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- Guerra do Irão: 32 milhões sem voz em Islamabade
O nitrato de amónia viaja por navio. A maior parte do que chega aos campos agrícolas do Sul da Ásia, da África Subsaariana e do Corno de África passa pelo Oceano Índico, pelo Golfo de Omã, por corredores marítimos que dependem da estabilidade do Estreito de Ormuz para funcionar com a regularidade que a agricultura industrial exige. Qual o impacto da guerra do Irão nos países mais pobres? Quando o Estreito fecha — ou quando o seguro marítimo sobe ao ponto de tornar a viagem economicamente inviável — o fertilizante ou não chega ou chega tarde. Uma estação agrícola perdida não se recupera na estação seguinte. Recupera-se, quando se recupera, ao longo de anos. O fertilizante não chega. As negociações continuam. A guerra do Irão fechou o Estreito em fevereiro de 2026. As negociações entre Washington e Teerão continuam. Os analistas discutem centrifugadoras, interceptores Patriot, calendários políticos americanos e a intransigência dos Guardiões. O nitrato de amónia está a não chegar. A guerra do Irão ameaça transformar uma crise energética e diplomática numa crise alimentar silenciosa, empurrando milhões de pessoas para a pobreza sem que tenham voz nas negociações de Islamabade. Alexander De Croo, secretário-geral adjunto das Nações Unidas que dirige o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, formulou o mecanismo com uma precisão que os mercados financeiros raramente conseguem: "A guerra é o desenvolvimento ao contrário. O que se constrói em décadas destrói-se em sete semanas de guerra." O PNUD estima que o aumento dos preços da energia, a disrupção dos sistemas alimentares e a desaceleração económica desencadeados pela guerra poderão empurrar até trinta e dois milhões de pessoas para a pobreza. Trinta e dois milhões é um número que não cabe numa manchete sobre o Estreito de Ormuz. Não tem rosto, não tem capital, não tem delegação em Islamabade. Tem campos. Tem estações de sementeira. Tem crianças que vão comer menos proteína durante os próximos dois anos porque o preço do fertilizante subiu num mês mais do que subiu em toda a década anterior. A guerra da Ucrânia fornece o precedente mais próximo. Quando a Rússia invadiu em 2022, os preços do trigo e dos fertilizantes dispararam. A Somália, que importava grande parte do seu trigo da Ucrânia, enfrentou uma crise alimentar que os números do PNUD já classificavam como catástrofe. A resposta internacional foi a Iniciativa dos Cereais do Mar Negro — um corredor humanitário negociado pela ONU que permitiu às exportações ucranianas continuar a fluir durante meses. De Croo disse-o de forma direta: "Encontrámos facilmente uma solução para fazer sair o grão da Ucrânia." O problema da guerra do Irão é diferente em estrutura. Não é o grão que falta — são os ingredientes para produzir o grão. O fertilizante, o combustível para os tratores, o querosene para os aviões que transportam medicamentos e equipamento agrícola. Coisas que não têm um corredor humanitário possível enquanto o Estreito estiver fechado, porque o Estreito não é uma exceção à rota — é a rota. A solução não depende de nenhum acordo entre a ONU e dois países beligerantes. Depende do fim de uma guerra que nenhuma das partes parece próxima de querer terminar nos termos que a outra aceita. Portugal tem uma relação com esta geometria que não é abstrata. Durante cinco séculos, foi um dos atores que decidiu as rotas marítimas do mundo — quem passava, a que preço, em que condições. O que esse período deixou não foi apenas monumentos e língua. Deixou a memória, nos países que essas rotas atravessavam, de que o controlo das vias de comércio é sempre exercido por alguém e raramente por quem mais depende delas. A disrupção do Estreito de Ormuz em 2026 tem uma lógica que Lisboa devia reconhecer: são os países mais distantes da negociação, mais dependentes do corredor, mais incapazes de influenciar o seu desfecho, os que pagam o preço mais alto e mais duradouro. A Somália não tem assento em nenhuma das mesas onde o futuro do Estreito está a ser discutido. O Bangladesh também não. O Sahel também não. Pagam em preços de fertilizante, em estações agrícolas comprometidas, em crianças com menos proteína disponível, numa proporção que nenhum dos atores com assento nessas mesas vai ser obrigado a contabilizar quando o acordo for assinado. A guerra do Irão é apresentada nos seus próprios termos como um conflito sobre nuclearização, sobre o Estreito, sobre a hegemonia regional americana e a sobrevivência do regime dos Guardiões. Esses termos são reais. Contudo, a cobertura que os segue produz uma narrativa com um ângulo de visão específico — o ângulo de Washington, de Teerão, de Riade, de Bruxelas. O ângulo das capitais com capacidade de agir sobre o conflito. As perturbações de combustível que desencadearam violência, paragens de trabalho e especulação em partes da Ásia e de África não chegam às primeiras páginas dos jornais que cobrem as negociações de Islamabade. Não há nada de conspirativo nisto. É a lógica normal da atenção mediática: a crise que acontece onde há correspondentes e câmaras é a crise que existe. A crise que acontece onde não há é uma estatística do PNUD. Trinta e dois milhões de pessoas é uma estatística do PNUD. Fatih Birol, diretor da Agência Internacional de Energia, descreveu o impacto da guerra como "a maior ameaça à segurança energética global da história". A formulação é correta e é também enganadora — porque "segurança energética global" é uma categoria que pesa de forma diferente consoante o ponto de observação. Para a Europa, significa preços do combustível e inflação. Para os Estados Unidos, significa pressão política e problemas de logística para o Campeonato do Mundo. Para o Sul Global, significa estações agrícolas perdidas e o tipo de fome que não tem fotografia porque acontece devagar, ao longo de meses, em lugares onde ninguém está a filmar. De Croo acrescentou que o peso dos choques económicos "cai mais pesado sobre os que menos conseguem absorvê-lo". É um mecanismo tão antigo quanto o comércio internacional: as perturbações nas grandes rotas sempre custam mais aos atores mais pequenos, mais periféricos, mais dependentes. O que muda é a escala. A negociação vai continuar. O Estreito vai reabrir, numa versão ou noutra, com um consórcio ou sem ele, com supervisão americana ou com outra arquitetura. Os mercados vão estabilizar. Os analistas vão escrever sobre o que cada lado ganhou e perdeu. O que não vai aparecer nessa contabilidade é o custo da estação agrícola que o Bangladesh perdeu em março de 2026 porque o fertilizante não chegou a tempo. Nem o da Somália. Nem o do Sahel. Esse custo não tem linha nos acordos que forem assinados. Não tem cláusula de compensação. Não tem nome nos tratados. Tem trinta e dois milhões de pessoas. E a memória, nessas regiões, de que as guerras das grandes potências sempre terminam com um acordo entre as grandes potências — e com a conta a pagar por quem não estava na sala. Fontes: reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026; dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, abril de 2026. #GuerraDoIrão #SulGlobal #CriseAlimentar #EstreitorDeOrmuz #PNUD #Geopolítica #AtlanticLisbon #Pobreza #SegurançaAlimentar
- O país que não recebia armas tornou-se fornecedor dos que as tinham
Num campo de treino algures nos Emirados Árabes Unidos, em março de 2026, instrutores ucranianos ensinavam militares do Golfo a abater drones com interceptores que custam dez mil dólares. Os drones que estavam a ser simulados custavam entre oitenta mil e cento e trinta mil dólares cada. A diferença de preço não era um detalhe técnico. Era o argumento de venda. Ucrânia vende drones ao Golfo: o mercado que a guerra do Irão criou. A Ucrânia tinha chegado ao Golfo com algo que nenhum dos fornecedores habituais de armamento conseguia oferecer: quatro anos de experiência operacional real contra exatamente o tipo de ameaça que o Irão acabara de demonstrar ser capaz de lançar em escala industrial. Não era teoria. Não era simulação. Era o conhecimento acumulado de quem aprendeu a sobreviver em condições que os países do Golfo estavam agora a descobrir pela primeira vez. A guerra do Irão abriu no Golfo um mercado inesperado para a experiência ucraniana: o país que dependia de armas ocidentais passou a vender drones, formação e tecnologia contra-drone a aliados que julgavam estar protegidos. O Irão fechou o Estreito de Ormuz em fevereiro de 2026 com uma combinação de mísseis balísticos e drones Shahed que rapidamente se tornou o padrão tático do conflito. Os países do Golfo, que tinham sistemas Patriot instalados nos seus territórios mas viram esses sistemas a ser reorientados para prioridades americanas, perceberam com a brutalidade dos factos consumados que a defesa contra drones baratos e em volume é um problema diferente da defesa contra mísseis convencionais. Exige outra doutrina, outros equipamentos, outra cadeia de decisão. Exige, acima de tudo, experiência que não se compra num catálogo de armamento. A Ucrânia tinha essa experiência. Tinha-a construído pela necessidade — o tipo de necessidade que não admite erro porque o erro custa vidas — durante quatro anos de guerra contra uma força que usava os mesmos Shaheds iranianos, comprados por Moscovo e integrados na sua doutrina de ataque a infraestruturas civis. Quando o Golfo começou a procurar quem pudesse ensinar o que sabia, havia um único país com credenciais operacionais verificadas e disponibilidade imediata. A guerra do Irão privou a Ucrânia de interceptores Patriot e criou-lhe um mercado no Golfo que Washington não controla e não antecipou. Zelensky assinou acordos de defesa com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar. Os acordos incluíam fornecimento de drones, construção de linhas de produção no próprio Golfo, formação de pessoal e transferência de tecnologia de contra-drone. Por março de 2026, mais de duzentos especialistas militares ucranianos estavam no terreno em países do Golfo Pérsico. Não como conselheiros. Como instrutores com experiência direta do que estavam a ensinar. A mesma guerra que reduziu o fornecimento de interceptores Patriot à Ucrânia — porque os Estados Unidos os redirecionaram para as operações no Golfo — criou as condições para que a Ucrânia encontrasse um mercado que não dependia dos Estados Unidos para existir. A escassez que Washington impôs a Kyiv tornou o conhecimento ucraniano mais valioso, não menos. O país que estava a ser privado de armamento ocidental tornou-se fornecedor de segurança para os países que esse armamento estava a proteger em vez dela. Portugal reconhece esta geometria, ainda que em versão mais antiga e menos dramática. Durante séculos, o valor estratégico de um país pequeno não dependeu do seu tamanho mas da sua posição — o que controlava, o que sabia, o que outros precisavam de atravessar para chegar ao que queriam. Sagres não era uma base militar. Era o ponto onde o conhecimento náutico português se tornava indispensável para qualquer projeto de expansão atlântica. As Lajes não eram território americano. Eram o sítio sem o qual a logística americana no Atlântico não funcionava. A Ucrânia está a fazer algo estruturalmente semelhante — a transformar competência adquirida em condições extremas num ativo estratégico que outros países precisam e não têm. O Golfo não pode esperar décadas. Precisa agora. Os acordos com os três países do Golfo não são apenas transações comerciais. São o início de uma arquitetura de relações bilaterais que a Ucrânia não tinha antes da guerra e que a guerra do Irão acelerou de forma que nenhum planeamento estratégico teria conseguido antecipar. A Arábia Saudita, os Emirados e o Qatar são atores com capacidade financeira, influência diplomática e posições em fóruns multilaterais que a Ucrânia tem interesse em cultivar independentemente de qualquer acordo de armamento. O drone é o produto. A relação é o investimento. Orysia Lutsevych, do Chatham House, formulou-o com precisão: a Ucrânia quer mostrar que é "a linha da frente de uma revolução tecnológica militar" e que acordos de segurança com Kiev tornam os parceiros "mais seguros". É uma narrativa de posicionamento — a Ucrânia não como país em guerra à procura de apoio, mas como potência tecnológica de nicho com algo concreto a oferecer. A distinção importa porque muda a natureza da relação. Um país que pede apoio depende da generosidade do outro. Um país que vende competência tem alavancagem. Esta transformação não apaga os custos da guerra nem resolve o problema central de Kiev — que continua a ser a Rússia, que continua a atacar, que continua a beneficiar dos preços do petróleo inflacionados pelo fechamento do Estreito. O que muda é a posição relativa da Ucrânia num sistema internacional que estava a tratá-la crescentemente como um problema de gestão humanitária em vez de como um ator com interesses e capacidades próprias. Há um número que ilustra a distância entre os dois mundos que a Ucrânia habita simultaneamente. Os Estados Unidos utilizaram cerca de oitocentos interceptores Patriot nos primeiros três dias da guerra com o Irão — mais do que a Ucrânia recebeu em quatro anos de conflito. No mesmo período, a Ucrânia declarava capacidade de produzir dois mil interceptores próprios por dia, metade dos quais disponíveis para exportação. O país que não recebia Patriot suficientes estava a tornar-se fornecedor dos que os tinham. A assimetria não é apenas económica. É doutrinária. Os sistemas ocidentais foram desenhados para ameaças convencionais de alta intensidade — mísseis balísticos, aviões de combate, blindados. O drone barato e em volume é uma ameaça diferente, que exige respostas diferentes, que a Ucrânia desenvolveu por necessidade enquanto o Ocidente continuava a investir nos sistemas que conhecia. Quando o Golfo descobriu que o Patriot não é a resposta certa para uma nuvem de Shaheds, a Ucrânia já tinha a resposta. Tinha-a há anos. Tinha-a porque não havia alternativa. A guerra continua. Kiev continua a receber mísseis balísticos e drones noturnos. A atenção americana continua desviada para o Golfo. As garantias de segurança ocidentais continuam a ser uma promessa cujo cumprimento depende de calendários políticos que a Ucrânia não controla. Ao mesmo tempo, os instrutores ucranianos ensinam nos Emirados. As linhas de produção de drones estão a ser construídas na Arábia Saudita com tecnologia ucraniana. O Qatar assinou. A lista pode crescer. Não é o fim da guerra. Não é sequer o começo do fim. É a Ucrânia a perceber, pela experiência direta e sem alternativa, que a sobrevivência de um país pequeno num sistema internacional instável raramente depende apenas de quem o apoia. Depende também do que tem para oferecer quando os outros precisam. Por agora, o que tem para oferecer são drones que custam dez mil dólares e a memória operacional de como se usa um deles para abater outro que custa dez vezes mais. Fontes: reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026. #Ucrânia #GuerraDoIrão #Drones #Golfo #Geopolítica #AtlanticLisbon #MédioOriente #Defesa #EstreitorDeOrmuz #Zelensky #Armamento
- Guardiães do Irão: por que a nova liderança é mais dura
A 18 de julho de 1994, uma carrinha armadilhada explodiu em frente ao edifício da Associação Mutualista Israelita Argentina, em Buenos Aires. Morreram oitenta e cinco pessoas. Foi o maior atentado terrorista da história da América Latina, e continua por julgar. A Argentina emitiu mandados de captura internacionais para vários suspeitos. Um deles era Ahmad Vahidi, então oficial da força de elite Al-Quds dos Guardiães da Revolução Islâmica. Vahidi nunca foi extraditado. Negou o envolvimento. Fez carreira. Por que a morte de Khamenei tornou o regime iraniano mais perigoso. A nova liderança iraniana emergiu da ala mais dura dos Guardiães da Revolução, transformando a morte de Khamenei não num sinal de abertura, mas num fator de consolidação militar do regime. Em março de 2026, foi nomeado comandante dos Guardiães da Revolução Islâmica — o cargo mais poderoso das forças armadas iranianas — depois de os dois titulares anteriores terem sido mortos em ataques israelitas. O mandado de Buenos Aires continua ativo. O que sobrou foi Vahidi, Mohammad Bagher Zolghadr e Mohammad Bagher Ghalibaf. Os três formaram-se durante a guerra Irão-Iraque dos anos oitenta, na estrutura dos Guardiães da Revolução, numa época em que o regime estava a aprender a sobreviver contra um inimigo convencional com apoio ocidental. O que aquela guerra de oito anos produziu naquela geração não foi moderação — foi a certeza operacional de que a sobrevivência do regime depende da recusa em ceder. Os ataques americanos e israelitas removeram a camada que ainda tinha memória de um Irão anterior à República Islâmica, que negociava com o vocabulário da política e não apenas com o vocabulário da guerra, e que funcionava para os Guardiães como contrapeso institucional — por vezes incómodo, por vezes paralisante. Khamenei era um homem cauteloso. Ali Vaez, diretor do Projeto Irão no International Crisis Group, disse-o sem rodeios: a estratégia de "ir a fundo" — atacar todos os vizinhos, fechar o estreito, responder sem moderação — foi desenhada sob o pai, mas os Guardiães têm agora "muito mais liberdade de manobra e muito menos constrangimentos" do que teriam se ele ainda estivesse vivo. As potências ocidentais pensam a decapitação de regimes com uma sequência que o século XX desmentiu repetidamente: o líder é o regime; sem o líder, o regime perde coerência; a incoerência produz abertura; a abertura produz negociação. Os casos em que a remoção de um líder moderou o regime dependem de condições específicas que raramente estão presentes — uma oposição organizada capaz de preencher o vácuo, uma estrutura de poder descentralizada que permite a emergência de fações reformistas, ou um colapso económico tão profundo que torna a continuidade impossível. O Irão de 2026 não tem oposição organizada. Tem uma estrutura de poder descentralizada em que a descentralização favorece os Guardiães, não os reformistas. E tem uma economia danificada, não colapsada: Vaez estima dois a três meses de reservas suficientes para absorver o bloqueio, e os Guardiães acreditam que o calendário político americano é mais curto do que o seu. Washington encontrou em Islamabade um regime reorganizado em torno do seu núcleo mais duro, com o Estreito de Ormuz como alavanca e com a convicção — partilhada, segundo Vaez, pela maioria da liderança atual — de que a guerra já foi ganha em termos estratégicos, independentemente do resultado das negociações. Ghalibaf em Davos, em 2008, disse ao New York Times que o Irão não queria construir armas nucleares e que o diálogo com Washington era possível se os Estados Unidos tratassem Teerão como parceiro. A entrevista foi publicada com o subtítulo "modernizador autoritário". A formulação tinha os dois termos certos mas invertia a ordem de importância. Dezoito anos depois, o mesmo homem sentou-se em Islamabade como representante de um regime que fechara um dos corredores marítimos mais estratégicos do mundo e que não mostrou, ao longo de vinte e uma horas de negociações, disposição para o reabrir nas condições que Washington exigia. A sua visibilidade nas negociações é produto da sua experiência em contextos internacionais. É um rosto que Washington consegue ler. O que Danny Citrinowicz, ex-oficial de informações militares israelita, escreveu imediatamente após as declarações de Vance é a informação que importa: Ghalibaf "chegou a qualquer negociação com limites claramente definidos em Teerão. Não está habilitado nem inclinado a comprometer em questões estratégicas nucleares." Os limites foram definidos por Zolghadr e Vahidi. O primeiro dirige o Conselho Supremo de Segurança Nacional; o segundo comanda os Guardiões. Ghalibaf representa — no sentido literal do termo — o que aqueles dois homens decidiram que era negociável. Zolghadr foi sancionado pelo Conselho de Segurança da ONU em 2007 pelo seu papel no desenvolvimento do programa de mísseis iraniano. Em 2023, o Reino Unido sancionou-o por envolvimento em "atividade nuclear". O seu antecessor no Conselho Supremo de Segurança Nacional era Ali Larijani — descrito nos documentos disponíveis como pragmático e mais moderado. Larijani foi morto num ataque aéreo israelita. Zolghadr substituiu-o. A substituição não foi neutra. Foi, nas palavras de Behnam Ben Taleblu, analista da Foundation for Defense of Democracies, "mais prova da consolidação militar dos Guardiões" — uma linha de desenvolvimento que a guerra não criou mas acelerou de forma irreversível. O regime iraniano tinha, antes de fevereiro de 2026, uma estrutura em que o poder do líder supremo funcionava como árbitro entre fações — Khamenei era o ponto de convergência de tensões entre pragmatistas, conservadores e militares, e a sua autoridade derivava precisamente da capacidade de gerir essa tensão sem deixar que nenhuma fação dominasse completamente. Quando essa função arbitral desapareceu, o vácuo não foi preenchido por consenso. Foi preenchido pela fação que tinha as armas, a inteligência e a memória operacional de como o regime sobrevive. O Estado Novo durou quarenta e oito anos. Sobreviveu à morte de Salazar, à transição para Caetano, a guerras coloniais em três frentes simultâneas, a pressão diplomática crescente, a uma economia em deterioração. O que o derrubou não foi uma crise de liderança nem um ataque externo à sua cúpula. Foi um golpe interno conduzido por oficiais militares que tinham servido nas guerras coloniais e que tinham chegado à conclusão, pela experiência direta, de que o regime não tinha saída — e essa decisão demorou décadas a amadurecer dentro da própria estrutura militar que o sustentava. No Irão de 2026, os homens que detêm os meios de força chegaram à conclusão oposta. Os danos da guerra são reais — extensos, possivelmente mais profundos do que os da guerra com o Iraque, segundo Vaez. Mas não produziram a clivagem interna que Washington antecipou. Produziram coesão em torno dos Guardiães e a certeza partilhada de que qualquer sinal de cedência seria lido, dentro e fora do regime, como o início do fim. A questão nuclear espelha esta dinâmica. Vaez argumenta que nenhum dos dois lados pode aceitar as condições do outro na sua formulação atual: os Estados Unidos não podem reconhecer oficialmente o direito iraniano ao enriquecimento de urânio; o Irão não pode aceitar a desnuclearização completa sem perder o único ativo que garante que Washington não tenta novamente o que tentou em fevereiro. O enriquecimento é, para os Guardiães, a lição de Ormuz escrita em centrifugadoras — a dissuasão exige que o custo de um ataque seja insuportável. Trump declarou em Truth Social que o regime mudou porque "o anterior foi dizimado, destruído, estão todos mortos. O próximo regime está maioritariamente morto. E o terceiro regime — estamos a lidar com pessoas diferentes." São pessoas diferentes. São mais duras, mais militaristas e com menos constrangimentos do que as anteriores. Vahidi comanda os Guardiães com um mandado de captura internacional ativo desde 1994. Buenos Aires ficou por julgar. O Estreito de Ormuz continua fechado. A negociação continua em curso com homens que aprenderam, há quarenta anos, que a única coisa que um regime não pode fazer é mostrar que pode ser dobrado. #GuardiãesDoIrão #GuerraDoIrão #Irão #Geopolítica #MédioOriente #AtlanticLisbon #Negociações #Nuclear #EUA #Khamenei #Islamabade
- O acordo existe. Trump é que não o consegue assinar
A 26 de fevereiro de 2026, em Genebra, Steve Witkoff e Jared Kushner sentaram-se em frente à delegação iraniana. Tinham voado para a Suíça sem equipas de especialistas, sem cadernos de posições preparados, sem o aparato técnico que qualquer negociação desta escala normalmente exige. A mensagem que transmitiram foi simples: não precisamos de peritos, não precisamos de detalhes, precisamos apenas que aceitem os nossos termos. A reunião terminou sem acordo. Por que as negociações com o Irão não chegam a acordo? O impasse não está na inexistência de um acordo possível, mas na incapacidade política de Trump em aceitar uma solução que permita ao Irão assinar sem parecer derrotado. Há guerras que terminam por esgotamento militar. Esta não vai terminar assim. O Irão tem reservas para dois a três meses de bloqueio. Os Estados Unidos têm um calendário político que os iranianos calculam ser ainda mais curto — semanas, não meses, antes que o preço do petróleo, a falta de combustível para aviões e a pressão económica acumulada tornem o custo doméstico insuportável para uma administração que chegou ao poder prometendo exatamente o contrário. Nenhum dos dois lados vai dobrar o outro pela força. Ambos sabem disso. A questão não é se haverá acordo. É se o homem que teria de o assinar consegue fazê-lo sem destruir a possibilidade no próprio ato de a criar. Trump construiu a sua identidade política à volta de uma ideia de vitória que exige a visibilidade da derrota do outro. Não basta ganhar — é preciso que o outro seja visto a perder. Esta não é uma preferência estilística. É uma limitação estrutural quando aplicada a negociações com um regime que sobreviveu quarenta anos de pressão externa precisamente porque aprendeu a nunca parecer dobrado. O Irão não assina o que pareça rendição — não porque os seus líderes sejam irracionais, são calculistas e pragmáticos dentro dos seus próprios parâmetros, mas porque a legitimidade interna do regime depende da perceção de que resistiu onde outros teriam cedido. A diplomacia, na sua forma mais exigente, é a arte de construir acordos em que cada parte pode apresentar o resultado aos seus como uma vitória. Ou pelo menos como não uma derrota. "Unconditional surrender" foi a formulação que Trump usou nos primeiros dias da guerra. É a formulação que os iranianos ouviram. E é a formulação que torna o acordo estruturalmente mais difícil cada vez que é repetida, porque obriga a contraparte a provar, para consumo interno, que não foi isso que aconteceu. Enquanto Witkoff e Kushner esperavam em Genebra que os iranianos aceitassem os seus termos, as delegações iranianas percorriam o mundo. Islamabade, para as conversações com os paquistaneses. Mascate, para os omanis. Moscovo, para discutir com os russos o que fazer com as reservas de urânio enriquecido. Três capitais em dias. Ambos os lados sabem o que é preciso. O obstáculo não é o Irão — é a prática política de um presidente que só reconhece a vitória quando o adversário aparece visivelmente derrotado. E é o comportamento de um regime que está a construir a arquitetura de uma saída que não pareça uma saída — que está a criar, com a paciência de quem tem décadas de experiência em sobreviver à pressão externa, as condições para que um eventual acordo possa ser apresentado em Teerão como algo diferente de capitulação. Os americanos, neste mesmo período, não se moveram. Ficaram à espera. A assimetria não é de poder. É de método que aplicam. Portugal tem uma memória longa sobre o que acontece quando um ator com mais força não percebe que a força não é o instrumento certo. Durante treze anos, o Estado Novo travou guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau contra movimentos de independência que não podiam vencer militarmente mas que também não podiam ser derrotados por meios militares. O impasse não foi resolvido pela força de nenhum dos lados. Foi resolvido quando, dentro do próprio exército português, oficiais que tinham servido nessas guerras chegaram à conclusão de que a continuidade era impossível — e construíram uma saída que preservou a dignidade de quem saía. O 25 de Abril não foi uma derrota. Foi uma retirada com arquitetura suficiente para não parecer uma fuga. A administração Trump não está a construir essa arquitetura. Está a insistir na formulação que a torna impossível. As condições para um acordo existem e são conhecidas. Do lado iraniano: algum grau de enriquecimento de urânio reconhecido, levantamento das sanções, acesso a mercados. Do lado americano: garantias de não proliferação, reabertura do Estreito de Ormuz, alguma forma de supervisão internacional. Nenhuma destas posições é irreconciliável com a da outra parte. O que não existe é uma formulação que permita a Trump apresentar o resultado como rendição iraniana e aos Guardiães apresentá-lo como vitória estratégica. Há uma solução técnica possível para o Estreito — um consórcio internacional, um sistema de portagens partilhado, uma supervisão multilateral que retire ao Irão o controlo exclusivo sem o obrigar a ceder formalmente a soberania. A solução técnica só funciona se o contexto político a deixar funcionar — se nenhuma das partes precisar de a apresentar como derrota da outra. Com a gramática atual de Washington, esse contexto não existe. Vaez formulou-o com uma precisão que poucos analistas conseguem: Trump poderia ter tido, na sua primeira presidência, um acordo melhor do que o que Obama assinou. Tinha a alavancagem económica, tinha o contexto, tinha a disposição iraniana. O que não tinha era a capacidade de deixar o outro lado sair sem humilhação. E sem isso, não há acordo — não com os iranianos, não com ninguém que tenha aprendido a tratar a dignidade como recurso estratégico. A guerra continua. O Estreito permanece fechado. O petróleo sobe. As companhias aéreas cancelam voos por falta de combustível. O Campeonato do Mundo está marcado para os Estados Unidos e começam a haver dúvidas sobre a logística de um torneio sem querosene suficiente para os aviões dos adeptos. Trump declarou em Truth Social que tem "todo o tempo do mundo". É o tipo de frase que se diz quando se perdeu o controlo do calendário. O Irão sabe que o tempo americano é mais curto do que o seu. Os mercados sabem. Os aliados europeus, que se recusaram a abrir as bases para as operações americanas e que continuam a ver o custo económico do conflito a subir, sabem. As negociações continuam. Os iranianos continuam a viajar. Os americanos continuam à espera que o outro lado aceite os seus termos. Em Genebra, a 26 de fevereiro, Witkoff e Kushner tinham dito que não precisavam de peritos. Tinham razão num sentido que não pretendiam: o problema não é técnico. É a questão mais antiga da diplomacia — como se constrói um acordo em que ambos os lados podem olhar para o resultado e chamar-lhe vitória. É uma arte. E há homens que simplesmente não a aprenderam. Fontes: entrevista de Ali Vaez ao The New Yorker, abril de 2026; reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026. #GuerraDoIrão #Trump #Negociações #Irão #Diplomacia #EstreitorDeOrmuz #Geopolítica #AtlanticLisbon #MédioOriente #Acordo #PolíticaExterna
- Guerra do Irão: o que as bases dos EUA não protegem
Trinta e três quilómetros. Na estrangulação mais apertada do Estreito de Ormuz, é essa a distância entre as costas iranianas e a península de Musandam, no sultanato de Omã. Uma hora de travessia a velocidade de cruzeiro para um navio-tanque. Tempo suficiente para transportar uma fração do petróleo e do gás liquefeito que, durante décadas, fluiu por ali sem que o mundo prestasse grande atenção ao que tornava aquela passagem possível — e ao que seria necessário para a fechar. Por que as bases militares dos EUA no Golfo não protegem os seus anfitriões. A geografia estreita de Ormuz expôs uma fragilidade maior: a presença militar americana no Golfo não garante, por si só, a proteção dos aliados nem o controlo político da crise. Em março de 2026, esse corredor tornou-se o ponto de convergência de uma equação que ninguém tinha querido formular em voz alta: o Irão decidira fechá-lo, e nenhum dos países com bases militares americanas instaladas ao longo de toda a costa sul do Golfo Pérsico estava em condições de o reabrir. Não por falta de meios. Por falta de um cálculo que valesse a pena fazer — ou que alguém com poder de decisão estivesse disposto a assumir publicamente. O que falhou não foi a capacidade militar. Foi a premissa. Durante cinquenta anos, a presença americana no Golfo assentou numa lógica que raramente precisou de ser articulada, precisamente porque nunca tinha sido testada com esta brutalidade. A base era a garantia. O porta-aviões ancorado ao largo, os interceptores Patriot estacionados nos arredores de Riade e Abu Dhabi, os militares americanos a circular nos centros comerciais de Doha — tudo isso dizia, sem precisar de dizer: estamos aqui, portanto estão protegidos. Os países do Golfo aceitaram este argumento durante décadas, pagaram-no em contratos de armamento avaliados em centenas de milhares de milhões de dólares e em cooperação política que incluía silêncios convenientes sobre políticas domésticas, e construíram sobre ele a sua arquitetura de segurança. A condição não estava escrita — funcionava enquanto o Irão respeitasse a dissuasão. O Irão deixou de a respeitar — e a revelação teve uma crueldade específica para quem estava dentro do sistema. Os Emirados Árabes Unidos, que acolhem a maior base aérea americana do Médio Oriente, foram o país do Golfo mais duramente atingido pelos ataques iranianos. A escolha não foi aleatória. Teerão construiu deliberadamente uma estrutura de incentivos para punir qualquer aproximação a Israel: atacar o anfitrião mais visível da presença americana era a mensagem, escrita em mísseis balísticos sobre instalações portuárias e de dessalinização. A base não protegeu os Emirados. Tornou-os alvo preferencial, com a precisão de quem quer que o exemplo seja lido corretamente pelos vizinhos. Dania Thafer, diretora do Gulf International Forum, nomeou o mecanismo com precisão: existe "uma preocupação real sobre uma hierarquia de aliança entre os EUA e Israel, e os EUA e os Estados do Golfo, com Israel mais acima nessa hierarquia." Qualquer analista do Médio Oriente teria subscrito esta formulação em 2018, ou em 2010, ou em 1990. O que a guerra fez foi torná-la indisfarçável. Há uma memória em Lisboa sobre este mecanismo que Washington parece ter esquecido, ou nunca aprendido direito. Em outubro de 1973, quando a guerra de Yom Kippur ameaçava destruir as forças israelitas no Sinai e no Golã, a administração Nixon precisava com urgência de uma ponte aérea para Telavive. A rota mais direta passava pelos Açores. Portugal, governado então por Marcelo Caetano e em negociação longa e difícil com Washington sobre a renovação dos acordos de utilização das Lajes, acabou por ceder à pressão americana — a base foi disponibilizada, os voos de reabastecimento partiram da Terceira a partir de 13 de outubro, e a operação ajudou a virar o equilíbrio militar no terreno. As consequências chegaram em semanas. Os países árabes produtores de petróleo incluíram Portugal no embargo que lançaram contra os que tinham apoiado Israel, diretamente ou por facilitar a logística americana. Uma economia já fragilizada, a menos de seis meses da revolução que poria fim ao Estado Novo, pagou o preço de uma estratégia que não tinha desenhado e de uma guerra em que não tinha nenhuma posição própria. Portugal assinou um acordo de utilização com cláusulas escritas — e recebeu as cláusulas não escritas conforme chegaram, sem aviso prévio e sem direito de veto. Segundo Zelensky, os Estados Unidos utilizaram cerca de oitocentos interceptores Patriot nos primeiros três dias da guerra com o Irão — mais do que a Ucrânia recebeu em quatro anos de conflito contra uma força que usa os mesmos drones iranianos comprados por Moscovo. Os países do Golfo viram os sistemas instalados nos seus territórios, apresentados publicamente como escudo da sua segurança, a ser reorientados para uma prioridade diferente sem que ninguém se tivesse dado ao trabalho de lhes explicar a lógica operacional. A base estava lá. O que ela estava a proteger tinha mudado. No topo da hierarquia que se tornou visível não estavam os Emirados, nem a Arábia Saudita, nem o Qatar — aliados comprados a peso de ouro e de silêncio diplomático durante décadas. Estava a operação militar americana no estreito, e dentro dessa operação a segurança de Israel e a batalha pelo preço do barril numa economia americana já fragilizada pela desorganização tarifária dos meses anteriores. Os países do Golfo já sabiam, em abstrato, que Washington tinha interesses próprios que nem sempre coincidiam com os seus. Saber isso com portos atacados e sistemas Patriot redirecionados é uma informação de outra ordem — operacional, mensurável, documentada em interceptores por dia. A Arábia Saudita aprofundou o acordo de defesa com o Paquistão, que ganhou credibilidade adicional como mediador entre Washington e Teerão. O Qatar consolida os laços com a Turquia, que tem os seus próprios cálculos em relação à NATO e à Rússia e que não é, por isso, uma âncora simples. A China, com relações comerciais densas com o Irão e interesses diretos na estabilidade do corredor de Ormuz para as suas importações energéticas, posiciona-se como o ator com credenciais de mediação que Washington erodiu. Fala-se de arquiteturas regionais de segurança coletiva, de um "NATO árabe", de consórcios internacionais para a gestão dos corredores marítimos do Golfo — ideias que circulavam em conferências académicas há quinze anos e que a guerra trouxe para negociações concretas. O problema com estas alternativas não é a sua incoerência. É que replicam, em versão mais fragmentada e com menos recursos, a mesma premissa que acabou de ser testada até ao ponto de ruptura: uma arquitetura de segurança assente em garantias mútuas funciona enquanto a ameaça aceitar ser dissuadida. O Irão que fechou Ormuz após ter absorvido ataques que mataram o seu líder supremo, decimaram a sua liderança política e destruíram parte substancial da sua infraestrutura militar demonstrou que essa condição tem limites que nem a presença de um porta-aviões americano foi capaz de fixar. Se uma arquitetura alternativa, construída sobre interesses parcialmente contraditórios entre a Turquia, o Paquistão, a China e os próprios países do Golfo, estaria em melhor posição para lidar com esse Irão — é uma pergunta que ninguém em Abu Dhabi ou Riade consegue responder com convicção, porque a convicção exigiria um grau de confiança nos novos parceiros que ainda não foi construído. O que existe é menos dependência de uma única garantia. Não é uma estratégia acabada, mas é o único terreno disponível depois de o anterior ter cedido. Do outro lado do mundo, a Europa assistia a um espelho do mesmo problema, com variações que tornavam o reflexo mais incómodo do que a imagem original. Trump exigiu que os aliados da NATO abrissem as suas bases para as operações americanas contra o Irão. Vários recusaram ou limitaram o acesso. A resposta de Washington foi imediata: "NATO WASN'T THERE WHEN WE NEEDED THEM, AND THEY WON'T BE THERE IF WE NEED THEM AGAIN." Moscovo tratou a fratura como confirmação do argumento que alimentara durante anos sobre a fragilidade estrutural do sistema de alianças ocidentais. O enviado presidencial russo Kirill Dmitriev escreveu que os europeus tinham finalmente revelado o seu verdadeiro rosto — o comentário de um ator que beneficia diretamente do ruído que gera, e que o sabe. A recusa europeia não foi um abandono da aliança. Foi a aplicação da mesma lógica que os países do Golfo tinham aplicado, com a diferença de que os europeus têm parlamentos e opiniões públicas que tornam impossível a aceitação silenciosa. Acolher uma base americana não equivale a uma carta branca para todas as guerras que o seu proprietário decida travar. Os europeus tinham reservas sobre a guerra com o Irão — expressas em reuniões do Conselho Europeu, em declarações de chefes de governo, em análises de serviços de informações que não partilhavam o otimismo de Washington sobre a rapidez com que o regime iraniano capitularia — e essas reservas foram ignoradas durante o planeamento da operação. Recusar o uso das bases foi a única forma de as exprimir que ainda estava disponível depois de a guerra ter começado. Trump leu isto como traição. Os europeus leram como diferença legítima de avaliação estratégica sobre uma guerra em que não tinham sido consultados. Moscovo leu como oportunidade de exploração. A Rússia é o único ator para quem as três leituras são simultaneamente verdadeiras — e que se beneficia precisamente dessa simultaneidade. Os meses que se seguiram confirmaram o encadeamento. Com o preço do petróleo disparado pelo fechamento do estreito, a administração americana emitiu uma isenção temporária que suspendeu parcialmente as sanções ao petróleo russo para aliviar a pressão nos mercados energéticos ocidentais. As receitas russas de petróleo subiram de 9,7 mil milhões de dólares em fevereiro para 19 mil milhões em março. A atenção americana e os interceptores Patriot estavam no Golfo, e a Ucrânia continuava a receber, noite após noite, vagas de mísseis balísticos e drones Shahed — construídos com componentes russos, baseados em tecnologia iraniana, montados em fábricas que os dois países tinham desenvolvido em conjunto durante os anos em que o mundo estava a olhar para outro lado. Na madrugada de 15 de abril, a Rússia lançou sobre a Ucrânia três mísseis balísticos e trezentos e vinte e quatro drones de ataque, incluindo duzentos e cinquenta Shaheds. Na noite seguinte, dezanove mísseis balísticos, vinte e cinco mísseis de cruzeiro e seiscentos e cinquenta e nove drones. Morreram pelo menos dezassete pessoas. Foi um dos maiores ataques aéreos dos quatro anos de guerra. A base em Rammstein, a base em Aviano, a base em Mildenhall: continuavam lá. Serviam uma prioridade diferente. A palavra "aliança" cobre mais território do que qualquer tratado descreve — e parte desse território só se torna visível quando alguém precisa de o atravessar. Há um detalhe nas negociações de Islamabade que vale a pena registar com cuidado, porque é fácil de sobrecarregar de sentido. Mohammad Bagher Ghalibaf, que liderou a delegação iraniana nas vinte e uma horas de conversações que terminaram sem acordo, construiu parte da sua reputação pública como modernizador pragmático. Em 2008, quando era presidente da câmara de Teerão e frequentava o Fórum Económico Mundial em Davos, disse ao New York Times que o Irão não queria construir armas nucleares, que o diálogo com Washington era possível, e que a condição era simples: ser tratado como parceiro, não como réu. A entrevista foi publicada com o subtítulo de "authoritarian modernizer". Dezoito anos depois, o mesmo homem sentava-se do outro lado da mesa numa tentativa de pôr fim a uma guerra que começara com a morte do líder supremo do seu país em ataques aéreos guiados por informações americanas. O que Ghalibaf disse em Davos e o que disse em Islamabade não são posições contraditórias — são a mesma posição em contextos de poder radicalmente diferentes. Em 2008, o Irão precisava de ser ouvido e não tinha alavancagem suficiente para exigir que o ouvissem. Em 2026, o Irão controlava o corredor por onde fluía um quinto do petróleo mundial, e a delegação americana que veio a Islamabade incluía o vice-presidente J. D. Vance. A diferença entre ser tratado como parceiro e ser tratado como problema nunca esteve nas declarações de intenção de nenhuma das partes. Estava na presença ou ausência de alavancagem — e a alavancagem, neste caso, não vinha dos anos de resistência às sanções nem da retórica revolucionária. Vinha de trinta e três quilómetros de água e da decisão de os fechar. Suzanne Maloney, do Brookings Institution, disse-o de forma direta: os iranianos "acreditam que ganharam a guerra" e "ainda detêm o trunfo do controlo sobre o estreito." Enquanto isso for verdade — e continua a ser, com o estreito largamente fechado — não há incentivo estrutural para a capitulação que Trump descreveu publicamente como o modelo venezuelano. A Venezuela funcionou porque Maduro não tinha Ormuz. O Irão tem. #GuerraDoIrão #EstreitorDeOrmuz #BasesAmericanas #GeopolíticaDoGolfo
- O que significa celebrar o 25 de Abril hoje?
Ensaio Numa sala de reuniões de uma câmara municipal, as cadeiras já estão alinhadas antes de alguém chegar. A mesa espera. As bandeiras também. Há um programa impresso com horas, nomes, talvez uma palavra gasta sobre liberdade. Lá fora, noutro município, alguém testa o som para um concerto. Há cartazes, cabos pelo chão, gente que passa sem parar, uma criança que segura um cravo sem perceber bem o que transporta na mão. As duas cenas pertencem ao mesmo dia. Não precisam de se tocar. O que significa celebrar o 25 de Abril hoje? O 25 de Abril sempre foi muitas coisas ao mesmo tempo: memória, rutura, promessa, disputa. A data não mudou, nem o calendário, nem sequer o vocabulário que a acompanha. Mudou a forma como se habita aquilo que ela significa. E, mais devagar, a forma como se deixa de o habitar. Durante anos, a pergunta era saber se a democracia portuguesa sobreviveria ao seu próprio nascimento. A resposta foi-se acumulando em factos: eleições regulares, alternância, integração europeia, normalidade institucional, uma espécie de respiração administrativa que, por si só, já era muito para um país saído de ditadura, guerra colonial e isolamento. O regime consolidou-se. A pergunta perdeu urgência, talvez até tenha perdido público. Vieram outras, menos visíveis. Entre a festa pública e o protocolo institucional, a democracia portuguesa mostra sinais discretos de desgaste. Num país que já não precisa de provar que é democrático, o problema desloca-se. Não é a ausência de instituições. É a relação com elas. Não é a falta de liberdade formal. É a forma como essa liberdade circula no espaço comum: usada, ignorada, invocada, gasta, por vezes reduzida a palavra disponível para quase tudo. Um cravo permanece, mas já não ocupa o centro — entre a luz e a sombra, a liberdade torna-se presença discreta. A diferença entre uma celebração que se prolonga em cultura e outra que se fixa no protocolo não pertence apenas ao domínio da estética. Não é só questão de preferências políticas ou de estilos de governação local. Aponta para o modo como a democracia se transforma quando deixa de ser urgência e passa a ser dado adquirido: uma coisa que está ali, como a iluminação pública ou a calçada, reparada apenas quando falha. Há um momento em que a liberdade deixa de ser conquista e se torna cenário. Continua ali. Já não interrompe ninguém. Essa acomodação não costuma anunciar-se. Vem em mudanças de tom. Vem também na distância entre aquilo que se diz celebrar e aquilo que se pratica no dia seguinte, quando as cerimónias acabam, as cadeiras regressam ao armazém e o país volta à conversa habitual sobre suspeitas, irritações, culpas e pequenos ressentimentos que se oferecem como explicação de tudo. A linguagem altera-se primeiro. Certas palavras permanecem no lugar, mas perdem peso ou mudam de função. “Liberdade”, por exemplo, pode passar a designar coisas incompatíveis entre si — o direito de protestar e a vontade de humilhar, a autonomia cívica e o capricho agressivo, a crítica ao poder e o desprezo por qualquer limite comum. A ambiguidade, longe de ser resolvida, torna-se útil. Ao mesmo tempo, a desconfiança ganha terreno. Não a desconfiança crítica, que examina e distingue, mas uma suspeita difusa, que coloca tudo no mesmo plano. As instituições, os media, a justiça, a política: tudo passa a parecer igualmente contaminado. Não é recusa informada. É desgaste. E o desgaste tem uma vantagem sobre a rutura: não exige coragem, nem programa, nem rosto. Um discurso que antes seria recusado torna-se tolerável. Uma simplificação que antes pareceria grosseira passa a parecer eficaz. Uma exclusão que antes exigiria justificação começa a circular sem ela. A repetição faz o trabalho que a convicção ainda não conseguiria fazer. Depois de suficientemente repetida, a frase deixa de parecer violenta e começa a parecer apenas uma opinião entre outras. O país que saiu de uma ditadura construiu a sua democracia a partir de uma experiência concreta de limite. Sabia o que era não poder falar, não poder reunir, não poder escolher. Sabia também o que era medir palavras, desconfiar da parede, baixar a voz, conhecer alguém que tinha sido chamado, detido, vigiado, empurrado para fora da sua própria vida. Esse conhecimento não era doutrina. Era vida. O problema de uma democracia consolidada é diferente: a ausência dessa memória direta nas gerações seguintes. Não porque a História desapareça, mas porque deixa de ser experiência. Aprende-se uma data, talvez um slogan, talvez uma fotografia repetida nos manuais. Mais difícil é transmitir o peso daquilo que não se viveu: o ar parado de uma sociedade onde a prudência se confundia com sobrevivência. A transmissão não é automática. Entre o que aconteceu e o que se entende há sempre um intervalo. Pode ser preenchido por ensino, cultura, discussão pública, conflito honesto, contacto com testemunhos, leitura de documentos, prática cívica. Ou pode ficar vazio, entregue à pressa das redes, à simplificação partidária, à fadiga das famílias, à ideia cómoda de que a democracia é uma paisagem e não uma construção. Quando fica vazio, o passado não desaparece. Torna-se abstrato. E o abstrato protege menos. Ninguém arrisca grande coisa por uma abstração sem corpo. Arrisca-se por uma lembrança concreta, por uma injustiça reconhecida, por alguém a quem se deu nome, por uma ferida que ainda encontra linguagem. A diferença entre uma democracia que se defende e uma democracia que se presume começa aí. Na primeira, a liberdade é testada contra a realidade. Na segunda, é assumida como mobiliário da casa. Existe, ocupa espaço, parece sólida; mas ninguém pergunta quem a conserva, quem a limpa, quem a repara quando uma perna começa a ceder. Nada disto se traduz necessariamente em mudanças visíveis no funcionamento das instituições. O parlamento continua a reunir. Os tribunais continuam a decidir. Os jornais continuam a publicar. O calendário político mantém-se. A forma democrática pode resistir durante muito tempo ao empobrecimento da sua matéria. Mas a relação com esse conjunto altera-se. Uma democracia pode continuar a existir formalmente e perder densidade no modo como é vivida. Não há contradição nisso. Há desfasamento. As palavras permanecem; o uso que delas fazemos, esse, começa a mudar. O 25 de Abril não produz esse desfasamento. Expõe-no. Quando uma cidade celebra com intensidade cultural e outra cumpre com precisão institucional, não estamos apenas perante estilos diferentes. Estamos perante leituras diferentes do que ainda precisa de ser defendido. Numa, a memória é ativada como prática: sai à rua, procura público, mistura gerações, arrisca algum excesso. Noutra, é preservada como referência: fica ordenada, respeitosa, muitas vezes impecável, talvez demasiado segura de si. Nenhuma destas posições explica sozinha o estado da democracia. A coexistência das duas, quase sem atrito, diz alguma coisa sobre o momento. Diz que o consenso se deslocou. Não necessariamente contra Abril; talvez para longe dele, para uma zona onde a data é aceite, mas já não organiza o imaginário comum com a mesma força. Durante décadas, o 25 de Abril funcionou como ponto de convergência. Não eliminava divergências políticas, mas definia um terreno comum. Esse terreno ainda existe. Tornou-se menos evidente. A democracia já não tem apenas adversários exteriores ou nostálgicos declarados; tem também o cansaço dos que a herdam sem espanto e a usam sem gratidão, como se tivesse nascido com o mobiliário urbano. A disputa não é frontal. Não aparece como rejeição aberta da data ou do que ela representa. Passa por gestos mais discretos: a forma como se fala do passado, a forma como se redesenha o que conta como ameaça, a forma como se desloca a atenção de uma promessa coletiva para uma soma de irritações privadas. Quando a liberdade deixa de ser linguagem de emancipação e passa a ser apenas linguagem de licença, algo mudou no centro da conversa. Uma democracia não se esgota na sua origem. Mas a forma como trata essa origem denuncia alguma coisa do que se tornou. Portugal não é um caso isolado. Em várias democracias consolidadas, a relação com os seus momentos fundadores está a mudar. O problema não é apenas a perda de memória. É a conversão da memória numa coisa disponível, maleável, sem poder de orientação. Os acontecimentos permanecem nos arquivos; o seu sentido passa a circular mais leve, mais disputável, mais vulnerável a apropriações que dele retiram o incómodo. O 25 de Abril, visto a partir de Lisboa, não é só uma data nacional. É também peça de uma história mais larga: a de um país que foi centro de um império e que, ao perder esse lugar, teve de reaprender o tamanho da sua voz. Essa aprendizagem nunca ficou concluída. Nem poderia. Um país não se torna subitamente lúcido sobre si próprio por mudar de regime. Leva consigo hábitos antigos, fantasmas, hierarquias, nostalgias, formas de obediência que sobrevivem à queda das estátuas e ao fim das palavras oficiais. Há uma experiência acumulada — de poder, perda, adaptação, atraso, sobrevivência — que continua a informar a forma como se olha para o presente. Não como doutrina. Como fundo. Talvez por isso faça sentido desconfiar das narrativas demasiado triunfais, das certezas rápidas, da ideia de que a democracia é uma linha ascendente que só precisa de tempo para se aperfeiçoar. O olhar de Lisboa, quando não se deixa adormecer por si mesmo, pode ter essa utilidade: reparar no que se estraga devagar. Nas margens antes do centro. No tom antes da lei. Na piada antes da norma. Na impaciência antes da violência. Não como ameaça súbita. Como deslocação. No final do dia, as cadeiras são arrumadas. Os cabos de som são desligados. Os cravos começam a murchar. Alguém varre o chão perto da entrada da sala. Noutro lugar, desmonta-se o palco. A criança talvez já tenha largado a flor, ou a tenha levado para casa sem saber se deve pô-la num copo com água. A data passa. O que fica não é o programa nem o discurso. É a forma como, no dia seguinte, se continua — ou não — a habitar aquilo que se disse celebrar. #25DeAbril #Democracia #Liberdade #Memoria #Portugal #AtlanticLisbon #PensamentoCritico #Cultura #Historia #Politica #Sociedade #Reflexao #Europa
- Amar os livros não é o mesmo que ler. Os filhos sabem.
O corredor estreito da Livraria Bertrand da Rua Garrett, em Lisboa, obriga quem entra a andar de lado para deixar passar quem sai. É uma das mais antigas livrarias do mundo ainda em funcionamento — o facto consta das paredes, numa placa discreta — e em certas tardes de outubro fica cheia de gente que parece ali estar por razões completamente diferentes. Por que os filhos de pais leitores não lêem? Há quem compre. Há quem folheie durante vinte minutos e saia de mãos vazias. Há quem entre simplesmente para estar naquele cheiro. E há, cada vez mais, gente que tira fotografias às lombadas sem abrir um único volume. A livraria como cenário. O livro como adereço. Não é uma observação moralista. É um dado. Entre a reverência pelo livro e o hábito real de leitura há uma distância que as crianças aprendem a reconhecer muito cedo. Existe uma distinção que os estudos sobre hábitos de leitura raramente formulam com clareza suficiente: a diferença entre amar livros e ler. As duas coisas não são a mesma. É possível ter uma relação intensa, quase devota, com o objeto-livro — a sua textura, o seu peso, a promessa das suas páginas — sem ter uma prática de leitura consistente. E é possível, também, o inverso: ler com regularidade sem nenhum fetichismo particular pelo artefacto. A confusão entre as duas coisas tem consequências práticas, sobretudo quando se tenta perceber como é que os hábitos de leitura se formam — ou não se formam — numa criança. O argumento mais comum diz que o ambiente doméstico decide quase tudo. Que uma casa com livros produz leitores. Que pais que lêem têm filhos que lêem. Há investigação que apoia esta leitura, e ela não está errada. Mas está incompleta de uma forma específica que raramente se nomeia: o que se transmite, na maioria dos casos, não é o hábito de ler. É a posição social da leitura. A ideia de que livros são importantes. O gesto de os ter. A retórica da sua necessidade. Isso é muito diferente de transmitir o prazer concreto, físico, quase viciante, de acabar um capítulo às duas da manhã porque não se consegue largar o livro. Pense-se numa cena comum. Uma família de classe média urbana, escolarizada, com uma estante bem abastecida na sala. Os filhos crescem rodeados de livros. Ouvem, desde pequenos, que ler é fundamental. A escola reforça a mensagem. Os avós oferecem livros no Natal. Há uma biblioteca pública a dez minutos de casa que nunca foi visitada. Os pais, quando questionados, dizem que adoravam ler — usam o imperfeito com uma certa melancolia — mas que agora não têm tempo. O telemóvel está sempre à mão. A série está sempre a meio. O dia é sempre demasiado longo e demasiado curto ao mesmo tempo. A criança observa — não o que lhe dizem, mas o que fazem. A observação não pretende culpar ninguém. É apenas o que acontece. As crianças aprendem comportamentos muito mais do que aprendem declarações. E quando o comportamento observado é — os livros ficam na estante, o ecrã fica na mão — a mensagem recebida não tem nada a ver com a mensagem enviada. A criança percebe, com a crueldade analítica que é específica da infância, que os adultos à sua volta acreditam que ler é importante da mesma forma que acreditam que fazer exercício é importante: com convicção sincera e prática irregular. Existe uma ideia na economia comportamental — o nudge, a pequena empurra — que parte de uma observação banal: as pessoas não agem de acordo com as suas convicções. Agem de acordo com a fricção. Com o que é mais fácil, mais imediato, mais disponível no momento em que têm de escolher. Richard Thaler ganhou um Nobel por levar isso a sério. Aplicado à leitura, o argumento tem uma consequência incómoda: não basta valorizar os livros. É preciso que os livros sejam o objeto de menor resistência no ambiente. Que estejam espalhados, acessíveis, normais. Que não sejam reservados a um território especial — a estante da sala, o quarto de estudo, a lista de presentes de aniversário — mas que apareçam na mesa de jantar, no quarto de banho, na mochila do carro, na mesa de cabeceira com um marcador a meio. O livro como objeto de uso, não de reverência. A reverência é, possivelmente, um dos maiores obstáculos à leitura. Transforma o livro numa categoria moral. E ninguém quer passar o tempo livre a praticar uma atividade moral. A leitura competia, durante séculos, com um número relativamente pequeno de alternativas. A conversa. O trabalho manual. O passeio. A carta. O jogo de cartas. Em cada uma dessas alternativas havia fricção — o jogo de cartas exigia companhia, a conversa exigia energia social, a carta exigia papel e tinteiro e tempo de resposta. O livro, nesse contexto, era muitas vezes o caminho de menor resistência para quem quisesse estar sozinho e ocupado ao mesmo tempo. Esse contexto desapareceu. O telemóvel oferece o mesmo — solidão ocupada, estimulação imediata, possibilidade de pausa e retoma a qualquer momento — sem nenhuma das exigências do livro. Sem a necessidade de manter a atenção durante mais do que trinta segundos. Sem a obrigação de seguir um fio narrativo entre sessões. Sem o investimento inicial de entrar num mundo que ainda não se conhece. Não é que as crianças de hoje sejam menos capazes de ler do que as de gerações anteriores. É que o custo de oportunidade da leitura aumentou de forma dramática. E ninguém fala honestamente sobre isso porque implicaria admitir que o problema não está nas crianças. Está nos adultos que lhes criaram o ambiente. Existe uma geração — a que tem hoje entre trinta e cinco e cinquenta anos, grosso modo — que aprendeu a ler antes da internet e cresceu com a internet. Que tem uma relação com os livros formada num tempo em que eles eram o principal veículo de ficção e conhecimento disponível a baixo custo, e que vive agora num tempo em que essa função foi quase inteiramente substituída. Esta geração continua a comprar livros. Continua a ter estantes. Continua a recomendar títulos e a oferecer volumes e a falar de leitura com uma certa saudade de si própria. Mas a verdade é que lê menos. Muito menos, provavelmente, do que imagina. O resultado é uma espécie de dupla mensagem que as crianças recebem desde muito cedo: os livros são importantes — e os adultos que mais os valorizam são precisamente os que menos tempo passam a lê-los. A dissonância não passa despercebida. Uma criança de oito anos não tem vocabulário para a articular, mas tem antenas suficientemente finas para a detetar. E o que deteta não é hipocrisia — os adultos são genuínos na sua convicção — mas incoerência. A incoerência que existe entre o valor declarado e o uso real. A transmissão de um hábito funciona diferentemente da transmissão de um valor. Um valor pode ser ensinado, repetido, argumentado, reforçado por autoridade. Um hábito só se forma por modelagem — pela observação direta de alguém a fazer a coisa, com regularidade, como parte natural do quotidiano. Um pai que vai à missa todos os domingos transmite o hábito da missa muito mais eficazmente do que um pai que explica a importância da fé sem nunca entrar numa igreja. Um pai que cozinha transmite o prazer de cozinhar de forma que nenhuma conversa sobre gastronomia consegue replicar. A leitura não é diferente. A criança que vê o pai ou a mãe pegar num livro ao fim do dia, não como performance pedagógica mas como gesto natural de quem quer estar naquele lugar durante uma hora, recebe uma informação que nenhuma conversa sobre a importância da leitura consegue transmitir: que um adulto inteligente, ocupado, com muitas outras opções disponíveis, escolhe isto. Que isto é o que um adulto faz quando finalmente tem tempo para si. Essa informação vale mais do que qualquer lista de leituras recomendadas. Há um problema estrutural, contudo, que os argumentos sobre modelagem tendem a ignorar. A modelagem funciona quando o modelo é genuíno. Quando o adulto lê porque quer ler, não porque decidiu que vai ler na frente dos filhos para lhes dar bom exemplo. A segunda situação — o adulto que força o hábito como estratégia parental — é detetável com a mesma precisão com que a criança deteta todas as outras formas de performance adulta. O teatro da virtude é sempre transparente para quem o observa de fora. O que isto significa, na prática, é que a formação de leitores exige algo que nenhum guia parental consegue prescrever: que os pais gostem genuinamente de ler. Que a leitura seja, para eles, um prazer real e não um dever cultural. Que o livro que está na mesa de cabeceira esteja ali porque não conseguiram largar a história antes de adormecer, não porque decidiram que era importante ter um livro visível. E é aqui que o argumento fecha sobre si próprio de uma forma desconfortável: se a transmissão do hábito depende da autenticidade do modelo, e se a geração de pais atuais tem uma relação com a leitura marcada pela dissonância entre o valor declarado e a prática real, então o problema não se resolve com mais estantes nem com mais recomendações de títulos adequados à idade. Resolve-se — se é que se resolve — quando os adultos voltam a ler por prazer próprio, sem agenda pedagógica, sem propósito de exemplo. O que é uma conclusão estranha. Porque sugere que a melhor coisa que um pai pode fazer pela leitura dos filhos é, simplesmente, ler. Não para eles. Para si. Em outubro passado, a Bertrand da Rua Garrett estava, numa tarde de quinta-feira, surpreendentemente cheia. Havia uma sessão de autógrafos que tinha terminado há pouco, e as pessoas que tinham comprado o livro saíam com ele debaixo do braço, a maioria sem o ter aberto. No corredor estreito, uma rapariga de talvez dez anos estava sentada no chão, encostada a uma prateleira de bolso, a ler. Não estava à espera de ninguém. Não estava a ser observada — ou não sabia que estava. Tinha os joelhos dobrados, o livro pousado neles, e uma expressão de ausência completa do lugar onde se encontrava. Ninguém sabe o que a pôs ali. Se foi uma mãe que lia no sofá ou uma professora que lhe deu o livro certo na altura certa ou simplesmente o acidente de ter encontrado uma história que a entrou de forma que não conseguiu resistir. Essas coisas raramente se sabem. O que se sabe é o resultado: uma criança que escolheu, num lugar cheio de distrações, sentar-se no chão e desaparecer dentro de um livro. O que a fez chegar ali é a pergunta que fica. E é uma pergunta que, quanto mais se estuda o assunto, menos tem resposta certa.
- As Laranjas de Sevilha | Conto real
Helena serviu o vinho branco e sentou-se à mesa com um suspiro. Do outro lado, Sofia mexia no telemóvel, provavelmente a ver as fotografias outra vez. Miguel estava na cozinha a falar de futebol com o Rui, as vozes abafadas pela porta entreaberta. "Então, vocês também foram à tal casa do Pilatos?" perguntou Helena, enchendo o copo de Sofia sem esperar por uma resposta. As Laranjas de Sevilha | Conto real — Atlantic Lisbon "Fomos sim. O Rui ficou fascinado com aquilo." Sofia largou o telemóvel, mas continuou a olhar de lado para ele. "Não parava de tirar fotografias aos azulejos. Eu é que fiquei enjoada ao fim de meia hora." "Pois." Helena bebeu um gole. "Nós também fomos. O Miguel fez questão. Mas sabes o que é que ele realmente queria ver? As mulheres em flamenco no bar à noite." Sofia riu-se, mas o riso saiu forçado. "O Rui também. Disse que era cultura, mas eu bem vi onde é que ele tinha os olhos." As duas ficaram em silêncio por um momento. Lá fora, uma buzina. Helena alisou a toalha da mesa com a mão, com um gesto nervoso que fazia desde miúda. "Vocês ficaram em que hotel?" perguntou Sofia. "Ah, um na zona histórica. Pequenino. O Miguel queria ir para um daqueles novos, mas eu achei demasiado caro." "Nós ficámos num Airbnb em Triana." Sofia fez uma pausa. "O Rui é que escolheu. Disse que era mais autêntico." Helena revirou os olhos. "Autêntico. O Miguel também anda com essa mania desde que começou a ler blogues de viagem. Autêntico é ficar em casa e poupar dinheiro." "Pois é." Sofia pegou no copo mas não bebeu. "Mas pronto, gostaste da cidade?" "Gostei, gostei." Helena encolheu os ombros. "É bonita. As ruas todas estreitas, as flores. Mas é estranha, não é? Aquele calor todo em fevereiro. E depois há turistas por todo o lado. No primeiro dia fomos àquele restaurante... como é que se chamava? Tinha um tigre pintado na parede." "Casa del Tigre?" "Esse! Como é que sabes?" Sofia corou um pouco. "Também fomos lá. Estava no artigo que eu tinha guardado." "Ah." Helena ficou tensa. "O do WP?" "Sim, esse." "Nós também seguimos esse." A voz de Helena saiu mais seca do que pretendia. "O Miguel imprimiu e levou na mala." Sofia mexeu-se na cadeira. "Nós vimos em online. O Rui fez uma lista." As duas olharam para os copos. Do interior da cozinha vinha agora uma gargalhada do Miguel. "E aquele museu de gravuras antigas?" perguntou Helena ao fim de um bocado. "Foste?" "Fomos. Sinceramente, achei uma seca. O Rui é que gostou, ficou meia hora a conversar com o tipo da loja sobre mapas do século XVI." Sofia fez uma careta. "Eu fingi que estava interessada mas só queria era ir embora. Tenho a certeza de que ele queria comprar uma gravura de cem euros qualquer." "Compraram alguma coisa?" "Não. Eu disse que não tínhamos espaço na mala." Helena sorriu pela primeira vez. "Fizeste bem. O Miguel comprou um chapéu ridículo. Disse que era típico. Gastou noventa euros num chapéu que nunca mais vai usar." "O Rui comprou cerâmica." Sofia revirou os olhos. "Tivemos de pôr na mala de cabine porque tinha medo que partisse. Ficámos sem espaço para as garrafas de vinho." "Nós trouxemos três garrafas," disse Helena com um ar triunfante. "Envolvi em roupa suja e veio tudo na perfeição." Sofia concordou, mas o olhar dela tinha qualquer coisa de ressentido. "Vocês almoçaram naquele sítio do rio? Com os mariscos?" "María Trifulca?" "Sim." "Fomos. Caríssimo." Helena baixou a voz, como se estivesse a contar um segredo vergonhoso. "Gastámos cento e cinquenta euros a dois. O Miguel pediu atum não sei de quê, eu comi umas gambas. Estava bom, sim, mas pelo mesmo preço comíamos no Ramiro três vezes." "Pois. Nós também achámos caro." Sofia olhou para a porta da cozinha. "Mas o Rui disse que era a experiência, que não era só a comida." "A experiência." Helena repetiu a palavra como se fosse uma ofensa pessoal. "Sabes o que é que foi a minha experiência? Ver o Miguel a olhar para a miúda da mesa ao lado durante todo o almoço." Sofia ficou calada. "Desculpa." Helena encheu o copo outra vez. "Estou a ser má língua. Foi uma boa viagem. Gostei mesmo." "Eu também gostei." Sofia pegou no telemóvel, desbloqueou-o, bloqueou-o outra vez. "Só que... não sei. Às vezes tenho a sensação de que fizemos exatamente o mesmo que toda a gente faz. Vimos o que toda a gente vê. Comemos onde toda a gente come." "Porque é que isso é mau?" "Não é mau. É só... não sei. Chato." Helena olhou para ela com curiosidade. "Querias ter feito o quê?" "Não sei. Algo diferente. Ter-me perdido numa rua qualquer. Ter comido numa tasca de bairro onde só vão espanhóis. Ter conhecido alguém." Sofia parou, como se tivesse dito demais. "Conhecido alguém?" "Esquece. É uma estupidez." "Não, diz." Sofia suspirou. "É só que... às vezes acho que a minha vida é como essas viagens. Tudo programado. Tudo previsto. O Rui com as listas dele, eu com os artigos guardados. Vamos aos sítios certos, comemos as coisas certas, tiramos as fotografias certas para pôr no Instagram. Mas não acontece nada de verdade." Helena ficou calada, a rodar o copo entre os dedos. Lá fora, a noite tinha caído completamente. "Sabes o que é que eu gostei mais da viagem?" disse Helena ao fim de um bocado. "O quê?" "Havia uma mercearia em Triana. Não era nada de especial. Vendia enchidos e azeitonas e essas coisas. Entrei lá sozinha porque o Miguel estava numa outra loja qualquer a olhar para camisolas de futebol. Estava lá uma senhora velhinha atrás do balcão. Não falava inglês, eu não falo espanhol. Mas comprei umas azeitonas e ela pôs num saco de papel e sorriu-me. E eu sorri de volta. E foi só isso." Sofia olhou para ela. "Foi só isso," repetiu Helena. "Mas fiquei a pensar naquilo durante dias. Naquele momento. Naquele sorriso. Porque era verdadeiro, percebes? Não estava em nenhum artigo. Ninguém tirou uma fotografia." "Sim," disse Sofia baixinho. "Eu percebo." A porta da cozinha abriu-se e os homens entraram, trazendo o cheiro do assado. Miguel trazia uma travessa fumegante, o Rui os pratos. "Pronto, meninas," disse Miguel, "vamos comer que já é tarde." "Estávamos a falar de Sevilha," disse Helena. "Ah, Sevilha!" Miguel pousou a travessa no centro da mesa com um estrondo. "Que saudades. Temos de voltar." "Temos de voltar," repetiu o Rui, distribuindo os pratos. Sofia e Helena trocaram um olhar por cima da mesa. Depois Sofia serviu-se de salada e Helena cortou o pão e ninguém disse mais nada sobre Sevilha até ao final do jantar. Mas mais tarde, quando os homens estavam na sala a ver televisão, as duas ficaram na cozinha a lavar a loiça. Sofia lavava, Helena secava. "Sabes," disse Sofia sem levantar os olhos do lava-loiça, "às vezes acho que a melhor parte da viagem é depois." "Depois?" "Sim. Quando voltas para casa e te lembras das coisas. Quando te lembras de como te sentiste. Não da fotografia que tiraste, mas de como te sentiste quando a tiraste." Helena secou um prato devagar. "Eu lembro-me do cheiro." "Que cheiro?" "Das laranjeiras. Havia milhares delas. O Miguel disse que eram quarenta mil, tinha lido não sei onde. E cheiravam tanto. À noite, quando passeávamos depois do jantar, era quase demasiado. Enjoativo. Mas também bonito. Estranho." Sofia desligou a água e ficou com as mãos na pia. "Nós também reparámos nas laranjeiras." "Pois." Um silêncio confortável desceu sobre a cozinha. Da sala vinha o murmúrio da televisão. "Helena," disse Sofia passado um bocado, "achas que somos felizes?" A pergunta ficou suspensa no ar como o cheiro das laranjeiras de Sevilha, doce e enjoativo e estranho. Helena pensou na gravura que o Miguel quase comprou, no chapéu ridículo que ele comprou, no almoço caríssimo à beira do rio. Pensou na rapariga da mesa ao lado. Pensou na senhora velhinha da mercearia. Pensou no cheiro das laranjeiras. "Não sei," disse Helena por fim, e era a primeira vez em muito tempo que dizia uma coisa completamente verdadeira. "Acho que sim. Às vezes." Sofia acenou em concordância e fê-lo devagar. Depois voltou a abrir a torneira e continuou a lavar a loiça. E assim ficaram as duas, lado a lado, na cozinha amarela de Helena, a pensar em Sevilha e em quarenta mil laranjeiras e em todas as pequenas mentiras e verdades que fazem uma vida. #AtlanticLisbon #AsLaranjasDeSevilha #Conto #Ficcao #Literatura #ContoLiterario #Sevilha #Relacoes #Casamento #Memoria #Melancolia #VidaDomestica Subscrever a Newsletter
- Trump, Venezuela e o segundo disparo - Ensaio Militar Atlantic Lisbon
Eu estava a olhar para um mapa antigo — desses em que o mar parece sempre maior do que a terra — quando a frase chegou, vinda do século XXI com a brusquidão de um selo de borracha: uma ordem, alegadamente verbal, para “não deixar ninguém vivo” numa embarcação suspeita de tráfico. Trump, Venezuela e o segundo disparo - Ensaio Militar no Atlantic Lisbon Quando o Estado decide que a dúvida já não merece tribunal - Ensaio Militar no Atlantic Lisbon O mapa era uma reprodução barata, comprada numa loja de museu; a frase vinha do lado frio do mundo, onde a política se escreve em plataformas e a guerra, muitas vezes, se anuncia com meia dúzia de palavras. Ficou-me a imagem: nessa zona como margem, como página molhada onde se tenta escrever um novo direito, mais rápido do que o antigo, mais útil ao instinto do que à lei. Não sei como explicar isto sem recorrer a uma lembrança que me acompanha desde cedo: nos manuscritos medievais, quando se descrevia o “direito da espada”, havia sempre uma preocupação em dizer quem podia levantar a lâmina e em que condições. O poder precisava de um ritual para não parecer apenas violência. A modernidade prometeu substituir o ritual por regras. E, durante algum tempo, até acreditámos. Depois vieram as guerras sem declaração, as operações com nomes assépticos, as justificações fechadas em gavetas. E voltámos ao princípio, com melhores ecrãs. O caso — a sequência de acontecimentos que, nos últimos dias, tem circulado entre Washington, quartéis e salas onde juristas falam baixo — é simples e, por isso mesmo, devastador. Um barco, apontado como parte de uma rota de tráfico ligada à Venezuela, é localizado ao largo de Trinidad e Tobago. Há um ataque. A embarcação arde. No acompanhamento da operação, surgem dois homens agarrados ao que resta, como náufragos de uma história antiga. E, segundo o relato, há um segundo ataque para “fechar” a missão. O detalhe — esse detalhe que não é técnico, é moral — é que o segundo ataque não teria como alvo um motor, um leme, uma ameaça altiva, mas dois sobreviventes na água. A Casa Branca nega a versão mais grave. O Pentágono rejeita a narrativa como um todo e insiste que a operação — e as outras que se seguiram — é legal, conforme a lei interna e o direito internacional, validada por advogados civis e militares ao longo da cadeia de comando. A frase “validada por advogados” é o novo incenso: serve para perfumar atos que, sem esse fumo, cheirariam demasiado a queimado. Também se diz — e isto é parte do mesmo quadro — que os EUA estão em “conflito armado” com “narco-terroristas”. É aqui que o mapa antigo volta a entrar na minha cabeça: a maneira como a palavra “guerra” cresce, como hera, por cima de uma casa. Começa numa parede, depois sobe, tapa janelas, e um dia damos por nós a viver no escuro, convencidos de que é normal. O que é, afinal, um “narco-terrorista”? A palavra parece ter sido escolhida com cuidado, como se alguém a tivesse testado em voz alta até perceber que ela faz duas coisas ao mesmo tempo: aproxima o traficante do inimigo militar e afasta o cidadão do tribunal. “Terrorista” é um rótulo que, na mente pública, autoriza quase tudo; “narco” acrescenta o veneno doméstico da droga, a dor real de bairros e famílias. O resultado é uma criatura nova, de propaganda e de direito: não é apenas um criminoso, é um inimigo existencial. E, quando se cria um inimigo existencial, a lei passa a ser tratada como obstáculo. Ora, há duas formas de um Estado lidar com o crime no mar. A primeira é a forma difícil e civil: vigilância, interdição, abordagem, detenção, recolha de prova, acusação. A segunda é a forma fácil e fatal: eliminar. É tentador chamar “eficácia” àquilo que, na verdade, é um atalho. E os atalhos, como se sabe desde as histórias de estrada, raramente levam a bom destino. O que se descreve nesta campanha — uma sequência de ataques a embarcações suspeitas, com dezenas de mortos — é uma mudança de gramática. Não se fala de apreender. Fala-se de “retirar a ameaça”. Não se fala de deter. Fala-se de “neutralizar”. É um vocabulário que, por si só, já é um sinal: quando a linguagem é feita para evitar a palavra “morte”, é porque a morte está demasiado presente. Mas o que, para mim, divide as águas não é a primeira explosão. É a segunda. Porque o mundo, depois de demasiadas carnificinas, foi obrigado a aceitar um princípio que parece banal, mas não é: até na guerra há pessoas que deixam de poder ser atacadas. O direito dos conflitos armados — aquele conjunto de regras que muitos citam sem ler — foi pensado para conter o pior, não para o decorar com fórmulas. E aqui entra uma palavra que me lembra sempre os claustros e a disciplina: honra. A honra, na tradição antiga, era um código ambíguo, muitas vezes violento; mas tinha um limite que a modernidade herdou, de forma mais clara e mais humana: não se mata quem já não pode combater. Um homem ferido, um prisioneiro, um náufrago. Não se mata porque, se se mata, o Estado torna-se aquilo que diz combater. O argumento que, segundo relatos, terá sido invocado para justificar o segundo ataque é de uma frieza que parece saída de um gabinete: os sobreviventes poderiam, teoricamente, comunicar com outros e facilitar um resgate da carga. Repare-se na palavra “teoricamente”. A teoria, quando serve para matar, é a máscara mais perigosa. Com “teoricamente”, tudo se torna possível. Um homem na água, “teoricamente”, pode fazer isto e aquilo. “Teoricamente”, qualquer sobrevivente é uma ameaça futura. “Teoricamente”, a compaixão é uma falha de segurança. O problema é que as regras não foram escritas para o “teoricamente”. Foram escritas para o que está diante dos olhos: um corpo a tentar não afundar. Se este segundo ataque aconteceu como descrito, não estamos perante um excesso de zelo. Estamos perante uma decisão que rasga uma linha fundamental: a linha entre combate e execução. E quando falo em “execução”, não o faço para dramatizar. Faço-o porque é isso que a execução é: morte deliberada de alguém que já não está em condições de lutar, sem julgamento, sem captura, sem processo, com a única legitimidade de uma ordem. A execução não precisa de pelotão, nem de parede; basta um míssil e um ecrã. Há quem responda com o argumento mais antigo e mais compreensível: “A droga mata. Isto é guerra.” Sim, a droga mata, e mata sem piedade. Mas é precisamente por isso que o Estado tem de ser mais cuidadoso, não menos. Se a dor social se torna autorização para abandonar regras, então qualquer dor social servirá, amanhã, para abandonar outras. A democracia não é testada nos dias em que é fácil ser justa; é testada nos dias em que a raiva pede sangue. A América, aliás, conhece bem esta tentação. Presidentes de vários partidos, em momentos diferentes, expandiram o uso unilateral da força, contornaram autorizações, reconfiguraram palavras para fazer caber operações em molduras legais estreitas. Houve campanhas aéreas justificadas por urgências humanitárias, houve ataques “limitados” apresentados como excepção controlada, houve golpes cirúrgicos tratados como atos de responsabilidade global. Tudo isso abriu precedentes. Mas há uma diferença essencial entre atingir infraestruturas militares de um Estado em guerra ou numa intervenção, e escolher alvos humanos em embarcações de suspeitos criminais, usando a lei da guerra como chave mestra. O que está a ser tentado — e isto é o ponto mais inquietante — é transformar a perseguição penal num conflito armado por decreto conceptual. Uma designação administrativa (“terrorista”) passa a funcionar como transubstanciação: alguém deixa de ser suspeito de crime e passa a ser alvo militar. É uma alquimia perigosa. E qualquer jurista sério sabe que a palavra não cria, por si só, a realidade. Não é por chamar “ataque armado” ao tráfico que ele se torna um ataque armado no sentido em que o direito internacional reconhece. Não é por colar “terrorista” a uma rede criminosa que ela passa a estar automaticamente no mesmo plano de um grupo armado com controlo territorial e capacidade militar organizada. Chamar não é provar. E quando se começa a construir legalidade por chamamento, abre-se um mundo em que a lei é usada como decoração de atos já decididos. A parte política desta história é igualmente reveladora. Quando membros do Congresso, com passado militar e de inteligência, divulgaram uma mensagem pública lembrando aos militares que têm dever de recusar ordens ilegais, a resposta foi de intimidação. Chamou-se sedicioso ao gesto de recordar a regra básica que separa um exército de uma milícia: obedece-se ao que é legal; recusa-se o que é ilegal. Houve investigações anunciadas, ameaças implícitas de consequências graves, sinais de que o aparato do Estado poderia ser usado para punir a lembrança da lei. Isto, para mim, é tão grave como o episódio no mar. Porque mostra o ambiente em que certas ordens se tornam possíveis: um ambiente em que se procura ensinar, por medo, que questionar é traição. Quando a lei passa a ser tratada como insolência, a violência passa a ser tratada como virtude. Depois, surgiram promessas de supervisão e de escrutínio. Alguns republicanos disseram, com cautela, que se a história for verdadeira será ilegal; outros mostraram incredulidade, como quem tenta proteger a própria ideia de instituições. A incredulidade é humana, eu sei. Também me custa acreditar. Mas a incredulidade não é método. O método chama-se apurar. E apurar, neste caso, implica uma coisa que os governos detestam: transparência. Há ainda um elemento que paira como espada suspensa: existe registo visual da operação, e foi divulgada uma versão editada. O resto permanece oculto. Ninguém precisa de ser especialista para perceber o que isso significa. Se o vídeo completo mostrar claramente sobreviventes a serem mortos, os comunicados cairão como folhas secas. E o país chamado América será confrontado com a imagem que mais teme: não a de um inimigo a cometer atrocidades, mas a de si próprio a atravessar um limite. Há momentos — raros e decisivos — em que uma nação se recorda do que prometeu ser. Não acontece por discursos bonitos, nem por slogans patrióticos. Acontece quando a prova é demasiado evidente para ser absorvida pelo cinismo. Acontece quando a imagem quebra a narrativa. E, sim, há precedentes históricos de choques dessa natureza: episódios em que a violência, exposta, obrigou a sociedade a encarar a distância entre o ideal e o ato. O problema é que, depois do choque, há sempre uma tentativa de voltar ao normal, de tratar o caso como “excepção”. Só que a excepção, quando é tolerada, vira manual. O que me interessa, como "escritor" — e como alguém que desconfia tanto da vaidade como do desespero — é a pergunta que a história impõe ao leitor comum, não ao jurista nem ao militar: quando é que uma democracia decide que já não precisa de tribunal? Porque, no fundo, é disso que se trata. Se se aceita que o Estado mate suspeitos de crime em alto mar com base numa moldura de “guerra” criada por palavras, então aceita-se, implicitamente, que o processo é dispensável sempre que a urgência política o exigir. Hoje é nas Caraíbas; amanhã será outra margem. Hoje é um barco; amanhã será uma casa. Hoje são “narco-terroristas”; amanhã será outra etiqueta. A violência adora etiquetas. As etiquetas facilitam a distância. E a distância facilita o esquecimento. Volto ao mapa antigo: aquelas cartas navais eram desenhadas por homens que sabiam que o mar engole tudo, inclusive as certezas. Havia monstros desenhados nas margens, não porque acreditassem neles literalmente, mas porque queriam marcar o que não conheciam, o que não controlavam. Hoje, os monstros não são desenhados. São pronunciados. “Terrorista.” “Inimigo.” “Ameaça.” A palavra serve para ocupar o lugar da dúvida. E a dúvida é essencial numa democracia. A dúvida é uma forma de decência. Não estou a pedir indulgência para traficantes. Nem romantismo para cartéis. Estou a pedir que se compreenda o mecanismo: quando o Estado se habitua a matar sem prender, começa a perder o hábito de provar. E quando perde o hábito de provar, perde o hábito de ser justo. Há uma imagem que não me larga: dois homens na água, sem terra à vista. Não os conheço. Não sei o que fizeram. Podem ter transportado veneno. Podem ter mentido. Podem ter sido, como tantos na engrenagem do crime, peões descartáveis. Nada disso muda a pergunta central: estavam fora de combate? Se estavam, a linha é clara. E a clareza, aqui, é uma forma de revolução tranquila: dizer que há um “não” que nem a raiva pode revogar. Se o relato for falso, então é urgente desmontá-lo com factos, ponto por ponto, sem neblina institucional. A verdade não teme detalhes. Se for verdadeiro — mesmo em parte — então há um problema que não se resolve com demissões simbólicas nem com frases sobre “legalidade”. Resolve-se com investigação séria, responsabilização e, sobretudo, com a reposição de um princípio: o Estado não tem direito a transformar o mar em tribunal, nem o tribunal em mar. A diferença entre um país e um bando não está na capacidade de disparar. Está na capacidade de se impedir de disparar quando já não há combate. Se houver vídeo completo, ele virá. Talvez não amanhã, talvez não pela mão de quem governa. Mas a história tem uma mania: o que é gravado acaba por aparecer, nem que seja em pedaços. E quando aparecer, o público terá de decidir se prefere a mentira confortável — “foi preciso, foi guerra, foi inevitável” — ou a verdade difícil: que, algures, alguém escolheu um segundo disparo. E que esse segundo disparo, mais do que matar dois homens, feriu uma coisa maior e mais frágil: a ideia de que a lei não é adorno, é limite. O limite no mar #DireitoInternacional #UsoDaForça #GuerraSemGuerra #EstadoDeDireito #PoderELei
- Violência paterna: o que fica depois do medo
A mão do pai é maior do que o rosto do filho. Isso é um facto anatómico e é também a primeira coisa que o filho aprende sobre a diferença de tamanho entre os corpos — que essa diferença pode doer. O que faz a violência de um pai a uma criança de sete anos? Autor: João da Praça Tinha sete anos. Chamava-se, digamos, Tomás. Uma mão maior do que o rosto. O medo que fica quando a violência vem de quem devia proteger. Vivia num apartamento de três assoalhadas com o pai, a mãe e uma irmã mais nova. O pai trabalhava na construção, chegava a casa às seis e meia, lavava as mãos durante tempo suficiente para que o barulho da água servisse de aviso. Quando a água parava, todos ficavam muito quietos. Não havia nada de extraordinário no pai de Tomás. Era um homem de quarenta e dois anos com dores nas costas e dinheiro contado até ao fim do mês. Não bebia mais do que os vizinhos. Não tinha prontuário. Ia à missa no Natal. O que desencadeou aquela tarde de Outubro não importa — e é importante que não importe. O que se aprende da violência doméstica, quando se olha para ela com atenção, é que o desencadeador raramente tem escala proporcional ao que se segue. Um copo partido. Uma nota de escola. A demora a pôr a mesa. O filho que não ouviu à primeira. Tomás não tinha ouvido à primeira. O pai levantou-se da cadeira com uma lentidão que não era calma — era o tempo que levava a decidir. A mãe foi para a cozinha. A irmã ficou muito imóvel no sofá, o que é uma forma de desaparecer quando não se pode ir a lado nenhum. A bofetada foi única. Não foi uma surra — não houve cinto, não houve cena longa. Foi uma bofetada aberta na cabeça de uma criança de sete anos, com força suficiente para a desequilibrar. Tomás bateu com o cotovelo no ângulo da mesa e começou a chorar, não de dor emocional — de dor física, aquela que é involuntária e por isso mais humilhante, porque o corpo trai a tentativa de não mostrar nada. O pai disse: para de chorar. Essa instrução — parar de chorar depois de ter sido a causa do choro — é onde a violência não termina. É onde recomeça a violência. Há um equívoco persistente na forma como se fala de violência doméstica sobre crianças: fala-se de monstros. O monstro é útil porque resolve o problema da identificação — o monstro não sou eu, não é o meu vizinho, não é aquele homem perfeitamente normal que vi ontem no supermercado com um miúdo ao colo. O monstro existe algures fora do raio de visão moral do cidadão comum. Os números não confirmam essa topografia. Em Portugal, como em toda a Europa, a esmagadora maioria dos casos de violência sobre crianças é exercida por alguém dentro de casa — e dentro de casa, o pai biológico é o agressor mais frequente nas faixas mais jovens. Não o estranho. Não o perturbado clínico visível. O homem que conhece o nome completo da criança, que assinou o registo de nascimento, que tem sobre ela autoridade legal reconhecida pelo Estado. A violência doméstica sobre crianças é estruturalmente invisível não porque aconteça em sítios escondidos, mas porque acontece em sítios que a sociedade decidiu não olhar com atenção — o interior das famílias, o espaço protegido pelo princípio de não-intervenção na vida privada, o território onde se diz que cada um sabe o que é melhor para os seus filhos. O que Tomás aprendeu naquela tarde não foi que o pai era mau. Aprendeu algo mais complicado: que o pai podia ser mau. Que a fronteira entre a figura de autoridade e a ameaça física era uma fronteira que o pai podia atravessar sempre que quisesse — e que ninguém ia impedi-lo. A criança que foi batida uma vez sabe que pode ser batida outra vez. E passa a organizar o comportamento em função dessa possibilidade — não em função do que é certo ou errado, do que é seu ou do que gosta, mas em função do que provoca ou não provoca a travessia dessa fronteira. Chama-se a isso hipervigilância, nos manuais de psicologia do trauma. Nas casas onde acontece, chama-se crescer. Portugal tem uma relação particular com esta história. Durante décadas — e com cobertura ideológica explícita do Estado — o direito de correção paternal foi não apenas tolerado mas codificado numa visão de família em que a autoridade do pai era estruturalmente análoga à autoridade do Estado: inquestionável, benevolente por definição, e portanto imune à ideia de abuso. Quem corrige educa. Quem educa não pode abusar. Esse vocabulário sobreviveu ao Estado Novo. Sobreviveu à democracia. Ainda circula — com menos exposição, com linguagem atualizada — na ideia de que uma palmada a tempo não fez mal a ninguém, de que os miúdos de hoje não têm limites, de que os pais de antigamente eram mais duros e os filhos saíam melhores. Os filhos não saíam melhores. Saíam mais silenciosos. Às oito e meia dessa noite, o pai de Tomás sentou-se ao lado dele no sofá e perguntou-lhe se já estava bem. Tinha um tom diferente — não de arrependimento exatamente, mas de encerramento. A questão não era genuína: era o ritual de normalização que se segue, o gesto que permite que a noite continue, que o jantar seja comido, que a família sobreviva à sua própria violência e continue a ser reconhecível como família. Tomás disse que sim. Porque tinha sete anos e a única saída disponível era essa. A criança não pode não perdoar. Não tem acesso à categoria jurídica ou emocional da rutura, depende do agressor para comer, dormir, ir à escola — e aprende, portanto, a gerir a distância entre o que sente e o que mostra com uma precisão que nenhuma criança deveria ter de desenvolver. É essa precisão que os adultos sobreviventes de violência parental descrevem com mais frequência: não a dor das pancadas, mas o trabalho constante de calcular o estado de espírito do outro, de ler sinais antes de que se tornem ameaças, de habitar o próprio espaço doméstico como um território de risco que tem de ser navegado com cuidado. Há uma pergunta que não se faz suficientemente: o que é que o pai sabia? Sabia que tinha batido no filho. Sabia que o filho tinha chorado. Sabia que a mão aberta numa cabeça pequena desequilibra. Todas essas coisas eram conhecidas — e foram escolhidas, ainda que não deliberadamente no sentido de um plano, pelo menos no sentido de uma possibilidade não recusada. O argumento do descontrolo — perdi a cabeça, não sabia o que estava a fazer — é o argumento mais frequente e o menos sustentado pela evidência. A violência doméstica raramente é cega: tem alvos, tem limites, tem padrões de recorrência que pressupõem memória. O que se perde, no momento da violência, não é a consciência — é a inibição. E a inibição perdeu-se porque o custo de a perder era suportável. O filho tem sete anos. Não vai embora. Não chama a polícia. Não tem vocabulário para o que aconteceu. O cotovelo de Tomás ficou roxo durante uma semana. Ele disse à professora que tinha caído das escadas. Não mentiu por medo de consequências para o pai. Mentiu porque tinha aprendido — com uma eficiência que é uma das formas mais cruéis de inteligência infantil — que o mundo fora de casa não estava equipado para fazer algo útil com a verdade. Talvez estivesse errado. Provavelmente não estava. Rita Alarcão Júdice tem hoje a pasta que pode mudar isto — não sozinha, não de um dia para o outro, mas tem-na. Em 2025, Portugal registou 29.644 participações por violência doméstica, 27 mortos e 61,5% de inquéritos arquivados. Treze vírgula sete por cento resultaram em acusação. No mesmo ano, o apoio judiciário às vítimas caiu de 1,6 milhões para 916 mil euros — menos dinheiro para quem mais precisa de um advogado, no mesmo ano em que o Conselho da Europa identificou publicamente atitudes patriarcais em parte da magistratura portuguesa. O GREVIO e o RASI 2025, via Arcana News foram publicados no mesmo mês. Não dialogam entre si. Uma ministra que fala em tornar a justiça mais acessível e mais clara sabe, ou deve saber, que a criança que não tem vocabulário para o que lhe aconteceu também precisa de um sistema que não a obrigue a provar o que calou. O problema não é a falta de legislação. É a distância entre o que está escrito e o que chega a uma sala de aula em Outubro, quando uma professora olha para um cotovelo roxo e decide não perguntar. #Literatura #GREVIO #RASI #RitaAlarcãoJúdice #ViolênciaDoméstica #Portugal
- Violência doméstica em idosos: os 4.049 que o RASI não analisa
Apresentar uma queixa por violência doméstica quando se tem mais de sessenta e quatro anos é um gesto que o sistema não esperava de ti. Autor: Alberto Carvalho A esquadra foi construída para outro perfil de vítima. Os formulários também. A linguagem dos programas de apoio, a imagem nas campanhas, o rosto que aparece nos cartazes — tudo aponta para outro lugar. Chegaste até aqui na mesma, e isso já diz qualquer coisa sobre o que estava a acontecer em casa. Quantos idosos são vítimas de violência doméstica em Portugal? Em 2025, 4.049 pessoas com mais de 64 anos apresentaram queixa por violência doméstica em Portugal, mas o RASI não dedica a esse universo uma análise própria. Em 2025, quatro mil e quarenta e nove pessoas com mais de sessenta e quatro anos apresentaram queixa por violência doméstica em Portugal. O Relatório Anual de Segurança Interna regista o número numa linha, numa tabela, entre outros dados de caracterização. Não há secção própria. Não há análise. O número existe — e o relatório segue em frente. A violência doméstica sobre pessoas idosas tem uma geografia diferente da violência conjugal. Em mais de metade dos casos de violência doméstica registados no RASI, a relação entre denunciado e vítima é conjugal ou de coabitação. Mas quando a vítima tem mais de sessenta e quatro anos, o agressor é frequentemente um filho, um neto, um cuidador — alguém que entrou na casa não para fazer mal, ou pelo menos não era essa a narrativa, mas para ajudar. A inversão é total: a pessoa que devia proteger é a que ameaça. A casa que devia ser abrigo na última fase da vida é o sítio do perigo. Este padrão não é exclusivamente português. Mas Portugal tem condições específicas que o tornam mais opaco e mais persistente. O país tem uma das populações mais envelhecidas da Europa. Tem também uma tradição longa — anterior à democracia, mas que a democracia não desfez — de tratar o cuidado dos mais velhos como responsabilidade da família e não do Estado. Durante décadas, e ainda hoje em grande medida, o que acontecia dentro de casa entre gerações era assunto de família. A expressão não é metáfora. É doutrina. Há uma aritmética silenciosa por trás dos quatro mil e quarenta e nove. Para chegar à esquadra com mais de sessenta e quatro anos e formalizar uma queixa contra alguém da família, é preciso ter ultrapassado um conjunto de obstáculos que a idade e a dependência tornam maiores. A mobilidade pode estar reduzida. O acesso ao telefone pode estar controlado. A vergonha — de expor a família, de admitir que o filho ou a filha chegou a este ponto — pode ser paralisante. E há algo mais: a consciência de que, depois da queixa, a vida não fica necessariamente melhor. O agressor pode ser a única pessoa que trata das compras, dos medicamentos, do transporte ao médico. O sistema de queixa eletrónica — criado para baixar a barreira de acesso à denúncia — registou em 2025 apenas 349 participações de violência doméstica em todo o país. É difícil imaginar que muitas delas vieram de pessoas idosas. O canal pressupõe familiaridade com tecnologia, acesso a um dispositivo, privacidade para o usar. Três condições que a dependência pode eliminar de uma vez. Portugal criminalizou a violência doméstica como crime público em 2000. A alteração foi real e necessária — retirou à vítima o ónus exclusivo de manter o processo em curso. Mas o crime público pressupõe que alguém saiba que está a acontecer. A violência sobre pessoas idosas tem uma taxa de subparticipação que provavelmente excede a da violência conjugal: é menos visível para os vizinhos, menos reconhecida pelas próprias vítimas como violência, menos esperada pelas instituições que poderiam sinalizá-la. O médico de família que vê a pessoa de três em três meses. A enfermeira do centro de saúde. O funcionário da Segurança Social. São estes os pontos de contacto mais prováveis com alguém que está a ser maltratado em casa depois dos sessenta e quatro anos — não a esquadra, não o formulário, não a linha de apoio. O sistema de resposta à violência doméstica foi desenhado com uma porta de entrada que muitas destas vítimas não conseguem ou não sabem usar. O relatório do GREVIO, publicado em maio de 2025, identifica falhas estruturais no sistema judicial português — sanções desproporcionadas, atitudes patriarcais em parte da magistratura, demoras nos procedimentos de emergência. As recomendações são concretas e urgentes. Nenhuma delas é específica para vítimas idosas. Não é uma crítica ao GREVIO — o relatório tem um mandato definido e cumpre-o. É uma observação sobre o que fica fora do mandato: a violência que acontece não entre parceiros íntimos, mas entre gerações, no interior de uma relação de cuidado que se inverteu e que ninguém de fora vê bem. Visto de Lisboa, há uma camada adicional. Portugal construiu o seu modelo de envelhecimento sobre a família — não por opção ideológica explícita, mas por acumulação histórica de ausência de alternativa. O Estado Novo não tinha políticas sociais de envelhecimento dignas desse nome. A democracia herdou essa ausência e preencheu-a progressivamente, mas sem desfazer a premissa: a família cuida. Quando a família falha — quando o cuidado se transforma em controlo, em humilhação, em golpe —, o sistema não tem resposta pronta porque nunca esperou que a família falhasse desta forma. Os quatro mil e quarenta e nove que apresentaram queixa em 2025 são os que chegaram ao sistema apesar de tudo. O número que não chegou é desconhecido — e é provavelmente maior. O RASI de 2025 não tem uma secção sobre violência doméstica em pessoas idosas. Tem uma linha numa tabela de caracterização de vítimas, entre outras linhas, com outros grupos etários. O número está lá. O que não está é a pergunta que o número faz: quantos destes quatro mil casos resultaram em acusação, quantos foram arquivados, quantos tinham um agressor que era simultaneamente o único cuidador disponível, quantos voltaram para casa depois da queixa porque não havia para onde ir. O relatório do próximo ano terá provavelmente outra linha com outro número. Entre as duas linhas, a vida das pessoas continua — dentro da casa que já não é abrigo, com quem devia cuidar e não cuida. #ViolênciaDoméstica #JustiçaPortuguesa #RASI2025
- Violência doméstica em Portugal: 61% dos inquéritos arquivados em 2025
O ficheiro fecha com um clique. Ou com um carimbo. Ou com a frase que os juristas conhecem de cor e que os outros raramente lêem: não há indícios suficientes. O processo vai para o arquivo. A queixa existiu — está registada, tem número, tem data. O que não tem é consequência. Violência Doméstica em Portugal Por Alberto Carvalho Em 2025, fecharam 38.749 inquéritos por violência doméstica em Portugal. De entre eles, 23.836 foram arquivados. Não foram esquecidos, não foram perdidos, não foram desviados para nenhum limbo administrativo. Foram encerrados dentro do procedimento normal, com fundamentação jurídica, por magistrados que cumpriram a lei. Sessenta e um por cento. Quase dois em cada três inquéritos findos por violência doméstica em Portugal resultam em arquivo. Capa do Atlantic Lisbon para um artigo sobre o arquivamento de 61% dos inquéritos de violência doméstica em Portugal em 2025. Os restantes: 5.327 acusações deduzidas, 1.886 suspensões provisórias do processo, 7.700 encerrados por outros motivos. O Estado tem nome para cada uma destas categorias. Tem formulários. Tem prazos. Há um dado no Relatório Anual de Segurança Interna de 2025 que o próprio relatório apresenta como sinal positivo. A violência doméstica registou, no ano passado, uma "ligeira diminuição" de 1,9 por cento. Vinte e nove mil seiscentos e quarenta e quatro participações, menos quinhentas e setenta e sete do que em 2024. A frase existe no documento. A tendência existe nos gráficos. No mesmo ano, a violência doméstica contra menores subiu 8,6 por cento. Os homicídios cometidos em contexto de violência doméstica passaram de 23 para 27 vítimas. Vinte e uma eram mulheres. Duas eram crianças. A diminuição de 1,9 por cento pode ser simplesmente um sinal de que há menos fé no sistema. A mulher que não foi à esquadra porque já foi antes e não serviu de nada. O vizinho que ouviu e não ligou. O filho que aprendeu que aquilo é normal. O que não entra nas participações não desce em nenhum gráfico. Em maio de 2025, o governo aprovou a Portaria n.º 228/2025 para regular o novo Instrumento de Avaliação de Risco em Violência Doméstica — o RVD-R. Entrou em vigor a 1 de julho. É uma ferramenta que permite às forças de segurança avaliar o risco de reincidência quando atendem uma vítima: perguntas sobre a frequência dos episódios, sobre ameaças com armas, sobre filhos, sobre o grau de isolamento. O instrumento existe noutros países há décadas. Em Portugal, foi aprovado em 2025. No ano em que o RVD-R entrou em vigor, morreram quatro pessoas a mais do que no ano anterior em contexto de violência doméstica. O aparato existe e é visível. A GNR tinha, no final de 2025, 895 militares afetos ao projeto de investigação e apoio a vítimas específicas. A PSP dispunha de 428 efetivos dedicados à área da violência doméstica. Há dezoito estruturas especializadas de atendimento policial a vítimas distribuídas pelo país. Salas de atendimento à vítima em 75,8 por cento dos postos e esquadras. Programas para agressores que, em 2025, abrangeram pouco mais de quatro mil pessoas — num universo de quase trinta mil participações anuais. A vigilância eletrónica tem uma taxa de cumprimento de 97,4 por cento nas medidas associadas a violência doméstica. O agressor usa a pulseira. O sistema sabe onde ele está. Há uma memória mais longa do que qualquer portaria. Portugal criminalizou a violência doméstica conjugal como crime público em 2000. Não antes. Durante décadas, o que acontecia dentro de casa era assunto de família: a expressão não é metáfora, foi uma prática generalizada. O Estado Novo não inventou a violência doméstica, mas construiu as condições para a sua invisibilidade. A democracia chegou em 1974. A criminalização efetiva chegou vinte e seis anos depois. O que ficou é a memória institucional de não ver. Não a memória dos indivíduos: a dos procedimentos, dos critérios de arquivo, das culturas das esquadras. A crítica não é aos magistrados que aplicaram a lei. É a lei que foi construída de forma a tornar o arquivo o resultado mais provável. Visto de Lisboa — de um país que sabe o que é construir estruturas para gerir a aparência de uma resposta sem a resposta em si —, o problema não é de recursos nem de vontade declarada. É de arquitetura. Em 2024, o Ministério da Justiça pagou mais de 1,6 milhões de euros em apoio judiciário a advogados que acompanharam as vítimas de violência doméstica. Em 2025, esse valor caiu para 916 mil euros. O número de pagamentos passou de mais de seis mil para cerca de 3.400. No mesmo ano, o sistema de queixa eletrónica registou 349 participações de violência doméstica. Num país com quase trinta mil participações anuais totais, 349 chegaram por via eletrónica. Vinte e sete mortes num ano. Vinte e uma mulheres. Dois menores. Quatro homens. O RASI não tem fotografias. Tem tabelas, variações percentuais, setas a apontar para cima e para baixo. A seta da violência doméstica global aponta para baixo: menos 1,9 por cento. A seta dos homicídios em contexto de violência doméstica aponta para cima: mais quatro. O relatório apresenta as duas na mesma secção, com o mesmo peso gráfico, sem hierarquia moral entre elas. O próximo relatório terá as mesmas categorias, as mesmas taxas, a mesma frase sobre a ligeira diminuição — ou sobre o ligeiro aumento, consoante o ano. O ficheiro vai para o arquivo. O sistema fica aberto. Por que são arquivados dois em cada três inquéritos de violência doméstica em Portugal? #ViolênciaDoméstica #JustiçaPortuguesa #RASI2025











