Amadeo e Variações: era preciso escolher entre Portugal e o mundo?
Atualizado: há 11 horas
Amadeo trabalhou com imagens de Manhufe depois de viver em Paris. Variações dedicou o primeiro álbum a Amália, trazendo consigo experiências de Londres e Amesterdão. Dois percursos que permitem olhar para o que os artistas portugueses fizeram com aquilo que conheceram fora do país.
António Variações dedicou Anjo da Guarda a Amália Rodrigues em 1983. Trabalhava com músicos de pop e rock, interessava-se pelos sons que chegavam de fora e cantava temas ligados ao fado e à música popular portuguesa. Amália tinha lugar nesse primeiro disco, como tinha na música que ele ouvia.

Variações saíra de Fiscal, no concelho de Amares, e passara por Lisboa, Londres e Amesterdão. Conhecera outras maneiras de vestir, de cantar e de estar em palco. Continuava a trabalhar como barbeiro no salão P’ro Menino e P’rá Menina, em Lisboa, enquanto esperava pela estreia discográfica. Tinha assinado um contrato com uma editora anos antes.
Quando apareceu na televisão, em 1981, a roupa, a barba e a maneira de ocupar o palco chamaram a atenção antes de muita gente conhecer as canções. A música foi sendo ouvida através daquela figura. Quem o conhecia do salão já tinha visto parte da apresentação que chegava agora a um público maior.
Nas pinturas de Amadeo de Souza-Cardoso entram instrumentos musicais, interiores de casas, motivos rurais e letras semelhantes às dos anúncios. Conhecia esses objetos e imagens de Manhufe. Em Paris, convivera com artistas que experimentavam outras maneiras de organizar a pintura. Uma palavra podia surgir na tela onde se esperava uma figura; uma forma interrompia outra.
Em 1913, Amadeo de Souza-Cardoso enviou oito obras ao Armory Show, nos Estados Unidos, e vendeu sete. Entre elas estava Avant la Corrida, que já mostrara em Paris. Em 1916, apresentou 114 pinturas no Porto e em Lisboa, sob o título Abstraccionismo. Parte da imprensa portuguesa respondeu com troças e ataques. Houve jornais que trataram o que viram como sinal de loucura.
As pinturas expostas em Portugal incluíam trabalho posterior ao que os compradores americanos tinham conhecido. Amadeo continuara a pintar durante os três anos que separavam as exposições. A guerra impedira-o de regressar a Paris em 1914. Aproximara-se de Sonia e Robert Delaunay, também em Portugal por causa da guerra, e participara em projetos de exposições internacionais que ficaram por realizar.
As sete vendas nos Estados Unidos e a hostilidade de alguns jornais portugueses pertencem, portanto, a momentos diferentes do seu trabalho. Não permitem comparar a reação de dois países às mesmas telas. Em Lisboa, Almada Negreiros conheceu Amadeo e defendeu-o num manifesto. Fernando Pessoa também se pronunciou a seu favor. A exposição dava aos visitantes a possibilidade de ver as pinturas que tinham provocado a discussão.
António Variações usava as sessões fotográficas com Teresa Couto Pinto para experimentar roupa e preparar o que levaria aos concertos. Vestia, via as imagens, alterava as escolhas. A apresentação em palco exigia esse trabalho repetido. Entretanto, fazia canções, dava espetáculos e atendia no salão.
O primeiro álbum chegou em 1983, depois da televisão e de uma espera prolongada pela gravação. O público pôde então comprar um conjunto de canções de alguém que já vinha a procurar maneiras de aparecer e de ser ouvido. A dedicação a Amália fazia parte desse disco. Para a compreender, interessa escutar como as referências convivem nas canções, sobretudo quando a aparência do cantor parece sugerir uma classificação imediata.
Um pintor apresenta telas numa exposição; um cantor chega através de gravações, espetáculos e televisão. A roupa de Variações acompanhava a voz diante do público. Amadeo encontrava leitores de jornais que podiam conhecer os ataques à exposição antes de verem um quadro. Em ambos os casos, havia uma apresentação pública capaz de condicionar o primeiro contacto com o trabalho.
A palavra «português» situa os dois artistas, mas deixa muita coisa por esclarecer. Nos quadros de Amadeo, um objeto conhecido da vida rural podia aparecer numa composição que tornava difícil reconhecê-lo de imediato. Em Variações, a proximidade a Amália coexistia com músicos e sonoridades de outros géneros. É nesses encontros que se pode procurar o que cada um fez com as suas referências.
Paris teve importância na formação de Amadeo. Londres e Amesterdão fizeram parte da experiência de Variações. Saber que estiveram nessas cidades não explica, por si só, as decisões tomadas numa pintura ou numa canção. É preciso voltar às obras, reconhecer os materiais e observar o uso que lhes deram. A experiência fora do país não os tornou menos próximos daquilo que conheciam de Portugal; deu-lhes mais elementos com que trabalhar.
Amadeo continuou a experimentar depois das vendas no Armory Show. Variações deixou em cassetes canções que outros artistas viriam a interpretar. Nas pinturas posteriores a 1913 e nessas gravações, há trabalho que excede os momentos pelos quais os dois são mais facilmente lembrados. O que tinham conhecido em Manhufe, em Fiscal ou fora de Portugal continuava disponível para novas escolhas.
Composto em outubro de 2026
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