafo não identificado. Fonte: Archivo General de la Nación Argentina, via Wikimedia Commons. Domínio público. A imigração, porém, explica a queda da percentagem e não a do número absoluto. Entre 1838 e 1887 a categoria perdeu cerca de 6 900 registos, e isso só se explica por mortalidade, por emigração ou por reclassificação. Para a reclassificação há práticas documentadas, as de Buenos Aires e as de Córdoba. A sua dimensão não se conhece, e não está estabelecido que "afrodescendentes" em 1838 e em 1887 designe o mesmo conjunto de pessoas. Freixa vai mais longe do que Andrews e vê no processo uma estratégia deliberada das elites para tornar invisível a presença negra. Para a intenção, os textos que apresenta são sobretudo de intelectuais, e mostram uma preferência, não um método. Menciona também práticas de extermínio sem as documentar. A leitura demográfica, que privilegia a imigração e a mistura, dispensa a intenção e, como se viu, não chega para a queda do número absoluto. O que contam os censos atuais Em 2010, o recenseamento nacional incluiu pela primeira vez uma pergunta sobre afrodescendência, numa amostra de lares, e contou 149 493 pessoas, 0,37% da população. Em 2022, a pergunta passou ao questionário geral e 302 936 pessoas declararam-se afrodescendentes ou com antepassados negros ou africanos. O critério passou a ser a resposta de quem é recenseado e inclui a ascendência, uma formulação que as categorias de 1838 e 1887 não tinham, até onde as fontes consultadas permitem dizer. Por isso, estes números não são comparáveis com os daquelas datas. Negros na Argentina: ilustração editorial sobre os registos censitários de 1838 e 1887. Imagem criada para o Atlantic Lisbon. #identidadecultural #Argentina #ArquivoLiterário
- Destruição de Gaza: os limites do controlo militar
A destruição de edifícios, estradas e infraestruturas na Faixa de Gaza prossegue num território onde as operações militares israelitas continuam a determinar as condições de vida da população. Um ano depois do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, a ausência de uma solução política duradoura mantém em aberto questões sobre a segurança, a deslocação de civis, a reconstrução e a administração territorial. A destruição de Gaza pode condicionar durante anos a possibilidade de regresso dos habitantes, a recuperação da economia e o funcionamento de instituições civis. Os efeitos da destruição de um bairro não terminam quando cessam os bombardeamentos. Ficam escombros, dificuldades de circulação, perda de habitações e a necessidade de reconstruir serviços essenciais. A questão que fica não se responde apenas com os objetivos de segurança anunciados: que condições existirão para a população palestiniana viver no território quando as operações terminarem? A destruição de Gaza e as condições de regresso As operações alteram a configuração física dos territórios onde decorrem. A demolição de edifícios, a abertura de corredores militares e a criação de zonas de segurança podem modificar o acesso a bairros, terrenos agrícolas e vias de comunicação. Em Gaza, com a elevada densidade populacional e reduzida dimensão, a perda de habitação não é apenas a perda de património privado. Interrompe relações de vizinhança, afasta famílias dos locais de trabalho e impede o acesso a escolas ou unidades de saúde. A Faixa de Gaza e a costa do Mediterrâneo numa imagem de arquivo publicada em 1997, usada para enquadrar a geografia do território. Crédito: NASA/JPL, KidSat. Domínio público. Regressar exige mais do que atravessar determinada área. É preciso que a habitação exista ou possa ser recuperada, que haja água potável, saneamento, eletricidade e condições mínimas de segurança. A presença de munições não detonadas e de estruturas instáveis pode prolongar a impossibilidade de utilização de terrenos e edifícios. A reconstrução após a destruição de Gaza depende, por isso, de decisões militares, administrativas e financeiras que ultrapassam o momento em que os combates cessam. O controlo militar pode assumir formas diferentes. Uma força pode ocupar permanentemente determinadas posições, patrulhar zonas específicas ou impedir o acesso a áreas estratégicas. Pode também exercer influência sem manter uma presença contínua em todos os pontos. Para a população civil, a diferença conta. A existência de uma zona sob controlo militar não esclarece, por si só, quem administra os serviços públicos, quem autoriza obras ou quem responde pela manutenção das infraestruturas. A destruição de Gaza: Controlo militar e obrigações jurídicas Nos termos do Regulamento anexo à Convenção da Haia de 1907 e da Quarta Convenção de Genebra de 1949, a existência de ocupação e as obrigações correspondentes dependem de circunstâncias concretas, incluindo a autoridade efetivamente exercida sobre o território. A qualificação jurídica não resulta apenas da designação utilizada por uma das partes. O Comité Internacional da Cruz Vermelha considera Gaza território ocupado, em função do controlo efetivo exercido por Israel. A extensão e as consequências desse controlo envolvem o acesso, a segurança, a administração e a capacidade de decisão sobre a vida civil. É preciso distinguir os objetivos militares declarados da autoridade efetivamente exercida. Atlantic Lisbon | O outono também se lê devagar Israel justifica as operações pela necessidade de impedir novos ataques e neutralizar as capacidades militares do Hamas e de outros grupos armados. A proteção da população israelita constitui uma obrigação do Estado, que deve ser cumprida dentro dos limites estabelecidos pelo direito internacional. A necessidade militar não elimina as regras relativas à distinção entre combatentes e civis, à proporcionalidade dos ataques ou às precauções destinadas a reduzir os danos sobre a população. A destruição de bens civis também está sujeita a restrições. Em território ocupado, o artigo 53.º da Quarta Convenção de Genebra proíbe a destruição de bens pela potência ocupante, salvo quando seja absolutamente necessária às operações militares. Esta exceção não afasta as regras aplicáveis à condução dos ataques. A avaliação de cada situação depende das circunstâncias e não pode ser substituída por uma conclusão geral sobre todas as operações. Uma operação dirigida contra uma instalação utilizada para fins militares coloca questões jurídicas diferentes da destruição de habitações sem justificação militar demonstrável. A extensão dos danos, a finalidade das operações e os efeitos previsíveis sobre os civis são elementos relevantes para essa avaliação. A deslocação de habitantes é uma das consequências mais duradouras da guerra. As famílias abandonam as casas para escapar às operações militares e descobrem depois que já não existem condições para regressar. A destruição de Gaza pode transformar uma deslocação inicialmente temporária numa situação prolongada. Isto não depende apenas da intenção declarada de quem executa as operações. Depende das condições efetivas que permanecem no terreno. Uma família impedida de regressar porque a casa foi destruída enfrenta uma realidade diferente da de uma família que pode recuperar a habitação depois de cessarem os combates. O regresso exige segurança física, acesso a bens essenciais e condições para retomar a vida quotidiana. A escassez de materiais, a necessidade de remover escombros e as restrições à circulação de pessoas e mercadorias podem dificultar a reconstrução. Quando as dificuldades se prolongam, a deslocação deixa de ser uma consequência imediata e passa a influenciar a organização futura do território. Reconstruir depois da destruição de Gaza Reconstruir exige financiamento, capacidade administrativa e garantias de segurança. A recuperação de redes de abastecimento de água, hospitais, escolas e estradas dificilmente pode ser assegurada apenas por organizações humanitárias. É necessário determinar quem autoriza os projetos, quem controla a entrada de materiais e quem assume a responsabilidade pela manutenção dos serviços depois de concluídas as obras. Estas decisões estão diretamente relacionadas com o futuro político do território. A ausência de um modelo de administração reconhecido e operacional pode atrasar os investimentos e comprometer a continuidade dos serviços. Os financiadores internacionais precisam de avaliar as condições em que os recursos serão utilizados. A possibilidade de novas operações militares constitui um risco para as infraestruturas reconstruídas. A recuperação económica exige ainda o restabelecimento de atividades produtivas e comerciais. A reconstrução física após a destruição de Gaza pode criar condições para o regresso da população, mas não garante, isoladamente, a recuperação dos meios de subsistência. Camiões com ajuda humanitária atravessam o cais temporário Trident em direção à praia de Gaza, em 17 de maio de 2024. Imagem de arquivo. Crédito: Kelby Sanders, U.S. Navy/DVIDS. Domínio público. As decisões tomadas durante a guerra podem determinar as possibilidades políticas disponíveis depois dela. A localização de zonas militares, a destruição de infraestruturas e as restrições à circulação influenciam a continuidade territorial e a capacidade de administração civil. Uma solução política que pressuponha a liberdade de circulação e o funcionamento de instituições locais torna-se mais difícil se o território permanecer dividido por zonas de acesso condicionado. Da mesma forma, a reconstrução de bairros e serviços públicos exige previsibilidade sobre as condições de segurança. O futuro político não pode ser inteiramente separado da destruição de Gaza. As decisões relativas ao território produzem consequências que podem sobreviver aos objetivos militares que inicialmente as justificaram. A destruição de Gaza: Da assistência à administração civil A proteção dos civis constitui uma obrigação central do direito internacional humanitário. As partes num conflito devem respeitar as regras aplicáveis à condução das hostilidades. Quando existe ocupação, acrescem obrigações específicas para a potência ocupante, determinadas pela situação de controlo efetivo. Estas responsabilidades não desaparecem por falta de uma solução política definitiva. A população civil continua a necessitar de habitação, alimentação, assistência médica e serviços básicos, independentemente das divergências sobre a administração futura. A assistência humanitária pode aliviar as necessidades imediatas, mas não substitui o funcionamento regular de instituições civis. Uma sociedade não pode depender indefinidamente de operações de emergência para assegurar todas as necessidades essenciais. É preciso passar da assistência à reconstrução e, posteriormente, à administração quotidiana. Inspeção de paletes de refeições destinadas a lançamento aéreo sobre Gaza, em 12 de março de 2024, num local não divulgado. Imagem de arquivo. Crédito: Mikayla Fritz, U.S. Army/DVIDS. Domínio público. A dimensão territorial da guerra não pode ser avaliada apenas através das posições militares. Importa conhecer a extensão das áreas destruídas, a possibilidade de acesso da população, a situação das infraestruturas e as condições necessárias à reconstrução. O controlo militar pode oferecer vantagens de segurança a quem o exerce. Não resolve, por si só, os problemas associados à permanência de uma população civil num território profundamente danificado. A destruição de Gaza também não determina automaticamente o seu futuro político. Pode, contudo, restringir as alternativas disponíveis e aumentar os custos de qualquer solução. Uma administração civil precisa de um território acessível, de infraestruturas operacionais e de condições para exercer autoridade. Uma população precisa de habitações, serviços e meios de subsistência. Sem estes elementos, a discussão sobre o futuro corre o risco de permanecer desligada das condições em que os habitantes terão de viver. A questão decisiva não é apenas saber quando terminarão as operações militares. É determinar se o território que delas resultar permitirá reconstruir uma vida civil estável. Fontes e documentação Enquadramento humanitário: OCHA, relatório de 2 de outubro de 2026. Enquadramento jurídico: Regulamento da Haia, Quarta Convenção de Genebra e documentação do Comité Internacional da Cruz Vermelha sobre ocupação e proteção dos civis. Capa: ilustração editorial criada para o Atlantic Lisbon; não é uma fotografia documental. #EstadosUnidos #politicainternacional #Israel #Gaza #EstadodaPalestina
- Vida ou economia: o que a fórmula escondeu em 2020
A pandemia pôs o emprego, o rendimento e a saúde sob pressão. A fórmula «vida ou economia» escondia quem pagava cada decisão e os meios que os governos tinham para reduzir esses custos. Para quem recebia à tarefa ou vendia o suficiente para pagar as despesas do dia, ficar em casa podia significar ficar sem dinheiro para comer. Continuar a trabalhar trazia o risco de infeção, também para as pessoas com quem vivia. Em 2020, esta dificuldade era real. A expressão «vida ou economia» fazia-a parecer uma escolha com duas respostas possíveis: aceitar o contágio ou aceitar a perda de rendimento. Mas havia decisões entre uma coisa e outra. Pagar um apoio, proteger um posto de trabalho, adaptar um local de atendimento ou garantir condições para cumprir o isolamento alterava aquilo que uma pessoa podia fazer. Esses meios tinham custos e limites. Ficavam fora de uma discussão que começasse e acabasse na escolha entre salvar vidas e salvar a economia. Um aviso de encerramento nos Estados Unidos, em 2020. Para muitos negócios, as restrições interromperam as receitas enquanto as despesas continuavam. Fotografia: Bruce Dupree / Alabama Extension. CC0 — domínio público. Vida ou economia - Quem podia aceitar o risco Em abril de 2020, o vice-governador do Texas, Dan Patrick, defendeu a reabertura da economia numa entrevista à Fox News. Disse haver coisas mais importantes do que viver e invocou a necessidade de salvar o país para os filhos e os netos. A frase atribuía ao futuro da comunidade um valor pelo qual se poderia aceitar um risco pessoal. Uma pessoa pode aceitar esse risco para si. A reabertura, porém, abrangia trabalhadores, clientes e familiares que podiam ter outras condições de saúde e outra margem para escolher. Um empregado precisava do salário; alguém com poupanças podia adiar uma compra ou continuar em casa. A decisão política não recolhia apenas a disponibilidade de quem se declarava pronto a correr riscos. A referência aos filhos e aos netos também não resolvia a discussão sobre os resultados da reabertura. Era preciso saber que atividades se pretendia retomar, com que proteção e com que efeito previsível no contágio. Um argumento sobre o valor do sacrifício não fornecia essas respostas. No Brasil, Jair Bolsonaro insistiu na fome como consequência das restrições. Em 14 de maio de 2020, criticou as medidas de governadores e autarcas e defendeu a retoma das atividades económicas. A perda de rendimento dava força ao argumento num país onde muitos trabalhadores dependiam de atividades informais. Para uma família que tinha perdido a receita da semana, pedir que ficasse em casa exigia uma resposta sobre a comida, a renda e as contas. Faltava saber quanto dessa perda podia ser compensado, durante quanto tempo e se o dinheiro chegaria a quem dele precisava. Vida ou economia - O auxílio mudava as opções O Brasil criou o Auxílio Emergencial através da Lei n.º 13.982, de 2 de abril de 2020. O apoio inicial de 600 reais mensais, previsto por três meses, destinava-se a pessoas que cumprissem condições de rendimento e de situação profissional, incluindo trabalhadores informais. Não era um rendimento básico universal. A proposta inicial do ministro da Economia, Paulo Guedes, apontava para 200 reais. O Congresso aprovou o valor de 600 reais e Bolsonaro sancionou a lei. Esta sequência permite discutir a dimensão do apoio que o Governo pretendia oferecer. Não basta para afirmar que o presidente se opôs a qualquer auxílio. A aplicação do Auxílio Emergencial, fotografada em abril de 2020. O programa introduziu uma transferência de rendimento na discussão sobre as restrições. Fotografia: Leonardo Sá / Agência Senado. CC BY 2.0. O pagamento podia permitir a alguém recusar uma tarefa, comprar alimentos ou cumprir um período de isolamento. Para avaliar o que conseguiu fazer, era necessário conhecer o montante recebido, a composição do agregado, os atrasos e as pessoas que ficaram de fora. A existência do programa não prova que todas as famílias tenham passado a poder ficar em casa. Mostra que a falta de rendimento podia ser objeto de uma decisão pública. Apresentar a fome como consequência inevitável de qualquer restrição deixava por discutir o apoio disponível e a escolha de o aumentar ou limitar. Também os custos de fechar uma atividade variavam com a duração e com a ajuda concedida. Vida ou economia - Deixar o vírus circular A ideia de alcançar «imunidade de grupo» através da circulação do vírus colocava outra questão. Propunha que um número suficientemente elevado de infeções acabasse por reduzir a transmissão. A sua avaliação exigia conhecer a proteção adquirida, a duração dessa proteção e o número de pessoas que adoeceriam entretanto. A imunidade de grupo não é uma expressão reservada à vacinação. Designa a proteção indireta que pode surgir quando uma parcela suficiente da população tem imunidade, adquirida por vacina ou por infeção anterior. A Organização Mundial da Saúde explicava esta distinção em 2020 e rejeitava a tentativa de alcançar essa proteção deixando a covid-19 propagar-se: o caminho implicava doença e mortes evitáveis, com incertezas sobre a imunidade e o limiar necessário. Representação do SARS-CoV-2. Trata-se de uma ilustração científica, não de uma fotografia microscópica. Ilustração: Alissa Eckert e Dan Higgins / CDC. Domínio público; disponibilizada pelo USGS. A gravidade da infeção, a capacidade hospitalar e a possibilidade de proteger as pessoas mais vulneráveis faziam parte dessa avaliação. Invocar uma proteção futura não permitia dispensar a contagem das consequências do percurso até lá. As três intervenções pediam respostas diferentes. Patrick falava do risco que considerava aceitável em nome do país. Bolsonaro usava a perda de rendimento para defender a reabertura. A proposta de deixar o vírus circular prometia um efeito sobre a transmissão. Reunidas sob «vida ou economia», pareciam disputar a mesma escolha. A partir de Lisboa, uma discussão sobre o custo das restrições precisava igualmente de descer aos rendimentos, aos apoios e às condições de trabalho. Para quem podia trabalhar em casa, o problema era diferente do de quem precisava de atender clientes ou deslocar-se todos os dias. Não se podia deduzir a capacidade de cumprir uma medida apenas da concordância com ela. Em 2020, decidir sobre uma restrição exigia perguntar que risco se procurava reduzir, quem perderia rendimento e como seria compensado. Decidir reabrir exigia explicar a proteção de quem voltaria ao trabalho e as consequências previsíveis para os serviços de saúde. A fórmula não dizia quanto dinheiro chegaria à família que tinha deixado de receber nem em que condições o trabalhador teria de regressar. #Saúde #Brasil #EstadosUnidos











