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Humberto Delgado obrigou o regime a mudar as regras

27 de set.
3 min de leitura

Atualizado: 2 de out.

Em 1959, o Estado Novo retirou aos portugueses a escolha direta do Presidente da República. A decisão passou para um colégio eleitoral restrito. Humberto Delgado perdera as eleições do ano anterior, segundo os resultados oficiais. Ainda assim, o regime alterou a Constituição depois de enfrentar a sua candidatura.


Humberto Delgado estivera nas trincheiras do golpe militar de 1926. No ano seguinte, defendeu a ordem que dele saíra. Exerceu funções na Mocidade Portuguesa e na Legião Portuguesa, fez carreira na Aeronáutica e representou Portugal no estrangeiro. Em 1958, aceitou concorrer à Presidência contra Américo Tomás. Não podia pedir aos eleitores que esquecessem o seu passado: os jornais apresentavam a carreira militar e os cargos públicos como credenciais do candidato.


Boletim de voto desenhado sobre fundo claro, com uma marca vermelha, o título sobre Humberto Delgado e o nome Atlantic Lisbon.
A candidatura de Humberto Delgado em 1958 está representada nesta capa por um boletim de voto ilustrado.

Tinha patente de general, distinções e experiência nas instituições do Estado. O seu nome estava ligado à criação dos Transportes Aéreos Portugueses. Representara Portugal no Canadá e exercera funções militares em Washington, relacionadas com a NATO. Para parte da oposição, esse percurso tornava-o um candidato capaz de chegar a portugueses que nunca tinham acompanhado os seus movimentos. Outros tinham motivos para desconfiar dele.










No Café Chave d’Ouro, perguntaram a Humberto Delgado o que faria a António de Oliveira Salazar se fosse eleito. Respondeu que o demitiria. O Presidente da República tinha esse poder na Constituição. Humberto Delgado disse que tencionava exercê-lo, perante jornalistas que levariam a resposta para fora daquela sala.


Fotografia a preto e branco de tropas e de uma multidão num desfile militar em Lisboa, em 1926.
Gomes da Costa e as suas tropas desfilam em Lisboa, em 1926, depois do golpe militar de 28 de Maio. Humberto Delgado apoiou o golpe. Fotografia de autor desconhecido, em domínio público (via Wikimedia Commons).

Não é possível apontar um momento único em que Humberto Delgado deixou de apoiar o Estado Novo. Durante a Segunda Guerra Mundial, participara em contactos relacionados com a utilização dos Açores pelos Aliados. Depois trabalhou na aviação civil e passou anos no estrangeiro. Esses contactos ajudam a conhecer o seu percurso; não demonstram, por si, quando mudou de posição. A decisão de 1958 já não deixa dúvidas sobre o que se dispunha a fazer.


Arlindo Vicente, apoiado pelo Partido Comunista Português, retirou a sua candidatura. Humberto Delgado tornou-se o candidato em quem se concentraram forças oposicionistas com histórias e objetivos diferentes. A campanha exigia essa aproximação entre pessoas que nem sequer concordavam sobre a melhor forma de enfrentar o regime.


No Porto, milhares saíram à rua para receber o general. O Estado Novo proibiu os jornais de publicar fotografias da manifestação. Houve confrontos com a polícia, também quando Humberto Delgado regressou a Lisboa, junto à estação de Santa Apolónia.


Fachada da estação ferroviária de Santa Apolónia, em Lisboa, numa fotografia de 2008.
A estação de Santa Apolónia, em Lisboa, numa fotografia de 2008. Em 1958, houve confrontos com a polícia junto à estação quando Humberto Delgado regressou a Lisboa. Fotografia: Maradentro, em domínio público (via Wikimedia Commons).

Os resultados oficiais deram a vitória a Américo Tomás. A oposição denunciou intimidações, impedimentos à fiscalização e falsificação dos resultados. Não há uma contagem independente que permita dizer quantos votos teria Humberto Delgado noutras condições. Sabe-se o que o Estado Novo fez depois: mudou a forma de eleger o Presidente antes de voltar a realizar eleições para o cargo.


Afastado do serviço ativo, Humberto Delgado refugiou-se na Embaixada do Brasil e seguiu para o exílio. Procurou coordenar opositores dentro e fora de Portugal. As divergências que a campanha conseguira suspender reapareceram. Havia desacordos sobre a direção dos movimentos e sobre os meios a usar contra a ditadura. Humberto Delgado continuou a procurar uma intervenção direta em Portugal.


Arajaryr Campos começou a trabalhar com ele depois da eleição. Tratou da correspondência e contactos, acompanhou deslocações e participou nas dificuldades do exílio. Após o fracasso da Revolta de Beja, atravessaram Portugal em fuga. Arajaryr Campos voltou a acompanhá-lo em fevereiro de 1965, quando partiram para a região de Badajoz à espera de um encontro com opositores militares portugueses.


A reunião era uma cilada da PIDE. Humberto Delgado e Arajaryr Campos foram assassinados em território espanhol. Sobre a forma como morreu o general, subsistem versões divergentes: o tribunal militar concluiu que foi atingido a tiro; Frederico Delgado Rosa, seu neto e biógrafo, contesta essa conclusão com base na autópsia espanhola e defende que morreu devido a golpes na cabeça.


Humberto Delgado conhecia os homens, os cargos e as regras do Estado Novo. Tinha servido o regime antes de pedir aos portugueses autorização para afastar António de Oliveira Salazar. Perdeu a eleição oficialmente. Um ano depois, já nenhum candidato podia voltar a fazer aos eleitores a mesma proposta nas mesmas condições.


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