António Variações nunca deixou de ser barbeiro
Atualizado: há 18 minutos
No salão «P’ro Menino e P’rá Menina», em Lisboa, António Variações cortava cabelo e experimentava a sua própria aparência. Continuou a trabalhar ali enquanto esperava pelo primeiro disco. Para muitos clientes, o barbeiro de roupa invulgar só mais tarde se tornou o homem que viam na televisão. Ele já andava a fazer canções.
António Variações não escolheu entre Braga e Nova Iorque
Quando apareceu na televisão, em 1981, a barba, a roupa e a maneira de ocupar o palco chamaram a atenção antes de muita gente conhecer a música.
António Variações não as deixava em casa quando ia cantar. Também não precisava de as explicar para que a voz se fizesse ouvir.
António Joaquim Rodrigues Ribeiro tinha saído de Fiscal, no concelho de Amares, e passado por Lisboa, Londres e Amesterdão. A música que fazia trazia consigo coisas aprendidas em lugares diferentes. Podia ouvir Amália Rodrigues e interessar-se pelo som que chegava de fora. Quando as referências se encontravam numa canção, nenhuma parecia ali posta para provar que ele era moderno ou português.
Dedicou Anjo da Guarda, editado em 1983, a Amália Rodrigues. A dedicação não assinalava uma dívida a pagar antes de seguir em frente. António Variações queria aquela voz perto da sua música. Cantava temas ligados ao fado e à música popular portuguesa, trabalhava com músicos do pop e do rock e não tratava essas escolhas como campos opostos.
Tinha assinado um contrato com uma editora anos antes da estreia discográfica. Nesse intervalo, continuou no salão. As canções, a televisão, os espetáculos e o trabalho diário não cabem bem na ideia de uma carreira que começou quando saiu o álbum. Quando o público pôde comprar Anjo da Guarda, António Variações já tinha passado bastante tempo a procurar a forma de aparecer e de ser ouvido.
Nas fotografias feitas com Teresa Couto Pinto vê-se parte dessa procura. A fotógrafa e agente recorda que algumas sessões serviam também para escolher a roupa para os concertos. António Variações vestia, olhava para as imagens, mudava. O que levava ao palco resultava de decisões repetidas, não de uma extravagância ocasional.
As fotografias mostram esse cuidado; dizem menos sobre a vida privada que tantas vezes se pretende ler nelas. António Variações apresentava-se como queria, numa Lisboa onde a sua maneira de vestir e de se mover atraía olhares. A atenção que despertava não dá a ninguém acesso ao que ele não contou.
Em Estou Além, O Corpo É Que Paga e Canção de Engate há desejo, impaciência, prazer, solidão. São canções que se prestam a interpretações diferentes conforme quem as canta ou escuta. Reduzi-las a pistas para decifrar o cantor empobrece aquilo que se ouve nelas.
Durante a preparação de Dar & Receber, em 1984, António Variações adoeceu. O álbum saiu por insistência sua quando estava hospitalizado. Morreu nesse ano, aos 39 anos, com uma pneumonia grave. A associação da doença a uma infeção por VIH tornou-se amplamente difundida, mas os familiares contestam que exista prova médica pública para a confirmar. Os testemunhos conhecidos não eliminam a divergência.
Teresa Couto Pinto viria a lamentar que se falasse tanto da morte de António Variações e tão pouco da pessoa com quem trabalhara. Recorda as fotografias, a roupa, a barbearia e a atenção que ele dava aos amigos. São lembranças de alguém que o acompanhou, com detalhes que desaparecem facilmente quando toda a curiosidade se concentra num diagnóstico.
A música gravada em vida ocupa apenas alguns anos. António Variações deixou, porém, canções em cassetes às quais outros artistas voltaram. Ouvem-se nessas interpretações possibilidades que ele não chegou a gravar em disco. Também se percebe quanto havia de trabalho por detrás de uma figura que tantas vezes foi tratada como se tivesse surgido pronta diante das câmaras.
No salão, António Variações via uma imagem tomar forma diante de um espelho e podia alterá-la até ficar satisfeito. Nas canções, fazia algo parecido com os sons que conhecia: experimentava, escutava e voltava a tentar.







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