top of page

Egas Moniz: o homem para lá do Nobel e da lobotomia

27 de set.
4 min de leitura

Atualizado: 2 de out.

Em 1949, António Egas Moniz recebeu o Nobel da Medicina por uma operação ao cérebro que hoje provoca horror. A angiografia cerebral, a outra grande descoberta de Egas Moniz, continuou a desenvolver-se e a servir os médicos. A leucotomia perdeu o lugar que tivera no tratamento das doenças mentais. O prémio ficou.


É difícil olhar para esta história sem começar pelo fim. Já sabemos o que a lobotomia viria a significar para muitos doentes. Conhecemos a variante praticada nos Estados Unidos por Walter Freeman, através da órbita ocular, e as pessoas cuja capacidade de pensar, sentir ou decidir ficou profundamente alterada. Para perceber Egas Moniz, porém, é preciso voltar ao consultório e ao hospital antes de esse futuro estar escrito.


Ilustração gráfica discreta de vasos cerebrais em dourado, acompanhada pelo título do artigo e pelo nome Atlantic Lisbon.
Uma rede de linhas evoca os vasos cerebrais que Egas Moniz ajudou a tornar visíveis através da angiografia.

Nos anos 1930, um médico podia receber uma pessoa em sofrimento psiquiátrico grave e ter muito pouco para lhe oferecer. Havia internamentos prolongados, sintomas que resistiam aos tratamentos disponíveis e famílias que procuravam uma saída. Egas Moniz propôs intervir nas ligações dos lobos frontais, convencido de que algumas perturbações podiam ser aliviadas dessa forma. Pedro Almeida Lima executou as primeiras operações sob a sua direção, em Lisboa. A ideia parece brutal vista de hoje. Na altura, também representava a possibilidade de tratar pessoas para quem a medicina não encontrava resposta.


Não há razão para negar essa intenção, nem para a tomar como prova de que a operação fazia bem. Os primeiros resultados apresentados por Egas Moniz abrangiam vinte doentes. Segundo a avaliação que publicou, sete tinham melhorado muito, sete tinham melhorado parcialmente e seis não tinham melhorado. O acompanhamento era curto. Faltavam meios para separar o alívio da doença de outros efeitos que a cirurgia pudesse ter na personalidade e nas capacidades dos doentes. Egas Moniz acreditou ter encontrado um tratamento; aquilo que observou não permitia ainda conhecer plenamente o seu custo.


A confiança de Egas Moniz tinha uma história. Anos antes, com Pedro Almeida Lima, conseguira tornar visíveis as artérias do cérebro numa radiografia. Até aí, os médicos procuravam muitas lesões dentro do crânio a partir de sinais indiretos. A angiografia cerebral deu-lhes imagens para examinar. Foi uma descoberta difícil, obtida com risco para os primeiros doentes, que abriu caminho a uma parte essencial da medicina do cérebro.


Retrato de Egas Moniz, jovem, com as insígnias de doutoramento da Universidade de Coimbra.
António Egas Moniz, por volta de 1901, com as insígnias de doutoramento da Universidade de Coimbra. Retrato em domínio público (via Wikimedia Commons).

O homem que propôs a leucotomia era o mesmo que tinha conseguido isto. Não aparece na história como um médico incapaz de distinguir investigação de fantasia. Egas Moniz formulava hipóteses, procurava maneiras de as testar e aceitava riscos para chegar onde os instrumentos existentes não chegavam. Na angiografia, esse impulso produziu uma técnica que outros médicos podiam usar e aperfeiçoar. Na leucotomia, encontrou um problema muito mais difícil: depois de alterar o cérebro de uma pessoa, como saber se a vida dessa pessoa tinha melhorado?


A pergunta parece simples até se tentar responder. Se um doente deixasse de estar atormentado, havia um benefício possível. Se deixasse também de mostrar interesse, iniciativa ou afeto, que peso teriam essas perdas? E quem estava em condições de as reconhecer? O médico via o comportamento durante a consulta. A instituição via o quotidiano de uma enfermaria. O próprio doente teria de viver com a mudança. Nenhum desses olhares podia, sozinho, dar a resposta completa.


A leucotomia difundiu-se para lá de Portugal. Walter Freeman acabaria por desenvolver nos Estados Unidos uma técnica transorbital, diferente da praticada por Pedro Almeida Lima. Misturar as duas operações torna Egas Moniz responsável por decisões que não tomou. Separá-las não apaga o papel que teve na origem e na aceitação da ideia de tratar a doença mental através de lesões cerebrais. É nessa medida, precisa e suficiente, que o seu nome pertence à história da lobotomia.


O Nobel reconheceu o que, em 1949, o comité considerava uma descoberta terapêutica. Não foi uma recompensa absurda concedida a alguém cuja proposta ninguém levava a sério. Também não foi uma garantia de que a medicina soubesse tudo o que precisava de saber sobre a operação. Um prémio pode ser compreensível no tempo em que é atribuído e, décadas depois, tornar visível quanto esse tempo desconhecia.


Retrato fotográfico de Egas Moniz já mais velho, de fato e gravata.
Egas Moniz, em fotografia anterior a 1955, divulgada como Nobel da Medicina de 1949. Fotografia em domínio público, segundo o Wikimedia Commons; origem: arquivo da Fundação Nobel.

Entretanto, Egas Moniz continuava a trabalhar. A 14 de março de 1939, um antigo doente disparou sobre ele no consultório da Rua do Alecrim, em Lisboa. Egas Moniz sobreviveu aos ferimentos graves. O atentado não oferece uma explicação para a leucotomia e seria injusto usá-lo como se representasse a resposta dos doentes à cirurgia. Pertence à vida de um médico que, depois de ser baleado, prosseguiu a atividade científica e pública. Em 1954, ainda apresentava uma comunicação com um título que reconhecia a discussão em curso: «A leucotomia está em causa».


Está também em causa a facilidade com que julgamos o passado a partir do que aprendemos depois dele. Se os médicos dos anos 1930 tivessem à disposição os conhecimentos, os tratamentos e as exigências de avaliação atuais, teriam feito outras escolhas. Não os tinham. Daqui a cem anos, parte do que hoje consideramos uma boa decisão clínica poderá causar a mesma perplexidade. Isso não impede de estudar os danos da leucotomia. Obriga a fazê-lo sem fingir que, no momento da decisão, todos conheciam o desfecho.


Egas Moniz merece atenção precisamente porque não cabe numa absolvição nem numa condenação sumária. A angiografia mostra a capacidade de abrir um caminho que a medicina ainda percorre. A leucotomia mostra o que podia acontecer quando a vontade de tratar avançava mais depressa do que o conhecimento dos efeitos do tratamento. Em ambos os casos, Egas Moniz enfrentou limites reais da medicina do seu tempo. Num deles, encontrou uma forma de ver melhor. No outro, agiu sobre algo que ainda não conseguia ver completamente.


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page